segunda-feira, 15 de abril de 2024

BUDISMO BÁSICO - Parte I

 

Budismo. Livro A Vida de Compaixão. Por Tenzin Gyatso (1935 - ) O Dalai Lama. BUDISMO BÁSICO – Parte I. Apesar de Acreditar que a compaixão e a afeição humanas sejam valores universais que transcendem as fronteiras da diferença religiosa, o significado da compaixão dentro do budismo está baseado em uma visão de mundo específica, com objetivos e métodos. Essa visão de mundo não expõe apenas o que expliquei anteriormente a respeito dos benefícios da compaixão e dos métodos para desenvolvê-la. Mas também mostra como o desenvolvimento da compaixão é parte integrante do entendimento budista da realidade e do caminho para a iluminação. Assim, pode ser útil fornecer algumas explicações sobre a filosofia budista. As Quatro Nobres Verdades e a Causalidade. Os ensinamentos fundamentais do Buda se baseiam nas quatro nobres verdades. Elas são a base do ensinamento budista. São a verdade do sofrimento, sua origem, a possibilidade da cessação do sofrimento e o caminho que leva a essa cessação. Os ensinamentos das quatro nobres verdades baseiam-se na experiência humana, no centro da qual está a aspiração natural para buscar a felicidade e evitar o sofrimento. A felicidade que desejamos e o sofrimento que afastamos não são aleatórios, mas ocorrem devido a determinadas causas e condições. Entender esse mecanismo causal do sofrimento e da felicidade é o objetivo das quatro nobres verdades. De modo a entender o mecanismo causal por trás de nosso sofrimento e de nossa felicidade, devemos analisar a causalidade com cuidado. Por exemplo, você pode pensar que suas experiências de dor e sofrimento e felicidade ocorrem sem razão – em outras palavras, que não tem causa. Os ensinamentos budistas dizem que isso não é possível. Talvez você pense que uma substância primeva possa estar na origem de todas as coisas. Os ensinamentos budistas rejeitam essa possibilidade também. Usando razões para eliminar essas possibilidades, o budismo conclui que nossas experiências de sofrimento e felicidade não ocorrem por moto próprio nem devido a alguma causa de existência independente. Nem tampouco são o produto de alguma combinação dessas coisas. pelo contrário, o ensinamento budista compreende a causalidade em termos do que chama de originação interdependente. Todas as coisas e acontecimentos, incluindo nossas experiências de sofrimento e felicidade, vêm da reunião de uma multiplicidade de causas e condições. Entendendo o Papel Primário da Mente. Se examinarmos com cuidado o ensinamento das quatro nobres verdades, descobriremos a importância primordial da consciência, ou da mente, na determinação de nossas experiências de sofrimento e felicidade. O ponto de vista budista é que existem diferentes níveis de sofrimento. Por exemplo, há o sofrimento que é óbvio para todos nós, como as experiências dolorosas. Todos podemos reconhecer isso como sofrimento. Um segundo nível de sofrimento inclui o que definimos normalmente como sensações prazerosas. Na realidade, as sensações prazerosas são sofrimentos porque carregam dentro de si a semente da insatisfação. Há também um terceiro nível de sofrimento, que na terminologia budista chama-se sofrimento penetrante do condicionamento. Poder-se-ia dizer que esse terceiro nível de sofrimento é o simples fato de nossa existência como seres não iluminados sujeitos a emoções, pensamentos e ações cármicas negativas. Carma significa ação, e é o que nos mantém presos a um ciclo negativo. Estar preso ao carma dessa maneira é o terceiro tipo de sofrimento. Se você olhar para esses três tipos diferentes de sofrimentos, verá que em última instância estão baseados em estados de espírito. Na verdade, estados de espírito indisciplinados são por si só sofrimento. Se olharmos para a origem do sofrimento nos textos budistas, veremos que, embora leiamos sobre carma e sobre ilusão que motiva a ação cármica, estamos lidando com ações cometidas por um agente. Já que sempre há um motivo por trás de cada ação, o carma também pode ser compreendido em termos de estado de espírito que está indisciplinado. Da mesma forma, quando falamos sobre ilusões que fazem com que uma pessoa aja de modo negativo, elas também são estados de espírito indisciplinados. Portanto, quando os budistas se referem à verdade da origem do sofrimento, estamos falando sobre um estado de espírito indisciplinado e indomado, que obscurece nossa iluminação e que nos faz sofrer. A origem do sofrimento, a causa dele e o sofrimento em si, no final das contas, só podem ser entendidos em termos de estado de espírito. Quando falamos sobre a cessação do sofrimento, estamos falando apenas em relação a um ser vivo, um agente com consciência. Os ensinamentos budistas descrevem a cessação do sofrimento como o estado mais elevado de felicidade. Essa felicidade não deve ser entendida em termos de sensações prazerosas, não estamos falando e felicidade no nível do sentimento ou da sensação. Estamos, isso sim, nos referindo ao nível mais elevado de felicidade: total liberação do sofrimento e da ilusão. Mais uma vez, isso é um estado de espírito, um nível de realização. Por fim, de modo a compreender nossa experiência de sofrimento e dor, e o caminho que leva à cessação – as quatro nobres verdades – temos que entender a natureza da mente. Mente e Nirvana. O processo pelo qual a mente cria o sofrimento no qual vivemos é descrito pelo mestre indiano Chandrakirti (600-650) em seu Guia para o Caminho do Meio, quando afirma: “Um estado de espírito indisciplinado dá origem a ilusões que levam um indivíduo a ações negativas, que em seguida criam o ambiente negativo no qual a pessoa vive”. Para tentar entender a natureza da ausência de sofrimento que os budistas chamam de nirvana, podemos examinar um trecho do célebre Fundamento do Caminho do Meio, de Nagarjuna (século II e III d.C.), onde ele, de algum modo, equilibra a existência não iluminada (samsara) e a existência iluminada (nirvana). O que Nagarjuna explica é que não devemos pensar que existe uma natureza intrínseca, essencial de nossa existência, seja ela iluminada ou não. Do ponto de vista do vazio, ambas são igualmente desprovidas de qualquer tipo de realidade intrínseca. . o que diferencia um estado não iluminado de um iluminado é o conhecimento e a experiência do vazio. O conhecimento e a experiência do vazio do samsara por si só é o nirvana. A diferença entre samsara e nirvana é um estado de espírito. Assim, levando isso em conta, é legítimo perguntar: o budismo está sugerindo que tudo nada mais é do que a projeção da nossa mente? Essa é uma questão crítica que suscitou diferentes respostas de professores budistas ao longo da história do budismo.  Por um lado, grandes mestres argumentaram que, em última análise, tudo, até nossa experiência do sofrimento e da felicidade, nada mais é do que uma projeção de nossa mente. Mas existe outra vertente que argumentou com veemência contra essa forma extrema de subjetivismo. Essa segunda vertente afirma que, embora se possa, em certo sentido, entender tudo, até mesmo as próprias experiências como criações da própria mente, isso não significa que tudo seja apenas na mente. Eles argumentam que é preciso manter um grau de objetividade e acreditar que as coisas de fato existem. Embora essa vertente também afirme que a consciência desempenha um papel na criação de nossa experiência e do mundo, ao mesmo tempo existe um mundo objetivo. Há outra coisa que penso que se deva entender em relação ao conceito budista de nirvana. Nagabuddhi, um aluno de Nagarjuna, afirma que: “A iluminação ou a liberdade espiritual não é uma dádiva que alguém possa lhe dar, nem tampouco a semente da iluminação é algo que pertença a alguma outra pessoa”. O que isso implica é que o potencial para a iluminação existe naturalmente em todos nós. O aluno de Nagarjuna prossegue, perguntando: “O que é o nirvana, o que é a iluminação, o que é a liberdade espiritual’? Em seguida ele responde: “A verdadeira iluminação não é nada até que a natureza do próprio ser seja plenamente realizada”. Essa natureza do próprio ser é o que os budistas chamam de luz clara derradeira ou natureza interna radiante da mente. Quando isso estiver plenamente cumprido ou realizado, isso é a iluminação, isso é a verdadeira budeidade. Podemos ver que, quando falamos de iluminação e nirvana, que são frutos das realizações espirituais de cada um, estamos falando de estado de espírito. Do mesmo modo, quando falamos das ilusões que obstruem nossa realização desse estado iluminado, também estamos nos referindo em particular às ilusões baseadas em uma maneira distorcida de apreender o próprio ser e o mundo. A única maneira de podermos eliminar esse entendimento errado, essa maneira distorcida de apreender o próprio ser e o mundo, é cultivando uma compreensão da verdadeira natureza da mente. Em suma os ensinamentos do Buda identificam, por um lado, um estado de espírito indisciplinado com o sofrimento e, por outro, um estado de espírito disciplinado com a felicidade e a liberdade espiritual. Esse é um ponto essencial. Abraço. Davi.

 

sábado, 13 de abril de 2024

A DOUTRINA UNITÁRIA E O CRISTIANISMO

 

