quarta-feira, 20 de novembro de 2024

CONSAGRAÇÕES E OFERENDAS

Religião Afro-brasileira. Umbanda. Livro Código de Umbanda. Por Rubens Saraceni (1951-2015). CONSAGRAÇÕES E OFERENDAS. Quando um médium vai consagrar sua coroa ao seu Orixá, deve guardar preceito de sete dias se quiser apresentar-se em equilíbrio vibratório e energético diante de seu Orixá Regente. Nesses sete dias, não deve alimentar com carnes de qualquer espécie. Não deve ingerir bebidas alcoólicas. Não deve manter nenhum contato íntimo com o sexo oposto ou relação sexual e deve acender uma vela de sete dias ao seu anjo da guarda e outra ao seu Orixá. Não deve, ainda, entrar em locais de grande aglomeração de pessoas. Deve dormir sozinho e de preferência sobre uma esteira. Deve dedicar uma hora antes de dormir a preces e mentalização de seu Orixá. Não deve emitir pensamentos ou palavras negativas. Deve mesmo fazer seu banho de ervas rituais todos os dias. Deve incensar seu quarto de dormir antes de se deitar. Deve manter sua “esquerda” iluminada com velas pretas, vermelhas e brancas, de preferência, acesas em triângulo. E outros procedimentos mais que seu pai ou mãe no Santo lhe recomendar. Quando o médium só vai oferendar seu Orixá ou algum dos outros Orixás em algum dos pontos de forças da natureza. Deve se abster de contatos sexuais pelo menos nas últimas setenta e duas horas e nas doze horas posteriores. Só depois desse período de isolamento energético está liberado para retomar a rotina em sua vida particular. Isso é necessário para que, quando se apresentar diante do Orixá, não esteja impregnado com as energias que normalmente absorve do sexo oposto. Quando mais o médium estiver puro energeticamente, mais facilmente sintonizará vibratoriamente as irradiações dos Orixás. Para as incorporações que acontecem durante os trabalhos práticos é recomendado em resguardo durante as vinte e quatro horas anteriores aos mesmos. Esses procedimentos visam a desobstruir os pontos de captação de energias e afinizar a vibração do médium em seu padrão pessoal. Outras recomendações preconizadas pela doutrina de Umbanda já estão bastante difundidas e nos dispensamos de as inserir nestes comentários. Mas o fato é que, em se tratando de doutrina, sempre é bom que se saliente o comportamento do indivíduo e o estimule a se sintonizar vibratoriamente com as divindades. Para que uma intensa permuta energética aconteça, tanto durante os trabalhos práticos como durante as oferendas rituais nos pontos de forças da natureza, que é onde mais facilmente absorvemos as irradiações dos Orixás. Bem, já comentamos acerca das divindades as suas atuações dentro do Ritual de Umbanda Sagrada por intermédio das linhas de trabalhos, onde as encontramos veladas por nomes simbólicos. E analisamos os mistérios, tão desconhecidos dos atuais instrutores religiosos, que normalmente recorrem ao termo, mas que, quando perguntados acerca de sua origem, demonstram ignorância a respeito do assunto. Procuramos comentar os aspectos mais relevantes da doutrina de Umbanda visando a despertar no leitor a consciência de que Umbanda é religião. Devendo ser entendida, respeitada e tida como tal, pois todas as divindades atuam nela visando a auxiliar a evolução espiritual da humanidade e a harmonia religiosa na face da terra. Assim, se um dia virem ou ouvirem um guia espiritual manifestando qualquer tipo de preconceito, refutem-no de imediato. Porque com certeza é só um espírito paralisado nos próprios vícios emocionais. A umbanda surgiu por meio de sincretismo religioso e de uma miscigenação racial, espiritual e religiosa. Coordenada pelos sagrados Orixás e implementada, religiosamente, na mente das pessoas pelos espíritos mensageiros dos mistérios de Deus. Que nos ama a todos em geral e a cada um de nós em particular, independentemente de nossa cor, ração ou religião. Portanto, somos todos seus filhos e suas criações. Um saravá da Umbanda a todas as outras religiões ! Um saravá dos umbandistas a todos os seus outros irmãos !. Abraço. Davi. Página 84 ...

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

A RELIGIÃO DO ISLAM. Parte VI

Islamismo. Manual para o Novo Muçulmano. Por Jamaal Zarabozo. A RELIGIÃO DO ISLAM. Parte VI. Uma forte relação entre o Criador e o ser criado As metas e ensinamentos do Islam vão além de qualquer assunto legal deste mundo. O Islam busca criar certo tipo de indivíduo, um indivíduo que tenha uma forte e adequada relação com Allah. Há vários pontos importantes relacionados com esta característica. Primeiro, no islam, o muçulmano tem uma relação direta com Allah. Allah disse: “Quando meus servos te perguntarem de Mim, dize-lhes que estou próximo e ouvirei o rogo do suplicante quando a Mim se dirigir. Que atendam o Meu apelo e que creiam em Mim, a fim de que se encaminhem.” (2:186). “E o vosso Senhor disse: Invocai-Me, que vos atenderei! Em verdade, aqueles que se ensoberbecerem, ao Me invocarem, entrarão, humilhados, no inferno.” (40:60). Portanto, não existe nenhuma classe sacerdotal no Islam. A pessoa ora diretamente a Deus, sem nenhum intermediário. Quando um muçulmano busca o perdão, busca diretamente de Deus, sem que nenhum ser humano lhe diga se seu arrependimento é suficiente ou se será aceito por Deus. Quando um muçulmano necessita algo, recorre diretamente a Deus, sem que tenha que depositar sua confiança em outro que não seja Ele. Quando um muçulmano quer ler a revelação e orientação de Deus, lê o Qur’an e a Sunnah, podendo lê-los ele próprio. Não é necessário recorrer a semideuses ou clero. Tudo ocorre entre a pessoa e seu Senhor. Esta relação direta com Allah dá muita segurança e confiança. Não existe ninguém, afora Allah, a quem a pessoa adore e ninguém que possa interferir nesta adoração a Allah. De qualquer forma, Allah está disponível e o indivíduo pode recorrer a Ele em qualquer momento para pedir-lhe ajuda, orientação ou perdão. Esta relação direta com Allah se estende a todos os atos praticados pela pessoa. O muçulmano sabe que Allah não somente vê suas ações exteriores, como também está totalmente inteirado de todas as intenções e sentimentos que há em seu coração. Por isso, devido a esta relação direta com Allah, o muçulmano tenta realizar todos os atos com o intuito de agradar a Allah. Desta maneira, a atividade mais mundana pode se converter em um ato que agrade a Deus, caso seja feito com as condições corretas do coração. O muçulmano começa seu dia através de sua relação próxima com seu Senhor, assegurando-se de que realiza atos que são permissíveis ante o Senhor. Esse é o objetivo e a intenção do muçulmano, pois este é consciente disto e sabe que compraz a Allah mesmo com a mais simples das ações. Assim, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Tudo o que for gasto em nome de Allah será recompensado, ainda que seja um bocado que ponhas na boca de sua esposa.” (Bukhari). Quando a pessoa entende este conceito da sua proximidade com Deus e a capacidade de transformar as atividades mundanas em atos que agradem a Deus, mudam por completo seu ponto de vista e comportamento. Começa-se a realizar cada ato de forma diferente, consciente de que o faz em nome de Deus. Lamentavelmente muitas pessoas neste mundo se esquecem, por completo desse ponto.

