domingo, 3 de novembro de 2024

OS PROCEDIMENTOS

Religião Afro-brasileira. Umbanda. Livro Código de Umbanda. Por Rubens Saraceni (1951-2015). OS PROCEDIMENTOS. A doutrina de Umbanda estimula os procedimentos corretos e incorporou aqueles mais afins a própria natureza divina dos Orixás. A um médium é solicitado que conheça o mínimo indispensável para que possa realizar as práticas de umbanda e seus rituais. Também é exigido que estude um pouco, porque só assim entenderá tudo o que acontece dentro de um templo de Umbanda durante a realização das giras de trabalho. Cada religião tem seus parâmetros ou vestes litúrgicas, e a Umbanda também tem os seus: vestes brancas. Por que o branco é a cor preferencial da Umbanda? O branco é a cor de Oxalá, o regente da Fé no Ritual de Umbanda Sagrada. Logo, como a fé é o mistério religioso por excelência, o astral tem estimulado o uso dos paramentos brancos. O simbolismo da veste branca é bem visível, além de permitir uma uniformidade na apresentação do corpo mediúnico. Mas, se alguém se veste de branco e assume o grau de médium, dele também se exige que purifique seu íntimo, reformule seus antigos conceitos com ralação a religiosidade e se porte de acordo com o que dele esperam os Orixás sagrados, sendo que, serão estes que o ampararão daí em diante. A doutrina de Umbanda tem por objetivo primeiro o auxílio espiritual, estimulando o despertar da consciência religiosa nos médiuns. Os doutrinadores sabem que têm de ser pacientes, sobretudo precisam lidar com pessoas oriundas de outras religiões, nas quais já desenvolveram uma consciência mais ou menos de acordo com o que pregam suas doutrinas. A doutrina tem como um de seus procedimentos basilares nunca obrigar alguém a renegar a religião que praticava, desse modo, nenhuma religião deve ser renegada ou criticada. O máximo tolerado pela doutrina é a crítica aos mercadores da fé, aos fanáticos líderes das doutrinas obscurantistas. E, ainda assim, se eles forem os primeiros a agredir a religião umbandista, como sempre ocorre, já que sentem uma ameaça invisível aos seus feudos religiosos nas religiões libertadoras do espírito. Como o são a Umbanda e o Espiritismo. As verdades semeadas pelo espírito são superiores às que eles semeiam e tratam de combatê-las. Todavia, fora essas escaramuças em nível terra, a doutrina de Umbanda reprova toda tentativa de diminuir outras religiões, sendo que, todas se fundamentam em Deus e em suas divindades. Logo, o universalismo adotado pela doutrina de Umbanda não permite críticas às religiões, tampouco obriga alguém a renegar sua antiga crença. Quem proceder de outra forma não é, ainda, um verdadeiro médium de Umbanda Sagrada, a mais ecumênica das religiões. Em seus templos manifestam-se espíritos trazendo ainda vibrantes as suas antigas formações religiosas que lhes possibilitaram a ascensão espiritual aos níveis superiores da Luz. Manifestam-se espíritos vindos de todas as outras religiões e regiões do planeta. Uns são hindus, outros são árabes, outros são judeus, budistas, cristãos ... e até índios brasileiros e negros africanos, os seus fundadores espirituais. Logo, dentro dos procedimentos recomendados está o de absterem-se de qualquer crítica a outras religiões ou e alimentarem preconceitos religiosos mesquinhos. Outro procedimento recomendado é respeitar os templos de todas as religiões e seus espaços religiosos, pois, aquele que não respeita a casa alheia, não respeita a própria. Se não consegue ver em um templo alheio uma morada de Deus, então não é digno de dizer que, no seu templo, Deus habita. Em verdade, onde pessoas se reúnem para louvarem a Deus, Ele ali se estabelece e se manifesta. Não importando que o invoquem com outros nomes que não o de “Olorum” ou “Zambi”. Deus é único e os nomes que lhe dão são apropriações humanas de suas qualidades divinas manifestadas a todos o tempo todo. Afinal, Ele é tudo em si mesmo e temos de invocá-lo por um nome que mais nos fale ao coração, certo? Outros procedimentos recomendados, e já bastante divulgados, são relativos às práticas rituais: 1. Em dia de trabalhos mediúnicos, não se deve comer alimentos de difícil digestão ou ingerir bebidas alcoólicas, sendo que, estas entorpecem a mente e anulam a percepção extrassensorial. Assim como abrem o campo mediúnico às vibrações negativas e estimulam o emocional dos médiuns. 