segunda-feira, 19 de julho de 2021

II. DIREITO PENAL ISLÂMICO

 

Islamismo. Texto de Zuhra Mohd Hanini. NOÇÃO DE DIREITO ISLÂMICO. II DIREITO PENAL ISLÂMICO. FURTO. Segundo a conceituação da Shariah, furto, consiste no empoderamento ilegítimo de bens moveis alheios, mediante a subtração dos mesmos, ocultamente, do lugar onde encontravam-se guardados e cujo valor supere um montante determinado. Trata-se de um ato ilícito considerado um crime grave, uma vez que o Islam ordena a preservação dos bens, e proibiu ao apoderamento ilegítimo dos mesmos, condenando o furto, a usurpação, a malversação, e tudo aquilo que signifique subtração de coisa alheia com a intenção de tomá-la para si. Quanto à pena por tal crime é estipulada expressamente no Alcorão Sagrado em 5,38-39 "Quanto ao ladrão e à ladra, decepa lhes a mão, como castigo de tudo quanto tenham cometido: é um exemplo, que emana de Deus, porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo. Aquele que, depois da sua iniquidade, se arrepender e se emendar, saiba que Deus o absolverá, porque é Indulgente, Misericordiosíssimo". Vale ressaltar que a amputação trata-se, na visão islâmica, de uma purificação pelo pecado e uma advertência pelo delito, para que tais crimes não se estendam pela sociedade, acabando com a segurança e a tranquilidade da mesma. A amputação só poderá ocorrer se ocorrerem as seguintes condições: 1. QUE O LADRÃO SEJA capaz ante a Lei e que tenha realizado o delito por livre vontade. 2. QUE O VALOR ROUBADO alcance ou supere o valor de 1/4 de dinar, ou seja, o equivalente a 1,06 gramas de ouro. 3. QUE O FURTO TENHA sido cometido ocultamente. 4. QUE A COISA FURTADA tenha sido subtraída de um lugar seguro destinado pelo proprietário para sua segurança. 5. QUE NÃO EXISTA NENHUMA condição que exima a pena como por exemplo o caso de que quem tenha subtraído tenha sido o seu próprio pai ou filho, ou quando é cometido entre os cônjuges, e também quando ocorrer  por situação de extrema necessidade como fome, etc. 6. QUE A VÍTIMA do furto denuncie o ladrão. 7. QUE SE CONFIRME A AUTORIA do furto seja através da confissão dupla por parte do autor ou então por meio do testemunho de duas pessoas que tenham visto ele cometer o delito. Observa-se que a pena não deverá ser aplicada ante a mínima dúvida sobre a autoria do delito, já que este se presumirá inocente. E por este motivo se a pessoa que confessar se retratar da confissão e não existir provas claras, a pena não será aplicada. Se uma pessoa se apresentar perante o juiz e lhe confessar o furto, sendo que não há nenhuma denúncia contra este, o juiz poderá persuadi-lo a se retratar e a devolver o que foi furtado. Caso este insista em reconhecer o crime e não desmentir a confissão, e uma vez verificada todas as condições a pena lhe será aplicada. A retratação do furto será de duas formas: a primeira será com a devolução do que foi subtraído e a segunda através da amputação da mão no caso de terem se cumprido todas as condições. Aquele que furtar e se arrepender sinceramente perante Deus, devera ressarcir o valor ou o bem furtado, e no caso de não haver demanda contra ele, não deverá fazer público o seu delito, e assim não lhe será aplicada a pena de amputação. A FORNICAÇÃO E O ADULTÉRIO. O ISLAM É UMA RELIGIÃO que priva muito pela castidade e recato do ser humano. Por este motivo estabeleceu o casamento legal como a única e mais sã forma de satisfazer o desejo sexual e preservar os laços de parentesco, e proibiu todo e qualquer outro meio pra tal fim considerando-os graves pecados e delitos, principalmente no que diz respeito à fornicação e ao adultério. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 17,32 "Evitai a fornicação, porque é uma obscenidade, e um péssimo exemplo", em 6,151 é dito: "Não vos aproximeis das obscenidades, tanto pública, como privadamente". Por este motivo a Shariah procura evitar todos os meios pelos quais possa se induzir alguém a cair nestes delitos, dentre eles encontramos o incentivo do Islam aos jovens ao casamento legal. Deus disse no Alcorão 24,32 "Casai os celibatários, dentre vós". Outro meio estipulado pela Shariah com o fim de evitar o adultério e a fornicação é a prescrição aos fiéis para que recatem seus olhares e conservem seus pudores. Também diz o Alcorão Sagrado em 24,30-31 "Dize aos fiéis que recatem os seus olhares e conservem seus pudores, porque isso é mais benéfico para eles; Deus está bem inteirado de tudo quanto fazem. Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores". Além disso, o Islam preserva a mulher e a sociedade ao estabelecer a vestimenta islâmica onde a mulher deve cobrir seus cabelos e seus atrativos, não usando roupas apertadas ou transparentes, exceto perante aqueles que lhe sejam permitidos como estabelece o versículo do Alcorão 24,31 "Dize as fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que normalmente aparecem, que cobram o colo com seus véus e não mostrem os seus atrativos, a não ser a seus esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados, seus sobrinhos, às mulheres suas servas, seus criados, isentas das necessidades sexuais, ou às crianças que não discernem a nudez das mulheres". E também em 33,59 "Ó Profeta, dize a tuas esposas, tuas filhas e às mulheres dos fieis que, quando saírem, se cubram com as suas mantas, isso é mais conveniente, para que distingam das demais e não sejam molestadas; sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo". Também existem várias regras e restrições para evitar que ocorram tais delitos, como por exemplo, a proibição de um homem e uma mulher permanecerem a sós, exceto no caso dos homens que lhe são permitidos (pai, irmão, marido, etc). Proibição do contato físico entre homens e mulheres, a proibição da difusão de obscenidades seja através dos meios de comunicação seja por outros meios, entre outros regramentos estabelecidos no Alcorão Sagrado e na Sunnah do Profeta Muhamad. O ADULTÉRIO E A FORNICAÇÃO são delitos que acarretam grandes prejuízos para a sociedade em geral, atentando contra a preservação e conservação dos laços de parentesco, atentando contra os princípios morais e muitas vezes atentam até mesmo contra o direito das crianças. Como é sabido, nas sociedades onde a fornicação e adultério são praticados normalmente, encontramos milhares de crianças abandonadas nas ruas em função de tais atos irresponsáveis, reduzidas à miséria, além disso, diversas doenças tem se expandido, como por exemplo a AIDS. Inclusive o respeito entre os casais e honra da mulher tem sido afetadas, reduzindo-a muitas vezes em mero objeto de prazer sexual masculino. Todos estes problemas têm sua origem nesses atos que muitas vezes são considerados inocentes e até mesmo são incentivados em muitas sociedades, e ao fim terminam por trazer resultados drásticos para a humanidade. ADULTÉRIO É QUANDO ocorre a relação sexual ilícita entre um homem e uma mulher que sejam casados, mas não entre si. A pena neste caso é a mais grave, todo o adultério seja homem ou que viva num Estado (República) Islâmico e professe ou não o Islam, ser-lhe-á aplicada a pena de apedrejamento. JÁ A FORNICAÇÃO É QUANDO ocorre a relação sexual ilícita entre um homem e uma mulher que não sejam casados. A pena neste caso consiste em 100 vergastadas (açoitar com vara) e penas de desterro por um ano, e será aplicada de igual modo para ambos os sexos: Alcorão 24,2 "Quanto à adultera e ao adúltero, vergastai-os com cem vergastadas, cada um". No entanto tais penas só poderão ser aplicadas se ocorrerem duas condições fundamentais: 1. QUE REALMENTE tenha ocorrido a relação sexual, através do coito. 2. A CONFIRMAÇÃO do fato, e isso se pode dar por duas maneiras: A. A CONFISSÃO DE QUEM COMETEU o delito. Se o autor goza de suas faculdades mentais plenas basta que tenha confessado uma vez perante o juiz. Caso contrário, deverá confessar reconhecendo quatro vezes o delito perante o juiz. Em ambos os casos, o autor deverá ter mencionado expressamente o coito e manter sua confissão até o momento da aplicação da pena. B. PELO TESTEMUNHO E DECLARAÇÃO, perante o juiz, de quatro testemunhas que tenham presenciado e visto o momento da relação sexual, isso confirma que a pena na verdade é destinada para aqueles que fazem questão de tornar público o ato, pois de outra forma seria extremamente difícil conseguir quatro testemunhas oculares do delito. As testemunhas devem ser muçulmanos e reconhecidas pela sua honestidade. Veremos mais adiante que se ficar comprovado que tais testemunhas mentiram todas receberão a pena de 80 vergastadas (vara delgada que serve de chibata). Cabe ressalvar que as penas só se aplicarão se quem cometeu o delito o fez por livre vontade e não tenha sido coagido a tal. No caso, por exemplo, duma mulher que tenha sido violentada, se tal fato ficar comprovado, esta terá o direito de ser indenizada e ao homem será aplicada a pena de adultério ou fornicação dependendo do caso. Também é disposto que se alguém confessa perante o juiz haver cometido um delito punível, sem ter mencionado qual foi, e não existindo denúncias a seu respeito, o juiz deverá manter a confissão em segredo e não indagá-lo sobre o delito, exortando-o a não confessá-lo. Se a pessoa insistir e houver evidências que comprovem deverá ser aplicada a pena. Na aplicação da pena, o fornicado ou adúltero, o incesto e as relações homossexuais são considerados crimes graves, que se comprovadas, serão punidas com a pena de morte. Com relação ao incesto, que se trata da relação sexual com um familiar, que lhe é proibido casar, tal como a irmã, a mãe, a esposa do pai, etc., disse Deus no Alcorão Sagrado em 4,23-24: "Está-vos vedado casar com: vossas mães, vossas filhas, vossas irmãs, vossas tias paternas e maternas, vossas sobrinhas, vossas nutrizes, vossas irmãs de leite, vossas sogras, vossas enteadas, as que estão sob vossa tutela - filhas das mulheres com quem tenhais coabitado; porém, se não houverdes tido relações com elas, não sereis recriminados por desposá-las. Também vos está vedado casar com as vossas noras, esposas dos vossos filhos carnais, bem como unir-vos, em matrimônio, com duas irmãs - salvo fato consumado anteriormente - sabei que Deus é indulgente, Misericordiosíssimo. Também vos está vedado desposar as mulheres casadas". Já com relação ao HOMOSSEXUALISMO, trata-se de delito grave, condenado pelo Islam por tratar-se de desvio sexual que causa doenças terríveis, sejam físicas ou mentais, além de ser algo evidentemente contrária à natureza humana. Deus no Sagrado Alcorão menciona reiteradamente povos da antiguidade que foram castigados por cometerem a sodomia. em 24,54-58 "E recorda-te de Lot, quando disse ao seu povo. Cometeis a obscenidade com convicção? Acercar-vos-eis, em vossa luxúria, dos homens, em vez das mulheres? Qual! Sois um povo de insensatos! Porém, a única resposta de seu povo foi: Expulsai a família de Lot de vossa cidade, porque são pessoas que se consideram castas! Mas o salvamos, juntamente com sua família, exceto sua mulher, que somamos ao número dos deixados para trás. E desencadeamos sobre eles uma tempestade. E que péssima foi a tempestade para os admoestados!". É extremamente importante ressaltar que a regra geral no Islam é a não divulgação dos pecados próprios nem alheios, como forma e medida para evitar que se propague a imoralidade na sociedade. Disse o Profeta Muhamad apud Tuwaijri "Todos os integrantes da minha nação serão perdoados, salvo os exibicionistas que durante a noite cometem indecências e pela manhã, apesar de Deus ter ocultado impedindo que tais coisas fosses descobertas, dizem, pela noite fizemos tal e tal coisa. Passam a noite sem serem descobertos e pela manhã saem revelando os pecados que cometeu e que Deus havia". Portanto, cabe àquele que cometeu tais delitos, se arrepender sinceramente perante Deus e evitar espalhar tal fato, pois é estabelecido pelo Islam que aquele que cometer um pecado e se arrepender sinceramente por ele é como se não tivesse cometido delito algum. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 25,68-70 "Igualmente o são aqueles que não invocam, com Deus, outra divindade, nem matam nenhum ser que Deus proibiu matar, senão legitimamente, nem fornicam, pois sabem que quem assim proceder, receberão a sua punição. No Dia da Ressurreição ser-lhe-á duplicado o castigo, então, aviltadas, se eternizarão nesse estado. Salvo aqueles que se arrependerem, crerem e praticarem o bem; a estes, Deus computará as más ações como boas, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo. Quanto àquele que se arrepender e praticar o bem, converter-se-á a Deus sinceramente". DIFAMAÇÃO E CALÚNIA. O ISLAM PRESA PELA PRESERVAÇÃO da honra das pessoas de tudo aquilo que possa afeta-la, e proíbe expressamente a CALÚNIA e a DIFAMAÇÃO, desta forma protege a dignidade dos seres humanos. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 49,11-12 "Ó fieis, que nenhum povo zombe do outro; é possível que os escarnecidos sejam melhores do que eles os escarnecedores. Que tampouco nenhuma mulher zombe de outra, porque é possível que esta seja melhor do que aquela. Não vos difameis, nem vos motejeis com apelidos mutuamente. Muito vil é o nome que detona maldade, para ser usado por alguém, depois de ter recebido a fé! E aqueles que não se arrependem serão os iníquos. Ó fiéis, evitai quanto possível a suspeita, porque algumas suspeitas implicam em pecado. Não vos espreiteis, nem vos calunieis mutuamente. Quem de vós seria capaz de comer a carne do seu irmão morto? Tal atitude vos causa repulsa! Temei a Deus, porque Ele é Remissório, Misericordiosíssimo". Ainda assim, existem pessoas que caluniam maliciosamente pessoas inocentes e atentam contra a sua honra. Por este motivo a Shariah estabelece uma pena de oitenta vergastadas para aqueles que fizerem acusações graves contra as pessoas sem apresentarem quatro testemunhas oculares do fato que confirme sua acusação. Essa pena abarca quatro tipos de acusações: acusação de adultério, de fornicação, homossexualismo e filiação ilegítima. Tratam-se de pecados graves e delitos puníveis perante a Shariah, cujas penas estão expressas no Alcorão Sagrado em 24,4-5 "E aqueles que difamarem as mulheres castas, sem apresentarem quatro testemunhas, infligem oitenta vergastadas e nunca mais aceiteis os seus testemunhos, porque são depravados. Exceto aqueles que, depois disso, se arrependerem e se emendarem; sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo". Deus exorta no Alcorão Sagrado aos fiéis a não crer em tais difamações e calúnias exceto se forem apresentadas as quatro testemunhas em 24,12-16 "Por que, quando ouviram a acusação, os fiéis, homens e mulheres, não pensaram bem de si mesmos e disseram: É uma calúnia evidente? Por que não apresentaram quatro testemunhas? Se não as apresentarem, serão caluniadores ante Deus. E se não fosse pela graça de Deus e pela Sua misericórdia para convosco, nesse mundo e no outro, haver-nos-ia açoitado um severo castigo pelo que propalastes. Quando a receberdes em vossas línguas, e dissestes com vossas bocas o que desconhecíeis, considerando leve o que era gravíssimo ante Deus. Deveríeis, ao ouvi-la, ter dito: Não nos compete falar disso. Glorificado sejas! Essa é uma grave calúnia!". E disse Deus no Alcorão Sagrado em 24,23-25 referindo-se aos difamadores: "As condições para que esta pena seja aplicada  são quatro: 1. QUE A PESSOA seja capaz perante a lei. 2. QUE AS PESSOAS acusadas sejam muçulmanas e de conduta ilibada, e que sejam acusados de terem cometido relação sexual ilegítima. 3. QUE O ACUSADO solicite a aplicação da pena. 4. QUE O ACUSADOR não comprove a sua acusação através de quatro testemunhas oculares. 4. QUE O ACUSADOR não comprove a sua acusação através de quatro testemunhas oculares. Não será aplicada a pena de forem apresentadas as quatro testemunhas ou se o acusado confessa ter realmente cometido o delito. Cabe ressaltar que se, por exemplo, o acusador vier com mais duas testemunhas, somando um total de três testemunhas oculares do fato, sem, no entanto, haver apresentado a quarta testemunha, a pena de oitenta vergastadas será aplicada aos três. Isso mostra a seriedade da aplicação das penas na Shariah, pois a pena de fornicação, que são cem vergastadas, só será aplicada se forem apresentadas quatro testemunhas oculares do fato, e se estas testemunhas mentirem ou não chegarem ao total de quatro serão punidas com oitenta vergastadas. Aqui convém mencionar que na época do califado de Omar Ibn Khatab (579-644), o segundo califa do Islam, este se dirigiu ao povo anunciando que havia visto duas pessoas cometendo adultério, mas neste momento uma pessoa do povo levantou-se lhe disse firmemente: "Tens quatro testemunhas?", o Califa respondeu: "Mas eu vi com meus próprios olhos", então o homem lhe afirmou: "Se mencionardes os nomes deles lhe aplicaremos oitenta vergastadas por não teres as quatro testemunhas". Aqui é mais uma prova de que no Islam, as leis de Deus estão acima do Estado e de qualquer líder, e todos em conjunto devem respeitá-las. Em outro episódio, também ocorrido no Califado de Omar Ibn Khatab, três pessoas se apresentaram perante o Califa dizendo que foram testemunhas oculares de um adultério, e pediram a condenação dos adúlteros. Neste momento Omar perguntou-lhes: "Acaso vocês tem uma quarta testemunha?" Estes disseram não possuir a quarta testemunha. Então o Califa ordenou que fosse aplicada a pena de difamação sobre os três acusadores. CONSUMO DE EMBRIAGANTES. O CONSUMO DE EMBRIAGANTES, SEM DÚVIDA, é a "mãe" de todos grandes vícios e problemas que assolam a sociedade, pois a embriaguez coloca o ser humano num estado que não lhe permite gozar de suas faculdades mentais plenas e discernimento, provocando-lhes comportamentos prejudiciais à saúde, à alma, à família, à honra e aos seus bens, colocando-o numa posição onde compromete inclusive a sua dignidade. Além disso, é conhecido os efeitos sociais que os embriagante causam tais como a violência, a corrupção, difusão das obscenidades e muitas vezes é causa até de homicídios. Como forma de evitar esse delito a Shariah proíbe qualquer contato com essas substâncias, sendo ilícito o seu consumo, venda, compra, fabricação e inclusive oferecê-las a alguém. Por isso, as autoridades islâmicas devem tomar medidas para que tais inebriantes (que se embriaga) não se expandam pela sociedade. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 2.219 "Interrogam-te a respeito da bebida inebriante e do jogo de azar, dize-lhes: Em ambos há benefícios e malefícios para o homem, porém, os seus malefícios são maiores do que os seus benefícios". Em ,90-91 diz "Ó fieis, as bebidas inebriantes, os jogos de azar, a dedicação às pedras e as adivinhações com setas, são manobras abomináveis de Satanás. Evitai-os, pois, para que prospereis. Satanás só ambiciona infundir-vos a inimizade e o rancor, mediante as bebidas inebriantes e os jogos de azar, bem como afastar-vos da recordação de Deus e da oração. Não desistireis, diante disso?". Disse o Profeta Muhamad: "Não é um verdadeiro crente o muçulmano quando fornica, consome embriagantes, furta ou se apropria ilegitimamente dos bens alheios. A pena pelo consumo de embriagantes deve ser aplicada quando se obtém uma das seguintes provas: 1. A CONFISSÃO DE QUEM reconhece haver consumido embriagantes. 2. O TESTEMUNHO DE DUAS pessoas juntas. Se um muçulmano capaz consumir embriagantes de forma livre e consciente, a ele será aplicada a pena de quarenta vergastadas. Com relação ao CONSUMO E TRÁFICO DE ENTORPECENTES, estes são da mesma forma prejudiciais e puníveis. Segundo os jurisprudentes islâmicos no caso de narcotráfico a pena aplicada será a pena de morte, devido à corrupção e ao enorme prejuízo que causa na sociedade. Já no caso da distribuição de entorpecentes para consumo, comercialização, produção, o juiz dependendo do caso poderá determinar a pena de vergastadas, encarceramento ou multa. No caso de consumo, o juiz determinará a pena mais adequada dependendo do caso. Universidade da Região da Campanha. Campus Universitário do Curso de Direito. Bagé - RS - Brasil. Abraço. Davi.