Em seu livro Madaariy as Saalikin, Ibn Qaiim disse: “O grupo mais seleto de pessoas que se aproximam de Allah são aquelas que mudam a natureza de seus atos permitidos, convertendo-os em atos de obediência a Allah... As ações cotidianas daquelas pessoas que verdadeiramente conhecem a Allah são (para elas) atos de adoração, enquanto que os atos de adoração são ações cotidianas para as massas.” O que é dito é muito certo. Desafortunadamente, muitas pessoas encaram as orações, o jejum e outros atos de adoração como simples ações cotidianas que devem ser feitas apenas por serem parte da cultura ou da forma de vida. Não têm uma intenção forte em seu coração ou um sentimento que estão a fazê-lo por Allah. Se a qualidade do ato é pobre, não lhes interessa muito porque o fazem apenas para se livrarem dele. Assim, esses importantes rituais de adoração se transformam em costumes sem nenhum significado ou efeito para estas pessoas. Aquele que verdadeiramente conhece a Allah está no extremo oposto. Incluindo a mais “mundana” das ações que realiza está cheia de intenção e vontade. Dessa maneira, converte-se em ato de adoração que agrada a Allah. Por exemplo, quando uma pessoa vai dormir e o faz com a intenção de recuperar as energias para continuar trabalhando por Allah. Assim, seu sono se converte em um ato de adoração a Allah. Na realidade, pode-se levar este assunto a um passo além. Disse Allah, no Qur’an: “Ele está sempre atendendo aos assuntos de Sua criação.” (55:29). Em outras palavras, a todo o momento Allah está criando, distribuindo, provendo, dando vida e morte etc. sem dúvida, em geral, o indivíduo não vê a Allah por trás dessas ações que o rodeiam. A pessoa, hoje em dia, perdeu a sensibilidade e crê que todas essas coisas acontecem por sua causa ou por alguma lei independente da natureza. Isso, na realidade, não está certo. Essas “leis da natureza” não são mais que a atividade de Allah em todo lugar ou tempo. Em muitas passagens do Qur’an, Allah pede aos seres humanos que observem o cosmos que os rodeia. Por exemplo, Allah menciona a pequena abelha ou o movimento das sombras. Muhammad Qutb sustenta que o objetivo de Allah não é dar uma lição sobre estes pontos. Estão ali apenas para despertar o ser humano e fazê-lo entender sobre o que realmente acontece e unir seu coração e suas atividades cotidianas ao seu Senhor e Criador. Qutb disse: “a concentração da humanidade na causa aparente distrai as pessoas de ver a realidade maior por trás: a vontade de Allah que, se diz a algo “Sê”, assim é. Ignoram esta vontade maior e denominam “leis da natureza” às leis [de Allah] e dizem que são fixas e inevitáveis. Ficam estupefatos com essas experiências limitadas e, portanto, Allah se afasta de seus corações. E, então, é quando trazemos a expressão qu'rânica “trazendo-os novamente a Allah”... a ciência nos diz, baseada nas causas externas que observamos, que a existência do sol e a rotação da terra ao seu redor são a causa do “movimento” das sombras. Mas a expressão qu'rânica nos diz que é a vontade de Allah que move as sombras, em primeiro lugar e logo o sol é localizado como uma orientação para a sombra. Assim, a causa aparente não é a fonte original, senão que vem depois... De fato, vem depois, através da palavra “então”, depois que Allah já havia decidido sobre aquele assunto, mediante Sua vontade, ordenando a algo que fosse.” De fato, afirma Qutb, o resultado deste enfoque qu'rânico é muito claro. Na realidade, o conhecimento que se tem, por exemplo da abelha ou da sombra, não muda ao se ler os versículos do Qur’an, naqueles trechos que Allah os menciona. O conhecimento próprio não muda, mas sim, muda a pessoa, afirma Qutb. Assim ele escreveu: “Acaso a informação que vocês têm sobre as sombras ou as abelhas muda quando lêem estes versículos? A informação em si não é nova. Já era conhecida de antemão. Sem dúvidas, era um conhecimento morto, frio, inerte, uma informação que não comovia. Mas, o Qur’an traz esta informação e apresenta-a em um entorno emotivo, de forma milagrosa e de tal maneira que muda a perspectiva da pessoa como se não fosse o que já conhecíamos anteriormente. A informação não mudou, senão nós fomos os que mudamos...” Para o novo muçulmano, esta pode ser uma maneira totalmente nova de ver o mundo e fazer alguns ajustes. Muitos não muçulmanos não vêem a participação de Deus neste mundo e, portanto, não sentem uma relação direta com Deus. À medida que o novo muçulmano analisa mais profundamente o Qur’an esse sentimento se desenvolve mais. Verá a obra de Allah em tudo que o rodeia. Isto o fará recordar de Allah, então ele não mais ignorará a obrigação que tem para com Ele. Com a graça de Deus, levará sua vida de forma muito diferente à que levava antes de sua conversão ao Islam. - Ordenar o bem e erradicar o mal O Islam não é uma religião onde se purifica a alma ao mesmo tempo em que se ignora ou deixa de ajudar aos que também possam estar no caminho da purificação. Como se tratará adiante, o Islam destaca a relação adequada entre os diferentes agentes da sociedade. Uma das interações mais importantes entre os indivíduos é a de ordenar ou fomentar o bem e proibir ou evitar o mal. É parte da verdadeira irmandade, querer ajudar os outros a fazer o correto. Também é definitivamente parte da irmandade, corrigir ou aconselhar aqueles que fazem algo que não agrade a Allah. Assim, no Qur’an, Allah relaciona o conceito de irmandade verdadeira, amizade e ajuda mútua diretamente ao princípio de se ordenar o bem e proibir o mal. Allah disse: “Os fiéis e as fiéis são protetores uns dos outros; recomendam o bem, proíbem o ilícito, praticam a oração, pagam o zakat, e obedecem a Deus e ao Seu Mensageiro. Deus Se compadecerá deles porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo.” (9:71). Mas temei a Deus, porque Deus é severíssimo no castigo.” (5:2). De fato, Allah deixa claro que fomentar o bem e evitar o mal deve ser uma das características sobressalentes de toda a comunidade islâmica no mundo: “Sois a melhor nação que surgiu na humanidade, porque recomendais o bem, proibis o ilícito e credes em Deus...” (3:110). Não se trata de uma “forma opcional” de comportamento. É parte necessária da fé e da atitude da pessoa. É parte fundamental do que implica pertencer a uma comunidade. Um indivíduo tem direitos sobre os outros como também obrigações para com eles. Cuidar do próximo e ajudar uns aos outros é essencial, especialmente para aqueles que estão em posição de autoridade ou cujas vozes são ouvidas. Por isso o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) informou aos muçulmanos: “Por Aquele em cujas mãos está minha alma, devem ordenar o bem e proibir o mal ou Allah vos enviará um castigo imediato, então, supliquem-No e Ele responderá.” Em uma bela parábola registrada por al Bukhari, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mostrou a importância desta prática para a sociedade como um todo: “A semelhança daquele que cumpre o mandamento de Allah [erradicando mal] e daquele que cai no que Allah proibiu é como pessoas em um barco. Alguns tomaram os assentos do nível superior e outros permaneceram na parte inferior. Cada vez que os que estavam embaixo queriam água tinham que recorrer aos que estavam em cima para buscá-la. Então, disseram: ‘se fizéssemos um furo no fundo do barco não teríamos que perturbar os que estão em cima’. Entretanto se os de cima deixassem que fosse feito o que queriam, todos estariam perdidos. De outra forma, se os impedissem com suas mãos [de fazer o que planejavam], salvariam a todos e assim se salvaram.” Muitas vezes as pessoas querem se afastar do mal, mas precisam de ajuda para fazê-lo. Necessitam verdadeiros amigos que cumpram a função de grupo de apoio. Algumas pessoas não têm força suficiente para se afastar das atividades as quais sabem que são más, especialmente se há pressão de seus parceiros para praticá-las. Com a ajuda de outros que entendam esse tipo de situação e que realmente queiram fazer o correto, então, é mais fácil reunir a coragem para apontar as más atividades. Da mesma forma, há quem seja preguiçoso e, por isso, falte-lhe motivação para fazer o que deve ser feito. Novamente, com a ajuda sincera ou o alento dos que a rodeiam, a pessoa encontra força para tal. Se as pessoas fossem individualistas e só se preocupassem consigo mesmas, sem ajudar os demais, seria um verdadeiro desastre social. Os que fazem mal dominariam e acossariam os outros. De fato, muitos bairros norte-americanos, por exemplo, conscientizaram-se que teriam que se unir para proporcionar coisas boas e eliminar as ruins, do contrário, suas regiões acabariam sendo destruídas por vândalos. Obviamente, ninguém está livre de pecado e, portanto, este princípio de fomentar o bem e evitar o mal não significa que a pessoa tenha que ser perfeita antes de falar aos demais sobre o comportamento deles. com certeza, fomentar o bem e proibir o mal, logicamente, deveria começar consigo próprio. A pessoa deve praticar o bem e evitar o mal. Dessa maneira, damos um exemplo aos demais e aumentamos as possibilidades de que nossos conselhos sejam levados em conta. Não obstante, mesmo que uma pessoa tenha defeitos, deve incentivar que o outros pratiquem o bem e desestimular que pratiquem o mal. Cabe destacar que existem várias condições para colocar em prática o ato de fomentar o bem e proibir o mal. Por exemplo, uma condição é que se deva conhecer o que é bom e o que é mal, segundo o Qur’an e a Sunnah. É possível que alguém, por ignorância, incentive o outro a fazer algo que na realidade não é parte da Sunnah. Para o novo muçulmano em particular, é possível que em repetidas ocasiões digam-lhe o que fazer ou não fazer. Página 66. Abraço. Davi.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Capítulo II Parte II

