sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

SANTA TERESA DE JESUS

Cristianismo. Pt.wikipedia.org. Teresa dʼÁvila, O.C.D., conhecida como SANTA TERESA DE JESUS. (Gotarrendura, 28 de março de 1515 – Alba de Tormes, 4 de outubro de 1582),[5] nascida Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada, foi uma freira carmelita, mística e santa católica do século XVI, importante por suas obras sobre a vida contemplativa e espiritual e por sua atuação durante a Contrarreforma. Foi também uma das reformadoras da Ordem Carmelita e é considerada cofundadora da Ordem dos Carmelitas Descalços, juntamente com São João da Cruz (1542-1591). Em 1622, quarenta anos depois de sua morte, foi canonizada pelo papa Gregório XV (1554-1623). Em 27 de setembro de 1970, Paulo VI proclamou-a uma Doutora da Igreja e reconheceu seu título de Mater Spiritualium (Mãe da Espiritualidade), em razão da contribuição que a santa proporcionou à espiritualidade católica.[6] Seus livros, inclusive uma autobiografia ("A Vida de Teresa de Jesus") e sua obra-prima, "O Castelo Interior" (em castelhano: El Castillo Interior), são parte integral da literatura renascentista espanhola e do corpus do misticismo cristão. Suas práticas meditativas estão detalhadas em outra obra importante, o "Caminho da Perfeição" (Camino de Perfección). Depois de sua morte, o culto a Santa Teresa se espalhou pela Espanha durante a década de 1620 principalmente durante o debate nacional pela escolha de um padroeiro, juntamente com Santiago Matamoros. Primeiros anos. Teresa de Cepeda y Ahumada nasceu em 1515 em Gotarrendura, uma aldeia na província de Ávila, no Reino de Castela. Seu avô paterno, Juan Sánchez, era um marrano (um converso ou descendente de judeu converso) e foi condenado pela Inquisição espanhola por ter supostamente retornado à fé judaica. Seu pai, Alonso Sánchez de Cepeda, comprou um título cavaleiro e conseguiu com sucesso ser assimilado pela sociedade católica. A mãe de Teresa, Beatriz de Ahumada y Cuevas,[7] era especialmente dedicada à missão de criar a filha como uma piedosa cristã. Teresa era fascinada por relatos sobre vidas de santos e fugiu aos sete anos com seu irmão mais novo Rodrigo para tentar conseguir seu martírio entre os mouros. Seu tio conseguiu impedi-los por sorte ao vê-los já fora das muralhas quando voltava de outra cidade.[8] A morte de Beatriz quando Teresa tinha apenas quatorze anos provocou-lhe uma tremenda tristeza que estimulou-a abraçar ainda mais a devoção à Virgem Maria como sua mãe espiritual. Porém, ela adquiriu também um interesse exagerado na leitura de ficções populares, principalmente novelas de cavalaria, e um renovado interesse em sua própria aparência.[9] Na mesma época, foi enviada como interna para uma escola de freiras agostinianas em Ávila,[10] o Convento de Nossa Senhora da Graça. Pouco depois, piorou de uma enfermidade que começara a molestá-la antes de professar seus votos e seu pai a retirou do convento. A irmã Joana Suárez acompanhou Teresa para ajudá-la. Os médicos, apesar de todos os tratamentos, deram-se por vencidos e a enfermidade, provavelmente malária, se agravou. Teresa conseguiu suportar o sofrimento, graças a um livro devocional que lhe fora dado de presente por seu tio Pedro, "O Terceiro Alfabeto Espiritual", do Padre Francisco de Osuna (1492-1541). Esta obra, seguindo o exemplo diversas outras de místicos medievais, consistia de instruções para exames de consciência, para auto concentração espiritual e contemplação interior (técnicas conhecidas no jargão místico como oratio recollectionis ou oratio mentalis). Teresa também fazia uso de outras obras ascetas como o Tractatus de oratione et meditatione de São Pedro de Alcântara, talvez muitas das obras nas quais Santo Inácio de Loyola (1491-1556) baseou seus "Exercícios Espirituais" e possivelmente os próprios "Exercícios". Teresa seguiu as instruções da obra e começou a praticar a oração mental. Finalmente, após três anos, ela recuperou a saúde e retornou diretamente para tomar o hábito no Carmelo. Teresa conta que durante sua enfermidade, ascendia do estágio mais baixo, da "oração mental", ao de "oração do silêncio" ou mesmo ao de "devoções de êxtase", que era um de união perfeita com Deus (veja abaixo). Durante este estágio final, Teresa conta que experimentava com frequência uma rica "benção de lágrimas". Conforme a distinção católica entre pecado mortal e venial foi se tornando clara para ela, passou também a compreender o terror profundo do pecado e a natureza do pecado original. Em paralelo, conscientizou-se de sua própria impotência em confrontar o pecado e certificou-se da necessidade da sujeição absoluta a Deus. O quarto - "devoção do êxtase ou arrebatamento" - é um estado passivo no qual o sentimento de estar num corpo desaparece (veja II Coríntios 12:2–3). A atividade sensorial cessa, a memória e a imaginação também são absorvidas em Deus ou são "intoxicadas". Corpo e espírito sofrem de uma dor doce e feliz, que alterna entre um tenebroso brilho, uma completa impotência e inconsciência, uma sensação de estrangulação ou, às vezes, de um voo extático tão intenso que o corpo literalmente se ergue no espaço. Estes efeitos, depois de meia-hora, são seguidos por um relaxamento completo de algumas horas num estado parecido com um desmaio, no qual todas as faculdades [mentais] desaparecem na união com Deus.[17] Em seguida, o sujeito acorda aos prantos, o clímax da experiência mística, o que produz um transe. Tradições piedosas relatam que Teresa, como São Francisco de Assis (1182-1226), foi vista levitando durante a missa mais de uma vez. Teresa é uma das mais importantes autoras sobre a oração mental e sua posição entre os autores da teologia mística é única. Em todas as suas obras sobre o tema, ela relata suas próprias experiências pessoais, que, ajudada por sua profunda perspicácia e capacidade analítica, explica de forma clara. Sua definição de "oração contemplativa" foi utilizada pelo Catecismo da Igreja Católica: "Oração contemplativa, na minha opinião, é nada mais que um compartilhamento íntimo entre amigos; significa dedicar tempo com frequência para estar sozinho com aquele que sabemos que nos ama".[20] Reconhecimentos. Teresa foi beatificada em 24 de abril de 1614 pelo Papa Paulo V (1550-1621) e canonizada em 12 de março de 1622 por Gregório XV (1554-1623). É conhecida como Santa Teresa de Jesus. Em 1617, os Tribunais de Castela, a pedido dos devotos de Teresina, declararam padroeira da Espanha e das Índias. No entanto, os jacobinos apelaram que Santa Teresa ainda não havia sido canonizada e defendiam que o patrono da Espanha era Santiago, desde tempos imemoriais e principalmente da invasão muçulmana. Por isso se tornou Co patrona. Em 1627, apenas cinco anos após a canonização, a Santa Sé reiterou o título de Co patrona. Juntamente com o Senhor Santiago El Mayor e a Imaculada Conceição (padroeira e imperatriz da Espanha e das Índias), sua celebração se tornou uma das três principais na corte hispânica. O culto de Santa Teresa foi tão forte nas Índias, que o rei Felipe IV em 1640, por carta real, foi proclamado por Copatrona da Capitania Geral do Reino da Guatemala, solicitando celebrar seu partido como um dos quatro principais (ao lado dos da Concepcion limpa, Santiago e Santa Cecília) na cidade, cabeça e coração do povo colonial da América Central. Com a transferência da Cidade, Independência e a fundação da República, Santa Teresa tornou-se Co patrona da República e Iglesia da Guatemala. Foi nomeada doutora honoris causa pela Universidade de Salamanca e posteriormente nomeada patrona dos escritores. No entanto, a Igreja Católica como instituição não reconheceu oficialmente o ensino da vida espiritual realizada por Santa Teresa de Jesus, nem seu doutorado na Igreja. Várias tentativas foram feitas nesse sentido, a última em 1923. O motivo da rejeição foi sempre o mesmo: "obstat sexus" (o sexo o impede).[21] Finalmente, em 27 de setembro de 1970,[22] Santa Teresa de Jesus tornou-se (juntamente com Santa Catarina de Siena) a primeira mulher levantada pela Igreja Católica ao status de Doutor da Igreja, sob o pontificado de Paulo VI (1897-1978).