sábado, 17 de julho de 2021

NO MUNDO, MAS NÃO DO MUNDO

 

Teosofia. Texto de Mary Anderson e tradução de Izar G. Tauceda. Muitas vezes ouvimos a expressão: “NO MUNDO, MAS NÃO DO MUNDO” (no evangelho de João 17,15-16 é dito: ”Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou”), e perguntamos: Qual é a diferença? A diferença está somente em duas pequenas palavras, duas preposições: “no” e “do” que fazem muita diferença! Vejamos essas preposições. “Em” quer dizer em algum lugar. Alguma coisa ou alguém pode estar temporária ou permanentemente em algum lugar. Em certo sentido é um termo neutro, sem cor, sem paixão. Mas “do” indica posse, pertencer a algo. Não é neutro, e pode até ter uma conotação de paixão. Até mesmo uma criança fala de “meus brinquedos”, “meu ursinho”, “minha boneca” e os defende como sua posse. Quando dizemos “no mundo”. Quando dizemos “no mundo” e “do mundo”, como consideramos “o mundo”? A preposição “no” ou “do” muda o significado de “mundo”. No “mundo” significa estar localizado no mundo físico, o mundo material. Isso não é aviltante (desonroso). Não esqueçamos que a matéria é tão divina como o espírito e não deve ser diminuída, como é ou era por várias tradições ascéticas que dizem que “o mundo da carne e do demônio” deve ser evitado e condenado. Por outro lado, “do mundo” significa a identificação com certos valores chamados de “mundanos”, que não são materiais, mas materialistas. Da mesma maneira, ao falarmos de “sabedoria mundana” que não é sabedoria no sentido mais profundo, mas uma habilidade para descobrir a melhor maneira, muitas vezes uma maneira impiedosa, de obter o que se quer ou conseguir seus próprios fins, sejam eles materiais ou imaginados “espirituais”. Quem aspira à espiritualidade pode pensar que o primeiro passo é afastar-se do mundo e de suas tentações, retirar-se, tornar-se um ermitão (asceta) e viver fora do mundo. Ainda assim essa pessoa ainda pode ser “do mundo”, assaltada por tentações na solidão, mais ainda do que quando estava no mundo, porque ser “do mundo” é um estado mental e não apenas um lugar. Às vezes é sábio abandonar coisas e circunstâncias externas, como quando alguém está controlando o alcoolismo e deve evitar frequentar bares. Mas, no fim, não podemos fugir de nós mesmos. Certamente houve e ainda existem eremitas que foram ou são santos genuínos. Contudo, não creio que evitar certos ambientes e buscar a solidão possa ser condenado. Podemos estar em solidão, ainda que intimamente junto a outros, solidários e não sozinhos. É um assunto de temperamento, de nosso dharma pessoal, pelo menos nesta vida, se ficamos no mundo ou escolhemos a solidão. Monges, monjas e ermitãos podem meditar em solidão, podem rogar pelos outros e podem gerar impulsos de cura e de auxílio, formas pensamento, que contribuem para mudar o mundo. Lembro-me de um poema de uma teósofa americana, no qual ela descreve uma jovem que entra no mundo e pratica ativamente o bem. Ela tem uma amiga que é monja e também faz o bem a sua maneira: “Seus pensamentos, atravessando as montanhas, voavam para sua amiga, ela tremia sob o hábito áspero enquanto meditava perto da fonte do convento. Somente eu sabia por que, protegida por Deus, ela fazia isso. Seu amante cuspira nela e sua família e amigos disseram: Tem medo da vida! É insensata como um morcego. Seria melhor se estivesse morta! Ela sabia o que devia fazer nos difíceis dias vindouros. Num mundo dedicado às ações, escravizado pelas máquinas, os supremos dirigentes da coisa, somente uns poucos conhecem a terrível necessidade de suprimento espiritual. Ela fará insistentes petições ao Trono enquanto durar sua vida. Irei acima e abaixo no mundo, e onde eu for lançarei meu amor com os ventos. Não saberemos onde cai a semente nem em quais sulcos vamos semear. Nossa única esperança é acender lanternas semelhantes onde e, quando podermos, e confiar que talvez, uma se torne uma estrela que brilhe na selva para iluminar o homem que luta para voltar ao lugar de onde veio e procura o mapa do Paraíso que perdeu em sua jornada. Uns poucos devem orar e planejar para as enormes multidões de abandonados. Uns poucos, como lâmpadas, devem ser úteis na escura clareira da floresta”. Evitar o mundo não deve ser uma forma de fuga. Pois de qualquer maneira, não podemos fugir de nós mesmos. No outro lado da balança, do ermitão que sai do mundo para não ser do mundo, ou que genuinamente não é do mundo, temos o Avatar o Bodhisattva ou o Messias que não é mais do mundo, que internamente é livre, mas que está no mundo, que limita sua liberdade apenas exteriormente para ajudar e servir os outros e ser um farol para eles. Até mesmo grandes instrutores espirituais, sem necessariamente serem Avatares, Bodhisattvas ou Messias podem muitas vezes dar conselhos em assuntos práticos de todos os dias. Ramakrishna, Ramana Mahasrshi e Krishnamurti muitas vezes o fizeram. Conscientes ou inconscientemente, não ficaram cegos por considerações pessoais como muitos de nós. Vem claramente, e seus corpos são cheios de luz. Não devemos ter medo de permanecer no mundo. A verdadeira sabedoria capacita-nos a agir sabiamente, de praticar karma-yoga como habilidade em ação. E, vice-versa, levar uma boa vida abre caminho para a sabedoria. Já foi dito: “Viva a vida e atinja a sabedoria”. Aldous Huxley (1894-1963) coloca desta maneira: “A natureza da Realidade Uma é tal que não pode ser direta e imediatamente apreendida, exceto por aqueles que escolheram preencher certas condições, tornando-se amorosos, com coração e espírito puros”. Fisicamente não agimos sozinhos. Todas as nossas ações físicas são acompanhadas de pensamentos, sentimentos e motivos, que também são ações. O verdadeiro artista trabalha na matéria física criando grande beleza, edifícios, estátuas, pinturas, movimentos de dança, poemas, sinfonias entre outros. Trabalha no mundo da matéria, vive no mundo, contudo seu maior trabalho é conseguido no esquecimento do eu. E assim esse artista não é “do” mundo. Qualquer trabalho físico pode ser arte, até um arte  que não seja deste mundo. O trabalho considerado penoso pode ser criativo. O Trabalhador que cava buracos na estrada, somente para enchê-los novamente, o trabalhador industrial na linha de montagem, a esposa ou a empregada que limpam, tiram o pó, levam a casa – todos eles, nesse sentido, podem ser artistas. Muito depende de nossa atitude. O poeta George Herbert (1593-1633) escreveu: “A empregada, em sua condição, torna o penoso divino? Quem varre a sala, seguindo tuas leis, faz isto e a ação boas. Esta é a famosa pedra que tudo transforma em outro”. É por isso que os monges zen usufruem do trabalho físico. Diz o ditado de algumas ordens de monges cristãos; “Laborare est orare (trabalhar é orar)”. Em AOS PÉS do MESTRE temos; “Pense como faria um trabalho se soubesse que o Mestre viesse vê-lo”. Podemos fazer coisas por amor a Deus ou por amor a alguém que amamos ou simplesmente por amor. O que importa é esquecermo-nos de nós. Podemos, então, saber realmente o que estamos fazendo. Ai não somos “do mundo”, mas certamente estamos “no mundo”. Somos o mundo. Quem pratica o bem ativamente no mundo pode ser considerado um guerreiro ou um paladino como foi Annie Besant (1847-1933). O cavaleiro europeu na Idade Média tinha um código de honra ou de cavalaria, provavelmente semelhante ao dos Kshatriyas: praticar o bem, lutar contra os opressores, os injustos e maus, defender os fracos, especialmente as mulheres que eram então, e, muitas vezes, são agora, vítimas de injustiça e crueldade. Um sentido mais profundo pode ser acrescido, como no caso de Arjuna no Bhagavad Gita. Os inimigos, os opressores cruéis, derrotados pelo cavaleiro, podem-se referir não apenas a inimigos extremos, mas aos inimigos internos, isto é, à própria fraqueza, aos traços negativos de caráter como ódio, covardia, injustiça egoísmo. O espiritual não é o mundano. Não podemos prosseguir nos reinos do espírito de acordo com meios mundanos. Como disse Jiddu Krishnamurti (1895-1986): “Se quiser atingir a outra margem, não deve sair desta margem, mas começar da outra margem”. Como pode ser isso, se tudo que conhecemos é esta margem? Talvez esquecendo esta margem, esquecendo o eu, não esperar nada, estar aberto a tudo que chegar. Se vamos atravessar a corrente, não ser mais do mundo, não devemos deixar para trás, bem no fundo do coração, tudo o que sabemos, tudo o que possuímos. Como disse Cristo a um homem rico que buscava o Reino dos Céus e que já havia preenchido as qualificações de uma vida correta, dizendo que sempre havia respeitado os mandamentos. Entretanto isso não foi suficiente, disseram-lhe que vendesse tudo o que tinha e desse aos pobres, mas ele não podia fazer isso “por que era muito rico” Mateus 19,20-22. Talvez rico não apenas em bens materiais, mas talvez em conhecimento, popularidade e autoestima. Mencionados como exemplos de quem verdadeiramente está no mundo, mas não do mundo, citamos o Avatar, o Bodhisattva, o Messias. São seres que evoluíram além do estágio humano, mas que por compaixão por aqueles que ainda estão no estágio humano ou sub-humano ficam em contato com o mundo e até retomam a encarnação no mundo. A tradição hinduísta fala de Avatares, e cito Annie Besant: “(...) a mais sagrada das sagradas, essas manifestações de Deus no mundo nas quais ele é divino, vêm para auxiliar o mundo que criou, brilhando em sua natureza essencial, a forma e um fino filme que apenas esconde a divindade de nossos olhos”. Contam que houve nove Avatares, os primeiros quatro com a aparência de animais. Os mais conhecidos Avatares humanos foram o rei Rama e Sri Krishna, embora o Budha também seja considerado um Avatar, o nono. No Bhagavad Gita, Sri Krishna mostra qual é a função de um Avatar: “Sempre que houve um declínio da retidão (...) e houver exaltação da corrupção, ai eu apareço, de era a era, para proteger o bem, para destruir os malfeitores e para estabelecer firmemente a retidão. Rama foi um rei perfeito, exemplo do governante ideal, sendo puro, justo e forte. O Senhor Krishna foi e é reverenciado como a adorável e travessa criança de uma mãe adotiva, o matador dos demônios que aterrorizavam as pessoas, o amante irresistível das almas das Gopis, o encantador tocador de flauta, o guia, o filósofo e amigo do guerreiro Arjuna a quem ele revela ser a encarnação do Senhor do Universo. Como indicam as palavras do Sri Krishna, os Avatares encarnam quando há necessidade de reforma. Dizem que Sri Krishna deu uma lição para os Kshaltriyas, assim como o Senhor Budha deu uma lição aos Brahmanes, que davam mais importância à forma, à letra da Lei do que a seu espírito, esquecendo a necessidade de compaixão a todos os seres. É dito que tanto Budha como Cristo não vieram para trazer uma nova religião, mas reformar as que existiam, e que novas religiões surgiram em ambas com o correr do tempo. No budismo do norte, o Bodhisattva é reverenciado como um tipo de Avatar, alguém que chegou ao portal do Nirvana, mas recusou ter essa felicidade até que todas as criaturas vivas também estivessem prontas para entrar ai. Os Bodhissatvas permanecem no mundo embora não sejam do mundo. O voto de Kwan yin diz: “Nunca procurarei ou receberei salvação individual, nunca entrarei sozinho na paz final, mas sempre e em toda parte viverei e lutarei pela redenção de todas as criaturas em todo mundo”. Estar no mundo não significa, no caso de um Bodhisattva, que ele seja nosso vizinho de porta ou que possamos encontra-lo na rua. Na verdade, um Bodhisattva pode estar entre nós e pode nos ajudar, mas não será reconhecido a não ser por aqueles que tem “olhos para ver”. Entretanto seu auxílio sempre está presente. Cito Madame Helena P. Blavatsky (1831-1891) em A Voz do Silêncio. “Condenado por ti mesmo a viver por futuros kalpas sem o agradecimento e percepção dos homens; entalado com uma pedra entre outras inúmeras pedras que formam a Muralha guardiã, este é o teu futuro, se passares o sétimo portal (...) essa muralha guardiã construída pelas mãos de muitos Mestres de Compaixão, erguida por seus tormentos, cimentada com o seu sangue, ela defende a humanidade desde que o homem é homem, protegendo-a de ulteriores e muito maiores misérias e aflições”. No judaísmo e no cristianismo temos o conceito do Messias. Muitos judeus ortodoxos aguardam a vinda do Messias. Muitos cristãos acreditam que Jesus Cristo foi o Messias em sua encarnação na Palestina, no começo da era cristã, e algumas seitas cristãs aguardam todos os dias seu retorno. Conheci uma moça que pertencia a essa seita, e, aparentemente do apartamento de sua família, a qualquer hora, ouvia-se uma voz entoando “Jesus está chegando”. Em anos recentes, foram expostas descobertas interessantes a respeito do cristianismo, revelando que a visão tradicional é certo tipo de “cobertura”. Na tradição judia, às vezes são mencionados dois Messias: um Messias nobre, descendente do rei Davi, e um Messias sacerdotal, descendente de Arão, o Primeiro Sacerdote. Algumas vezes sugerem que os dois papeis sejam exercidos pela mesma pessoa. Eles são vistos como dois pilares unidos por um arco, significando Shalom, paz, talvez, a paz de Deus além do entendimento. Esses dois pilares refletiram-se e foram deformados na última situação na Europa, onde o imperador reinava sobre o chamado “Sagrado Império Romano”, representando o poder secular, e o Papa representava o poder espiritual. E idealmente esse conceito corresponde ao ideal hinduísta e budista do Chakravartin e do Budha. Cito de Filosofia da Índia, de Heirich Zimmer (1890-1943): Existe um antigo ideal mítico – um sonho idílico compensatório, nascido do desejo de estabilidade e paz que representava um império totalmente universal de duradoura tranquilidade com um monarca justo e virtuoso, o Chakraavartin (...) que conseguiu pôr fim à perpetua luta de estados contendores”. De acordo com a concepção budista, o monarca universal é a contraparte secular do Budha, o Iluminado, que dizem, “colocou em movimento a roda da doutrina sagrada (...) sua roda, o dharma budista, não é apenas para as castas privilegiadas, (...) mas para todo o Universo, a doutrina da libertação, com o propósito de trazer paz a todos os seres vivos sem exceção”. O monarca do mundo hinduísta, pacificando a humanidade sob sua única autoridade todos os reinos próximos sob – “o grande rei (...) rei dos reis, que foi proclamado em gradação igual aos Budhas redentores do mundo, que, através de suas doutrinas, colocaram em movimento a roda”. O Sol, a luz e a vida do mundo brilham sobre todos da mesma maneira sem distinção, e assim também brilha o verdadeiro Chakravartin. Por quanto tempo teremos que esperar por este monarca, por este Budha? Talvez até a próxima Idade do Ouro, que, certamente, não está logo ali na esquina. E, enquanto isso, estaremos “no mundo”, mas não seremos “do mundo”. Assim o mundo estará pronto no devido tempo. “Libertar-se do sentimento de posse, quer a respeito das coisas, de pessoas, de pais, de raça, de religião e até de nossas virtudes imaginárias, exige uma compreensão madura. Essa libertação torna a vida simples, sem superficialidades e é eficiente na maneira de manifestar a real beleza e natureza do Espírito em nós”. N. Sri Ram (1889-1973). Loja Teosófica Jehoshua – Porto Alegre – RS – Brasil. Abraço. Davi

