quarta-feira, 5 de agosto de 2026

RAJA VIDYA - RAJA GUHYA YOGA - A SUBLIME CIÊNCIA E O SOBERANO

Hinduísmo. Bhagavad Gita - A Mensagem do Mestre. RAJA-VIDYA - RAJA-GUHYA YOGA - A SUBLIME CIÊNCIA E O SOBERANO. Capítulo IX. A quem tem a verdadeira fé, inabalável esperança e o divino amor, pode ser comunicada a mais sublime Ciência e revelado o Soberano Segredo, que é a presença Divina na Humanidade. 


1.Fala o Verbo Divino: A ti, ó Arjuna, cujo coração está livre de contradição, ensinarei agora a misteriosa ciência suprema. A Ciência dos Reis (Raja-vidya) e o Real Segredo (Raja-guhya). Cujo conhecimento te tornará para sempre livre do mal e da desventura. 2.Esta ciência é o mais alto conhecimento, o mais profundo mistério, o perfeito purificador, compreensível pela intuição, eterna, infalível e facilmente praticável. 3.Aqueles que não a possuem, não podem chegar a Mim e, por isso, depois de desencarnados, voltam a se reencarnar neste mundo. 4.Todo este universo, tanto em suas partes, como em sua totalidade, é uma emanação minha, e Eu o penetro em minha natureza invisível, Eu que sou o Imanifesto. Todas as coisas de Mim provêm, mas Eu não tenho origem nelas. Em Mim estão todas as coisas, mas Eu - em minha divindade - não estou circunscrito por elas. 5.Não penses que todas as coisas sejam Eu mesmo. Eu sou o sustentador de tudo, penetro tudo, mas não sou limitado nem encerrado nisso. 6.Com o vasto volume de ar, em toda a parte presente e em constante atividade. É sustentado e contido dentro do éter universal, assim todas as coisas em Mim estão, no Imanifesto. Pondera bem, ó Arjuna, sobre este mistério. 7.No fim de um Kalpa (Um Kalpa, período de atividade criadora, é um dia de Brahma, que dura 4.220.000.000 de anos solares. Corresponde ao que os teósofos chama uma Cadeia planetária), todos os seres e todas as coisas refluem em minha natureza imaterial. E, no princípio de outro Kalpa, torno a emanar de Mim todas as coisas e todos os seres. 8.Por meio da minha natureza material, emano todas as classes de seres e coisas que constituem o universo. Dando-lhes nova existência, a minha Vontade os vivifica. A natureza por si mesma é impotente pra fazê-lo. 9.Mas todas estas obras, ó principal! Não me alteram e não me limitam. Sou superior e indiferente a elas. 10.Obedecendo a minha vontade, a natureza cria e destrói, produzindo os seres animados e inanimados. Eis a razão por que o universo se move. 11.Os que carecem da verdadeira Luz espiritual desprezam-Me, quando apareço em forma humana. Porque desconhecem a minha verdadeira natureza e ignoram que sou o Senhor Supremo. 12.Vaidosos são eles em suas esperanças, egoístas em suas ações, tolos em seu saber e sem conhecimento da Verdade, vivendo nos planos inferiores da consciência, onde a malícia, a brutalidade e o engano dominam. 13.Mas os homens iluminados, que têm desenvolvido a sua natureza superior, participam do meu Ser Divino e adoram-me com o ânimo sincero. Com a dedicação completa dos seus corações, porque me reconhecem como a Infinita e Eterna origem de tudo. 14.Tendo vivo conhecimento do meu poder, com seriedade me procuram, com vontade firme, fé inabalável e coração puro Me adoram. Nunca se desviando do caminho que a mim conduz. 15.Outros me adoram pelo sacrifício de conhecimento, contemplando em todas as coisas a minha Natureza Indivisível. 16.Eu sou presente em toda adoração, sim, Eu mesmo sou a adoração. Eu sou o sacrifício, a oblação e os perfumes sacrificiais. Eu sou a prece e a invocação. Eu sou o fogo que consome o sacrifício. 17. Eu sou o Pai do Universo e igualmente a Mãe. Eu sou a origem e o conservador de tudo. Eu sou o objeto do verdadeiro conhecimento. Eu sou a palavra mística AUM. Eu sou o Rig, Salma e Yajus-Veda (isto é tudo a ciência). 18.Eu sou o Caminho, o Criador e o Sustentador. O juiz e a testemunha, o abrigo e a morada, o amigo, o Princípio e o Fim. A criação e a destruição, o espaço e o conteúdo, o semeador e a semente Eterna que dá frutos perpetuamente. 19.Eu produzo o calor e a luz do Sol. Eu mando e retenho a chuva. Eu sou a morte e a imortalidade, e não obstante, sou um e sempre o mesmo. 20.Os que seguem as prescrições dos Vedas oferecendo muitos sacrifícios, bebendo o Soma (Soma é a bebida dos brâmanes, extraída de uma planta rara. Corresponde à ambrosia ou néctar dos gregos e a eucaristia dos cristãos) sagrada e purificando-se dos pecados. Imploram o caminho do céu, serão admitidos no céu de Indra (O céu de Indra é o mais alto dos céus onde, porém, ainda existe a ilusão da separatividade dos seres, e por isso, não pode ser o estado perfeito e eterno. Também ali há mocidade e velhice, isto é, as forças espirituais exaurem-se, o espírito entra na inconsciência e torna a reencarnar-se nesta terra ou em algum outro planeta). Ali obterão o alimento celeste e gozarão os prazeres dos deuses. 21.Quando, porém, tiverem passado neste estado de delícias tanto tempo quanto mereceram pelas suas obras boas, hão de voltar a esta terra e renascer neste mundo terrestre. Porque, ainda que tenham seguido as prescrições dos Livros Sagrados, eram observadores de formalidade e não chegaram ao conhecimento do Eterno. Dedicaram-se ao que é transitório e, por isso, é transitório o efeito de sua devoção. 22.Mas, quem a Mim unicamente adora e em Mim procura o refúgio, lhe darei a Ventura Imperecível. 23.Entretanto, não te esqueças, [o caríssimo! De que mesmo aquele que adora outros deuses, porque não Me conhece, a mim adora sem o saber. Se ele assim faz com fé e amor, eu aceito a sua adoração e o recompenso segundo seu merecimento. 24.Pois Eu sou o Senhor de todos os sacrifícios, e recebe-os todos. Mas aqueles que não me conhecem em verdade, não podem chegar a Mim, e por isso, hão de caminhar de renascimento em renascimento. 25.Cada um chega ao objeto de sua devoção. De que adoram os antepassados, com eles morarão. Os que adoram os espíritos inferiores, a sua esfera irá. E aqueles que adoram a Mim, em minha Essência, comigo se unirão. 26.Sabe também, ó Arjuna! Que eu aceito toda a oferenda que se me faça com amor. Seja uma folha, uma flor, uma fruta ou apenas gotas de água. Eu não olho o valor da oferenda, mas olho o coração de quem a faz. 27. Por isso, qualquer coisa que faças, quer comas ou bebas, quer recebas ou dês, quer jejues ou ores, sempre pensa em Mim e oferece tudo a Mim. 28. E oferecendo a Mim todas as ações, será livre dos vínculos da ação, e das suas consequências. A tua mente torna-se, assim, bem equilibrada e harmonizada e capaz de unir-se a Mim. 29.A todos os meus filhos no mundo, a todos os viventes, eu olho com igual amor e simplicidade. Todos me são igualmente caros. Não repilo a ninguém e a ninguém prefiro. Aqueles, porém, que me adoram e a Mim se dedicam, esses estão em Mim e Eu neles. 30.Se um grande pecador a Mim se dirige e me dedica o amor de sua alma, é digno de louvor, porque procura a verdade. 31.Em breve ele encontrará o caminho da retidão e, trilhando-o com perseverança, alcançará a Paz Eterna. Pois Eu não abandono a nenhum dos que me adoram em verdade. 32.Cada um que a Mim se dirige acha em Mim o refúgio e anda pelo soberano caminho, mesmo que nascido de família pecadora, seja homem ou mulher, rústico ou peão. 33.Tanto mais os santos brâmanes e os pios reis sábios! Compreende isto, ó príncipe! E considera esta terra como uma morada passageira, transitória. 34.Conhece-Me, adora-Me, fixa em Mim a tua mente e sem distração une a tua vontade a Minha, e nesta união encontrarás a mais perfeita felicidade da tua vida. Abraço. Davi.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