2. A Mediunidade só deve ser desenvolvida com o recurso da concentração dos cantos rituais e dos atabaques. Nunca com o concurso de qualquer produto alucinógeno, o qual cria delírios emocionais e animismos. 3. Médium desequilibrado deve ser afastado do corpo mediúnico e encaminhado para tratamento médico psicológico e espiritual. 4. Médium alcoolizado, ainda que minimamente, não deve realizar trabalhos práticos, ou deles participar. 5. Médium que não realizar a higiene espiritual e pessoal, tal como banho com ervas, firmar uma vela para seu anjo da guarda. Firmar sua esquerda e direita etc. Não está apto a realizar um bom trabalho mediúnico. Nessa higiene pessoal, inclui-se a bucal, de modo que não há coisa mais desagradável que um consulente ter de suportar o mal hálito de um médium relapso. 6. Estar sempre vestido com roupas limpíssimas. 7. Portar-se com respeito e silêncio dentro das tendas – espaços consagrados às divindades e aos rituais religiosos praticados dentro da Umbanda. Abraço. Davi

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

IV. O EVANGELHO DO BUDA

Budismo. Texto do yogi Kharishnanda Saraswati (1922-2001). IV. O EVANGELHO DO BUDA. O rei Bimbisara. Sidharta cortou a sua bela cabeleira e trocou as vestes reais pelo rústico hábito amarelo. Ordenou a Channa, o cocheiro, que regressasse a Kapilavastu com o nobre corcel (cavalo) Kanthaka e dissesse ao rei, seu pai, que ele havia abandonado o mundo. E o Tathágata (Budha) vagou pelas estradas mendigando de tigela na mão. Mas a pobreza do seu aspecto não podia encobrir a majestade do seu espírito. Seu porte nobre denunciava a sua origem real, e de seus olhos irradiava o fervoroso anseio pela Verdade. Sua beleza juvenil, aumentada pela santidade, iluminava a sua fronte. Todos os que o viam, contemplavam-no assombrados. Os mais apressados detinham os passos e se voltavam para olhá-lo, e todos lhe tributavam homenagens. Ao entrar na cidade de Rajagriha, o príncipe mendicante foi de casa em casa, esperando silenciosamente que alguém lhe desse esmola. Para onde quer que fosse o bem-aventurado, as pessoas lhe davam o que tinham, prostravam-se humildemente diante dele e lhe agradeciam por não desdenhar de aproximar-se de suas casas. Todos exclamavam comovidos: Eis aqui um nobre muni (asceta). Sua chegada é uma bênção. Que felicidade nos aguarda! E logo a sua tigela se enchia, porque todos os vizinhos gritavam: Toma do nosso alimento, Senhor. Toma do que é nosso. O rei Bimbisara, observando a comoção da cidade, indagou a causa, e averiguada, enviou um criado para identificar o forasteiro mendicante. O criado soube que o muni era um sákia de origem nobre, que tinha se retirado para as margens de um riacho do bosque e comia o que as pessoas lhe depositavam na tigela. Comovido, o rei vestiu seus régios ornamentos, colocou sua cruz de ouro, empunhou o cetro, e acompanhado de seus anciãos e sábios conselheiros, foi ao encontro do misterioso forasteiro. O rei encontrou o muni de raça sákia sentado à sombra de uma árvore, e admirando a tranquilidade de seu semblante e a distinção de seus gestos, saudou-o respeitosamente e lhe disse: Ó Samana! (um monge, um eremita ou um recluso). As suas mãos são feitas para manejar as rédeas de um império e não para segurar a tigela do mendigo. Se eu não adivinhasse que você era de origem real, não suplicaria que se associasse a mim para governar o meu reino e participar do meu poder. O desejo do mando fica bem para os temperamentos magnânimos, e a opulência não deve ser desprezada. Adquirir tesouros à custas da perda da religião não é coisa boa, porém excelso mestre é quem tem ao mesmo tempo o poder, a opulência e a religião e, com discrição e sabedoria, desfruta de todos esses bens. Sakiamuni olhou-o e respondeu-lhe: Ó rei! O senhor tem fama de liberal e religioso, e suas palavras são prudentes. O rico bondoso que emprega bem suas riquezas possui na verdade um tesouro inestimável; porém, nenhum proveito tirará de suas riquezas aquele que as guarda avaramente. A