quarta-feira, 5 de agosto de 2026

RAJA VIDYA - RAJA GUHYA YOGA - A SUBLIME CIÊNCIA E O SOBERANO

Hinduísmo. Bhagavad Gita - A Mensagem do Mestre. RAJA-VIDYA - RAJA-GUHYA YOGA - A SUBLIME CIÊNCIA E O SOBERANO. Capítulo IX. A quem tem a verdadeira fé, inabalável esperança e o divino amor, pode ser comunicada a mais sublime Ciência e revelado o Soberano Segredo, que é a presença Divina na Humanidade. 


1.Fala o Verbo Divino: A ti, ó Arjuna, cujo coração está livre de contradição, ensinarei agora a misteriosa ciência suprema. A Ciência dos Reis (Raja-vidya) e o Real Segredo (Raja-guhya). Cujo conhecimento te tornará para sempre livre do mal e da desventura. 2.Esta ciência é o mais alto conhecimento, o mais profundo mistério, o perfeito purificador, compreensível pela intuição, eterna, infalível e facilmente praticável. 3.Aqueles que não a possuem, não podem chegar a Mim e, por isso, depois de desencarnados, voltam a se reencarnar neste mundo. 4.Todo este universo, tanto em suas partes, como em sua totalidade, é uma emanação minha, e Eu o penetro em minha natureza invisível, Eu que sou o Imanifesto. Todas as coisas de Mim provêm, mas Eu não tenho origem nelas. Em Mim estão todas as coisas, mas Eu - em minha divindade - não estou circunscrito por elas. 5.Não penses que todas as coisas sejam Eu mesmo. Eu sou o sustentador de tudo, penetro tudo, mas não sou limitado nem encerrado nisso. 6.Com o vasto volume de ar, em toda a parte presente e em constante atividade. É sustentado e contido dentro do éter universal, assim todas as coisas em Mim estão, no Imanifesto. Pondera bem, ó Arjuna, sobre este mistério. 7.No fim de um Kalpa (Um Kalpa, período de atividade criadora, é um dia de Brahma, que dura 4.220.000.000 de anos solares. Corresponde ao que os teósofos chama uma Cadeia planetária), todos os seres e todas as coisas refluem em minha natureza imaterial. E, no princípio de outro Kalpa, torno a emanar de Mim todas as coisas e todos os seres. 8.Por meio da minha natureza material, emano todas as classes de seres e coisas que constituem o universo. Dando-lhes nova existência, a minha Vontade os vivifica. A natureza por si mesma é impotente pra fazê-lo. 9.Mas todas estas obras, ó principal! Não me alteram e não me limitam. Sou superior e indiferente a elas. 10.Obedecendo a minha vontade, a natureza cria e destrói, produzindo os seres animados e inanimados. Eis a razão por que o universo se move. 11.Os que carecem da verdadeira Luz espiritual desprezam-Me, quando apareço em forma humana. Porque desconhecem a minha verdadeira natureza e ignoram que sou o Senhor Supremo. 12.Vaidosos são eles em suas esperanças, egoístas em suas ações, tolos em seu saber e sem conhecimento da Verdade, vivendo nos planos inferiores da consciência, onde a malícia, a brutalidade e o engano dominam. 13.Mas os homens iluminados, que têm desenvolvido a sua natureza superior, participam do meu Ser Divino e adoram-me com o ânimo sincero. Com a dedicação completa dos seus corações, porque me reconhecem como a Infinita e Eterna origem de tudo. 14.Tendo vivo conhecimento do meu poder, com seriedade me procuram, com vontade firme, fé inabalável e coração puro Me adoram. Nunca se desviando do caminho que a mim conduz. 15.Outros me adoram pelo sacrifício de conhecimento, contemplando em todas as coisas a minha Natureza Indivisível. 16.Eu sou presente em toda adoração, sim, Eu mesmo sou a adoração. Eu sou o sacrifício, a oblação e os perfumes sacrificiais. Eu sou a prece e a invocação. Eu sou o fogo que consome o sacrifício. 17. Eu sou o Pai do Universo e igualmente a Mãe. Eu sou a origem e o conservador de tudo. Eu sou o objeto do verdadeiro conhecimento. Eu sou a palavra mística AUM. Eu sou o Rig, Salma e Yajus-Veda (isto é tudo a ciência). 