A Igreja Católica celebra sua festa em 15 de outubro. Em 2015, a Universidade Católica de Ávila nomeou seu doutorado honorário. As obras de Teresa, escritas com fins didáticos, estão entre as mais notáveis da literatura mística da Igreja Católica: Livro da Vida, escrito antes de 1567 sob a direção de seu confessor, fr. Pedro Ibáñez; [23] Caminho de Perfeição, também escrito sob a direção de fr. Pedro Ibáñez;[24) "Meditações sobre o Cântico do Cânticos" (1567), escrita para suas "filhas" do Carmelo; "O Castelo Interior" (El Castillo Interior; 1577), na qual compara a alma contemplativa a um castelo com sete sucessivas cortes (ou câmaras) interiores, análogas aos sete céus;[25] "Relações" (Relaciones), uma extensão de sua autobiografia relatando suas experiências internas e externas na forma de epístolas; Duas obras menores: "Conceitos de Amor" (Conceptos del Amor) e "Exclamações" (Exclamaciones);
  • Além destas, há também "As Cartas (Las Cartas; Saragossa, 1671), as correspondências de Teresa, da qual restaram 342 cartas completas e fragmentos de outras 87. A prosa de Teresa é marcada de uma graça sem afetações, de esmerada ornamentação e de um encantador poder expressivo, qualidades que a colocam no primeiro escalão da literatura espanhola; Finalmente, seus raros poemas estão reunidos em "Todas as Poesias" ("Todas las poesías", Munster, 1854) e se distinguem pela ternura e pelo ritmo. O poema moderno "Vós Sois as Mãos de Cristo", embora seja amplamente atribuído a Teresa,[26][27] não aparece em suas obrasː[28]
Cristo não tem atualmente sobre a terra nenhum outro corpo se não o teu;
Nenhumas[b] outras mãos senão as tuas;
Nenhuns[b] outros pés senão os teus...
Vós sois os olhos com que a compaixão de Cristo deve olhar o mundo;
Vós sois os pés com que Ele deve ir fazendo o bem, Vós sois as mãos com que Ele deve abençoar os homens de hoje...
Santa Tereza e o Menino Jesus de Praga. Embora não exista nenhum relato histórico de que Teresa tenha sido proprietária da estátua do Menino Jesus de Praga,[29] de acordo com uma lenda popular, Teresa teria presenteado a uma nobre que viajava para Praga.[30][31] Acredita-se, porém, que Teresa de fato carregava consigo uma estátua do Menino Jesus em suas viagens, mas não é possível confirmar se a estátua de Praga é esta estátua. Lendas sobre o tema já circulavam na região no século XVII. Santa Teresa também aparece em um filme biográfico de 1984 chamado Teresa de Jesus protegendo uma estátua do Menino em suas perigosas viagens. Em algumas cenas, as irmãs religiosas se revezam para trocar suas vestes. A devoção ao Menino Jesus se espalhou rapidamente pela Espanha, possivelmente por conta das visões de Teresa.[32] A freiras espanholas que estabeleceram a ordem das carmelitas na França trouxeram consigo a devoção, que se espalhou.[33] De fato, uma das mais famosas devotas de Teresa, Teresa de Lisieux,[34] uma freira carmelita francesa batizada em sua homenagem, escolheu o nome de "Irmã Teresa do Menino Jesus da Santa Face". Padroeira. Na década de 1620, o Reino da Espanha debatia quem deveria ser o santo padroeiro do país; as alternativas eram manter o padroeiro tradicional, Saniago Matamoros ("matador de mouros") ou adotar uma combinação dele com a recém-canonizada Santa Teresa de Ávila. Os defensores de Teresa afirmavam que a Espanha enfrentava novos desafios, especialmente a ameaça do protestantismo e do declínio social nos lares, o que requeria um padroeiro mais moderno, que entendesse estes problemas e que pudesse guiar os espanhóis. Os defensores de "Santiago" rebateram ardorosamente estes argumentos e, no final, saíram vitoriosos, mas Santa Teresa permaneceu muito mais popular entre a população.[35] Santa Teresa, no Brasil, também é considerada padroeira dos professores. Na literatura. Protagoniza o romance El castillo de diamante de Juan Manuel de Prada (1970 - ). Abraço. Davi

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

OS ANALECTOS - LIVRO III

Confucionismo. www.rl.art.br. OS ANALECTOS – LIVRO III. Texto de Confúcio (551 a.C. 479). 1. Confúcio disse da família Chi: “Eles usam oito fileiras de dançarinas cada um para performances no jardim. Se isso pode ser tolerado, o que não pode ser tolerado?”. 2. As Três Famílias recitavam o yung quando as oferendas sacrificiais estavam sendo retiradas. O Mestre disse: Como plateia figuravam os grandes senhores. Em dignidade solene estava o imperador. Que aplicação isso pode ter nos salões das Três Famílias?” 3. O Mestre disse: “O que pode um homem fazer com os ritos se ele não é benevolente? O que pode um homem fazer com a música se ele não é benevolente”? 4. Lin Fang perguntou sobre o fundamento dos ritos. O Mestre disse: “Uma nobre pergunta, de fato! Com os ritos, é melhor pecar pela simplicidade do que pela extravagância; em matéria de luto, é melhor pecar pela tristeza do que pela formalidade”. 5. O Mestre disse: “Tribos bárbaras com seus líderes são inferiores aos reinos chineses sem líderes”. 6. A família Chi estava indo fazer sacrifícios para o monte T’ai . O Mestre disse para Jan Ch’iu: “Você não pode impedi-los?”. “Não, não posso.” O Mestre disse: “Oh! Mas quem pode imaginar que o monte T’ai desconhece os ritos assim como Lin Fang?”. 7. O Mestre disse: “Não há competição entre cavalheiros. O mais próximo disso é, talvez, no tiro com arco. No tiro com arco eles se curvam e dão lugar um para o outro quando iniciam e, ao terminarem, bebem juntos. Até mesmo a maneira com que competem é cavalheiresca”. 8. Tzu-hsia perguntou: “Seu encantador sorriso com covinhas. Seus belos olhos esgazeando, Padrões de cores em seda lisa. Qual o significado de tais linhas?”. O Mestre disse: “As cores são acrescentadas após o branco”. “E a prática dos ritos também vem depois?” O Mestre disse: “É você, Shang, quem iluminou o texto para mim. Apenas com um homem como você é possível discutir as Odes”. 