Cristianismo. Livro Catecismo da Igreja Católica. Capítulo II. Parte II. A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA. Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” I Timóteo 2,4, isto é, de Jesus Cristo. É preciso, pois, que Cristo seja anunciado a todos os povos e a todos os homens e que, desta forma, a Revelação chegue até aos confins do mundo. “Deus dispôs amorosamente que permanecesse íntegro e fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos”. 1. A tradição apostólica. “Cristo Senhor, no qual se cumpre toda a Revelação do sumo Deus, ordenou aos Apóstolos, que anunciassem a todos o Evangelho, o qual, antes prometido pelos profetas, ele próprio cumpriu e promulgou por sua palavra, como fonte de toda verdade salvífica e toda regra moral”. A Pregação Apostólica. A transmissão do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras: Oralmente – pelos apóstolos que, na pregação oral, por exemplos e ações, transmitiram aquelas coisas que ou receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo. Por escrito – como também por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob inspiração do mesmo Espírito Santo, puseram por escrito a mensagem da salvação. Continuação na sucessão apostólica. Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram como sucessores os Bispos, a eles “transmitindo seu próprio encargo de magistério”. Com efeito, a pregação apostólica, expressa de modo especial nos livros inspirados, deve ser conservada por sucessão contínua até a consumação dos tempos. Esta transmissão viva, realizada no Espírito Santo, é chamada de Tradição, porquanto distinta da Sagrada Escritura, embora intimamente ligada a ela. Por meio da Tradição, a Igreja em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo em que crê. O ensinamento dos Santos Padres testemunha a presença vivificante desta tradição, cujas riquezas se difundem na prática e na vida da Igreja crente e orante. Assim, a comunicação que o Pai fez de si mesmo por seu Verbo no Espírito Santo permanece presente e atuante na Igreja. “O Deus que outrora falou mantém permanente diálogo com a esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo. Por meio do qual a voz viva do Evangelho ressoa  na Igreja e através dela no mundo, leva os crentes  à verdade toda e faz habitar neles abundantemente a palavra de Cristo. 2. A relação entre a tradição e a Sagrada Escritura. Uma fonte comum. A Tradição e a Sagrada Escritura estão entre si estreitamente unidas e em comunicação, pois, provindo ambas da mesma fonte divina, formam, de certo modo, um só todo, tendendo para o mesmo fim. Tanto uma como outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de Cristo, que prometeu permanecer com os seus “todos os dias, até o fim dos tempos” Mateus 28,20. Duas modalidades distintas de transmissão. A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus, por ser redigida sob a moção do Espírito Santo. Quanto à Sagrada Tradição, ela transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos para que. Sob a luz do Espírito da verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem, exponham e difundam. Daí resulta que a Igreja, à qual estão confiadas a transmissão e a interpretação da Revelação, não deriva sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado somente da Sagrada Escritura. Por isso, ambas devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência. Tradição Apostólica e Tradições Eclésias. A Tradição da qual aqui falamos é a que vem dos Apóstolos e transmite o que estes receberam do ensinamento e do exemplo de Jesus e o que receberam por meio do Espírito Santo. Com efeito, a primeira geração de cristãos ainda não dispunha de um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento atesta o processo da Tradição viva. Dela é preciso distinguir as “tradições” teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais surgidas, ao longo do tempo, nas Igreja locais. Constituem elas formas particulares sob as quais a grande tradição recebe expressões adaptadas aos diversos lugares e as diversas épocas. A luz da grande Tradição, elas podem ser mantidas, modificadas ou mesmo abandonadas, sob a guia do Magistério da Igreja. 3. A interpretação do depósito da fé. O depósito da fé confiado a totalidade da Igreja. O patrimônio sagrado da fé (depositum fidei), contido na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura, foi confiado pelos Apóstolos a totalidade da Igreja. Apegando-se firmemente a ele, o povo santo todo, unido a seus Pastores, persevere continuamente na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fração do pão e nas orações. De modo que, na conservação, no exercício e na profissão da fé transmitida, se crie singular unidade de espírito entre os Bispos e os fiéis. O magistério da Igreja. O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao magistério vivo da Igreja. Cuja autoridade é exercida por Jesus Cristo, isto é, foi confiado aos Bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma. Todavia, tal magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serviço dela. Não ensinando senão o que foi transmitido, no sentido de que, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, piedosamente ausculta aquela palavra. Santamente a guarda e fielmente a expõe e, deste único depósito de fé, obtém tudo o que nos propõe para ser acreditado como divinamente revelado. Os fiéis, lembrando-se da palavra de Cristo a seus Apóstolos – “Quem vos escuta, a mim escuta” Lucas 10,16 recebem com docilidade os ensinamentos e as diretrizes que seus Pastores lhes dão sob diferentes formas. Os dogmas da fé. O magistério da Igreja empenha plenamente a autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando, utilizando uma forma que obriga o povo cristão a adesão irrevogável de fé, propõe verdades contidas na revelação divina ou verdades que com estas têm necessária conexão. Há uma conexão orgânica entre nossa vida espiritual e os dogmas. Os dogmas são luzes no caminho de nossa fé que o iluminam e tornam seguro. Na verdade, se nossa vida for reta, nossa inteligência e nosso coração estarão abertos para acolher a luz dos dogmas da fé. Os laços mútuos e a coerência dos dogmas ser encontrados no conjunto da revelação do Mistério de Cristo. Existe uma ordem ou hierarquia das verdades da doutrina católica, já que seu nexo com o fundamento da fé cristã é diferente. Senso sobrenatural da fé. Todos os fiéis participam da compreensão e da transmissão da verdade revelada. Receberam a unção do Espírito Santo, que os instrui e os conduz à verdade em sua totalidade. O conjunto dos fiéis (...) não pode enganar-se no ato de fé. Ele manifesta esta sua peculiar propriedade mediante o senso sobrenatural da fé de todo o povo, quando, desde os Bispos até o último dos fiéis leigos, apresenta consenso universal sobre questões de fé e de costumes. Por este senso da fé, suscitado e sustentado pelo Espírito da verdade, o Povo de Deus, sob a direção do sagrado Magistério (...) adere indefectivelmente a fé uma vez para sempre profundamente e mais plenamente a aplica em sua vida. O crescimento na compreensão da fé. Graças à assistência do Espírito Santo, a compreensão tanto das realidades como das palavras do depósito da fé pode crescer na vida da Igreja. Pela contemplação e pelo estudo dos que creem, os quais as meditam em seu coração, é em especial a pesquisa teológica que aprofunda o conhecimento da verdade revelada. Fica, portanto, claro que, segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de modo entrelaçados e unidos que um não tem consistência sem os outros. E que, juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas. Resumindo. O que Cristo confiou dos Apóstolos, estes o transmitiram por sua pregação e por escrito, sob inspiração do Espírito Santo, a todas as gerações, até a volta gloriosa de Cristo. A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só sagrado depósito da Palavra de Deus, no qual, como em um espelho, a Igreja peregrina contempla a Deus, fonte de todas as suas riquezas. Em sua doutrina, vida e culto, a Igreja perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê. Graças a seu senso sobrenatural da fé, o Povo de Deus inteiro não cessa de acolher o dom da revelação divina, de penetrá-lo mais profundamente e viver dele com mais plenitude. O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado exclusivamente ao Magistério da Igreja, ao Papa e aos Bispos em comunhão com ele. Abraço. Davi.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