Islamismo. Livro Jesus Um Profeta do Islam. Por Muhammad Ata ur-Rahim. Capítulo I. A DOUTRINA UNITÁRIA E O CRISTIANISMO. A pesquisa histórica mostrou que o animismo e a adoração de ídolos, pelos povos primitivos de todo o mundo, constituem uma subversão da crença Unitária original, que o Deus Único, do judaísmo, cristianismo e islamismo, cresceu em oposição à multiplicidade de deuses, em vez de evoluir a partir deles. Pode-se, assim dizer, que é na fase inicial de qualquer tradição que devemos procurar o ensinamento mais puro, resultando, necessariamente, um declínio de toda a doutrina que o segue posteriormente. É, pois, sob essa perspectiva que deve, também, ser examinada a história do cristianismo. A crença inicial num só Deus veio a se corromper, tendo-se aceitado, então, a doutrina da Trindade, a qual deu origem a uma confusão que afastou cada vez mais o homem da serenidade intelectual. No século seguinte ao desaparecimento de Jesus, seus seguidores continuaram a afirmar a Unidade Divina, o que é ilustrado pelo fato de o Pastor de Hermas, escrito cerca de 90 d.C., ter sido considerado pela Igreja um Livro Revelado. Esse é o primeiro dos doze mandamentos que ele contém: «Acima de tudo, acreditem que Deus é um só, que criou todas as coisas, organizou-as, do que não existia fez tudo existir e Ele contém tudo. Mas nada o contém ...» De acordo com Theodore Zahn, o 1o artigo da Fé até cerca de 250 d.C. era «Eu acredito em Deus Todo-Poderoso» Entre 180 e 210 d.C. foi inserida a palavra Pai antes de Todo-Poderoso, o que provocou vivas contestações por parte de muitos chefes da Igreja. Entre os principais responsáveis desse movimento, contam-se os Bispos Victor e Zephysius, que entendiam ser um sacrilégio inqualificável acrescentar ou retirar qualquer palavra das Escrituras. Opunham-se à tendência de considerar Jesus como Deus e sublinhavam a unidade de Deus tal como foi expressa nos ensinamentos originários de Jesus. Defendendo que, embora Profeta e muito favorecido pelo Senhor, Jesus era, na sua essência, um homem como os outros. Essa fé era compartilhada pelas Igrejas que tinham surgido no Norte da África e na Ásia Ocidental. À medida que se expandiam, os ensinamentos de Jesus tomavam contato com outras culturas e entravam em conflito com elas, tendo sido assimilados e adaptados por essas culturas e, simultaneamente, sofrido alterações, de forma a serem reduzidas as perseguições por parte dos governantes. Na Grécia, sobretudo, sofreram uma metamorfose, devido a serem expressos pela primeira vez numa nova língua de uma cultura com ideias e filosofia próprias. E foi o ponto de vista da multiplicidade de deuses dos gregos que contribuiu largamente para a formulação desta Doutrina da Trindade. Ao mesmo tempo em que alguns, principalmente, Paulo de Tarso, transformavam gradualmente Jesus, de Profeta que era, em Deus. Apenas em 325 d.C. a doutrina da Trindade foi declarada Ortodoxa pelo Cristianismo; ainda assim, alguns dos que a subscreveram não acreditavam nela, por não encontrarem nas Escrituras nenhuma autoridade a garanti-lo. Atanasio, que é considerado o pai desse credo, não estava muito seguro da sua justeza. Admite que «sempre que forçava a inteligência na meditação da divindade de Jesus confrontava-se com a ineficácia dos seus porfiados esforços, acontecendo que, quanto mais escrevia, menos capaz era de expressar os seus pensamentos». E chega mesmo a escrever: «Não existem três, mas um ÚNICO DEUS». A sua crença na doutrina da Trindade não se baseava na certeza, mas em conveniências políticas e em necessidades circunstanciais. O papel desempenhado por Constantino, o imperador pagão de Roma que presidiu ao Concílio de Nicéia, mostra bem, como aquela histórica decisão ficou devendo a expedientes políticos e a falsos argumentos filosóficos. As florescentes comunidades cristãs constituíam, já, uma força que Constantino não desejava enfrentar e, cujo apoio ao fortalecimento do Império era insubstituível. Ao remodelar o cristianismo, Constantino esperava ganhar a simpatia da Igreja e ao mesmo tempo acabar com a confusão nela existente, o que constituía uma fonte, ainda maior, de confusão no seu Império. O processo que o levou a atingir parcialmente o seu objetivo pode ser ilustrado através de um incidente ocorrido na Segunda Guerra Mundial. Em certa altura, estava próxima a festa Islâmica do 'Id, começou a chegar a Singapura, Tóquio, anunciando que se tratava de uma ocasião histórica com repercussão em todo o mundo Islâmico. Após alguns dias, a propaganda foi subitamente suspensa, sabendo-se, através de um prisioneiro japonês, capturado numa emboscada, que Tojo, o chefe do governo japonês, planeava surgir como o maior reformador Islâmico dos tempos modernos, ajustando os ensinamentos do Islam às necessidades dos tempos atuais. Tornava-se, para isso, necessário, segundo ele, que os muçulmanos deixassem de se orientar à Meca, durante a oração e passassem a se orientar a Tóquio, onde estaria sediado o futuro centro do Islam, sob a direção de Tojo. Os muçulmanos recusaram essa reorientação do Islam e, por isso, todo o projeto abortou, não sendo permitida a oração de ‘ld, nesse ano, em Singapura. Tojo tinha compreendido a importância do Islam e desejava usá-la como instrumento dos seus desígnios imperialistas, mas não teve êxito. Constantino teve êxito onde Tojo falhou e Roma substituiu Jerusalém, como centro da Cristandade Paulina. Esta degenerescência dos ensinamentos puros de Jesus, que teve como resultado inevitável a aceitação da multiplicidade de deuses pela Cristandade, encontrou sempre antagonistas. Quando em 325 d.C., a Doutrina da Trindade foi oficialmente proposta como Doutrina Ortodoxa Cristã, Árius, um dos chefes Cristãos do Norte de África, ergueu-se contra a aliança de Constantino com a Igreja Católica e recordou que Jesus sempre afirmara a Unidade Divina. Constantino tentou esmagar, enérgica e brutalmente, o incômodo povo do Deus Único, mas falhou. Ironicamente, embora Constantino tenha morrido como Unitário, a Doutrina da Trindade transformou-se, oficialmente, a base do Cristianismo na Europa. Esta doutrina causou muita confusão, sobretudo entre aqueles a quem se pediu para acreditar sem que tentassem compreender. Todavia, não era possível impedir as pessoas de tentarem demonstrar a Doutrina e explicá-la intelectualmente e, em termos gerais, desenvolveram-se três escolas de pensamento. A primeira está associada ao Santo Agostinho, que viveu no século IV e defendia a opinião de que a doutrina não podia ser provada, mas podia ser ilustrada. S. Victor, que viveu no século XII, está associado à segunda escola, que defendia ser a Doutrina demonstrável e ilustrável. O século XIV viu nascer a terceira escola, que acreditava ser impossível demonstrar ou ilustrar a Doutrina, pelo que, nela se devia acreditar cegamente. Embora, os livros contendo os ensinamentos de Jesus tivessem sido destruídos, suprimidos ou alterados, para evitar qualquer contradição manifesta com a Doutrina, uma boa dose de verdade subsistiu, nos que sobreviveram, pelo que a defesa da Doutrina da Trindade evidenciava uma diferença de ênfase entre o que as Escrituras rezavam e o que os Chefes da Igreja diziam. Sustentava-se que a Doutrina se fundamentava numa revelação especial feita à Igreja, a "Noiva de Jesus", pelo que não surpreende assistir-se à reprimenda de Fra Fulgentio pelo Papa numa carta em que se lê: «Pregar as Escrituras è uma coisa suspeita; aquele que seguir de perto as Escrituras arruinará a fé Católica». Na carta subsequente, o Papa é ainda mais explícito, advertindo contra uma insistência exagerada nas Escrituras: «...as quais são livros que destruirão a Igreja Católica se alguém os tomar por guia». O abandono efetivo dos ensinamentos de Jesus deveu-se, em grande parte, à completa obscuridade que rodeia a sua realidade histórica. A Igreja tornou a Religião, não só independente das Escrituras, mas também de Jesus, tendo-se transformado Jesus-homem em Cristo-mítico. Mas a fé em Jesus não se identifica necessariamente com a fé na ressurreição de Cristo. Enquanto seus seguidores basearam suas vidas no exemplo de Jesus, o Cristianismo Paulino se baseou na crença de um Cristo supostamente crucificado, que desvalorizou a vida e o ensino de Cristo, enquanto vivo. À medida que a Igreja estabelecida se distanciava, cada vez mais, dos ensinamentos de Jesus, os seus chefes se envolviam, cada vez mais, nos assuntos dos que tinham poder