9. O Mestre disse: “Posso falar sobre os ritos de Hsia, mas o reino de Ch’i não preservou evidências suficientes; posso falar sobre os ritos de Yin, mas o reino de Sung não preservou evidências suficientes. Isso é porque não há registros suficientes nem homens de erudição. Não fosse assim, eu poderia sustentar o que digo em evidências”. 10. O Mestre disse: “Não quero assistir à parte do sacrifício ti que vem depois da libação de abertura ao personificado”. 11. Alguém perguntou sobre o significado do sacrifício ti. O Mestre disse: “Não é algo que eu entenda, pois quem entender terá capacidade para gerenciar o império com tanta facilidade quanto se o tivesse aqui”, apontando para a palma da mão. 12. “Sacrifício presente” diz-se que significa “sacrifique aos deuses como se os deuses estivessem presentes.” O Mestre, entretanto, disse: “Amenos que eu participe do sacrifício, é como se eu nada tivesse sacrificado”. 13. Wang-sun Chia disse: “Melhor homenagear o fogão da cozinha Do que o canto sudoeste da casa. O que isso significa?”. O Mestre disse: “O ditado está errado. Quando você ofende o Céu, não adianta voltar suas preces para nenhum outro lugar”. 14. O Mestre disse: “A cultura de Chou resplandece, tendo o exemplo de duas dinastias anteriores. Sou a favor dos Chou”. 15. Quando o Mestre entrou no Grande Templo, ele fez perguntas sobretudo. Alguém observou: “Quem disse que o filho do homem de Tsou entendia os ritos? Quando ele entrou no Grande Templo, ele fez perguntas sobretudo””. O Mestre, ao ouvir isso, disse: “Fazer perguntas é, em si, o ritual correto”. 16. O Mestre disse: “No tiro com arco, o objetivo não reside em perfurar o alvo pela razão, que a força varia de homem a homem. Essa era a ideia na Antiguidade”. 17. Tzu-kung queria libertar a ovelha sacrificial no anúncio da lua nova. O Mestre disse: “Ssu, você está relutando em se desfazer do valor da ovelha, mas eu reluto em ver o fracasso do ritual”. 18. O Mestre disse: “Você será visto pelos outros como alguém bajulador se observar cada detalhe dos ritos ao servir o seu senhor”. 19. O duque Ting perguntou: “De que modo o governante deveria empregar o serviço dos seus ministros? Qual o modo com que um ministro deveria servir ao seu governante?”. Confúcio respondeu: “O governante deveria empregar o serviço dos seus ministros de acordo com os ritos. Um ministro deveria servir o seu governante dando o melhor de si”. 20. O Mestre disse: “No kuan chü [49] há alegria sem futilidade, e tristeza sem amargura”. 21. O duque Ai perguntou a Tsai Wo sobre o altar de sacrifício ao deus da terra. Tsai Wo respondeu: “Os Hsia usavam o pinho, os Yin usavam o cedro, e os homens de Chou usavam castanheira (li), dizendo que fazia o povo tremer (li)”. O Mestre, ouvindo a resposta, comentou: “Não se explica o que já está feito, não se discute sobre o que já foi realizado, e não se condena o que já passou”. 22. O Mestre disse: “Kuan Chung era, de fato, um vassalo de pouca capacidade”. Alguém observou: “Kuan Chung era frugal, então?”. “Kuan Chung mantinha três estabelecimentos independentes, cada um com uma equipe própria. Como poderia ele ser chamado de frugal?” “Nesse caso, Kuan Chung entendia os ritos?” “Governantes de reinos erigem anteparos de tela para seus portões; Kuan Chung também erigia tal anteparo. O governante de um reino, quando recebe o governante de outro reino, tem um suporte especial para descansar sua xícara; Kuan Chung igualmente tinha tal suporte. Se até Kuan Chung entendia os ritos, quem não os entende?” 23. O Mestre conversou sobre música com o grande musicista de Lu, dizendo: “Isso é o que se pode saber sobre música. Começa sendo tocada em uníssono. Quando flui totalmente, é harmoniosa, límpida e contínua. Desse modo chega à conclusão”. 24. O fiscal de fronteira de Yi requereu uma audiência [com Confúcio], dizendo: “Nunca me foi negada nenhuma audiência por um cavalheiro que tenha vindo aqui”. Os acompanhantes o apresentaram (a Confúcio). Quando saiu, o oficial disse: “Estão preocupados, cavalheiros, com a perda do cargo? O Império há muito não segue o Caminho. O Céu vai usar o Mestre de vocês como o badalo de um sino”. 25. O Mestre disse, sobre shao, que era perfeitamente linda e perfeitamente boa e, sobre wu, que era perfeitamente linda, mas não perfeitamente boa. 26. O Mestre disse: “O que posso achar digno de nota em um homem a quem falta tolerância quando em uma alta posição, a quem falta reverência quando realiza os ritos e a quem falta tristeza quando em luto?”. www.rl.art.br. Abraço. Davi

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

XINTOISMO. MITOLOGIA E INFLUÊNCIA. Parte IV

Xintoísmo. bushidor.com. XINTOÍSMO. MITOLOGIA E INFLUÊNCIA na formação da cultura e o caráter do povo japonês. Parte IV. [...]. Os avós, pelas suas próprias virtudes durante a apagada existência, e pelas propiciações que os vivos lhes tributam, no desempenho dos ritos familiares, alcançam a bem-aventurança; e os seus espíritos agradecidos pagam em afetuosa proteção os cuidados rituais que se lhes votaram, guiando os vivos nos seus passos sobre a terra, aplanando as dificuldades, encaminhando os também para a bem-aventurança esperada. Vive-se, pois, pode dizer-se, para morrer; e morre-se para viver (MORAES, 1924, p. 82-83). À família imperial cabe-lhe outros rituais como o Niinamesai, a comunicação da maioridade e assunção do título de príncipe herdeiro. O imperador deve reportar periodicamente à deusa Amaterasu, no santuário de Ise, os principais acontecimentos do país (HERBERT, 1964, p. 250).  A maioria dos casamentos são celebrados no ritual xintoísta e as cerimônias fúnebres, no budista. O jesuíta português Luís Almeida ao visitar o Japão em 1565, observou: "os japoneses rezam aos kami (divindades) pedindo longevidade, saúde, riqueza, fama e todos os outros benefícios terrenos, voltando-se, no entanto, para Hotoke (Buda) para implorar a sua salvação religiosa pessoal", característica da religiosidade desse povo que permanece ainda atualmente (YUSA, 2002, p. 17).  