quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O PURGATÓRIO

 

Espiritismo. www.febnet.org.br. Texto de Allan Kardec (1804-1869). Livro O Céu e o Inferno. Capítulo 5. O PURGATÓRIO. O Evangelho não faz menção alguma do purgatório, que só foi admitido pela Igreja no ano de 593. É incontestavelmente um dogma mais racional e mais conforme com a Justiça de Deus que o inferno, porque estabelece penas menos rigorosas e resgatáveis para as faltas de gravidade mediana. O princípio do purgatório funda-se na equidade, pois é a detenção temporária a concorrer com a perpétua condenação. Que julgar de um país que só tivesse a pena de morte para todos os delitos? Sem o purgatório, só há para as almas duas alternativas extremas: a suprema felicidade ou o eterno suplício. E nessa hipótese, que seria das almas somente culpadas de ligeiras faltas? Ou compartilhariam da felicidade dos eleitos, ainda quando imperfeitas, ou sofreriam o castigo dos maiores criminosos, ainda quando não houvessem feito muito mal, o que não seria nem justo, nem racional. 2. Necessariamente, porém, a noção do purgatório deveria ser incompleta, porque apenas conhecendo a penalidade do fogo fizeram dele uma atenuante do inferno, visto que as almas aí também ardem, embora em fogo mais brando. Sendo o dogma das penas eternas incompatível com o progresso, as almas do purgatório não se livram dele por efeito do seu adiantamento, mas em virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em sua intenção. E se foi bom o primeiro pensamento, outro tanto não acontece quanto às consequências dele decorrentes, pelos abusos que originaram. As preces pagas transformaram o purgatório em mina mais rendosa que o inferno. Nota de Allan Kardec: O purgatório originou o comércio escandaloso das indulgências, por intermédio das quais se vende a entrada no Céu. Este abuso foi a causa primária da Reforma, levando Martinho Lutero (1483-1546) a rejeitar o purgatório. Jamais foram determinados e definidos claramente o lugar do purgatório e a natureza das penas aí sofridas. À Nova Revelação estava reservado o preenchimento dessa lacuna, explicando-nos a causa das terrenas misérias da vida, das quais só a pluralidade de existências poderia mostrar-nos à justiça. Essas misérias decorrem necessariamente das imperfeições da alma, pois se esta fosse perfeita não cometeria faltas nem teria de sofrer-lhe as consequências. O homem que na Terra fosse em absoluto sóbrio e moderado, por exemplo, não padeceria enfermidades oriundas de excessos. O mais das vezes ele é desgraçado por sua própria culpa, porém, se é imperfeito, é porque já o era antes de vir à Terra, expiando não somente faltas atuais, mas faltas anteriores não resgatadas. Repara em uma vida de provações o que a outrem fez sofrer em anterior existência. As contrariedades que experimenta são, por sua vez, uma correção temporária e uma advertência quanto às imperfeições que lhe cumpre eliminar de si, a fim de evitar males e progredir para o bem. São para a alma lições da experiência, rudes às vezes, mas tanto mais proveitosas para o futuro, quanto profundas as impressões que deixam. Esses inconvenientes ocasionam incessantes lutas que lhe desenvolvem as forças e as faculdades intelectivas e morais. Por essas lutas a alma se retempera no bem, triunfando sempre que tiver denodo para mantê-las até o fim. O prêmio da vitória está na vida espiritual, onde a alma entra radiante e triunfadora como soldado que se destaca da refrega para receber a palma gloriosa. 4. Em cada existência, uma ocasião se depara à alma para dar um passo avante; de sua vontade depende a maior ou menor extensão desse passo: franquear muitos degraus ou ficar no mesmo ponto. Neste último caso, e porque cedo ou tarde se impõe sempre o pagamento de suas dívidas, terá de recomeçar nova existência em condições ainda mais penosas, porque a uma nódoa não apagada ajunta outra nódoa. É, pois, nas sucessivas encarnações que a alma se despoja das suas imperfeições, que se purga, em uma palavra, até que esteja bastante pura para deixar os mundos de expiação pelos mundos felizes, e, mais tarde estes para gozar da suprema felicidade. O purgatório não é, portanto, uma ideia vaga e incerta; é antes uma realidade material que vemos, tocamos e sentimos. Ele existe nos mundos de expiação como a Terra, onde os homens expiam o passado e o presente, em proveito do futuro. Contrariamente, porém, à ideia que dele se faz, depende de cada um prolongar ou abreviar a sua permanência, segundo o grau de adiantamento e pureza atingido pelo próprio esforço sobre si mesmo. O livramento se dá, não por conclusão de tempo nem por alheios méritos, mas pelo próprio mérito de cada um, consoante estas palavras do Cristo: “A cada um segundo as suas obras”, palavras que resumem integralmente a Justiça de Deus. Aquele, pois, que sofre nesta vida pode dizer-se que é porque não se purificou suficientemente em sua existência anterior, devendo, se o não fizer nesta, sofrer ainda na seguinte. Isto é ao mesmo tempo equitativo e lógico. Sendo o sofrimento inerente à imperfeição, tanto mais tempo se sofre quanto mais imperfeito se for, da mesma forma por que tanto mais tempo persistirá uma enfermidade quanto maior a demora em tratá-la. Assim é que, enquanto o homem for orgulhoso, sofrerá as consequências do orgulho; enquanto egoísta, as do egoísmo. Devido às suas imperfeições, o Espírito culpado sofre primeiro na vida espiritual, sendo-lhe depois facultada a vida corporal como meio de reparação. É por isso que ele se acha nessa nova existência, quer com as pessoas a quem ofendeu, quer em meios análogos àqueles em que praticou o mal, quer ainda em situações opostas à sua vida precedente, como, por exemplo, na miséria, se foi mal rico, ou humilhado, se orgulhoso. A expiação no mundo dos Espíritos e na Terra não constitui duplo castigo para o Espírito, porém um complemento, um desdobramento do trabalho efetivo a facilitar o progresso. Do Espírito depende aproveitá-lo. E não lhe será preferível voltar à Terra, com probabilidades de alcançar o Céu, a ser condenado sem remissão, deixando-a definitivamente? A concessão dessa liberdade é uma prova da sabedoria, da bondade e da Justiça de Deus, que quer que o homem tudo deva aos seus esforços e seja o obreiro do seu futuro; que, infeliz por mais ou menos tempo, não se queixe senão de si mesmo, pois que a rota do progresso lhe está sempre franca. 7. Considerando-se quão grande é o sofrimento de certos Espíritos culpados no mundo invisível, quanto é terrível a situação de outros, tanto mais penosa pela impotência de preverem o termo desses sofrimentos, poder-se-ia dizer que se acham no inferno, se tal vocábulo não implicasse a ideia de um castigo eterno e material. O purgatório 59 Mercê, porém, da revelação dos Espíritos e dos exemplos que nos oferecem, sabemos que o prazo da expiação está subordinado ao melhoramento do culpado. O Espiritismo não nega, pois, antes confirma, a penalidade futura. O que ele destrói é o inferno localizado com suas fornalhas e penas irremissíveis. Não nega, outrossim, o purgatório, pois prova que nele nós achamos, e definindo-o precisamente, e explicando a causa das misérias terrestres, conduz à crença aqueles mesmos que o negam. Repele as preces pelos mortos? Ao contrário, visto que os Espíritos sofredores as solicitam; eleva-as a um dever de caridade e demonstra a sua eficácia para os conduzir ao bem e, por esse meio, abreviar-lhes os tormentos. Falando à inteligência, tem levado a fé a muito incrédulo, incutindo a prece no ânimo dos que a escarneciam. O que o Espiritismo afirmar é que o valor da prece está no pensamento, e não nas palavras, que as melhores preces são as do coração, e não dos lábios, e, finalmente, as que cada qual murmura de si mesmo, e não as que se mandam dizer por dinheiro. Quem, pois, ousaria censurá-lo? Seja qual for a duração do castigo, na vida espiritual ou na Terra, onde quer que se verifique, tem sempre um termo, próximo ou remoto. Na realidade não há para o Espírito mais que duas alternativas, a saber: punição temporária e proporcional à culpa, e recompensa graduada segundo o mérito. Repele o Espiritismo a terceira alternativa, da eterna condenação. O inferno reduz-se à figura simbólica dos maiores sofrimentos cujo termo é desconhecido. O purgatório, sim, é a realidade. A palavra purgatório sugere a ideia de um lugar circunscrito: eis por que mais naturalmente se aplica à Terra do que ao Espaço infinito onde erram os Espíritos sofredores, e tanto mais quanto a natureza da expiação terrena tem os caracteres da verdadeira expiação. Melhorados os homens, não fornecerão ao mundo invisível senão bons Espíritos; e estes, encarnando-se, por sua vez só fornecerão à humanidade corporal elementos aperfeiçoados. A Terra deixará, então, de ser um mundo expiatório e os homens não sofrerão mais as misérias decorrentes das suas imperfeições. Aliás, por esta transformação, que neste momento se opera, a Terra se elevará na hierarquia dos mundos. Nota de Allan Kardec: Vede O evangelho segundo o espiritismo, cap. XXVII, item Ação da prece. Nota de Allan Kardec: Idem, cap. III, item Progressão dos mundos. Por que não teria o Cristo falado do purgatório? É que, não existindo a ideia, não havia palavra que a representasse. O Cristo serviu-se da palavra inferno, a única usada, como termo genérico, para designar as penas futuras, sem distinção. Colocasse Ele, ao lado da palavra inferno, uma equivalente a purgatório e não poderia precisar-lhe o verdadeiro sentido sem ferir uma questão reservada ao futuro; teria, enfim, de consagrar a existência de dois lugares especiais de castigo. O inferno em sua concepção genérica, revelando a ideia de punição, encerrava, implicitamente, a do purgatório, que não é senão um modo de penalidade. Reservado ao futuro o esclarecimento sobre a natureza das penas, competia-lhe igualmente reduzir o inferno ao seu justo valor. Uma vez que a Igreja, após seis séculos, houve por bem suprir o silêncio de Jesus quanto ao purgatório, decretando-lhe a existência, é porque ela julgou que Ele não havia dito tudo. E por que não havia de dar-se sobre outros pontos o que com este se deu? www. febnet.org.br. Livro O Céu e o Inferno. Abraço. Davi

