sábado, 12 de março de 2022

O MUNDO DOS ORIXÁS - IANSÃ

 

Religião Afrodescendente. Candomble. www.ocandomble.com. O MUNDO DOS ORIXÁS – IANSÃ. A missão divina da Mãe Terra (Edan – Onile). Quando a divina e poderosa mãe Edán (Onile Ogboduora) fez sua aparição nesta Terra, ela fez isso com um propósito específico e sagrado. Sua manifestação nesta Terra sinalizou uma nova oportunidade para a humanidade se renovar, progredir e ter uma vida equilibrada. Sua aparição marcou um novo começo para toda a humanidade e não apenas o povo privilegiado dos yorùbá. Seu objetivo e propósito era, e é, de alcance universal. Èdán veio para trazer cura, ordem, harmonia, abrigando preceitos divinos e equilíbrio para as comunidades da Terra em geral e cada ser humano em particular. Você deve se lembrar e ter em mente que Èdán não é um ser humano. Èdán não é yorùbá, chinês, americano, oriental ou ocidental. Èdán é uma personagem divina de habilidades extraordinárias e poderes supra-humanos. Èdán não é deste mundo. Ela vem de um reino glorioso e inconcebível de santidade, beleza e poder. A inteligência, compreensão, força, atratividade e carisma da mãe divina Èdán é extraordinária, penetrante e excepcional. Èdán pode ver a profundidade e a realidade das coisas. Ela não pode ser enganada, manipulada ou subornada, ela não comete erros na administração de sua dispensação (ato de dividir). Ela está além do alcance da influência humana. Ela nunca cairá ou balançará à mesquinhez e a inconstância, que é comum entre a humanidade. Sua visão divina nunca é obstruída e sua atividade não pode ser prejudicada. Sua virtude, caráter, personalidade e carisma são sem igual. Mesmo Ọrúnmìlà reconheceu sua grandeza, eficiência, capacidade e singularidade. Foi, afinal, Ọrúnmìlà quem invocou Èdán, sua amiga e sócia divina para apoio, soluções e alívio! Quando Èdán desceu do reino dos Irunmọlẹ a esta Terra, ela apareceu com a plenitude da autoridade divina, poder e comando. Todos Ajogùn interno, externo e Elénìní fugiram diante dela. Com o poder de sua majestosa personalidade, divinamente atraente, beleza, carisma e àşé ela foi capaz de libertar e entregar os corações e as mentes dos pensamentos negativos, atitudes e energias prejudiciais que oprimiam e dominavam os seres humanos. Èdán foi capaz de desarmar as pessoas de suas preocupações, medos e inseguranças. Para aqueles que faziam, que se deliciavam em fazer o errado, o engano, a opressão e a corrupção ela colocava medo nos seus corações para que talvez eles pudessem mudar suas maneiras sob sua administração do perdão, da ordem, da capacitação e da renovação. Tais era, e é, o poder e a influência da mãe divina Èdán. Juntamente com o inseparável, a importação do ase aos membros sensíveis da humanidade, ela deu preceitos e injunções divinas para seus alunos-discípulos para praticar e implementarem em todos os níveis da sociedade e da vida pessoal. Estes seguidores obedientes e confiáveis ​​de Èdán são os Ogboni porque só existe sabedoria, saúde e longa vida com Èdán se as pessoas obedecerem e praticarem seus preceitos. Do lado de fora uma pessoa constituiria um Ogberi (ignorante) porque aparentemente tinha conhecimento e não praticava a verdade, o que é isso, se não o maior ignorância, infelicidade e loucura. Os princípios divinos de Èdán tornaram-se os veículos de sua divina presença, carisma, poder, apoio e influência-retificando a cura. Ter vivido na época do aparecimento de Èdán sobre esta Terra sagrada foi a experiência mais extraordinária, gratificante e maravilhosa. Isto é, a forma divinamente sancionada, a vida que ela estava revelando à humanidade e continua revelando à humanidade. O teimoso, obstinado e beligerante que não fizer, não vai durar muito tempo sob a administração de Èdán. Èdán é naturalmente amável, justa e compreensiva, como a Sagrada Mãe preciosa e amável que ela é, ela proporcionou a todos o perdão, um novo começo sem referência a erros do passado, uma oportunidade para mudar e a bênção para fazer uso de seu apoio pessoal, garantia, inspiração e poder. Èdán está ciente de nossas fragilidades e fraquezas como seres humanos. Ninguém precisa ter medo por causa de suas fraquezas ou falhas. Èdán não pareceu para fazer-nos ricos e famosos. Èdán apareceu para nos fazer participantes da verdadeira vida, saúde, paz, segurança e prosperidade através da prática de seus ensinamentos claros. Èdán apareceu para nos permitir descobrir a nossa nobre e bela natureza divina. Ela veio para restaurar a dignidade, clareza, transparência, saúde moral e limpeza moral de nossas vidas. Èdán inculca a verdade divina para seus seguidores inteligentes e humildes, quando estamos individual e coletivamente para a direita e para dentro, em seguida, nesta ordem interna, a saúde e a retidão serão reveladas e expressas no mundo. As instruções de Èdán não foram e não são sugestões, mas comandos divinamente concedidos e leis. Eles são vinculativos e obrigatórios para toda a humanidade e especialmente para aqueles que se dedicam a Èdán. Para ser Ogboni significa ser o melhor dos melhores. Significa ser um modelo de impecabilidade, idoneidade e confiabilidade. Para ser Ogboni significa estar pessoalmente convencido a perseguir e fazer o que é certo, correto e adequado independentemente de tempos, lugares e / ou circunstâncias. Para ser Ogboni significa ter auto iniciativa, ser responsável e fazer o que é certo para o bem do amor da verdade e não ser visto, elogiado e aplaudido por outros. Iniciação formal sozinha não faz de você um seguidor de Èdán. O que é importante não é que outras pessoas te chamem de Ogboni, mas que Èdán te reconhece e o aceita como um dos seus verdadeiros, leais e obedientes filhos. O que é importante é que você seja Ogboni 24 horas por dia em seus pensamentos, atitudes, ações e relacionamentos. Ogboni é uma forma global e abrangente de viver. Uma delas é ser Ogboni o tempo todo para que Èdán, ela mesma, possa garantir que você é um Ogboni genuíno, verdadeiro, com honra, humildade, alegria e realização digna. Os ritos de iniciação Ogboni foram desenvolvidos mais tarde por Èdán e seus seguidores, mas, inicialmente, a verdadeira iniciação era uma mudança espiritual de coração, mente e vida como um resultado do encontro com Èdán, sua personalidade, seu caráter, seu carisma, encantamento, inspiração, autoridade e poder, tudo foi expresso e manifestado através de tudo que Èdán fez. Tudo que Èdán fez foi cheio de graciosidade, dignidade e poder. Não foi através de ritos e rituais que Èdán mudou o mundo, mas pela graça divina, pelas maneiras, inteligência e conduta. Èdán por suas maneiras, caráter, personalidade e conduta comandou o respeito, reverência, confiança e obediência de todos aqueles com coração sincero e bom. O verdadeiro símbolo de honra e título de um Ogboni autêntica o caráter, a virtude, a bondade e a imparcialidade que ele pratica. Conformidade exterior e aderência superficial com o protocolo Ogboni para o bem das pessoas não faz de você um Ogboni, não importa o seu título ou o quanto você está velho. Èdán deu seu amor, vida e foco total e dedicação à humanidade. Para ser Ogboni você tem que dar o seu tudo para a missão divina de Èdán e você deve procurar com sua força, habilidade, atividade e meios transferir o conhecimento de Èdán a todos os povos do mundo. Isto é o que é significa ser Ogboni. Ogboni não é uma instituição humana. Ogboni não é um negócio. Ogboni não é um clube. Ogboni é uma vocação divina e sagrada. Èdán era uma revolucionária espiritual, divina, missionária, diplomática e embaixadora da boa vontade e da esperança. Nós também devemos ser isso. Devemos buscar a propagação do Ogbonismo. Não os chamados clubes Ogboni e instituições formais, devemos propagar a verdade e a realidade que Èdán promoveu e instituiu para toda a humanidade. A humildade e o serviço vêm antes da honra, do orgulho, da presunção. Èdán diz que a indiferença precede a queda. Ancestral Pride Temple. Templo Orgulho Ancestral. ORIXÁ IANSÃ. Os orixás são deuses africanos que correspondem a pontos de força da Natureza e os seus arquétipos estão relacionados às manifestações dessas forças. As características de cada Orixá, aproxima-os dos seres humanos, pois eles manifestam-se através de emoções como nós. Sentem raiva, ciúmes, amam em excesso, são passionais. Cada orixá tem ainda o seu sistema simbólico particular, composto de cores, comidas, cantigas, rezas, ambientes, espaços físicos e até horários. Como resultado do sincretismo que se deu durante o período da escravatura, cada orixá foi também associado a um santo católico, devido à imposição do catolicismo aos negros. Para manterem os seus deuses vivos, viram-se obrigados a disfarçá-los na roupagem dos santos católicos, aos quais cultuavam apenas aparentemente. Estes deuses da Natureza são divididos em 4 elementos – Água, Terra, Fogo e Ar. Alguns estudiosos ainda vão mais longe e afirmam que são 400 o número de Orixás básicos divididos em 100 do Fogo, 100 da Terra, 100 do Ar e 100 da Água, enquanto que, na Astrologia, são 3 do Fogo, 3 da Terra, 3 do Ar e 3 da Água. Porém os tipos mais conhecidos entre nós formam um grupo de 16 deuses. Eles também estão associados à corrente energética de alguma força da natureza. Assim, Iansã é a dona dos ventos, Oxum é a mãe da água doce, Xangô domina raios e trovões, e outras analogias. No Candomblé cultuam-se muitos outros orixás, desconhecidos por leigos, por serem menos populares do que Xangô, Iansã, Oxossi e outros, mas com um significado muito forte para os adeptos dos cultos afro-brasileiros. Alguns são necessariamente cultuados, devido à ligação com trabalhos específicos que regem, para a saúde, morte, prosperidade e diversos assuntos que afligem o dia-a-dia das pessoas. Estes deuses africanos são considerados intermediários entre os homens e Deus, e por possuírem emoções tão próximas dos seres humanos, conseguem reconhecer os nossos caprichos, os nossos amores, os nossos desejos. É muito frequente dizer-se que as personalidades dos seus filhos são consequência dos orixás que regem as suas cabeças, desenvolvendo características iguais às destes deuses africanos. Apresento a seguir as descrições dos 16 Orixás mais cultuados. Recordo, no entanto, que existem diversas correntes no Candomblé e por essa razão as informações poderão ser diferentes de acordo com a tradição ou região. ORIXÁ IANSÃ. Dia: Quarta-feira. Cores: Marrom, Vermelho e Rosa. Símbolos: Espada e Eruexin. Elementos: Ar em movimento,qualquer tipo de vento, Fogo. Domínios: Tempestades, Ventanias, Raios, Morte. Saudação: Epahei! O maior e mais importante rio da Nigéria chama-se Níger, é imponente e atravessa todo o país. Rasgado, espalha-se pelas principais cidades através de seus afluentes por esse motivo tornou-se conhecido com o nome Odò Oya, já que ya, em iorubá, significa rasgar, espalhar. Esse rio é a morada da mulher mais poderosa da África negra, a mãe dos nove orum, dos nove filhos, do rio de nove braços, a mãe do nove, Ìyá Mésàn, Iansã (Yánsàn). Embora seja saudada como a deusa do rio Níger, está relacionada com o elemento fogo. Na realidade, indica a união de elementos contraditórios, pois nasce da água e do fogo, da tempestade, de um raio que corta o céu no meio de uma chuva, é a filha do fogo-Omo Iná. A tempestade é o poder manifesto de Iansã, rainha dos raios, das ventanias, do tempo que se fecha sem chover. Iansã é uma guerreira por vocação, sabe ir à luta e defender o que é seu, a batalha do dia-a-dia é a sua felicidade. Ela sabe conquistar, seja no fervor das guerras, seja na arte do amor. Mostra o seu amor e a sua alegria contagiantes, na mesma proporção que exterioriza a sua raiva, o seu ódio. Dessa forma, passou a identificar-se muito mais com todas as atividades relacionadas com o homem, que são desenvolvidas fora do lar; portanto não aprecia os afazeres domésticos, rejeitando o papel feminino tradicional. Iansã é a mulher que acorda de manhã, beija os filhos e sai em busca do sustento. O fato de estar relacionada com funções tipicamente masculinas não afasta Iansã das características próprias de uma mulher sensual, fogosa, ardente; ela é extremamente feminina e o seu número de paixões mostra a forte atracção que sente pelo sexo oposto. Iansã (Oyá) teve muitos homens e verdadeiramente amou todos. Graças aos seus amores, conquistou grandes poderes e tornou-se orixá. Assim, Iansã tornou-se mulher de quase todos os orixás. Ela é arrebatadora, sensual e provocante, mas quando ama um homem só se interessa por ele, portanto é extremamente fiel e possessiva. Todavia, a fidelidade de Iansã não está necessariamente relacionada a um homem, mas às suas convicções e aos seus sentimentos. Algumas passagens da história de Iansã relacionam-na com antigos cultos agrários africanos ligados à fecundidade, e é por isso que a menção aos chifres de novilho ou búfalo, símbolos de virilidade, surgem sempre nas suas histórias. Iansã é a única que pode segurar os chifres de um búfalo, pois essa mulher cheia de encantos foi capaz de transforma-se em búfalo e tornar-se mulher da guerra e da caça. Oyá é a mulher que sai em busca do sustento; ela quer um homem para amá-la e não para sustentá-la. Desperta pronta para a guerra, para a sua lida do dia-a-dia, não tem medo do batente: luta e vence. Características dos filhos de Iansã / Oyá. Para os filhos de Oyá, viver é uma grande aventura. Enfrentar os riscos e desafios da vida são os prazeres dessas pessoas, tudo para elas é festa. Escolhem os seus caminhos mais por paixão do que por reflexão. Em vez de ficar em casa, vão à luta e conquistam o que desejam. São pessoas atiradas, extrovertidas e diretas, que jamais escondem os seus sentimentos, seja de felicidade, seja de tristeza. Entregam-se a súbitas paixões e de repente esquecem, partem para outra, e o antigo parceiro é como se nunca tivesse existido. Isso não é prova de promiscuidade, pelo contrário, são extremamente fiéis à pessoa que amam, mas só enquanto amam. Estas pessoas tendem a ser autoritárias e possessivas; o seu génio muda repentinamente sem que ninguém esteja preparado para essas guinadas. Os relacionamentos longos só acontecem quando controlam os seus impulsos, aí, são capazes de viver para o resto da vida ao lado da mesma pessoa, que deve permitir que se tornem os senhores da situação. Os filhos de Oyá, na condição de amigos, revelam-se pessoas confiáveis, mas cuidado, os mais prudentes, no entanto, não ousariam confiar-lhe um segredo, pois, se mais tarde acontecer uma desavença, um filho de Oyá não pensará antes de usar tudo que lhe foi contado como arma. O seu comportamento pode ser explosivo, como uma tempestade, ou calmo, como uma brisa de fim de tarde. Só uma coisa o tira do sério: mexer com um filho seu é o mesmo que comprar uma briga de morte: batem em qualquer um, crescem no corpo e na raiva, matam se for preciso. Orikí de Oyá. Eèpàrìpàà! Odò ìyá! “ORI O! ORI OYA, MO GBE DE. OYA MESAN, MESAN, MESAN. OYA ORIRI, O, O, O. OYA MESAN, A JI LODA ORISA. ORI O. ORI OL’ OYA, MO GBE DE. ORI MI! ORI OYA , MO GBE DE.” “O ORI do iniciado, O ORI daquele que é iniciado em OYA está aqui. OYA , que se desdobra em nove partes. OYA , a grande mulher, charmosa e elegante. OYA , que se desdobra em nove partes. ORISA que usa a espada ao acordar. O ORI do iniciado, O ORI daquele que é iniciado em OYA está aqui. Meu ORI. O ORI daquele que é iniciado em OYA está aqui”. www.ocandomble.com. Abraço. Davi