18.Eu sou o Caminho, o Criador e o Sustentador. O juiz e a testemunha, o abrigo e a morada, o amigo, o Princípio e o Fim. A criação e a destruição, o espaço e o conteúdo, o semeador e a semente Eterna que dá frutos perpetuamente. 19.Eu produzo o calor e a luz do Sol. Eu mando e retenho a chuva. Eu sou a morte e a imortalidade, e não obstante, sou um e sempre o mesmo. 20.Os que seguem as prescrições dos Vedas oferecendo muitos sacrifícios, bebendo o Soma (Soma é a bebida dos brâmanes, extraída de uma planta rara. Corresponde à ambrosia ou néctar dos gregos e a eucaristia dos cristãos) sagrada e purificando-se dos pecados. Imploram o caminho do céu, serão admitidos no céu de Indra (O céu de Indra é o mais alto dos céus onde, porém, ainda existe a ilusão da separatividade dos seres, e por isso, não pode ser o estado perfeito e eterno. Também ali há mocidade e velhice, isto é, as forças espirituais exaurem-se, o espírito entra na inconsciência e torna a reencarnar-se nesta terra ou em algum outro planeta). Ali obterão o alimento celeste e gozarão os prazeres dos deuses. 21.Quando, porém, tiverem passado neste estado de delícias tanto tempo quanto mereceram pelas suas obras boas, hão de voltar a esta terra e renascer neste mundo terrestre. Porque, ainda que tenham seguido as prescrições dos Livros Sagrados, eram observadores de formalidade e não chegaram ao conhecimento do Eterno. Dedicaram-se ao que é transitório e, por isso, é transitório o efeito de sua devoção. 22.Mas, quem a Mim unicamente adora e em Mim procura o refúgio, lhe darei a Ventura Imperecível. 23.Entretanto, não te esqueças, [o caríssimo! De que mesmo aquele que adora outros deuses, porque não Me conhece, a mim adora sem o saber. Se ele assim faz com fé e amor, eu aceito a sua adoração e o recompenso segundo seu merecimento. 24.Pois Eu sou o Senhor de todos os sacrifícios, e recebe-os todos. Mas aqueles que não me conhecem em verdade, não podem chegar a Mim, e por isso, hão de caminhar de renascimento em renascimento. 25.Cada um chega ao objeto de sua devoção. De que adoram os antepassados, com eles morarão. Os que adoram os espíritos inferiores, a sua esfera irá. E aqueles que adoram a Mim, em minha Essência, comigo se unirão. 26.Sabe também, ó Arjuna! Que eu aceito toda a oferenda que se me faça com amor. Seja uma folha, uma flor, uma fruta ou apenas gotas de água. Eu não olho o valor da oferenda, mas olho o coração de quem a faz. 27. Por isso, qualquer coisa que faças, quer comas ou bebas, quer recebas ou dês, quer jejues ou ores, sempre pensa em Mim e oferece tudo a Mim. 28. E oferecendo a Mim todas as ações, será livre dos vínculos da ação, e das suas consequências. A tua mente torna-se, assim, bem equilibrada e harmonizada e capaz de unir-se a Mim. 29.A todos os meus filhos no mundo, a todos os viventes, eu olho com igual amor e simplicidade. Todos me são igualmente caros. Não repilo a ninguém e a ninguém prefiro. Aqueles, porém, que me adoram e a Mim se dedicam, esses estão em Mim e Eu neles. 30.Se um grande pecador a Mim se dirige e me dedica o amor de sua alma, é digno de louvor, porque procura a verdade. 31.Em breve ele encontrará o caminho da retidão e, trilhando-o com perseverança, alcançará a Paz Eterna. Pois Eu não abandono a nenhum dos que me adoram em verdade. 32.Cada um que a Mim se dirige acha em Mim o refúgio e anda pelo soberano caminho, mesmo que nascido de família pecadora, seja homem ou mulher, rústico ou peão. 33.Tanto mais os santos brâmanes e os pios reis sábios! Compreende isto, ó príncipe! E considera esta terra como uma morada passageira, transitória. 34.Conhece-Me, adora-Me, fixa em Mim a tua mente e sem distração une a tua vontade a Minha, e nesta união encontrarás a mais perfeita felicidade da tua vida. Abraço. Davi.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

XINTOISMO. Parte II