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

JESUS NO ALCORÃO. Parte i

 

Islamismo. Por Muhammad Ata Ur Rahim. Livro Jesus um Profeta do Islam. Capítulo IX. JESUS NO ALCORÃO. Parte I. O Alcorão, o último dos Livros Divinos, revelado pelo Criador ao último dos mensageiros, é uma fonte de conhecimento acerca de Jesus que os estudiosos do Cristianismo geralmente desconhecem. Ora o Alcorão, não só nos leva a compreender melhor quem foi Jesus, mas também, através dessa compreensão, faz com que aumente o nosso respeito e amor por ele. Assim, a última Revelação, aquela que nos chegou cerca de seis séculos após o nascimento de Jesus, refere o que é importante que saibamos acerca de sua vida e de seus ensinamentos, atribui-lhe o papel de Profeta na perspectiva alargada que vai além da própria profecia, tal como foi entendida pelos Unitaristas. Com efeito, o Alcorão fornece uma visão como nenhuma outra fonte pode fornecer. O Alcorão não descreve a vida de Jesus com grande pormenor, nem da mesma maneira como fala de acontecimentos mais específicos. Os milagres e os poderes que foram dados a Jesus são referidos, mas na sua maioria em termos gerais. Da mesma forma, o Livro que lhe foi dado por Deus, o "Ingil", (Evangelhos), é mencionado diversas vezes, mas o seu conteúdo exato não é indicado. No entanto, o Alcorão é muito específico no que diz respeito às intenções de Jesus, à maneira como apareceu na terra, quem foi e quem não foi, e como acabou a sua missão. Aliás, antes de olharmos a vida de Jesus, seria proveitoso examinar qual era a sua missão na terra e como se encaixa na matriz do que veio antes dele e no que viria depois. É dito uma e outra vez que Jesus pertencia à longa linhagem de Profetas que tinham sido enviados aos povos dessa terra; que ele era um Mensageiro cuja doutrina e ensinamentos constituíam uma reafirmação, um aprofundamento dos mandamentos que os Profetas anteriores tinham trazido e uma preparação para a mensagem que o Profeta a seguir traria. A primeira referência a Jesus aparece logo no princípio do Alcorão: “Concedemos o Livro a Moisés, depois dele enviamos muitos mensageiros e concedemos a Jesus, filho de Maria, as evidências e o fortalecemos com o Espírito da Santidade”. (2:87) A passagem que se segue nos remete à linha de mensageiros da qual Jesus fazia parte. Depois de mencionar Abraão, continua: “Agraciamo-lo com Isaac e Jacó, que iluminamos, como havíamos iluminado anteriormente Noé e sua descendência, Davi e Salomão, Jó e José, Moisés e Aarão. Assim, recompensamos os benfeitores. E Zacarias, Yáhia (João), Jesus e Elias, pois todos eles se contavam entre os virtuosos. E Ismael, Eliseu, Jonas e Lot, cada um dos quais preferimos sobre os seus contemporâneos.” (6:84-86) “E enviamos alguns mensageiros, que te mencionamos e outros, que não te mencionamos”. (4:164) De fato, Mohammad, a paz de Deus esteja com ele, disse que Jesus era um de cento e vinte e quatro mil Profetas, entre os quais não existem razões para conflitos ou discórdias. Deus diz ao Seu Mensageiro, numa passagem do Alcorão: "Dize: Cremos em Deus, no que nos foi revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacó e às tribos, e no que, do Senhor, foi concedido a Moisés, a Jesus e aos profetas; não fazemos distinção alguma entre eles, porque somos, para Ele, muçulmanos”. (3:84) Os Profetas estão todos bem cientes de que foram enviados por Deus, obedecendo ao mesmo objetivo e à mesma mensagem: “Recorda-te de quando instituímos o pacto com os profetas: contigo, com Noé, com Abraão, com Moisés, com Jesus, filho de Maria e obtivemos deles um solene compromisso”. (33:7) “Ó mensageiros, desfrutai de todas as dádivas e praticai o bem, porque sou Sabedor de tudo quanto fazeis! E sabei que esta vossa comunidade é única e que eu sou o vosso Senhor. Temei-Me, pois!” (23:51-52) “Prescreveu-vos a mesma religião que havia instituído para Noé, a qual te revelamos, a qual havíamos recomendado a Abraão, a Moisés e a Jesus, (dizendo-lhes): Observai a religião e não discrepeis acerca disso”. (42:13) Assim, a imagem que se dá não é a de algum homem notável que apareceu na Terra como acontecimento isolado, num mundo que seria caótico sem esse aparecimento. Mas a de um Mensageiro que, como todos os outros mensageiros, foi enviado para aquele tempo e para aquela época, como elo de uma cadeia de revelação no universo: “E depois deles (profetas), enviamos Jesus, filho de Maria, corroborando a Torah que o precedeu; e lhe concedemos o Evangelho, que encerra orientação e luz, corroborante do que foi revelado na Torah e exortação para os tementes”. (5:46) E mais ainda, tal como Jesus estava bem ciente, um tempo que possuía limites; um tempo que era limitado pelo tempo anterior e posterior ao seu: “E de quando Jesus, filho de Maria, disse: Ó israelitas, em verdade, sou o mensageiro de Deus, enviado a vós, corroborante de tudo quanto a Tora antecipou no tocante às predições, e alvissareiro de um Mensageiro que virá depois de mim, cujo nome será Ahmad!”. (61:6) A concepção e o nascimento de Jesus estão registrados com grande pormenor no Alcorão. Será esclarecedor começar com o nascimento e a educação da sua mãe, pois, ajuda-nos a ver como ela foi preparada por Deus para ser a mãe de Jesus e como foi escolhida por Ele: “Recorda-te de quando a mulher de Imran, disse: Ó Senhor meu, é certo que consagrei a ti, integralmente, o fruto do meu ventre; aceita-o, porque és o Oniouvinte, o Sapientíssimo. E quando concebeu, disse: Ó Senhor meu, concebi uma menina – mas Deus bem sabia o que ela tinha concebido – e um macho não é o mesmo que uma fêmea. Eis que a chamo Maria; ponho-a, bem como à sua descendência, sob a Tua proteção, contra o maldito Satanás. Seu Senhor a aceitou benevolentemente e a educou esmeradamente, confiando-a a Zacarias. Cada vez que Zacarias a visitava, no oratório, encontrava-a provida de alimentos, e lhe perguntava: Ó Maria, de onde te vem isso? Ela respondia: De Deus!, porque Deus agracia imensuravelmente a quem Lhe apraz. Então, Zacarias rogou ao seu Senhor, dizendo: Ó Senhor meu, concede-me uma ditosa descendência, porque és Aquele Que atende os rogos! Os anjos o chamaram, enquanto rezava no oratório, dizendo-lhe: Deus te anuncia o nascimento de João, que corroborará o Verbo de Deus, será nobre, casto e um dos profetas virtuosos. Disse: Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, se a velhice me alcançou e minha mulher é estéril? Disse-lhe (o anjo): Assim será. Deus faz o que Lhe apraz. Disse: Ó Senhor