ENCONTRANDO A MORTE COMO A UM AMIGO. Parte II

Espiritualidade. Livro em Busca da Sabedoria. Por N. Sri Ram (1889-1973). ENCONTRANDO A MORTE COMO A UM AMIGO. Parte II. Alguns estudiosos interpretam as palavras gregas como significando “a Filosofia constitui realmente uma meditação sobre a morte”. O que não se parece estar em consonância com a maneira natural com que Sócrates a compreende. Outra colocação e muito mais compreensível, ou seja, quando a vida for vivida de forma adequada. Direcionada para aquelas finalidades que constituem as da alma, não os desejos do corpo, então a filosofia ou a “vida de um filósofo nada mais é senão um longo ensaio para o processo da morte”. Pode-se viver uma vida feliz, contudo pode também ser um processo de morte, que poderá necessitar de explicações. Sócrates adianta que as multidões, o povoem geral, ignoram o sentido no qual o filósofo recebe a morte. Não significa que ele deseje livrar-se do corpo, todavia que ele tem um sentimento acolhedor em relação a morte. Tem esse sentimento porque não atribui grande valor as gratificações dos apetites físicos. A maioria dos homens estima o valor das coisas através do prazer que proporcionam, porém, o objetivo do filósofo é o de libertar-se tanto quanto possível da dominação do corpo. Esforça-se para cultivar a alma, dando atenção àqueles assuntos que são de interesse da alma como a verdade, a virtude e assim por diante. A proceder desta maneira, já se separou do seu corpo. E como abandonou todo o apego aos prazeres que se apresenta à pessoa através do corpo, a morte nada mais é senão uma saída por uma porta aberta. As coisas que alimentam a alma são aquilo que é direito, bom, verdadeiro, belo e assim por diante. Disse Sócrates: “Aquele que não se preocupa com os prazeres do corpo quase chega à morte”. Pode-se usufruir os prazeres que surgem momentaneamente, mas não se deve desejá-los com ansiedade. Alijando os do campo das preocupações e interesses, quase se chega a morte. É neste sentido que o filósofo deseja a morte, mesmo enquanto está vivo. Isto é semelhante ao ensinamento de Jiddu Krishnamurti (1895-1986), embora ele não fale da morte como uma saída bem-vinda. No entanto, de morrer aqui e agora para o nosso passado e para toda a experiência na medida em que surge. O filósofo, cujo interesse está centralizado na virtude e sabedoria, purifica, assim, a sua inteligência, de maneira que ela está livre de toda a mácula, de todo elemento a ele estranho. É a purificação da natureza integral do ser humano que faz florescer a independência espiritual. Está é a verdadeira liberdade ou Mukti. Mukti não é literalmente uma fusão no Logos. Antes que possa processar-se a fusão do espírito humano no Logos, o homem terá de libertar-se de seus laços ou apegos. Para expressar a mesma verdade de outra forma: é realmente o abandono do passado da pessoa, de todos os apegos que dele surgem, que transforma o homem em um novo ser. A entidade que está atualmente funcionando é uma criatura do passado. Ela vem acompanhando uma linha de continuidade e tem dentro de sua natureza e constituição muitas coisas que derivaram do seu passado e de suas experiências. Transformar-se num novo ser é estar limpo do passado, de modo que ele não mais domina, obscurece ou dirige o presente. Esta forma de morrer torna a vida realmente muito mais vital, menos embaraçada e oprimida, de maneira que todas as percepções são mais exatas. A inteligência passa a ser intensa, concentrada e semelhante a uma chama. É em um estado de pureza interna que a pessoa atinge a mais alta qualidade no funcionamento de todos os aspectos do seu ser. Toda a substância em seu estado puro exibe a sua potência plena. Casualmente foi feita a afirmação de que a filosofia é a música de mais alta qualidade. Sócrates disse que tinha um sonho persistente no qual lhe ordenavam dedicar-se à música, e como ele compreendia ser a filosofia a música, e como ele entendia ser a filosofia a música mais elevada estava dedicando-se a ela. O conceito de ser a filosofia a forma mais elevada de música torna-se mais claro a luz da afirmação feita anteriormente com relação à natureza da alma com sendo uma forma de harmonia. A objeção anteriormente formulada de que ao ser avariado o instrumento não pode mais haver qualquer música. Foi respondida por Sócrates com a observação de que a alma pode existir, embora ela possa ou não ter um instrumento. É bastante interessante que, em uma das palestras feitas pela doutora Annie Besant (1847-1933), em seus dias de ateísta, ela usava precisamente este exemplo. Ela dizia que embora a lira possa estar avariada, a música pode ainda existir. Como razão de estar disposto a morrer, Sócrates comentou que estaríamos muito bem no local para onde iríamos, sob a orientação de bons Mestres e em meio a amigos. As pessoas gostam de encontrar-se em ambientes que lhes são familiares. Se um homem realmente dedicou sua vida a filosofia, ele pode estar certo de que será bem colocado. Estará feliz em proporção à pureza de sua mente, o que também constitui uma verdade importante. A felicidade não deve ser confundida com prazer, ela se origina da pureza da mente e do coração e surge de forma natural. Não precisamos procurá-la de modo algum. Assim, Sócrates disse que, se um homem se dedicou à virtude e à sabedoria, poderá nutrir a esperança bem fundamentada de que estará cercado pela maior benevolência no outro mundo. O que está de acordo com os ensinamentos teosóficos. Foi feita uma outra observação digna de ser mencionada. Se algum dia chegarmos a conhecer a natureza de algo em sua essência, conhecer a sua realidade autêntica e não meramente a forma, a aparência, o invólucro externo. Teremos de estar separados do corpo e contemplar as próprias coisas em si através da alma apenas. É somente a visão da alma, a sabedoria da alma, que pode proporcionar a essência da verdade com relação a qualquer coisa existente. O Bhagavad Gita refere-se aos “conhecedores da essência das coisas”, sendo a qualidade essencial de uma coisa aquilo que a torna diferente de qualquer outra coisa. A essência, o objeto em si mesmo, apenas pode ser conhecido através da alma e jamais através dos sentidos. Quando vivemos, nos aproximamos mais do conhecimento daquela essência ao não mantermos comunicação ou comunhão de espécie alguma com o corpo. Exceto para as necessidades absolutas, isto é, quando deixamos de ser dependentes do corpo, influenciados pelos seus apetites, impulsos e paixões. Em outras palavras, todo o esforço e estudo na filosofia, segundo a acepção antiga da palavra, implica na entrega e separação da alma do corpo. Isso pode ser tentado e logrado até mesmo enquanto a pessoa estiver vivendo neste mundo. Não é algo que precisa realizar-se por um processo da natureza, mas pode ser atingido pela própria inteligência perspicaz da pessoa. Quando há liberdade de dependência do corpo, quando esta mudança se realiza em sua plenitude, então a morte e a vida são a mesma coisa para o homem real. Sendo o homem real a alma, não lhe faz diferença se vive ou se morre. Isso também nos faz lembrar a frase contida no Gita que diz que> “Os sábios não lamentam nem os vivos e nem os mortos”. Isto significa que existe a possibilidade de alcançar uma condição ou estado interior no qual a vida é exatamente a mesma coisa, se vivida no corpo físico, que foi chamado de prisão, ou fora dela. A alma usa o corpo como instrumento, sem ele se apegar. Esse Diálogo específico está repleto de ideias esclarecedoras para todos aqueles que tentam compreender estes assuntos. A natureza da alma, da vida neste mundo, os objetivos mais dignos porque se esforçar, o novo significado que a morte pode adquirir. A possibilidade de enfrentar este acontecimento com frieza e até mesmo de bem acolhê-lo. Abraço. Davi.