caridade é prolifera em proveitos. É a maior riqueza, pois quando a pessoa é pródiga não tem remorsos. Eu rompi todos os laços que me ligavam, porque busco a libertação. Como poderia voltar de novo ao mundo? Quem deseja a vida religiosa, que é o tesouro mais precioso, deve abandonar tudo quanto prende a sua personalidade e distrai a sua atenção. Deve libertar sua alma da luxúria, da avareza, da ambição e do poder. Aquele que cede à luxúria, mesmo que por um pouco, a verá crescer, e mesmo que domine o mundo, se sentirá infeliz. O fruto da santidade vale mais do que o poderio sobre a Terra, do que o descanso no céu, do que o império e o predomínio sobre os mundos. Um Buda reconhece que a riqueza é ilusória e não confunde o veneno com o alimento sadio. O peixe que se salvou do anzol terá afeição pela isca? Enamorar-se á o pássaro de sua gaiola? O enfermo febril anseia por um medicamento refrigerante. Daremos a ele outro que lhe aumente a febre? Apagaremos o fogo se lhe mudarmos o combustível? Rogo que o senhor não me perturbe. Fale aos que ambicionam os cuidados da realeza e as inquietudes da opulência, que desfrutam temerosos de perder suas riquezas, porque a qualquer momento podem perdê-las, e ao morrer não levarão consigo nem o ouro nem o régio diadema. Em quem mandará um rei morto? A lebre que escapou da boca de uma serpente voltará para que ela a devore? Aquele que queimou a mão numa tocha, vai erguê-la novamente depois de tê-la atirado ao chão? O cego que recuperou a visão desejará que lhe arranquem os olhos? Veja se consegue acertar as respostas. Meu coração não anela desejos vagos. Renunciei à coroa real e preferi livrar-me dos encargos das existências. Não quero, portanto, contrair novos deveres que me impeçam de prosseguir o trabalho iniciado. Sinto separar-me do senhor, porém, devo ir ao encontro dos yogis que poderão me ensinar a verdadeira religião e a encontrar a maneira de se evitar o mal. Desejo que o seu reino desfrute de paz e prosperidade, que a sabedoria resplandeça em seu governo como o sol meridiano em dia claro. Que o seu régio poder seja firme. Que a justiça seja o seu cetro. O rei uniu respeitosamente as mãos, e prostrando-se diante de Sakyamuni, disse lhe: Que você encontre o que está buscando, e quando o tiver encontrado, rogo que volte e me aceite por seu discípulo. O Tathágata separou-se amistosamente do rei, resolvido a cumprir o seu propósito. Capítulo seis. INDAGAÇÕES DO SENHOR BUDHA. Arada e Udraka eram os mais famosos mestres brâmanes, e ninguém os superava em sabedoria. O Tathágata sentou-se aos pés desses mestres e ouviu suas doutrinas sobre o Atman, ou espírito do homem, que preside todas as ações. Os mestres ensinaram-lhe a doutrina da reencarnação e a lei do Karma, e como as almas têm que sofrer ao nascerem em castas inferiores, ao passo que os purificados pelo sacrifício, oferendas e austeridade, chegam a ser reis, brâmanes e deuses, cada vez em grau mais adiantado da existência. Sidharta estudou os encantamentos, oferendas e métodos mais propícios para alcançar o estado de estase e livrar-se da escravidão da personalidade. Dizia Arada: Que é a personalidade que vê, ouve, cheira, gosta, toca, e que na visão, na audição, no olfato, no paladar e no tato tem as cinco raízes do espírito? Que é a personalidade que se move por meio das mãos e dos pés? A alma se manifesta por meio das expressões: Eu digo. Eu sei. Eu percebo. Eu venho. Eu vou. Eu fico. A sua alma não é seu corpo, nem seu olho, nem seu ouvido, nem seu nariz, nem sua língua, nem sua personalidade. O Eu percebe o tato no corpo, cheira com o nariz, vê com os olhos, ouve com os ouvidos, pensa com a mente. O seu Eu move suas mãos e seus pés. O seu Eu é sua alma. Irreligioso é duvidar da existência da alma, e quem não compreende essa verdade não está no caminho da salvação. O que pensa demais sobre essas coisas confunde a mente e se expõe à incredulidade, porém a purificação da alma conduz à libertação. Para alcançar a libertação é necessário afastar-se da multidão, levar vida eremítica e viver de esmolas. Se eliminarmos o desejo e reconhecermos a ilusão da matéria, encontraremos as condições da vida imaterial. Como a erva