meu, dá-me um sinal. Asseverou-lhe (o anjo): Teu sinal consistirá em que não fales com ninguém durante três dias, a não ser por sinais. Recorda-te muito do teu Senhor e glorifica-O à noite e durante as horas da manhã”. (3:35-41) João foi o Profeta imediatamente anterior a Jesus; o seu nascimento miraculoso é novamente mencionado na Surata Mariam: “Eis o relato da misericórdia de teu Senhor para com o Seu servo, Zacarias. Ao invocar, intimamente, seu Senhor, dizendo: Ó Senhor meu, os meus ossos estão debilitados, o meu cabelo embranqueceu, mas nunca fui desventurado em minhas súplicas a Ti, ó Senhor meu! Em verdade, temo pelo que farão os meus parentes, depois da minha morte, visto que minha mulher é estéril. Agracia-me, de Tua parte, com um sucessor! Que represente a mim e à família de Jacó; e faze dele, ó meu Senhor, uma pessoa que Te satisfaça! Ó Zacarias, anunciamo-te o nascimento de uma criança, cujo nome será Yahia (João). Nunca denominamos, assim, ninguém, antes dele. Disse (Zacarias): Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, uma vez que minha mulher é estéril e eu cheguei à senilidade? Respondeu-lhe: Assim será! Disse teu Senhor: Isso Me é fácil, visto que te criei antes mesmo de nada seres. Suplicou: Ó Senhor meu, aponta-me um sinal! Disse-lhe: Teu sinal consistirá em que não poderás falar com ninguém durante três noites. Saiu do templo e, dirigindo-se ao seu povo, indicou-lhes, por sinais, que glorificassem Deus, de manhã e à tarde. (Foi dito): Ó Yahia, observa fervorosamente o Livro! E o agraciamos, na infância, com a sabedoria, assim como o agraciamos com a piedade (por todas as criaturas) e com a pureza, e foi devoto, e gentil para com seus pais, e jamais foi arrogante ou rebelde. A paz esteve com ele desde o dia em que nasceu, no dia em que morreu, e estará com ele no dia em que for ressuscitado”. (19:2-15) A história do nascimento de Jesus é contada em duas partes diferentes do Alcorão: “Recorda-te de quando os anjos disseram: Ó Maria, Allah te elegeu e te purificou, e te preferiu a todas as mulheres da humanidade! Ó Maria, consagra-te ao Senhor. Prostra-te e ajoelha-te com os que se ajoelham! Estes são alguns relatos do desconhecido, que te revelamos (ó Mensageiro). Tu não estavas presente com eles (os judeus) quando, com setas, tiravam a sorte para decidir quem se encarregaria de Maria; tampouco estavas presente quando estavam a discutir entre si. E quando os anjos disseram: Ó Maria, Deus te anuncia o Seu Verbo, cujo nome será o Messias, Jesus, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e que se contará entre os próximos de Deus. Falará aos homens, ainda no berço, bem como na maturidade, e se contará entre os virtuosos. Perguntou: Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, se mortal algum jamais me tocou? Disse-lhe o anjo: Assim será. Deus cria o que deseja, posto que quando decreta algo, basta dizer: Seja! e é. Ele lhe ensinará o Livro, a sabedoria, a Tora e o Evangelho. E será um mensageiro para os israelitas, (e lhes dirá): Apresento-vos um sinal do vosso Senhor: eis que plasmarei de barro a figura de um pássaro, ao qual alentarei, e a figura se transformará em pássaro, com o beneplácito de Deus; curarei o cego de nascença e o leproso; ressuscitarei os mortos, pela vontade de Deus, e vos revelarei o que consumis e o que entesourais em vossas casas. Nisso há um sinal para vós, se sois crentes. (Eu vim) para confirmar-vos a Tora, que vos chegou antes de mim, e para liberar-vos algo que vos estava vedado. Eu vim com um sinal do vosso Senhor. Temei a Deus, pois e obedecei-me. Sabei que Deus é meu Senhor e o vosso. Adorai-O, pois. Essa é a senda reta. E quando Jesus lhes sentiu a incredulidade, disse: Quem serão os meus colaboradores na causa de Deus? Os discípulos disseram: Nós seremos os colaboradores, porque cremos em Deus; e testemunhamos que somos muçulmanos.153 Ó Senhor nosso, cremos no que tens revelado e seguimos o Mensageiro; inscreve-nos, pois, entre os testemunhadores. (3:42-53). A história é ainda contada na Surata "Mariam" (Maria): “E menciona a Maria, no Livro, a qual se separou de sua família, indo a um local ao leste. E colocou uma cortina para ocultar-se dela (da família), e lhe enviamos o Nosso Espírito, que lhe apareceu personificado, como um homem perfeito. Disse-lhe ela: Guardo-me de ti no Clemente, se é que temes a Deus. Explicou-lhe: Sou tão-somente o mensageiro do teu Senhor, para agraciar-te com um filho imaculado. Disse-lhe: Como poderei ter um filho, se nenhum homem me tocou e jamais deixei de ser casta? Disse-lhe: Assim será, porque teu Senhor disse: Isso Me é fácil! E faremos disso um sinal para os homens, e será uma prova de Nossa misericórdia. E foi uma ordem decretada. E quando concebeu, retirou-se, com o seu rebento, para um lugar afastado. As dores do parto a constrangeram a refugiar-se junto a uma tamareira. Disse: Oxalá eu tivesse morrido antes disto, ficando completamente esquecida! Porém, chamou a uma voz, junto a ela: Não te atormentes, porque teu Senhor fez correr um riacho a teus pés! E sacode o tronco da tamareira, de onde cairão sobre ti tâmaras maduras e frescas. Come, pois, bebe e consola-te; e se vires algum humano, faze-o saber que fizeste um voto de jejum ao Clemente, e que hoje não poderás falar com pessoa alguma. Regressou ao seu povo levando-o (o filho) nos braços. E lhe disseram: Ó Maria, eis que trouxeste algo extraordinário! Ó irmã de Aarão, teu pai jamais foi um homem do mal, nem tua mãe uma (mulher) sem castidade! Então ela lhes indicou que interrogassem o menino. Disseram: Como falaremos a uma criança que ainda está no berço? Ele lhes disse: Sou o servo de Deus, o Qual me concedeu o Livro e me designou como profeta. Fez-me abençoado, onde quer que eu esteja, e me recomendou a oração e (a paga do) zakat enquanto eu viver. E me fez gentil para com a minha mãe, não permitindo que eu seja arrogante ou rebelde. A paz está comigo, desde o dia em que nasci; estará comigo no dia em que eu morrer, bem como no dia em que eu for ressuscitado. Este é Jesus, filho de Maria; é a pura verdade, da qual duvidam. É inadmissível que Deus tenha tido um filho. Glorificado seja! Quando decide uma coisa, basta-lhe dizer: Seja!, e é. E Deus é o meu Senhor e o vosso. Adorai-o, pois! Esta é a senda reta”. (19:16-36) O local onde Jesus nasceu é mencionado noutra passagem do Alcorão: “E fizemos do filho de Maria e de sua mãe sinais, e os refugiamos em uma segura colina, provida de mananciais”. (23:50). Abraço. Davi