Poucos são os que optam por enterrar seus mortos em cemitérios xintoístas, preferindo a cremação. Enquanto o xintoísmo é otimista e está ligado a festivais, o budismo acabou assumindo o papel de oficiante dos funerais. Isso deve-se à proibição da presença de cadáveres nos santuários - local dedicado exclusivamente aos kami - e a falta de hábito de ritos funerários dos monges xintoístas - também de dedicação exclusiva aos kami - , devendo qualquer outro assunto ser tratado fora do santuário (ONO, op. cit., p. 110). A dinastia Tokugawa (1603-1867), com a perseguição aos cristãos, ordenou que os sepultamentos fossem realizados apenas por monges budistas (idem). Tida como a religião da natureza, o xintoísmo é a religião que comemora os fatos da vida, celebra e vivifica-os em rituais de renovação: a colheita, as estações do ano, os festivais, adquirindo por esse motivo o ar alegre e festivo das comemorações da comunidade, chamadas matsuri. No Xintô a vida vivida em comunhão com a vontade divina está protegida (ONO, op. cit., p. 50); por isso, o mundo é bom, uma dádiva dos deuses ao qual o homem deve responder com gratidão à sua família, a seus ancestrais e ao kami, assumindo "suas obrigações com a sociedade e contribuindo para o desenvolvimento de tudo que lhe foi confiado" (ibidem p. 103). A vida quotidiana é considerada como um serviço para o kami, isto é, o matsuri (idem). Intimamente ligado à natureza, que se renova visivelmente a cada estação,  a renovação se dá também na reconstrução dos santuários no Parque de Ise, na província. É a mais importante cerimônia do xintô que ocorre em 23 de novembro quando o imperador, como sacerdote supremo do xintô, em nome do povo japonês, partilha arroz novo e saquê branco e preto com a deusa Amaterasu. (HERBERT, 1964, p. 71) 20 .de Mie. Desde o ano 690 no reinado da imperatriz Jito (686-697) os santuários são reconstruídos a cada 20 anos, poucas vezes interrompida por guerras ou dificuldades financeiras da família imperial. (ibidem p. 28). Para essa reconstrução, chamada de sengu, são utilizadas 130 mil árvores de hinoki (cipreste japonês) de 200 anos, (ibidem p. 29) para que "a deusa do sol, Amaterasu (a divina ancestral da casa imperial) e a deusa da colheita, Toyouke, adquiram renovado vigor, garantindo a vitalidade da linha imperial e da cultura do arroz, sem os quais seria impossível a sobrevivência da nação"(LITTLETON, op. cit., p.62-63). As peças dos santuários desconstruídos são utilizadas para construção de outros santuários (idem). A última reconstrução se deu em 1993, o que indica este ano de 2013 como a próxima reconstrução (idem).  A pureza no Xintô. Para o Xintô “a vida só tem sentido e só encontra o seu verdadeiro estado na pureza, e a vida que perde a sua pureza não agrada às divindades e transforma-se assim numa vida anti xintoísta cheia de pecados, de manchas e de desgraças”(ROCHEDIEU, op. cit., p. 60). As cerimônias de início de atividade – inaugurações em geral –   festivais populares ou torneios esportivos geralmente são precedidos por ato de purificação. A purificação diz respeito não apenas ao corpo, mas também ao espírito. Para os xintoístas, a purificação é o ato cerimonial mais importante pois é o que aproxima nosso espírito do espírito puro dos deuses e para alguns é o que permite atingir a Realidade Última, porém, esta união só se dá na presença de um coração puro e claro (ROCHEDIEU, op. cit., p. 61). Para o Xintô, os ritos e a liturgia são elementos secundários diante da importância que assume a atitude de se manter claro e puro o coração (idem). Nos santuários xintoístas está disposta invariavelmente uma pia com água corrente, servida por uma concha de bambu para a higiene da boca e das mãos, antes de o fiel entrar no santuário. Purifica-se o corpo externa e internamente antes de entrar na presença dos deuses (LITTLETON, op. cit., p. 61-62). Para a purificação é preciso que ocorra: (ROCHEDIEU, op. cit., p. 97-100)- a vontade e o poder divino que purifica e- o esforço do homem que busca a purificação. A mancha atrai os maus espíritos e faz o homem dependente destes. São ritos de purificação: 1. O harai – destinado a limpar as manchas advindas do mal cometido. 2. O misogi – destinado a remover as impurezas advindas de outros males que não as de cunho moral como por exemplo, contato com coisas impurezas como o cadáver. Usa-se em geral a água como elemento purificador. Mais do que o rito de purificação, o misogi abrange “todo o processo de disciplina mental”. 3. O imi – refere-se a observância de condutas de purificação com evitar a ingestão de certos alimentos, ações e contatos com o intuito de se preservar a pureza total do culto. Neste estado de imi devem estar não apenas o oficiante, mas também os encarregado da preparação da cerimônia. É proibido ainda como atos preparatórios para o imi, ouvir música, ingestão de bebidas alcoólicas ou de alimentos que não tenham sido cozidos em fogo puro e ocupar-se de atividades que causem preocupação, fadiga ou sofrimento. Acredita-se que o homem receba avisos do descontentamento dos deuses quanto à sua conduta, devendo então empregar todos os seus esforços para recuperar seu estado normal de pureza. São faltas ou más condutas: (SIEFFERT, op. cit., p. 12) 1. O tsumi – atitude em que há vontade deliberada de praticar o mal. 2. O wazawai – é a desgraça, a provação e a calamidade, cuja ocorrência independe da vontade; 3. O kegari – a impureza, a mancha ocasionada pelos fatores já vistos. Apenas o tsumi é de inteira responsabilidade individual, havendo, entretanto, responsabilidade na conduta por negligência ou imprudência se formos abatidos por tsumi ou kegari. De fato, mesmo inconscientemente, a invasão de território proibido, de domínio do kami constitui tsumi, adverte Sieffert que, melhor esclarece o conceito de tsumi, desconsiderando o que o Ocidente geralmente traduz por pecado ou falta: é "a transgressão de certos limites nem sempre formalmente proibidos nem definidos, mas carregados de um potencial mágico