XINTOISMO. Parte II

Xintoísmo - Bushido. XINTOÍSMO. Parte II. Mitologia e influência na formação do caráter e cultura do povo Japonês. Fazendo uma análise a partir do nome, Hayao Kawai, moderno estudioso do Xintô, diz que kagami (espelho) deriva de kage (sombra ou reflexo) e mi (ver). Amaterasu ao aceitar sua imagem refletida no espelho, aceitou também o "lado escuro do seu espírito virgem", isto é, ao se recolher, os oitocentos deuses do Alto Plano dos Céus (Takama-no-hara) ficaram no escuro, mas a Deusa do Sol acabou também experienciando a escuridão do seu espírito. Assim como os humanos têm o lado obscuro e desconhecido da mente, para ser perfeita ela precisava ter a sombra. (KAWAI, 1964, p. 183). O torii Os santuários xintô são precedidos pelos característicos portais torii, numa referência às aves que  contribuíram para a saída da deusa Amaterasu da caverna, intrigada com seu canto (ROCHEDIEU, op. cit., p. 131). Constitui-se de duas traves verticais encimadas por duas horizontais. Postadas antes dos acessos aos santuários, separa "o mundo secular, o exterior impuro do terreno sagrado que envolve o santuário. Traz geralmente os "gohei"4 - tiras de papel branco cortadas em ziguezague dependuradas, indicando a presença de deuses. Ao passar por ele, o visitante do santuário simbolicamente se submete a um ritual de purificação das impurezas acumuladas no mundo exterior" (LITTLETON, op. cit., p.70). O Shimenawa Hoje, comumente vista na entrada dos santuários e nos torii, a corda trançada representa a sombra do sol (ibidem p. 87). É posta também em locais de particulares após ritos de purificação, o que preserva o local de más influências e mantém afastados os maus espíritos (HERBERT, 1967b, p. 115). Simbolicamente indica locais onde estão as oferendas aos kami ou locais sagrados onde habitam (ONO, op. cit., p. 26). O número o oito. O número oito aparece na escritura Kojiki nada menos que 50 vezes e o oitenta, 18 vezes. Isso, segundo Herbert, viria de um ditado popular : "nana korobi, yaoki" (caia sete vezes, levante oito). No entanto, o professor se permite formular hipótese na qual "o número oito e seus múltiplos indicam na grande maioria dos casos, a ideia combinada do perfeito e completo".  Mitologicamente trazem "a ideia do divino e sagrado". (HERBERT, 1964, p. 234). E uma tentativa das forças terrestres de se opor à "influência superior" (HERBERT, 1965, p. 126). Os lados esquerdo e direito Na cultura japonesa o lado esquerdo está identificado com o sexo masculino, e o direito com o feminino. Embora não se encontre uma explicação clara sobre o fato, Herbert mencionando Masao Yamane, falando do sol, diz ser o nascente o lugar honroso, seguido pelo sol pleno e depois o poente. Hidari (esquerdo) refere-se a hi (sol), o masculino, e a direita, migi, refere-se a mi (de mizu), água, elemento feminino (Masao Yamane apud in HERBERT, 1964, p. 237). Os tradicionais quimonos são sempre fechados com o lado esquerdo sobreposto ao direito, quer sejam masculinos ou femininos, de passeio ou mesmo os quimonos esportivos que vemos na prática de esportes de origem japonesa como o judô, kendô, aikidô, caratê etc. A dobradura contrária, com o direito sobreposto, o lado feminino, -  é a dobradura da morte; é como se vestem os mortos, o que vemos por exemplo em filmes como "Okuribito", traduzido por "A Partida", do diretor Yojiro Takita e sugerido numa cena em "Hiroshima, mon amour", do diretor francês Alain Resnais. Vale lembrar que na mitologia, quem morre e desce ao reino dos mortos é a mulher; o êxito do contorno com geração de boas crias  se deu quando ambos obedeceram suas posições. De Izanagi, nascem do seu olho esquerdo, a principal deusa do xintoísmo, Amaterasu e de seu olho direito, o deus Tsukiyomi, de menor importância ainda que Susanowo, nascido do nariz.  A etimologia ideográfica do nome Xintô ( 神道) Como se pode observar, xintô é escrito com dois ideogramas; o primeiro é kami (deus ou deuses) e o segundo é michi (caminho, via, estrada). O ideograma ou kanji, é um sistema de escrita originado a partir da representação pictográfica do objeto que podem se combinar em dois ou mais caracteres para significar um terceiro, cujo significado está necessariamente relacionado aos caracteres que o compõem. O invisível é representado a partir da junção de caracteres do visível. É esclarecedor para entendimento do xintoísmo, o conhecimento da escrita original da palavra nesses caracteres chineses. Sobre o assunto, assim explanamos no site nipocultura:- Kami - 神- Michi - 道10 . O kanji (kami) é formado pelo radical à esquerda (shimesu-hen) que significa por si só, mostrar, apontar, exibir ( verbo shimesu – 示す). Sua origem indica elementos da natureza – o sol, a lua e a estrela – sobre os quais se deposita alguma oferenda – o altar primitivo – indicada pelos traços acima dos símbolos pictográficos. Acreditava-se que os espíritos (os poderosos, da natureza) se manifestavam por esse processo; passou a significar o lugar onde estão os espíritos. O complemento da direita representa nuvens sendo cortadas por um longo e potente raio: isto é a voz dos deuses, os espíritos estão falando; e é exatamente esse o verbo representado por essa parte: (verbo mousu - 申す) falar, declarar, proclamar. É verbo polido, de respeito, usado para declarações formais ou para superior hierárquico. Uma outra origem, citada por Katsumi Yamada, são as costelas e a espinha dorsal na vertical com o significado de corpo erecto. Kami significa então, os espíritos que falam, que se manifestam junto a um altar. Na falta de melhor tradução, o Ocidente traduziu o termo kami por Deus ou deuses. (http://www.nipocultura.com.br/? s=kami&submit=Pesquisar) (Michi) significa caminho, via, estrada. Formado por um radical que significa pés (parte da esquerda) e outro à direita que significa pescoço (kubi). O radical pés dá ideia de movimento, de ir, caminhar, de andar para frente, avançar. Em tempos antigos os homens acreditavam que carregar as cabeças do inimigo como sinal de vitória e eficácia de sua ação, espantava os maus espíritos. Depois, costumavam deixá-las expostas na entrada principal dos povoados. Onde estavam as cabeças era então a estrada, o caminho. ( http://www.nipocultura.com.br/ s=etimologia+michi&submit=Pesquisar) A origem do significado de kami A etimologia do significado aponta diversas origens. Kami significa (HERBERT, 1964, p. 37-39): 1. Com outro kanji (上), superior, em oposição a inferior (shimo  -下- ); 2. Aquele que possui poder superior; 3.  Derivado de kimi, que significa senhor, mestre. 4. Derivado da língua ainu, kamui, aquele que cobre sua sombra. 5. Derivado de kamosu, fermentar. 6. Derivado de kabimoye, germinar e crescer. 7.Derivado de kabi, musgo, líquen 8. Derivado de "kagami" ou "kangami" (espelho). Pelo seu importante papel na mitologia surgem outras explicações relacionadas ao objeto: "o coração do kami é puro como um espelho limpo, sem o menor traço de desordem"(Ansai Yamazaki apud in loco citato);  ainda relacionado ao objeto, o termo derivaria de: 8.1 "kagayaite mieru", o que se vê brilhante; 8.2 "akami" (abreviado de akiraka-ni-miru", o que vê tudo   claramente; 8.3 "kamu gami", brilhante-ver, isso porque "o Espírito divino, tal um claro espelho,     reflete todas as coisas da Natureza, operando com uma justiça imparcial, sem tolerar um só grão de mácula"(idem); 8.4 "kakushi-mi", aquele que se esconde; 8.5 "kakuri-mi" ou "kakure-mi", pessoa ou corpo oculto; 8.6 "kagemi", corpo da sombra; 8.7 "kashi-komi", medo reverencial, respeitoso;8.8. uma combinação de "ka", oculto, misterioso, invisível, intangível,  "respeitar algo oculto ou indistinto como uma sombra ou o perfume de uma flor" e "mi", a plenitude ou a maturidade, o que respeita o visível ou tangível. Kami seria então, ao mesmo tempo entidade madura, invisível e intangível; 8.9 uma combinação de "ka", estranho, e "mi", pessoa; kami seria então uma pessoa "dotada de uma substância misteriosa e maravilhosa"; 8.10 uma combinação sutil de "fogo" (ka) que queima verticalmente e "água" (mi), que escorre horizontalmente; 8.11 uma combinação de "ka", prefixo demonstrativo e "mi", por "hi", o sol. O conceito de Kami O conceito de kami está mais próximo dos deuses das religiões politeístas com suas virtudes e fraquezas, do que do deus todo poderoso do monoteísmo (GRIFFIS, 1895, p. 70-71).  