 

sábado, 10 de fevereiro de 2024

O SELO DE DEUS E A MARCA DA BESTA. PARTE II

 

Cristianismo. Por Alejandro Bullón. Livro O Terceiro Milénio – E as Profecias do Apocalipse. Capítulo XIV. O SELO DE DEUS E A MARCA DA APOSTASIA. Parte II. Se você analisar sem preconceitos a Sagrada Escritura, descobrirá que, ao longo da história humana, Deus teve sempre sua Igreja. Essa Igreja esteve sempre formada pelos filhos de Deus que queriam obedecer à autoridade divina. Por outro lado, em todo momento houve também homens que quiseram escolher seu próprio caminho, rejeitando a voz de Deus. Foi assim desde o início. Caim e Abel receberam a ordem de oferecer um cordeiro como sacrifício a Deus. Abel obedeceu a ordem, e Caim decidiu fazer algo diferente: levou o fruto da terra. Perceba que Caim não foi contra Deus. Ele ofereceu o sacrifício, mas não o fez como Deus ordenou, porém, como ele achava que devia ser. Isso é fundamental. No fim da História, os que receberão a marca da besta não estarão contra Deus. Eles pensarão que estão servindo a Deus. Só que não o farão como Deus pediu, e sim como eles acham que deve ser. A partir daquele incidente entre Caim e Abel, podemos distinguir a Igreja fiel a Deus. Veja como a Bíblia a identifica, no início: “Vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas” Gn 6,12. Você vê? Aqui Deus identifica sua Igreja como “os filhos de Deus”. Sempre houve uma Igreja de Deus. Não havia estrutura organizada, todavia, uma Igreja de Deus formada dos filhos dispostos a obedecer. Esse grupo de pessoas que estavam dispostas a ser fiéis a Deus e que acreditavam na salvação em Cristo, simbolizada no sacrifício do Cordeiro, chegou com o tempo a ser o povo de Israel. Esse povo, além de ser a Igreja de Deus, foi também um país politicamente organizado: tinha o sumo-sacerdote, que era a autoridade espiritual, e o rei, que era a autoridade política. A tendência de Israel ao crescer como nação foi a de corromper-se doutrinal e espiritualmente. Note como o profeta descreveu essa situação: “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá a ganância, e tanto o profeta como o sacerdote usam de falsidade. Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz, quando não há paz. Serão envergonhados, porque cometem abominação, sem sentir por isso vergonha, nem sabe que coisa é envergonhar-se” Jeremias 6,13-15. No entanto, apesar da corrupção do povo e dos líderes religiosos, sempre existiu um remanescente fiel, que esteve disposto a obedecer a Deus. Esse era o verdadeiro povo de Deus, sua verdadeira Igreja. A grande tragédia de Israel foi pensar que o fato de um dia ter sido chamado povo de Deus garantia-lhe esse estado para sempre. Eles se esqueceram de que o cordeiro, que era sacrificado diariamente como símbolo de Jesus, seria o único que garantiria sua condição de igreja de Deus. Jesus veio a este mundo. “veio para o que era seu, e o seus não o receberam” João 1,11. Jesus era o Messias Salvador. Ele era o verdadeiro Rei de Israel, mas o povo judeu gritou: “Não temos outro rei, senão César”. A situação espiritual de Israel quando Jesus nasceu era calamitosa. Jesus, em pessoa, condenou a hipocrisia de seus líderes. Eram líderes aparentemente espirituais, reclamavam para si o direito de ser o povo de Deus, contudo estavam longe de sê-lo. Igreja cristã – o Israel espiritual. O erro do cristianismo está em pensar que Israel foi rejeitado por Deus e substituído pela Igreja cristã. Se você estudar conscienciosamente a Bíblia, verá que não é assim. Deus formou a Igreja cristã a partir de Israel e não em substituição a ele. Jesus escolheu o remanescente fiel. Aqueles que o aceitaram e o seguiram. A maioria o rejeitou como Messias, todavia 12 decidiram segui-lo e ser fiéis e obedientes a Deus. Esses 12 discípulos foram a base do que viria a ser a Igreja cristã. A característica distintiva do cristianismo é aceitar Jesus como Salvador e obedecer aos mandamentos de Deus Apocalipse 12,17 e 14,12. E uma das chaves dessa obediência é o sábado como dia de repouso. Ezequiel diz que o sábado é o sinal, o selo, a identificação e a marca de Deus. Teria o sábado sido deixado só para Israel? Não, porque a criação, quando ainda não existia o povo de Israel, já fora estabelecido o sábado. O sábado era o sinal do povo de Israel. Mas alguém pode dizer: “Israel já foi rejeitado e, junto com ele, o sábado”. Isso não pode ser assim porque, em Apocalipse 7, João diz: “Então vi o número dos que foram selados, que era cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel” Apocalipse 7,4. Você vê? O remanescente espiritual de Israel é o cristianismo. São os que aceitaram a Jesus como Salvador e, por isso, “lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro”. E são também os que decidiram guardar os mandamentos de Deus, o que inclui a observância do sábado. É por isso que recebem o sinal de Deus em sua fronte. Obediência equivocada. Mas agora vem o inimigo de Deus e tenta impor sua própria maneira de adorar e obedecer. O diabo é astuto. Se ele não conseguir levar você a negar a existência de Deus e rejeitá-lo, levá-lo-á a obedecer-lhe de maneira errada. No Jardim do Éden, disse Deus: “Se tocares no fruto desta árvore, morrereis”. Aí veio o diabo e disse:” não morrereis”. No coração de sua santa lei, Deus escreveu: “Lembra-te do dia do sábado para o santificares”. E aí vem o inimigo e diz: “Não precisa ser sábado. Pode ser também o domingo”. A Caim ele disse: “Não precisa ser um cordeiro, pode ser também o fruto da terra”. Enfim, não é como Deus diz, pode ser como você achar melhor. Mas aí está o perigo: em pensar que se está servindo a Deus quando não se está. Pensar que se está obedecendo, quando se está agindo contra a vontade de Deus. Pegue sua Bíblia. Seja sincero, e tome todo o tempo que você precisar para achar um único verso bíblico que diga que o sábado não é mais o dia de repouso e que foi substituído pelo domingo. Você não achará. Por que então as pessoas guardam o domingo? Existem argumentos. Alguns creem que o fato de Jesus ter ressuscitado no domingo é autorização para começar a guardar esse dia. Entretanto, a Bíblia não diz isso. Domingo sinal de autoridade. O mais dramático de tudo é fazer a seguinte pergunta: “Se o sábado é sinal ou selo de Deus, qual é a marca da besta?”. Lembre-se de que Apocalipse 13 fala de um poder religioso/político e também fala de um país poderoso que “seduz os que habitam sobre a Terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a Terra que façam uma imagem à besta” Apocalipse 13,14. Uma imagem é algo que representa. Quando você fala de verde-amarelo, vem à sua mente imediatamente o Brasil. Quando pensa em branco e azul, Argentina. Vermelho e branco, Peru. Isso porque são esses países que estão por trás dessas cores. Bom, qual é o poder que está por trás do domingo como dia de repouso? Mais ainda: Apocalipse 13 continua dizendo que aquele poder faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, lhes seja dada certa marca sobre a mão direita e sobre a fronte. Para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número de seu nome. Isso é assustador. Aqui a profecia indica que chegará um momento na história deste mundo em que quem guardar o sábado não poderá comprar nem vender. Parece imaginação doentia? Pois então pergunte-se: Hoje, ainda em tempos de paz, todos os jovens que guardam o sábado têm o direito de fazer suas provas na universidade em outro dia? Todas as pessoas que guardam o sábado podem fazer concursos para cargos públicos? Todas as pessoas têm o direito de trabalhar no domingo em lugar do sábado? Não é um assunto de mania de perseguição. É algo profético. Está escrito com toda clareza na Bíblia. O último chamado à adoração. O pano de fundo é obediência e adoração. Os seres humanos parecem não perceber que o inimigo está conseguindo o que sempre se propôs. Mas em Apocalipse 14 levanta-se um grupo de pessoas, simbolizadas pelo anjo, para proclamar em alta voz o evangelho eterno. É algo que não muda. Sempre foi assim: salvação em Cristo e obediência aos seus mandamentos. Esse clamor é: “Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora de seu juízo. E adorai aquele que fez o céu, e a Terra, e o mar, e as fontes das águas “ Apocalipse 13,14. Compare esta passagem com o quarto mandamento, que ordena guardar o sábado, ali diz; “Por que em seis dias, fez o Senhor os céus e a Terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou, por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” Êxodo 20,11. Coincidência? Parece-lhe coincidência que o último chamado que Deus faz à humanidade tenha quase as mesmas palavras que Ele pronunciou quando disse que o sábado era santo? Mas o último chamado diz mais: “Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do vinho da cólera de Deus” Apocalipse 19,9-10. E acrescenta: “Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cumplices em seus pecados, e para não participardes dos seus flagelos” Apocalipse 18,4. Portanto, este é um momento de decisão. O destino eterno do ser humano está em jogo. Não há mais tempo a perder, pois os últimos eventos da História estão próximos. Abraços. Davi.

 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

INTRODUÇÃO I - Parte I

 