Xintoísmo - Bushido. XINTOÍSMO. Parte II. Mitologia e influência na formação do caráter e cultura do povo Japonês. Fazendo uma análise a partir do nome, Hayao Kawai, moderno estudioso do Xintô, diz que kagami (espelho) deriva de kage (sombra ou reflexo) e mi (ver). Amaterasu ao aceitar sua imagem refletida no espelho, aceitou também o "lado escuro do seu espírito virgem", isto é, ao se recolher, os oitocentos deuses do Alto Plano dos Céus (Takama-no-hara) ficaram no escuro, mas a Deusa do Sol acabou também experienciando a escuridão do seu espírito. Assim como os humanos têm o lado obscuro e desconhecido da mente, para ser perfeita ela precisava ter a sombra. (KAWAI, 1964, p. 183). O torii Os santuários xintô são precedidos pelos característicos portais torii, numa referência às aves que  contribuíram para a saída da deusa Amaterasu da caverna, intrigada com seu canto (ROCHEDIEU, op. cit., p. 131). Constitui-se de duas traves verticais encimadas por duas horizontais. Postadas antes dos acessos aos santuários, separa "o mundo secular, o exterior impuro do terreno sagrado que envolve o santuário. Traz geralmente os "gohei"4 - tiras de papel branco cortadas em ziguezague dependuradas, indicando a presença de deuses. Ao passar por ele, o visitante do santuário simbolicamente se submete a um ritual de purificação das impurezas acumuladas no mundo exterior" (LITTLETON, op. cit., p.70). O Shimenawa Hoje, comumente vista na entrada dos santuários e nos torii, a corda trançada representa a sombra do sol (ibidem p. 87). É posta também em locais de particulares após ritos de purificação, o que preserva o local de más influências e mantém afastados os maus espíritos (HERBERT, 1967b, p. 115). Simbolicamente indica locais onde estão as oferendas aos kami ou locais sagrados onde habitam (ONO, op. cit., p. 26). O número o oito. O número oito aparece na escritura Kojiki nada menos que 50 vezes e o oitenta, 18 vezes. Isso, segundo Herbert, viria de um ditado popular : "nana korobi, yaoki" (caia sete vezes, levante oito). No entanto, o professor se permite formular hipótese na qual "o número oito e seus múltiplos indicam na grande maioria dos casos, a ideia combinada do perfeito e completo".  Mitologicamente trazem "a ideia do divino e sagrado". (HERBERT, 1964, p. 234). E uma tentativa das forças terrestres de se opor à "influência superior" (HERBERT, 1965, p. 126). Os lados esquerdo e direito Na cultura japonesa o lado esquerdo está identificado com o sexo masculino, e o direito com o feminino. Embora não se encontre uma explicação clara sobre o fato, Herbert mencionando Masao Yamane, falando do sol, diz ser o nascente o lugar honroso, seguido pelo sol pleno e depois o poente. Hidari (esquerdo) refere-se a hi (sol), o masculino, e a direita, migi, refere-se a mi (de mizu), água, elemento feminino (Masao Yamane apud in HERBERT, 1964, p. 237). Os tradicionais quimonos são sempre fechados com o lado esquerdo sobreposto ao direito, quer sejam masculinos ou femininos, de passeio ou mesmo os quimonos esportivos que vemos na prática de esportes de origem japonesa como o judô, kendô, aikidô, caratê etc. A dobradura contrária, com o direito sobreposto, o lado feminino, -  é a dobradura da morte; é como se vestem os mortos, o que vemos por exemplo em filmes como "Okuribito", traduzido por "A Partida", do diretor Yojiro Takita e sugerido numa cena em "Hiroshima, mon amour", do diretor francês Alain Resnais. Vale lembrar que na mitologia, quem morre e desce ao reino dos mortos é a mulher; o êxito do contorno com geração de boas crias  se deu quando ambos obedeceram suas posições. De Izanagi, nascem do seu olho esquerdo, a principal deusa do xintoísmo, Amaterasu e de seu olho direito, o deus Tsukiyomi, de menor importância ainda que Susanowo, nascido do nariz.  