quinta-feira, 10 de março de 2022

O QUE É ASTROLOGIA

 

Astrologia – Livro A Ciência da Astrologia e as Escolas de Mistérios. Autor Ricardo Lindemann. Parte I. Capítulo Um. O QUE É ASTROLOGIA. Astrologia é uma palavra de origem grega, que significa, literalmente, o estudo ou Ciência, dependendo como traduzimos o termo grego logos, dos astros. Astron, mas originalmente se refere à influência dos astros sobre nós, seres humanos, ou sobre os seres vivos de um modo geral, diferentemente da Astronomia que, como a palavra sugere, nómos em grego quer dizer lei, a Astronomia é, literalmente a lei dos astros, referindo-se à lei de movimento que os astros descrevem no céu. A palavra astro é um termo comum que abrange todos os corpos celestes naturais, como ou sem luz própria (estrelas, planetas, satélites, asteroides, cometas, etc). Emma Costet de Mascheville (1903-1980), minha professora, ou Dona Emy, como carinhosamente a chamávamos, costumava comparar a Astronomia como a anatomia do céu, e a Astrologia como a fisiologia do céu. A Astrologia, segundo ela dizia, abrange um sentido da vida que é influenciada através destas energias que os astros irradiam, ou de alguma forma nos influenciam através do seu movimento, enquanto que o mero posicionamento dos astros e suas leis de movimento vêm a ser, originalmente, o estudo da Astronomia. Posteriormente, porém, definiu-se a Astrologia como o estudo da relação entre os fenômenos terrestres e os celestes, incluindo todos os seres nesta Terra, quer essa relação possa ser por influência direta, por sincronicidade ou de qualquer outro tipo. A Astronomia também ampliou, posteriormente, sua esfera de atuação, tornando-se a Ciência que estuda as posições relativas, os movimentos, a estrutura e a evolução dos astros. Outra palavra cujo uso se descaracterizou, em alguma medida, é a palavra Horóscopo. A palavra Horóscopo, derivada da grega Horoskopeo, sendo que o verbo grego skopein significa observar, examinar. Portanto, Horóscopo ou horoscópio, significa, literalmente, observação da hora, assim como microscópio é a observação do pequeno, telescópio é a observação do distante, periscópio é a observação do que está em torno, e assim por diante. Horoscópio, portanto, a observação da hora como uma espécie de fotografia do céu, mas devido ao mau uso e desgaste da palavra, hoje nós usamos mais o termo Carta Astral ou simplesmente Mapa Astral, para designar aquela fotografia, por assim dizer, da posição dos astros no céu no horário de nascimento do indivíduo em relação às linhas de latitude e longitude do lugar onde ele nasceu da Terra. Este contexto é importante porque em torno de 1930, com a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque, criou-se, a título apenas de diversão, uma coluna de jornal que tradicionalmente passou a se chamar Horóscopo, mas que na verdade, não levava em consideração o horário de nascimento das pessoas. Por conseguinte, deveríamos chama-la de “Mesóscopo”, como sugeria Dona Emy, pois só leva em consideração o mês de nascimento. Outra alternativa seria chama-la de “Heliologia”, pois só leva em consideração o signo do sol (Hélios), que é o signo do mês em que a pessoa nasceu; para diferenciá-la da verdadeira Astrologia, que seria o estudo dos diversos astros ou a observação da hora do nascimento do indivíduo, o verdadeiro Horóscopo, o Mapa Astral, a “fotografia” com a posição dos diversos astros naquele momento. As pessoas às vezes têm uma noção muito errônea de Astrologia porque veem, por exemplo, numa dessas colunas de jornal sobre o signo de Áries: “Hoje o signo de Áries ganhará na loteria”. 1/12 (um em cada doze) dos brasileiros deveriam ganhar na loteria ao mesmo tempo, portanto o prémio seria irrisório. Verificamos, assim, que não é possível dividir a humanidade apenas em 12 destinos, isso surge apenas de uma má compreensão da Astrologia gerada por essas colunas populares de jornal. A Astrologia serve primeiramente para interpretar num nível individual o Mapa Astral da pessoa, e coletivamente ela pode dar noções gerais das tendências de um país, ou até da humanidade ao longo de uma Era, que é um período de 2.150 anos, como, por exemplo, na Era de Aquário na qual estaríamos ingressando. Talvez a forma mais simples de nós nos aproximarmos desse conceito seja exemplificando, como Dona Emy gostava de fazer, a partir de uma grande obra de Astrologia chamada a Última Ceia, de Leonardo da Vinci (1452-1519). Nós temos aqui um símbolo dos doze signos e no centro a figura do Cristo. Então, cada um dos doze Apóstolos corresponderia a um signo, mas o Cristo não deve ser visto como o décimo terceiro signo, não é este o caso, senão que, um dos pontos importantes para nós é compreender que o Cristo representa o ponto de fuga de todas as linhas de perspectiva do mural, que vão justamente convergir na cabeça do Cristo, simbolizando, portanto, que de alguma maneira ele representa o Centro de todo o Zodíaco, ou seja, o ponto mais sagrado do mural, o ponto em torno do qual tudo o mais gira. Se nós observarmos, assim, a posição do Cristo é totalmente central e nele nós poderíamos pretender caracterizar os três pontos das aberturas iluminadas ao fundo, ou melhor dizendo, talvez três portas, porque nós podemos ver que o mural original está caracterizando aberturas ou portas iluminadas ao fundo em contraposição às janelas opacas laterais. Então, essas três aberturas ou portas ao fundo são aquelas pelas quais passa a luz do Sol. DIAGRAMA DE CORRESPONDÊNCIA DOS 12 SIGNOS COM OS 12 APÓSTOLOS – segundo Emma Costel de Mascheville no livro Luz e Sombra. 1. ÁRIES – Simão. 2. TOURO – Judas Tadeu. 3. GÊMEOS – Mateus. 4. CÂNCER – Felipe. 5. LEÃO – Tiago Menor. 6. VIRGEM – Tomé. 7. BALANÇA – João. 8. ESCORPIÃO – Judas Iscariotes. 9. SAGITÁRIO – Pedro. 10. CAPRICÓRNIO – André. 11. AQUÁRIO – Tiago Menor. 12. PEIXES – Bartolomeu. O Cristo está exatamente no meio, na posição Equinocial. Portanto, ele representa a posição de equilíbrio. Temos aqui as quatro estações simbolizadas, da direita para a esquerda: a primavera, o verão, depois Cristo, no Centro, que representa a posição do Equinócio Outonal e por fim o outono e o inverno. Então, são quatro grapos de três Apóstolos simbolizando os quatro grupos de três signos que caracterizam o Zodíaco Tropical, as quatro estações do ano, cada uma durando três meses. Esta consideração geral passa a se tornar cada vez mais interessante quando nós observamos as mãos de Jesus Cristo no mural,: com a mão esquerda ele dá, com a mão direita ele recolhe. Então, nós vamos verificar que na verdade, das estações do ano, na primavera e no verão o Sol se doa em luz e calor e no outono e no inverno, de alguma forma, proporcionalmente, a luminosidade do Sol se recolhe. Assim temos esse gesto das mãos a simbolizar uma posição de imparcialidade da Divindade perante a Natureza que doa de um lado e recolhe aquilo que ela mesma doou do outro, simbolizando que a Divindade se manifesta de forma equilibrada, imparcial, como se fosse uma contabilidade cósmica, por assim dizer, que precisaria fechar em zero. Portanto, quando a Divindade cria o “mais um”, tem que criar o “menos um”, quando a Divindade cria o “mais dois”, tem que criar igualmente o “menos dois”, e assim por diante. Tal é o caso, usando uma linguagem mais científica e atual, da teoria de conservação de energia, de modo que a integral ou soma final seja zero, sem deixar resíduo. Tal símbolo, portanto, é muito importante, pois nenhum signo é melhor do que o outro, todos os signos são assim, complementares. Esse é o ponto básico da teoria de Emma Costet de Mascheville, nossa professora, em seu livro Luz e Sombra, cuja leitura nós recomendamos. Nesse sentido, foi ela quem descobriu essa correlação da Astrologia com a Última Ceia de Leonardo da Vinci, ou seja, dos doze signos com os doze apóstolos. Outro ponto que gostaríamos de salientar é que a sombra não existe por si mesma senão como ausência de luz, diz até a Escritura que na presença da luz as trevas em luz se transformam (João 1,5). Da mesma forma é um princípio importante para nós, numa análise teosófica da Astrologia, sustentar que o mal não existe por si mesmo senão como o bem adormecido que não teve ainda oportunidade de despertar ou de desenvolver-se. Acrescentaríamos ainda o conceito de que o vício não existe por si mesmo senão como uma virtude em evolução, em desenvolvimento, uma virtude que ainda não teve o tempo de desabrochar, que não teve oportunidade de manifestar sua potencialidade evolutiva; todo ódio é assim apenas um amor não resolvido. A ideia de que o vício é uma virtude em formação dá um colorido completamente diferente a ideia de qualidade e defeito, como dizia um amigo meu: “Defeito quem tem é máquina”. Então nós estamos aqui pretendendo demonstrar a vocês, que de certa maneira os doze signos representam correlações de polaridades opostas, e existe toda uma simbologia astrológica que Carl Gustav Jung (1875-1961) valorizava, ao afirmar: “A Astrologia merece o reconhecimento da Psicologia, porque a Astrologia representa a soma de todo o conhecimento psicológico da antiguidade”. E nesses arquétipos, nesses símbolos que os signos estão a representar nós vamos ter as polaridades da mente humana. Talvez, quem sabe a melhor forma de nós desenvolvermos o assunto seja dando o exemplo do Eixo primeiro do Zodíaco Tropical que é chamado Áries-Libra. Então veremos que neste mural Simão está representando o signo de Áries, enquanto João representa o signo de Libra. Nesse sentido, pergunto, o que é melhor ao andar de bicicleta: Cair para o lado esquerdo ou cair para o lada direito? Suponho que o melhor seja não cair. Quando nós temos duas polaridades opostas a verdade não está apenas numa delas, as duas são complementares, talvez nós tenhamos a metade da verdade em cada lado. É um princípio fundamental da filosofia hermética do antigo Egito, oriunda de Hermes Trimegisto, também chamado pelos Egípcios de Toth, o princípio ou grande axioma de “Como em cima: assim embaixo”. Ele foi extraído da tábua de Esmeralda de Hermes Trimegisto e é talvez o  princípio básico de toda a Astrologia, é chamado genericamente de Lei da Correspondência ou Princípio da Correspondência. E o que ele pretende corresponder? Justamente que há uma relação entre o Homem Celeste e o Homem Terrestre. Nós podemos ver isso neste diagrama que mostra a correlação dos doze signos do Zodíaco, seguindo a ordem com as doze partes do corpo humano. Então, a cabeça corresponde a Áries; o pescoço corresponde a Touro; os braços e os pulmões correspondem a Gêmeos; o estômago, o esôfago e as glândulas mamárias correspondem a Câncer; o coração corresponde a Leão; os intestinos e o fígado correspondem a Virgem: os rins correspondem a Libra; os órgãos sexuais correspondem a Escorpião; os quadris e as coxas correspondem a Sagitário; os joelhos, os ossos e a pele correspondem a Capricórnio; as pernas e os tornozelos correspondem a Aquário, até os pés que correspondem a Peixes. Se nós formos assim observar a pintura de Leonardo da Vinci, chamada Cenacolo ou Última Ceia, que na verdade é um afresco, um mural pintado no refeitório do Convento de Santa Maria dele Grazie – Milão – Itália , nós vamos verificar que este mural dá um destaque para a cabeça de Simão que representa Áries e está na cabeceira da mesa e pode-se observar também que as mãos dele estão em posição de comando em contraposição ao signo de Libra, representado por João que tem a cabeça inclinada e as mãos cruzadas. É verdade que o mural original, que nós ai vemos, está afetado pelos micro-organismos que o atingiram, e por isso a obra já não tem toda a beleza da época em que ela foi pintada (1495-1497). Ela sofreu danificações quando o mencionado refeitório foi transformado em estábulo pelos soldados franceses em 1796. Por outro lado, por ser um mural esta obra se eternizou, ou pelo menos teve mais condições de ser preservada do que talvez uma tela pintada a óleo que pode desaparecer mais facilmente, pegar fogo ou até ser roubada, etc. Infelizmente fizeram até uma porta para ligar o refeitório à cozinha, e para tal destruíram a parte da parede onde estavam pintados os pés de Cristo. Mas o que interessa é que Áries está ali representado com as mãos em posição de comando e com a cabeça exposta à cabeceira da mesa. Em seguida, Judas Tadeu representa Touro com uma concentração de luz no pescoço, e logo depois vemos Mateus com os braços em destaque, caracterizando, como nós vimos na ilustração do Homem Celeste, exatamente a mesma sequência da direita para a esquerda, seguindo assim a ordem dos signos do Zodíaco. Portanto, nós não estamos aqui pretendendo dizer que há uma relação de conexão meramente acidental ou casual, e sim que Leonardo da Vinci tinha a intenção de deixar uma mensagem astrológica nesse mural, ainda que velada em forma de pintura artística. Naquela época, na virada do século XV para o XVI, vigorava ainda a Santa Inquisição até a morte, em praça pública, em Roma, no Campo de Fiori, porque ele acreditava na onipresença de Deus e sustentava a existência da vida em mundos inumeráveis, como não acreditava na existência de vida só no planeta Terra, antes, ele sustentava que não seria digno da grandeza de Deus se só houvesse vida na Terra. Naquela época, falar de Astrologia não era um assunto tão simples, e o cuidado que Leonardo da Vinci teve neste mural foi, justamente, pintá-lo de uma forma cifrada de tal maneira que não fique evidente para o leigo tratar-se de uma obra de Astrologia, muito pelo contrário, parece ser apenas a Sagrada Eucaristia na quinta-feira santa, no momento em que Jesus dividi o pão com os seus discípulos, e abençoa também o vinho. No cristianismo, todo o simbolismo da missa inicia com a Sagrada Eucaristia a partir da quinta-feira santa. Da Vinci escolheu um dos mais sagrados símbolos cristãos para expressar através dele sua mensagem astrológica para as futuras gerações. Alguns cristãos resistem à Astrologia e à Ciência Astronômica, que naquela época  ainda não estavam separadas, porque elas foram trazidas novamente à Europa medieval pelos árabes juntamente com o sextante, o astrolábio, a bússola, etc, que tornaram possível o descobrimento das Américas. Porém, alguns esquecem que a maneira como o nascimento de Jesus foi descoberto pelos chamados Reis Magos, que eram evidentemente astrólogos persas, foi pelo cálculo da posição da Estrela de Belém. Por isso, o Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro – Brasil, do qual tive oportunidade de ser um dos membros fundadores, escolheu o dia 6 de janeiro, dia dos Reis Magos, como a data nacional do dia do Astrólogo, porque foi assim, através da Astrologia, que o nascimento de Jesus foi descoberto. Johannes Kepler (1571-1630), o grande Astrônomo e Astrólogo,  simultaneamente, na história dos Grandes Cientistas, sustentava que a Estela de Belém era na verdade a conjunção de Júpiter com Saturno, ou seja, a relação do planeta da graça com o planeta do sacrifício, os dois em linha, em conjunção, proporcionariam um brilho extraordinário no céu, a soma do brilho destes dois planetas, resultaria mais tarde na chamada Estrela de Belém. Assim também Edmond Halley ((1656-1742), o descobridor do cometa que levou o seu nome, questionou as bases da Astrologia a Sir Isaac Newton (1643-1727), e ele teria respondido: “Sir, I have studied it, you have not” – “Senhor, eu a tenho estudado, o senhor não” . A Astrologia não é uma questão de crença, por isso esse livro inicia seu título com “A Ciência da Astrologia”, e juntos vamos investigar se há ou não correlação entre os fenômenos celestes e os terrestres. Vejam então, como o signo de Câncer é representado por Filipe, discípulo de Jesus, por não poder, evidentemente, num homem caracterizar as glândulas mamárias, ele tem um gesto maternal de quem traz a si, ao peito, em contraposição ao seu oposto que é André que representa Capricórnio e tem as mãos espalmadas. Dona Emy chamava o primeiro de “Vinde a mim” e o segundo de “Sai de mim”, o primeiro simboliza o calor do verão e o segundo o frio do inverno no Hemisfério Norte, de onde nos vem essa simbologia zodiacal greco-romana. Vamos verificar nessa sequência que Leão rege o coração e temos então o Apóstolo Tiago, aqui, possivelmente Tiago Menor – essa é uma das possíveis áreas de discrepância em saber se é Tiago Maior ou Menor – mas o fato é que ele tem aquela postura de expor o coração. Assim, o mural vai gradualmente demonstrando a exata sequência da direita para a esquerda que nós havíamos justamente indicado na tal correspondência entre o Homem Celeste e o Homem Terrestre. E nós vamos ver que o único apóstolo que tem os pés na luz é justamente o que representa o signo de Peixes, então observamos ali como Bartolomeu é o único que tem os pés na luz. Evidentemente que isso não está de todo nítido no original porque essa é uma das áreas que está na fase de reconstituição, mas porque ele está de pé na cabeceira da mesa pode-se, com as cópias mais próximas da época, verificar que é o único dos apóstolos que tem os pés na luz, como se pode ver na cópia do mural que foi reconstituído na capa do Luz e Sombra de Dona Emy. Nós fizemos essas menções, e vamos aos poucos estudar os signos dois a dois nas suas polaridades ou eixos, para que se possa perceber assim no contexto, que nenhum deles têm só qualidades ou nenhum deles têm só defeitos, senão que de dois a dois eles precisam ser integrados para que nós possamos ter o equilíbrio do todo reconstituído. Então, nossa proposta inicial é estudar os 12 Signos a partir de suas polaridades, depois nós vamos investigar também as 12 Casas Astrológicas, os planetas, buscando descobrir o equilíbrio e a beleza da Natureza no Mapa Astral. Eu citaria uma expressão de Emma Costet de Mascheville: “Através do estudo da Astrologia aprendemos a não culpar, mas a compreender, a não ser infelizes ou revoltados, mas a conhecer a nós mesmos e ao nosso próximo, encontrando a harmonia da vida e religando-nos à Fonte de Luz. Livro A Ciência da Astrologia e as Escolas de Mistérios. Abraço. Davi.