Judaísmo. Livro Portal das Reencarnações. Por Rabino Isaac Luria (1532-1572). Tradução do Rabino Joseph Saltoun. INTRODUÇÃO I – Parte I. A reencarnação é um estudo profundo da evolução espiritual da consciência humana. Como o Ari explica, citando partes do Talmud, existem cinco níveis básicos da inteligência humana, veja acima na tabela 1. A evolução e o desenvolvimento humano envolvem um crescimento gradual, espiritual e físico, passo a passo, de um nível para o outro. Este processo pode ser governado, por um lado, pelas leis da natureza, que são impostas sobre o homem ou, por outro lado, pelo livre-arbítrio. A principal intenção deste livro é expor essas leis, a fim de permitir que o homem pratique seu livre-arbítrio e participe conscientemente no processo de sua própria evolução. Todos conhecem a Teoria da Evolução de Darwin, que explica o processo de evolução do corpo físico do homem. Mas as questões são: Quais são as origens da inteligência humana? A lei da seleção natural pode ser controlada? O homem pode conscientemente navegar ao topo da escada da evolução ou ele só é regido pelas leis da natureza? A reencarnação não tem a ver somente com vidas passadas. É também sobre como conduzir-nos no presente e futuro. Estudar o processo de evolução humana através da reencarnação e compreender os níveis de inteligência humana e sua origem, não só melhora a nossa compreensão de nós mesmos, como também pode apressar este processo e oferecer controle sobre o nosso destino. Isso porque tudo o que acontece em nossa vida segue a lei básica de causa e efeito. Consequentemente, nada acontece por acaso. Reconhecer a causa principal dá a possibilidade de modificar o efeito. É assim que o ser humano exerce o seu livre-arbítrio. Evoluir sendo regido pelas leis da seleção natural envolve dor e sofrimento, morte e nascimento, e uma vida vivida sem consciência e sem livre-arbítrio. Uma profunda compreensão das leis espirituais, que regem a nossa alma-consciência, pode nos libertar do caminho da dor e levar-nos ao caminho do prazer. A justiça divina e a compreensão da Vontade do Divino têm sido um grande desafio para o homem, se não o maior deles. O versículo que aparece em Deuteronômio 29,28 diz: “As coisas ocultas pertencem a Adonai, nosso Elohim. Porém, as reveladas pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para cumprir todas as palavras desta Torá”. Isso pode nos dar ainda mais desânimo na tentativa de compreender a Vontade Divina, pois se as coisas ocultas pertencem apenas ao Santíssimo, como então podemos seguir todas as palavras desta Torá sem entendermos o motivo delas? A reencarnação explica as coisas ocultas, que se estendem para além das nossas expectativas lógicas, que são baseadas em nossa percepção física. Ela nos permite participar das “coisas ocultas’ e entender as leis cósmicas que regem a consciência da nossa alma. Nada é um mistério, tudo tem uma razão, mesmo que esteja oculto de nossa percepção atual. Nesta primeira introdução, o Ari apresenta os níveis da alma (Neshamá) e os seus nomes. Recomenda-se aprender os seus nomes em hebraico, por causa do significado preciso que cada nome representa em relação ao seu nível específico. Assim, de baixo para cima, a Néfesh, que pode ser traduzida como os poderes instintivos e impulsivos do ser humano, é a parte mais baixa da alma, e é como a Bíblia diz: “(...) porque o sangue é a Néfesh” Deuteronômio 12,23. Isto significa que o sangue é o elemento físico do corpo humano que conecta o mundo da matéria com o espírito. Tirar todo o sangue físico do corpo provoca a morte. O nível de consciência de Néfesh está relacionado com nossas necessidades básicas e instintivo de sobrevivência. Caçar e consumir outros seres vivos para sustentar o nosso corpo. Adquirir riquezas físicas e posses para se sentir seguro e protegido, satisfazer desejos luxuriosos, de sexo e de prazer etc. Moralmente, é, portanto, mais provável que a Néfesh leve uma pessoa a sucumbir a suas fraquezas e cometer pecados. Esses pecados podem ser vistos como atos que prejudicam a pessoa e seu companheiro. Poderíamos comparar o termo Néfesh com o termo anima descrito por Aristóteles, sendo a percepção do eu através dos sentidos, consciência de si, e a auto moção. Já para Jung, o anima e o animus, masculino e feminino, são descritos como elementos de sua teoria do inconsciente coletivo, um domínio do inconsciente que transcende a psique pessoal. Ela pode ser entendida como a consciência e o autoconhecimento que uma pessoa tem de ser e de se tornar uma parte do todo. Ela pode dormente ou desperta. Cabalisticamente falando, é o Ruach, Espírito, de cima, que desperta a Néfesh. O Rúach, traduzido como Espírito, é o próximo nível. É aqui que a pessoa se torna “espiritual”. A primeira centelha de consciência espiritual aparece quando o homem faz as perguntas mais básicas: Por que estou vivo? Qual é o sentido da vida? Há um propósito para eu viver? Há alguém lá fora olhando para mim? Estas questões levam o homem a pensar, contemplar e aspirar pelos estudos superiores de vida. Filosofia, astrologia, meditação, sabedoria esotérica, tudo em uma tentativa de desmistificar o mistério de sua própria existência. As respostas estão dentro de nós! O Rúach, Espírito, serve como um intermediário entre a Néfesh e a Neshamá, Alma. Em geral, o Rúach ajuda a Néfesh em sua constante luta para escolher entre o bem e o mal. A Neshamá, Alma, é um nível muito alto de consciência que reside no paraíso. Ele não passa pelos ciclos de reencarnação. Ela não sofre os altos e baixos que o corpo atravessa. Ela se conecta com a pessoa uma vez que ela corrigiu os dois primeiros níveis de Néfesh e Rúach. Os outros dois níveis, Chaiá, forma viva e Iechida, unidade, não participaram no pecado de Adão, em hebraico Adam, assim, as leis da reencarnação também não se aplicam a eles. Isto nos ensina que as leis da reencarnação surgiram no Universo para ajudar o homem corrigir o pecado de Adão. Esta é a origem da palavra Ticun em hebraico, que significa corrigir. Isso vale embora estas duas partes não estejam inclusas no processo geral do Tucun. Para uma compreensão mais simples e prática dos níveis da alma, por favor, consulte a Tabela n° 3. Rabino Isaac Luria (1534-1572), Há’ Ari Há-Cadosh: Vamos começar falando sobre o que os nossos Sábios, de abençoada memória, disseram, de que a alma, Neshamá, Chaiá e Iechida ou em resumo NaRaNCHal. Para ter uma visão mais clara disso, por favor, consulte a Tabela n°1. Nós podemos nos perguntar de onde é que os níveis da alma, conhecidos como “luzes”, surgiram? As origens dos níveis da alma vêm do infinito, conhecido como Ein Sof. Depois que o Tsimbsum ocorreu, o Receptáculo criado, receptor da Luz do Criador, rejeitou a abundância infinita do Ein Sof e voluntariamente saiu do Infinito. Esta ação causou a descida gradual tanto do Receptáculo como da Luz para a dimensão dos mundos. A descida do Receptáculo causou o aparecimento dos mundos, enquanto a da Luz, o aparecimento das “Luzes”. Para um estudo mais profundo sobre este assunto, consulte o Talmud Esser HaSefirot (Estudo das Dez Emanações), do Rabino Iehuda Ashlag. E não há dúvidas de que estas partes não possuem nomes por acaso. Saiba que a pessoa de fato é o elemento espiritual que fica dentro de um corpo, e o corpo nada mais é do que uma vestimenta para a pessoa real, e não a pessoa em si. É por isso que no Zohar se diz que o homem conecta e une todo os quatro mundos. Emanação, Atsiluf, Criação, Beriá, Formação, Ietsirá e Ação, Assiá, porque nele existem partes de todos estes quatro mundos. Sendo que cada uma dessas partes é designada por um dos cinco nomes mencionados anteriormente: NaRaNCHal, como será explicado. Uma pessoa não adquire todos os níveis de sua alma, Neshamá, de uma só vez,mas de acordo com o mérito. Então, primeiro a pessoa recebe o nível mais baixo deles, que é chamado Nésfesh. Depois, se merecer mais, ela também adquire o Rúach. Tudo isso é conforme o que está explicado em algumas partes do Zohar, como Porção Semanal de Vaiechi e, parcialmente, na Terumá. E especialmente no início da Porção Semanal de Mishpatim: “Quando a pessoa nasce, ela recebe uma Néfesh etc”. E agora que explicamos isso, é preciso falar um pouco, de maneira introdutória, sobre o assunto trazido aqui. O tema de Néfesh, Rúach e Neshamá, bem como a divisão da alma segundo os nosso Sábios, já foi explicado em detalhes no Shaar Hapessukim – Portão dos versículos, quando se falou do versículo: “E sua mãe fazia-lhe uma túnica pequena”. Isso também foi explicado no Shaar Hamitsvot – Portão dos Preceitos, na Porção Semanal de Vaiechi, quando se falou das leis do luto. E falaremos mais disso ... Saiba, que toda Néfesh é do mundo de Assià. Todo Rúach é do mundo de Ietsirá e toda Neshamá é do mundo de Beriá. No entanto, a maioria das pessoas não tem as cinco partes da alma, chamadas de NaRaNChal, mas apenas a Néfesh, que é de Assiá. No entanto, mesmo nela existem diversos níveis, pois o próprio mundo de Assiá também se divide em cinco Partsufim, chamados: Arich Anpin, Face Longa, Aba, Pai, Ima, Mãe, Zachar, Pequena Face, Aspecto Masculino e Nucvá, Aspecto Feminino. Antes de a pessoa ter mérito para poder adquirir seu Rúach, que é do mundo de Ietsirá. Ela precisa estar completa em todos os cinco Partsufim da Néfesh que é Assiá. E mesmo sabendo que existem pessoas cuja Néfesh é de Malchut de Assiá e outra cuja Néfesh é de Iessód de Assiá etc. Independente disso, cada pessoa tem o dever de corrigir todo o mundo de Assiá, e só depois disso a pessoa consegue receber o seu Rúach, que é de Ietsirá, já que o mundo de Ietsirá é maior do que todo o mundo de Assiá. Isso segue e, portanto, de modo similar, para poder adquirir a Neshamá, que é do mundo de Beriá, a pessoa precisa corrigir todas as partes do seu Rúach, em todo o mundo de Ietsirá. Depois, a pessoa pode receber a Neshamá, que é de Beria. Não basta retificar apenas o local específico que é a Raiz de sua alma. Mas a pessoa tem que corrigir as coisas da maneira mencionada, até ser digna de receber todo o mundo de Assiá. E aí, então, ela pode receber o Rúach de Ietsirá. E desse modo ela segue por todos os mundos. Abraço. Davi.