quinta-feira, 15 de julho de 2021

ABRA SEU CORAÇÃO

 

Espiritualidade. www.oshobrasil.com.br. Texto de Rajneesh Chandra Mohan Jain – Osho (1931-1990). ABRA SEU CORAÇÃO. Osho – Na maior parte da minha vida, eu me mantive à distância, separado e isolado, e, assim, eu tenho estado protegido das pessoas e situações. O meu medo mais íntimo sempre foi o de abrir meu coração totalmente. O vasto amor que eu sinto poderia derramar-se com água de um poço transbordando e seria perdido, desviado ou rejeitado. Minha essência é como uma flor delicada, e se ela florescesse num terreno errado ela poderia com facilidade ser maldosamente machucada ou destruída. Este é o meu medo. Seria este o tempo e o lugar para abrir o meu coração totalmente? Tom Cassidy – Este é um dos medos mais básicos de todos os seres humanos. Este é o medo que tem dado origem aos monges e às freiras. Todo o passado da humanidade foi dominado por esse medo, como um câncer da alma.  Parece muito lógico que, se você compartilhar o seu amor, ele será desperdiçado e logo você ficará infeliz. Essa é a lei comum da economia: se você quiser ter mais dinheiro, não o compartilhe, seja miserável. Ganhe o tanto que você conseguir e dê o mínimo possível. Somente assim você consegue acumular e ficar rico. Isso é verdadeiro no que se refere ao mundo exterior, mas é absolutamente falso quanto ao mundo interior; ali funciona uma lei totalmente diferente. A lei interna é: se você não dá, você perde; se você  dá, você conserva. Quanto mais você dá, mais você tem. Quanto menos você dá, menos você tem. Se você não der nada, nada terá; ficará completamente vazio, um túmulo, e dentro do túmulo não há qualquer possibilidade de uma flor desabrochar. As flores necessitam do sol, da chuva, do vento, das estrelas, do céu, dos pássaros, da Terra. Por mais delicada que ela seja, ela necessita abrir-se para a existência. Em tal abertura, a fragrância é liberada, o esplendor que estava preso é liberado. Tom, você é basicamente um monge. A palavra monge é significativa; ela quer dizer “aquele que vive uma vida solitária”, aquele que vive uma vida sem relacionamentos, sem relações, sem amar, sem compartilhar; aquele que vive uma vida sem janelas, fechado por todos os lados, completamente fechado em si mesmo devido ao medo de que, se abrir, quem sabe o que acontecerá com seu coração sensível, com seu delicado ser interior? Ele tem medo de rejeição, medo de situações, medo do desconhecido. Ele se agarra a si mesmo, mas esse agarrar só lhe traz “morte”. Ele pode seguir arrastando-se por anos, mas isto não é vida, isto é suicídio lento. A própria palavra monge quer dizer aquele que decidiu viver uma vida solitária. Da mesma raiz vem monastério, onde as pessoas vivem solitariamente. Da mesma palavra vêm outros como monopólio, monotonia, monogamia. Tentar viver por si mesmo, desconectado dos outros, é a ideia mais perigosa que alguém pode ter, e uma vez que ela começa a tomar um colorido religioso, fica muito difícil livrar-se dela, pois ela satisfaz o seu ego, ela alimenta tudo o que é errado em você e destrói tudo o que é belo em você. Dentro de um túmulo não há qualquer possibilidade de rosas desabrocharem, mas existe a possibilidade de cobras, escorpiões e aranhas; tudo o que é feio e venenoso. Se o túmulo está completamente fechado, o seu próprio ar se torna venenoso. E milhões de pessoas estão vivendo a vida de monges e freiras. Elas podem não ter ido para o monastério, elas podem estar vivendo com suas esposas e filhos, mas estão fechadas. Eles podem estar vivendo no mundo, mas se protegendo muito, sempre cautelosas e calculando, para que suas vidas não tenham qualquer alegria, dança ou canção. É preciso um pouco de coragem para fazer da vida uma celebração. Você diz, Tom: Na maior parte da minha vida, eu me mantive à distância (...). Você tem sido um suicida! Vida significa estar junto, com a existência, com as árvores, com os rios, com as pedras, com as pessoas, com os animais, com tudo o que é. A única maneira de tornar a sua vida rica é relacionar-se com ela . Quanto mais você se relaciona, mais multidimensionalmente você é, mais rico você é, mais você cresce e desabrocha. Ainda há tempo. Abandone esta ideia estúpida de estar à distância, separado e isolado. Isto você pode fazer depois de morrer! Então você terá tempo, mais do que suficiente. Pelo seu nome, parece que você é um cristão. Então, até o dia do julgamento final, você terá tempo mais do que suficiente. Você poderá viver como um monge em seu túmulo, e você poderá guardar a bíblia e o rosário com você. Mas enquanto você estiver vivo, enquanto está imensa oportunidade estiver sendo dada a você, viva-a, alegre-se com ela. Jesus disse repetidas vezes aos seus discípulos: “alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez vos digo – alegrai-vos”, Filipenses 4,4. Jesus não era um monge, ele era um homem vivo. Ele viveu com todo tipo de pessoas, os jogadores, os bêbados, as prostitutas, os pecadores, os cobradores de impostos. Ele viveu – e não com a ideia de que era “mais santo do que você”, ele viveu com grande amizade. Ele gostava das festas que se prolongavam, das danças e da música. E, acredite, ele não estava constantemente evangelizando, ela fazia especulações também. E ele bebia, ele gostava de vinho – e ele compartilhava isso com seus discípulos. O jejum não era o seu caminho, mas sim a festa. Não seja monacal (hábito de reclusão, solidão). Ser um homem é uma oportunidade tão grande que não há necessidade alguma de desperdiça-la. E lembre-se de uma coisa: as coisas das quais você tem medo (...) de abrir meu coração totalmente. O vasto amor que eu sinto poderia derramar-se como água de um poço transbordando (...). Por quem você está sentindo este vasto amor? Só por você mesmo? Porque amar significa ter uma direção, um objeto. O amor é sempre endereçado a alguém. A quem o seu amor é endereçado? Você é como um envelope ainda não aberto: você nem mesmo leu o que está escrito na carta, você nem sabe se existe uma carta dentro ou se está simplesmente carregando um envelope vazio. A não ser que abra o envelope, você nunca saberá. Abra-o! E lembre-se, o poço nunca se esgota porque no fundo ele é conectado ao oceano. O oceano está continuamente alcançando-o em pequenas nascentes. Na verdade, se você não tirar água do poço, ele morrerá, porque as nascentes não serão mais necessárias e ficarão bloqueadas. Não sendo usadas, elas perderão a sua função, e a velha água se tornará estragada e morta, talvez venenosa. É bom para o poço que sua água seja tirada. Quanto mais água você tirar, mais correntes de água fresca chegarão ao poço. O poço não está desconectado da existência. Certamente o seu coração é um poço. Se ele for mantido fechado, você não captará a energia do Universo fluindo para você. Continue se esvaziando e você ficará surpreso; quanto mais se esvaziar, mais cheio você ficará. Por isto é que Gautama, o Budha, enfatiza a palavra shunya, zero. Torne-se um zero! Se quiser tornar-se cheio, a sua mensagem é, simplesmente se torne vazio, um nada, só espaço, puro espaço, um espaço sem limites contendo nada. Apenas esvazie-se totalmente e, você não será capaz de acreditar, um milagre acontece. Quando você está totalmente vazio, a existência toda entra em você. Todas as estrelas estão dentro de você, assim como o sol e a lua. De repente você se vê tão vasto quanto o Universo. Ser nada é a única maneira de ser tudo. Ser ninguém é a única maneira de ser divino. O vazio traz o divino. E não se preocupe com seu amor ficando perdido; nada jamais é perdido. O mundo sempre contém a mesma quantidade de tudo, nem mais nem menos. Isso agora é um fato científico; não existe um simples átomo a menos ou a mais do que o que sempre existiu. A quantidade do Universo permanece absolutamente a mesma, pois de onde alguma coisa nova pode vir? A existência compreende tudo, não existe “algum outro lugar”. E para que outro lugar qualquer coisa pode ir? Não existe outro lugar para se ir, assim, nada jamais é perdido. Talvez possa demorar um pouco mais para se alcançar a pessoa certa, mas sempre se alcança. Cante a canção e não se preocupe! Ela alcançará a pessoa certa no tempo certo. Se não for hoje, será amanhã, se não for nesta sua vida, então em algum outro tempo. Mas ela alcançará, com certeza. Ela sempre encontra a pessoa certa que pode absorvê-la. Simplesmente cante a canção. Não se preocupe com quem ela irá alcançar; toda a sua preocupação deve ser: cantar com totalidade, e isso é tudo. Mais do que isso, não é exigido de ninguém. Não lhe cabe saber se ela será ouvida ou não. Quando uma flor nasce no meio de uma selva, ela não está preocupada se alguém vai passar por ali, ela simplesmente libera a fragrância. Se ela alcançar alguém para cheirá-la, ótimo: se ela não alcançar, qual o problema? A flor desabrochou, ela se ofereceu ao Universo. Agora fica por conta do Universo fazer o que quiser com ela. Nada jamais é perdido, desviado ou rejeitado. Mas as pessoas se sentem muitas vezes rejeitadas porque antes mesmo delas darem algo, já existe a expectativa. Se sua expectativa não for satisfeita, elas se sentem rejeitadas. É a expectativa que está criando problema, não o amor. Dê o amor sem qualquer corda amarando-o. Dê o amor pelo puro prazer de dar. Alegre-se dando-o. O pássaro cuco ao cantar distante, não se preocupa se alguém está gostando ou não. A estrela distante – você pensa que ela está preocupada se um poeta está escrevendo um belo poema sobre ela ou se um Vincent van Gogh (1853-1890) está pintando-a, ou se um fotógrafo ou um astrônomo estão preocupados com ela? A estrela não está interessada nisso. A sua alegria está em continuar brilhando. Simplesmente abra o seu coração, Tom Cassidy. E abra-o totalmente, sem quaisquer expectativas e condições. É certo que ele alcançará o coração certo: isto sempre acontece. Quando eu comecei a cantar a minha canção, não havia ninguém para ouvi-la. Depois as pessoas começaram a chegar. Eu fiquei surpreso: como elas ouviram? Por que essas pessoas continuam vindo? De todas as direções, de todo o mundo as pessoas começaram a vir. Como você chegou aqui? E eu não estava esperando que alguém viesse. Eu estava simplesmente cantando a minha canção, eu estava desfrutando isso. Há poucos dias um sannyasin, perguntou: Osho, eu tive um sonho: eu estava sentado sozinho no Budha Hall e então você chegou. Você sentou-se na cadeira e eu fiquei muito intrigado porque eu estava só e não avia mais ninguém no Budha Hall, todo ele estava vazio. E eu estava preocupado com o que você iria fazer. Não precisa se preocupar, eu farei a minha parte. Eu não posso deixa-lo só. Eu falarei para você por uma hora e meia continuamente. E você também não pode escapar. Quando há muitas pessoas, umas poucas conseguem escapar, mas se você está sozinho, para onde poderá ir? Eu seguirei você! Sem pessoa alguma, ainda que você não esteja lá, eu estarei sozinho no Budha Hall, eu cantarei aminha canção. Tente isso um dia! Eu ainda contarei minhas piadas e se não houver ninguém para rir delas, eu mesmo rirei. Se não for de piada, porque eu já a conheço, estarei rindo do fato de não ter ninguém lá e, ainda assim, eu estar contando uma piada! Que ridículo! Tom, não se preocupe. Você diz: Minha essência é como uma flor delicada (...). Então, permita que ela assim seja! Ela é bela, ela é uma flor delicada. Permita que os outros também participem de sua fragrância, permita que os outros também bebam de sua fonte. Logo a flor morrerá, à tardinha ela já terá ido. Assim, não a esconda, pois mesmo se escondê-la, você não conseguirá salvá-la. De manhã, a rosa abre suas pétalas, ao final da tarde as pétalas definham e a rosa se vai. Antes que ela se vá, permita que ela seja compartilhada, deixe que as crianças brinquem ao seu redor. Deixe todo mundo se alegra! Do contrário, você estará morrendo sem estar realizado. Ela é uma flor delicada, mas quanto mais delicada for, mais rapidamente ela tem que se abrir a existência, ela não pode esperar pelo amanhã – talvez ela não esteja aqui amanhã. E você está preocupado: se ela florescesse num terreno errado (...). Não há terreno errado em lugar algum. Na verdade, se uma rosa consegue florescer num deserto, aquele será o mais belo terreno e ela será uma rosa excepcional. Se ela puder desabrochar entre pedras, então aquela rosa deve ser um Budha, não menos do que isso; um Cristo, não menos do que isso. Num terreno adequado, num jardim, as flores comuns desabrocham, mas as flores extraordinárias desabrocham também entre as pedras e no deserto. Assim, não se preocupe com o terreno e não se preocupe que ela poderia com facilidade ser maldosamente machucada ou destruída. Tudo que nasce será destruído, por isso, antes que ela seja destruída, permita que ela tenha a sua dança. E você está me perguntando: Seria este o tempo e o lugar para abrir o meu coração totalmente? Todo tempo e todo lugar é o lugar certo! E porque você está aqui neste momento, permita que este seja o lugar. Onde você poderia encontrar um espaço melhor, com pessoas mais bonitas, mais receptivas, mais amorosas do que estas que estão à sua volta neste Budhafield? Tom Cassidy, você esperou tempo demais, não espere mais. Este é o tempo. Nunca confie no momento seguinte; o amanhã nunca vem. É agora ou nunca!. www.oshobrasil.com.br. Abraço. Davi.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