perigoso devido à simples presença de um kami" (idem). Carregar no corpo ou na alma qualquer das faltas, torna-nos inapropriados para entrar nos santuários, devendo o fiel, antes, realizar a purificação da boca e das mãos com água corrente disposta na entrada chamada temizuya (ONO, op. cit., p. 34). Na época dos samurais, antes dos combates, alguns se purificavam com essa água, vertendo-a também na lâmina de suas espadas. Entre os atos que chocam a sensibilidade e que não se aplicam apenas às más ações, está o cortar a pele viva ou morta, do homem ou de animais, daí serem considerados impuros o manejo do sangue e de seres mortos,  ou ainda infligir cortes e perfurações na pele como as tatuagens ou piercings. O corpo, assim como as vestimentas, deve ser puro, sem mácula (GRIFFIS, op. cit., p. 85). Nos banhos públicos há avisos proibindo a entrada de pessoas alcoolizadas ou tatuadas. São impuros o ofício do açougueiro ou do coveiro, geralmente executados por párias. O parto, a doença, o moribundo e o doente terminal são considerados impuros. William Elliot Griffis (1843-1928) relata que no Japão antigo eram construídas cabanas para parturientes ou moribundos que eram depois queimadas, finalizadas o uso (GRIFFIS, op. cit., p. 85). Perverso costume que penalizava a parturiente e o doente, quando mais precisavam de cuidados e apoio. Esse costume permaneceu ainda em algumas regiões do Japão até 1878 (idem). Nota-se o cuidado com a limpeza em todos os lugares: nos locais públicos, nas casas, nas escolas, onde desde pequenas as crianças aprendem a cuidar da limpeza da classe e das dependências da escola. Discorrendo sobre o que via, o português Wenceslau de Moraes escreve, surpreso, observando as ruas de um Japão ainda de vida pacata: "muito limpas; são os moradores que as varrem, com escrúpulos de minúcia, cada qual na parte que fica em frente à sua casa; o ofício de varredor municipal é desconhecido no Japão" (MORAES, op. cit, p. 75). E em outro trecho: "pode-se dizer que, na habitação japonesa, o principal luxo, muitas vezes o único, é a limpeza; mas esta tão requintada, que embriaga!..." (ibidem p. 77). Ainda nos dias de hoje, curiosamente o Japão não tem varredores nem lixeiras nas ruas, mesmo nas grandes cidades como Tóquio. Sujar lugar público é desrespeitar o próximo que também utiliza o espaço. Manchar ou ferir nosso corpo, cortando, perfurando, ferindo ou ministrando-lhe drogas que desvirtuem sua natureza, isto é, tudo que nos desvie de um comportamento bom, respeitoso, contrário, segundo um teólogo xintoísta, “ao que foi desejado pelo espírito divino” – significação de nossa vida terrestre - , significa ser desrespeitoso com a divindade que em nós habita. Assim também, uma conduta que ofenda nosso próximo por palavras, ações ou pensamentos, mostra a mácula do espírito, o distanciamento do natural Caminho. O espírito ofensor está duplamente em falta: consigo e com a divindade que está abrigada no próximo. É mancha que lançamos ou permitimos que se lance sobre nós, obstando a volta ao estado natural, vale dizer, de retornarmos ao estado de bons, de retornarmos ao Caminho. Wenceslau relata-nos sua surpresa quanto à língua japonesa: Neste momento, deixemos assomar, se nos apraz, aos lábios um sorriso, como único comentário; mas sorriso benevolente, de simpatia por esta gramática japonesa, a mais cortês de todas as gramáticas conhecidas. De fato, resulta pelo menos uma vantagem evidente; na língua japonesa não existem palavras insultuosas, obscenas; o termo mais rude que um japonês pode proferir é baka, imbecil. A gramática nipônica faz-nos lembrar uma corte 23 .atarefada, meticulosa, na qual os cortesãos em chusma - substantivos, adjetivos, advérbios, verbos, posposições e todo o resto - palpitam, rodopiam incessantemente em mesuras, em cortesias, em requebros, em reverências, seguindo regras de precedência da mais complicada pragmática imaginável, ou antes inimaginável...[...] e a língua japonesa é incontestavelmente uma das mais belas línguas hoje faladas, como também uma das mais difíceis (ibidem p. 40-41). As ações do Xintô, os ritos de purificação e as ideias de mácula procuram alcançar um ideal de pureza corporal e espiritual, destacando-se o esforço ao retorno do “estado normal”, isto é, estado divino, estado de bom. Corolário natural desta concepção, para o xintoísmo não somos maus, apenas estamos mau. Estar nesse estado é estar impuro, com o coração manchado, anuviado; é afastarmo-nos da nosso verdadeiro Eu ou permitir que nos afastem. O homem não é responsável pelos males que se abatem sobre sua vida, salvo aqueles produzidos por sua voluntária conduta, mas é somente sua a responsabilidade de viver uma vida reta, honesta, ética e clara, como é o desejo dos deuses.  A Natureza e o senso estético no Xintô Se observarmos as fases de desenvolvimento por que passaram as religiões, é de indubitável conclusão o primitivismo do Xintô, a fase ainda "das ideias infantis" dessa religião como afirma Griffis (GRIFFIS, op. cit., p. 69). "Estagnado" nessa fase de desenvolvimento, a Natureza - por força da crença de que os homens, a Natureza e os deuses, provêm de um único ancestral - é objeto de profunda apreciação, respeito e inúmeros festivais por todo o país. A comunhão com o divino e com a própria Natureza se funde num único sentimento, assim descrito emocionadamente por Rochedieu: [...] o Japão sabe conservar certos lugares unicamente pela beleza, e é muitas vezes surpreendente e comovedor para o Ocidental ver nos parques grandes templos, ou simplesmente presenciar num jardim público um pai acompanhado do filho parar em silêncio ao pé de um lago, de uma pequena ponte, de uma cascata ou das flores e ter uma atitude de recolhimento porque, para o japonês, a comunhão com o divino obtém-se as mais das vezes através da união de todo o seu ser com as belezas naturais, com obras de arte selecionadas, com a harmonia  que  emana  de  um  monumento. Não é o valor ou  a grandeza