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

ENCONTRANDO A MORTE COMO A UM AMIGO. Parte I

Espiritualidade. Livro Em Busca da Sabedoria. Por N. Sri Ram (1889-1973). ENCONTRANDO A MORTE COMO A UM AMIGO. Parte I. Um dos diálogos mais famosos de Platão (428 a.C. 347), que atrai mais atenção que outro, é aquele em que ele relata a morte de Sócrates (470 a.C.399). Havia alguns amigos presentes durante o dia em cuja noite deu-se a sua passagem. Esse Diálogo apresenta-se em forma de uma conversa que se realizou naquele último dia. Começou com argumentos sobre a preexistência da alma, e várias ideias foram abordadas com relação à sua natureza. Esta parte da discussão termina com a afirmação da imortalidade da alma. Até mesmo nos dias de hoje, parece-me que vale a pena considerar os pontos que foram então discutidos. Quando os seus amigos entraram no cárcere, viram Sócrates esfregando a sua perna que acabar de ser liberta dos grilhões. O ponto notável sobre a sua conduta, quando encontrou os seus amigos, foi que ele não fez qualquer queixa, não havia o menor indício de lamento sobre sua própria condição. Apenas teceu considerações sobre a extraordinária alternância e conexão entre o prazer e a dor na vida. Disse que até então tinha havido uma experiência de dor, mas agora que estava livre dos grilhões houve imediatamente prazer. Se qualquer um de nós tivesse estado na sua situação, pergunto-me sobre que tipo de sentimentos ou pensamentos teríamos tido. Naturalmente, Sócrates estava antevendo sua morte. A conversa então prossegue, e várias ideias são trocadas. Quando se aproxima a noite, ele recebeu a taça de veneno que beberia, pronta e calmamente, segundo se diz, da maneira mais descontraída e tranquila possível. Quando o veneno começa a fazer efeito, Sócrates friamente descreve o avanço da morte sobre o seu corpo, a partir dos pés, etapa por etapa. É uma cena bastante extraordinária, não há registro de qualquer evento desta espécie. Aparentemente a conversa continuou durante horas a fio. Depois de debater sobre a natureza da alma, Sócrates explica sobre as finalidades procuradas pelo verdadeiro filósofo e porque a morte lhe é bem-vinda. As declarações feitas não são asserções, mas meramente uma discussão sobre ideias, sobre possibilidades e inferências a serem delas feitas. Um dos amigos de Sócrates sugeriu que a alma pode ser concebida com sendo da natureza da harmonia. Se o corpo pode ser comprado com uma lira ou alaúde, por exemplo, a alma poderia ser a música produzida. Esta visão – embora atribua à alma uma dignidade e natureza que podem possuir tanto profundidade quanto beleza – não lhe outorga um status independente. A visão apresentada parecia propor aquilo que se poderia denominar de teoria epifenomenlista, ou seja, o corpo é a realidade. Várias atitudes nele se desenrolam, particularmente as do cérebro, e a alma, embora possuindo uma natureza de harmonia, é meramente um produto daquelas atividades. Talvez apenas daquelas dentre elas que poderiam conduzir a este resultado. Mas quando o instrumento estivesse danificado, não mais haveria música. Não houve objeções nestas linhas. Outra ideia colocada, de natureza similar, sugeria a analogia mecânica de um fogo. Poder-se-ia encarar o fogo como a consciência no homem, animando o corpo, uma vez dissolvido o corpo, o fogo está extinto. Essa ideia é como o pensamento da Escola Meridional de Budismo, mas eles provavelmente diriam que é um fogo misturado com a fumaça, que é dissipada. Esses argumentos não são destituídos de interesse. Quando consideramos como as coisas poderiam ser, se determinado ponto de vista se justifica, qual a visão que pode ser razoavelmente defendida. Então a passagem por esta linha de pensamento não está destituída de um elemento instrutivo e de valor. Na natureza ocorrem tantas coisas, como o nascer e o pôr do sol, de uma maneira que é contrária aos fatos. A justificativa de que a alma ou a mente, por enquanto colocando-as juntas, é meramente uma espécie de imagem refletida das atividades no campo material do cérebro. Embora plausível, pode também ser contraditório em relação aos fatos. O que inicialmente parece ocorrer, à primeira vista, pode não ser a verdade básica ou subjacente. Sócrates vence as objeções à ideia da imortalidade da alma. Na realidade, em outro Diálogo, Platão destaca estas objeções, marcando-as como constituindo a raiz de toda a forma “irreligiosa de filosofia”. Embora ele fosse tão lógico que poderia não ter assumido que o que é aparentemente verdadeiro é religioso. O que é verdadeiro pode ser considerado religioso, mas aquilo que está de acordo com a religião como ela se apresenta pode não ser verdadeiro. As alegações feitas quanto à preexistência da alma são ideias que desde então se tornaram famosas como parte da Filosofia Platônica. Houve referência a antiga crença de que uma alma nascida neste mundo, voltou de outro mundo para o qual o homem vai na morte. É claro que este é um conceito amplamente aceito na Índia, mas ele também existiu no pensamento antigo em outros povos. A sugestão foi no sentido de que os mortos se originam dos vivos. Os vivos se originam dos mortos. É um fenômeno de ocorrência cíclica como o sono, o estar acordado, e o sono novamente. Está de acordo com a verdade ou regra na natureza de que os opostos se geram reciprocamente. Morrer e nascer constituem um par de opostos. Mas, aparentemente, não houve uma investigação mais profunda sobre a forma de sua ligação, de sorte que um acontecimento dá origem ao outro em seu curso. Platão tinha uma forma de, às vezes, lançar uma ideia profundamente sugestiva e envolvente pra depois deixar que outros continuassem a investigá-la por si mesmos. Outro argumento referiu-se a uma ideia que Sócrates havia anteriormente proposto, no sentido de que todo o conhecimento real é reminiscência, uma lembrança no cérebro físico. A alma deve ter existido e deve ter tido conhecimento de uma natureza específica, antes de ter sido unida com o corpo, e a evidência disso e o fato de compreendermos coisas como justiça, beleza, igualdade de espírito e assim por diante. Essas ideias não se originarem de percepções dos sentidos. Portanto, elas devem já ter estado integradas no conhecimento da alma. As percepções, ouvir sons, ver que algo é vermelho ou preto, que outra coisa é alta ou baixa, todas são ideias comparativas. Meramente baseado nessas percepções não se pode desenvolver ideias de beleza, justiça, moralidade e assim por diante. Desse modo, conhecimento e ideias devem ter uma fonte diferente. Além disso, se a alma existiu antes do nascimento e de forma independente, então, ela não pode morrer com o corpo. Sócrates também expressou a opinião de que a alma não pode ter uma natureza constituída de vários fatores, pois, assim, a sua condição modificar-se-ia. Deve ter uma natureza que é imutável. Muito embora uma alma possa estar mais desenvolvida do que outra, a sua natureza essencial deve ser a mesma. Um conjunto de fatores variáveis é passível de mudança, ao passo que aquilo que é simples, monádico – referente a mônada – essencialmente terá de permanecer o mesmo. Foi também feita a declaração de que sejam quais forem os seus outros atributos, a alma deve ter uma natureza de vida. Não pode ser uma abstração, uma projeção mental. Esta vinculação da vida e da alma, obviamente importante na série de ideias expostas, estava oculta pela afirmação de que a alma deve ser da mesma natureza da Divindade para assegura a crença na sua imortalidade. Apenas o Divino pode ser imortal, e aquilo que não é Divino deve ser mortal. Depois, Sócrates exorta seus amigos a adquirirem virtudes e sabedoria nesta vida. O momento de sua morte estava se aproximando, mas ele continuava a falar de maneira natural e fácil como o fizera em qualquer outro dia de sua vida. Disse ele: “O filósofo autêntico é aquele cuja mente está direcionada para a verdade e a virtude”. A palavra “filósofo”, bem como a palavra “filosofia” tornaram-se bastante modificadas em seu significado desde aqueles dias. Atualmente, achamos que um filósofo é uma pessoa que analisa e argumenta extensamente, e as vezes, infinitamente sua tese específica. A vida que ele leva nada tem a ver com a sua habilidade e atividade intelectual. Mas não era esta a visão de então. No significado literal da palavra, filosofia é amor à verdade, e amor que sempre implica ação. A verdade, se sua natureza for tal que evoque o amor, terá de produzir uma mudança importante na pessoa, voltando o seu interesse das coisas dos sentidos, que são efêmeras. Constituindo nada mais senão gozo e prazer, para as coisas nobres e autênticas. Este foi o antigo conceito de um filósofo. Como a sua mente está direcionada para a verdade e a sabedoria, o filósofo, disse Sócrates, é uma pessoa que “está disposta e pronta para morrer”. Sendo assim, a morte não é mal-recebida por ele. É assim que ele explicou o seu contentamento sobre a perspectiva de partir deste mundo. Mas ele também disse que não é certo cometer suicídio. A sua explicação contra o suicídio é bastante curiosa: Neste mundo, estamos em um tipo de prisão, vivendo sob grandes limitações. É um mundo no qual predomina mais a ignorância do que a sabedoria. Todavia dele não devemos escapar antes de recebermos permissão para fazê-lo. A saída da prisão pode ser muito bem-vinda, porém não devemos nos evadir dela por nossa própria iniciativa. Também foi feita a afirmação de que ninguém possui direito de posse sobre o seu corpo. Esta não seria a visão geralmente defendida pela maioria das pessoas, mas temos a responsabilidade de usarmos o corpo adequadamente, mantendo-se em boas condições. O que é precisamente o ponto de vista expresso na obra Aos Pés do Mestre. Porque a morte é bem-vinda, e amente é direcionada pelo filósofo para a verdade e a virtude, para ele, a filosofia passa a constituir realmente uma preparação para a morte, o que é uma ideia surpreendente. Alguns estudiosos interpretam as palavras gregas como significando “a Filosofia constitui realmente uma meditação sobre a morte”. O que não se parece estar em consonância com a maneira natural com que Sócrates a compreende. Outra colocação e muito mais compreensível, ou seja, quando a vida for vivida de forma adequada. Direcionada para aquelas finalidades que constituem as da alma, não os desejos do corpo, então a filosofia ou a “vida de um filósofo nada mais é senão um longo ensaio para o processo da morte”. Pode-se viver uma vida feliz, contudo pode também ser um processo de morte, que poderá necessitar de explicações. Sócrates adianta que as multidões, o povoem geral, ignoram o sentido no qual o filósofo recebe a morte. Não significa que ele deseje livrar-se do corpo, todavia que ele tem um sentimento acolhedor em relação a morte. Tem esse sentimento porque não atribui grande valor as gratificações dos apetites físicos. Abraço. Davi.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