segunda-feira, 7 de março de 2022

LIVRO A CIÊNCIA DO YOGA - SAMADHI PADA II

 

Yoga. Livro A Ciência do Yoga. Autor I. K. Taimni. II. SAMADHI PADA. Yogas citta vritti nirodhah. 2. Yoga é a inibição das modificações da mente. Este é um dos mais importantes e conhecidos sutras deste tratado, não por tratar de algum princípio importante ou técnica de valor prático, mas por definir, usando apenas quatro palavras, a natureza essencial do Yoga. Há certos conceitos, em toda ciência que são de natureza básica e que devem ser entendidos corretamente caso o estudante pretenda ter um domínio satisfatório do tema como um todo. As ideias implícitas nas quatro palavras deste sutra são de natureza fundamental, e, portanto, o estudante deve tentar apreender, através de estudo e reflexões, seu significado real. Sem dúvida, o sentido dessas palavras somente estará suficientemente claro quando o livro tiver sido inteiramente estudado, e os vários aspectos do assunto considerados em sua relação mútua. A expectativa é de que palavras de importância tão fundamental sejam cuidadosamente definidas e tais inseridas onde quer que sejam necessárias. Mas, no caso do presente sutra, nenhuma dessas definições foi dada e podemos, portanto, concluir que o autor espera que o estudante adquira uma ideia clara da importância das palavras, estudando o livro inteiro. Mas, como é necessário que o estudante não comece seu estudo com ideia errôneas ou confusas, talvez valha a pena considerar-se, neste estágio inicial, a relevância das palavras e do sutra de maneira geral. Comecemos pela palavra Yoga. A palavra Yoga, em sânscrito, tem grande número de significados. Ela é derivada da raiz yuj, que quer dizer “unir”, e a ideia de união está presente em todos os significados. Quais são as duas coisas que se procura unir pela prática do Yoga? De acordo com as mais elevadas concepções da filosofia hindu, da qual a ciência do Yoga é uma parte integrante, a alma humana, ou jivatma. É uma faceta ou expressão parcial da super alma ou Paramatma, a Divina Realidade, fonte ou substrato do universo manifestado. Embora, em essência, os dois sejam o mesmo e sejam indivisíveis, ainda assim, ji vatma tornous-e subjetivamente separado de Paramatma e está destinado, depois de atravessar um ciclo evolutivo no universo manifestado, a unir-se outra vez com Ele, em consciência. Este estado de unificação dos dois, em consciência, bem como o processo mental e a disciplina através da qual esta união é atingida, são ambos chamados Yoga. Esta concepção é formulada de maneira diferente na filosofia samkhya, mas, numa análise mais acurada, verificar-se-á ser a ideia fundamental essencialmente a mesma. Chegamos, agora, à palavra citta. Esta palavra é derivada de cit ou citi (IV-34), um dos três aspectos do Paramatma, chamado sat-cit-ananda no Vedanta. Este é o aspecto em que se baseia o lado forma do universo e através do qual ele é criado. O reflexo deste aspecto na alma individual, que é um microcosmo, é chamado citta. Citta é, assim, aquele instrumento ou meio através do qual ji vatma materializa seu mundo individual, nele vive e evolui, até que se torne perfeito e unido com a Paramatma. Em termos gerais, por conseguinte, citta corresponde à “mente” da psicologia moderna, mas tem um alcance e um campo de atuação mais abrangente. Enquanto citta pode ser considerado um meio universal através do qual a consciência atua em todos os planos do universo manifestado. A “mente” da psicologia moderna é confinada tão somente à expressão do pensamento, volição e sentimento. Não devemos, entretanto, cometer o erro de imaginar citta como uma espécie de meio material moldado sob diferentes formas, quando diferentes tipos de imagens mentais são produzidos. Fundamentalmente, sua natureza é a da consciência, que é imaterial, mas afetada pela matéria. De fato, pode-se dizer que citta é um produto de ambos, consciência e matéria, ou purusa e prakti, sendo ambos necessários para seu funcionamento. É como uma tela intangível, que permite que a luz da consciência seja projetada no mundo manifestado. Mas o segredo real de sua natureza essencial subjaz na origem do universo manifestado e somente pode ser conhecido quando se atinge a Iluminação. De fato, a teoria da percepção, analisada na seção IV, dá uma indicação geral em relação à natureza de citta, mas não diz o que citta é essencialmente. A terceira palavra que temos de considerar neste sutra é vrtti. Ela é derivada da raiz vrt, que significa “existir”. Vrtti é, assim, uma maneira de existir. Considerando os modos nos quais alguma coisa existe, podemos levar em conta suas modificações, estados, atividades ou suas funções. Todas estas conotações estão contidas no significado de vrtti. Mas no presente contexto, este termo é mais bem traduzido, pelas palavras “modificações ou funcionamento”. Às vezes, a palavra é traduzida como “transformações”, o que não parece justificável, porque na transformação a ênfase está na mudança e não na condição. As transformações de citta podem ser interrompidas e, ainda assim, permanecer em uma modificação particular, como acontece em sabi já samadhi. Como o objetivo final do Yoga é a inibição de todas as modificações em nirbi já samadhi, pode-se constatar que a palavra “transformação” não expressará adequadamente o significado da palavra vrtti. Além do mais, a palavra “transformação” deve ser usada para os três parinamas tratados na primeira parte da seção III. Dado que citta tem uma existência funcional e vem à existência somente quando a consciência é afetada pela matéria, a palavra “funcionamento” talvez expresse ao máximo a importância de vritti no presente contexto. Mas a palavra “modificação” é também usada em geral e compreendida mais facilmente, podendo, portanto, ser utilizada. Ao tentar entender a natureza de citta-vritti, devemos precaver-nos contra algumas falsas concepções às vezes comuns entre aqueles que não estudaram o assunto profundamente. A primeira coisa a ser notada é que citta-vritti não é uma vibração. Já vimos que citta não é algo material e, portanto, não há nela qualquer vibração. Às vibrações somente ocorrem num veículo e podem produzir uma citta vritti. Os dois são diferentes, embora relacionados. O segundo ponto a ser destacado é que citta vritti não é uma imagem mental, embora possa ser, e geralmente o é associado a imagens mentais. A classificação quíntupla de citta-vritti, em I-5, mostra isso claramente. As imagens mentais podem ser de inúmeras espécies, mas o autor classificou citta-vrttis em cinco títulos somente. Isso mostra que citta vrttis tem um caráter mais fundamental e abrangente do que as meras imagens mentais com as quais estão associadas. Este não é o lugar para discussões detalhadas sobre a natureza essencial de citta-vrttis, já que a questão envolve a natureza essencial de citta. Mas, se o estudante analisar cuidadosamente os seis sutras (I,6-11), que tratam das cinco classes de vrttis, verá que eles representam os estados fundamentais ou tipos de modificações em que a mente pode existir. O autor mencionou cinco tipos de modificações da mente concreta inferior com as quais o homem comum está familiarizado. Mas o número e a natureza desses diferentes tipos destinam-se a ser diferentes nos reinos superiores de citta. A última palavra a ser considerada é nirodha. Derivada da palavra niruddhan, significa “restringido, controlado, inibido”. Todos estes significados são aplicáveis aos diferentes estágios do Yoga. Restrição está incluída nos estágios iniciais. Controle, nos estágios mais avançados. Inibição ou total supressão, no último. O tema nirodha foi tratado em III-9, e o estudante deve ler cuidadosamente o que foi escrito a esse respeito. Se o estudante tiver compreendido o significado das quatro palavras neste sutra, verá que ele define de modo magistral a natureza essencial do Yoga. A eficácia da definição está no fato de que ela cobre todos os estágios do progresso pelos quais passa o yogi, assim como todos os estágios de desenvolvimento da consciência resultante desse progresso. É igualmente aplicável ao estágio do Krya-Yoga, no qual ele aprende as lições preliminares, aos estágios de dharana e dhyana, nos quais ele traz a mente sob seu completo controle, para o estágio de sbija samadhi, no qual ele tem de suprimir as “sementes” de samprajnata samadhi, e ao último estágio de nirbija samadhi, em que ele inibe todas as modificações de citta e ultrapassa o domínio de prakrti, entrando no mundo da Realidade. O significado integral do sutra somente será compreendido quando o tema Yoga tiver sido estudado por completo, em todos os seus aspectos, sendo, assim, inútil dizer algo mais neste estágio. Livro A Ciência do Yoga. Abraço. Davi