SAMSARA

 

Cinema. Editor do Mosaico. SAMSARA. “Samsara é uma produção independente de 2001, indiana, italiana, francesa e alemã. Dirigido pelo cineasta indiano Pan Nalin. A narrativa fala de um monge budista que busca a iluminação. O protagonista, desde os 5 anos vive num monastério budista, até o momento em que se torna um homem e decide conhecer a vida mundana material. Desse modo, ao se apaixonar, sente grande atração por uma camponesa chamada Pema. O filme mostra uma faceta do misterioso mundo do Tibete; isso numa instigante história de busca profunda. O dilema entre – procurar a verdade única do nirvana ou satisfazer a mil desejos do corpo e da mente de um homem comum (...). Aclamado em toda a Europa e vencedor de diversos festivais de cinema". Samsara não é um filme que digamos, nos comove do início ao fim, contudo por ser uma produção independente se descola de alguns conceitos da filosofia budista; sem perder de vista a essência desta rica tradição. Mesmo com uma proposta de questionar alguns milenares pressupostos dessa  religião, assume esses aspectos numa discussão filosófica conscienciosa, ligada numa referência subjetiva a elementos de pesquisa histórica. Desse modo, os que já apreciam essa filosofia espiritual reconhecerão, que esse foi, no âmago aquilo que o Iluminado Budha disse a seus discípulos em particular, num de seus sermões "a verdade não está fora, a verdade está dentro de você". O Budha nunca arrogou para si a posse única da verdade e nem encorajou seus discípulos a que o fizessem. No entanto em suas predicas pediu que seus seguidores aceitassem as verdades dos outros, sem censurá-los ou menosprezá-los, mostrando um coração complacente e interagindo com essas opiniões divergentes. A proposta do diretor indiano na perspectiva filosófica e cultural, se reverte de coragem e importância, pois passa a caracterizar, enfatizando mais na secularização do roteiro que no enfoque eminentemente espiritual. Este a meu ver foi o diferencial que fez com que o filme recebesse diversos prêmios da crítica especializada, inclusive expandindo a cultura budista pelo – Europa – velho mundo. O cenário é belíssimo, rodado nas majestosas paisagens do Ladakh, nas cordilheiras do Himalaia indiano. O filme começa com uma caravana com dezenas de pessoas indo para um monastério budista levando algumas crianças. Quando alguns olham para o céu percebem uma ave ao alto voando em círculo, e logo depois algo cai em cima de uma espécie de pagode – pavilhão de construção típica, onde alguns povos do oriente rendem culto a seus deuses – altar budista. No Tibete antigo muitas crianças eram levadas à vida religiosa por suas famílias, quem sabe, na intenção de verem seus filhos escolhidos como um Bodhisattva, uma encarnação do Budha. Outras, pela pobreza mesmo, e melhores condições quanto a educação e colocação social. Já que o Budha disse; "Não sou o primeiro Budha que existiu na Terra, e nem serei o último. No tempo devido outro Budha levantar-se-á no mundo, um santo, um ser divinamente Iluminado. Dotado de sabedoria em sua conduta, benigno, conhecendo o universo, um líder incomparável dos homens, um mestre dos anjos e dos mortais". Esse é o Budha Maitreya o renovador do Budismo, o próximo Budha que reiniciará o atual ciclo começado por Sidharta Gautama. Acontecerá quando o ensinamento deste estiver esquecido neste mundo. Supõe-se que isso se dará daqui a aproximadamente uns 30.000 anos no porvir. O jovem Tashi o personagem principal do filme, é encontrado pela caravana numa caverna, tendo meditado por mais de três anos. Retirado por seus párias cortam os seus longos cabelos. Ele toma um banho num rio vestindo um hábito, sendo por eles levado ao monastério. Ao chegarem percebe-se que o local é simples, contudo seguro dentro das limitações da vida religiosa. As crianças introduzidas brincam sem entendem o que foram fazer por lá; e Taishi começa o cotidiano da rotina monástica. Numa das salas há uma grande estátua retratando a face do Budha. O Budismo não têm dogmas, muito menos o conceito cristão de idolatria; a imagem do Budha têm o intuito de trazer a honra e reverência à seus ensinos, e a lembrança de que a ignorância produz sofrimento – samsara, retardando a Iluminação.  Nesse ambiente se desenvolve a crise existencial de Tashi, revelada no conflito, se continuaria na vocação para alcançar a purificação completa e o estado desperto de iluminação ou retornaria à normalidade leiga renunciando a vida religiosa. Tashi tem sonhos eróticos onde é acariciado por uma mulher. Conversa com um monge sobre o ocorrido e este o consola mostrando que as tentações quando rejeitadas são forma de aperfeiçoar nosso dharma – missão divina. O sofrimento, ao contrário, advindo delas demonstram o ciclo do Samsara – sofrimento – pelo qual devemos passar, além da acumulação do carma negativo que deverá ser reparado pela disciplina, na atual vida ou no próximo renascimento. Tashi ao receber uma incumbência de seus superiores, fora do monastério, troca olhares com uma jovem conhecida, entrando na propriedade da família desta. Refletindo sobre esse fato, ao dormir, pela manhã decide abandonar o monastério, seguindo seu próprio caminho pelo mundo. Esse fato é marcado por um belo "ritual" onde Tashi vai a um lago, e despido de suas vestes monásticas toma um banho. Já com vestes normais montado num cavalo e acompanhado por um cão segue à uma região distante. Depara-se com um campo de trigo, dormindo aos arredores. Uma linda jovem da propriedade, Pema, vendo o estranho naquele estado, se compadece dele, trazendo comida e cobertor para passa a noite. Acabam fazendo sexo. Ela fala sobre ele para seu pai, que convencido resolve contratá-lo, pois é tempo de colher a lavoura para ser comercializada. Na região existe um comprador das mercadorias dos fazendeiros, que desonesto, usando uma balança com aferição incorreta rouba na pesagem dos produtos. Além de ameaçar aqueles que não negociarem com ele. Tashi descobre essas falcatruas e junto com seu patrão decide negociar os produtos diretamente na cidade. Retorna com o valor da venda, agora correto, e casa-se com Pema tendo um filho. Quando este nasce para a felicidade da família, a parteira diz: "acaba de renascer mais uma vida". No budismo reencarnação e renascimento são coisas distinta; essa é uma questão de opinião nas tradições orientais. O hinduísmo por falar em espírito universal, entende que a mônada, a centelha divina primordial do ser que evoluirá, até alcançar a consciência cósmica, está presente em todas as consciência, desde a elemental até os avatares e mahatma. O budismo ao tratar do conceito da Vacuidade do Eu e do princípio da Não Existência, ou seja se a nossa própria individualidade – alma no cristianismo – é uma ilusão, Maya. Como essa ilusão pode existir e transferir-se para outro corpo num outro reino. Desse modo preferem o termo transmigração ou renascimento. “Para os budistas, a existência não acaba com a morte. Quando uma pessoa morre, renasce em outro ser vivo. Ao morrer, a mente se desprende do corpo físico e renascerá em outro corpo. Segundo os ensinamentos, o período que se segue à morte é conhecido como – bardo. Existem várias fases desse bardo, e os grandes mestres e praticantes mais realizados, encontram nesse momento da morte e da transição o momento ideal para alcançar a iluminação – neste momento, eles reconhecem a natureza verdadeira da mente e se iluminam. No entanto, nem todos os que morrem têm essa capacidade de alcançar a iluminação no momento da morte. Nesses casos, após a morte, o que se seguirá será todo o processo de transição até um novo renascimento. Os ensinamentos budistas dizem que o carma individual de cada ser é que irá determinar o seu renascimento.  Por carma, podemos entender tudo o que é acumulado e criado com ações, palavras e pensamentos – tanto negativas como positivas. Se na vida anterior, esse ser cometeu muitos atos negativos movido pelo veneno da raiva, seu renascimento será muito doloroso. Ele renascerá como um ser no reino dos infernos. Se na vida anterior, esse ser cometeu muitos atos negativos movido principalmente pelo veneno do apego e da avareza, ele renascerá como um ser no reino dos fantasmas famintos. Se ele cometeu muitos atos cometidos pelo veneno da ignorância, renascerá como um ser no reino dos animais. Além desses reinos, chamados de reinos inferiores, os seres podem também renascer nos três reinos superiores, se em suas vidas tiverem cometido mais atos positivos do que negativos. Assim, renascerão como seres no reino humano se tiverem criado bastante mérito e carma positivo, mas ainda assim com um pouco de ações negativas movidas pelo desejo. No reino dos semideuses eles renascerão se tiverem, além de muito carma positivo, cometido muitos atos negativos movidos pelo veneno da inveja. E renascerão no reino dos deuses, se além de muito carma positivo, tiverem sido manchados pelo veneno do orgulho. De todos os renascimentos, o considerado mais afortunado é o do seres humano: eles têm, na medida certa, condições para criarem mérito e condições positivas, e ao mesmo tempo, podem conhecer o sofrimento que trazem os venenos da mente – o que os torna capazes de ter compaixão por todos os seres vivos”. Fonte Budismo Joia Rara. Uma cena que aparentemente pode chocar-nos, é quando Tashi e Pema tem relações sexuais, e seu filho garoto assiste a esse fato. Isso não é comum entre casais cristãos, tão pouco recomendado, se pensarmos numa ética religiosa. Tashi pela terceira vez tem relacionamento sexual, agora com a melhor amiga de Pema, quando esta vai resolver algumas questões na cidade. Decididamente Tashi não tem escrúpulos morais, e seu mundanismo licencioso assustaria qualquer monge comprometido com a vida religiosa. O desejo, é segundo os ensinamentos dos sutras, um grande inimigo a ser vencido. Incontrolavelmente, muitas vezes, somos enganados pela mente, caindo na teia do apego e exagerada afeição natural. Uma passionalidade que requer meditação constante para controlar o cavalo indomável que muitas vezes a nossa mente se torna. Essa foi a característica criada pelo diretor para definir o mundanismo humano, uma essência impregna em nosso comportamento, que mesmo com a meditação nirvânica não é possível debelar. Teremos sim, condições de resistir as tentações vinda do exterior e também do nosso interior. Isso com muito esforço e perseverança para o desapego da luxúria e concupiscência impregnada em nossa natureza humana  É percebido que Tashi confundia as três joias do Budismo. O Budha, aquele que está desperto. O Dharma, o caminho da compreensão e do amor. A Sangha, a comunidade que vive em consciência e harmonia. Tinha percepção de seu Budha interior, porém quanto aos outros dois itens, seus conceitos eram elementares, e desprovido de argumentação espiritual. Tanto que sua fala como monge, é pobre e sua prática do Dharma não se sobressai em sua experiência particular. Tashi não tomou o caminho da conscienciosa decisão ao entrar para a vida monástica. Tudo indica que foi influenciado por terceiros, não assumindo propriamente a importante decisão. Assim, os conflitos e desviou morais se acentuavam comprometendo sua busca pela verdade e compreensão do Samsara existencial. No meio desse descontrole emocional e mental, resolve retorna para o monastério. Na visão de quem assiste o filme uma decisão temerária e irrefletida. Sem comunicar à sua esposa, na calada da noite, Tashi, foge de sua responsabilidade de marido, abandonando mulher e filho. Esse ponto do roteiro, foi brilhantemente explorado pelo diretor, pois implicitamente traz à luz o tema de Sidharta Gautama. Ele deixando sua esposa Yashodhara e seu filho Rahul enquanto estavam dormindo. Para compreender porque o homem sofre o Samsara, e como libertá-lo dessa situação, abandona o palácio e sua posição de futuro monarca do reino. É interesse que se prestarmos atenção aos fatos subsequente a esse evento, reconheceremos que o indiano diretor Pan Nalin, deixa claro a diferença da atitude de Tashin em relação ao Gautama. Yashodhara, em sua sabedoria aceita a decisão de seu marido Siddharta, se "sacrificando"  para que ele siga o caminho da iluminação para libertar todos os seres do cativeiro do Samsara. Budha compartilhou antes com Yashodara sua decisão de encontrar a libertação para o sofrimento humano. Ela prontamente o apoiou, inclusive anos depois quando o Budha retorna ao palácio, ela torna-se discípula dele, instituindo uma ordem religiosa budista para mulheres. O Budha foi perguntado, depois que alcançou o Nirvana, se ele ainda amava seu filho Rahul, pois Yashodhara havia falecido. Ele disse que o amava muito mais agora. O diálogo ao final de Tashi e Pema, que não entende tal atitude tomada pelo marido, é uma expressão do desconsolo e inconsequência daquele que desrespeitando o outro, desonra e fere o sentimento daquela que dividiu com ele o leito nupcial. Não poderia terminar diferente – lamentavelmente –  a trajetória de Tashi em busca de prazeres transitórios, e sua irresponsabilidade em tratar com as emoções alheias. Ele segue solitário por uma longa estrada, com o propósito de tentar novamente voltar ao monastério. E por sua mesquinhez de caráter, implicitamente, o roteirista deduz que isso não ocorreu, para sua tristeza e desgosto. Ou para que refletisse sob sua condição, tomando agora o caminho da virtuosidade com a intensão de diminuir o carma negativo acumulado em sua trajetória de compromisso com a mundanidade.  O filme está disponível no YouTube com legenda em português e várias outras línguas. Recomenda-se indicativo de 18 anos para apreciar a projeção. Abraço. Davi.