madja, despojada de lenhosa casca ou como a ave presa que escapa de seu cárcere, assim o Eu encontra repouso perfeito quando se livra de suas limitações. Essa é a verdadeira libertação, porém ela só é alcançada por aqueles que têm profunda fé. Como o Buda não ficou satisfeito com esses ensinamentos, ele replicou: As pessoas são escravas porque não abandonaram a ideia da personalidade. No nosso pensamento, as coisas e suas qualidades são diferentes, porém na realidade elas estão reunidas. No nosso pensamento o calor é distinto do fogo, porém na realidade não podem separar-se. O senhor diz que consegue abstrair a coisa de sua qualidade, porém se leva essa operação até o fim, verá que não é assim. O homem não é um composto de vários princípios? Não somos constituídos por diferentes escanda (resíduos, impressões, memórias do passado), como dizem os sábios? O homem é um composto de forma física, de sensações, de emoções, pensamentos, inclinações e mente. O que os homens chamam seu eu não é uma entidade distinta dos escandas. Muita confusão provém de se crer vaidosamente que a personalidade é o verdadeiro Eu e de lhe atribuir a grandeza e o mérito das ações. A ideia da personalidade se interpõe entre a sua natureza racional e a verdade. Elimine-a, e verá as coisas como elas são. Aquele que pensa sabiamente se desembaraçará da ignorância mediante a aquisição do conhecimento. Além disso, se a sua personalidade persiste, como poderá alcançar a libertação? Se o Eu está destinado a renascer em qualquer um dos três mundos, encontrará sempre a mesma espécie de existência, ficará sempre envolto no egoísmo e no pecado. Tudo o que separa está sujeito à desagregação. Uma vez que não podemos escapar da roda de mortes e renascimentos, a libertação final não será possível. Udraka dizia: Você não vê ao nosso redor o efeito do Karma? Por que os homens diferem quanto ao caráter, posição, riqueza e destino na vida terrena? É pelo seu Karma, que compreende o mérito e o demérito. A reencarnação da alma depende do Karma. Das vidas anteriores herdamos os resultados de nossas boas e más ações. Se assim não fosse, como poderia haver diferenças tão profundas entre os homens? O Tathágata meditou profundamente sobre os problemas da reencarnação e do Karma, e descobriu a verdade neles subjacente. Então disse: A doutrina do Karma é indiscutível, porque todo efeito tem sua causa. O homem colhe aquilo que semeia, e o que agora colhemos, devemos ter semeado em existências anteriores. Vejo que a alma reencarna porque está submetida a lei de causa e efeito e porque o homem cria o seu próprio destino, porém não vejo a reencarnação da personalidade. Essa minha individualidade não é composta de espírito e matéria? Não está constituída de qualidade que foram evoluindo gradualmente? Os cinco sentidos de percepção de meu organismo provêm dos antepassados que os tiveram. Minhas ideias provem em parte dos indivíduos que as conceberam, e por outra parte das combinações dessas ideias em minha mente. Se há um Atman, um espírito que percebe as sensações por meio dos sentidos, poderá ver, ouvir, cheirar, gostar e tocar muito melhor sem os olhos, nariz, ouvido, língua e tato do organismo corporal. Compreendo a reencarnação da alma numa personalidade e a justiça do Karma, porém não vejo o Atman que sua doutrina propõe como autor das ações humanas. Há de haver um renascimento sem personalidade, pois se a personalidade fosse real, seria imortal e, portanto, não poderíamos nos livrar dela. O temor do inferno não teria limites e a paz não existiria para os homens. Os males da vida não provêm da ignorância e do pecado, mas são inerentes à natureza da nossa existência. O Tathágata foi depois ver os sacerdotes que oficiavam nos templos, e seu ser compassivo estremeceu ao presenciar a inútil crueldade realizada ante os altares dos deuses. É apenas por ignorância que esses homens realizam festas ruidosas e convocam magnas assembleias para celebrar sacrifícios sangrentos. Vale mais adorar a Verdade do que o vão desejo de agradar os deuses com efusão de sangue. Que amor pode sentir o homem que supõe que a destruição de uma vida invalida as más ações? Seria possível que um crime expie outro