 

domingo, 6 de março de 2022

OS ANALECTOS - INTRODUÇÃO VI

 

Confucionismo. www.https//rt.br. OS ANALECTOS. Tradução do inglês de Caroline Chang. Tradução do chinês. Introdução e notas de D. C. Lau. INTRODUÇÃO VI. As odes eram uma ontologia que todo homem educado conhecia plenamente, de modo que uma citação correta delas extraída, podia ser usada para comunicar a opinião de alguém em situações delicadas ou que requeressem extrema polidez. Habilidade de falar por meio do disfarce de uma citação era particularmente útil em conversas diplomáticas. É por essa razão que Confúcio disse: “Se um homem que conhece as trezentas Odes de cor (...) se mostra incapaz de ter iniciativa própria quando enviado para reinos estrangeiros, então qual a utilidade das Odes para ele, independentemente de quantas ele tenha aprendido?” (XIII.5). Esse jeito de usar as Odes não se limita a situações diplomáticas. Ao criticar o governante e seu governo, um homem também deveria recorrer a citações das Odes. Como colocou o autor anônimo do prefácio de Kuan chü, “Aquele que fala não ofende, ao passo que aquele que ouve pode entender o aviso”. [19] Isso é importante em sistemas políticos nos quais ofensas feitas àqueles no poder podem facilmente causar sérios problemas a alguém. E há outra vantagem. Quando a verdadeira opinião de alguém é amortecida por uma citação, é sempre possível que esse alguém negue, posteriormente, que tal significado, seja qual for, tenha sido intencional. Por essa razão, tais práticas persistiram até os dias de hoje. Em Os analectos há um bom exemplo desse costume de falar veladamente. O príncipe K’uai K’ui, o filho do duque Ling, de Wei, fugiu para Chin depois de uma fracassada tentativa de assassinar Nan Tzu, a famosa mulher do seu pai. Quando da morte do duque de Ling, o filho de K’uai K’ui, Che, sucedeu ao seu avô. Com o apoio do Exército Chin, o príncipe K’uai K’ui se instalou em uma cidade fronteiriça de Wei, esperando por uma oportunidade de destronar seu filho. Jan Yu queria saber se Confúcio estava do lado de Che, mas já que tanto ele quanto Confúcio eram visitantes naquele reino não lhes cabia serem vistos discutindo abertamente as políticas de Wei; e se uma pergunta direta lhe tivesse sido colocada, Confúcio muito provavelmente teria se recusado a respondê-la. Tzu-kung, que tinha a reputação de ser um orador talentoso (XI.3), ofereceu-se para tentar descobrir. Assim foi como correu a conversa. Ele entrou e disse: “Que tipo de homens eram Po Yi e Shu Ch’i?”. “Eram excelentes anciãos.” “Tinham alguma queixa?” “Procuravam a benevolência e a encontraram. Então, por que teriam qualquer queixa?” Sequer uma palavra foi dita sobre Wei, mas Tzu-kung ficou satisfeito por ter obtido a resposta. Ele saiu e disse: “O Mestre não está do lado dele” (VII.15). Po Yi e Shu Ch’i eram os filhos do senhor de Ku Chu. O pai queria que Shu Ch’i, o filho mais novo, o sucedesse, mas, quando ele morreu, nenhum dos filhos estava disposto a tirar do outro a sucessão, e ambos foram às montanhas e passaram a viver como eremitas. Ao aprovar Po Yi e Shu Ch’i em sua tentativa de entregar a sucessão um ao outro, Confúcio estava implicitamente reprovando Che, que estava envolvido em uma vergonhosa briga com o próprio pai pelo trono. Até agora olhamos apenas para os ensinamentos morais de Confúcio relacionados ao seu ideal de cavalheiro. Há, entretanto, outro lado de seus ensinamentos que foi amplamente negligenciado pelos intelectuais e estudiosos. É a sua preocupação com o que pode ser descrito como questões de método. No âmago desse aspecto dos seus ensinamentos está a oposição entre hsüeh (aprendizado) e ssu (pensamento). Para compreender o significado desta oposição, precisamos, antes de tudo, descobrir o que constituía aprendizado. Um rápido exame das dificuldades que se encontram em traduzir a palavra hsüeh se mostrará esclarecedor. A escolha natural em inglês por um equivalente é o verbo “to learn” [aprender], mas muito frequentemente somos forçados, pelas exigências da língua inglesa, a usar “to study ” [estudar]. A razão é a seguinte: o verbo “aprender” requer um objeto explícito. Por exemplo, não dizemos “ele aprende”. Podemos, é claro, dizer “Ele aprende rápido”, ou “Ele está disposto a aprender”, mas esses são casos especiais em que o ponto principal da frase não está na palavra “aprender”. Por outro lado, dizemos “ele estuda”. Há, entretanto, outras diferenças entre “aprender” e “estudar”. Tendemos a “aprender” algumas coisas mas “estudar” outras. Por exemplo, uma criança aprende a andar, mas um entomólogo estuda o comportamento das formigas. Aprendemos algo prático; estudamos algo teórico. Quando se trata de aprender, o foco está naquele que aprende; ao estudar, o foco está no objeto de estudo. Ao aprender algo novo, um homem se aprimora. Ou ele adquire uma nova técnica ou se torna mais proficiente em uma técnica antiga. Ao estudar, um homem adquire novos conhecimentos, mas esses novos conhecimentos não necessariamente fazem alguma diferença para ele do ponto de vista prático. Essa diferença de uso entre “aprender” e “estudar” é importante para o entendimento de hsüeh. Hsüeh está muito mais perto de “aprender” do que de “estudar”. Do mesmo modo que “aprender”, hsüeh faz diferença para o homem enquanto pessoa. É uma atividade que capacita o homem a adquirir uma habilidade nova ou se tornar mais proficiente em uma habilidade já adquirida. Mas, no contexto confuciano, o ponto mais importante é lembrar que é hsüeh que capacita o homem a se tornar um homem melhor do ponto de vista moral. Assim, a moralidade, na visão de Confúcio, é algo muito próximo à ideia de habilidade. Pode ser transmitida de mestre a discípulo. É por causa dessa possibilidade que Confúcio dava tanta ênfase a hsüeh. Embora “aprender” seja um equivalente muito mais satisfatório para hsüeh do que “estudar”, uma tentativa de se ater rigidamente ao uso de “aprender” pode, por si só, dar margem ao surgimento de dificuldades. Quando, por exemplo, Confúcio fala sobre hsüeh shih, é natural traduzir isso por “estudar as Odes”, mas isso, conforme vimos, transforma uma atividade prática em uma teórica. Porém, traduzir a frase por “aprender as Odes” sugere aprender as Odes de cor. Embora isso sem dúvida seja parte do significado, definitivamente não é todo o significado nem mesmo a parte mais importante dele. Como vimos, a principal proposta de hsüeh shih é tanto aprimorar a sensibilidade de uma pessoa quanto capacitá-la a usar linhas das Odes para disfarçar o que quer dizer. [20] Assim, às vezes o tradutor se vê em dificuldade para encontrar um equivalente satisfatório para hsüeh. “Aprender” é algo que diz respeito a toda a sabedoria acumulada do passado. Embora não exclua necessariamente conhecimento teórico, a ênfase, conforme é previsível, é no aprendizado moral. E essas verdades morais são, na maior parte das vezes, epitomizadas na forma de preceitos. Os ritos eram, claro, um código para tais preceitos, embora provavelmente também devem ter existido preceitos que não eram contemplados por esses códigos. Que os ritos formavam uma grande parte daquilo que um homem precisava aprender é confirmado por duas passagens de Os analectos. Na primeira, Confúcio disse: “A menos que um homem tenha o espírito dos ritos (...) ao ter coragem ele vai se tornar indisciplinado e, ao ser íntegro, ele vai se tornar intolerante” (VIII.2). Entretanto, em outra passagem ele disse: “Amar a determinação sem amar o aprendizado pode levar à intolerância” (XVII.8). As duas declarações são praticamente idênticas, exceto pelo fato de que em uma temos “os ritos”, enquanto na outra temos “aprender”. Se “aprender” tem um papel tão importante nos ensinamentos de Confúcio, por que não aparece mais frequentemente em Os analectos? Porque “aprender” não é o único termo que é usado para a atividade. Muito frequentemente Confúcio usa, no lugar de “aprender”, wen (ouvir) e, mais raramente, chien (ver). [21] Em especial, “ouvir” é usado quando há alguma referência ao aprendizado de preceitos específicos ou quando “aprender” é colocado em contraste com a ação de colocar em prática aquilo que é aprendido. Aqui estão exemplos do ensinamento de um preceito específico. O Mestre disse: (...) “Sempre ouvi dizer que um cavalheiro dá para ajudar os necessitados, e não para manter os ricos em uma vida farta”. (VI.4) Ch’en Ssu-pai disse: “Ouvi dizer que um cavalheiro não demonstra parcialidade. E mesmo assim o seu Mestre é parcial?”. (VII.31) Tzu-hsia disse: “Já ouvi dizer: vida e morte são uma questão de Destino; riqueza e honra dependem do Céu”. (XII.5) Confúcio disse: “Sempre ouvi dizer que o chefe de um reino ou de uma família nobre preocupa-se não com subpopulação, mas com a distribuição desigual; não com a pobreza, mas com a instabilidade”. (XVI.1) Tzu-y u respondeu: “Há algum tempo ouvi do senhor, Mestre, que o cavalheiro instruído no Caminho ama seus semelhantes e que os homens vulgares instruídos no Caminho são fáceis de serem comandados”. (XVII.4) Tzu-lu disse: “Há algum tempo ouvi do senhor, Mestre, que o cavalheiro não entra nos domínios daquele que não pratica o bem”. (XVII.7) Tzu-chang disse: “Isso é diferente do que eu ouvi. Ouvi que o cavalheiro honra aqueles que lhe são superiores e é tolerante para com a multidão, que é cheio de elogios para com os bons ao mesmo tempo em que se apieda dos incapazes”. (XIX.3) A relação entre ouvir e colocar em prática o que se ouviu é claramente abordada nas seguintes passagens: O Mestre disse: “Use seus ouvidos (wen) amplamente, mas deixe de fora o que é duvidoso; repita o resto com cuidado e você cometerá poucos erros. Use seus olhos (chien) amplamente e deixe de fora o que é perigoso; coloque o resto em prática com cautela e você terá poucos arrependimentos”. (II.18) A única coisa que Tzu-lu temia era que, antes que pudesse colocar em prática algo que aprendera, lhe ensinassem outra coisa diferente. (V.14) O Mestre disse: “Estas são as coisas que me causam preocupação: (...) incapacidade de, quando me é dito (wen) o que é correto, tomar uma atitude”. (VII.3) O Mestre disse: “Faço amplo uso de meus ouvidos e sigo o que é bom daquilo que ouvi; faço amplo uso dos meus olhos e retenho na minha mente o que vi”. (VII.28) Tzu-lu perguntou: “Deve-se imediatamente colocar em prática o que se ouviu?”. (XI.22) A inter-relação entre aprender e colocar em prática o que se aprendeu é forte porque entre as coisas que se aprende estão os preceitos, e qual seria a utilidade de aprender um preceito se não se fizesse uma tentativa de colocá-lo em prática? Daí a preocupação de Confúcio quanto a sua incapacidade de se mover para uma nova posição assim que ele aprendeu que essa posição é moralmente correta e o medo de Tzu-lu de se atrasar se preceitos surgirem mais rápido do que ele pode acompanhar. Mas isso não significa que se deve colocar um preceito em prática simplesmente porque é um preceito. Deve-se, antes de tudo, refletir profundamente quanto a se ele é correto. É por isso que Confúcio está constantemente aconselhando que se deve escolher daquilo que foi aprendido apenas o que é bom e deixar de fora o que é duvidoso. A única maneira de fazer isso é por meio do pensamento. Isso nos traz de volta à questão de aprender e pensar. Há um ditado bem conhecido em Os analectos: “Se um homem aprende com os outros mas não pensa, ele ficará confuso. Se, por outro lado, um homem pensa mas não aprende com os outros, ele estará em perigo” (II.15). Deve-se aprender com os sábios do passado e do presente, mas, ao mesmo tempo, deve-se tentar aprimorar aquilo que foi aprendido. Embora tanto aprender quando pensar sejam indispensáveis, Confúcio parece considerar o ato de aprender, de alguma forma, mais importante. Ele disse: “Uma vez passei todo o dia pensando, sem comer nada, e toda a noite pensando sem ir para a cama, mas descobri que nada ganhei com isso. Teria sido melhor gastar o tempo estudando” (XV.31). Aqui Confúcio está falando que se devêssemos nos entregar a uma busca apenas, então aprender seria mais proveitoso do que pensar. Um momento de reflexão mostrará que essa visão é bastante razoável. Se a meta de um homem é conseguir avanços de conhecimento, tanto pensamento quando aprendizado são igualmente necessários, mas, em casos em que o homem não tem esse objetivo, por meio do aprendizado ele pode ao menos ganhar algo, ao tomar conhecimento do que já é sabido, mas dificilmente terá qualquer ganho se ficar pensando in vacuo. Tomemos um exemplo que ilustra o modo como Confúcio refletiu sobre os ritos existentes. O Mestre disse: “Os ritos prescrevem um boné cerimonial de linho. Hoje, usamos seda preta no lugar. Isso é mais frugal, e eu sigo a maioria. Os ritos prescrevem que a pessoa prostra antes de subir os degraus. Hoje faz-se isso após tê-los descido. Isso é casual, e, embora indo de encontro à maioria, sigo a prática de prostrar-me antes de subir”. (IX.3) Aqui temos um caso claro de uma visão crítica de Confúcio quanto aos ritos. Ele concluiu que em um determinado caso estava preparado para seguir a maioria, mas não no outro caso. Ele chegou a essa conclusão voltando aos princípios que subjazem aos ritos em questão. No segundo caso, o princípio subjacente é respeito, enquanto no primeiro caso há igualmente frugalidade. Que o respeito devesse ser o princípio subjacente é nada menos do que algo a ser esperado, mas que a frugalidade devesse ser tal princípio pode parecer surpreendente, até que lembremos da resposta de Confúcio para uma pergunta quanto aos fundamentos dos ritos. Parte desta resposta foi: “Com os ritos, é melhor pecar pela simplicidade do que pela extravagância” (III.4). Todas as coisas sendo iguais, é melhor ser frugal. O gorro de seda cinza é mais frugal, mas nada perde em respeito. Daí a aprovação de Confúcio. Prostração depois de subir os degraus, por outro lado, é casual, em outras palavras, menos respeitoso, e não tem ganhos compensatórios. Daí a desaprovação de Confúcio. Conforme vimos, preceitos são muitas vezes introduzidos pela fórmula “Ouvi dizer”. Muitas vezes, entretanto, essa fórmula é dispensada, particularmente nos casos em que o preceito está para ser examinado. Nesses casos, a pergunta “O que você acha desse dizer?” é simplesmente colocada. Por exemplo: Tzu-kung disse: “‘Pobre sem ser servil, rico sem ser arrogante’. O que o senhor pensa desse provérbio?” O Mestre disse: “É bom, mas melhor ainda é: ‘Pobre, mas alegre no Caminho, rico, porém observador dos ritos (I.17). OS ANALECTOS. www.https//rt.br. Abraço. Davi.