terreno. À medida que os ensinamentos de Jesus e os desejos dos poderosos se fundiam uns nos outros, a Igreja - embora defendendo sua separação do Estado - identificou-se cada vez mais com o Estado e ganhou poder. Nos primeiros tempos, a Igreja estava submetida ao poder Imperial, mas com o seu crescente compromisso, a situação se inverteu. Sempre existiu oposição a estes desvios relativos aos ensinamentos de Jesus, mas à medida que a Igreja ganhava poder, a negação da Trindade se tornava muito perigosa e conduzia quase, inevitavelmente, à morte. Embora Lutero tivesse abandonado a Igreja Romana, a sua revolta se dirigia, mais, contra a autoridade do Papa do que contra as Doutrinas fundamentais da Igreja Católica Romana. O resultado foi a fundação duma nova Igreja encabeçada por Lutero. Os princípios Cristãos básicos foram adotados e mantidos, apesar do aparecimento de algumas Igrejas Reformistas e seitas. Assim, a doutrina de Cristo, anterior à Reforma, não sofreu perturbações e os dois ramos principais da Igreja de Paulo continuaram a existir até hoje. No Norte de África e no Oeste Asiático, a maioria das pessoas aceitou os ensinamentos de Árius e, mais tarde, quando o Islamismo apareceu, abraçaram-no prontamente. Aliás, foi por já ter sido adotada a Doutrina do Deus Único e o ensinamento puro de Jesus que reconheceram o Islam como Verdade. Na Europa, a corrente do Unitarismo, no seio da Cristandade, nunca foi quebrada e o movimento cresceu de fato, em força, sobrevivendo à perseguição continua e brutal das Igrejas no passado, bem como à sua indiferença no presente. Hoje, cada vez mais pessoas estão conscientes de que a Doutrina de Cristo, tal como é conhecida, pouco tem a ver com os ensinamentos originais de Jesus. Durante os dois últimos séculos, as pesquisas dos historiadores deixaram pouco espaço para os "mistérios" cristãos, mas o fato já comprovado de que o Cristo da Igreja estabelecida não ter, quase, nada a ver com o Jesus da História, não ajuda em nada os cristãos, no que diz respeito à Verdade. O dilema atual dos cristãos é esclarecido pelo que escrevem os historiadores da Igreja, no nosso século, sua dificuldade fundamental, tal como foi apontada por Adolf Harnack, é a seguinte: «O Evangelho existente já tinha sido mascarado pela filosofia grega no século IV, pelo que coube , aos historiadores, a missão de lhe arrancarem a máscara, revelando, assim, como os contornos iniciais da Doutrina subjacente tinham sido diferentes». Harnack, no entanto, aponta mais uma dificuldade na realização dessa tarefa, quando diz que a máscara Doutrinal, usada durante um período suficiente, pode remodelar a face da religião: «A máscara adquire vida própria — a Trindade, as duas naturezas de Cristo, a infalibilidade e todas as proposições que secundam esses dogmas, foram produto de decisões e de situações históricas e podem acabar por se revelar bastante diferentes... no entanto... mais cedo ou mais tarde, produto ou força remodelada, o dogma persiste no que tinha sido desde o princípio, um mau hábito de intelectualização que os cristãos adquiriram com os gregos quando fugiram dos judeus». Harnack retoma este tema noutro livro, onde admite o seguinte: «...o quarto Evangelho não provêm, nem declara provir, do Apóstolo João, não podendo ser considerado como uma verdade histórica... O autor desse Evangelho atuou com uma liberdade suprema, inverteu a ordem dos acontecimentos e os expôs a uma luz diferente. «Além disso, ele próprio criou a controvérsia ao explicar os grandes pensamentos com situações imaginárias». O mesmo autor se refere, ainda, ao trabalho do famoso historiador cristão, David Strauss, que descreve como tendo «quase destruído a credibilidade histórica não só do quarto, mas também dos três primeiros Evangelhos». De acordo com Johannes Lehmann, outro historiador, os autores dos quatro Evangelhos aceitos descrevem um Jesus diferente daquele que pode ser identificado na realidade histórica. Lehmann cita Heinz Zahrnt quando chama a atenção para as consequências deste fato: «Se a investigação histórica fosse capaz de provar que existe uma antítese irreconciliável entre o Jesus histórico e Cristo tal como é pregado e, portanto, que a crença em Jesus não se fundamenta no próprio Jesus, isso seria não só absolutamente fatal em termos teológicos, como diz N. A. Dahl, mas significaria, também, o fim de toda a Doutrina de Cristo. No entanto, eu estou convencido de que, mesmo assim, nós, os teólogos, seríamos capazes de encontrar uma saída — houve alguma ocasião em que não o tenhamos conseguido? Mas, ou estamos a mentir agora, ou estivemos a mentir outrora». Enquanto essas curtas citações mostram o dilema em que a Cristandade atual se debate, as palavras de Zahrnt demonstram, ainda, algo muito mais sério, subjacente a tudo isso: é possível ficar tão envolvido com os pormenores daquilo que aconteceu à Doutrina de Jesus, às Igrejas e às seitas que se lhe seguiram, que o objetivo original do ensinamento passa a ser sobrevalorizado ou esquecido. Assim, Theodore Zahn, por exemplo, esclarece os desagradáveis conflitos existentes no interior das Igrejas estabelecidas. Esse autor considera, ainda, que os católicos romanos, com boas ou más intenções, recusam a remodelação do texto da Sagrada Escritura com adições e omissões pela Igreja Ortodoxa Grega; os gregos, por seu rumo, entendem que são os próprios católicos que se afastam do texto original em diversos locais e, não obstante, as suas diferenças combinam acusar os cristãos não conformistas de se desviarem do "verdadeiro caminho", condenando-os como heréticos. Os heréticos, por sua vez, acusam os católicos de «terem dado outro cunho à verdade, como os falsificadores». E conclui: «Não são os fatos o suporte dessas acusações?» O verdadeiro Jesus está completamente esquecido e os que estão conscientes dessa degeneração e desejam, sinceramente, regressar e viver segundo os preceitos iniciais, são impedidos de fazê-lo, porque a Doutrina original, na sua totalidade, já desapareceu e é irrecuperável. Erasmo afirmou o seguinte: «Os antigos filosofaram muito pouco acerca das coisas Divinas... Primeiramente a fé estava na vida, mais do que na profissão dos crentes... Quando a fé passou à escrita, mais do que aos corações, então , apareceram quase tantas crenças como homens. Os artigos aumentaram e a sinceridade diminuiu. As contendas se tornaram quentes e o amor tornou-se frio. A Doutrina de Cristo, que no princípio não conhecia distinções demasiado sutis, veio a depender da ajuda da filosofia. Foi este o primeiro degrau no declínio da Igreja». Então, a Igreja foi forçada a explicar o que não podia ser expresso em palavras e, para ganhar o apoio do Imperador, recorreu a ambos os lados. Erasmo, comentando esse fato, continua: «A injeção da autoridade do Imperador, nesse assunto, não ajudou grandemente a sinceridade da fé ... quando a fé está na boca em vez de estar no coração, quando o sólido conhecimento das Sagradas Escrituras nos falha, mesmo que pelo terror, levemos os homens a acreditar no que não acreditam, a amar o que não amam, a saber o que não sabem. O que é forçado não pode ser sincero». Erasmo compreendeu que os primeiros cristãos, os seguidores próximos de Jesus, tinham um conhecimento da Unidade que nunca foi necessário exprimir, mas quando o seu ensino se espalhou e nasceram conflitos entre as Igrejas, os homens conhecedores foram forçados a tentar explicar os seus conhecimentos da Realidade. Entretanto, tinham já perdido a Doutrina de Jesus, na sua totalidade, bem como a linguagem da Unidade que lhe estava associada e recorriam apenas ao vocabulário e à terminologia da filosofia grega, que já não considerava a Unidade, mas uma visão tripartida da existência. E a tão simples e pura confiança na Realidade foi, inevitavelmente, expressa numa linguagem estranha a Jesus e levou à formação da Doutrina da Trindade com a deificação de Jesus e do Espírito Santo. Confusão e cisma foram os resultados inevitáveis e sucederam sempre que os homens perderam de vista a Unidade da Existência. Compreender isso é essencial para qualquer pessoa que queira saber quem foi Jesus e o que realmente ensinou, tanto como o conhecimento de que, uma vez que as pessoas deixem de recorrer completamente às ações do dia a dia de um Profeta (que não são mais do que a personificação do seu ensinamento), ficam perdidas, quer acreditem na Doutrina da Trindade, quer afirmem verbalmente a Unidade Divina. Abraço. Davi.