terça-feira, 13 de julho de 2021

O QUE É ASTROLOGIA

 

Astrologia – Texto de Ricardo Lindemann. Livro A Ciência da Astrologia e as Escolas de Mistérios. Parte I. Capítulo Um. O QUE É ASTROLOGIA. A astrologia é uma palavra de origem grega, que significa, literalmente, o estudo ou Ciência, dependendo como traduzimos o termo grego logos, dos astros. Astron, mas originalmente se refere à influência dos astros sobre nós, seres humanos, ou sobre os seres vivos de um modo geral, diferentemente da Astronomia que, como a palavra sugere, nómos em grego quer dizer lei, a Astronomia é, literalmente a lei dos astros, referindo-se à lei de movimento que os astros descrevem no céu. A palavra astro é um termo comum que abrange todos os corpos celestes naturais, como ou sem luz própria (estrelas, planetas, satélites, asteroides, cometas, etc). Emma Costet de Mascheville (1903-1980), minha professora, ou Dona Emy, como carinhosamente a chamávamos, costumava comparar a Astronomia como a anatomia do céu, e a Astrologia como a fisiologia do céu. A Astrologia, segundo ela dizia, abrange um sentido da vida que é influenciada através destas energias que os astros irradiam, ou de alguma forma nos influenciam através do seu movimento, enquanto que o mero posicionamento dos astros e suas leis de movimento vêm a ser, originalmente, o estudo da Astronomia. Posteriormente, porém, definiu-se a Astrologia como o estudo da relação entre os fenômenos terrestres e os celestes, incluindo todos os seres nesta Terra, quer essa relação possa ser por influência direta, por sincronicidade ou de qualquer outro tipo. A Astronomia também ampliou, posteriormente, sua esfera de atuação, tornando-se a Ciência que estuda as posições relativas, os movimentos, a estrutura e a evolução dos astros. Outra palavra cujo uso se descaracterizou, em alguma medida, é a palavra Horóscopo. A palavra Horóscopo, derivada da grega Horoskopeo, sendo que o verbo grego skopein significa observar, examinar. Portanto, Horóscopo ou horoscópio, significa, literalmente, observação da hora, assim como microscópio é a observação do pequeno, telescópio é a observação do distante, periscópio é a observação do que está em torno, e assim por diante. Horoscópio, portanto, a observação da hora como uma espécie de fotografia do céu, mas devido ao mau uso e desgaste da palavra, hoje nós usamos mais o termo Carta Astral ou simplesmente Mapa Astral, para designar aquela fotografia, por assim dizer, da posição dos astros no céu no horário de nascimento do indivíduo em relação às linhas de latitude e longitude do lugar onde ele nasceu da Terra. Este contexto é importante porque em torno de 1930, com a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque, criou-se, a título apenas de diversão, uma coluna de jornal que tradicionalmente passou a se chamar Horóscopo, mas que na verdade, não levava em consideração o horário de nascimento das pessoas. Por conseguinte, deveríamos chama-la de “Mesóscopo”, como sugeria Dona Emy, pois só leva em consideração o mês de nascimento. Outra alternativa seria chama-la de “Heliologia”, pois só leva em consideração o signo do sol (Hélios), que é o signo do mês em que a pessoa nasceu; para diferenciá-la da verdadeira Astrologia, que seria o estudo dos diversos astros ou a observação da hora do nascimento do indivíduo, o verdadeiro Horóscopo, o Mapa Astral, a “fotografia” com a posição dos diversos astros naquele momento. As pessoas às vezes têm uma noção muito errônea de Astrologia porque veem, por exemplo, numa dessas colunas de jornal sobre o signo de Áries: “Hoje o signo de Áries ganhará na loteria”. 1/12 (um em cada doze) dos brasileiros deveriam ganhar na loteria ao mesmo tempo, portanto o prémio seria irrisório. Verificamos, assim, que não é possível dividir a humanidade apenas em 12 destinos, isso surge apenas de uma má compreensão da Astrologia gerada por essas colunas populares de jornal. A Astrologia serve primeiramente para interpretar num nível individual o Mapa Astral da pessoa, e coletivamente ela pode dar noções gerais das tendências de um país, ou até da humanidade ao longo de uma Era, que é um período de 2.150 anos, como, por exemplo, na Era de Aquário na qual estaríamos ingressando. Talvez a forma mais simples de nós nos aproximarmos desse conceito seja exemplificando, como Dona Emy gostava de fazer, a partir de uma grande obra de Astrologia chamada a Última Ceia, de Leonardo da Vinci (1452-1519). Nós temos aqui um símbolo dos doze signos e no centro a figura do Cristo. Então, cada um dos doze Apóstolos corresponderia a um signo, mas o Cristo não deve ser visto como o décimo terceiro signo, não é este o caso, senão que, um dos pontos importantes para nós é compreender que o Cristo representa o ponto de fuga de todas as linhas de perspectiva do mural, que vão justamente convergir na cabeça do Cristo, simbolizando, portanto, que de alguma maneira ele representa o Centro de todo o Zodíaco, ou seja, o ponto mais sagrado do mural, o ponto em torno do qual tudo o mais gira. Se nós observarmos, assim, a posição do Cristo é totalmente central e nele nós poderíamos pretender caracterizar os três pontos das aberturas iluminadas ao fundo, ou melhor dizendo, talvez três portas, porque nós podemos ver que o mural original está caracterizando aberturas ou portas iluminadas ao fundo em contraposição às janelas opacas laterais. Então, essas três aberturas ou portas ao fundo são aquelas pelas quais passa a luz do Sol. DIAGRAMA DE CORRESPONDÊNCIA DOS 12 SIGNOS COM OS 12 APÓSTOLOS – segundo Emma Costel de Mascheville no livro Luz e Sombra. 1. ÁRIES – Simão. 2. TOURO – Judas Tadeu. 3. GÊMEOS – Mateus. 4. CÂNCER – Felipe. 5. LEÃO – Tiago Menor. 6. VIRGEM – Tomé. 7. BALANÇA – João. 8. ESCORPIÃO – Judas Iscariotes. 9. SAGITÁRIO – Pedro. 10. CAPRICÓRNIO – André. 11. AQUÁRIO – Tiago Menor. 12. PEIXES – Bartolomeu. O Cristo está exatamente no meio, na posição Equinocial. Portanto, ele representa a posição de equilíbrio. Temos aqui as quatro estações simbolizadas, da direita para a esquerda: a primavera, o verão, depois Cristo, no Centro, que representa a posição do Equinócio Outonal e por fim o outono e o inverno. Então, são quatro grapos de três Apóstolos simbolizando os quatro grupos de três signos que caracterizam o Zodíaco Tropical, as quatro estações do ano, cada uma durando três meses. Esta consideração geral passa a se tornar cada vez mais interessante quando nós observamos as mãos de Jesus Cristo no mural,: com a mão esquerda ele dá, com a mão direita ele recolhe. Então, nós vamos verificar que na verdade, das estações do ano, na primavera e no verão o Sol se doa em luz e calor e no outono e no inverno, de alguma forma, proporcionalmente, a luminosidade do Sol se recolhe. Assim temos esse gesto das mãos a simbolizar uma posição de imparcialidade da Divindade perante a Natureza que doa de um lado e recolhe aquilo que ela mesma doou do outro, simbolizando que a Divindade se manifesta de forma equilibrada, imparcial, como se fosse uma contabilidade cósmica, por assim dizer, que precisaria fechar em zero. Portanto, quando a Divindade cria o “mais um”, tem que criar o “menos um”, quando a Divindade cria o “mais dois”, tem que criar igualmente o “menos dois”, e assim por diante. Tal é o caso, usando uma linguagem mais científica e atual, da teoria de conservação de energia, de modo que a integral ou soma final seja zero, sem deixar resíduo. Tal símbolo, portanto, é muito importante, pois nenhum signo é melhor do que o outro, todos os signos são assim, complementares. Esse é o ponto básico da teoria de Emma Costet de Mascheville, nossa professora, em seu livro Luz e Sombra, cuja leitura nós recomendamos. Nesse sentido, foi ela quem descobriu essa correlação da Astrologia com a Última Ceia de Leonardo da Vinci, ou seja, dos doze signos com os doze apóstolos. Outro ponto que gostaríamos de salientar é que a sombra não existe por si mesma senão como ausência de luz, diz até a Escritura que na presença da luz as trevas em luz se transformam (João 1,5). Da mesma forma é um princípio importante para nós, numa análise teosófica da Astrologia, sustentar que o mal não existe por si mesmo senão como o bem adormecido que não teve ainda oportunidade de despertar ou de desenvolver-se. Acrescentaríamos ainda o conceito de que o vício não existe por si mesmo senão como uma virtude em evolução, em desenvolvimento, uma virtude que ainda não teve o tempo de desabrochar, que não teve oportunidade de manifestar sua potencialidade evolutiva; todo ódio é assim apenas um amor não resolvido. A ideia de que o vício é uma virtude em formação dá um colorido completamente diferente a ideia de qualidade e defeito, como dizia um amigo meu: “Defeito quem tem é máquina”. Então nós estamos aqui pretendendo demonstrar a vocês, que de certa maneira os doze signos representam correlações de polaridades opostas, e existe toda uma simbologia astrológica que Carl Gustav Jung (1875-1961) valorizava, ao afirmar: “A Astrologia merece o reconhecimento da Psicologia, porque a Astrologia representa a soma de todo o conhecimento psicológico da antiguidade”. E nesses arquétipos, nesses símbolos que os signos estão a representar nós vamos ter as polaridades da mente humana. Talvez, quem sabe a melhor forma de nós desenvolvermos o assunto seja dando o exemplo do Eixo primeiro do Zodíaco Tropical que é chamado Áries-Libra. Então veremos que neste mural Simão está representando o signo de Áries, enquanto João representa o signo de Libra. Nesse sentido, pergunto, o que é melhor ao andar de bicicleta: Cair para o lado esquerdo ou cair para o lada direito? Suponho que o melhor seja não cair. Quando nós temos duas polaridades opostas a verdade não está apenas numa delas, as duas são complementares, talvez nós tenhamos a metade da verdade em cada lado. É um princípio fundamental da filosofia hermética do antigo Egito, oriunda de Hermes Trimegisto, também chamado pelos Egípcios de Toth, o princípio ou grande axioma de “Como em cima: assim embaixo”. Ele foi extraído da tábua de Esmeralda de Hermes Trimegisto e é talvez o  princípio básico de toda a Astrologia, é chamado genericamente de Lei da Correspondência ou Princípio da Correspondência. E o que ele pretende corresponder? Justamente que há uma relação entre o Homem Celeste e o Homem Terrestre. Nós podemos ver isso neste diagrama que mostra a correlação dos doze signos do Zodíaco, seguindo a ordem com as doze partes do corpo humano. Então, a cabeça corresponde a Áries; o pescoço corresponde a Touro; os braços e os pulmões correspondem a Gêmeos; o estômago, o esôfago e as glândulas mamárias correspondem a Câncer; o coração corresponde a Leão; os intestinos e o fígado correspondem a Virgem: os rins correspondem a Libra; os órgãos sexuais correspondem a Escorpião; os quadris e as coxas correspondem a Sagitário; os joelhos, os ossos e a pele correspondem a Capricórnio; as pernas e os tornozelos correspondem a Aquário, até os pés que correspondem a Peixes. Se nós formos assim observar a pintura de Leonardo da Vinci, chamada Cenacolo ou Última Ceia, que na verdade é um afresco, um mural pintado no refeitório do Convento de Santa Maria dele Grazie – Milão – Itália , nós vamos verificar que este mural dá um destaque para a cabeça de Simão que representa Áries e está na cabeceira da mesa e pode-se observar também que as mãos dele estão em posição de comando em contraposição ao signo de Libra, representado por João que tem a cabeça inclinada e as mãos cruzadas. É verdade que o mural original, que nós ai vemos, está afetado pelos micro-organismos que o atingiram, e por isso a obra já não tem toda a beleza da época em que ela foi pintada (1495-1497). Ela sofreu danificações quando o mencionado refeitório foi transformado em estábulo pelos soldados franceses em 1796. Por outro lado, por ser um mural esta obra se eternizou, ou pelo menos teve mais condições de ser preservada do que talvez uma tela pintada a óleo que pode desaparecer mais facilmente, pegar fogo ou até ser roubada, etc. Infelizmente fizeram até uma porta para ligar o refeitório à cozinha, e para tal destruíram a parte da parede onde estavam pintados os pés de Cristo. Mas o que interessa é que Áries está ali representado com as mãos em posição de comando e com a cabeça exposta à cabeceira da mesa. Em seguida, Judas Tadeu representa Touro com uma concentração de luz no pescoço, e logo depois vemos Mateus com os braços em destaque, caracterizando, como nós vimos na ilustração do Homem Celeste, exatamente a mesma sequência da direita para a esquerda, seguindo assim a ordem dos signos do Zodíaco. Portanto, nós não estamos aqui pretendendo dizer que há uma relação de conexão meramente acidental ou casual, e sim que Leonardo da Vinci tinha a intenção de deixar uma mensagem astrológica nesse mural, ainda que velada em forma de pintura artística. Naquela época, na virada do século XV para o XVI, vigorava ainda a Santa Inquisição até a morte, em praça pública, em Roma, no Campo de Fiori, porque ele acreditava na onipresença de Deus e sustentava a existência da vida em mundos inumeráveis, como não acreditava na existência de vida só no planeta Terra, antes, ele sustentava que não seria digno da grandeza de Deus se só houvesse vida na Terra. Naquela época, falar de Astrologia não era um assunto tão simples, e o cuidado que Leonardo da Vinci teve neste mural foi, justamente, pintá-lo de uma forma cifrada de tal maneira que não fique evidente para o leigo tratar-se de uma obra de Astrologia, muito pelo contrário, parece ser apenas a Sagrada Eucaristia na quinta-feira santa, no momento em que Jesus dividi o pão com os seus discípulos, e abençoa também o vinho. No cristianismo, todo o simbolismo da missa inicia com a Sagrada Eucaristia a partir da quinta-feira santa. Da Vinci escolheu um dos mais sagrados símbolos cristãos para expressar através dele sua mensagem astrológica para as futuras gerações. Alguns cristãos resistem à Astrologia e à Ciência Astronômica, que naquela época  ainda não estavam separadas, porque elas foram trazidas novamente à Europa medieval pelos árabes juntamente com o sextante, o astrolábio, a bússola, etc, que tornaram possível o descobrimento das Américas. Porém, alguns esquecem que a maneira como o nascimento de Jesus foi descoberto pelos chamados Reis Magos, que eram evidentemente astrólogos persas, foi pelo cálculo da posição da Estrela de Belém. Por isso, o Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro – Brasil, do qual tive oportunidade de ser um dos membros fundadores, escolheu o dia 6 de janeiro, dia dos Reis Magos, como a data nacional do dia do Astrólogo, porque foi assim, através da Astrologia, que o nascimento de Jesus foi descoberto. Johannes Kepler (1571-1630), o grande Astrônomo e Astrólogo  simultaneamente, na história dos Grandes Cientistas, sustentava que a Estela de Belém era na verdade a conjunção de Júpiter com Saturno, ou seja, a relação do planeta da graça com o planeta do sacrifício, os dois em linha, em conjunção, proporcionariam um brilho extraordinário no céu, a soma do brilho destes dois planetas, resultaria mais tarde na chamada Estrela de Belém. Assim também Edmond Halley ((1656-1742), o descobridor do cometa que levou o seu nome, questionou as bases da Astrologia a Sir Isaac Newton (1643-1727), e ele teria respondido: “Sir, I have studied it, you have not” – “Senhor, eu a tenho estudado, o senhor não” . A Astrologia não é uma questão de crença, por isso esse livro inicia seu título com “A Ciência da Astrologia”, e juntos vamos investigar se há ou não correlação entre os fenômenos celestes e os terrestres. Vejam então, como o signo de Câncer é representado por Filipe, discípulo de Jesus, por não poder, evidentemente, num homem caracterizar as glândulas mamárias, ele tem um gesto maternal de quem traz a si, ao peito, em contraposição ao seu oposto que é André que representa Capricórnio e tem as mãos espalmadas. Dona Emy chamava o primeiro de “Vinde a mim” e o segundo de “Sai de mim”, o primeiro simboliza o calor do verão e o segundo o frio do inverno no Hemisfério Norte, de onde nos vem essa simbologia zodiacal greco-romana. Vamos verificar nessa sequência que Leão rege o coração e temos então o Apóstolo Tiago, aqui, possivelmente Tiago Menor – essa é uma das possíveis áreas de discrepância em saber se é Tiago Maior ou Menor – mas o fato é que ele tem aquela postura de expor o coração. Assim, o mural vai gradualmente demonstrando a exata sequência da direita para a esquerda que nós havíamos justamente indicado na tal correspondência entre o Homem Celeste e o Homem Terrestre. E nós vamos ver que o único apóstolo que tem os pés na luz é justamente o que representa o signo de Peixes, então observamos ali como Bartolomeu é o único que tem os pés na luz. Evidentemente que isso não está de todo nítido no original porque essa é uma das áreas que está na fase de reconstituição, mas porque ele está de pé na cabeceira da mesa pode-se, com as cópias mais próximas da época, verificar que é o único dos apóstolos que tem os pés na luz, como se pode ver na cópia do mural que foi reconstituído na capa do Luz e Sombra de Dona Emy. Nós fizemos essas menções, e vamos aos poucos estudar os signos dois a dois nas suas polaridades ou eixos, para que se possa perceber assim no contexto, que nenhum deles têm só qualidades ou nenhum deles têm só defeitos, senão que de dois a dois eles precisam ser integrados para que nós possamos ter o equilíbrio do todo reconstituído. Então, nossa proposta inicial é estudar os 12 Signos a partir de suas polaridades, depois nós vamos investigar também as 12 Casas Astrológicas, os planetas, buscando descobrir o equilíbrio e a beleza da Natureza no Mapa Astral. Eu citaria uma expressão de Emma Costet de Mascheville: “Através do estudo da Astrologia aprendemos a não culpar, mas a compreender, a não ser infelizes ou revoltados, mas a conhecer a nós mesmos e ao nosso próximo, encontrando a harmonia da vida e religando-nos à Fonte de Luz. Livro A Ciência da Astrologia e as Escolas de Mistérios. Abraço. Davi.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