Motoori Norinaga, estudioso do xintoísmo, propôs o conceito: “o que quer que fosse altamente impressionante, possuísse a qualidade de excelência e virtude, e inspirasse um sentimento de temor respeitoso” (HERBERT, 1977, p.15). Qualidade de excelência significa poderes além dos do homem, como as forças da natureza, do destino, da sorte e também os espíritos de grandes homens, os que têm enorme poder espiritual sobre a vida humana como o Imperador. As forças da natureza são as forças "misteriosas e temíveis, como os astros, as montanhas, os rios, os mares, o vento, os animais selvagens, as rochas e as árvores". (SIEFFERT, op. cit., p.12). Estas e os santuários xintô guardam estreita intimidade - indefectivelmente há várias árvores no entorno dos santuários. Kami é também tratamento honorífico de nobreza, dispensado pelos japoneses para os sagrados espíritos, que são dignos de reverência pela sua virtude ou autoridade (ONO, op. cit., p. 6). "É apenas o ser superior, que pode ser divindade celestial ou nascida no céu ou mesmo o espírito de falecidos imperadores, sábios ou heróis" (HITCHCOCK, 1893, p. 491).  Escreve o prof. Ono, complementando : Também considerados como kami são os espíritos guardiães de território, de ocupações e de habilidades; os espíritos de heróis nacionais, homens que se destacaram pelas ações ou virtudes e aqueles que contribuíram para a civilização, cultura e bem estar da humanidade; homens que morreram pelo país  ou pela comunidade (m. t. ONO, op. cit. p. 7). Na falta de termo mais adequado, o Ocidente traduziu kami pela ideia que mais se lhe aproximava no seu vocabulário: deus ou divindade, o que torna a tradução inadequada pela simples ideia de bondade e altas virtudes inatas a estes seres, o que não condiz com o caráter de alguns kami, como vimos. Sieffert sugere traduzir por numina, do latim: "nessas condições, traduzir kami por deuses é sem dúvida inadequado considerando-se essa época; melhor seria numina, à maneira dos romanos" (SIEFFERT, op. cit., p. 12).5 Sobre o termo, Jung, citando Rudolph Otto, explicita: ...[ o numinoso é] uma existência ou ação dinâmica que não é causada por um ato arbitrário. Ao contrário, a ação apreende e domina o sujeito humano, que é antes sua vítima do que seu criador. O numinosum, qualquer que seja sua causa, é uma condição do sujeito, independente  de  sua vontade.... esta condição deve ser imputada  a  uma   ordem    exterior   ao    indivíduo. O  numinosum é ou a qualidade  de   um  objeto visível ou a influência de uma presença invisível que causa uma transformação especial da consciência (JUNG, 1965, p. 12). Mas não apenas com o sentimento de reverência, temor, respeito e admiração o japonês cultua os espíritos superiores como kami. Pessoas que morrem pelo país ou pela comunidade, ou o ser humano comum, fraco e digno de pena, também pode se tornar um kami e ser reverenciado (ONO, op. cit., p. 7). Jean Herbert, francês, estudioso do xintoísmo, relata-nos singular caso ocorrido em Toba, na província de Mie. Toba é cidade litorânea famosa pela produção de pérolas, cujas ostras  são colhidas ainda hoje por mulheres equipadas apenas com máscara, sem provimento de oxigênio. Entre as mergulhadoras havia uma de nome On-be, que fatiava dedicadamente a carne do molusco abalone (awabinashi). Um nobre que passava pelo local viu o trabalho de Onbe e, admirado, levou as tiras de carne seca para o Grande Santuário de Ise como oferenda aos deuses. On-be passou então a regularmente oferecer o produto de seu trabalho no mesmo santuário. Após sua morte, foi venerada como kami sob o nome de Kuguri-kami ( HERBERT, 1967a, p.107-108), e seu trabalho passou a figurar nos envelopes (noshibukuro) e papéis (noshigami) de felicitação no Japão, que trazem invariavelmente no canto superior direito, figura estilizada da fatia de awabi. (http://www.nipocultura.com.br/?p=1278). Esclarece Herbert sobre o kami: Poderíamos dizer que numa acepção geral designa toda entidade digna de veneração e mais estritamente, toda entidade objeto de culto , notadamente num templo. Pode se tratar de um ser extra-terrestre, primitivo ou mais recente, de um ser vivo, humano ou não, ou mesmo de um objeto material, seja natural (rocha, gruta, árvore), ou criado pelas mãos do homem (espelho etc) ( m. t. HERBERT,1977, p.15). O que desperta reverência no objeto é o kami que ali habita; o que se venera, explica Hauchecorne, não é o "fenômeno ou o objeto em si, mas o espírito aí contido que o rege"  (apud in BRILLANT et alii, 1954, p. 172). O kami, não corpóreo, tem apenas funções, enquanto o homem, corpóreo , tem a prática das ações. Assim como os deuses não podem praticar ações que necessitam da corporificação, aos homens não lhes é dada a prática de funções que prescindem do corpo. (Banzan Kumazawa apud in HERBERT, 1964, p.39). O material tem vida pelo kami, que é imaterial. É a deificação da força vital que une espírito e matéria e está em todas as coisas, nos seres animados e inanimados (Chikao Fujisawa apud in HERBERT, 1964, p. 39-40). No xintoísmo, o homem e a força exterior, isto é, a Natureza ou o Todo– o material e o imaterial, o visível e o invisível, são um só (idem). O homem é a própria personificação dessa ideia, ele é o bem no “estado natural”, ou seja, ele é apenas parte de um todo maior, onde estão a Natureza e seus elementos, diferentemente do monoteísmo das religiões ocidentais que funda-se na crença num ser único, supremo, onipotente, criador do homem e de todas as coisas. No Xintô a vida espiritual está relacionada à veneração e comunhão com o kami, à "adoração de suas virtudes e autoridade", assim como a fé no kami implica, na verdade,  comportamento de acordo com a "mente do kami" (ONO, op. cit., p.3. 6). Modernamente o Xintô assumiu visão mais ampla no sentido de se aproximar da psique humana, "da ideia de justiça, ordem, favor divino (bênção)", sem esquecer que a função do kami opera pela harmoniosa cooperação mútua (ibidem p.7). Antes da introdução do budismo e das artes chinesas, os deuses xintoístas não tinham nem imagem nem forma (BRILLANT et alii, op. cit., p. 172). Ainda hoje, salvo os mais importantes, mais frequentemente representados, (Izanagi, Izanami, Suzano-o e Amaterasu), os deuses do xintoísmo são  seres sem imagem que apenas enfeixam um conjunto de características: como os humanos, boas e más. Por entenderem nocivas à consolidação pacífica do país, os Aliados durante a ocupação militar após a Segunda Guerra, proibiram os estudos dos textos do xintoísmo, assim como a participação de funcionários do governo nos cultos dessa religião, considerada sério obstáculo ideológico à ocupação norte-americana como doutrina que fomentara a expansão territorial japonesa após a Reforma Meiji. Algumas crenças xintoístas incomodavam as forças de ocupação, cristãs, entre as quais, a de que o imperador japonês seria um deus. A maioria dos teólogos xintoístas, porém, não  define o que é kami. Assim como os japoneses, sabem o que é kami, isto é, sentem o que é kami, mas, porque nunca precisaram defini-lo, têm a natural dificuldade. O japonês entende o kami intuitivamente, sem necessidade de ser conceito. Página 14. Abraço. Davi