A etimologia ideográfica do nome Xintô ( 神道) Como se pode observar, xintô é escrito com dois ideogramas; o primeiro é kami (deus ou deuses) e o segundo é michi (caminho, via, estrada). O ideograma ou kanji, é um sistema de escrita originado a partir da representação pictográfica do objeto que podem se combinar em dois ou mais caracteres para significar um terceiro, cujo significado está necessariamente relacionado aos caracteres que o compõem. O invisível é representado a partir da junção de caracteres do visível. É esclarecedor para entendimento do xintoísmo, o conhecimento da escrita original da palavra nesses caracteres chineses. Sobre o assunto, assim explanamos no site nipocultura:- Kami - 神- Michi - 道10 . O kanji (kami) é formado pelo radical à esquerda (shimesu-hen) que significa por si só, mostrar, apontar, exibir ( verbo shimesu – 示す). Sua origem indica elementos da natureza – o sol, a lua e a estrela – sobre os quais se deposita alguma oferenda – o altar primitivo – indicada pelos traços acima dos símbolos pictográficos. Acreditava-se que os espíritos (os poderosos, da natureza) se manifestavam por esse processo; passou a significar o lugar onde estão os espíritos. O complemento da direita representa nuvens sendo cortadas por um longo e potente raio: isto é a voz dos deuses, os espíritos estão falando; e é exatamente esse o verbo representado por essa parte: (verbo mousu - 申す) falar, declarar, proclamar. É verbo polido, de respeito, usado para declarações formais ou para superior hierárquico. Uma outra origem, citada por Katsumi Yamada, são as costelas e a espinha dorsal na vertical com o significado de corpo erecto. Kami significa então, os espíritos que falam, que se manifestam junto a um altar. Na falta de melhor tradução, o Ocidente traduziu o termo kami por Deus ou deuses. (http://www.nipocultura.com.br/? s=kami&submit=Pesquisar) (Michi) significa caminho, via, estrada. Formado por um radical que significa pés (parte da esquerda) e outro à direita que significa pescoço (kubi). O radical pés dá ideia de movimento, de ir, caminhar, de andar para frente, avançar. Em tempos antigos os homens acreditavam que carregar as cabeças do inimigo como sinal de vitória e eficácia de sua ação, espantava os maus espíritos. Depois, costumavam deixá-las expostas na entrada principal dos povoados. Onde estavam as cabeças era então a estrada, o caminho. ( http://www.nipocultura.com.br/ s=etimologia+michi&submit=Pesquisar) A origem do significado de kami A etimologia do significado aponta diversas origens. Kami significa (HERBERT, 1964, p. 37-39): 1. Com outro kanji (上), superior, em oposição a inferior (shimo  -下- ); 2. Aquele que possui poder superior; 3.  Derivado de kimi, que significa senhor, mestre. 4. Derivado da língua ainu, kamui, aquele que cobre sua sombra. 5. Derivado de kamosu, fermentar. 6. Derivado de kabimoye, germinar e crescer. 7.Derivado de kabi, musgo, líquen 8. Derivado de "kagami" ou "kangami" (espelho). Pelo seu importante papel na mitologia surgem outras explicações relacionadas ao objeto: "o coração do kami é puro como um espelho limpo, sem o menor traço de desordem"(Ansai Yamazaki apud in loco citato);  ainda relacionado ao objeto, o termo derivaria de: 8.1 "kagayaite mieru", o que se vê brilhante; 8.2 "akami" (abreviado de akiraka-ni-miru", o que vê tudo   claramente; 8.3 "kamu gami", brilhante-ver, isso porque "o Espírito divino, tal um claro espelho,     reflete todas as coisas da Natureza, operando com uma justiça imparcial, sem tolerar um só grão de mácula"(idem); 8.4 "kakushi-mi", aquele que se esconde; 8.5 "kakuri-mi" ou "kakure-mi", pessoa ou corpo oculto; 8.6 "kagemi", corpo da sombra; 8.7 "kashi-komi", medo reverencial, respeitoso;8.8. uma combinação de "ka", oculto, misterioso, invisível, intangível,  "respeitar algo oculto ou indistinto como uma sombra ou o perfume de uma flor" e "mi", a plenitude ou a maturidade, o que respeita o visível ou tangível. Kami seria então, ao mesmo tempo entidade madura, invisível e intangível; 8.9 uma combinação de "ka", estranho, e "mi", pessoa; kami seria então uma pessoa "dotada de uma substância misteriosa e maravilhosa"; 8.10 uma combinação sutil de "fogo" (ka) que queima verticalmente e "água" (mi), que escorre horizontalmente; 8.11 uma combinação de "ka", prefixo demonstrativo e "mi", por "hi", o sol. O conceito de Kami O conceito de kami está mais próximo dos deuses das religiões politeístas com suas virtudes e fraquezas, do que do deus todo poderoso do monoteísmo (GRIFFIS, 1895, p. 70-71).  