I. DIREITO PENAL ISLÂMICO

 

Islamismo. Texto de Zuhra Mohd Hanini. NOÇÃO DE DIREITO ISLÂMICO. I. DIREITO PENAL ISLÂMICO. HOMICÍDIO - A Shariah classifica os direitos e deveres em dois grupos, o primeiro deles refere-se aos direitos e deveres entre a pessoa e seu Criador, e dentro desta classificação vem todas as leis cultuais, sendo as mais destacadas o monoteísmo (crença num só Deus) puro e o cumprimento das orações. O segundo grupo refere-se aos direitos entre as pessoas, e o mais destacado destes direitos é o direito de respeito à vida alheia. Segundo a crença islâmica, no Dia do Juízo Final a primeira coisa que as pessoas serão questionadas será sobre o cumprimento das orações, e após isso haverá a justiça referente aos delitos contra a vida. No Islam, causar a morte de uma pessoa é o mais grave pecado após a idolatria, a menos que seja no cumprimento de uma sentença pelos responsáveis por administração da justiça. Deus disse no Alcorão Sagrado em 5,32 "Quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na Terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade". -+O homicídio se divide em três classes: Homicídio doloso. Homicídio preterintencional. Homicídio culposo. Homicídio culposo. Homicídio doloso. HOMICÍDIO DOLOSO é quando uma pessoa procede com a intenção de tirar a vida alheia empregando para esse fim um maio que sirva para matá-lo. Esse tipo de homicídio pode ser praticado de diversas formas contra uma pessoa, como por exemplo: golpeando-a, introduzindo em seu corpo uma faca, projétil ou outro elemento, por meio da asfixia, envenenando-a ou ainda apresentando falsas testemunhas que acusem a de ter cometido um delito penalizado com pena de morte e esta seja executada. O HOMICÍDIO DOLOSO é penalizado através da lei de talião, isso implica a execução (morte) do homicida. Mas os familiares da vítima podem optar entre pedir sua execução, receber indenização ou perdoá-lo, sendo esta última opção a mais recomendada. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 2,237: "Sabei que o perdão está mais próximo da virtude". A Shariah estabelece condições para que seja aplicada a pena de morte, entre elas temos o fato de que a vítima tenha sido assassinada injustamente, e não quando, por exemplo, se tratar de um soldado inimigo que tenha lhe atacado, ou no caso de legítima defesa. Outra condição é que o homicida seja capaz e tenha cometido o homicídio com dolo. A pena de morte não será aplicada no caso de homicídio cometido por criança, dementes e pessoas que não tenham tido a intenção de matar, sendo que nestes casos a pena será pagar uma indenização à família. No caso da criança ou demente, se estas cometerem o homicídio instigado por um capaz, a este será aplicada a pena de morte, porque se considerará a criança como ferramenta utilizada pelo instigador para cumprir com o homicídio. No caso de um sequestro, por exemplo, onde duas pessoas participam do crime, mas uma tinha a intenção de cometer o homicídio e o efetiva, enquanto o outro só tinha a intenção de sequestrá-la, a pena de morte será aplicada somente sobre aquele que cometeu o homicídio, mas se houver uma cooperação ou auxílio, a ambas será aplicada a pena de morte. Não há distinção de sexo na aplicação da pena. As condições que devem existir para que seja exigida a aplicação da pena de morte são 1. QUE TODOS OS FAMILIARES DIRETOS, ou seja, herdeiros legítimos, da vítima estejam de acordo em pedir a execução do homicida, basta que um deles perdoe par que este não possa ser executado. Nesse caso só poderá ser exigido do mesmo o pagamento de uma indenização. 2. DEVE SER GARANTIDA a integridade de quem, sem ser  partícipe do delito, esteja relacionado ao homicida. Por exemplo: Se for solicitada a execução de uma mulher homicida que se encontra grávida, então a execução da pena deverá ser postergada até que dê a luz ao bebê e o amamente por dois anos, para então ser aplicada a pena. Segundo o que estabelece a Shariah, a pena será aplicada no caso do homicida confessar seu crime ou no caso de dois homens reconhecidamente honestos derem testemunho do fato ou ainda quando é realizada a chamada "Qassamah", que consiste no juramento reiterado que realizam várias pessoas, no mínimo cinquenta, com o fim de acusar alguém como autor do homicídio, desde que haja fortes evidências que este foi realmente o autor do crime. A execução da sentença condenatória que decrete a pena de morte será realizada perante a presença da máxima autoridade ou seu representante e deve ser aplicado com um instrumento adequado, como por exemplo, uma espada afiada para quando se executar através da decapitação. Também se pode executar aplicando a regra do talião, e neste caso será aplicada a pena da mesma forma que assassinou a vítima. Inclusive nesses casos apena deve ser aplicada com benevolência. Disse o Profeta Muhammad: "Deus prescreveu a benevolência quanto a todos os assuntos, inclusive quando tiverdes de aplicar a pena de morte (...). Se os herdeiros legítimos da vítima perdoarem o homicida em troca de uma indenização, este deverá pagar o equivalente ao valor de 100 camelos, atualmente cerca de US$ 30 mil dólares, mas as partes poderão acordar um valor menor ou maior que este. O Profeta Muhammad apud Tuwaijri disse: "Quem matar um crente dolosamente, estará nas mãos dos herdeiros legítimos da vítima. Se estes decidirem aplicar-lhe a pena de morte, então será executado, e se optarem por uma indenização, deverá pagar-lhes 30 camelas de três anos., 30 de quatro anos e 40 prenhas, ou o monte acordado. Isto em conceito de indenização agravada". A indenização é agravada por tratar-se de homicídio doloso, poi o valor estabelecido para os outros tipos de homicídio é inferior. No caso de serem vários os homicidas condenados pelo homicídio de uma única pessoa, então estes deverão pagar a indenização de forma conjunta. No caso de homicídio qualificado, que ocorre no caso do homicídio ser cometido mediante uma agravante tal como o engano, armadilha, no caso de latrocínio (roubo seguido de morte), a pena será a pena de morte, e neste caso não se contempla a absolvição da pena por parte dos herdeiros legítimos da vítima. HOMICÍDIO PRETERINTENCIONAL. É QUANDO A MORTE DA VÍTIMA ocorre sem que o homicida tivesse o propósito de causá-la, pois sua intenção era consumar um delito distinto. Como por exemplo, da pessoa que golpeia outra sem a intenção de matá-la, mas em razão deste se produz a morte da vítima. Para este tipo de homicídio não se aplica a pena de morte. Neste caso, a pena é pagar uma indenização aos familiares da vítima e cumprir com a expiação do pecado cometido, que consiste em libertar um escravo crente ou na impossibilidade disso, jejuar dois meses consecutivo. A indenização cnsiste no pagamento de 100 camelas, estando 40 delas prenhas, ou o valor equivalente. Disse o Profeta Muhamad: "A indenização que deve pagar quem comete um homicídio preterintencional, ou seja, aquele que golpeia outro sem ânimo de matá-lo com uma vara ou algo do gênero e a pessoa morre por causa disso, é de 100 camelas, 40 delas prenhas". Os familiares do homicida estão obrigados a entregar estes camelos ou pagar o valor equivalente em dinheiro. Esta indenização pode ser paga em um prazo de até três anos, se os familiares não tiverem dinheiro suficiente para pagar a totalidade da indenização, o valor restante será coberto com os fundos do Tesouro Público Nacional. HOMICÍDIO CULPOSO. OCORRE QUANDO A MORTE de alguém é csusada sem intenção do homicida, mas por imprudência ou negligência deste. Na culpa, a intenção está referida à ação ou omissão que causa o dano sem propósito de fazê-lo, como por exemplo, o caçador que dispara e mata uma pessoa por engano, ou por exemplo, no caso de um acidente de automóvel quando o mesmo ocorre por negligência ou imprudência do homicida. Entram dentro desta categoria o homicídio cometido pelo menor e pelo demente. A pena aplicável ao homicida que cometer um homicídio doloso é de indenização e cumprimento da expiação de seu pecado. A indenização neste caso é de valor inferior aos demais da categoria de homicídio. O Profeta Muhamad disse: "A indenização em caso de homicídio culposo será de 100 camelas, 30 de um ano, 30 de três anos e 10 camelos de dois anos". O pagamento poderá ser feito em camelos ou no valor correspondente, que atualmente é cerca de US$ 26 mil dólares, que poderá sr paga num prazo de três anos, e no caso de insolvência (circunstância em que se encontra a pessoa que não tem meios, ou condições para pagar aquilo que deve) dos familiares, o valor restante será coberto com os fundos do Tesouro Público Nacional. A expiação do pecado consiste na liberação de um escravo crente, e no caso de impossibilidade se deverá jejuar dois meses consecutivamente, esta se trata de uma obrigação que deve ser cumprida pelo autor do delito para expiar seu pecado, conforme o Islam. Uma observação que deve ser feita é que quando um muçulmano matar outro muçulmano por engano numa situação de guerra, ao confundi-lo com um inimigo, este deverá somente cumprir com a expiação, não sendo necessário pagar a indenização à família da vítima. Deus estabelece estas regras no Alcorão Sagrado no seguinte texto em 4,92 "Não é dado, a um fiel, salvo involuntariamente, e quem, por engano matar um fiel, deverá libertar um escravo fiel e pagar compensação à família do morto, a não ser que esta se disponha a perdoá-lo. Se a vítima for fiel, de um povo adversário do vosso, impõe-se o pagamento de uma indenização à família e a manumissão (alforria) de um escravo fiel. Contudo, quem não estiver em condições de fazê-lo, deverá jejuar dois meses consecutivos, como penitência imposta por Deus, porque Ele é Sapiente". Vale ressaltar que as mesmas regras se aplicam da mesma forma se a vítima não for muçulmana, pois o Profeta Muhamad apud Tuwaijri disse: "Quem assassinar um não muçulmano com quem o Estado Islâmico (1) mantém um acordo de paz, não sentirá sequer o aroma do Paraíso. E por certo que seu aroma poderá ser percebido à distância de quarenta anos". (1). Quatro países árabes são considerados hoje republicas islâmicas - Afeganistão, Irã, Mauritânia e Paquistão. Universidade da Região da Campanha. Campus do Curso de Direito. Bagé – RS – Brasil. Abraço. Davi.