 

 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

UMA PALAVRA DE AMOR

 

Religião Afro-brasileira. Umbanda. Por Rubens Saraceni (1951-2015). UMA PALAVRA DE AMOR. Todos ficam curiosos a respeito da Umbanda, e muitos se lançam em pesquisas cuja finalidade é alcançar suas origens. Entendemos que a Umbanda, enquanto religião, é nova e é brasileira. Está fundamentada nos Orixás africanos trazidos pelos nossos irmãos negros, assim como nos rituais aqui praticados pelos pajés indígenas. É certo que a comunicação com o mundo espiritual não surgiu com a Umbanda, pois em civilizações antiquíssimas já acontecia. Mas da forma como acontece nos centros de umbanda, onde linhas hierarquizadas desde o alto até o embaixo se manifestam, bem, si só mesmo a Umbanda faculta tais manifestações. Se as práticas de Umbanda não são novas, no entanto, nova é a forma como elas acontecem dentro dos centros. Mas, se assim acontecem, isso se deve à forma como a Umbanda foi idealizada para auxiliar a evolução espiritual de milhões de seres humanos. O astral superior idealizou toda uma religião de massa que pudesse acolher os milhões de espíritos, os quais reencarnariam em solo brasileiro já no início do século XX, e que antes haviam encarnado neste mesmo solo como indígenas, adoradores das forças da natureza, ou em solo africano, onde adoravam os Orixás. Tentar dar a Umbanda uma origem muito diferente desta é faltar com o bom senso, pois ela surgiu timidamente como a linha das Umbandas que baixava em barracões de Candomblé, desde meados do século XIX. E que no início do século XX já era tão poderosa que se havia espalhado por muitos rincões do Brasil. Mas tudo foi coordenado pelo astral superior Ordenado pelos Orixás e fundamentado em experiências religiosas anteriores, todas tidas como muito positivas para acelerar a evolução dos espíritos humanos. A palavra “Umbanda” deriva de “m”banda”, que em kibundo significa sacerdote ou curador. Isso é Umbanda, onde manifestam, assim como todos os nossos amados guias espirituais. Umbanda é a religião, m’banda é o sacerdote. Umbanda é caridade, m’banda é o curador. Umbanda é o meio, m’banda é o médium. Umbanda é evolução, m’banda é o ser evoluindo. Por isso, quando nos perguntam qual é a origem da Umbanda, simplesmente respondemos isto: a origem da Umbanda está nos Sagrados Orixás que, por amor a humanidade, manifestam-se em locais humildes, desprovidos da pompa e do luxo, pois assim falam mais intimamente com seus amados filhos de Umbanda. Muitos já escreveram a respeito do Ritual de Umbanda Sagrada e muito ainda está para ser escrito. Afinal, a Umbanda é uma religião nova e até agora não foi feita sua codificação maior. O máximo que se tem até o momento é uma tentativa de explicá-la a partir da herança religiosa africana, que nos legaram os nossos irmãos negros trazidos de além-mar durante o período escravagista. Povos com culturas diferentes e divindades semelhantes se amalgamaram e daí surgiram panteões confusos ou mal explicados, então os mesmos Orixás atendiam por nomes diferentes devido as diferentes línguas faladas pelos escravos. Com o tempo, alguns desses nomes foram caindo no esquecimento e dando lugar a outros, porém com as mesmas qualidades, atributos e atribuições. Tudo isso contribuiu para que surgisse uma infinidade de Orixás, formando grupos mais ou menos afins entre si. Vários são regidos pelo fogo, outros pela terra, pela água, pelo ar, pelo vegetal, pelo mineral, pelo cristal e pelo tempo. Com o tempo, os próprios Orixás ancestrais estimularam o surgimento de uma linha aberta de trabalhos espirituais na qual espíritos, que se identificavam como caboclos, pretos-velhos, crianças e exus, deram início a linha de Umbanda. Essa linha começou a se destacar nos barracões de Candomblé e foi adquirindo feições próprias, sobrepondo-se junto aos frequentadores, que encontravam nas consultas com os “guias” espirituais as respostas às suas dificuldades imediatas. Apesar de toda perseguição sofrida, a Umbanda cresceu de forma espantosa e foi se desligando do Candomblé e aproximando-se, em alguns polos, do Espiritismo. Aconteceu de tudo nessa explosão de manifestações espirituais que abrangeu todo o Brasil. Afinal, se a Umbanda uniu o negro, o índio e o europeu, e isso atendendo a uma vontade dos Senhores Orixás, sua tendência natural seria a de abranger todas as manifestações de espíritos que incorporavam em médiuns e identificavam-se como caboclos, pretos-velhos, crianças e exus. Hoje, um século depois, a Umbanda começa a ultrapassar as fronteiras do Brasil e já está se instalando em vários países. Se isso acontece é porque a Umbanda é de fato uma religião e é regida pelos Sagrados Orixás. Mas isso foi conseguido, no entanto, um enigma ficou a atormentar o meio umbandista, desde o surgimento da Umbanda: as suas sete linhas. Sim, em muitos lugares surgiram comentários acerca das Sete Linhas de Umbanda. Uns as descreviam de uma forma e outros de outra, criando-as partir de nomes dos Orixás que mais se destacavam. As pessoas que tentavam ordenar as tão cantadas Sete Linhas de Umbanda faziam suas ordenações a partir do que viam ou acreditavam ser. Enfim, temos na literatura umbandista várias tentativas de codificação, mas todas foram feitas de baixo para cima, sendo fundamentadas nos muitos nomes que nos legaram os nossos irmãos africanos, e nenhuma se impôs ou se destacou entre tantas tentativas de codificá-la. Nós não temos a pretensão de lançar uma codificação do Ritual de Umbanda Sagrada. Apenas somos intérpretes de uma corrente espiritual formada, toda ela, por mestres da Luz ou instrutores espirituais que participaram da fundamentação do Ritual de Umbanda Sagrada no astral. E posteriormente, auxiliaram na sua concretização no plano material, quando atuaram, e ainda atuam, como guias ou mentores espirituais Psicografia, bem sabemos é um processo coordenado pelo Alto, que visa a transmissão integral e irretocável do que a espiritualidade deseja ver fixado no plano material, atendendo as necessidades de todos os praticantes do mesmo ritual religioso. Então, como médium psicógrafo, tenho fixado no papel o que desejam realmente os regentes do Ritual de Umbanda Sagrada, e um dos conhecimentos a mim transmitidos aborda exatamente as tão cantadas “Sete Linhas de Umbanda”. Os mestres instrutores têm alertado para o fato de que se muitos são os nomes dos Orixás já conhecidos no plano material e no meio umbandista, entretanto, só recorrerão a eles porque o próprio tempo se encarrega de colocar. Pois se só sete linhas existem, no entanto, em cada uma delas todos os Orixás já conhecidos são facilmente encontráveis e identificáveis. Usaremos nomes de Orixás que mais se identifiquem com as Sete Linhas, para que assim, pontuando-as, comecemos toda uma ordenação que aqui se inicia. Os leitores terão acesso ao processo científico de identificação dos Sagrados Orixás que, se assumem nomes, é mais para nos satisfazer na nossa limitada capacidade de compreensão do mundo invisível aos nossos olhos materiais. Aquietem seus conhecimentos e abram um espaço para o que agora começarão a absorver e verão que muitas lacunas existentes começarão a ser preenchidas. Coisas ainda incompreensíveis assumirão uma lógica irrefutável, pois serão calcadas nos conhecimentos dos mistérios da “Ciência dos Orixás” e muito no bom senso humano. Muitos são os níveis pelos quais fluem os mistérios, mas a Ciência Superior dos Orixás só e acessível aos espíritos que alcançam a 5ª esfera ascendente. É justamente dos mestres da Luz que temos recebido nossos ensinamentos, ainda que via psicografia ou transmissão mental. Que todos os médiuns que possuam como seus mentores espíritos nesse grau os inquiram acerca do que aqui está sendo fixado no papel e no plano material, e com certeza ouvirão isto: “Finalmente, um pouco de luz do saber no meio de tantas trevas da ignorância humana!”. Rubens Saraceni. Abraço. Davi

 

domingo, 4 de fevereiro de 2024

I. DA BREVIDADE DA VIDA

 