da matéria  utilizada  que  cria  a  beleza,  mas  o  amor com  que  o artista debruça sobre  a  sua  obra,  nela  trabalhando por vezes durante anos, mas incutindo desse modo, no objeto que cinzela ou no quadro que pinta, algo da sua alma, algo de si próprio, e esse algo que procura transmitir através da obra de arte é sempre aquilo que de melhor há em si (ROCHEDIEU, op. cit., p.37). A beleza natural é fundamental para a veneração dos kami nos santuários, independentemente do kami aí cultuado. Segundo Ono, é esse refinado senso estético da beleza que enleva o homem, conduzindo-o do mundo profano ao sagrado, que o faz 24 .experienciar o viver em comunhão com "o alto e profundo mundo do divino" (ONO, op. cit., p. 97). As leis xintoístas não provêm de um deus único, dado aos homens por revelação como nas grandes religiões do Ocidente. São descobertas dentro da Natureza onipresente, encantadora e ao mesmo tempo mística que se lhe mostra. A Natureza não é hostil como na mitologia judaico-cristã que expulsa o homem do Paraíso; pelo contrário, ela existe abençoada pelos deuses e se desenvolve com harmonia e cooperação (ibidem p. 103). É, portanto, dádiva divina, presente dos deuses para os homens. Página 25. Abraço. Davi.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

RELIGIÃO DO ISLAM. Parte XV

Islamismo. Manual para o Novo Muçulmano. Por Jamaal Zarabozo (1961 - ). RELIGIÃO DO ISLAM. Parte XV. “E a ponderação, nesse dia, será a equidade; aqueles cujas boas ações forem mais pesadas serão os bem-aventurados. E aqueles, cujas boas ações forem leves serão desventurados por haverem menosprezado os Nossos versículos.” (7: 8-9). Devemos recordar a todo o momento que as recompensas de Allah para Seus servos são um ato de Sua misericórdia e, também, que Suas recompensas são sempre maiores que realmente merecemos por nossas boas ações. Certamente, o castigo de Allah é determinado mediante Sua justiça e Ele não castiga a ninguém além do que é merecido. O terceiro aspecto fundamental da crença no Último Dia é a crença no Paraíso e Inferno. O Paraíso é a morada eterna e a recompensa para os crentes. O Inferno é a morada eterna e o castigo para os incrédulos. A opinião mais sólida é que ambos existem na atualidade e que continuarão existindo para sempre. Não constituem meros estados de espírito como consideram alguns não muçulmanos e hereges muçulmanos. Allah e Seu Mensageiro os mencionaram e descreveram claramente e de forma inequívoca.  Não existe nenhum motivo para que um muçulmano negue sua existência ou suas descrições. Acerca do Paraíso, por exemplo, Allah disse: “Por outra, os fiéis, que praticam o bem, são as melhores criaturas, Cuja recompensa está em seu Senhor: Jardins do Éden, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele. Isto acontecerá com quem teme o seu Senhor.” (98: 7-8) “Nenhuma alma caridosa sabe que deleite para os olhos lhe está reservado, em recompensa pelo que fez.” (32: 17) Quanto ao Inferno:  “Dize-lhes: A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser. Preparamos para os iníquos o fogo, cuja labaredas os envolverá. Quando implorarem por água, ser-lhes-á dada a beber água semelhante a metal em fusão, que lhes assará os rostos. Que péssima bebida! Que péssimo repouso!” (18: 29) “Em verdade, Deus amaldiçoou os incrédulos e lhes preparou o tártaro. Onde permanecerão eternamente; não encontrarão protetor ou quem os socorra. No dia em que seus rostos forem virados para o fogo, dirão: Oxalá tivéssemos obedecido a Deus e ao Mensageiro!” (33: 64-66) Ibn Taimiyah destaca que a crença no Último Dia também inclui a crença em tudo o que ocorra a uma pessoa logo após sua morte e antes do Dia da Ressurreição. Isso inclui o juízo no túmulo e o prazer ou castigo dentro do sepulcro. O castigo do túmulo é mencionado em um hadith autêntico, registrado por Tirmidhi. Ali foram mencionados os anjos Munkar e Nakir, eles se aproximam da pessoa e perguntam: “Que costumavas dizer a respeito deste homem [referindo-se a Muhammad]?” Outros escritos mencionam que os dois anjos virão e farão três perguntas: “Quem é teu Senhor? Qual é tua religião? Quem é teu Profeta?”. Existem minuciosos aspectos adicionais que se relacionam com a próxima vida e que todo crente deve conhecer e crer. Devido a limitações de espaço não se podem ser analisadas em detalhe, por aqui. Estas questões incluem: (1) A fonte ou poço do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele); (2) As diferentes intercessões; (3) A distribuição dos livros das ações; (4) Travessia da ponte (siraat) sobre o Inferno. (5) A entrada no Paraíso ou no Inferno e todos os aspectos relacionados. A crença e o conhecimento dos grandes acontecimentos do Último Dia e da Próxima Vida deveriam ter uma influência profunda em cada indivíduo, sempre e quando esta pessoa se atenha às reflexões e análises deste Dia. Em primeira instância, deveria incitar os crentes a realizarem boas ações, por saberem das recompensas que os aguardam. Os benefícios do Paraíso são maiores que qualquer olho jamais tenha visto ou que qualquer pessoa jamais possa imaginar. Antes de qualquer coisa, esta incrível recompensa abrange a complacência de Allah e a oportunidade de vê-lo na Próxima Vida. Se as pessoas pudessem estar conscientes deste aspecto, a todo e qualquer momento em suas vidas, buscariam, ansiosamente, realizar tantas boas ações quanto fossem possíveis. Em segundo lugar, a advertência do castigo deveria persuadir as pessoas a não cometerem nenhum pecado, sem se importar quão leve seja. Nenhum pecado cometido neste mundo vale a pena se forem levados em conta o castigo que podemos receber na Próxima Vida. Além disso, ao cometer um pecado, o pecador também ganha o descontentamento de Allah, seu Senhor, o Criador e o Amado. Em terceiro lugar, de acordo com Ibn Uthaimin, a prestação de contas e a justiça no Dia do Juízo provocarão bem-estar e consolo aos crentes. É natural que os seres humanos odeiem a injustiça. Neste mundo, isso