quinta-feira, 30 de julho de 2026

SANTA CATARINA DE ALEXANDRIA

Bibiotecacatolica.com.br. A vida de SANTA CATARINA DE ALEXANDRIA. Conheça a história da virgem e mártir que o único Estado brasileiro que tem o nome de uma mulher homenageia: Santa Catarina de Alexandria (287-305). Venerada como uma grande Mártir do cristianismo, Santa Catarina de Alexandria é a santa que o único Estado brasileiro que tem o nome de uma mulher homenageia, mas pouquíssimos conhecem a origem e a vida desta moça corajosa e forte, que foi capaz de entregar a própria vida em defesa da fé em Jesus Cristo. Neste artigo, você conhecerá a vida de uma jovem virgem que converteu cinquenta filósofos pagãos ao cristianismo, resistiu milagrosamente ao instrumento de tortura construído para matá-la e continua até hoje sendo modelo de santidade para todos os cristãos. Quem foi Santa Catarina de Alexandria. Nascimento e Infância. Catarina nasceu por volta de 287, em Alexandria, uma cidade egípcia, e era filha do rei local, Costes. Por ser uma nobre, recebeu uma excelente educação, estudando filosofia, teologia e artes. Além disso, possuía uma aparência bela e única. Santa Catarina de Alexandria nasceu e viveu num tempo de forte perseguição aos cristãos, especialmente no Império Romano. Conversão ao cristianismo. Santa Catarina de Alexandria foi educada na fé dos pagãos, no entanto, mais tarde, encontrou-se com um eremita cristão que teve forte influência na sua conversão. A tradição conta que a jovem teve uma visão em que Nossa Senhora pedia a Jesus para que aceitasse Catarina como serva, mas Jesus respondeu que antes ela precisava ser batizada. A jovem, então, recebeu o Sacramento e experimentou novamente a mesma visão, e desta vez foi aceita por Cristo como sua serva e esposa. Imperador Maximino Trácio (173-238). Quando o Imperador Maximino, um terrível exterminador de cristãos, foi até Alexandria, apaixonou-se por Catarina e ofereceu-lhe o título de imperatriz. Além disso, também ofereceu riquezas e poder a fim de convencê-la a casar-se com ele, mas para isso ela teria que abandonar a sua fé no cristianismo e aceitar os deuses pagãos. As tentativas foram em vão, pois Santa Catarina permaneceu firme em sua fé e a defendia com ainda mais fervor. O martírio de Santa Catarina de Alexandria. Frustrado e percebendo a forte influência de Catarina na conversão de tantos pagãos ao cristianismo, o Imperador romano decide torturar e matar Santa Catarina de Alexandria. Ele manda fazer um instrumento de tortura terrível composto por rodas cheias de lâminas cortantes e ferros pontiagudos. Milagrosamente, no momento em que Catarina seria torturada, o instrumento desmontou, deixando o imperador ainda mais furioso, que optou por decapitá-la. Uma bela lenda conta que os anjos teriam carregado o corpo de Santa Catarina até o túmulo no Monte Sinai - Egito, Pois ela teria pedido para que nenhum homem tocasse ou visse o seu corpo. Mas a realidade é que o corpo de Santa Catarina foi encontrado no Egito em torno do século VIII (701-800), e foi transferido pelos monges a um mosteiro que ficava sob o monte Sinai. “Quanto ao que se diz, sobre o corpo desta santa ter sido levado ao Monte Sinai pelos anjos, entende-se que em verdade ele foi trazido pelos monges do Sinai ao mosteiro deles, para que pudessem dotar seu lugar dessa grande riqueza. Sabe-se bem que era usado o nome de um hábito angelical como hábito monástico, e que os monges, em razão da pureza de seus costumes, eram chamados antigamente anjos.” 1 Roda de Santa Catarina. O instrumento feito para torturar Santa Catarina de Alexandria, que era uma espécie de roda com lâminas e ferros feitos para triturar o seu corpo, ficou conhecido como a roda de Santa Catarina. Por este motivo, a Santa é também intercessora daqueles que trabalham com rodas, como carpinteiros, torneiros e amoladores. Padroeira dos Filósofos. Furioso, após oferecer riquezas e poder à jovem Catarina e ter sido recusado por ela, o Imperador Maximino decide chamar 50 dos melhores pensadores e filósofos da época, a fim de disputar com ela e convencê-la de que estava errada. E mais uma vez a tentativa de Maximino é frustrada, porque Santa Catarina era dotada de uma inteligência e uma fé inigualáveis. Além disso, ela recebeu um auxílio divino para defender a fé cristã diante dos sábios pagãos. A consequência da disputa foi a conversão dos cinquenta homens à fé católica. Todos foram terrivelmente perseguidos e mortos pelo Imperador. Por esse motivo, Santa Catarina de Alexandria se tornou alvo de devoção dos filósofos e intelectuais que, assim como ela, desejam sempre defender a verdade e obter conhecimento e sabedoria. Você sabia que muitos santos da Igreja foram filósofos? Conheça a história de alguns deles neste artigo. O legado de Santa Catarina de Alexandria. Canonização e devoção. O dia em que celebramos a memória da Virgem, Santa e Mártir, Catarina de Alexandria é o dia 25 de novembro. A festa em honra à santa foi incluída no calendário pelo Papa João XXII (1249-1334), no século XIV. Que possamos tê-la como exemplo e inspiração de santidade e de defensora da única e verdadeira fé, a fé em Jesus Cristo. Abraço. Davi