Motoori Norinaga, estudioso do xintoísmo, propôs o conceito: “o que quer que fosse altamente impressionante, possuísse a qualidade de excelência e virtude, e inspirasse um sentimento de temor respeitoso” (HERBERT, 1977, p.15). Qualidade de excelência significa poderes além dos do homem, como as forças da natureza, do destino, da sorte e também os espíritos de grandes homens, os que têm enorme poder espiritual sobre a vida humana como o Imperador. As forças da natureza são as forças "misteriosas e temíveis, como os astros, as montanhas, os rios, os mares, o vento, os animais selvagens, as rochas e as árvores". (SIEFFERT, op. cit., p.12). Estas e os santuários xintô guardam estreita intimidade - indefectivelmente há várias árvores no entorno dos santuários. Kami é também tratamento honorífico de nobreza, dispensado pelos japoneses para os sagrados espíritos, que são dignos de reverência pela sua virtude ou autoridade (ONO, op. cit., p. 6). "É apenas o ser superior, que pode ser divindade celestial ou nascida no céu ou mesmo o espírito de falecidos imperadores, sábios ou heróis" (HITCHCOCK, 1893, p. 491).  Escreve o prof. Ono, complementando : Também considerados como kami são os espíritos guardiães de território, de ocupações e de habilidades; os espíritos de heróis nacionais, homens que se destacaram pelas ações ou virtudes e aqueles que contribuíram para a civilização, cultura e bem estar da humanidade; homens que morreram pelo país  ou pela comunidade (m. t. ONO, op. cit. p. 7). Na falta de termo mais adequado, o Ocidente traduziu kami pela ideia que mais se lhe aproximava no seu vocabulário: deus ou divindade, o que torna a tradução inadequada pela simples ideia de bondade e altas virtudes inatas a estes seres, o que não condiz com o caráter de alguns kami, como vimos. Sieffert sugere traduzir por numina, do latim: "nessas condições, traduzir kami por deuses é sem dúvida inadequado considerando-se essa época; melhor seria numina, à maneira dos romanos" (SIEFFERT, op. cit., p. 12).5 Sobre o termo, Jung, citando Rudolph Otto, explicita: ...[ o numinoso é] uma existência ou ação dinâmica que não é causada por um ato arbitrário. Ao contrário, a ação apreende e domina o sujeito humano, que é antes sua vítima do que seu criador. O numinosum, qualquer que seja sua causa, é uma condição do sujeito, independente  de  sua vontade.... esta condição deve ser imputada  a  uma   ordem    exterior   ao    indivíduo. O  numinosum é ou a qualidade  de   um  objeto visível ou a influência de uma presença invisível que causa uma transformação especial da consciência (JUNG, 1965, p. 12). Mas não apenas com o sentimento de reverência, temor, respeito e admiração o japonês cultua os espíritos superiores como kami. Pessoas que morrem pelo país ou pela comunidade, ou o ser humano comum, fraco e digno de pena, também pode se tornar um kami e ser reverenciado (ONO, op. cit., p. 7). Jean Herbert, francês, estudioso do xintoísmo, relata-nos singular caso ocorrido em Toba, na província de Mie. Toba é cidade litorânea famosa pela produção de pérolas, cujas ostras  são colhidas ainda hoje por mulheres equipadas apenas com máscara, sem provimento de oxigênio. Entre as mergulhadoras havia uma de nome On-be, que fatiava dedicadamente a carne do molusco abalone (awabinashi). Um nobre que passava