V. O EVANGELHO DE BUDA

Budismo. Texto do Yogi Kharishnanda Saraswati (1922-2001). V. O EVANGELHO DE BUDA. Capítulo Oito. A Tentação. O Senhor Budha encaminhou-se novamente para a colossal árvore baniana, sob cuja folhagem ia ser revelada a Verdade do seu destino. No momento em que se sentou sob a árvore, caiu a noite. Porém, Mara, o príncipe das trevas, tendo notícia de que ali estava o Budha, que ele iria libertar os homens e era chegada a hora de encontrar a Verdade para a salvação do mundo, enviou ordens às potestades do Mal. Então, os demônios inimigos da Sabedoria e da Luz saíram dos abismos profundos e se congregaram. Eram Arati, Trishna e Raga, com suas tramas de paixões, horrores, ignorâncias e concupiscências, com todos os engenhosos inventos das trevas e do temor, aborrecedores de Budha, cujo espírito tentavam conturbar. Entre os fragores da tormenta, legiões de demônios se agitaram no espaço com o ribombar do trovão e relâmpagos ofuscantes, semelhantes a dardos, que se desprendiam do céu purpúreo. Com estratagemas e conjurações, faziam aparecer figuras de beleza feiticeira entre a tranquila folhagem, as quais ressoavam cânticos voluptuosos e murmúrios de amor. Algumas vezes o tentavam oferecendo-lhe poder: outras, apresentavam-lhe dúvidas sobre a verdade como se ela fosse ilusão. Chegaram os pecados capitais, os anjos do mal. Primeiro Attavada, o pecado do egoísmo, que se compraz em contemplar a sua imagem refletida no Universo como num espelho, lhe diz: Se você é Budha, deixe que os demais andem nas trevas. Basta que seja invariavelmente você mesmo. Levante-se e desfrute da felicidade dos deuses, que não sofrem mudança nem derrota nem luta. Porém, Budha lhe replicou: Em você, a justiça é menosprezível e a injustiça uma maldição. Vá enganar àqueles que amam a si mesmos. Aproximou-se depois a pálida dúvida, o pecado irônico, que silvou nos ouvidos do Mestre: Todas as coisas são ilusões e vã é a ciência de sua vaidade. Você só busca a sua própria sombra. Levante-se e abandone estes lugares. Não há maior recurso do que um desdém paciente, e não existe nenhum remédio para o homem, que é incapaz de deter a roda que gira sem parar. E o Senhor Budha respondeu: Você nada tem a ver comigo, dúvida insidiosa, o inimigo mais astuto dos homens. Em terceiro lugar veio a superstição, a feiticeira que se encobre sob o manto da modesta fé, porém que sempre engana as almas com cerimônias e orações, tendo em suas mãos as chaves que fecham os infernos e abrem o céu. Disse-lhe a superstição: Você é audacioso. Trancafie os nossos livros sagrados, destrua os nossos deuses, despovoe os templos e estraçalhe a Lei que mantém os sacerdotes e sustenta os reis. Porém o Budha respondeu: Você me pede que destrua a forma transitória; porém, a Verdade livre permanece. Volte para as suas trevas. Depois, adiantou-os galhardamente o mais ousado tentador. Era Kama, o rei das paixões, que exerce influência até mesmo sobre os deuses. Era o mestre de amores, o soberano do reino do prazer. Aproximou-se da árvore, sorridente, com seu arco de ouro enfeitado de flores vermelhas, e na aljava as setas do desejo e cujas pontas são cinco línguas de fogo que pungem o coração e ferem mais cruelmente do que dardos envenenados. Acompanhavam-no cortes de esplêndidas formosuras, de lábios e olhos celestes que sensualmente louvavam o amor ao som de instrumentos invisíveis e harmoniosos. Era tal o encanto delas que até a noite parecia suspender o seu curso para ouvi-las, e as estrelas e a Lua se detiveram atentas à sua carreira, enquanto em seu canto as beldades recordavam ao Budha as delícias perdidas, e lhe diziam que um mortal não pode encontrar nos três imensos mundos nada comparável aos perfumados seios da formosa amante abandonada, nem aos seus rosados mamilos rubros de amor. Acrescentaram que nada sobrepuja a suave harmonia da forma, que oferece à vista linhas e encantos da pessoa amada, na indizível harmonia que se encontra de alma para alma, que faz ferver o nosso sangue e que a vontade adora e deseja porque sabe que ali está o ótimo, que é o verdadeiro céu onde os mortais são como deuses, criadores e soberanos, que é o dom dos dons, sempre renovado, e por ele se podem suportar mil dores. Porque, quem se lembra de ter sofrido quando era enlaçado por braços ternos e toda a sua vida se fundia num suspiro de felicidade e num ardente e apaixonado beijo possuía o mundo inteiro? Assim cantavam com gestos lânguidos, com olhos que soltavam amorosas chamas e com lábios de sedutores sorrisos. Em sua dança lasciva deixavam entrever os quadris e coxas como casulos entreabertos que ostentam seus matizes e, no entanto, ocultam seus corações. Jamais houve para olhos humanos encanto maior do que aquelas bailarinas noturnas que se aproximava da árvore, cada qual mais sedutora que a precedente, murmurando: Oh! Excelso Sidharta! Sou sua. Prove de minha boca e veja se não é deleitosa a minha juventude. Mas ao ver que o espírito de Buda permanecia inquebrantável, Kama brandiu o seu arco mágico, e de repente destacou-se do grupo de dançarinas uma figura muito mais bela e majestosa do que as outras cujo semblante se assemelhava ao do doce Yasodhara. Seus olhos negros, regados de lágrimas, refletiam paixão extremamente veemente. Seus braços, abertos para ele, se retorciam de dor; e gemendo suavemente, a encantadora sombra chamou-o pelo seu nome, dizendo entre suspiros: Meu príncipe. Estou morrendo porque você me abandonou. Que céu encontrou que seja comparável ao que gozamos nas margens do límpido Rohim, na Mansão do Prazer; onde choro por você há já longos e penosos anos? Volte, Sidharta. Oh!, volte! Ao menos beije-me outra vez em meus lábios, e que ao menos outra vez eu repouse no seu peito, para que seus sonhos estéreis se desvaneçam. Contemple-me. Não sou aquela que você ama? Buda respondeu-lhe: Pelo doce amor daquela que desse modo você lembra, sombra formosa e falsa de vã astúcia, não a maldigo porque você assumiu uma forma tão querida, ainda que, como todas aparições terrenas, seja uma ilusão mil vezes enganosa. Desvaneça-se de novo no vazio! Então, ressoou um grito no bosque, e o tropel sedutor se desvaneceu com as cenas vaporosas. Capítulo nove. A Iluminação. Afugentado Mara, o Senhor Buda entregou-se à meditação. Ante os olhos do espírito passaram os males e misérias do mundo, procedentes das más ações com seus consequentes sofrimentos. Então ele disse: É verdade que se os homens soubessem antecipadamente o resultado de suas más ações não as cometeriam; porém, a personalidade é cega e eles continuam