segunda-feira, 27 de julho de 2026

PLURALISMO RELIGIOSO

Budismo. Escrito por Tenzin Gyatso (1935 -  ), o Dalai Lama. PLURALISMO RELIGIOSOS.  A não ser que conheçamos o valor de outras tradições religiosas, é difícil desenvolver respeito por elas. O respeito mútuo é a base da verdadeira harmonia. Devemos ansiar por um espírito de harmonia, não por motivos políticos ou econômicos, mas simplesmente por percebermos o valor de outras tradições. Sempre me esforço para promover a harmonia religiosa. Usar a fé religiosa para promover valores humanos básicos é algo muito positivo. Todas as principais religiões do mundo pregam o amor, a compaixão e o perdão. Cada tradição religiosa promove esses valores de maneira diferente, é claro, mas, já que todas têm mais ou menos os mesmos objetivos – ter uma vida mais feliz, tornar-se uma pessoa mais compassiva e criar um mundo mais compassivo – seus métodos diferentes não representam um problema insuperável. A conquista fundamental do amor, da compaixão e do perdão, é o que importa. Todas as principais religiões do mundo têm o mesmo potencial para ajudar a humanidade. Algumas pessoas têm uma disposição que se adapta à fé religiosa, e por causa da variedade de disposições entre os seres humanos é lógico que precisamos de religiões diferentes. A variedade é benéfica. Gostaria de abordar o tema da harmonia religiosa definindo dois níveis de espiritualidade. O PRIMEIRO NÍVEL DE ESPIRITUALIDADE: FÉ E TOLERÂNCIA. Para todos os seres humanos em todos os lugares, o primeiro nível de espiritualidade é a fé. Isso é verdade para cada uma das grandes religiões mundiais. Acredito que cada uma dessas religiões tenha seu próprio papel importante, mas, para que possam dar uma contribuição significativa em benefício da humanidade, dois fatores importantes devem ser considerados. O primeiro desses fatores é que os praticantes individuais das diversas religiões – ou seja, nós mesmos – devemos praticar com sinceridade. Os ensinamentos religiosos devem ser parte integrante de nossas vidas, não devem ser separados de nossas vidas. Às vezes entramos em uma igreja ou templo e fazemos uma prece ou geramos  algum tipo de sentimento espiritual, e depois, quando saímos da igreja ou do templo, nada resta desse sentimento religioso. Essa não é a maneira correta de praticar. A mensagem religiosa deve estar conosco onde quer que estejamos. Os ensinamentos de nossa religião devem estar presentes em nossas vidas para que, quando realmente precisarmos de bênção ou de força interior; esses ensinamentos e os seus efeitos estejam à nossa disposição. Eles estarão ali quando tivermos dificuldades porque estão constantemente presentes. A religião só poderá ser realmente eficaz quando integrar-se em nossas vidas. Precisamos conhecer esses ensinamentos não apenas em um nível intelectual, mas também por meio de nossa experiência mais profunda. Algumas vezes compreendemos diversas ideias religiosas em um nível superficial demais ou intelectual. Sem um sentimento mais profundo, a eficácia da religião torna-se limitada. Portanto, devemos praticar com sinceridade e integrar nossa religião a nossas vidas. O segundo fator trata mais da interação entre as diversas religiões mundiais. Hoje em dia, devida à mudança tecnológica cada vez maior e à natureza da economia mundial, somos mais dependentes do que nunca uns dos outros. Países diferentes, continentes diferentes desenvolveram uma relação mais estreita uns com os outros. Na realidade, a sobrevivência de uma região do mundo depende da sobrevivência das demais. Portanto, o mundo tornou-se muito mais próximo, muito mais interdependente. O resultado disso é que há muito mais interação humana em uma escala maior. Devido a essas circunstâncias, a aceitação do pluralismo entre as religiões mundiais é muito importante. Antigamente, quando as comunidade viviam umas separadas das outras e as religiões surgiam em relativo isolamento, a ideia de que havia apenas uma religião possível era muito útil. Mas agora a situação mudou, e as circunstâncias são inteiramente diferentes. Portanto, agora é crucial aceitar o fato de que religiões diferentes existem e de que, para desenvolver um respeito mútuo genuíno entre elas, o contato estreito entre as diversas religiões é essencial. Esse é o segundo fator que permitirá às religiões do mundo beneficiar a humanidade de forma significativa. Quando eu morava no Tibete, não tinha contato com pessoas de outras religiões que não o budismo, e assim minha atitude em relação às outras religiões não era muito positiva. Entretanto, quando tive a oportunidade de conhecer pessoas de fé diferente e de aprender com os contatos pessoais e com a experiência, minha atitude em relação às outras religiões mudou. Percebi como as outras religiões são úteis para a humanidade e qual o potencial de cada uma delas para contribuir para um mundo melhor. Nos últimos séculos, as diversas religiões tem dado contribuições maravilhosas para o progresso dos seres humanos, e mesmo hoje há grandes números de seguidores que se beneficiam da CRISTANDADE, do ISLAMISMO, do JUDAÍSMO, do BUDISMO, do HINDUÍSMO, e assim por diante. Para dar um exemplo do valor de encontrar pessoas de fé diferentes: meus encontros com o falecido Thomas Merton (1915-1968) mostraram-me a pessoa bonita e maravilhosa que ele era e me proporcionaram uma compreensão em primeira mão do potencial espiritual da fé cristã. Em outra ocasião, conheci um monge católico em Montserrat (maciço rochosos na região da Catalunha na Espanha ), um dos famosos monastérios espanhóis. Fiquei sabendo que esse monge vivera por muitos anos como eremita em uma colina logo atrás do monastério. Quando o visitei no monastério, ele desceu de sua ermida especialmente para me encontrar. Acontece que seu inglês era ainda pior do que o meu, e isso me deu mais coragem para falar com ele! Ficamos frente a frente e perguntei: “Durante esses anos, o que você ficou fazendo naquela colina? “ Ele olhou para mim e respondeu: “Meditando sobre a compaixão, sobre o amor”. Enquanto ele dizia essas poucas palavras, entendi a mensagem através de seus olhos. Realmente desenvolvi uma admiração genuína por essa pessoa e por outros como ele. Essas experiências ajudaram a confirmar em minha mente que todas as religiões do mundo têm o potencial para produzir pessoas boas, apesar de suas diferenças de filosofias e de doutrina. Cada tradição religiosa tem sua própria mensagem maravilhosa a transmitir. O que quero enfatizar aqui é que, para as pessoas que seguem ensinamentos nos quais a fé básica é em um criador – em DEUS – essa abordagem é muito eficaz para elas. Os CRISTÃOS, por exemplo, não acreditam em renascimento e assim não aceitam a crença em vidas passadas ou futuras. Eles só aceitam esta vida. No entanto, acreditam que esta mesma vida seja criada por DEUS, e essa ideia causa neles um sentimento de intimidade com DEUS  e uma dependência em relação a DEUS. A consequência disso é o ensinamento