sexta-feira, 4 de março de 2022

GUERRA ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA

 

Editor do Mosaico. GUERRA ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA. A guerra entre Rússia e Ucrânia iniciada em 24/02 prenunciada pelo Presidente russo Putin, meses antes, tem-se prolongado perigosamente. Isto porque, a União Europeia e seu braço militar OTAN apoiam inconteste os ucranianos. A invasão russa tem-se dado com todos os armamentos modernos e tecnológicos disponíveis. Como uma potência militar usam o que de mais eficiente tem em se falando de destruição de prédios e edificações. Tanques, foguetes, aviões, helicópteros e outros artefatos de uso são utilizados pelas tropas. A questão política é que o Kremlin não aceita o ingresso da Ucrânia na OTAN. Essa instituição foi criada para diminuir a influência da antiga União Soviética no leste Europeu. Parece que não funcionou, pois os países do continente membros desse pacto, assentem na prática – com armamentos pesados – entregues ao governo ucraniano de Zelensky. Alimentam a guerra e destruição do proponente com a ideia de torna-se signatário. Várias cidades ucranianas foram bombardeadas pelos russos. Algumas estão sendo ocupadas. Os números de mortos dos dois lados não são conhecidos definitivamente. Mas, certamente milhares, farão parte dessa triste contagem. Incluindo não só os combatentes, mas civis – mulheres, crianças, idosos e velhos. Além de extermínio de escolas, hospitais, mercados e toda infraestrutura social. Putin também justifica a guerra evocando os laços históricos e culturais – língua, tradição e religião que envolve os dois povos. Essa para mim, é uma premissa que faz exatamente o contrário. Deve-se criar ambiente de diálogo e entendimento que apazigue o conflito. Sem uso da brutalidade e desumanidade pela violência como presenciamos. O mais forte oprimindo e devastando o mais fraco isso é crueldade. Não entendo a atitude do presidente ucraniano Zelensky. Enfrentando de frente o opositor muito mais poderoso. Postou hoje na internet, segurando um documento no qual assinou, simbolicamente a entrada da Ucrânia na União Europeia. Atitude que só acirra os ânimos na peleja. Sem contribuir ao arrefecimento da luta armada. Confiando nos países da OTAN que enviam armamentos bélicos para seu exército continuar o confronto. Todavia, isso tem custado um preço alto ao país, como tem mostrado os noticiários televisivos pelo mundo. Por que não um armistício agora – suspensão temporária das hostilidades – e logo o fim da guerra? Situações políticas e interesses econômicos e pessoais, infelizmente, falam mais alto. Putin, diz que a guerra não é contra o povo ucraniano. Todavia para eliminar células nazistas infiltradas no território ucraniano. Há verdade nessa fala de Putin, pois após a anexação da Criméia em 2014 e o apoio pró Rússia aos rebeldes do leste – Donetsky e Lugansk. Esses grupos e milicianos começaram a agir – são ultranacionalistas – ideologia política e econômica extremista. O povo ucraniano se divide entre fazer parte da União Europeia – OTAN e permanecer neutra nesta questão. O parlamento do país, sem consulta popular, decidiu pela assinatura da inclusão ao Bloco. Contudo, o trâmite exige muita burocracia, votação dos membros europeus e outros aspectos técnicos. Esse impasse pode levar anos. Prolongando o sofrimento do povo ucraniano. A grande questão é: quanto mais se desenrola esse enfrentamento, mais nações se envolvem tomando partido por um lado ou outro. China e Índia, mesmo reprovando a invasão, claramente se posicionam a favor da Rússia. Além de Brasil e África do Sul são membros do BRICS. O presidente brasileiro, ainda não tem posição definida. Preferindo a neutralidade. Estados Unidos e Europa são parceiros da Ucrânia. Biden tem advertido e ameaçado Putin. Interesses geopolíticos movem os Estados Unidos a cooperarem com a Europa no enfrentamento a Putin. Percebendo que seu protagonismo, não mais é absoluto no planeta. O governo americano procura se beneficiar do enfrentamento liderando pesadas sanções econômicas, fiscais e financeiras contra o governo russo. Banco estão impedidos de negociarem papeis da dívida pública russa. Proibição de novos empréstimos a curto e longo prazo a bancos russos. Congelamento de contas correntes dos bilionários russos nos bancos americanos. A União Europeia também listou punições econômicas e financeiras contra a Rússia. O petróleo e o gás vindos da Rússia essenciais aos mercados mundiais não sofrerão penalidade para não prejudicar o abastecimento global. Propostas para isolar a Rússia do resto do mundo. Mas que afetarão o mundo todo. Até agora, os Estados Unidos e a União Europeia não enviaram soldados ao campo de batalha na Ucrânia. Por outro lado, a população russa tem protestado nas praças pública de importantes cidades contra a invasão da Ucrânia. O povo é contra essa atitude arbitrária do governo russo. Milhares já foram presos por participarem desse movimento. Duas rodadas de negociações não conseguiram um cessar fogo. Na última ficou acordado um corredor humanitário aos que desejarem sair da Ucrânia. Terão segurança para atravessarem a fronteira rumo aos países vizinhos. Putin tem a palavra final em questões de segurança nacional. Ontem, 03/03, as forças russas, bombardearam os arredores da usina nuclear de Chernobyl. A maior do mundo. Fogo foram vistos próximo ao reator com temor de vazamento radioativo. Todavia as chamas já estão dominadas segundo as tropas russas que, agora, estão no controle. Putin ameaçou Suécia e Finlândia, países nórdicos, caso pretendam aderir ao bloco militar europeu. Essa intimidação, procede, tal o tom do discurso do líder russo, envolvendo vingança com míssil nuclear. Estados Unidos e Rússia detém 90% do arsenal nuclear do planeta. Os russos têm mais ogivas. Especialistas dizem ser improvável, nesse momento, o uso de armas nucleares. A destruição seria irrecuperável extinguindo-se a vida humana e o meio ambiente terrestre. Porém, uma 3ª Guerra Mundial, tendo início, não está descartada. Segundo esses, o prolongamento do conflito na Ucrânia, coopera decididamente com essa visão negativa. Haja vista, os milhares de ucranianos que estão abandonando seus lares. Refugiados da guerra, abrigam-se em países fronteiriços: Polônia, Romênia, Hungria, Eslováquia e Moldávia. O mundo já começa a sentir os efeitos dessa guerra. A Rússia já avisou que seus fertilizantes – usados em várias partes do mundo – não poderão ser exportados devido a embargos econômicos e logísticos de seus produtos. O Brasil será um dos países que mais sofrerá pois usa-os no agronegócio. O preço de produtos básicos: trigo, soja, arroz e outros bens de consumo terão considerado aumento de preço. O petróleo chegará a valores insuportáveis nos postos de gasolina pelo mundo. Se desenha um quadro sombrio. Aumento da pobreza, desigualdade e insegurança em todos os níveis sociais pela Terra. O mundo tornar-se-á mais polarizado. Um rearranjo sócio global entre países democráticos – sistema governamental e político em que os dirigentes são escolhidos através do voto popular de um lado. E do outro autocráticos – tipo de governo em que uma pessoa ou um grupo de pessoas detém o poder completo sobre uma nação. Essas definições, a meu ver, não devem ser encaradas como verdades absolutas. Variável sociocultural, tradição, língua e religião, muitas vezes, impõem o regime de uma nação. Assim, suponho, que países autocráticos podem ter um nível social mais saudáveis e humanitário que um democrático e vice-versa. Os exemplos estão ai para serem comparados. Uma nova ordem mundial se desenha. O modelo organizacional das nações, talvez seja substituída por uma "confederação" de nações. A definição dessa palavra é: “União de Estados Nacionais independentes que, embora conservando governo próprio, se submetem a um poder central. No qual quase todas as decisões são tomadas tendo em conta a aprovação com demais Estados confederados”. Mais justo e menos propenso a desigualdade e brechas dominadoras. Ouvi esse conceito, dum mestre em astrologia que “profetizou” essa mudança, e acredito, ser de grande inspiração. É possível, caso se consolide a inspiração, nossa geração atual, participar dessa histórica mudança. Clamamos aos Seres Espiritual de Luz Divina, que a Paz venha urgentemente aos corações de todos os russos, ucranianos e demais povos indiretamente envolvidos. Acho que ficou claro a posição do Editor do Mosaico de não tomar partido por nenhum dos beligerantes. Não é um assunto de vencedor ou vencido. Numa guerra os participantes, todos, são perdedores e derrotados. Incapazes do dialogo prévio e entendimento consensual. Envolvidos em motivações egoístas e narcisistas, sem amor e misericórdia pelo próprio. Vão as últimas consequências, para satisfazer suas ambições e caprichos pessoas. Todavia, nesta vida ou nas futuras, pagarão o preço pelo desamor e desconsideração ao seu semelhante. Concluo com a escritura sagrada no evangelho de Mateus 5,25-26 “Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estas no caminho com ele. Para que o adversário não te entregue ao juiz. E o juiz te entregue ao oficial. E te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma saíras dali enquanto não pagares o último centavo”. Abraço. Davi.