crime? Pode apagar os pecados do mundo o sacrifício de uma vítima inocente? Isso equivale a praticar a religião com aviltamento da moral. Acalmem o ânimo e não matem mais. Essa é a verdadeira religião. Os ritos são ineficazes; as orações são fórmulas repetidas de maneira vã; os feitiços carecem de virtude favorável. O verdadeiro culto, o genuíno sacrifício consiste em desligar-se da concupiscência, da voluptuosidade e das más paixões, em não alimentar ódio nem malevolência. Capítulo sete. Penitência em Urivilva. Em busca de melhores conhecimentos, o Bodhisattva chegou a um lugar ermo onde estavam estabelecidos muitos eremitas que virtuosamente refreavam seus sentidos, reprimiam suas paixões e se submetiam a uma severa disciplina. Eram os Yogis, brahmacharis e bikkhus que viviam separados do mundo como um rebanho lúgubre e descarnado. Uns mantinham os braços para o alto noite e dia, até que, minados por enfermidades, exaustos e com articulações anquilosadas (imobilizada ou paralisada) e os membros rígidos, seus braços pareciam ramos de uma árvore morta. Outros tinham fechado as mãos tão fortemente e por tanto tempo, que as unhas haviam atravessado as palmas como agulhas, fazendo feridas. Alguns estavam calçados com sandálias cheias de pregos ou laceravam a fronte, o peito e os músculos com objetos cortantes, ou sacrificavam suas carnes com o fogo. Outros atravessavam suas carnes com pontas de ferro, dormiam sobre imundícies e cobriam-se com farrapos de cadáveres. Uns moravam em lugares impuros, onde as piras ardiam, em companhia de cadáveres, rodeados de corvos que soltavam agudos gritos ao redor dos despojos fúnebres. Outros repetiam em voz alta, quinhentas vezes ao dia, o nome de Shiva, com sibilantes cobras enroladas em seus quadris e os pés paralisados em buracos. Assim era aquela espantosa congregação. Os membros tinham a cabeça coberta de feridas por causa do tórrido calor; seus olhos eram lacrimosos, os nervos e os músculos tensos; o rosto deles era fundo e pálido como se fossem defuntos de cinco dias. Com muito cuidado e bom propósito, Sakyamuni se entregou à mortificação do corpo meditando sobre as verdades abstratas, e não tardou em superar em autoridade a todos os anacoretas, que o reconheceram como mestre. Durante alguns meses, o Budha mortificou pacientemente seu corpo e exercitou o seu espírito na mais rigorosa vida ascética. No final, fazia uma única refeição ao dia, com a intenção de vencer o grande oceano do nascimento e de morte e chegar à outra margem da libertação. Tão extenuado e consumido ficou, que parecia um enfermo. Porém, a fama de sua santidade se espalhou por toda a redondeza, e de lugares longínquos vinham pessoas vê-lo e receber a sua benção. No entanto, o Bem-aventurado não estava satisfeito, porque viu que a mortificação não extingue o desejo nem traz o êxtase da iluminação. Buscava o verdadeiro conhecimento e não o encontrava. Sentado sob uma árvore, considerou o estado do seu espírito e a consequência de sua mortificação. Então disse: Meu corpo se debilita cada dia mais com abstinências, e isso não me faz adiantar um passo na busca da libertação. Este não é o verdadeiro caminho. Será melhor fortalecer o meu corpo com o alimento e pôr o meu ânimo em disposição de possuir calma. Foi até o rio tomar um banho, mas quando quis sair da água, estava tão fraco que se agarrar aos ramos de uma árvore na margem para poder saltar em terra firme. Voltou então à congregação, e ao chegar ali, caiu desmaiado e os eremitas o acreditaram morto. Próximo dali morava um pastor, cuja filha, chamada Nanda, chegou até onde estava desmaiado o Buda que, ouvindo a voz da moça, voltou a si. Então ela lhe ofereceu arroz com leite, que ele aceitou com prazer. Com as forças recobradas pelo alimento, a sua mente clareou e se predispôs para receber a suprema iluminação. A partir de então o Buda voltou a alimentar-se normalmente. Os cinco eremitas que presenciaram essa cena com Nanda e observaram a mudança de conduta, acreditaram que seu fervor religioso diminuíra e que Sidharta, o tão venerado Mestre, se esquecera do seu magnífico fim. Porém Buda, fitando tristemente o maior desses infelizes, lhe disse: Há meses moro nestas montanhas buscando a verdade, e vejo meus irmãos, e também você, lamentavelmente torturado.  