de que devemos amar  nossos semelhantes. O raciocínio é que, se amamos DEUS, devemos amar nossos semelhantes porque eles, assim como nós, foram criados por DEUS. Seu futuro, assim como o nosso, depende do Criador; portanto, sua situação é igual à nossa. Consequentemente, é questionável a fé das pessoas que dizem aos outros para amar a DEUS, mas elas próprias não demonstram amor genuíno para com os seres humanos, seus semelhantes. A pessoa que acredita em DEUS e no amor por DEUS deve demonstrar a sinceridade desse amor dirigindo-o a outros seres humanos, seus semelhantes. Essa abordagem é muito poderosa, não? Assim, se examinarmos cada religião sob diversos ângulos da mesma maneira – não simplesmente segundo nossa própria posição filosófica, mas segundo vários pontos de vista – não resta dúvida de que todas as principais religiões têm o potencial para melhorar os seres humanos. Isso é óbvio. Por meio do contato estreito com pessoas de outra fé é possível desenvolver uma atitude tolerante e um respeito mútuo com relação a outras religiões. O contato estreito com diferente religiões me ajuda a aprender novas ideias, novas práticas e novos métodos ou técnicas que posso incorporar a minha própria prática. Do mesmo modo, alguns dos meus irmãos e irmãs CRISTÃOS adotaram determinados métodos budistas – por exemplo, a prática de concentração da mente em um só ponto, assim como técnicas para ajudar a melhorar a tolerância, a compaixão e o amor. Existem grandes benefícios quando os praticantes de diversas religiões se juntam para esse tipo de intercâmbio. Além do desenvolvimento da harmonia entre eles, há outros benefícios também. Políticos e líderes nacionais falam com frequência de coexistência e de união. Por que nós, religiosos, não falamos isso também? Penso que chegou a hora. Por exemplo em Assis, na Itália, em 1987, líderes e representantes de várias religiões mundiais se encontraram para orar juntos, embora eu não tenha certeza de que oração seja exatamente a palavra adequada para descrever com exatidão a prática de todas essas religiões. De todo modo, o importante é que os representantes das várias religiões se reúnam em um lugar e, segundo suas próprias crenças, orem. Isso já está acontecendo e é, penso eu, um desenvolvimento muito positivo. Mesmo assim, ainda precisamos nos esforçar mais para desenvolver harmonia e proximidade entre as religiões do mundo, já que sem tal esforça continuaremos a ter os diversos problemas que dividem a humanidade. Se a religião fosse o único remédio para reduzir o conflito humano, mas esse próprio remédio se tornasse uma outra fonte de conflito, isso seria desastrosos. Hoje, como no passado, conflitos ocorrem em nome da religião por causa de diferenças religiosas, e considero isso muito, muito triste. No entanto, se pensarmos de forma aberta e profunda, perceberemos que a situação de ontem era inteiramente diferente da atual. Não somos mais isolados, mas, pelo contrário, interdependentes. Portanto, hoje é muito importante perceber que uma relação estreita entre as religiões é essencial, para que diferentes grupos religiosos possam trabalhar e fazer um esforço conjunto para o benefício da humanidade. Assim, a sinceridade e a fé nas práticas religiosas, por um lado, e a tolerância e cooperação religiosa, por outro, formam esse primeiro nível do valor da prática espiritual para a humanidade. O SEGUNDO NÍVEL DE ESPIRITUALIDADE: A COMPAIXÃO COMO RELIGIÃO UNIVERSAL. O segundo nível de espiritualidade é aquele que transcende as diferenças religiosas, o nível da compaixão e da afeição humanos. O segundo nível é mais importante do que o primeiro porque, por mais maravilhosa que seja uma religião, ela ainda só é aceita por um número muito limitado de pessoas. A maioria dos seis ou sete bilhões de seres humanos em nosso planeta provavelmente não pratica nenhuma religião. De acordo com sua origem familiar, eles podem se identificar como pertencentes a um ou outro grupo religioso – Sou HINDU, sou BUDISTA, sou CRISTÃO – mas, lá no fundo, a maioria desses indivíduos não é necessariamente praticante de nenhuma fé religiosa. Não há problema nisso; abraçar ou não uma religião é o direito de qualquer pessoa como indivíduo. Nenhum dos grandes mestres antigos como BUDHA, MAHAVIRA, JESUS CRISTO, KHRISNA, MASHIYACH e MAOMÉ conseguiu fazer toda a população humana se interessar pela espiritualidade. A verdade é que ninguém é capaz de fazer isso. Não importa que esses não crentes sejam chamados de ateus. De fato, segundo alguns estudiosos ocidentais, os budistas também são ateus, já que não aceitam um criador. Assim, algumas vezes acrescento mais uma palavra para descrever esses não crentes, a palavra extremos; chamo-os de não crentes extremos. Eles não só não são crentes, como também são extremos em sua visão de que a espiritualidade sob qualquer forma não tem valor. Entretanto, devemos lembrar que que essas pessoas também fazem parte da humanidade e que também, como todos os seres humanos, desejam ser felizes – ter um vida feliz e pacífica. Esse é o ponto importante. Acredito que não haja problema em permanecer não crente, mas a partir do momento em que você faz parte da humanidade, a partir do momento em que é um ser humano, você precisa de afeição humanas, de compaixão humana. Esse é o ensinamento essencial de todas as tradições religiosas. Sem compaixão humana, até mesmo as crenças religiosas podem se tornar destrutivas. Assim, a prática essencial, seja você uma pessoa religiosa ou não, é um bom coração. Considero a afeição e a compaixão humanas a religião Universal. Quer seja crente ou não crente, todo mundo precisa de afeição e compaixão humanas, porque a compaixão nos dá força interior, esperança e paz mental. Assim, a compaixão é indispensável para todos. Como mencionei, alguns dos meus irmãos e irmãs CRISTÃOS, tanto monges quanto leigos, me disseram estar usando técnicas e métodos BUDISTAS para desenvolver sua compaixão e até mesmo sua fé CRISTÃ. Sempre digo a meus amigos ocidentais que é melhor tentar manter sua própria tradição. MUDAR DE RELIGIÃO NÃO É FÁCIL E ÀS VEZES CAUSA CONFUSÃO. Entretanto, os indivíduos que realmente sentirem que a abordagem BUDISTA é mais eficaz e se adapta melhor à sua disposição mental devem considerar a questão com cuidado. Uma vez que esteja inteiramente convencido de que o BUDISMO é certo para você, então está livre para segui-lo. O importante é lembrar o seguinte: às vezes as pessoas desenvolvem uma atitude crítica em relação a sua religião ou tradição anterior de modo a justificar sua mudança de fé. Você deve evitar isso. Sua antiga religião pode não ser mais eficaz para você, mas isso não significa que não seja útil para a humanidade. Por respeito aos pontos de vista e aos direitos das outras pessoas, assim como ao valor de suas traições, VOCÊ DEVE HONRAR SUA ANTIGA RELIGIÃO. É muito importante. Livro A Vida de Compaixão. Abraço. Davi.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