sujeitos aos seus perniciosos desejos. Desejam ardentemente o prazer, e engendram a dor. Quando a morte destrói sua personalidade, não encontram a paz. Continuam sujeitos à roda de morte e renascimentos, e aparecem em outra personalidade em novas existências. Assim continuam movendo-se num círculo, sem poder fugir do inferno que eles mesmos criaram. Vãos são os prazeres e ineficazes seus esforços. Ocos como o bambu, e vazios como a bolha de sabão. O mundo está cheio de pecado e aflição, porque nele domina o erro. Os homens se extraviam porque pensam que o erra vale mais que a Verdade. E mesmo que vejam a Verdade, os homens a desprezam pelo erro porque este é no momento mais atraente, embora dê como resultado a aflição e a infelicidade. Buda começou então a expor a doutrina do Dharma. O Dharma é a verdade, a lei, a religião. Somente o Dharma pode livrar-nos do erro, do pecado e da aflição. Ao considerar as causas do nascimento e da morte, o Bem-aventurado reconheceu que a ignorância é a fonte envenenada de todo o mal, que se encadeia nas doze Vidanas. No princípio da existência não há conhecimento, e dessa ignorância surgem os apetites da vida de sensação, que por sua vez engendram as formas orgânicas com os seis campos de percepção, ou seja, os cinco sentidos e a morte em que os cinco se resumem. Os seis campos se relacionam com o mundo exterior e, desse contato, provêm a sensação que tece a rede da personalidade com o apego às coisas materiais. A personalidade se perpetua nos sucessivos nascimentos que ocasionam dor, angústia, abatimento, velhice e morte. A causa de toda dor é a ignorância. Dissipe a ignorância e os apetites que nascem dela se desvanecerão. Desaparecerá a falsa percepção do mundo material e vocês se livrarão da concupiscência, do erro, da ilusão, do egoísmo da personalidade, que se sobrepõem à enfermidade, à velhice, à morte e ao renascimento. O Sábio viu as quatro nobre verdades que mostram o caminho do Nirvana e o aniquilamento da personalidade. A primeira nobre verdade é que o sofrimento existe. Sofre-se ao nascer, ao crescer, ao adoecer e ao morrer. Sofre quem está unido ao que repugna. Sofre quem se vê forçado a separar-se de quem ama. Sofre quem anela o que não consegue obter. A segunda nobre verdade é que o sofrimento provém da concupiscência. O mundo objetivo excita à sensação, e a sensação desperta o desejo com ânsia de imediata satisfação. O desejo de viver para satisfazer os desejos da personalidade nos prende nas redes do sofrimento. O prazer sensual é um acontecimento que resulta em dor. A terceira nobre verdade é que o sofrimento pode cessar. Quem subjuga a personalidade, livra-se da concupiscência, e, por conseguinte, do desejo e da dor. A quarta nobre verdade é que pelo caminho óctuplo chega-se à eliminação do sofrimento. Apenas aquele que submete sua vontade ao dever salva-se do sofrimento. O homem inteligente segue o caminho óctuplo e desse modo deixa de sofrer. Eis as oito etapas do caminho. I. Reta compreensão. 2. Reto propósito. 3. Reta palavra. 4. Reta conduta. 5. Retos meios de subsistência. 6. Reto esforço. 7. Reta atenção. 8. Reta meditação. Trilhe-o respeitando o Dharma, isto é, cumprindo o seu dever e evitando prejudicar outros seres. Pense na lei de causa e efeito, na lei do Karma que forja o destino do homem, e domine os seus sentimentos. Essa é a doutrina da reta compreensão. Seja benévolo com tudo quanto vive. Extirpe a maledicência, a inveja e a ira de tal sorte que você se assemelhe ao suave sopro da brisa. Cuide de seus lábios como se fossem os portais do palácio de um rei. Que todas as suas palavras sejam francas, sinceras e corteses, como se você estivesse na presença do rei. Essa é a reta palavra. Que cada uma de suas ações elimine um vício e estimule uma virtude. Como se entrevê um fio de prata entre as contas cristalinas de um colar, assim se deve mostrar o amor em toda boa ação. Essa é a reta conduta. As outras quatro etapas superiores só podem ser percorridas pelos pés que já não pisam caminhos mundanos. Almas cujas asas não têm mais plumagem! Não tente voar até o Sol! O ar das regiões inferiores lhe é suave, e conhecidos e seguros lhes são os caminhos e níveis domésticos a que você está acostumado. Apenas seres vigorosos podem abandonar o ninho que cada qual fabricou para si. O amor da mulher e do filho são valiosos. Eu sei disso. As amizades e os recreios da vida são agradáveis. As compassivas qualidades de uma conduta virtuosa são úteis. Faça de sua debilidade uma escada de ouro e eleve-se pela convivência diária com essas ilusões até as verdades mais dignas de ser amadas. Desse modo, você alcançará cumes mais serenos, a sua subida será menos penosa, suas culpas não pesarão tanto, e você se fortalecerá pela vontade para quebrar as ligações dos sentidos e entrar no caminho. Esse é o Dharma. Essa é a religião. Essa é a Verdade. E o sábio exclamou: Quanto tempo andei por caminhos errados! Ligado durante muitas vidas pela cadeia dos desejos, buscando inutilmente a origem da inquietação que tortura o homem, do egoísmo e da ansiedade inerente à vida terrena, com seu nascimento, suas dores e sua morte. Porém já o descobri. É a personalidade. Não construam, Oh! Senhores do Karma, nova casa para mim, porque eu rompi o jugo do pecado e quebrei o leme da inquietação. Meu espírito entrou no Nirvana. Desvaneceu-se o desejo. Ali está a personalidade e aqui a Verdade. Onde está a personalidade não está a Verdade. São incompatíveis. A personalidade é erro transitório do Samsara, a roda dos nascimentos e mortes; a isoladora separação egoísta, mão da inveja e do ódio. A personalidade é a insensata avidez e prazeres, o louco afã dos ilusórios triunfos e da vaidade. Em troca, a verdade se origina da reta compreensão das coisas; é eterna; é a realidade da existência; é a bem-aventurança que conduz ao reto caminho. A personalidade é uma ilusão, e não há no mundo nem vício nem pecado que não derive da afirmação da personalidade. Para alcançar a Verdade é indispensável reconhecer a ilusão da personalidade. Não é possível caminhar com pés firmes pelo reto caminho sem que se tenha antes abandonado o embaraçoso lastro das paixões egoístas. A paz perfeita requer o abandono de toda vaidade. Bem-aventurado quem compreende o Dharma. Bem-aventurado o que não prejudica os demais seres humanos. Bem-aventurado quem venceu o pecado e está livre de paixões. Desfruta de completa felicidade quem vence o egoísmo e a vaidade, porque já é perfeito e santo. Alcançou a suprema Iluminação. Livro o Evangelho do Buda. Abraço. Davi. 