quinta-feira, 3 de março de 2022

OS ANALECTOS - INTRODUÇÃO V

 

Confucionismo. www.https//rt.br. OS ANALECTOS. Tradução do inglês de Caroline Chang. Tradução do chinês. Introdução e notas de D. C. Lau. INTRODUÇÃO V. Já que a influência de um bom exemplo funciona de um modo imperceptível, o governante ideal é frequentemente caracterizado não apenas como alguém que não sabe, mas também como alguém que aos olhos do povo, nada fez que pudesse ser valorizado. “O governo pela virtude pode ser comparado à estrela Polar, que comanda a homenagem da multidão de estrelas sem sair do lugar” (II.1). T’ai Po abdicou do seu direito de governar, “sem dar ao povo oportunidade de louvá-lo” (VIII.1). Yao foi o rei que se espelhou no Céu, o único que é grande, mas “ele era tão grandioso que o povo não tinha palavras para louvar as virtudes” (VIII.19). Essa descrição do governante ideal é aparentemente muito semelhante à oferecida pelos taoístas, mas na verdade as duas são bem diferentes. O governante taoísta genuinamente não faz nada porque o Império funciona melhor quando deixado em paz. O governante confucianista apenas aparenta nada fazer porque a influência moral que ele exerce funciona de modo imperceptível. Não podemos encerrar o assunto do governo sem discutir a atitude de Confúcio para com o povo (min) ou as pessoas. Ele não tentou disfarçar o fato de que, no seu ponto de vista, o povo era muito limitado intelectualmente. Ele disse: “O povo pode ser obrigado a seguir um caminho, mas não pode ser forçado a entendê-lo”. (VIII.9). O povo não consegue entender por que razão é conduzido ao longo de um caminho em específico, pois nunca se dá o trabalho de estudar. Ele disse: “Aqueles que nascem com conhecimento são os mais elevados. A seguir vêm aqueles que atingem o conhecimento por meio do estudo. A seguir vêm aqueles que voltam para o estudo depois de terem passado por dificuldades. No nível mais baixo estão as pessoas comuns, por não fazerem esforço algum para estudar mesmo depois de terem passado por dificuldades” (XVI. 9). Não é de surpreender que Confúcio tivesse tal opinião. O estudo, tal qual por ele concebido, é um árduo processo que nunca se completa. As pessoas comuns são imensamente prejudicadas. Raramente têm a capacidade de estudar e praticamente nunca têm a oportunidade. Nas raras ocasiões em que têm tanto a capacidade e a oportunidade, é pouco provável que consigam aguentar o rigor da tarefa. Confúcio descreveu como o seu discípulo favorito, Yen Hui, conseguiu seguir os estudos obstinadamente nas seguintes palavras. “Como Hui é admirável! Morar em um pequeno casebre com uma tigela de arroz e uma concha de água por dia é uma provação que a maioria dos homens acharia intolerável, mas Hui não permite que isso atrapalhe sua alegria. Como Hui é admirável” (VI.11). Confúcio podia não ter uma opinião muito boa quanto às capacidades intelectuais e morais das pessoas comuns, mas absolutamente não é verdade que ele tenha diminuído a importância delas no esquema geral das coisas. Talvez seja precisamente porque o povo é incapaz de garantir seu próprio bem-estar sem receber auxílio que o dever supremo do governante é trabalhar em benefício do povo, proporcionando a ele o que lhe é benéfico. As pessoas comuns deveriam ser tratadas com o mesmo amor e carinho dispensados a nenês, que são indefesos. Isso é anunciado em um comentário memorável do Livro da História citado por Mêncio: os governantes antigos agiam “como se estivessem cuidando de um recém-nascido”. [17] Mêncio (372 AC 289) descreve tais governantes como mãe e pai do povo. É, portanto, inegável que Confúcio advogava um forte paternalismo no governo, e isso permaneceu imutável como princípio básico ao longo de toda a história do confucionismo. A importância das pessoas comuns e seu bem-estar é enfatizada repetidas vezes em Os analectos. Por exemplo, Tzu-kung disse: “Se houvesse um homem que desse generosamente ao povo e trouxesse auxílio às multidões, o que você pensaria dele? Ele poderia ser considerado benevolente? O Mestre disse: “Nesse caso não se trata mais de benevolência. Se precisa descrever tal homem, ‘sábio’ é, talvez, a palavra adequada. Mesmo Yao e Shun achariam difícil realizar tanto.” (VI.30) Se lembrarmos que Yao e Shun eram tidos em alta conta por Confúcio e o quão pouco inclinado ele era a dar o título de “sábio” para qualquer pessoa, podemos ver o imenso significado do comentário. Finalmente, Confúcio disse que se ele elogiava alguém, podia-se ter certeza de que esse alguém havia sido testado. O teste se revelou ser o governo das pessoas comuns, pois ele continuou ao dizer: “Essas pessoas comuns são a pedra de toque por meio da qual as Três Dinastias foram mantidas no caminho certo” (XV. 25). O único teste ao qual é submetido um bom governante é quanto a se ele tem êxito em promover o bem-estar das pessoas comuns. Até agora examinamos apenas as qualidades morais indispensáveis ao cavalheiro, mas o ideal do cavalheiro é mais amplo do que o do homem moral. É necessário, mais atributos para se ter o perfeito cavalheiro. Para entender isso, é preciso primeiro darmos uma olhada em dois termos, wen e chih. Chih, dos dois, é o mais fácil de ser compreendido. É a matéria-prima ou a substância nativa da qual um homem ou uma coisa é feita. Wen é mais difícil de compreender por causa da sua ampla aplicação. Em primeiro lugar, wen significa um belo padrão. Por exemplo, o padrão das estrelas é o wen do céu, e o padrão da pele de um tigre é o seu wen. Aplicado ao homem, refere-se às belas qualidades que ele adquiriu por meio da educação. Daí o contraste com chih. Aquilo que um homem adquire por meio da educação cobre uma ampla gama de realizações. Inclui talentos como arqueiro ou na condução de carruagens, de escrita e matemática, mas os campos mais importantes são a literatura e a música, uma conduta condizente à de um cavalheiro. Literatura, na época de Confúcio, significava, basicamente, as Odes, enquanto que música para Confúcio era a música tocada em cerimônias da corte e em cerimônias sacrificiais. Um comportamento condizente a um cavalheiro significava observância dos ritos, que incluía entre outras coisas o código da conduta correta. Além de denotar as realizações de um indivíduo, wen também pode ser usado para designar a cultura de uma sociedade como um todo. Assim, wen é uma palavra com uma ampla gama de significados, que em inglês [e português] são cobertos por uma variedade de palavras, como ornamento, adorno, refinamento, realização, boa educação e cultura. Não é suficiente para um homem nascer com uma boa substância nativa. Um longo processo de amadurecimento é necessário para dar a ele a educação indispensável a um cavalheiro. Quando Chi Tzu-ch’eng disse “O mais importante a respeito de um cavalheiro é o material do qual ele é feito. Para que ele precisa de refinamento?”, a opinião de Tzu-kung foi a de que não se podia separar refinamento da matéria, pois “a pele de um tigre ou de um leopardo, desprovida de pelos, não é diferente da de um cachorro ou de uma ovelha” (XII.8). O que Tzu-kung está dizendo é que são as qualidades totais de um cavalheiro – matéria prima assim como refinamento – que o distinguem dos “homens vulgares”, e é fútil separar a matéria-prima do refinamento, na equivocada tentativa de aponta-la como o fator básico. Em toda parte, encontramos Confúcio enfatizando a importância do equilíbrio entre os dois elementos. Ele disse: “Quando a natureza de alguém prevalece sobre a educação recebida, o resultado será uma pessoa intratável. Quando a educação prevalece sobre a natureza, o resultado será uma pessoa pedante. Apenas uma mistura bem equilibrada das duas resultará em cavalheirismo” (VI.18). Há um comentário de Confúcio que joga alguma luz sobre o que seria essa substância nativa ou natureza. Ele disse: “O cavalheiro tem a moralidade como matéria-prima e, ao observar os ritos, coloca-a em prática, ao ser modesto dálhe expressão e, ao ser fiel às próprias palavras, a completa. Assim é um cavalheiro, de fato!” (XV.18). Aqui vemos que a relação entre chih e wen corresponde à relação entre moralidade (yi) e os ritos (li). Não basta um homem ter a inclinação natural de fazer o que é certo; é essencial que ele seja versado de modo que possa dar uma expressão refinada a essa inclinação. Um homem pode ter uma forte necessidade de mostrar respeito por outro homem em uma dada sociedade, mas, a menos que ele saiba o código de comportamento pelo qual esse respeito é expresso, ele ou falhará completamente em expressá-lo ou, no máximo, conseguirá expressá-lo de modo não totalmente aceito naquela sociedade. Isso traz à tona uma questão importante quanto aos ritos. Moralidade não consiste apenas na ação que afeta o bem-estar de outras pessoas. Às vezes também requer comportamentos que expressem uma atitude em relação às outras pessoas. Isso explica o fato de que a palavra li, embora tenha também uma conotação moral, é mais apropriadamente traduzida como “ritos” ou “ritual”. Como vimos, além da observância dos ritos, a parte mais importante de wen é a poesia e a música. É por isso que, quando um equivalente teve que ser encontrado para o termo ocidental “literatura”, a expressão usada foi naturalmente “wen hsüeh”. Esse parece ser um ponto conveniente a partir do qual avaliar a atitude de Confúcio para com a poesia e a música, já que a influência que o pensador exerceu nas gerações subsequentes foi imensa. O primeiro ponto a salientar é que na época de Confúcio a conexão entre a poesia e a música era muito próxima. Embora houvesse música que não envolvesse palavras, toda poesia podia, provavelmente, ser cantada. Por essa razão, Confúcio provavelmente tinha a mesma atitude para com ambas. Comecemos com a seguinte passagem: O Mestre disse, sobre shao, que era perfeitamente linda e perfeitamente boa e, sobre wu, que era perfeitamente linda, mas não perfeitamente boa. (III.25) Podemos ver com essa passagem que Confúcio exigia da música e, consequentemente, da literatura, não apenas perfeição estética, mas também que fosse perfeitamente boa. Shao era a música de Shun, que, escolhido por sua virtude, subiu ao trono por meio da abdicação de Yao, enquanto wu era a música do rei Wu, que, apesar da própria virtude, conquistou o Império apenas depois de recorrer à força – daí o nome wu, “força militar”. Por esta razão, o primeiro era não apenas perfeitamente belo, mas também perfeitamente bom, enquanto o último, embora perfeitamente belo, deixou a desejar quanto à sua bondade. Que Confúcio considerasse o wu inferior ao shao não é surpreendente se lembrarmos sua ojeriza em relação ao uso da força ou à violência, que se dizia estarem entre as coisas sobre as quais ele nunca falava (VII.21). Para Confúcio, algo ser perfeitamente bom era mais importante do que a perfeição estética. Se uma peça de música é ou não aceitável depende de sua qualidade moral. A perfeição estética é importante porque é o único veículo apropriado para conduzir a perfeita bondade. Amúsica esteticamente perfeita pode-se ouvir com alegria, mas apenas quando a perfeição moral é fundida com a perfeição estética é que pode ser experimentada a alegria que vai além de qualquer expectativa. O Mestre ouviu o shao em Ch’i e por três meses não sentiu o gosto das refeições que comia. Ele disse: “Jamais sonhei que as alegrias da música pudessem chegar a tais alturas”. (VII.14) Não é por acaso que a música que encantava Confúcio fosse precisamente shao, que ele elogiava por ser perfeitamente bom assim como por perfeição estética. Quando lhe perguntaram como um reino deveria ser governado, Confúcio disse: “Quanto à música, adote o shao e o wu. Bane as melodias de Cheng e mantenha homens de fala persuasiva à distância. As melodias de Cheng são insolentes, e homens de fala persuasiva são perigosos” (XV.11). Depois ele disse: “Detesto o púrpura por deslocar o vermelho. Detesto as melodias de Cheng por corromperem a música clássica. Detesto homens de fala esperta que derrubam reinos e famílias nobres” (XVII.18). Não há dúvida de que Confúcio detestava “as melodias de Cheng”, mas ele as detestava não devido à falta de beleza, mas por causa de sua falta de disciplina. Deve ser observado que cada uma das coisas que Confúcio detestava ofereciam uma aparente semelhança à coisa certa, e é por causa dessa semelhança superficial que os hipócritas podem ser confundidos com os genuínos. A ojeriza de Confúcio é dirigida contra a falsidade. As “melodias de Cheng” são colocadas juntas aos “falantes espertos” e “homens de fala persuasiva”, já que, como “falantes espertos” e “homens de fala persuasiva”, as “melodias de Chang” são capazes de conquistar nossa preferência caso estejamos desatentos. Não são, portanto, pouco atraentes como música. No final das contas, não é a falta de beleza, mas a falta de correção ou moralidade que marca a música chamada de “melodias de Cheng”. As “melodias de Cheng” certamente não diziam respeito somente à música. O que é dito sobre as melodias aplica-se também às palavras, já que a falsidade existe tanto no significado das palavras quanto no charme da música. Em oposição às melodias de Cheng, encontramos Confúcio aclamando o Kuan chü, com os quais as Odes abrem: No kuan chü há alegria sem futilidade, e tristeza sem amargura. (III.20) Isso mostra que não era pela expressão de prazer em si, mas pela expressão de imoderado prazer que Confúcio condenava as melodias de Cheng. Em contraposição, o Kuan chü é um exemplo da expressão de prazer e de tristeza exatamente na mesma medida. Confúcio resumiu suas opiniões sobre poesia nas seguintes palavras: As Odes são trezentas, em número. Podem ser resumidas a uma frase: Não se desvie do caminho. (II.2) Edificação, entretanto, não é o único propósito da poesia. Entre outras coisas, as Odes podem “estimular a imaginação” (XVII.9). Quando se lê poesia, uma pessoa acorda para as similaridades subjacentes entre fenômenos que, para os de pouca imaginação, parecem não ter nenhuma relação. Tzu-hsia perguntou: “Seu encantador sorriso com covinhas, Seus belos olhos esgazeando, Padrões de cores em seda lisa.” Qual o significado de tais linhas? O Mestre disse: “As cores são acrescentadas após o branco”. “E a prática dos ritos, também vem depois?” O Mestre disse: “É você, Shang, quem iluminou o texto para mim. Apenas com um homem como você é possível discutir as Odes”. (III.8) O Mestre elogiou Tzu-hsia pela sua compreensão das Odes porque ele viu que, assim como na pintura as cores são acrescentadas depois que as linhas gerais são dadas em branco, também o refinamento de observar os ritos é inculcado em um homem que já nasceu com a substância certa. [18] As Odes têm um outro uso, que é possibilitar que um homem fale bem. O filho de Confúcio relatou uma conversa que certa vez teve com seu pai. “Você estudou as Odes?” “Não.” “Amenos que estude as Odes, não será capaz de sustentar uma conversa” (XVI.13). As Odes eram uma antologia que todo homem educado conhecia plenamente, de modo que uma citação correta delas extraída, podia ser usada para comunicar a opinião de alguém em situação delicada ou que requeressem extrema polidez. OS ANALECTOS. www.https//rt.br. Abraço. Davi