 

 

quarta-feira, 10 de abril de 2024

O MÉDIUM DE UMBANDA

 

Religião Afro-brasileira. Umbanda. Livro Código de Umbanda. Por Rubens Saraceni (1951-2015). O MÉDIUM DE UMBANDA. Capítulo III. O médium de Umbanda, ainda que muitos não o valorize, é o ponto chave do ritual de Umbanda no plano material. E por sê-lo, deve merecer dos filhos de Fé já maduros, iniciados, toda atenção, carinho e respeito quando adentram no espaço interno das tendas, pois é mais um filho da Umbanda que é “dado” à luz. E tal como quando a generosa mãe dá a luz mais um filho, em que tanto o pai quanto os irmãos se acercam do recém nascido e o cobrem de bençãos, amor, carinho e ... compreensão para os seus choros. O novo filho de Fé ainda é uma criança que veio à luz e precisa de amparo e todos os  cuidados devido à sua ainda frágil constituição íntima e emocional. Do lado espiritual, todo o apoio lhe é dado, pois nós, os espíritos guias deles, sabemos que este é o período em que mais frágil se sente um ser que traz a mediunidade. Para um médium iniciante, este é um momento único em sua vida, e um período de transição, onde todos os seus valores religiosos anteriores de nada lhe valem, pois outros valores lhe estão sendo apresentados. Para todos os seres humanos este é um período extremamente delicado em suas vidas. E não são poucos os médiuns que se decepcionam com a falta de compreensão para sua fragilidade diante do novo e do ainda desconhecido. É tão comum uma pessoa dotada de forte mediunidade e de grandes medos ser vista como “fraca” de cabeça pelos já “tarimbados” médiuns. Mas estes não param para pensar um pouco no que realmente incomoda o novo irmão e, com isso, o Ritual de Umbanda Sagrada vê mais um dos seus recém-nascidos filhos perecer na maior angústia, e socorrer-se a outros rituais que primam pela ignorância do mundo espiritual e sufocam nos seus fieis seus mais elementares dons naturais. Muitos apregoam que tantos e tantos brasileiros são umbandistas, e que isso demonstra o vigor da religião umbandista. Contudo, infelizmente, isso não é verdade, e só serve para diminuir o que poderia ser uma grande verdade. Vários milhões de brasileiros já assumiram suas mediunidades por completo e são médiuns praticantes, que incorporam regularmente seus guias dentro das tendas onde trabalham. Ou nas suas reuniões mais íntimas em suas próprias casas. Mas alguns milhões de filhos de Fé com um potencial mediúnico magnífico já foram perdidos para outros rituais. Por os diretos das tendas não deram a devida atenção ao “fator médium” do Ritual de Umbanda, assim como não atentaram para o fato de que aqueles que lhes são apresentados pelos guias zeladores dos novos médiuns, se lhes são enviados, o são pelo próprio Espírito Universal e universalista anima a Umbanda Sagrada. E que é o seu espírito religioso, que no lado espiritual tem meios sutis de atuar sobre um filho de Fé. Todavia no lado material depende fundamentalmente dos sacerdotes, animadores materiais desse corpo invisível, ativo e totalmente religioso. É tão comum vermos médiuns já iniciados que não tem a menor noção da existência desse corpo religioso umbandista que se move através do plasma universal que é Deus, é fé e é religiosidade. “Eu sou filho de tal Orixá ...”, e pronto. Sua fé acaba a partir daí, e sua ligação com esse plasma divinizado em uma religião fica restrito a isto: “Eu sou filho de tal Orixá”. Incorpora seus guias, estes trabalham, e maravilhosamente, pois estão em comunhão total com esse espírito ativo que é o corpo religioso umbandista. Corpo este que assume a forma de Orixás ou de seus pontos de forças, mas que não deixam de irradiar essa energia divina chamada Fé. O ritual é aberto a todas as manifestações, todavia o lado material, médiuns, tem de ser esclarecido de que as manifestações só acontecem por causa desse espírito religioso invisível conhecido por Ritual de Umbanda, e fora dele não há manifestações, tão somente possessões espirituais. É este espírito invisível  que sustenta todas as manifestações, quando em nome da Umbanda Sagrada são realizadas. Houve um tempo em que os Orixás foram sincretizados com santos católicos, pois aí a concretização do ritual aconteceria. As imagens “mascaravam” a verdade oculta e as perseguições religiosas, políticas e policiais foram abrandadas. Mas atualmente, isso já não é preciso como meio de expansão da Umbanda Sagrada. Hoje já existe liberdade suficiente para que todos digam abertamente: Sou um filho de Fé, sou um filho de Umbanda. Mas, para que isso possa ser realmente dito, é chegado o tempo de a Umbanda deixar de perder seus filhos recém-nascidos para religiões que ainda recorrem a princípios medievais, quando não obscurantistas. Há de ser criada uma forte linha de fé doutrinadora dos sentimentos religiosos dos filhos de Fé, pois só assim, a Umbanda Sagrada sairá do interior das tendas e dos lares e abarcará, em um movimento abrangente e envolvedor, os milhões de irmãos que afluem as tendas ou aos médiuns à procura de uma palavra de consolo, conforto ou esclarecimento. É chegado o momento de todos os médiuns, diretores espirituais, dirigentes espirituais e pais e mães no Santo imprimirem aos seus trabalhos mais uma vertente da Umbanda Sagrada: a doutrinação dos irmãos e irmãs que afluem as tendas nos dias de trabalho. É preciso uma conscientização dos pais e mães no Santo de que os necessitados, os aflitos e os carentes não só as tendas de Umbanda, mas também a todas as outras portas abertas onde há uma promessa, um vislumbre de socorro imediato. Mas só aquelas portas que, ao lado do socorro imediato, oferecerem uma luz para toda a vida alcançarão seu real objetivo, pois ao par do imediato também oferecem o bem duradouro, que é a fé forte em uma religião. E a Umbanda Sagrada é uma religião ! Por isso, ela tem de sair da tenda e conquistar os corações dos que a ela afluem nos dias de trabalho, e conquistar o e respeito e a confiança de todos os cidadãos no seu trabalho de doutrinação e salvação de almas. Nós temos acompanhado com carinho e atenção os irmãos umbandistas que têm oferecido a maior parte de suas vidas a esta necessidade da religião umbandista. Abençoados são estes verdadeiros filhos de Umbanda, porém temos acompanhado a vida de todos os pais e mães de Santo e temos visto que bloqueiam a si próprios e às suas potencialidades doutrinadoras dentro da Umbanda Sagrada, quando limitam a si e sua religião aos trabalhos dentro de suas tendas, quando seus guias incorporam e ... trabalham. Limitam-se só a isso e limitam à própria religião umbandista, mas não concedem a si próprios as qualidades que seus Orixás lhes mostram serem possuidores. Muitos filhos de Fé, movidos por nobres e dignificantes intenções, buscam nas línguas a explicação do termo “umbanda”. Alguns chegam a mergulhar no passado ancestral em busca do real significado desta palavra. Nada a opor de nossa parte, mas melhor fariam e mais louvável aos olhos dos Orixás seriam seus esforços, caso já tivessem atinado com o real e verdadeiro sentido do termo “Umbanda”. Umbanda significa: o sacerdócio em si mesmo, na m’banda, no médium que sabe lidar tanto com os espíritos quanto com a natureza humana. Umbanda é o portador das qualidades, atributos e atribuições que lhe são conferidas pelos senhores da natureza; os Orixás. Umbanda é o veículo de comunicação entre os espíritos e os encarnados, e só um Umbanda está apto a incorporar tanto os do Alto, como os do Embaixo, assim como os do Meio, pois ele é, em si mesmo, um templo. Umbanda é sinônimo de poder ativo. Umbanda é sinônimo de curador. Umbanda é conselheiro. Umbanda é sinônimo de intermediador. Umbanda é sinônimo de filho de Fé. Umbanda é sinônimo de sacerdote. Umbanda é a religiosidade do religioso. Umbanda é o veículo, pois traz em si os dons naturais pelos quais os encantados da natureza falam aos espíritos humanos encarnados. Umbanda é o sacerdote atuante, que traz em si todos os recursos dos templos de tijolos, pedra ou concreto armado. Umbanda é o mais belo dos templos, onde Deus mais aprecia ser manifestado ou mesmo onde mais aprecia estar: no mínimo o ser humano. Umbanda foram os primeiros espíritos dos sacerdotes, que aos poucos foram criando para si, no íntimo dos médiuns filhos de Santo já preparados para recebê-los, uma lista tão poderosa, mas tão poderosa, realizam curas milagrosas nos frequentadores dos terreiros de “macumba”. Umbanda eram os caboclos índios que dominavam os quiumbas e libertavam os espíritos encarnados de obsessões e perseguidores. Umbanda eram os pretos velhos que baixavam nas “mesas brancas” e faziam revelações que não só deixavam admirados quem os ouviam, mas encantavam também. Umbanda eram os exus e pomba giras brincalhões, debochados e francos, tanto quanto os encarnados. Falavam a estes e igual para igual, e com isso iam rompendo o temor dos filhos de Santo para com seus “santos”. Umbanda era o início do rompimento da casca grossa do ritual do culto aos eguns (sacerdotes já no outro lado de vida. Umbanda o sacerdócio, embanda, o chefe do culto. Umbanda, o ritual aberto do culto aos ancestrais. Umbanda na banda do “Um”, mais um, todos nós somos, pois tudo o que nos cerca, por meio de nós pode manifestar-se. Umbanda na banda do “Um”, todos são e sempre serão, desde que limpem seus templos íntimos dos tabus a respeito dos Orixás e os absorvam por intermédio da luz divina que irradiam seus mistérios. Daí em diante, serão todos “mais um”, plenos portadores dos mistérios dos Orixás. Umbanda provém de “m’banda”, o sacerdote, o curador. Umbanda é sacerdócio na mais completa acepção da palavra, colocando o médium na posição de doador das qualidades de seus Orixás, que, impossibilitados de falarem diretamente ao povo, falam a partir de seus templos humanos: os filhos de Fé! Despertem para esta verdade, pais e mães de Santo! Olhem para todos os que chegam até vocês, não como seres perturbados, mas sim como irmãos em Oxalá que desejam dar “passagem” as forças da natureza que lhes chegam. Contudo irmãos em Oxalá que desejam dar “passagem” as forças da natureza que lhes chegam. Todavia encontram seus templos (mediunidade) ocupados por escolhos, inculcados neles ao longo dos séculos e séculos que estiveram afastados de seus ancestrais Orixás. Não inculquem mais escolhos dizendo a eles que há Orixá brigando pela cabeça deles ou que exu está cobrando alguma coisa. Tratem os filhos de olorum, o Incriado, envia-lhes com o mesmo amor, carinho e cuidados que devotam a seus filhos encarnados. Cuidem deles, transmitam a eles amor aos Orixás, sendo Orixá é o amor do Criador às suas criaturas. Ensinem-lhes que, na lei de Oxalá, ninguém é superior a ninguém, como na banda do “Um”, mais um todos são. Mostrem-lhes que Orixá é um santo, sendo mais do que isso: Orixá é a natureza divina se manifestando de forma humana, para os espíritos humanos. Não percam tempo tentando contar lenda dos tempos do cativeiro, quando irmãos de cultos diferentes, raças diferentes e formações as mais diversas possíveis eram reunidos em uma só senzala. Evitavam a mistura dos Orixás com medo de perderem seus últimos vestígios humanos, seus “santos” de cabeça e de fé. O tempo de escravidão já é passado e Umbanda é liberdade de manifestação dos Orixás por intermédio dos seus veículos naturais: os médiuns. Ensinem-lhes que, estando aptos a incorporar o “seu” pai de cabeça, também estão aptos a serem as moradas de todos os outros “pais”. Assim, Orixá é, inicialmente e acima de tudo, isto: senhor da cabeça. É senhor da coroa luminosa que paira em torno do mental purificado do filho de Fé já liberto dos escolhos que o mantinham acorrentado. Também escravizado a tabus e dogmas religiosos, que inicialmente visavam a impedi-lo de ser mais um na banda do “Um”. Mantendo-se na eterna dependência da vontade dos carnais, senhores dos cultos ao Criador, em que um é o pastor e o restante, só rebanho, ovelhas mesmo! Digam que, na banda do “Um”, o rebanho é composto só de pastores, pois “Umbanda” é o sacerdócio. Esclareçam ao filho recém-chegado que se sente incomodado que isso não é nada de ruim, há todo um santuário aprisionado em seu íntimo tentando explodir por meio de sua mediunidade magnífica. Conversem demoradamente com ele e procurem mostrar-lhe que Umbanda não é panaceia para todos os males do corpo e da matéria, Todavia sim o aflorar da espiritualização sufocada por milênios de ignorância e descaso com as coisas do espírito. Expliquem que pode fazer o que quiser com seu corpo material, mas deve preservar sua cora (cabeça), desde modo é nela que a luz dos Orixás lhe chega e o liberta dos vícios da carne e do materialismo brutal. Ensinem-lhe que, como templos, deve manter limpos seus íntimos, pois nesse íntimo há uma centelha divina animada pelo fogo divino que a tudo purifica. E que o purificará sempre que entregar sua coroa ao seu Orixá. Instrua os com seu mentor e guia chefe, irmãos e irmãs (pais e mães de santo). Estabeleçam um dia da semana ou do mês dedicado exclusivamente a um guia doutrinador que lhe falará da Umbanda a partir da visão mais acurada desta religião. Em que os fiéis são mais que fiéis” são “meios” pelos quais toda uma gama magnífica de seres de altíssima evolução se manifesta como humildes pretos velhos. Garbosos, mas amáveis caboclos, inocentes crianças ou humanos exus e pomba giras. Sim, porque nós conhecemos irmãos exus que possuem muito mais luz do que vocês imaginam. E, se preferem atuar como exus, é porque assim, bem humanos, chegam mais rápido até onde desejam, aos consulentes sofredores e veículos de espíritos sofredores afins. Ensinem aos médiuns que eles trazem consigo mesmo todo um templo já santificado e que nele se assentem os Orixás sagrados. E que por intermédio desse templo muitas vozes podem falar, serem ouvidas, onde Umbanda provém de Embanda: sacerdote”. E o médium é um sacerdote, um embanda, um Umbanda ou mais um na banda do um, a Umbanda!. Abraço. Davi.

,

segunda-feira, 8 de abril de 2024

UM MUNDO RACIONAL. Parte I

 