é algo que ocorre com frequência. Os que enganam e carecem de ética, muitas vezes, vivem neste mundo sem sofrer as consequências por seus atos. Sem dúvida, isso acontece porque e somente porque, em grande escala, este mundo não é um lugar propício para o juízo, as recompensas e os castigos. Essas pessoas não se safarão das maldades que vêm praticando. As boas ações de uma pessoa também não são realizadas em vão, o que muitas vezes aparenta ser, neste mundo. Virá o momento em que estas questões serão resolvidas, e melhor, resolvidas de uma forma justa. Esse momento será o Dia do Juízo Final. A crença no Decreto Divino. O seguinte e último pilar da fé mencionado pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) é a crença no “Decreto Divino”, ou al-qadar. Idris analisa o significado disto e manifesta que: “O significado original da palavra qadar é medida ou cifra específica, seja em qualidade ou quantidade. Também há outras acepções que não se relacionam com o tema em questão. Desta maneira, yuqad-dir quer dizer, entre outras coisas, medir ou determinar a quantidade, qualidade, medida, etc. de algo antes de construí-lo. E esta última acepção da palavra é o que nos interessa.” É obrigatório que todos os muçulmanos creiam no conceito de qadar, ou Decreto divino, já que é mencionado claramente em muitos ahaadith autênticos. Ibn Qaiim nos mostra que existem quatro níveis, ou aspectos, na crença do qadar. Aquele que não crê nestes quatro aspectos, não tem uma crença em Allah correta e apropriada. O primeiro nível consiste em crer que Allah sabe tudo, particular ou universalmente, antes que as coisas existam. Isso se relaciona tanto às comumente chamadas ações de Allah, como, por exemplo: a produção da chuva, dar vida e outras, como também às ações dos seres humanos. Allah possui o conhecimento prévio de todas as ações da criação devido a Seu conhecimento eterno, que, segundo se diz, Ele há possuído desde sempre. Isto inclui Seu conhecimento acerca de todas as questões de obediência, desobediência, sustento e período de duração da vida. Este aspecto pode ser compreendido em numerosos versículos do Qur’an, como, por exemplo: “Ele possui as chaves do incognoscível, coisa que ninguém, além d’Ele, possui; Ele sabe o que há na terra e no mar; e não cai uma folha (da árvore) sem que Ele disso tenha ciência; não há um só grão, no seio da terra, ou nada verde, ou seco, que não esteja registrado no Livro lúcido.” (6: 59) O segundo nível na crença no qadar é crer no registro de Allah de todas as coisas, antes mesmo da criação dos céus e da terra. Por conseguinte, Allah não apenas teve e tem conhecimento do que passará, senão que registrou esta informação na Tabla Preservada (al-Lauhul Mahfudh). Isso não é algo difícil para Allah. Allah disse: “Ignoras, acaso, que Deus conhece o que há nos céus e na terra? Em verdade, isto está registrado num Livro, porque é fácil para Deus.” (22: 70) “Não assolará desgraça alguma, quer seja na terra, quer seja em vossas pessoas, que não esteja registrada no Livro [a Tabla Protegida], antes mesmo que a evidenciemos. Sabei que isso é fácil a Deus.” (57: 22) O terceiro nível consiste em crer que Allah dirige e governa sobre tudo o que existe e que se Ele não deseja algo, isso não encontrará maneira de existir. Novamente, isso se refere às ações de Allah, de dar vida, sustento, etc. e também às ações realizadas pelos seres humanos. Nada pode suceder a menos que Allah o decrete e permita que ocorra. Por exemplo, uma pessoa pode atentar contra a vida de outra, mas, sem dúvidas só matará a outra se Allah o permitir. Pode-se realizar todas as ações para atingir um fim, mas se Allah não quiser, não ocorrerá. No caso mencionado anteriormente, Allah pode fazer com que o tiro saia pela culatra ou que a mão que dispara trema, fazendo com que a finalidade não seja atingida.  Este aspecto do qadar também pode ser compreendido com diversas provas. Por exemplo, Allah disse: Se Deus quisesse, aqueles que os sucederam não teriam combatido entre si, depois de lhes terem chegado as evidências. Mas discordaram entre si; uns acreditaram e outros negaram. Se Deus quisesse, não teriam digladiado; porém, Deus dispõe como quer.” (2: 253) “Certamente, não é mais do que uma mensagem, para o universo. Para quem de vós se quiser encaminhar. Porém, não vos encaminhareis, salvo se Deus, o Senhor do Universo, assim o permitir.” (81: 27-29) Ibn Uthaimin também nos oferece um argumento racional para este aspecto da crença no qadar. Diz-se que deve se aceitar que Allah é o Dono, Senhor e Controlador de Sua criação. Desta maneira, não há forma de que algo ocorra sob Seu domínio sem que Ele saiba o que se passa, pois tudo se encontra sob Seu controle e faz parte de Seu domínio. Então, tudo que ocorre em Sua criação está sujeito à Sua vontade. Nada pode ocorrer a menos que Ele o deseje. Do contrário, Seu controle e autoridade sobre Seu domínio seriam deficientes e insuficientes, já que haveria coisas que aconteceriam sob Seu domínio, sem que necessitasse de Seu consentimento ou conhecimento. Estas hipóteses são inaceitáveis. O quarto nível na crença no qadar é a crença em que Allah é o Criador de tudo, Ele quem provoca a existência e outorga essência a tudo. Este aspecto pode ser demonstrado por vários versículos do Qur’an, como os seguintes: “Bendito seja Aquele que revelou o Discernimento ao Seu servo – para que fosse um admoestador da humanidade, O Qual possui o reino dos céus e da terra. Não teve filho algum, nem tampouco teve parceiro algum no reinado. E criou todas as coisas, e deu-lhes a devida proporção.” (25: 1-2). “Deus é o Criador de tudo e é de tudo o Guardião.” (39: 62). “Em verdade, criamos todas as coisas predestinadamente.” (54: 49). Ibn Uthaimin explicou este assunto com as seguintes palavras: “tudo é criação de Allah. Inclusive as ações da humanidade são criações de Allah. Apesar de ser produto do livre arbítrio e vontade do homem, continua sendo criação de Allah. Isto