terça-feira, 5 de novembro de 2024

JESUS. Parte VII

Judaísmo. Livro Judaísmo e Cristianismo – As Diferenças. Por Trude Weiss Rosmarin (1908-1989). JESUS. Capítulo 8. JESUS. Parte VII. O divórcio se constitui numa tragédia, ao que todos os mestres judeus prontamente admitem. Na verdade, é tão trágico que o próprio altar de Deus verte lágrimas quando um homem se divorcia da esposa que conheceu na sua juventude. Mas devido ao fato de a vida ser como é, o divórcio é necessário. Assim, a lei judaica aprova o divórcio e o Talmud devota um tratado inteiro para as implicações legais da dissolução do casamento – Guitim. “A eles (os judeus) foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe uma carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que repudia sua mulher, a não ser por motivo de fornicação, faz com que ela adultere, e aquele que se casa com a repudiada, comete adultério”. Mateus 5,31 e seguintes: comparar com Mateus 19,3-9. Como é bem sabido, o Catolicismo ainda aceita esse princípio e não permite o divórcio. Ainda mais grave, entretanto, foi a atitude negativa de Jesus quanto as leis dietéticas expressas em seus ensinamentos. “Ouvi e entendei. Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isto sim o torna impuro” Mateus 15,11. Isto era uma clara e inequívoca desaprovação da importância das leis dietéticas. Os discípulos de Jesus, indignados com esse ataque a uma importante observância judaica, perguntaram a seu mestre: “Você sabia que os fariseus se escandalizaram ao ouvir o que dissestes? Ao que ele respondeu: “Qualquer planta que meu Pai celeste não plantou será arrancada. Deixai-os. São cegos conduzindo cegos. Ora, se um cego conduz outro, ambos acabarão caindo num buraco”. A pedido de Paulo, para explicar a parábola, Jesus disse: “Não entendeis que tudo o que entra pela boca vai para o ventre e daí para a fossa? Mas o que sai da boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro” Mateus 15,12-18. De maneira natural Jesus declarou que “todos os alimentos são puros” Marcos 7,19. Claro que esse ataque frontal a totalidade das leis dietéticas se constitui em estranho contraste à colocação de Jesus de que ele não havia vindo para abolir nada da Lei, ou dos profetas. Ao transmitir a impressão de que manter as leis dietéticas é irrelevante, bem como ser contra a fiel observância das leis ética. Jesus se colocou em oposição eterna ao judaísmo, que ensina que a lei cerimonial é a companheira da lei ética e sua guardiã. Jesus também declarou que a lavagem ritual das mãos antes das refeições era sem importância. Este fato é evidente a partir de sua controvérsia com os fariseus sobre essa observância: “Então alguns fariseus e escribas vieram até Jesus, de Jerusalém, e disseram a ele: “Por que seus discípulos não seguem as leis entregues por seus ancestrais? Comem o pão sem antes lavarem as mãos” Mateus 15,1-3, compare com Marcos 7,1. Como resposta, Jesus acusou os fariseus de negligenciarem os importantes mandamentos éticos por causa de meras regulamentações rituais. Apesar de afirmar que “é isso que polui um homem, mas não o fato de comer sem lavar as mãos” Mateus 15,12. Entretanto, não somente os discípulos de Jesus, mas ele também ignorava o mandamento de lavar as mãos. Certa vez, convidado à casa de um fariseu, sentou-se à mesa sem lavar as mãos. Quando a anfitriã manifestou sua surpresa, Jesus novamente desferiu um amargo ataque aos fariseus: “Vocês, fariseus, limpam o exterior das xícaras e louças, mas por dentro são repletos de maldade e doenças. Vocês tolos! O Criador da porção exterior não fez o interior também?” Lucas 11,37-41. Jesus também se colocou em oposição à Lei e seus mestres ao ignorar os jejuns observados pelas comunidades e ao defender o afastamento dos costumes relacionados aos jejuns judaicos. Os Evangelhos registram que, quando os fariseus, e mesmo quando os discípulos de João Batista jejuavam, os discípulos de Jesus não o mantinham. Quando lhe perguntaram sobre essa permissividade. Jesus respondia que, enquanto ele, “o noivo, convivesse com seus discípulos, não havia motivo pra jejuarem. Pois “Por acaso podem os amigos do noivo estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão, quando o noivo lhes será tirado, então sim jejuarão” Mateu 9,14. Marcos 2,18-20. As leis que regulamentam a observância dos jejuns judaicos consideram lavar as mãos e se perfumar deleites físicos que devem ser evitados nos dias de abnegação solene. Entretanto, Jesus disse a seus discípulos para desconsiderar essas leis: “Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio como fazem os hipócritas, pois eles desfiguram seu rosto para que seu jejum seja percebido pelos homens. Em verdade vos digo: “Já recebem a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuardes, unge tua cabeça e lava teu rosto para que os homens não percebam que estás jejuando, mas apenas o teu Pai que está lá no segredo, e o teu Pai que se Vê nos segredos de recompensará” Mateus 6,16-18. O judaísmo considera as rezas em comunidade a mais recomendável forma de culto. O minián, a reunião de no mínimo dez homens adultos, é o quórum exigido pra certas orações importantes, especialmente pra a leitura da Torá nos dias prescritos de cada semana. A ênfase dada as rezas em minián não significa, entretanto, que o judaísmo desconheça ou despreze o valor religioso ou o conforto derivado da devoção silenciosa. A importância atribuída ao minián é devida ao fato de que o judaísmo pretende que seus seguidores saibam e se conscientizem sempre que o indivíduo é apenas um elo na poderosa corrente do seu povo e da humanidade. Assim deve estar próximo de Deus, não na solidão, mas junto com seus irmãos, cujo destino está vinculado ao dele. Jesus, em oposição à abençoada tradição, denegriu o valor religioso das orações em comunidade e idealizou devoção solitária: “E quando orardes, não sejais como os hipócritas que gostam de fazer orações pondo-se de pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo: Já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo. E o teu Pai no segredo, te recompensará”. Esses exemplos da hostilidade de Jesus e não obediência às leis básicas judaicas e aos princípios aceitos, de costumes e cerimônias deveriam provar de modo conclusivo que o título de “rabino” não pode ser estendido a ele. Na verdade, Jesus se opunha o atacava todos e tudo que os rabinos de seu tempo defendiam. Ele se opunha a eles, não somente com relação a detalhes e aspectos menores da Lei, mas também indiscriminadamente e por princípios. Portanto, Jesus, advertiu seus discípulos contra “o fermento dos fariseus e saduceus”. Mateus 16,11 e seguintes. A análise da atitude de Jesus quanto ao judaísmo, sua Lei e seu modo de vida mostraram que ele não se qualifica como profeta, rabino ou mestre no sentido judaico. Em todos os aspectos relevantes, Jesus se colocou em oposição a fé na qual nasceu. Portanto, é desnecessário e inútil conceder lugar a ele no judaísmo. O qual ele próprio rejeitou em teoria e prática, mesmo que por vezes insistiu ser fiel à religião de seus ancestrais. Uma alegação que é irrefutavelmente negada pelo testemunho dos Evangelhos. Abraço. Davi. Pagina 157 ...