Hinduísmo. O Livro das Religiões. Por meio do sacrifício nós mantemos a ordem do universo.  UM MUNDO RACIONAL. Parte I. Em contexto – Principal fonte os Vedas. Quando e onde 1500 – 500 a.C. Antes – A partir da Pré-História. Segundo as crenças iniciais, os acontecimentos são imprevisíveis e dependem da vontade dos deuses. 1700 a.C. Raças arianas começam a migrar para o subcontinente indiano. Depois – Século VI a.C. A autoridade da classe brâmane que realiza sacrifícios é contestada por Buda e Mahavira, fundador do movimento jainista. Século VI d.C. O hinduísmo devocional ou bhakti, ganha popularidade. Adoradores fazem suas próprias oferendas para manter um relacionamento pessoal com os deuses, uma ideia muito diferente do estabelecimento da ordem pelo sacrifício védico. Existe uma ordem racional oculta no universo. Esse sentido de ordem é confirmado quando realizamos sacrifícios aos deuses. No sacrifício, ficamos sabendo qual o nosso lugar nessa ordem e a maneira certa de viver. Por meio do sacrifício, mantemos a ordem do universo. A rigor não existe nenhuma religião que possa ser chamada de hinduísmo. Hinduísmo é um termo ocidental corrente utilizado para denominar as diferentes religiões e filosofias espirituais do subcontinente indiano. Não obstante, algumas características básicas nessas ideias e práticas religiosas são compartilhadas pela maioria dos hinduístas, e são essas ideias que agrupadas, recebem o nome de “hinduísmo”. Na prática os hindus são livres para escolher quais divindades reverenciar, em casa ou no templo, e com que frequência participarão das cerimônias religiosas. Contudo todos possuem antecedentes sociais e religiosos comuns, o que diferencia o hinduísmo dos outros sistemas de crenças, sobretudo os credos monoteístas. Da mesma forma que outras religiões, entretanto, o hinduísmo procura explicar a relação da vida humana com o contexto universal. Seus rituais e práticas voltam-se para três níveis de relacionamento – da pessoa com a divindade, de uma pessoa com outra e da pessoa com ela mesma – e a ligação disso tudo com a ordem universal das coisas. A ordem cósmica eterna. Dharma ou “o caminho certo” é um termo essencial para explicar o que é o hinduísmo. Em sua forma original, sanatana dharma, poderia ser traduzido como “a eterna ordem das coisas, verdade ou realidade”, expressando a ideia de que há uma estrutura e um sentido oculto no Mundo. Por trás da complexidade e aparente aleatoriedade dos acontecimentos, existem princípios fundamentais, sustentados por uma realidade única e imutável. Essas ideias manifestam-se na hierarquia de deuses e deusas, cada um responsável por um aspecto específico de uma verdade absoluta. A ideia de “ordem eterna” também possui implicações individuais e sociais. A religião, de fato, é uma forma de compreender o lugar da humanidade no mundo. Se o mundo for compreendido e tiver uma hierarquia ou estrutura definida, o indivíduo, ao seguir essa estrutura, poderá viver em harmonia com o resto da sociedade e com o universo como um todo. Uma característica axial das vertentes religiosas que orientam o hinduísmo é que, para manter essa ordem, ou dharma, a pessoa pode ter que realizar rituais e oferendas aos deuses, como forma de sacrifício. “O hinduísmo não é apenas uma religião. É a união entre a razão e a intuição, algo que não pode ser explicado, somente vivido. Radhakrishnan, Bhagavad-Gita”. As ideias hinduístas de tempo. Os hindus veem o tempo como cíclico, acreditando que o universo já passou por três grandes ciclos de milhões de anos. Considerar o tempo como algo cíclico tem uma importante inferência no pensamento religioso. No conceito ocidental linear de tempo, tudo é resultado de algo precedente, lei de causa e efeito, e, portanto, é natural querer saber como o mundo começou. Esse ponto de partida é o único estágio no qual as teorias lineares de tempo requerem explicações para além do mundo. Algo tem que ter sido responsável por colocar em movimento o grande. Ao realizar rituais da maneira prescrita, os hindus acreditam que estão se alinhando com a ordem racional do mundo e tornando-se um com o universo. Imagens e ações são cheias de simbolismo. Por outro lado, no pensamento hindu, os infinitos ciclos de tempo sucessivos contrastam com a ideia da eterna realidade imutável, conhecido como Brahman, que existe em tudo e através de tudo. O tempo terrestre acontece em ciclos, porém o Brahman é atemporal – a força central que mantem os ciclos em movimento, a realidade eterna por trás do processo de criação e destruição que caracteriza o mundo da experiência humana. Se os grandes ciclos de tempo são totalmente dependentes de uma realidade atemporal, o ordenamento correto deste mundo em constante transformação da consciência dessa realidade. Essa lógica dá origem à ideia de que um dos objetivos da religião é compreender e manter a ordem correta do mundo. Rituais religiosos e ordem. A partir de 1700 a.C., e nos séculos seguintes, o povo ariano da Ásia central exerceu uma influência gradual na Índia, trazendo consigo seu panteão e suas ideias, similares as dos gregos antigos. Os arianos integraram-se a civilização no vale do Indo, no norte da Índia, uma antiga sociedade conhecida por ter suas próprias tradições religiosas. Existem fortes evidências de banhos ritualísticos e adoração de uma grande deusa-mãe. Outros artefatos encontrados incluem urnas de cremação e um selo com a imagem de uma divindade de chifre e pernas cruzadas. A mudança não se deu de maneira repentina e opressiva. O que ocorreu foi uma mistura de culturas. Em termos de religião, surgiu uma tradição de devoção e rituais de sacrifícios manifestada nos hinos da primeira grande coleção de escritos sagrados hindus, os Vedas. Nessa nova tradição, os rituais e sacrifícios religiosos eram considerados importantes porque se acreditava que eles mantinham a ordem do universo, além de ajudarem os participantes a compreender seu dentro dessa ordem. “Concentramo-nos na luz radiante do deus Sol, que sustenta o céu, a Terra e o espaço. Mantra Gayatri, Rig Veda”. O sacrifício foi o principal rito da tradição védica – uma encenação simbólica da criação do mundo na qual se evocavam divindades que representavam características do universo ou da verdadeira realidade. Segundo a tradição, por meio desses cultos o ser humano realiza a mais importantes da tarefa humanas, criar uma ligação com o divino. O sacrifício ritualístico, além de possibilitar uma conexão com o plano invisível da realidade, também ajudava a estabelecer a ordem certa das coisas. Em troca do sacrifício, o indivíduo podia obter proteção de forças malignas e benefícios materiais – como melhores colheitas, tempo bom, saúde e felicidade. “Sacrifício” nesse contexto significava apenas fazer uma oferenda aos deuses, geralmente de comida ou bebida. O fogo desempenhava um papel crucial nos sacrifícios, pois, segundo a tradição ele existe tanto na Terra quanto no Céu, possuindo, portanto, o poder de alcançar os deuses. Com o desenvolvimento da religião védica , tornou-se importante que os sacrifícios fossem realizados pelas pessoas certas – a classe brâmane – e de maneira exata. Detalhes dos hinos a serem recitados e das ações a serem realizadas foram cuidadosamente prescritos. O terreno dos sacrifícios numa área específica, conforme recomendado pelos Vedas. Os textos também especificavam o modo certo de acender o fogo sacrificial e o tipo de recipiente necessário para receber a oferenda. Os sacerdotes tinham a missão de alimentar o fogo com oferendas que incluíam manteiga de garrafa, cereais, frutas ou flores, entoando cânticos dos Vedas. O sacrifício também devia ser realizado numa data propícia. A oferenda podia ser para um deus específico – ou deusa – mas os preferidos eram Agni, Varuna e Indra. Agni é o deus do fogo. Sua principal função é manifestar-se como fogo no altar do sacrifício, destruindo qualquer demônio que queira tentar interromper o culto. Varuna, o deus do céu, das águas e do oceano celestial, é também o guardião do rta – a ordem cósmica. Responsável por separar a noite e o dia, é o mais importante deus do Riga Veda – o livro de rituais dos Vedas. Indra, o deus dos trovões, da chuva e da guerra, é conhecido por gostar de soma, uma bebida sagrada utilizada nos sacrifícios. É fundamental garantir a boa vontade de Indra – ele está preso numa eterna luta contra as forças do caos e da destruição, e são seus esforços que separam e sustentam o Céu e a Terra. A bebida dos deuses. A bebida ritualística soma aparece nos Vedas e nos textos sagrados de zoroastrismo, a antiga religião persa, que, como o hinduísmo, remonta às primeiras culturas arianas. Produzida a partir do sumo de determinadas plantas, a bebida tem propriedades inebriantes, possivelmente estimulantes e alucinógenas. O Rig Veda descreve-a como “Rei Soma”, proclamando. Já tomamos soma e nos tornamos imortais. Atingimos a luz, os deuses descobriram. O soma era preparado pelos sacerdotes como uma oferenda aos deuses. Abraço. Davi

 

sábado, 6 de abril de 2024

A VIDA E O REINO

 