terça-feira, 1 de março de 2022

O SACERDÓCIO

 

Cristianismo. www.graodetrigo.com. Texto de David W. Dayer. O SACERDÓCIO. Capítulo 6 do Livro Sementes. Quando, no século XVI, Martinho Lutero pregou suas 95 teses na porta daquele templo, acabava de iniciar o movimento que hoje conhecemos por “a Reforma”. Sua intenção foi de expor os erros da Igreja Católica para trazê-la de volta a Deus. Naqueles dias, grande parte da revelação divina havia sido perdida. Muitos aspectos elementares da vida espiritual, tais como a salvação pela fé – hoje considerados certos e indiscutíveis – eram então desconhecidos. Deus, naquela época, usou Lutero para mostrar que o cristianismo seguia por um caminho errado, contrário à Sua vontade. No entanto, muitos enganos e desvios do cristianismo não chegaram a ser notados por esse irmão. Então, à medida que passaram os séculos, Deus continuou a revelar outras verdades esquecidas, tais como, o uso e função dos dons espirituais e o verdadeiro significado da adoração e da santificação. O que se pode notar é que, desde o tempo de Lutero, tem havido um contínuo aumento das revelações divinas para o Seu povo. Mas essa evolução ainda não terminou e prosseguirá até que Cristo venha em Sua glória. Por essa razão, devemos estar sempre prontos para receber a orientação de Deus e agir de acordo com o que Ele atualmente estiver nos revelando, hoje. Esta mensagem faz parte do que, segundo penso, Deus deseja restaurar nestes dias. Em verdade, não chega a ser algo “novo.” Tampouco é minha própria e independente revelação. São aspectos da vontade de Deus compreendidos por muitos cristãos sinceros por pelo menos um século. Não obstante, como veremos, as tendências naturais do homem tornam tais verdades difíceis de praticar e preservar. Desde o princípio, os desejos de Deus para o homem são os mesmos. Ele anseia continuamente andar conosco em intimidade e doce comunhão. Era esse o Seu propósito ao criar Adão e ao chamar para Si os filhos de Israel e, por certo, é o Seu desígnio hoje em relação à Igreja. Esse desejo amoroso tem em mira não só o “corpo de Cristo” como um todo, mas também cada um de nós individualmente. A intenção de Deus é estabelecer conosco um relacionamento íntimo, o qual transformará nossa natureza e caráter para serem como os Seus. No início, Deus trabalhou apenas com indivíduos, como Noé, Sete e Enoque. Posteriormente é nos apresentada a ideia de “povo de Deus”, ao lermos a respeito de Moisés e dos israelitas no deserto. Mas mesmo naquela época Ele não buscava apenas uma multidão de adeptos religiosos. Ao contrário, o que desejava ardentemente era um relacionamento pessoal e íntimo com cada um. Já no começo, cerca de três meses após a saída do Egito, Deus falou a Moisés com relação aos israelitas. Revelou Sua intenção original e mais sublime para com eles. Disse Ele: “...vós me sereis reino de sacerdotes...” (Êxodo 19:6). Essa declaração demonstra o tipo de relacionamento que Deus pretende ter com cada um de nós. Ele planejou uma intimidade que os qualificaria a estarem em pé em Sua presença e a desempenharem as funções sacerdotais. Entre elas, incluía-se o ministrar a Ele em adoração e intercessão e, a seguir, ministrar a outras pessoas, a partir do que fluísse de Sua presença durante aqueles momentos. Seu plano não era simplesmente que aprendessem algumas informações a Seu respeito e, depois, se envolvessem periodicamente com algumas atividades religiosas. Nosso Deus desejava intensamente que Seu povo O conhecesse e se relacionasse com Ele pessoal e intimamente. Entretanto, é claro que os filhos de Israel fracassaram, não entrando nesse relacionamento com Deus. Quando Ele começou a aproximar-Se e a revelar-lhes Sua santidade no monte Sinai, afastaram-se dele e transferiram a incumbência a um único homem. Eles disseram a Moisés: “Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos” (Êxodo 20:19). “...O povo estava de longe em pé; Moisés, porém, se chegou à nuvem escura, onde Deus estava” (v. 21). O coração daquelas pessoas não estava correto para com Deus, e, por isso, quando Ele passou a falar-lhes, não puderam suportar. Exatamente naquele instante, abandonaram o nobre chamamento que Deus lhes fizera a ser sacerdotes Dele e ficaram satisfeitos em deixar que outro indivíduo se relacionasse com Deus em seu favor. Em vez de se arrependerem, depois de ouvirem as palavras sobre a justiça divina, e de permitirem que Deus os limpasse, decidiram aumentar ainda mais a distância entre eles e Deus. Eles acabaram colocando um mediador que arcasse com toda a responsabilidade de intimidade com Deus em seu benefício. Esse afastamento do ideal divino logo produziu seus frutos. Enquanto Moisés gastava tempo na presença de Deus, o povo foi seduzido pelas próprias paixões. O relacionamento pessoal com o Criador era tão limitado, que logo estavam duvidando de Sua existência e de Sua capacidade para cumprir promessas feitas. A solução encontrada foi criar, para eles mesmos, um deus impessoal, profano e de fácil manipulação – um deus que não os amedrontasse e cuja presença não exigisse uma santidade que não conseguiam praticar. A esse ponto, Deus os abandonou quase totalmente e tornaram-se inaptos para andar de acordo com a Sua intenção original (Êxodo 32:9-10). É provável que, por não haver o coração do povo em geral correspondido à Sua vontade, tenha Ele designado um grupo especial de sacerdotes. Talvez a tribo de Levi tenha sido escolhida porque estava pronta para ouvi-Lo, ao menos até certo ponto, bem como para executar Seus julgamentos (Êxodo 32:28). Vemos, portanto, que com a ordenação de um sacerdócio especial, para se aproximar de Deus no lugar do povo, a maioria da assembleia perdeu o privilégio de se tornar aquilo que seu Criador desejava que fosse. O sacerdócio levítico transformou-se numa espécie de obstáculo ou barreira, destinado a fazer Deus parecer mais remoto, de modo que os outros se sentissem mais à vontade. Um evento semelhante é encontrado no livro de 1 Samuel, quando Deus permitiu ao povo ter um rei. Os filhos de Israel nunca haviam tido um rei até então. O pensamento de Deus era que fossem únicos entre os povos da terra: um povo governado exclusivamente pelo Deus poderoso e invisível. Eles, contudo, rebelaram-se contra tal proposta. Para se adaptarem a essa forma de governo que Deus desejava, era necessário que cada um deles mantivesse um relacionamento pessoal com Ele. Isso não era fácil, principalmente para o homem natural. Portanto, aquelas pessoas mais uma vez rejeitaram os objetivos divinos e insistiram em ter um rei terreno. Ansiavam por um líder palpável, um ser humano que pudessem enxergar; alguém que assumisse a responsabilidade de guiá-los; alguém que se colocasse entre eles e Deus. Samuel foi totalmente contrário a essa outra proposta. Mas Deus o confortou, dizendo: “Não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele” (1 Samuel 8:7). Esse episódio nos traz para a situação de hoje. Não é de se espantar que haja grandes semelhanças entre os cristãos e o povo de Deus do Velho Testamento. A história da Igreja informa que, logo após a partida dos apóstolos, os líderes das igrejas começaram a obter um destaque cada vez maior. Bispos passaram a estender sua autoridade para além de uma cidade, por fim “cobrindo” regiões inteiras. Mais e mais ênfase foi colocada em posições religiosas e sobre a necessidade de submissão àqueles que as ocupavam. Essa tendência continuou através dos séculos até atingir seu apogeu com o aparecimento de chefes supremos, “infalíveis”. Pouco depois, as Escrituras foram completamente arrancadas das mãos das pessoas e essa inclinação por um intermediário, sobre a qual estamos comentando, chegou à sua expressão mais intensa. Tal resultado não deveria nos surpreender. É a tendência natural do homem. A menos que não nos esforcemos juntos contra essa tendência, é natural que todos os movimentos cristãos se deixem levar para essa direção. Atualmente, embora o protestantismo tenha feito algum progresso, libertando-se da escravidão das trevas e da idolatria encontradas no sistema do qual saiu, infelizmente ainda conserva alguns de seus erros. Apesar das Escrituras ensinarem o sacerdócio de todos os cristãos (1 Pedro 2:5,9), a maior parte do moderno cristianismo o nega na prática. O que vemos em grande parte hoje nas igrejas é o ministério de apenas um ou, quem sabe, de uns poucos indivíduos escolhidos, ao passo que a maioria permanece como passiva observadora. Compreende-se perfeitamente o fato de geralmente não rotularem de “o sacerdote” a condição reinante entre os grupos cristãos. Seria um termo manifestamente antibíblico. Em substituição, temos outros títulos, tais como os de “pastor”, “reverendo,” “apóstolo” etc. Contudo, a função dessas pessoas é, normalmente, quase igual ao serviço desempenhado pelo sacerdote levita. São eles que “ouvem de Deus”, transmitem a maior parte dos ensinamentos e do aconselhamento, cuidam da organização etc. É lamentável, mas a verdade é que em muitos casos o “pastor” é obrigado a fazer quase tudo. Já que essa é a situação predominante nos grupos cristãos hoje em dia e, ao que parece, universalmente aceita, muitos, talvez, perguntarão o que haveria de errado em tudo isso. Para chegarmos à resposta, devemos, primeiramente, abandonar nosso gosto e concepções pessoais e ter uma reverência genuína pelos interesses e objetivos divinos. Se o homem fosse a única parte em jogo nessa situação, nossa discussão não precisaria ser levada tão a sério. Olha, acontece que estamos aqui procurando entender e satisfazer as exigências de Deus e, por essa razão, devemos abordar o assunto com reverência e temor. Mas isso não é tudo. Deveria estar patente para nós que Suas intenções visam, também, o nosso próprio bem. Em verdade, quanto mais enxergarmos a vontade de Deus, mais perceberemos que Suas diretrizes e exigências não objetivam apenas Sua própria conveniência, mas destinam-se, igualmente, ao nosso eterno benefício. O plano de Deus para a Igreja é duplo. Primeiro, Ele nos instruiu a levar as boas novas até os confins da terra. Em segundo lugar, quer que sejamos transformados à Sua imagem. Pois bem, se formos cumprir essas instruções total e eficazmente para atingir tais objetivos, precisaremos antes ser pessoas íntimas de Deus! Cada um de nós tem que entrar num relacionamento próximo e pessoal com o Criador e preservá-lo. Todos fomos convocados para ser sacerdotes. Desse relacionamento, então, brotará o ministério sacerdotal em nós, permitindo que os desígnios de Deus sejam atingidos. Jamais deveríamos depender de líderes ou de indivíduos dotados para darem conta de tudo. Não deveríamos apoiar-nos em organizações humanas, nem em animadas campanhas. Todos nós arcamos com uma parte dessa responsabilidade. A verdade é que se não estivermos ativamente engajados no trabalho de servir aos outros, quer pela pregação do evangelho, quer pelo exercício de nossos talentos espirituais, já caímos no erro. Deus espera que cada um de Seu povo esteja empenhado em Seu trabalho. Somos todos “ministros” e todos fomos chamados e ordenados por Ele para realizar um trabalho do serviço sacerdotal até a Sua volta (João 15:16). Quando Jesus Cristo ascendeu ao Pai, deu dons à Sua Igreja. Esses talentos ou dons espirituais não foram só a uns poucos escolhidos, mas a todos (1 Coríntios 12:7). Cada função e cada parte é vital, à semelhança do que acontece com nossos diferentes órgãos e membros do corpo físico. Quando uma parte aparentemente pequena ou insignificante não está funcionando normalmente, todo o resto sofre. Dá-se o mesmo com a Igreja hoje. Quando todo o trabalho é feito pelos