O QUE É O JOGO DE BÚZIOS E PARA QUE SERVE?

Religião Afro-brasileira. Por Eurico Ramos. Livro Revendo o Candomblé - XIV. O QUE É O JOGO DE BÚZIOS E PARA QUE SERVE? O jogo de búzios, na realidade, é antes de ser um oráculo divinatório, era utilizado, na África, especificamente para previsões de fenômenos atmosférico. Através dos signos que apareciam, eram interpretados os sinais do tempo. Previam-se secas, enchentes e estios. Definiam-se períodos de plantio, de colheira, determinavam-se o sexo de cada feto, de cada bebê, assim como de casamentos e várias outras questões dessa ordem. Com o passar do tempo, este oráculo também passou a ter um cunho divinatório. Ou seja, nele passaram a ser inseridos elementos ligados ao cotidiano da vida humana. O jogo de búzios é um oráculo diferente dos outros porque está sempre em mudança e acompanha a evolução humana. Tudo que se vê em termos de novidade, de evolução e de modernização pode ser tranquilamente detectado pelo jogo de búzios. Até mesmo doenças que antigamente não existiam, hoje em dia passam a ser detectadas através desse oráculo. Volto a dizer, o jogo de búzios acompanha a evolução humana. Diferente de outros oráculos, que de tão estáveis e imutáveis acabaram tornando-se quase obsoletos. O jogo de búzios está sempre em evolução, sendo perfeitamente capaz de se adequar as transformações constantes que ocorrem no mundo. No jogo de búzios estão inseridos conceitos da matemática, da física, da biologia, da física quântica e da geometria espacial. Na realidade, o jogo de búzios é muito mais complexo do que se considera hoje em dia. Pois as pessoas só pensam nesse oráculo no sentido de saberem quantos búzios estão abertos e quantos estão fechados. O que é uma visão por demais simplória, que ignora toda a riqueza de informações que suas configurações são capazes de fornecer. Nós podemos no jogo de búzios em termos de física quântica, quando vemos uma quantidade maior de búzios em um local da mesa e uma quantidade menor em outro local. Podemos encontrar ali valores às caídas, ou seja, um número igual a "x" de búzios fechados formando o que? Exatamente uma matriz binária. Podemos encontrar noções geométricas através do posicionamento dos búzios em cima da mesa. Podemos encontrar a biologia em vários momentos, inclusive pelo fato de os búzios - aqueles que formam na mesa as configurações - serem moluscos. Outro detalhe importante: não adianta sabermos as caldas dos búzios se não soubermos interpretá-las. Todas as suas mensagens, por mais abrangentes que possam parecer, são, na verdade extremamente claras e óbvias. Pois sempre refletem as condições da vida atual, do tempo presente, do momento de agora. Os búzios também são capazes de nos trazer mensagens que são verdadeiras lições de história natural. Abraço. Davi.