Cristianismo. Livreto o Reino e a Igreja. Witness Lee (1905-1997). Capítulo II. A VIDA E O REINO. A Bíblia, do princípio ao fim, associa vida com autoridade. Quando o homem é mencionado pela primeira vez, esses dois assuntos são introduzidos. No primeiro capítulo de Gênesis é introduzida a questão da autoridade. Quando Deus criou o homem, ele disse: “Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” Gênesis 1,28. Assim Deus criou Adão, ele conferiu-lhe o direito de governar toda a terra. Mas Gênesis 1 não nos diz tudo o que ocorreu entre Deus e o homem, quando este foi criado. Portanto, o capítulo 2 complementa o registro. Gênesis 1 diz-nos que Deus queria que o homem exercesse domínio por ele sobre a terra e nos diz que tipo de homem deve ser o que vai exercer a autoridade de Deus. Ele deve ser “a imagem de Deus”. O homem que vai governar a terra por Deus deve ser um homem “conforme a semelhança de Deus”, isto é, igual a Deus, de tal maneira que, quando vê esse homem que está dominando, você vê o próprio Deus. O homem que deve governar a terra por Deus não é meramente alguém que exerce autoridade. Ele é alguém que exerce autoridade como representante de Deus. Isso é algo tremendo! É algo transcendente e exige uma vida transcendente para sua realização. É necessário que nos fixemos neste ponto: se o homem deve representar Deus e exercer domínio por ele na terra, esse homem deve possuir uma vida sobrenatural. Ele é incapaz de arcar com uma responsabilidade tão elevada na força de sua própria vida natural. Se ele deve exercer a autoridade divina e ser um representante divino, ele precisa possuir a vida divina. Portanto, assim que Gênesis 1 apresentou um homem a semelhança divina e no exercício da autoridade divina. Gênesis 2 apresenta a árvore da vida. Deus estava indicando que ele queria que o homem participasse da árvore da vida afim de possuir a vida divina. Assim sendo capaz de cumprir as responsabilidades do seu ministério. Somente se a vida incriada de Deus entrasse numa criatura humana é que essa criatura estaria capacitada a representar o Senhor da criação e a governar sobre a terra em nome do Senhor da criação. Você percebe que logo no começo a Bíblia vinculou autoridade à vida? E no final da Bíblia essas duas ainda estão vinculadas. Nos dois capítulos finais de Apocalipse, pode-se ver a vida fluindo do trono, e o trono representa a autoridade Apocalipse 22,1-2. A autoridade está totalmente relacionada a vida. Se você tem a vida, tem autoridade. “Se alguém não nascer de novo, não poder ver o reino de Deus (...). Se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” João 3,3-5. Se queremos tomar parte no reino, precisamos nascer de novo. Precisamos tornar-nos possuidores de uma vida diferente da que possuímos por natureza. Usando uma ilustração do Antigo Testamento, Adão em Gênesis 1, com sua vida terrena, precisa receber a vida celestial de Gênesis 2. Não pense que precisamos nascer de novo porque pecamos. Devemos nascer de novo porque necessitamos possuir uma vida que não temos pelo nascimento natural. É claro que os pecadores precisam nascer de novo, mas se o homem não tivesse caído, o novo nascimento ainda seria necessário. Nosso Senhor Jesus disse a Nicodemos que ele precisava receber a vida de Deus para que pudesse tornar-se participante do reino de Deus. Você vê que aqui, uma vez mais, a vida e o reino estão vinculados? Você pode dizer: “Oh tudo isso é muito bom, mas está além da minha capacidade! Verdadeiramente quero submeter-se à autoridade de Deus, porém simplesmente não consigo! Eu sou muito fraco”. Sim, todos nós somos muito fracos, pois somos filhos de Adão. Somos todos filhos do pó, somos todos muito terrenais. E as coisas da terra são frágeis demais. Um pequeno golpe e elas se fazem em pedaços. Assim somos nós. E não somos apenas criaturas frágeis, somos criaturas caídas. Somos rebeldes por natureza. Não temos força para nos submeter a Deus, todavia temos muita força para nos rebelar contra ele. Temos de confessar que nossa vida natural é uma vida rebelde, que não consegue submeter-se a Deus. A vida que temos por nosso nascimento natural é totalmente incapaz de se render à sua autoridade. E totalmente incapaz de estar sob o governo de Deus. Quando os discípulos ouviram o Senhor Jesus falar sobre o reino, eles deram um suspiro e disseram: “Quem consegue? E o Senhor respondeu: “Isso é impossível aos homens”. Deixe-me usar uma ilustração aqui. Um cachorro não pode voar. Voar é algo absolutamente impossível para o cachorro. Mas o pássaro faz com facilidade. Para um pássaro, voar pelos ares é a coisa mais simples. A vida de um cachorro é uma vida que não consegue voar, a de um pássaro é uma vida que voa facilmente. O pássaro tem o tipo de natureza que voa, e ele sofreria muito se você não o deixasse voar. Assim, se quiser que o cachorro rasteje por um buraco ou escale uma colina, ele conseguirá fazê-lo, mas peça-lhe para voar e ele não conseguirá. É uma questão de vida. Nossa vida natural corrompida não consegue submeter-se a Deus. Precisamos de outra vida para isso. Precisamos da vida de Deus. O novo nascimento é Deus vindo para dentro do homem. De maneira que o que era antes impossível para o homem torna-se agora possível. “Para Deus tudo é possível” Mateus 19,26. Nosso problema de autoridade não é problema para Deus. Quando temos sua vida, é a coisa mais natural estar sob sua autoridade. É tão espontâneo como um pássaro voar. Se reprimimos a vida divina em nosso interior não a deixamos submeter-se à autoridade divina, então, sofremos como um pássaro na gaiola. Mas quando nos submetemos ao controle divino somos maravilhosamente libertados. Quanto mais nos submetemos, mais libertados somos, até que, como disse Isaias, podemos subir “com assas como águias” Isaías 40,31. Você percebe que o reino está relacionado à vida? As exigências do reino são terríveis, mas a provisão da vida divina é equivalente a todas as suas exigências. Um evangelho pleno apresenta o sangue precioso para limpar da corrupção e a vida para suprir a força que nos torna participantes do reino. O evangelho apresenta estas três coisas: o reino, o sangue e a vida. O reino faz suas exigências, contudo em razão da purificação que vem mediante o sangue precioso e da força que vem por meio da vida divina. Mesmo nós, que por natureza somos criaturas caídas,  podemos viver a vida do reino. Louvado seja Deus, pois a própria fonte da vida está em nosso interior, a saber o próprio Deus! O Deus que do trono fax suas exigências. Ele mesmo as satisfaz. Do trono, ele exige que nos submetamos a ele, e do nosso interior ele supre a vida que se submete a ele. Isso não exige nosso esforço, todavia nossa cooperação. Não é necessário que façamos, mas é preciso deixarmos que ele faça. De outra maneira, como poderiam ser satisfeitas as exigências do reino? Ouça essas exigências elevadas: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao perverso. Antes, a qualquer que te fere na face direita, volta-lhe também a outra. E ao que quer (...) tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa” Mateus 5,38-40. Quando li estas palavras em minha juventude, pensei: Oh! Eu não consigo fazer isso! E jamais em toda a minha vida serei capaz de fazê-lo. Por isso tenho de desistir de ser um cristão. Não posso ser um falso cristão, tampouco posso ser um cristão verdadeiro. Por isso não posso ser cristão de maneira alguma. Não há nenhuma saída! Mas uma voz em meu interior disse: Você não pode deixar de ser cristão. Eu queria recuar, mas não podia, queria avançar e não conseguia. Oh! Que coisa triste! Por muito tempo estive em grande perplexidade, contudo um dia Deus mostrou-me que o que eu tentava fazer era totalmente impossível. E ele jamais pretendera que eu tentasse fazer. Imagina tentar alcançar tal padrão: “Sede vos perfeitos como perfeito é o vosso Pai Celeste” Mateus 5,48. Naquele dia a luz raiou e pude louvar a Deus por ele ser meu Pai e porque a vida do Pai em mim capacitava-me a ser perfeito. Não se trata da nossa capacidade de fazer algo, porém de darmos nosso consentimento para ele fazer. Se não consentimos, ele é incapaz. E aí que frequentemente está o problema. Ele quer, mas nós não queremos. As exigências do reino jamais podem ser cumpridas pelo homem, e Deus jamais esperou que o homem as cumprisse. As exigências que ele faz, ele mesmo as cumpre, e essa é a graça revelada no Novo Testamento. No Antigo Testamento a lei fazia suas exigências para o homem, porém no Novo Testamento é o reino que faz exigências. Essas, do reino, são muito mais severas que as da lei. As exigências da lei provaram quão impotente o homem é. Agora, as exigências do reino provam, não quão incapaz é o homem, mas quão capaz é Deus. Não é necessário que as exigências do reino provem a incapacidade do homem, pois isso já foi definitivamente provado pelas exigências da lei. Hoje, as exigências do reino servem para demonstrar a infinita capacidade de Deus. Ele se tornou nossa vida para que ele mesmo, em nós, possa satisfazer a todas as exigências que o seu reino impõe. É importante perceber que a vida de Deus nos foi dada por causa do seu reino Se não o deixamos estabelecer seu trono em nossa vida e vindicar sua autoridade sobre nós, sua vida não pode operar em nós. Deus pôs sua vida em nós com o propósito específico de satisfazer às exigências do reino e, se não permitirmos que ele estabeleça seu reino em nós, sua vida em nós não pode funcionar. Deixe-me usar uma ou duas ilustrações. Uma irmã veio ter comigo com seus problemas e, depois de falar um pouco, disse algo assim: “Na verdade, não tenho nenhum problema, a não ser meu mau temperamento. Continuo perdendo a paciência com meu marido e com meus filhos, mas quanto mais oro para obter vitória, mais meu temperamento me vence. Por que isso ocorre? Sei que o Senhor Jesus é meu Salvador, por que ele não me salva de meu mau temperamento? Sei que o Senhor ouve as orações. Por que, então, ele não ouve as minhas preces a esse respeito? Sei que a vida dele é poderosa. Por que sua vida poderosa não consegue vencer meu pequeno temperamento?”. Tudo o que ela disse era bastante racional. A vida do Senhor Jesus em nós é uma vida poderosa, e ele é alguém que ouve e responde as orações. Por que, então, esse temperamentozinho não é vencido? Por favor, não me interprete mal quando digo que a vida do Senhor foi colocada em você e em mim para satisfazer as exigências do grande reino de Deus e não para satisfazer nosso temperamentozinho. Então, eu disse aquela irmã: Quem é o Senhor da sua vida: você ou o Senhor? A autoridade está em suas mãos ou nas dele? E quando ela arrazoou novamente a respeito do seu temperamento, perguntei-lhe outra vez: Quem está no trono da sua vida, você ou Deus? Quando enfatizei esse ponto e não lhe dei uma escapatória, finalmente veio a resposta: Eu estou no comando da minha vida. Então eu disse: Irmã, que mais é necessário dizer? Você está no trono e quer que o Senhor a ajude. Se ele não está no lugar de autoridade em sua vida, como pode. Ele fazer algo por você? Esse é todo o nosso problema hoje. Por que a vida poderosa de Deus não consegue tratar com nossos temperamentozinhos? A questão não são os pequenos ou grandes problemas, a questão é: Quem está no trono? Você está sempre esperando que Deus se limite ao trono, nos céus, enquanto você ocupa o trono em sua vida. Então você é incomodado por suas fraquezas e pecados e invoca o Senhor para que lhe ajude. Você clama a ele: O Senhor não é o Todo-Poderoso? Não prometeu responder as orações? Será que o Senhor suporte ver seu filho vivendo uma vida derrotada? Sim. Ele suporta vê-lo derrotado e o deixará assim até que perceba que ele pôs sua vida em você para estabelecer seu reino em você. Você deve deixá-lo possuir o trono. Deixá-lo tomar o controle. Deixe-o estabelecer seu reino em sua vida. Então cada inimigo será derrotado. Já não haverá necessidade de orar por suas fraquezas, pois se ele tem seu lugar no trono da sua vida, todo inimigo será vencido. Nos dias do Antigo Testamento, quando Jeová tinha seu lugar com Rei de seu povo, todos os inimigos foram subjugados por ele. Todavia quando os israelitas recusaram que Deus tivesse o domínio, seus inimigos predominaram sobre eles. Seus inimigos tomaram a cidade santa – Jerusalém, destruíram o templo, carregaram a arca e levaram cativo o povo de Deus. Certa vez, um irmão veio a mim e disse algo assim: “Por que será que meu ministério de pregação é tão fraco? Eu oro muito a esse respeito. Às vezes jejuo e oro, e as vezes gasto toda uma noite em oração antes de aceitar um convite para ministrar. Por que ainda não tendo poder? Minha resposta foi a mesma de antes: “Quem está no controle de sua vida?” Eis aí toda questão. Se você tenta limitar Deus no trono no céu e recusa-lhe o trono da sua vida. Todo seu clamor por ajuda de nada valerá. Não se trata de haver fraqueza ou poder, porém de quem está no trono. Lemos a respeito do rio de água viva e que “e desde e daquele lado do rio está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto a cada mês” Apocalipse 22,2. Onde quer que esse rio flua, toda necessidade é suprida. Mas de onde veio esse rio? “E mostrou-me o rio da água da vida (...) que sai do trono de Deus e do Cordeiro” Apocalipse 22,1. A vida está sempre associada com o trono. Quando nos submetemos à autoridade de Deus e deixamos que ele estabeleça seu reino em nossa vida. Somos mantidos em vitória e em plenitude de vida, pois, então, nós também estaremos em autoridade. Livreto O Reino e a Igreja. Abraço. Davi.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

O CONCEITO DE DEUS PARA JUDEUS E CRISTÃOS. Parte I

 