superdotados, talentosos ou treinados, existe uma grande perda para o corpo de Cristo e para Deus. Deveríamos nos interessar seriamente por essa verdade. Pouco importa o que você pensa de si mesmo ou de suas habilidades espirituais. Também não têm importância as diferenças existentes entre você e os demais. Mesmo aqueles que possuem um só talento são e serão solicitados por Deus a usá-lo ao máximo (Mateus 25:14-30). Se nos acovardarmos, comparando-nos com outros, ou se ficarmos temerosos e não fizermos nada, teremos de prestar contas um dia ao nosso Criador. Temos, é certo, o privilégio, mas também a séria responsabilidade de descobrir diante de Deus a que trabalho Ele nos chamou a realizar, para então começar a aprender pelo Espírito Santo a nos exercitar na função que nos foi confiada. Sem esse tipo de ministério não cresceremos adequadamente. Sim, talvez obtenhamos algum progresso principalmente no início, mas, para que de fato atinjamos a maturidade, nós mesmos precisamos começar a ministrar. À medida que dermos, mais nos será dado. Trata-se de uma lei espiritual. Se somos meros recebedores – semana após semana escutando de outros que, é esperado, gastaram seu tempo na presença de Deus – nosso conhecimento provavelmente aumentará, mas nossas vidas não serão mudadas. Essa é a infeliz condição de muitos e muitos na Igreja de hoje. Temos nossos “super astros,” talvez famosos e ocupados dia e noite, mas temos igualmente a “maioria passiva” a depender de outros para a realização do trabalho. As consequências danosas desse fenômeno às vezes não estão evidentes à primeira vista, principalmente numa organização “bem lubrificada”; contudo, elas estão ali ocultas. Inúmeras reuniões cristãs estão repletas de bebês espirituais super alimentados que permanecem inativos. Eles vêm semanalmente para receber e imaginam que, porque ouvem uma boa mensagem, estão bem com Deus. Não raras vezes, entretanto, tais indivíduos ainda possuem pecados escondidos e sérios desvios de caráter. Ao procurarmos servir aos outros, essas falhas ficam expostas. Quando começamos a ministrar, percebemos o quanto nossas vidas precisam de transformação e isso nos estimula a buscar o Senhor para nos libertar. Se desejamos verdadeiramente avançar em direção à maturidade, é essencial que todos nos tornemos sacerdotes: sacerdotes que estejam exercendo suas funções na casa de Deus. O ministério espiritual não tem como finalidade apenas o nosso crescimento, mas também o progresso dos demais. Não importa quais sejam as suas funções espirituais no corpo, existem sempre pessoas que precisam do que você tem. Quer seja uma pequena ou grande porção, é absolutamente indispensável. Em algum lugar, entre os cristãos que você conhece ou no mundo à sua volta, existem pessoas para as quais sua porção é muito importante. Por exemplo, os cristãos com quem você se relaciona podem estar buscando aquela porção específica de discernimento espiritual que você possui. É possível que muitos que você conhece estejam sofrendo porque você não reservou um tempo para orar por libertação, nem buscou uma palavra de Deus para encorajar ou admoestá-los, nem deu atenção às suas necessidades. É sempre mais fácil criticar ou fazer fofoca, do que orar ou auxiliar. Sua porção é certamente essencial para o crescimento e bem-estar espiritual dos outros. Deus a entregou a você por causa deles, sendo, portanto, importante exercitá-la. Em Sua sabedoria, nosso Pai construiu a Igreja de tal sorte que cada membro depende dos demais. Assim sendo, para que “todos cheguemos” à maturidade (Efésios 4:13), a colaboração de cada parte é indispensável. MAS, QUAL É O PAPEL DOS “LÍDERES”? A esta altura, alguém perguntaria: “Qual é o papel dos líderes?” Sem dúvida a liderança tem base nos ensinamentos bíblicos e é necessária para uma condição saudável da igreja. Muitas vezes, entretanto, é também mal compreendida. O papel do líder é liderar. Isso não significa dominar ou controlar os outros, mas sim tomar a dianteira e avançar! Os demais irão notá-lo e segui-lo. As palavras “presidir” e “guias” encontradas em 1 Timóteo 5:17 e Hebreus 13:7,17 e 24, da tradução de Almeida, talvez tenham sido a fonte de muitos mal-entendidos. Estas palavras vêm do grego PROESTEMI e deveriam ser traduzidas como “andar em frente” ou “preceder”. Isso não tem nada a ver com “controlar” ou “organizar”. A função de um verdadeiro líder não é o de dirigir a igreja, mas sim o de auxiliar os outros a cumprirem o seu ministério, crescendo em tudo o que Deus lhes preparou. Tais líderes são facilmente reconhecíveis, pois sempre terão como prioridade os interesses e o progresso espiritual dos outros. Infelizmente, a tendência humana é outra. O anseio por estrelismo, destaque, fama, poder, etc., é, não somente permitido, mas considerado bom na igreja de hoje. Muitos estão impelidos, por ambição própria ou pelos outros, a buscar posições de autoridade sobre os outros e a liderança. Mas tudo isso é proibido por nosso Mestre Jesus. Ele disse: “Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve” (Lucas 22:25-26). Os “líderes” que estão apenas alimentando a si mesmos (edificando seu próprio ministério, forrando seu próprio ninho financeiro etc.) e, como consequência, mantendo passivos aqueles que estão sob seus cuidados, enfrentarão o julgamento divino. Os que se exaltam e impedem o progresso dos demais, objetivando a sua própria posição, segurança e autoridade, enfrentarão juízo ainda mais severo. Quem abusou de seus conservo vai ser castigado com muitos açoites (Mateus 24:49-51). A verdadeira liderança sempre é, na realidade, algo que Deus faz. É somente Ele movendo por meio de Seu povo que providencia liderança real que beneficia Seu povo. Se a obra de quem está “liderando” é um resultado apenas de instrução teológica, de designação para um cargo ou de ambição pessoal, por certo se constituirá num obstáculo para o progresso espiritual. A ORGANIZAÇÃO RELIGIOSA HUMANA. A organização religiosa e rígida também é um empecilho para o cumprimento dos desejos de Deus. Quando uma pessoa ou até algumas pessoas estão dando conta de todas as tarefas – e por consequência disso, mantendo todas as outras inativas – isso resulta em imaturidade espiritual. Muitas vezes, uma organização religiosa abafa o desenvolvimento dos ministérios dos membros dela. Se a obra que Deus chamou você não encaixa bem na organização do qual você pertence, vai precisar servir os outros fora desta restrição. Talvez você esteja se reunindo com um grupo de cristãos onde não existe qualquer encorajamento ou oportunidade para que você cresça em sua função. É provável que nesse grupo a experiência seja a de ter “um homem em evidência” ou de ter tudo tão organizado sem a orientação do Espírito que o funcionamento de cada membro não está em evidência. O seu talento pode estar sendo negligenciado, mal utilizado, ridicularizado ou até desencorajado. Nada disso, contudo, poderá servir de desculpa à passividade. Quando você estiver diante do Rei, já não haverá ninguém mais para levar a culpa pelo descumprimento de suas funções sacerdotais. Não deve esperar até um grupo reconhecer seus dons e liberar um espaço para você. Não pode depender de outros homens para dar uma abertura ou “força” para você começar a servir. Fica você incumbido em seguir a liderança do seu Mestre. Comece onde Ele abre as portas e continue seguindo Seu Espírito. É essencial aprender a não depender dos homens, mas saber seguir Jesus. Nosso serviço no corpo dele tem que ser liderado por Ele também. Em Seu plano, a programação humana é substituída por ministérios espirituais, levantados por Ele em nosso meio. Planos futuros decorrem de Sua orientação e a autoridade organizacional ou posicional é substituída pela verdadeira autoridade dele, que é espiritual. A tarefa à mão não consiste em desenvolver grandes ministérios “bem-sucedidos” ou ter pessoas comparecendo às centenas. Tudo isso pode ser alcançado sem que a vontade de Deus tenha jamais sido atendida. Nosso papel é, na simplicidade, obedecer a Jesus. Vamos colocar de lado toda ambição, desejo por reconhecimento e fama. Vamos abandonar qualquer cheiro de ego humano e autosserviço. Vamos nos humilhar, como Jesus fez, e nos vestir com a toalha. Vamos começar lavando os pés daqueles ao nosso redor que precisa do que Deus tem nos dados. Nossa recompensa não será aqui, nesse mundo. Não será que as multidões vão nos apreciar. Servir Jesus por meio de servir o corpo Dele, significa que vamos nos tornar escravos, servindo em obediência sem motivo próprio. Considerando que Deus o preparou e chamou, Ele também irá prover uma forma de você começar a servir. Por exemplo, você poderá orar em qualquer lugar, a toda hora. Você pode proporcionar ajuda material sem precisar de uma permissão “oficial” de alguém. Pode ensinar e aconselhar. Quando você realmente começar a agir na função para a qual Deus o designou, as portas se abrirão diante de você e as pessoas reconhecerão a mão divina em sua vida. Provavelmente tudo começará aos poucos e poderá até parecer pequeno e insignificante (Zacarias 4:10). Todavia, à medida que você exercitar os talentos que Deus lhe deu, fiel e diligentemente, estes crescerão e você igualmente crescerá. Não fique surpreso se, com o passar de tempo, você encontra oposição. Se o que está fazendo é de Deus, isso vai acontecer. Quando Deus começa a usar você, o inimigo vai tentar lhe derrubar. Usando outras pessoas que se sentem ameaçadas, enciumadas ou competitivas, o diabo, com certeza, vai levantar dificuldades e barreiras tentando -lhe desanimar. Isso é normal. Faz parte de ser um servo do Altíssimo. Mas, se somos servos fiéis, precisamos continuar em fé, não desanimando por causa de outros homens, e cumprir a obra que Deus nos concedeu. É a Ele que vamos prestar contas naquele Dia. A vontade de Deus é que sejamos, para Ele, reino de sacerdotes. Somos todos Seus profetas (Apocalipse 1:5-6 e 1 Coríntios 14:1,31). Cada um de nós possui um ministério para ser desempenhado e serviços espirituais para realizar, os quais ninguém mais conseguirá levar a cabo da mesma forma que nós o faríamos. Quando aparecermos perante Ele, teremos de prestar contas de nossas obras (Apocalipse 2:23). Naquele dia, aquilo que realizamos testificará a nossa verdadeira condição espiritual. Não poderemos dizer que não conhecíamos as necessidades ou que não estávamos qualificados. Não poderemos culpar outros por não nos “deixar” exercitar nosso serviço em um determinado lugar ou ambiente. Lembre-se que foi Deus que chamou você. É Ele que abre as portas que ninguém fecha (Apocalipse 3:7). O mesmo Deus que operou poderosamente nos apóstolos e profetas vive também em cada um dos Seus filhos. Ele é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos se apenas O obedecermos. Precisamos encarar essas considerações com seriedade. Devemos analisar nossas próprias vidas e ver se somos trabalhadores realmente ativos para o nosso Rei ou se somente somos passivos observadores. Teríamos acaso estabelecido uma distância “segura” entre nós e Deus e deixado que outros assumissem a responsabilidade em nosso lugar? Será que nos retraímos em decorrência do medo ou da incapacidade humana e permitimos que outros realizassem o trabalho? Em caso positivo, paremos por um momento e arrependamo-nos diante Dele. Entreguemos novamente toda a nossa vida a Deus. Digamos-Lhe que, de agora em diante, estamos totalmente dispostos a nos tornar um vaso para o Seu serviço. Depois disso, à medida que Ele nos dirigir, cooperemos com Ele diligentemente em Sua vinha. Todos nós somos chamados para ser sacerdotes. www.graodetrigo.com.  Abraço. Davi