Filosofia. Livro da Brevidade da Vida. I. Apresentação. I. DA BREVIDADE DA VIDA. A palavra filosofia vem do grego philos – amigo ou amante e sophia – sabedoria. O filósofo é, portanto, aquele que ama a sabedoria e, por não a ter, busca-a constantemente, em toda forma de conhecimento e em todos os lugares. A Coleção Filosofia à Maneira Clássica resgata as grandes obras do pensamento universal, que são como ferramentas para essa busca. Possibilita um estudo comparativo de diversas tradições, tanto do Oriente quanto do Ocidente, visando a responder aqueles questionamentos que todo ser humano se faz: “Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Estude Filosofia de forma prática, dinâmica e atrativa, aprendendo com os grandes mestres de sabedoria a encontrar respostas e entender a si mesmo e ao mundo! Introdução. Lucius Annaeus Seneca, mais conhecido simplesmente como Sêneca, foi, e ainda é considerado um dos mais célebres escritores e filósofos do Império Romano. Ele nasceu no ano 4 a.C., em Córdova e morreu no ano de 65 d.C., em Roma. Na filosofia, pertencia à Escola Estoica, que se baseava em três princípios básicos: a vida moral, a negligência da dor e do prazer e a harmonia com a natureza. Sêneca ocupava-se de uma forma correta de viver a vida. Via o estoicismo como a maior virtude, o que lhe permitiu praticar a imperturbabilidade da alma, denominada ataraxia. Via o cumprimento do dever como um serviço à humanidade e procurava aplicar a sua filosofia de vida cotidianamente. Desse modo, apesar de ser rico, vivia modestamente: bebia apenas água, comia pouco e dormia sobre um colchão duro. Ele não viu nenhuma contradição ente a sua filosofia estoica e a sua riqueza material. Dizia que o sábio não estava obrigado à pobreza, desde que o seu dinheiro tivesse sido ganho de forma honesta. No entanto, deveria ser capaz de abdicar dela. Retirou-se da vida pública em 62 d.C. Entre seus últimos textos estão a compilação científica Naturales quaestiones – problemas naturais, os tratados de tranquilitate animi – Sobre a tranquilidade da alma, De vita beata – Sobre a vida beata. E talvez, sua obra mais profunda, as Epistolae Morales – Tratados morais dirigidas a Lucílio, em que reúne conselhos estoicos, dentro os quais se encontra “Da Brevidade da Vida”. No ano 65d.C., Sêneca foi acusado de ter participado na conspiração de Pisão, na qual o assassinato do imperador Nero teria sido planejado. Sem qualquer julgamento, foi obrigado a cometer suicídio. Na presença dos seus amigos cortou os pulsos, com o ânimo sereno que defendia em sua filosofia. Tácito relatou a morte de Sêneca e da mulher, que também cortou os pulsos. Nero, com medo da repercussão negativa dessa dupla morte, mandou que médicos a tratassem, e ela sobreviveu alguns anos.

I.A maior parte dos homens, Paulino, queixa-se da natureza, culpando-a de que nos tenha criado para viver tão pouco tempo. E que os anos que nos deu corram tão velozmente, que devem ser muito poucos aqueles de quem ela não toma a vida justamente no meio do seu maior esplendor. E não é somente a massa ignorante dos homens que se lamenta deste errôneo julgamento, pois, ao afetar também os excelentes varões cultos, seus efeitos geram os mesmos pesares. Por isso também se originou a seguinte expressão – indigna de um sábio – de Aristóteles: que sendo a idade de alguns animais tão longa, que em alguns chega a cinco séculos e em outros a dez. Ao contrário, tão curta e limitada é a do homem, criado para coisas tão superiores. O tempo que temos não é curto, mas perdendo muito dele, fazemos que o seja, e a vida é suficientemente larga para se fazer coisas grandes, se empregarmos bem. Mas perdemos muito da vida em ócio e em deleites, e não a ocupamos em louváveis exercícios. E quando chega o último momento dela, reconhecemos que se passou muito rápido, sem que tenhamos percebi que caminhávamos. O certo é que a vida que temos não é breve, fazemos, fazemos com que assim seja, e que não somos pobres, e sim pródigos do tempo. Assim como grandes e reais riquezas que, ao chegarem a mãos de maus administradores, dissipam-se em um instante. O contrário ocorre com as curtas e limitadas, caindo nas mãos de bons administradores, pois crescem com o uso. Assim nosso tempo tem muita extensão, se for bem utilizado. II. Por que nos queixamos da Natureza? Ela se mostrou benevolente. Larga é a vida, se soubermos aproveitar. Mas a insaciável avareza domina um. Outro desperdiça seu tempo em trabalhos inúteis, outro se entrega ao vinho ou se entorpece com a ociosidade. Um está muito preocupado com as opiniões alheias, outro percorre diversas terras e mares a comercializar as cobiçadas mercadorias, com esperanças de ganho. Uns são levados pelo desejo de batalhas, sem jamais ficarem cautelosos com os perigos alheios, nem castigados em provocarem tais perigos. Há outros que, voluntariamente sujeitam-se à servidão de superiores. Há muitos que invejam o destino alheio, desprezando o próprio. A grande maioria, por não possuir nenhum objetivo, lança-se em novos projetos levianamente, desmotivando-se e encontrando apenas desgosto. E alguns, não se agradando de ocupação alguma na sua vida, acham-se desmotivados e sem vontade. De tal maneira que, não duvido ser verdade, o que, com previsão de oráculo, disse o maior dos poetas: “Pequena é a parte da vida que vivemos, porque o resto é tempo e não vida”. Por toda parte os prazeres e os vícios cercam os homens, sem dar lugar e nem espaço para que ergam a vista e enxerguem a verdade. Permanecem imersos e presos em paixões e desejos, que dificultam olhar para dentro de si mesmos. E se acaso lhes chega alguma tranquilidade, continuam sendo levados pelas suas ambições e desejos, acontecendo-lhes o que acontece com o mar depois de ter passado a tempestade e os ventos. Ainda ficam alteradas as ondas, sem que jamais adquiram a tranquilidade por não abandonar os desejos. Pensas que falo somente daqueles cujos males são notórios? Põe os olhos em outros, de cuja felicidade se aproximam, e verás que até esses se afogam com seus próprios bens. A riqueza é moléstia para muitos. Quantos não perderam sua tranquilidade preocupados com a eloquência e com a necessidade de demonstrar talento? Quantos não enfraqueceram devido a sua vida de libertinagem? Quantos não possuem muitos súditos, mas nenhuma liberdade? Observa, desde os mais simples aos mais poderosos, e verás que este advoga, o outro assiste. Aquele julga, este defende, ambos se consomem. Observa a vida deles, cujos nomes se celebram, e verás por que são celebrados, que este é reverenciador daquele, aquele do outro, mas nenhum de si. Além disso, não tem fundamento a indignação de alguns que se queixam do desprezo dos superiores, mas eles próprios não os procuram. Quem ousará reclamar da soberba de outro, quando o próprio insatisfeito não dispõe de um momento para si mesmo? O outro, mesmo possuindo um aspecto arrogante e sem nem te conhecer, ouviu tuas palavras e te recebeu junto dele. Tu não levaste em consideração nem a ti mesmo. III. Embora resplandeçam em todas as idades inúmeras expressões de sabedoria nos homens, os sábios não deixarão de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida. E não estando de acordo em estabelecer as fronteiras, por menor que seja, logo os homens pegam em pedras e armas. Por outro lado, não só consentem que outros invadam sua vida, mas também introduzem os invasores nela. Ninguém quer repartir suas riquezas, mas distribuem sua vida com todos: mostram-se mesquinhos em guardar seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justifica a avareza. Queria chamar algum dos anciãos e perguntar: “tendo chegado ao último momento da idade humana, estando perto de cem anos ou mais, vamos calcular a tua existência. Diga-me, quanta parte dela te consumiu o credor, o amigo da República, teus parentes, uma amante? Quanta parte dela foi tirada pelas brigas conjugais, pelos castigos aos escravos, pelo apressado passeio pela cidade? Junta tudo isso e s enfermidades causadas pelas tuas próprias mãos, acrescenta o tempo que se passou em ociosidade, e acharás que tem muito menos do que contas. Traze para a memória, se tiveste algum dia, a firme determinação daquilo que atingiste como objetivos. Que fizeste de ti mesmo? O que fizeste ao longo de tua existência? Quantos te roubaram a vida sem entender que tu a perdias? Há quanto tempo te livraste da vã dor, da ignorante alegria, da faminta cobiça e da inútil conversação? E vendo o pouco que te restou da vida, julgarás que morres infeliz. Abraço. Davi.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

MEDITAÇÃO NO SILÊNCIO

 