pelo local viu o trabalho de Onbe e, admirado, levou as tiras de carne seca para o Grande Santuário de Ise como oferenda aos deuses. On-be passou então a regularmente oferecer o produto de seu trabalho no mesmo santuário. Após sua morte, foi venerada como kami sob o nome de Kuguri-kami ( HERBERT, 1967a, p.107-108), e seu trabalho passou a figurar nos envelopes (noshibukuro) e papéis (noshigami) de felicitação no Japão, que trazem invariavelmente no canto superior direito, figura estilizada da fatia de awabi. (http://www.nipocultura.com.br/?p=1278). Esclarece Herbert sobre o kami: Poderíamos dizer que numa acepção geral designa toda entidade digna de veneração e mais estritamente, toda entidade objeto de culto , notadamente num templo. Pode se tratar de um ser extra-terrestre, primitivo ou mais recente, de um ser vivo, humano ou não, ou mesmo de um objeto material, seja natural (rocha, gruta, árvore), ou criado pelas mãos do homem (espelho etc) ( m. t. HERBERT,1977, p.15). O que desperta reverência no objeto é o kami que ali habita; o que se venera, explica Hauchecorne, não é o "fenômeno ou o objeto em si, mas o espírito aí contido que o rege"  (apud in BRILLANT et alii, 1954, p. 172). O kami, não corpóreo, tem apenas funções, enquanto o homem, corpóreo , tem a prática das ações. Assim como os deuses não podem praticar ações que necessitam da corporificação, aos homens não lhes é dada a prática de funções que prescindem do corpo. (Banzan Kumazawa apud in HERBERT, 1964, p.39). O material tem vida pelo kami, que é imaterial. É a deificação da força vital que une espírito e matéria e está em todas as coisas, nos seres animados e inanimados (Chikao Fujisawa apud in HERBERT, 1964, p. 39-40). No xintoísmo, o homem e a força exterior, isto é, a Natureza ou o Todo– o material e o imaterial, o visível e o invisível, são um só (idem). O homem é a própria personificação dessa ideia, ele é o bem no “estado natural”, ou seja, ele é apenas parte de um todo maior, onde estão a Natureza e seus elementos, diferentemente do monoteísmo das religiões ocidentais que funda-se na crença num ser único, supremo, onipotente, criador do homem e de todas as coisas. No Xintô a vida espiritual está relacionada à veneração e comunhão com o kami, à "adoração de suas virtudes e autoridade", assim como a fé no kami implica, na verdade,  comportamento de acordo com a "mente do kami" (ONO, op. cit., p.3. 6). Modernamente o Xintô assumiu visão mais ampla no sentido de se aproximar da psique humana, "da ideia de justiça, ordem, favor divino (bênção)", sem esquecer que a função do kami opera pela harmoniosa cooperação mútua (ibidem p.7). Antes da introdução do budismo e das artes chinesas, os deuses xintoístas não tinham nem imagem nem forma (BRILLANT et alii, op. cit., p. 172). Ainda hoje, salvo os mais importantes, mais frequentemente representados, (Izanagi, Izanami, Suzano-o e Amaterasu), os deuses do xintoísmo são  seres sem imagem que apenas enfeixam um conjunto de características: como os humanos, boas e más. Por entenderem nocivas à consolidação pacífica do país, os Aliados durante a ocupação militar após a Segunda Guerra, proibiram os estudos dos textos do xintoísmo, assim como a participação de funcionários do governo nos cultos dessa religião, considerada sério obstáculo ideológico à ocupação norte-americana como doutrina que fomentara a expansão territorial japonesa após a Reforma Meiji. Algumas crenças xintoístas incomodavam as forças de ocupação, cristãs, entre as quais, a de que o imperador japonês seria um deus. A maioria dos teólogos xintoístas, porém, não  define o que é kami. Assim como os japoneses, sabem o que é kami, isto é, sentem o que é kami, mas, porque nunca precisaram defini-lo, têm a natural dificuldade. O japonês entende o kami intuitivamente, sem necessidade de ser conceito. Página 14. Abraço. Davi