sábado, 10 de julho de 2021

KARMA: O CORAÇÃO É NOSSO JARDIM

 

Budismo Tibetano. Shunya. Grupo de Estudos e Prática Budista. KARMA. O CORAÇÃO É NOSSO JARDIM. O Sutra Avatamsaka é o texto budista que descreve as leis que governam os milhares de possíveis domínios do universo; domínios de prazer e de dor, domínios criados pelo fogo, pela água, pelos metais, pelas nuvens ou até mesmo pelas flores. Cada universo, diz-nos o sutra, segue a mesma lei básica: em cada um desses domínios, se você plantar uma semente de manga, terá uma mangueira, e se plantar uma semente de maçã, terá uma macieira. Assim é em todos os domínios que existem no mundo dos fenômenos da criação. A lei do karma descreve o modo como causa e efeito regem os padrões que se repetem através de toda a vida. Karma significa que nada surge por si mesmo. Cada experiência é condicionada por aquilo que a precede. Desse modo, nossa vida é uma série de padrões inter relacionados. Os budistas dizem que a compreensão dessa lei é suficiente para se viver sabiamente no mundo. O karma existe em muitos níveis diferentes. Seus padrões governam as imensas formas do universo, tais como as forças gravitacionais das galáxias, e os mais sutis e diminutos modos pelos quais, a cada momento, nossas escolhas humanas afetam o nosso estado mental. No nível da vida física, por exemplo, se uma pessoa olha para um carvalho, ela pode ver o "carvalho" manifestando-se em algum dos diferentes estágios de seus padrões vitais. Num determinado estágio do carvalho padrão, o carvalho existe sob a forma de bolota; num estágio subsequente, ele vai existir sob a forma de árvore nova; noutro estágio, sob a forma de árvore adulta; e, ainda noutro, sob a forma de bolota verde crescendo nessa árvore adulta. Em rigor, não existe o "carvalho" definitivo. Existe apenas o carvalho padrão através do qual certos elementos seguem as leis cíclicas do karma: um arranjo específico de água, minerais e a energia solar que o transforma, infinitas vezes, de bolota em árvore nova e depois em árvore adulta. De modo semelhante, as tendências e hábitos da nossa mente são padrões kármicos que repetimos infinitas vezes, como a bolota e o carvalho. Ao abordar esse tema, Budha perguntou: "O que vocês acham que é maior: a mais alta montanha da Terra ou a pilha de ossos que representa as vidas que vocês viveram infinitas vezes em cada domínio governado pelos padrões dos seus karmas? Maior, meus amigos, é a pilha de ossos; maior do que a mais alta montanha da Terra". Vivemos num oceano de padrões condicionadores que repetimos infinitas vezes e, ainda assim, raramente notamos esse processo. Podemos compreender com mais clareza o funcionamento do karma na nossa vida se olharmos esse processo de causa e efeito nas nossas atividades comuns e observarmos como os padrões repetitivos da nossa mente afetam o nosso comportamento. Por exemplo, nascidos numa certa cultura em determinada época, assimilamos determinados padrões de hábitos. Se nascermos numa taciturna cultura pesqueira, aprendemos a ser calados. Se crescermos numa cultura mediterrânea mais expressiva, talvez expressemos nossos sentimentos com gestos amplos e tenhamos uma maneira de falar espalhafatosa. Nosso karma social, parental, escolar e condicionamento linguístico, cria padrões completos de consciência que determinam o modo como vivenciamos a realidade e o modo como nos expressamos. Esses padrões e tendências são, muitas vezes, bem mais fortes do que as nossas intenções conscientes. Quaisquer que sejam as circunstâncias, são os velhos hábitos que irão criar o modo como vivemos. Lembro de ter ido visitar minha avó num prédio de apartamentos exclusivo para idosos. A vida ali era tranquila e sedentária para a maioria dos moradores. O único lugar onde algo acontecia era no saguão, e os moradores interessados iam até lá para observar quem entrava e saía. No saguão, havia dois grupos de pessoas. Um grupo sentava-se ali regularmente e se divertia, jogando cartas e cumprimentando todos os que passavam. Tinham um relacionamento agradável e amistoso entre si e com as circunstâncias à sua volta. Do outro lado do saguão, ficavam as pessoas que gostavam de reclamar. Para elas, havia algo errado com todo mundo que passava pela porta. Entre uma pessoa que passava e outra, reclamavam, "Você viu que comida horrível nos serviram hoje?". "Viu o que fizeram com o quadro de avisos?". "Você sabe para quanto vai subir o nosso condomínio?". "Sabe o que disse o meu filho a última vez que esteve aqui?" Esse era um grupo de pessoas cuja principal relação com a vida era reclamar dela. Cada grupo levou para o edifício um padrão com o qual tinha vivido durante muitos anos. Circunstâncias e atitudes mentais que se repetem por muito tempo tornam-se a condição daquilo que chamamos de "personalidade". Quando perguntaram ao Lama Trungpa Rinpoche (1939-1987) o que iria renascer nas nossas próximas vidas, ele respondeu brincando: "Seus maus hábitos". Nossa personalidade é condicionada pelas causas passadas. Às vezes isso é evidente, mas com muita frequência os hábitos que se originam do passado distante e esquecido passam despercebidos. Na psicologia budista, o condicionamento kármico da nossa personalidade é classificado de acordo com três forças inconscientes básicas e tendências automáticas da nossa mente. Existem os tipos marcados pelo desejo, cujos estados mentais mais frequentes estão associados à avidez, à carência, ao sentimento de não ter o suficiente. Existem os tipos marcados pela aversão, cujo estado mental mais comum é rechaçar o mundo através do julgamento, do desagrado, da aversão e do ódio. E existem os tipos marcados pela confusão, cujos estados mais fundamentais são a letargia, a ilusão e a desconexão, não sabendo o que fazer a respeito das coisas. Você pode testar qual o tipo que predomina em você observando sua maneira peculiar de entrar num ambiente. Se seu condicionamento for mais fortemente aquele do desejo e da carência, você tenderá a olhar em volta e ver aquilo de que gosta, aquilo que você pode obter; você verá as coisas que o atraem; observará o que é belo; apreciará um bonito arranjo de flores; gostará do modo como algumas pessoas estão vestidas; encontrará alguém sexualmente atraente ou vai imaginar que há pessoas simpáticas que valerá a pena conhecer. Se você é do tipo aversão, ao entrar na sala, em vez de ver primeiro aquilo que você deseja, você tenderá a ver o que está errado. "Ambiente muito barulhento. Não gosto do papel da parede. As pessoas não estão vestidas adequadamente. Não gosto do jeito como tudo foi organizado". E se você é uma personalidade confusa, talvez entre na sala, olhe em volta e não saiba como se relacionar, perguntando a si mesmo: "O que está acontecendo aqui? Onde eu me encaixo neste ambiente? O que devo fazer?". Esse condicionamento primário é, na verdade, um processo de grande influência. Ele cresce e se transforma naquelas forças que levam sociedades inteiras para a guerra, criam o racismo e dirigem a vida de muitas pessoas à nossa volta. Quando, pela primeira vez, encontramos em nós mesmos as forças do desejo e da aversão, da avidez e do ódio, podemos pensar que elas são inofensivas, contendo um pouquinho só de carência, de desagrado, um pouquinho de confusão. No entanto, à medida que observamos o nosso condicionamento, vemos que o medo, a cobiça e a fuga são, na verdade, tão compulsivos que governam muitos aspectos da nossa personalidade. Pela observação dessas forças, podemos ver como operam os padrões dokarma. Quando, na meditação, começamos a olhar atentamente nossa personalidade, em geral nosso primeiro impulso é procurar livrar-nos dos nossos velhos hábitos e defesas. De início, a maioria das pessoas acha a sua própria personalidade difícil, desagradável e até mesmo insípida. A mesma coisa pode acontecer quando olhamos para o corpo humano. Ele é belo quando visto a distância certa, na idade certa e à luz certa, mas, quanto mais de perto o olhamos, mais cheio de defeitos ele se torna. Quando notamos essa imperfeição, procuramos fazer regime, jogging, tratamento de pele, exercícios e tirar férias para melhorar o físico. Mas, embora tudo isso possa ser benéfico, continuamos a estar basicamente presos ao corpo com que nascemos. A personalidade é ainda mais difícil de ser modificada do que o corpo; contudo, o propósito da vida espiritual não é fazer com que nos livremos da nossa personalidade. Parte dela já existia quando nascemos, parte tem sido condicionada pela nossa vida e cultura e, diga-se o que se quiser, não podemos viver sem ela. Todos nós, na face desta Terra, temos um corpo e uma personalidade. Nossa tarefa é aprender muitas coisas sobre esse corpo e sobre essa mente, e despertar dentro deles. Compreender o jogodokarma é um aspecto do despertar. Se não estivermos conscientes, nossa vida simplesmente irá seguir, infinitas vezes, o padrão dos nossos hábitos passados. Mas, se formos capazes de despertar, estaremos aptos a fazer escolhas conscientes quanto ao modo de responder às circunstâncias da nossa vida. Nossa resposta consciente irá então criar o nosso karma futuro. Podemos ser ou deixar de ser capazes de mudar as circunstâncias externas, mas, com percepção consciente, podemos sempre mudar nossa atitude interior, e isso é suficiente para transformar a nossa vida. Mesmo nas piores circunstâncias externas, podemos escolher se vamos ao encontro da vida com medo e ódio ou com compaixão e compreensão. A transformação dos padrões da nossa vida sempre se processa no nosso coração. Para compreender como trabalhar com os padrões kármicos precisamos observar que okarma tem dois aspectos distintos: o karma que é o resultado do nosso passado e o karma que as nossas respostas atuais estão criando para o nosso futuro. Recebemos os resultados da ação passada; e isso é algo que não podemos mudar. Mas, ao responder no presente, também criamos um novo karma. Semeamos as sementes karmicas para colher novos resultados. Em sânscrito, a palavra "karma" geralmente vem junto com outra palavra, "vipaka", karma-vipakaKarma significa "ação" e vipaka, "resultado". Ao lidar com cada momento da nossa experiência, usamos meios hábeis (conscientes) ou meios inábeis (inconscientes). Todas as respostas inábeis, como avidez, aversão e confusão, inevitavelmente criam mais sofrimento e karma doloroso. As respostas hábeis, baseadas na percepção consciente, no amor e na receptividade, levam inevitavelmente ao bem-estar e à felicidade. Através de meios hábeis, podemos criar novos padrões que transformam a nossa vida. Até mesmo os padrões poderosos baseados na avidez, na aversão e na ilusão contêm dentro de si as sementes de respostas hábeis. O desejo por prazer pode ser transformado numa ação natural e compassiva que traz beleza à sociedade e ao mundo que nos cerca. O temperamento que julga, do tipo aversão, através da percepção consciente pode transformar-se naquilo que é chamado sabedoria discriminativa: uma clareza associada à compaixão, uma sabedoria que vê claramente através de todas as ilusões do mundo e usa a clareza da verdade para ajudar e curar. Até mesmo a confusão e a tendência a desligar-se da vida podem ser transformadas numa equanimidade sábia e ampla, num equilíbrio sábio e compassivo que envolve todas as coisas com paz e compreensão. Tradicionalmente, o karma é discutido nos ensinamentos budistas em termos de morte e renascimento. Buda, o sublime, falou de uma visão na noite de sua iluminação, na qual viu milhares de suas vidas passadas, bem como as de muitos outros seres, todos morrendo e renascendo de acordo com os resultados daleikármica de suas ações passadas. Mas não é necessário ter a visão de Buda para compreender o karma. As mesmas leis kármicasque ele descreveu agem na nossa vida momento após momento. Podemos ver como a morte e o renascimento ocorrem a cada dia. A cada dia, nascemos em meio a novas circunstâncias e experiências, como se fosse uma nova vida. Com efeito, isso acontece a cada momento. Morremos a todo momento e renascemos no momento seguinte. Ensina-se que existem quatro tipos de karma no instante da morte ou em qualquer momento de transição: karma denso, karma imediato, karma habitual e karma fortuito. Nessa ordem, cada um representa uma tendência kármica mais forte do que a seguinte. A imagem tradicional para explicar esse ensinamento é a do gado num curral, com a porteira aberta. O karma denso é como um touro. É a força das mais poderosas ações boas ou más que praticamos. Se um touro está no curral, quando a porteira é aberta, ele é sempre o primeiro a sair. O karma imediato é a vaca que está mais próxima à porteira. Ele se refere ao estado mental que está presente no momento da transição. Se a porteira é aberta e não há nenhum touro no curral, quem sai é a vaca mais próxima à porteira. Se nenhuma vaca estiver perto da porteira, surge o karma habitual. É a força do nosso hábito costumeiro. Se não estiver presente nenhum forte estado mental, a vaca que costuma sair primeiro é a que irá sair primeiro. E, finalmente, se nenhum forte hábito estiver operando, surge o karma fortuito. Isto é, se não surgir nenhuma força mais impetuosa, nosso karma será o resultado fortuito de um número qualquer de condições passadas. À medida que cada ação (ou nascimento) surge, existem forças que a sustêm e forças que finalmente a levam a termo. Essas forçaskármicas são descritas fazendo-se uso da imagem de um jardim. A semente que é plantada é o karma causal. Fertilizar e regar a semente, cuidar das plantas, é chamadodekarma sustentador. Quando surgem dificuldades, trata-se do karma opositor, representado pela seca; mesmo se plantarmos uma semente viável e a fertilizarmos, se não houver água, ela irá secar. E então, finalmente, o karma destrutivo é como o fogo ou os roedores no jardim, que o queimam ou o devoram por completo. Essa é a natureza da vida em todos os domínios, em todas as circunstâncias criadoras. Uma condição segue-se à outra e, no entanto, tudo isso está sujeito a mudança. O karma das nossas circunstâncias exteriores pode mudar com o agitar da cauda de um cavalo. A qualquer dia, uma imensa fortuna ou a morte podem chegar para qualquer um de nós. O resultado kármico dos padrões das nossas ações não decorre unicamente da nossa ação. À medida que temos uma intenção e agimos, criamos karma; assim, uma outra chave para compreender a criação do karma é a de tornarmo-nos conscientes da intenção. O coração é o nosso jardim e, junto com cada ação, existe urna intenção plantada como uma semente. O resultado dos padrões do nosso karma é o fruto dessas sementes. Por exemplo, podemos usar uma faca afiada para cortar alguém; se a nossa intenção é ferir, seremos um assassino. Isso leva a certos resultados kármicos. Podemos executar uma ação quase idêntica, usando uma faca afiada para cortar alguém, mas, se somos um cirurgião, nossa intenção é curar e salvar uma vida. A ação é a mesma, mas, no entanto, dependendo de seu propósito ou intenção, tanto poderá ser um ato terrível quanto um gesto de compaixão. Na nossa vida cotidiana podemos estudar o poder da intenção para criar o karma. Podemos começar prestando atenção às nossas muitas ações que surgem ao longo do dia em resposta aos problemas. De um modo automático, talvez ignoremos circunstâncias difíceis ou respondamos de maneira crítica ou áspera. Talvez procuremos proteger ou defender o nosso próprio interesse. Em todos esses casos, a intenção no nosso coração estará associada à avidez, à aversão ou à ilusão, criando no futuro um karma de sofrimento que irá nos trazer uma resposta equivalente. Se, em vez disso, quando essas circunstâncias difíceis surgem na nossa vida levarmos a elas o desejo de compreender, de aprender, de libertar ou de trazer harmonia e criar paz, iremos falar e agir com uma intenção inerente. Nossas ações talvez sejam bastante semelhantes, nossas palavras talvez sejam semelhantes, mas, se a nossa intenção é criar paz e trazer harmonia, essa intenção irá criar um tipo muito diferente de resultado kármico. Isso é fácil de se verificar nos relacionamentos íntimos, pessoais ou profissionais. Podemos dizer uma mesma frase ao nosso parceiro ou amigo e, se o espírito tácito ao proferi-la for: "Eu amo você e espero que nós dois entendamos o que está acontecendo", iremos obter um tipo de resposta. Se pronunciarmos a mesma frase com uma atitude subjacente de censura, defesa e crítica, em um tom sutil de: "O que há de errado com você?", ela dará outro rumo ao nosso diálogo e poderá, facilmente, converter-se em uma briga.(...) A intenção ou atitude que levamos a cada situação da vida determina o tipo de karma que criamos. Dia a dia, momento a momento, podemos começar a ver a criação dos padrões de karma baseados nas intenções do nosso coração. Quando prestamos atenção, torna-se possível conscientizar-nos mais das nossas intenções e do estado do nosso coração à medida que elas emergem junto com as ações e palavras que são as nossas respostas. Em geral, não temos consciência das nossas intenções. Por exemplo, uma pessoa decide parar de fumar. Lá pelo meio do dia surge o desejo de fumar. Ela coloca a mão no bolso, pega o maço, tira um cigarro do maço, leva-o à boca, acende-o e começa a dar uma bela tragada. Nesse instante, ela acorda e lembra: "Ah, eu ia parar de fumar!". Enquanto estava no piloto automático e sem percepção consciente, essa pessoa realizou todos os movimentos habituais de pegar um cigarro e acendê-lo. Não é possível mudar os padrões do nosso comportamento ou criar novas condições kármicas até que tenhamos nos tornado presentes e despertos no início da ação. Caso contrário, a ação já aconteceu. Como diz o velho ditado: "É como fechar a porteira depois que o cavalo fugiu do estábulo". O desenvolvimento da percepção consciente nameditação permite que nos tornemos atentos ou conscientes o suficiente para reconhecer nosso coração e nossas intenções à medida que atravessamos o dia. Podemos estar conscientes dos diferentes estados de medo, carência, confusão, ciúme e raiva. Podemos saber quando o perdão, o amor ou a generosidade estão ligados às nossas ações. Quando sabemos qual é o estado do nosso coração, podemos começar a escolher os padrões ou condições que iremos seguir, o tipo de karma que criamos. Tente trabalhar com esse tipo de percepção consciente na sua vida. Pratique-a com suas palavras. Preste a mais cuidadosa atenção e observe o estado do seu coração; observe a intenção, quando você falar, mesmo sobre o assunto mais insignificante. Sua intenção é ser protegido, obter coisas, defender-se? Sua intenção é abrir-se com interesse, compaixão e amor?. Uma vez observada a intenção, conscientize-se da resposta que vem à tona. Mesmo que seja uma resposta difícil, continue com a intenção hábil por algum tempo e observe os tipos de respostas que ela traz. Se a sua intenção era inábil ou maldosa, tente mudá-la e ver o que acontece depois de algum tempo. De início, é possível que você experimente apenas os resultados de sua atitude defensiva anterior. Mas persista na sua boa intenção e observe os tipos de respostas que ela finalmente irá evocar. Para compreender como o karma age, basta olhar para os seus relacionamentos mais pessoais ou as suas interações mais simples. Escolha um relacionamento ou local específicos e experimente. Tente responder somente quando seu coração estiver receptivo e generoso. Quando não se sentir assim, espere e deixe passar os sentimentos negativos. Como instruiu Buda, deixe que suas palavras e ações aflorem suavemente, com um intento generoso, no tempo devido, e para benefício delas próprias. À medida que você cultiva uma intenção generosa e hábil, você poderá praticá-la no posto de gasolina ou no supermercado, no lugar onde trabalha ou no trânsito. A intenção que trazemos conosco cria o padrão que dela resulta. Ao tornar-nos mais conscientes da nossa intenção e ação, o karma mostra-se a nós com mais clareza. O fruto kármico parece amadurecer mais rápido, talvez apenas porque nós o percebemos. Ao prestar atenção, o fruto de tudo aquilo que fazemos, hábil ou inabilmente, parece manifestar-se mais depressa. À medida que estudarmos essa lei de causa e efeito, iremos ver que toda vez que nós, ou o outro, agimos de um modo baseado na avidez, no ódio, no preconceito, no julgamento ou na ilusão, os resultados irão inevitavelmente causar algum sofrimento. Começamos a ver como aqueles que nos ferem também criam um inevitável sofrimento para si mesmos. A lei de causa e efeito nos faz querer prestar mais atenção e, ao observá-la, podemos ver diretamente os estilos hábeis e inábeis no nosso próprio coração. A atenção dada ao karma mostra-nos como as vidas são moldadas pela intenção do coração. Quando lhe pediram para explicar a lei do karma de um modo bem simples, Ruth Denison (1922-   ), conhecida instrutora de vipassana, assim se expressou: "Karma quer dizer que você nunca escapa impune". A cada dia, estamos semeando as sementes do karma. Existe apenas um único local no qual podemos exercer alguma influência sobre o karma: na intenção das nossas ações. Na verdade, existe apenas um karma pessoal que podemos mudar no mundo todo, o nosso próprio. Porém, aquilo que fazemos com o nosso coração afeta o mundo todo. Se pudermos desfazer os nós kármicos do nosso coração, o fato de sermos todos interligados irá, inevitavelmente, trazer a cura para o karma de outra pessoa. Corno disse um ex-prisioneiro de guerra ao visitar um colega sobrevivente: "Você já perdoou aqueles que o prenderam?". O sobrevivente respondeu: "Não, não os perdoei. Nunca os perdoarei". E o primeiro veterano disse: "Então, de algum modo, eles ainda conservam você prisioneiro". Quando minha mulher e eu viajávamos pela Índia há alguns anos, ela teve a visão muito dolorosa de um de seus irmãos morrendo. De início, pensei que aquilo fosse parte de um processo de morte/renascimento na sua meditação. No dia seguinte, ela teve uma segunda visão do irmão, agora como guia espiritual, acompanhado de dois índios americanos e oferecendo a ela apoio e orientação. Cerca de uma semana mais tarde, chegou um telegrama para o ashram onde estávamos, em Monte Abu, no Ragistão, estado da Índia. Pesarosamente, minha mulher era informada de que seu irmão morrera, exatamente do modo como ela o vira morrer. O telegrama fora enviado no dia em que ela teve a visão. Estando do outro lado do mundo, como teria ela sido capaz de ver a morte do irmão? Isso foi possível porque todos nós estamos interligados. E, porque é assim, mudar um coração afeta todos os corações e o karma de todo o planeta. Num retiro que dirigi há alguns anos, uma mulher lutava contra as consequências dolorosas de abuso sofrido no início da sua vida. Ela sentira raiva, depressão e dor durante muitos anos. Fizera terapia e meditação, atravessando um longo processo para curar essas feridas. Finalmente, nesse retiro, ela chegou a um estado de perdão para com o homem que havia abusado dela. Chorou com profundo perdão, não pelo ato em si, que jamais pode ser justificado, mas porque ela não queria mais carregar a amargura e o ódio no seu coração. Acabado o retiro, ela voltou para casa e encontrou uma carta à sua espera na caixa de correspondência. A carta havia sido escrita pelo homem que abusara dela e com o qual não tivera contato por quinze anos. Embora, na maioria dos casos, as pessoas que cometem abuso neguem veementemente suas ações apesar do perdão, algo tinha mudado a mente daquele homem. Ele escreveu: "Por muitas razões, sinto-me compelido a lhe escrever. Pensei muito em você esta semana. Sei que lhe causei grande dano e sofrimento, e que também trouxe grande sofrimento para mim. Mas quero apenas pedir o seu perdão. Não sei o que mais posso dizer". E então ela olhou a data no alto da carta. Fora escrita no mesmo dia em que ela completou seu trabalho interior de perdão. Existe uma famosa história hindu sobre dois reinos que eram, ambos, governados em nome de Krishna. Olhando lá do alto, dos céus, Krishna decidiu visitá-los e ver o que estava sendo feito em seu nome. Desceu dos céus e surgiu diante da corte de um dos reis. Esse rei era conhecido por ser depravado, cruel, avarento e invejoso. Krishna surgiu em sua corte envolto no esplendor da luz celestial. O rei prostrou-se diante dele e disse: "Deus Krishna, vieste me visitar". Krishna respondeu: "Sim. Quero confiar-te unia tarefa. Eu gostaria que viajasses por todas as províncias do teu reino e tentasses encontrar para mim uma pessoa realmente boa". O rei viajou por todas as províncias de seu reino, falando com as castas superiores e com as inferiores, com religiosos e agricultores, com artesãos e curadores. Finalmente, retornou à sala do trono e esperou pelo reaparecimento do deus Krishna. Quando Krishna surgiu, o rei prostrou-se e disse: "Meu Senhor, cumpri tuas ordens. Viajei de alto a baixo por todo o meu reino, mas não encontrei uma só pessoa boa. Embora algumas delas tenham realizado algumas boas ações, quando as conhecia melhor eu via que mesmo suas melhores ações acabavam sendo egoístas, interesseiras, coniventes ou desonestas. Não consegui encontrar uma única pessoa boa". E então Krishna foi à outra corte, governada por uma famosa rainha chamada Dhammaraja. Essa rainha era conhecida por ser gentil, graciosa, dedicada e generosa. E, do mesmo modo, Krishna deu-lhe uma tarefa. "Eu gostaria que viajasses por todo o teu reino e encontrasses para mim uma pessoa realmente má". E assim a rainha Dhammaraja percorreu todas as províncias do seu reino, falando com as castas superiores e com as inferiores, com agricultores, carpinteiros, enfermeiras e religiosos. Depois de longa busca, a rainha retornou à sua corte e Krishna reapareceu. Ela prostrou-se e disse: "Meu Senhor, fiz o que me pediste, mas falhei na minha tarefa. Percorri todas as terras e vi muitas pessoas que se comportam desastradamente, que são mal orientadas e agem de uma maneira que gera sofrimento. No entanto, quando as ouvi de fato, não consegui encontrar nenhuma pessoa verdadeiramente má, apenas pessoas mal orientadas. Suas ações sempre vêm do medo, da ilusão e do equívoco". Em ambos os reinos, as circunstâncias da vida eram governadas pelo espírito dos governantes, e o que eles encontraram era um reflexo do seu próprio coração. À medida que prestarmos atenção e compreendermos o nosso coração e desenvolvermos as respostas hábeis da sabedoria e da compaixão, estaremos realizando nossa parte para pacificar toda a Terra. Através do nosso trabalho e criatividade, podemos fazer surgir na nossa vida circunstâncias exteriores benéficas. No entanto, a maioria das coisas que nos acontecem, o local onde nascemos, quando morremos, as grandes mudanças que arrastam nossa vida e o mundo à nossa volta são o resultado de padrões kármicos antigos e influentes. Esses, não podemos mudar. Eles vêm à nós como o vento e o mau tempo. A única previsão meteorológica que podemos garantir é que essas condições continuarão a mudar. No processo de compreender o karma, precisamos responder a uma pergunta simples: Como nos relacionamos com essas condições mutáveis?. O tipo de universo que criamos, o que decidimos plantar, o que fazemos nascer no jardim do nosso coração - isso irá criar o nosso futuro. Buda começa os seus ensinamentos na grande Dhammapada dizendo:

Somos aquilo que pensamos.

Tudo o que somos nasce dos nossos pensamentos.

Com o nosso pensamento, construímos o mundo.

Fale ou aja com uma mente impura,

e os problemas o seguirão como uma carroça segue a parelha de bois.

Somos aquilo que pensamos.

Tudo o que somos nasce dos nossos pensamentos.

Com o nosso pensamento construímos o mundo.

Fale ou aja com uma mente pura

E a felicidade o seguirá

Como uma sombra, inabalável.

A longo prazo, nada possuímos nesta Terra, nem mesmo o nosso corpo. Mas, através das nossas intenções, podemos moldar ou direcionar os padrões do nosso coração e mente. Podemos plantar no nosso coração sementes que irão criar o tipo de reino que será o mundo, seja ele depravado e mau ou bom e compassivo. Através da simples percepção consciente da nossa intenção a cada momento, podemos plantar um esplêndido jardim, criar padrões de bem-estar e felicidade que perdurarão muito mais do que a nossa personalidade e a nossa vida limitada. Sylvia Boorstein, espiritualista oriental americana, instrutora de vipassana, exemplifica esse poder com uma história sobre um bom amigo seu, médico famoso que durante muitos anos foi presidente da Associação Psiquiátrica Americana. Ele era conhecido como um cavalheiro, um homem íntegro e gentil, que levava uma grande alegria a tudo na sua vida. Ele sempre dedicava um respeito profundo aos pacientes e colegas. Depois que se aposentou e envelheceu, começou a ficar senil. Perdeu a memória e a capacidade de reconhecer as pessoas. Ainda vivia em casa e a esposa ajudava a cuidar dele. Sendo amigos de longa data, Sylvia e Saymour, seu marido e também psiquiatra, certa vez foram convidados a jantar em sua casa. Já fazia algum tempo que não o viam e imaginavam se a sua senilidade não teria aumentado. Chegaram à porta com uma garrafa de vinho e tocaram a campainha. Ele abriu a poria e olhou-os com uma expressão vazia que não mostrava nenhum reconhecimento de quem eles seriam, embora tivessem sido amigos por muitos anos. E então sorriu e disse: "Não sei quem são vocês, mas pouco importa, façam o favor de entrar e fiquem à vontade na minha casa", oferecendo-lhes a mesma amabilidade com que tinha vivido durante toda a sua vida. Os padrões kármicos que criamos com o nosso coração transcendem as limitações do tempo e do espaço. Despertar um coração compassivo e sábio em resposta a todas as circunstâncias é tornar-se Buda. Quando despertamos o Buda dentro de nós, despertamos para a força universal do espírito que pode trazer compaixão e compreensão ao mundo como umtodo. Mahatma Gandhi (1869-1948) chamava esse poder de "força da alma". Ela traz força quando uma ação firme é necessária. Traz imenso amor e perdão, embora também defenda e fale a verdade. É esse poder do nosso coração que traz sabedoria e liberdade em qualquer circunstância, e que faz viver o reino do espírito aqui na Terra. Para Gandhi, esse espírito estava sempre ligado ao seu coração, sempre aberto para ouvir e pronto para responder ao mundo, compartilhando as bênçãos da compaixão com todos os seres: "Além da minha não cooperação, existe sempre o mais entusiástico desejo de cooperar, ao menor pretexto, mesmo com o pior dos meus opositores. Para mim, um mortal muito imperfeito está sempre necessitado da graça de Deus, sempre necessitado do Dharma. Ninguém está além da redenção". Um caminho com o coração. Por Jack Kornfield. Shunya. Grupo de Estudo de Prática Budista. Abraço. Davi.