Budismo. www.artofliving.org.br. MEDITAÇÃO NO SILÊNCIO. Quando o Budha se tornou esclarecido no dia de Lua Cheia no mês de maio, ele manteve silêncio. Por uma semana inteira ele não disse uma só palavra. A mitologia diz que todos os anjos no céu ficaram assustados e disseram: “uma vez no milênio alguém floresce tão inteiramente como Budha. Agora ele está em silêncio, não está dizendo uma palavra”. Dizem que todos os anjos abordaram Budha e pediram-lhe que dissesse algo, por favor diga algo. Budha disse: “Aqueles que sabem, sabem, mesmo sem minhas palavras, e aqueles que não sabem, não saberão por minhas palavras. Qualquer descrição da vida para um homem é sem utilidade. Aquele que não provou o gosto da ambrósia da existência, da vida, não há por que falar sobre isso com eles. Por isso estou em silêncio”, ele disse. Como você pode transmitir algo tão íntimo, tão pessoal? Palavras não podem. E várias escrituras no passado declararam, “palavras terminam onde começa a verdade”. O argumento foi muito bom. Mas os anjos disseram: “Sim, nós concordamos, o que diz é verdade. Mas, Budha, considere aqueles que estão no limite. Há alguns poucos que estão no meio, nem completamente esclarecidos nem totalmente ignorantes. Para eles, algumas palavras darão um empurrão. Pelo bem deles, diga algo. E todas as suas palavras criam mais barulho, então elas não atingiram seu propósito”. E as palavras do Budha irão definitivamente criar o silêncio, porque ele é a manifestação do silêncio. Silêncio é a fonte da vida, e a cura para doenças. Você deve ter notado que quando as pessoas estão bravas, elas mantêm silêncio. Ou elas gritam muito, e depois ficam em silêncio. Ou quando você está triste e diz: me deixe sozinho. Você mantem-se em silêncio. Você pode facilmente decifrar se alguém está bem ou não. Se estão muito em silêncio, então há algo errado. Se você está triste, fica em silêncio. As pessoas ficam de cabeça baixa e em silêncio. E se você está envergonhado, fica em silêncio. E se você é sábio, se torna silencioso. E quando se confronta com ignorância e questões sem necessidades, se torna silencioso. O que podemos fazer? Quando pediram a Jesus para provar “você é o filho de Deus?, ele ficou em silêncio. Era a coisa mais sábia a se fazer. Quando lhe é pedido para provar algo sobre o qual não há provas, o remédio é o silêncio. Você está com dor na perna e diz a alguém, e perguntaram-lhe: “vamos lá , prove, como posso acreditar? Como você pode provar sua dor? Quando você não pode provar algo como a dor, como poderia provar algo tão íntimo como o esclarecimento, a Divindade? O sábio fica em silêncio. Há um antigo provérbio em sânscrito que diz: “distorção é a base do discurso”. No momento em que você começa a falar, você distorceu. Palavras não podem capturar a existência, mas o silêncio pode. Espaço e silêncio são sinônimos. Alegria e satisfação trazem o silêncio. Desejo traz barulho. Silêncio é a cura, porque em silêncio você volta à raiz; e isso cria alegria. Por isso quando as pessoas estão tristes, ficam em silêncio, e livram-se da tristeza. É suposto que saiam com alegria ou alguma calma, pelo menos. Budha foi a manifestação do silêncio. Seu silêncio veio da saturação, não da falta. Falta cria reclamações e barulho, saturação traz silêncio. Olhe para o barulho na sua mente. É sobre o que? Mais dinheiro, mais fama, mais reconhecimento, satisfação, relacionamento, o barulho sobre alguma coisa. Silêncio é sobre nada. Vê o que eu digo? Silêncio é a base, barulho é a superfície, o externo. Barulho indica falta, necessidade, carência. A vida do Budha não foi de falta, necessidade ou carência. Desde o começo, ele viveu uma vida bastante saturada. Qualquer prazer estaria a seus pés quando ele quisesse. Gautama, Sidhartha viveram a mesma vida, e você diria: como uma pessoa com tantos prazeres e luxúria poderia falar sobre tristeza? O indivíduo tem de experimentar a tristeza, o sofrimento, a miséria no mundo para falar sobre ela. Mas Budha disse o primeiro princípio, primeira verdade que ele descobriu foi, há tristeza. Como ele era sensitivo, saturado de prazeres externos, não havia nada mais para buscar, porque tudo estaria lá. Como você buscaria alguma coisa que já está lá? Todos os prazeres estavam lá. Ele mantinha silêncio desde o começo por que havia saturação. Seu silêncio cresceu da saturação. Mas um dia ele disse: “Eu gostaria de ir e ver como é o mundo”. Essa curiosidade cresceu nele. E quando ele viu alguém doente, alguém velho e morrendo, e alguém morte, esses três eventos foram o suficiente para trazer a ele o conhecimento de que há miséria. Quando ele viu alguém doente, disse: É o suficiente, eu experienciei isso. Um silêncio tão profundo, tão consolidado sozinho pode ser sensitivo. Ver a dor de alguém e refletir totalmente e sentir isso, experienciar isso. Apenas um olhar rápido para um homem velho é um corpo morto foram o suficiente. Budha disse: “não há alegria na vida. Eu já estou morto. Não há significado na vida. Vamos, vamos voltar”. Ele voltou para seu palácio. Nós vemos tantas pessoas morrendo, vemos tanta miséria e permanecemos insensitivos. Por quê? Porque não há silêncio. Somos apanhados na nossa própria pequena ânsia, desejos e aversões. A mente é preenchida com seu próprio barulho. É incapaz de perceber a música da existência. O silêncio é a música dessa existência. Silêncio é o segredo dessa existência. Só um olhar rápido na miséria foi suficiente para Budha começar numa jornada de questionamento. Qual é o propósito da vida? Por que estamos vivendo? O que é o universo? Todas essas questões, as de maior significado, vieram do silêncio da saturação. Então Budha foi atrás da verdade, deixando o palácio, sua esposa e filho. Quanto mais forte o silêncio, mais poderosas serão as questões, também, que crescem de tal silêncio. Nada poderia pará-lo. Então ele escapou. Ele sabia que durante o dia não poderia ir. Então ele escapou do palácio durante a noite, e por muitos anos ele procurou. Ele fez tudo que as pessoas disseram-lhe para fazer, foi de lugar em lugar. Alguém disse “faça jejum”, ele fez. Ele andou por muitos caminhos e finalmente se sentou e descobriu quatro verdades. Dukkha, há miséria no mundo. E há uma causa para infelicidade. Você não pode ser infeliz sem nenhuma razão. Você pode ser feliz com ou sem uma razão, mas não pode ser infeliz sem uma razão. Se você notar, um bebê, uma criança chora apenas quando precisa de leite, ou precisa dormir, ou precisa de algo. Mas quando as necessidades são supridas, a criança fica feliz. Um bebê olhará para os próprios dedos e ficará feliz. Não estará nem mesmo olhando para os dedos. Estará feliz, alegre, porque alegria não precisa de razão. Risos não precisam de piada. Mas a miséria tem uma causa. Quando quer que esteja infeliz, há uma causa para isso. Então Budha disse: A primeira verdade é, há miséria, o mundo é miséria. Quando essa verdade se torna solidificada na mente, na nossa experiência na mente, na nossa experiência, o mundo é miséria, então você é capaz de ver o que está além desse mundo o espírito, que é todo alegria. Há apenas duas possibilidades de aprender na vida. Uma é observar o mundo a nossa volta e conhecer o sofrimento dos outros e práticas fúteis, ou então passar por isso por sua própria experiência, e assim encontrar a miséria. Não terceira possibilidade. Por mais sensitivo que você seja, não precisa passar por isso você mesmo. Pode olhar para aqueles que estão passando por isso e se tornar sábio. Se isso não for possível, não se importe, você vai passar! Você sairá disso completo, mais sábio. É certo! A vida é imortal é só uma questão de aprender a lição, mais cedo ou mais tarde. Há miséria, você não pode negar isso. E há uma causa para isso, a segunda verdade. A terceira verdade, ele diz “é possível eliminar a miséria. Se a miséria é a sua natureza, você não pode eliminá-la. E a quarta verdade, ele disse: Há um caminho para sair da miséria. E ele determinou um caminho que incluía as práticas certas, a meditação certa, tranquilidade certa e o tipo certo de silêncio. Não é o silêncio triste, de raiva, de ódio, o tipo certo de silêncio, o tipo certo de Samadhi ou Nirvana, a visão correta. A mente é silêncio, a fonte da mente é silêncio. É por isso que Budha diz: sem mente. Isso não significa que Budha não estava conversando. Como você pode falar, como pode interagir com as pessoas se não há nenhuma mente? Quando Budha disse “sem mente”, ele não quis dizer daquela cadeia de pensamento que simplesmente percorrem pela sua mente o tempo todo. Budha se manteve em silêncio por várias questões. Um antigo Rishi dizia: fique sem resposta. Toda questão apenas empurra a questão um pouco mais. Toda resposta trás a tona muitas outras questões. Não há final para perguntas e respostas. Isso pode durar para sempre! Você responde a uma questão, isso irá trazer adiante mais outras dez questões. Questões e respostas são o par, o casal. Eles não têm nenhum plano de família. Ele disse, “vá além das questões, seja sem respostas, seu Ser tem a solução para todas as questões”. Transforme todas as questões em admiração. Oh! Você sabe qual é a diferença entre questão e admiração? Uma questão cria violência, admiração cria silêncio. Uma questão está a procura de uma resposta, admiração é outra questão que não está a procura de resposta. Você vê o que estou dizendo? Você quer saber? O que acha disso, eu me pergunto quão bonito é isso? O espanto da admiração não procura por uma resposta. Isso o traz para o silêncio. Um gênio tão inteligente, quando o pedem para pegar uma tigela e mendigar, apenas imagine, qual seria o destino dessas pessoas? Elas se tornam a personificação da compaixão. Observe as sensações, as emoções, e observe sua verdadeira natureza. O que é a verdadeira natureza? Ela é paz, compaixão, amor, afabilidade e alegria. E o silêncio dá origem a tudo isso. Silêncio engole a tristeza, culpa, miséria, e dá origem a alegria, compaixão e amor. É exatamente o que a vida do Budha foi. Ele veio para levar a miséria, a culpa, o medo, a arrogância e trazer de volta a sabedoria, força, beleza, conhecimento e paz. E está disponível para você agora, aqui, em todo lugar. Todo mundo pode aproveitar e examinar o Samsara (ciclo de nascimento, renascimento, sofrimento e morte). http://www.artofliving.org.br. Abraço. Davi.