Judaísmo. Livro Judaísmo e Cristianismo – As Diferenças. Por Trude Weiss Rosmarin (1908-1989). Capítulo I. O CONCEITO DE DEUS PARA JUDEUS E CRISTÃOS. Parte I. A maior e fundamental diferença entre as duas religiões é que o judaísmo está comprometido com o puro e inflexível monoteísmo, e o cristianismo é partidário da crença da natureza trinitária do Ser Divino. O Trinitarianismo, que significa a crença e fé no “Pai, Filho e Espírito Santo” é tão fundamental e relevante para todas as formas e denominações de cristianismo, como é contrário a tudo que o judaísmo considera sagrado. Para o incondicional monoteísmo judaico, a doutrina da Trindade é profundamente objetável porque trata-se de uma concessão ao politeísmo ou, de certa maneira, uma adulteração da ideia de “Um”, Único”, “indefinível” e “indivisível” Deus. A façanha revolucionária da religião mosaica antiga foi a completa ruptura com os cultos às várias divindades, e a incondicional e franca adoração do Deus único. Por séculos e séculos, os profetas judeus, sábios e mestres se empenharam em prol de um melhor e mais perfeito conhecimento do Ser de Deus. Várias definições de Deus existiram no judaísmo, porém todas no âmbito de que Deus é “Um”, a “Unidade da Unicidade” indivisível. Conceitos distintos de Deus foram evocados em diferentes épocas, mas há um aspecto que nunca foi colocado em discussão, devido ao seu caráter axiomático: a indivisível “Unicidade” de Deus a qual sempre foi interpretada como significado de unicidade qualitativa e quantitativa. A “Unidade” de Deus, além de sua “Unicidade”, deve ser enfatizada, se quisermos manter a pureza do monoteísmo inalterada. Mera unicidade quantitativa permite, logicamente adições, aumentos ou divisões, com é evidente no Trinitarianismo cristão. Uma vez, entretanto, que a singular característica, não existe mais qualquer fundamento para dividir ou adicionar ao Ser de Deus, Schopenhauer (1788-1860), apesar de suas amargas investidas contra o judaísmo, ainda assim merece o crédito de ter reconhecido esse fato. Ao afirmar que “ao judaísmo” não se pode negar o mérito de ser a única religião genuinamente monoteísta na face da Terra. Não existe outra que possua um Deus objetivo, o Criador do céu e da Terra”. O princípio judaico da Unicidade de Deus também inviabiliza a crença em qualquer outra força criativa além Dele. Satã, o poder do mal, desenvolve importante papel no cristianismo. O judaísmo não reconhece Satã como força criativa do mal em oposição ao benevolente poder criativo de Deus. Somente reconhece um Criador, que criou a luz e a escuridão e que criou o ser humano e a boa e a má inclinação. Assim como a faculdade do livre-arbítrio ético. Um judeu, portanto, não teme o Satã pois, como um ditado chassídico vigorosamente coloca, aquele que teme qualquer coisa além de Deus, será culpado de idolatria. Pois medo é uma espécie de tributo ao poder que se teme, e um tributo somente pode ser ofertado a Deus. Apesar de o judaísmo desejar que seus seguidores meditem e reflitam sobre o Ser de Deus, também deixa registrado que Deus é incognoscível e não pode ser definido ou entendido pelo limitado intelecto do ser humano. Mas existe algo que sabemos a respeito de Deus, que Ele é uma Unidade indivisível. Essa certeza de a eterna impossibilidade de uma pessoa realmente entender e conhecer Deus, apesar de poder glorificar sua Unicidade, nunca foi tão categoricamente expressado como no põem: “A Coroa Real”, de Salmão Ibn Gabirol (1021-1058); “Tu és Único, ponto de partida de todo número, base de toda estrutura. Tu es Único, e o sábio de coração permanece assustado com o mistério de Tua Unicidade, pois não sabe o que ela é. Tu és Único e Tua Unicidade não pode ser diminuída, pois não sabe o que ela é. Tu és Único, não como algo possível ou contável, pois de Ti não se concebe crescimento algum e nenhuma mudança. Tu és subsistente, e não há ouvido que Te ouça, não há olhar que Te veja. Não há onde, nem como, nem porque, que se possa dizer de Ti. Tu és subsistente, mas em Ti mesmo, e não há outro contigo. Tu és subsistente, mas em Ti mesmo, e não há nenhum outro contigo. Tu és subsistente, foste antes que o tempo fosse, és sem lugar e enches o espaço. Tu és subsistente, e o Teu segredo, que ninguém sabe, quem o pode atingir? Profundamente profundo, quem poderá desvendar-Te? Os filósofos medievais, não foram os primeiros a fazer referência à certeza de que o intelecto limitado do ser humano é insuficiente para atingir o Ser de Deus. Isaías já havia se desesperado com a possibilidade de conhecer Deus por analogia e comparação. “A quem Me compararás, que deveria ser igual”?, Isaías 40,25. Representa a ameaça de Deus ao ser humano, cujo intelecto insignificante ousaria se empenhar para desvendar os segredos de Seu Ser. Deus é “incognoscível” pois, para realmente conhecê-lo, o ser humano teria de possuir faculdades Divinas. Nas palavras de Iedaiá há-Penini: “se eu o conhecesse, seria Ele. O judaísmo, portanto, concede aos seus seguidores liberdade considerável para definir Deus. Isso, entretanto, não tem relação com o Ser de Deus como tal. Pois Ele permanece a Absoluta Unidade do Ser, apesar das diferentes imagens que o ser humano possa ter Dele. Definições subjetivas e individualizadas de Deus, todavia, são legítimas somente se reconhecidas com tal, por necessidade. Porém são apenas tentativas inadequadas de trazer a compreensão de Deus mais próxima do ser humano. “Não deves acreditar” – Deus é representado pelos sábios como tendo se dirigido ao povo de Israel – que existem vários deuses nos Céus porque tiveste várias visões. Sabia que eu sou o único Deus. A mesma certeza foi manifestada por um rabino chassídico aproximadamente quinze séculos mais tarde, ao explicar que o Eterno é aclamado como “Deus dos deuses”, Deuteronômio 10,17. Para nós Ele é um Deus que desafia qualquer definição ou conceito de Seu ser – o que significa dizer que “Ele é exaltado acima de qualquer concepção a qual o ser humano é capaz”. O conceito de que Deus não pode ser definido por qualquer atributo positivo e definitivo foi defendido pelo fiel racionalista Maimônides (1138-1204). O motivo de sua relutância em descrever Deus em termos de atributos humanos foi o reconhecimento de que o ser humano não pode saber o que Deus é. Apesar de ser capaz de saber o que Deus não é nem pode ser – por exemplo, algo que se assemelhe a uma criatura de carne e osso ou qualquer forma de matéria inorgânica ou estrutura orgânica. Em vez de descrever Deus por meio de atributos positivos, Ele foi, portanto, definido por meio de atributos negativos. A ponto de, em vez de dizer que Deus é ativo, os filósofos judeus racionalistas medievais afirmaram que Ele não é inativo etc. Existe uma continuidade na tradição e criatividade judaica. Isso não significa que nada de novo foi acrescentado à cultura judaica no decorrer dos anos, mas somente que todos os acréscimos e criações foram no mesmo espírito de tudo que as precedeu e as sucedeu. Como resultado, encontramos uma tendência de professar o que Deus não é, em vez de o que Ele é, já em vigor nos tempos bíblicos. Ao imprimir sobre Israel o caráter incorpóreo da Revelação Divina no Sinai, o Deuteronômio insiste: “Som de palavras vós ouvistes, porém, imagem alguma não vistes, tão somente uma voz” Deuteronômio 4,12. Consequentemente, segue o aviso: “E guardareis muito vossas almas, porque não vistes imagem alguma do dia em que o Eterno vos falou em Horeb, do meio do fogo”. Se o Maimônides estipulou em seu “Código” que quem quer conceba Deus como ser corpóreo, é um apóstata, ele tão somente extraiu esta conclusão lógica dos ensinamentos bíblicos e das explicações talmúdicas. Provavelmente, nada é tão estranho ao judaísmo quanto a uniformidade. Com certeza, sempre existiu uma certa disciplina, mas, num espaço claramente definido pela Lei, sempre houve uma ampla e notável liberdade de expressão. Devido ao respeito à opinião da minoria, encontramos na Bíblia, e especialmente na literatura talmúdica, afirmações que descrevem Deus em corpóreos quase chocantes. Ao lado de afirmações como “Descrevemos através de imagens emprestadas de suas criaturas, de forma que o ouvido possa compreender ... E que o mundo vindouro a Unidade de Deus será tal que Ele será conhecido somente por um nome. Encontramos várias afirmações que só podem ser entendidas adequadamente se as considerarmos simbolismos. Ou concessões antropomórficas aquelas que acham impossível encontrar conforto espiritual na adoração de um Deus invisível e indefinível. Também houve os que pensassem em Deus exclusivamente em termos espirituais, além dos sábios de mentalidades filosóficas, e os que estavam inclinados a acreditar que Deus era o modelo físico do ser humano criado à Sua imagem. Os rabinos com maior inclinação mística interpretam a bondade de Deus como Aquele que abençoa os noivos, enfeita as noivas, visita os doentes, enterra os mortos e consola os enlutados. Ele é representado obedecendo o mandamento dos filactérios e usando o xale de rezas. Estuda a Torá três horas por dia e se ocupa com os feitos e ações recomendadas ao ser humano como meritórias. Em comparação, entretanto, com a carga impositora das afirmações e ensinamentos sobre a pura espiritualidade e absoluta incorporalidade de Deus, essas criativas e ingênuas opiniões não são levadas em consideração. “Acredito com perfeita fé que o Criador – Abençoado seja seu nome! Não possui forma corpórea e que nenhuma forma pode representá-las. Como parte das preces diárias de um judeu, essa confissão de fé é sua estrela guia na questão de Deus. O que quer que Deus seja, não é um corpo, e não deve ser representado sob qualquer forma corpórea. Essa convicção é responsável pela “pobreza de imagens” das sinagogas das quais toda e qualquer “forma” é banida como sendo perturbação em potencial da concentração na singularidade incomparável da espiritualidade de Deus. A unidade de Deus,  sagrada para o judaísmo, além de tudo mais, é completamente incomparável com a ideia cristã da Triunidade do Ser Divino e, acima de tudo, com a crença da encarnação de Deus no ser humano. De acordo com a crença judaica, Deus é espírito puro, eternamente transcendente e apartado do menor vestígio corpóreo. O cristianismo por outro lado, afirma que Deus se tornou ser humano em Jesus, ensinamento contrário ao verdadeiro espírito do judaísmo. Seria errôneo conceber que o protestantismo moderno, de qualquer maneira, nega a crença que Deus se tornou o homem através de Jesus. Mesmo o Doutor John A. Mackay (1889-1983), teólogo protestante progressista, afirma de maneira inflexível que “a fé cristã é que Deus estava em Cristo”. E a mensagem da Conferência de Oxford de 1937 determinou que “a verdade base de nossa fé é a autorrevelação de Deus em Jesus Cristo (...) por nós homens e por nossa salvação, ele foi feito homem”. Em outras palavras, conforme coloca o Doutor Harry Emerson Posdick (1878-1969), “cristianismo é a religião da encarnação e sua afirmação central é que Deus pode ter vida Humana”. Não é esse aspecto contrário a todos os ensinamentos judaicos sobre Deus, que enfatizam e ressaltam que Ele não é como o ser humano e nunca se tornará um, ou mesmo se assemelhará a ele? O judaísmo sempre combateu com todas as armas disponíveis a ideia cristã da encarnação, o que significa dizer, Deus vir a ter forma humana. O pensamento que “Deus foi feito homem” choca sobremaneira ao judeu que acredita ser Deus Um e Único e que tal Unicidade consiste também na sua total diferença de qualquer coisa e de tudo inexistente. E de tudo o que o ser humano pode possivelmente imaginar e rotular como sendo “Deus”. Como, então, podem os conceitos de judeus e cristãos sobre Deus serem reconciliados, ou como se pode afirmar que as duas religiões são de fato, verdadeira e basicamente uma? Será que o Um e Único Deus, a Unidade absoluta, incognoscível e indefinível é realmente o mesmo da Trindade cristã que aceita a Triunidade de Deus em três, a saber: Deus o Pai, Jesus é o Filho e o Espírito Santo? Será que a crença espiritual legítima e transcendente judaica num Deus, no qual não existe traço de matéria e que nunca se tornará corpóreo, realmente a mesma que a crença cristã, que glorifica Deus que “foi feito Homem? Apesar da insistência judaica na incorporeidade e pura espiritualidade de Deus. Ele, entretanto, é uma realidade, viva e vital aos judeus através dos tempos. Deus tem sido invariavelmente um Deus pessoal para o judeu observante, apesar de Ele nunca ter se reduzido a uma pessoa. É importante se dar conta que o verdadeiro significado de Deus pessoal, de forma nenhuma é idêntico ao de Deus personificado. Abraço. Davi

segunda-feira, 1 de abril de 2024

INTRODUÇÃO

 