se deve a que cada ação do homem é resultado de duas coisas: uma vontade clara e habilidade [para realizar tal ação]. Por exemplo, suponhamos que à sua frente haja uma rocha, cujo peso é nove quilos. E eu ordene: “levante esta rocha” e você responde: “não quero levantá-la”. Neste caso, sua falta de vontade o impediu de levantar a rocha. Pensemos que peço pela segunda vez: “Levante a rocha”, então você responde: “sim, farei o que me pedes”. Neste momento você quis levantar a pedra, entretanto não foi capaz, portanto não a levantou porque não foi capaz. Se digo pela terceira vez: “levante esta pedra” e você a levanta, então houve a capacidade e a vontade para fazê-lo. Todas as ações que realizamos são o resultado de nossa vontade e nossa plena capacidade. Quem criou essa habilidade e essa vontade foi Allah. Se Allah nos houvesse paralisado, não teríamos habilidade para realizar nenhuma ação. Se, podendo fazer uma ação, desviamos a atenção para outra coisa, não a realizaremos. Dessa forma, dissemos: Todas as ações do homem são criadas por Allah. Isso se deve ao resultado de nossa vontade e habilidade e esta vontade é de Allah. A razão pela qual Allah é o Criador dessa vontade e capacidade baseia-se no fato de que a vontade e a habilidade são duas características de quem quer algo e de quem tem habilidade para alcançá-lo. E por isso quem criou esta pessoa com esta habilidade foi Allah. Aquele que criou a pessoa que possui tais características específicas é Aquele que criou ditas características. Isso clarifica a situação e prova que as ações dos seres humanos são criação de Allah.” Na verdade há muitas perguntas e equívocos que surgem ao redor do conceito de qadar. Devido às limitações de espaço, não podemos analisá-las em detalhes aqui. Não obstante, em uma passagem, Jaafar Shaikh Idris trata adequadamente várias questões relacionadas com o tema. “Deus decidiu criar o homem como um indivíduo livre, sem dúvidas Ele sabe (e o que Ele não pode saber?), antes de criar cada homem, e que este usará seu livre arbítrio. Por exemplo, sabe qual será sua reação quando um Profeta lhe transmita a mensagem de Deus... ‘Mas, se somos livres para usar de nossa vontade’, um Qadari pode dizer, ‘podemos usá-la de forma tal que contradiga a vontade de Deus e, nesse caso, estaremos equivocados ao declarar que tudo é vontade ou está decretado por Deus’. O Qur’an responde a esta pergunta recordando-nos que é Deus quem determina as ações que podem ser arbitrárias e é Ele quem nos permite fazer uso de nossa vontade. ‘Em verdade, esta é uma admoestação: e, quem quiser, poderá encaminhar-se até a senda do seu Senhor. Porém, só o conseguireis se Deus o permitir, porque é Prudente, Sapientíssimo’ (76: 29-30)”. ‘Por ser assim,’ diz um qadari ‘Ele poderia evitar que cometêssemos maus atos.’ Obviamente, Ele poderia, ‘Porém, se teu Senhor tivesse querido, aqueles que estão na terra teriam acreditado unanimemente...’ (10:99). Sem dúvidas, Ele ditou que os homens fossem livres, especialmente nas questões da fé e incredulidade. ‘Dize-lhes: A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser...’ (18:29). ‘Se nossas ações são vontade de Deus,’ alguém pode dizer que ‘estas são, na realidade, Suas ações.’ Esta idéia é uma grande confusão. Deus deseja o que nós desejamos a partir do momento em que nos outorga a vontade de eleger e nos faz capazes de utilizar esta vontade; por exemplo, Ele cria tudo que possibilita nossa capacidade do exercício da vontade. Ele não exerce esta vontade mediante fatos, pelo contrário, não se poderia dizer que quando alguém bebê, come ou dorme é Deus quem realiza estas ações. Deus as criou, Ele não as realiza ou executa. Outro argumento baseado numa confusão consiste em que se Deus nos permite realizar más ações, então Ele as aprova e aquilo causa satisfação n’Ele. “Certamente, desejar algo". Ele escreveu:  “Deus decidiu criar o homem como um indivíduo livre, sem dúvidas Ele sabe (e o que Ele não pode saber?), antes de criar cada homem, e que este usará seu livre arbítrio. Por exemplo, sabe qual será sua reação quando um Profeta lhe transmita a mensagem de Deus... ‘Mas, se somos livres para usar de nossa vontade’, um Qadari pode dizer, ‘podemos usá-la de forma tal que contradiga a vontade de Deus e, nesse caso, estaremos equivocados ao declarar que tudo é vontade ou está decretado por Deus’. O Qur’an responde a esta pergunta recordando-nos que é Deus quem determina as ações que podem ser arbitrárias e é Ele quem nos permite fazer uso de nossa vontade. ‘Em verdade, esta é uma admoestação: e, quem quiser, poderá encaminhar-se até a senda do seu Senhor. Porém, só o conseguireis se Deus o permitir, porque é Prudente, Sapientíssimo’ (76: 29-30)”. ‘Por ser assim,’ diz um qadari ‘Ele poderia evitar que cometêssemos maus atos.’ Obviamente, Ele poderia, ‘Porém, se teu Senhor tivesse querido, aqueles que estão na terra teriam acreditado unanimemente...’ (10:99). Sem dúvidas, Ele ditou que os homens fossem livres, especialmente nas questões da fé e incredulidade. ‘Dize-lhes: A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser...’ (18:29). ‘Se nossas ações são vontade de Deus,’ alguém pode dizer que ‘estas são, na realidade, Suas ações.’ Esta ideia é uma grande confusão. Deus deseja o que nós desejamos a partir do momento em que nos outorga a vontade de eleger e nos faz capazes de utilizar esta vontade; por exemplo, Ele cria tudo que possibilita nossa capacidade do exercício da vontade. Ele não exerce esta vontade mediante fatos, pelo contrário, não se poderia dizer que quando alguém bebê, come ou dorme é Deus quem realiza estas ações. Deus as criou, Ele não as realiza ou executa. Outro argumento baseado numa confusão consiste em que se Deus nos permite realizar más ações, então Ele as aprova e aquilo causa satisfação n’Ele. “Certamente, desejar algo, no sentido de permitir que uma pessoa faça algo, é uma coisa; aprovar sua ação e elogiá-la é outra...”  Página 144. Abraço. Davi