terça-feira, 21 de julho de 2026

O SERMÃO FINAL

Budismo. Livro Vida e Doutrina de Sidarta Gautama. Por Yogi Kharisnanda. O SERMÃO FINAL. Capítulo X. O Senhor Buda assim falou a Ananda de mim, como representante de toda a Ordem: Que espera a Ordem de mim? Preguei a Verdade sem distinção entre a doutrina esotérica e a exotérica - misteriosa de pouco acesso, pois no tocante à verdade, o Tathágata não tem nada semelhante ao punho cerrado de um instrutor que oculta alguma coisa. Certamente, Ananda, se alguém desejar ser o guia da Ordem e acreditar que é o fundamento da Ordem. Deveria dar instruções pertinentes ao governo da Ordem. Por que haveria o Tathágata de dar instruções para o governo da Ordem? Já sou velho. Ananda: tenho 80 anos e concluo meus dias. Assim como um carro velho roda com dificuldade, do mesmo modo o meu corpo se sustenta com muito cuidado. Meu corpo só está bem quando me abstrato em prece fervorosa, meditando, fora do mundo material. Desse modo, Ananda, sejam suas próprias lâmpadas. Apoiem-se em vocês mesmos e não em algum sustentáculo externo. Mantendo-se firmes à luz de suas lamparinas, busquem a libertação na Verdade. Não peçam auxílio a ninguém mais do que a vocês mesmos. Porque, como, Ananda, pode um irmão em lamparina para si mesmo se não se apoia em si, mas em algo externo. Se não mantém firme a Verdade e na Verdade não busca a salvação, sem outro auxílio que o seu próprio? Assim, pois, Ananda, já que o irmão mora num corpo, procure vencer as dores que fluem dos desejos do corpo. Que enquanto esteja exposto as sensações, considere-as de tal maneira que vença neste mundo a dor resultante das sensações. E aqueles que agora ou depois de minha morte forem lamparinas de si mesmos e buscarem a libertação na Verdade sem pedir auxílio externo, alcançarão a iluminação. Entre no Caminho! Não há dor mais amarga do que o ódio, nem sofrimento como o da paixão, nem engano maior do que o da luxúria e da torpe sensualidade. Entre no caminho! Muito adiantado já está quem espezinha vício dominante. Entre no Caminho! Dali fluem as salutares fontes que saciam toda sede. Ali florescem as flores que não murcham e que alegremente acarpetam todos os caminhos. Ali se apressam as horas mais velozes e felizes. Mais valioso que as joias é o tesouro da lei. Sua doçura excede à do favo de mel. Suas delícias excedem a todo deleite. Não matem. Sejam compassivos e não detenham em seu ascendente caminho nem o mais ínfimo ser. Deem e receberão generosamente, porém, não arrebatem de ninguém, cobiçosos, seus bens com violência ou fraude. Não deem falsos testemunhos. Não caluniem. Não mintam. A Verdade é manifestação da pureza interior. Abstenham-se de drogas e bebidas que perturbam a mente. Iluminem a mente. As mentes puras e os corpos puros necessitam do néctar do Soma - planta sagrada da Índia. Não toquem na mulher do próximo nem cometam pecados carnais contra a natureza. Aqueles que não podem quebrar desde já as opressoras cadeias dos sentidos e cujos pés são demasiado débeis para trilhar a estrada pedregosa. Devem disciplinar sua conduta de tal modo que todos os dias terrenos transcorram irrepreensíveis, praticando obras caridosas. Devem dar, embora vacilantes, os primeiros passos no caminho óctuplo, vivendo puros. Humildes, pacientes, compassivos. Amando todos os seres como a si mesmos, porque o mal é consequente do passado mal e o bem procede de um passado bom. Agindo deste modo, o homem livra-se de sua personalidade, ajuda o mundo, aumenta a sua felicidade na vida futura e aproxima-se da perfeição. Há tempos, na hora do alvorecer, quando eu passeava por um bosque de bambus próximo de Rajagriha. Vi o chefe de uma família cingalesa - grupo étnico do antigo Ceilão, atual Sri Lanka - que, ao sair do banho e com a cabeça descoberta. Saudava a terra, o céu e os quatro pontos cardeais, espalhando arroz branco e vermelho com as duas mãos. Por que está saudando assim, meu irmão?, perguntei-lhe. É a regra, respondeu. Nossos pais nos ensinaram que pela manhã, antes de iniciar as tarefas cotidianas, se deve conjurar o mal que vem do céu que nos cobre. Da terra que está sob nossos pés e dos quatro pontos cardeais. Respondi-lhe: Não espalhe arroz, mas, antes, ofereça a todas as criaturas pensamentos e ações de amor. A seus pais, olhando para o Oriente, de onde brota a luz. A seus mestres, olhando para o Sul, de onde provêm valiosos dons. A sua mulher e seus filhos, olhando para o Ocidente, de onde fulgem suaves e delicadas cores e onde morrem os dias. A seus amigos, parentes e a todos os seres, olhando para o Norte. Aos humildes, inclinando-se para o solo. Aos santos, aos anjos e aos mortos bem-aventurados, contemplando o céu. Procedam vocês também assim que conjurarão todo mal e saudarão o mundo em suas seis direções cardeais. Abraços. Davi.

domingo, 19 de julho de 2026

TAO TE CHING - POEMA XIII

Lao Tse (571a.C.531) Tao Te Ching O Livro que Revela Deus


Por Huberto Rhoden (1893-1981)

A atividade reta o Eu para atos corretos do Ego

POEMA XIII

Favor e desfavor geram angústia
Honras geram dissabores para o ego
Por que é que favor e desfavor geram dissabores?
Porque quem espera favor paira na incerteza
Sem saber se o receberá
Quem recebe favor também paira na incerteza
Não sabe se o conservará
Por isso causam dissabor
Tanto o favor como o desfavor
Por que é que as honras geram dissabor?
Todo dissabor nasce do fato
De alguém ser um ego
Não é possível contentar o ego
Se eu pudesse libertar-me do ego
Não haveria mais dissabores
Por isso: Quem se mantém liberto de favores e desfavores
Liberta-se da idolatria do ego
 Só pode possuir o Reino
Quem está disposto a servir desinteressado
A esse se pode confiar o Reino

Explicação filosófica:
Essas palavras de Lao Tse são tão evidentes como a voz da sapiência em si mesma. Toda e qualquer esperança ou receio de receber favor ou desfavor gera inquietação. Porque nasce da fonte impura da egoidade e da egocracia. Quem nada espera e nada receia, aceitando tudo serenamente. Esse é sábio e feliz, vivendo na cosmocracia. Todos os nossos males nascem do nosso ego consciência. Todos os nossos bens da nosso cosmo consciência. Permitir que as águas vivas da Fonte Infinita fluam livremente pelos nossos canais finitos. Isto é suprema sabedoria e perfeita felicidade. Abraço. Davi