O Livro das Religiões – INTRODUÇÃO. Não existe uma definição simples de religião que expresse todas as suas dimensões. Abrangendo elementos espirituais e sociais, é um fenômeno que aparece em todas as culturas, desde a Pré-história até os dias atuais, conforme evidenciado nas pinturas das cavernas, nos costumes funerários de nossos ancestrais distantes e na contínua busca por um objetivo espiritual na vida. No período Paleolítico e em grande parte da história humana, a religião serviu como forma de compreender os fenômenos naturais e exercer influência sobre eles. Assuntos como tempo, estações, vida, morte, criação, vida após a morte e a estrutura do cosmos estavam sujeitas a explicações religiosas que evocavam deuses controladores ou um plano da realidade fora do âmbito visível, habitado por divindades e criaturas místicas. A religião era um modo de se comunicar com esses deuses por meio de rituais e rezas, e essas práticas, quando compartilhadas por membros de uma comunidade, ajudaram a consolidar grupos sociais, reforçar hierarquias e criar um sentido de identidade coletiva. Quando as sociedades se tornaram mais complexas, os sistemas de crenças acompanharam essa evolução, e a religião passou a ser usada, cada vez mais, como ferramenta política. Conquistas militares costumavam preceder a assimilação do panteão dos derrotados por parte dos vencedores, reinados e impérios eram apoiados por suas deidades e classes sacerdotais. 1. Um deus pessoal. A religião atendia a grande parte das necessidades dos primeiros povos, oferecendo modelos para organizar a vida – por meio de ritos, rituais e tabus – além de servir como base para a compreensão de seu lugar no mundo. Poderia a religião, portanto, ser explicada como um mero artefato social? Muitos afirmam que é muito mais que isso. Ao longo dos séculos, as pessoas desafiaram posições contrárias à sua fé, sofrendo perseguição e morte para defender o direito de cultuar seus deuses. E até hoje, numa era mais materialista do que nunca, mais de três quartos da população mundial admite possuir algum tipo de credo religioso. Pelo que se vê, a religião é uma parte necessária da existência humana, tão importante para a vida quanto a própria linguagem. Seja como experiência pessoal – a consciência interna do divino – ou como forma de encontrar significado e sentido na vida e servir como ponto de partida para qualquer empreendimento. A religião parece ser fundamental tanto no nível pessoal quanto no social. 2. Primórdios. Sabemos sobre as religiões das primeiras sociedades pelas relíquias deixadas e pela história de civilizações recentes. Além disso, algumas tribos isoladas em lugares remotos, como a floresta amazônica na América do Sul, as ilhas indonésias e parte da África, ainda praticam religiões aparentemente inalteradas há milênios. Os praticantes dessas religiões ancestrais, de um modo geral, creem na união entre a natureza e o espírito, vinculando inextricavelmente o indivíduo a seu meio. Homero: “Todo homem tem necessidade de deuses”. Com a evolução das primeiras religiões, suas cerimônias e sua cosmologia se tornaram cada vez mais sofisticadas. As religiões primitivas dos povos nômades e seminômades da Pré-história deram lugar às religiões das civilizações antigas, e posteriormente, das civilizações clássicas. Seus credos são vistos com certo desprezo hoje em dia, considerados “mitologia”. Mas muitos elementos dessas tradições narrativas milenares permanecem presentes nos credos atuais. Religiões foram adaptadas, antigos credos foram absorvidos pela religião da sociedade que as sucedeu e novos credos surgiram, com diferentes observâncias e rituais. 3. Do antigo para o moderno. É difícil precisar o momento em que muitas religiões começaram, sobretudo porque suas raízes estão na Pré-história e as fontes que descrevem suas origens datam de períodos muito menos remotos. No entanto, a religião considerada como a mais antiga ainda existente é o hinduísmo, com raízes nas religiões tradicionais do subcontinente indiano e compilada nos escritos dos Vedas, do século XIII a.C. Dessa tradição védica vieram não somente a religião pluralista que conhecemos hoje como hinduísmo, mas o jainismo, o budismo e, mas tarde, o sikhismo, no século XV. Enquanto isso, outros sistemas de crenças se desenvolveram no Oriente. A partir do século XVII a.C. as dinastias chinesas estabeleceram seus estados e impérios. Onde surgiram religiões populares e uma devoção ancestral, que mais tarde foi incorporada nos sistemas de crença mais filosóficos do taoísmo e do confucionismo. No Mediterrâneo Oriental, religiões egípcias e babilônicas ainda eram praticadas quando as novas cidades-estados da Grécia e de Roma desenvolveram suas próprias mitologias e seus panteões. Mais para o Leste, o zoroastrismo – a primeira grande religião monoteísta conhecida – já havia se estabelecido na Pérsia, e o judaísmo surgiu como a primeira religião abraâmica, seguido pelo cristianismo e pelo islamismo. Muitas religiões reconhecem a importância específica de um ou mais indivíduos com fundadores de seu credo. Como personificação de Deus – Jesus e Krishna – ou receptor de uma revelação divina especial – Moisés e Maomé ou Mohamad. As religiões do mundo moderno continuaram a evoluir junto com os avanços da sociedade, mesmo com certa relutância, e geralmente se ramificaram. Algumas religiões aparentemente novas despontaram, sobretudo nos séculos XIX e XX, mas com características evidentes de credos anteriores. 4. Elementos da religião. A história humana testemunhou a ascensão e a queda de inúmeras religiões, cada uma com seus próprios credos, rituais e mitologia. Embora algumas sejam similares e consideradas ramificações de uma tradição maior, existem muitos sistemas de crenças conflitantes e contraditórios. Issac Thomas Hecker (1819-1888) padre católico  “Não há sentido em disfarçar o fato de que nossas necessidades são as mais profundas. Não teremos paz enquanto elas não forem atendidas”. Algumas religiões, por exemplo, têm uma série de deuses, enquanto outras, especialmente as mais modernas, são monoteístas, e existem grandes diferenças de opiniões entre as religiões no tocante a questões como vida após a morte. Podemos, contudo, identificar certos elementos comuns a quase todas as religiões, de modo a examinar semelhanças e diferenças entre elas. Esses elementos – a maneira como os credos e as práticas de uma religião se manifesta – são o que o escritor e filósofo britânico Ninian Smart (1927-2001), especializado em religiões, chamou de “dimensões da religião”. Talvez os elementos mais óbvios para identificar e comparar religiões sejam as observâncias do credo, incluindo rezas, peregrinações, meditação, jejum, vestimenta e, claro, cerimonias e rituais. Outro ponto a considerar são os aspectos físicos, artefatos, relíquias, lugares de adoração e locais sagrados. Há também um aspecto mais subjetivo os elementos místicos e emocionais e como um observante vivencia a religião para alcançar o nirvana. A iluminação ou a paz interior, por exemplo, ou ainda para estabelecer um relacionamento pessoal com o divino. Outras características da maioria das religiões são os mitos fundadores ou narrativas que as acompanham. Isso pode ser uma simples tradição oral de histórias ou um conjunto mais sofisticado de escrituras. Todavia, em geral, inclui a história da criação e os relatos de deuses, santos ou profetas, com parábolas que ilustram e reforçam seu credo. Toda religião existente possui um conjunto de textos sagrados que expressam suas ideias centrais e narram a história da tradição. Esses textos, que em muitos casos se acredita que tenham sido passados diretamente por uma divindade, são utilizados nos rituais e na educação religiosa. Em muitas religiões, além dessa narrativa, há um elemento mais sofisticado e sistemático que explica sua filosofia e doutrina, expondo uma teologia singular. Alguns desses textos secundários acabaram adquirindo status de cânones. George Santayana filósofo espanhol (1863-1952) “A religião que um homem terá é um acidente histórico, tanto quanto o idioma que falará”. É comum haver também um elemento ético, com regras de conduta e tabus, e um elemento social que define as instituições da religião e da sociedade em que ela está inserida. Essas regras costumam ser concisas – os Dez Mandamentos do judaísmo e cristianismo. Ou o Nobre Caminho Óctuplo do budismo, por exemplo. 5. Religião e moralidade. A ideia de bem e mal também é fundamental em muitas crenças, e a religião normalmente tem a função de fornecer orientação moral à sociedade. A definição do que constitui uma “vida boa” difere na maior parte das grandes religiões – e a linha divisória entre filosofia moral e religião – é bastante tênue em sistemas de crenças como o confucionismo e o budismo. Porém existem certos códigos morais básicos que são quase universais. Tabus, mandamentos e outros preceitos religiosos, além de garantir que a vontade de Deus ou dos deuses seja obedecida. Isso forma um modelo social e legal que possibilita a convivência pacífica. A liderança espiritual, que em muitas religiões era atribuída a profetas com inspiração divina, passou para a classe sacerdotal. Esse regime se tornou parte essencial para muitos credos, em alguns casos com grande influência política. 6. Morte e vida após a morte. A maioria das religiões aborda a questão da morte, a principal preocupação da humanidade, com a promessa de algum tipo de existência após a morte. Nas tradições orientais, como o hinduísmo, acredita-se que a alma reencarne após a morte, assumindo uma nova forma física. Enquanto outras religiões afirmam que a alma é julgada e vai para um céu ou inferno não físico. O objetivo de se libertar do ciclo de morte e renascimento ou atingir a imortalidade motiva os seguidores religiosos a seguir as regras de sua fé. 7. Conflito e história. Assim como as religiões criaram coesão nas sociedades, elas também foram fontes – ou propagadoras – de muitos conflitos. Albert Einstein (1879-1955) “Todas as religiões são ramificações da mesma árvore”. Apesar de todas as grandes tradições sustentarem que a paz é uma virtude essencial, elas fazem uso de força em certas circunstâncias, por exemplo, para defender seu credo ou aumentar seu poderio. A religião serviu como pretexto para a hostilidade entre poderes ao longo da história. Embora a tolerância também seja considerada uma virtude, muitos foram perseguidos por suas crenças, e a religião serviu como subterfúgio para genocídios consumados, como o Holocausto nazista. 8. Desafio à fé. Em face dos aspectos negativos da crença religiosa e respaldados pelas ideias da filosofia humanista, inúmeros pensadores questionaram a própria validade da religião. As religiões, argumentaram eles, são cosmologias lógicas e coerentes baseadas na razão, não na fé. De fato, as religiões tornaram-se irrelevantes no mundo moderno. Novas filosofias, como o marxismo-leninismo, consideraram as religiões como uma força negativa no desenvolvimento humano. Dando origem a estados comunistas, explicitamente ateístas e antirreligiosos. 9. Novas orientações. Em resposta a mudanças sociais e avanços científicos, algumas religiões antigas fizeram adaptações em seu modelo ou se ramificaram. Outras rechaçaram convictamente o que consideram um progresso herético em um mundo cada vez mais racional, materialista e ímpio. Movimentos fundamentalistas cristãos, islâmicos e judaicos, ganharam muitos adeptos, que rejeitam os valores liberais do mundo moderno. Ao mesmo tempo, muitas pessoas, reconhecendo uma falta de espiritualidade na sociedade moderna, voltaram-se para as denominações carismáticas das grandes religiões. Ou para os diversos novos movimentos religiosos que surgiram nos últimos duzentos anos. Outras, influenciadas pelo movimento da Nova Era do final do século XX, redescobriram antigos credos ou procuraram o exotismo das religiões tradicionais sem conexão com o mundo atual. Não obstante, as grandes religiões continuam crescendo, e, até hoje, pouquíssimos países podem ser considerados sociedades realmente seculares. Abraço. Davi.