Por que acrescentar males à vida, que por si já é tão má? O eremita respondeu-lhe: Está escrito que se um homem mortifica a sua carne até que a intensidade da dor só lhe deixe um sopro de vida e esperança da voluptuosa morte, os males que ele sofre limparão a imundície do pecado, e a alma purificada voará liberta da aflição para as gloriosas esferas de esplendor inconcebível. Budha respondeu-lhe: Esta nuvem que flutua no céu ao redor do trono do seu Deus ergueu-se de um mar agitado e voltará a cair em gotas semelhantes a lágrimas. Passará por caminhos ásperos e penosos, por vales e pântanos, por rios lamacentos até chegar ao Ganges – Índia, e voltar ao mar de onde partiu. Sabe, meu irmão, se não acontece o mesmo aos santos com toda a sua felicidade, depois de tantos sofrimentos? Porque o que sobe torna a cair, o que se compra se gasta, e se você compra o céu com o seu sangue no doloroso mercado do inferno, quando estiver concluído o negócio, o sofrimento recomeçará. O eremita respondeu-lhe suspirando: Ai, talvez recomece! Eu não sei nem estou seguro de alguma outra coisa; porém, atrás da noite vem o dia, e atrás da tormenta, a calma; e nós nos aborrecemos desta maldita carne que impede a alma de tomar o seu ansiado voo. Assim, pois, para a felicidade da alma, entregamos aos deuses nossas rápidas torturas para obter as alegrias duradouras. Sidharta respondeu: Porém, mesmo que essas alegrias durem milhões de anos, elas por fim se desvanecerão. Ou, então, diga-me: há em cima ou embaixo, ou ao redor de nós, alguma existência tão diferente da nossa que não se modifique? São eternos os seus deuses? Não; só o absoluto Brahman permanece. Os deuses nada mais fazem senão viver. Então o Senhor Buda exclamou: Você quer ser tão sábio quanto os santos e esforçado? Renuncie a esses jogos cruéis em que atira seus gemidos e lamentos para ganhar as apostas que talvez não passem de sonhos passageiros. Quer, por amor à sua alma, fazer sofrer a sua carne, afligi-la e mutilá-la de tal maneira que ela já não possa aprisionar o espírito, e buscando um refúgio, se rende no caminho antes de chegar a noite como cavalo dócil, porém exausto? Vocês querem, tristes ascetas, estragar e destruir esta bela moradia em que habitamos depois de um doloroso passado, e cujas janelas nos dão luz, ainda que escassa, para olharmos fora e sabermos se a aurora via surgir e qual será o melhor caminho? O eremita respondeu-lhe: Escolhemos este caminho e o seguiremos até o fim. Diga-nos se conhece outro melhor; se não, vá em paz. O Buda, ao ver os eremitas se afastarem dele, teve pena daquela falta de confiança, e não sentiu mais abandono em que vivia. Reprimiu seu desgosto e afastou-se. Os eremitas disseram: Sidharta nos abandonou. Ele procura um lugar mais agradável. Yogis, brahmacharis e bikkhus são os seguidores da Escola Yoga, ascetas brâmanes e discípulos mendicantes, respectivamente, que renunciaram aos deveres e regalias do mundo para se consagrarem exclusivamente à vida espiritual ou mística. Do Livro O Evangelho de Budha. Abraço. Davi.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

A RELIGIÃO DO ISLAM. Parte V

Islamismo. Livro Manual para o Novo Muçulmano. Por Jamaal Zarabozo (1960 - ). A RELIGIÃO DO ISLAM. Parte V. As características do Islam. O monoteísmo puro. Como já foi mencionado anteriormente, este é o principal objetivo do Islam, além de uma de suas características particulares. O Islam liberta o homem da servidão a todo e qualquer elemento da criação. Sua vida se torna clara e fácil de ser seguida. Há apenas um Senhor e um caminho a ser seguido. Nada é associado a Deus. Em diversas passagens do Qur’an, Allah expõe as ramificações e os efeitos da fé correta n’Ele com os efeitos das diferentes crenças incorretas. Na seguinte passagem, Allah descreve os frutos da fé correta como também os resultados de todas as falsas crenças. Disse Allah: “Não reparas em como Deus exemplifica? Uma boa palavra é como uma árvore nobre, cuja raiz está profundamente firme, e cujos ramos se elevam até ao céu. Frutifica em todas as estações com o beneplácito do seu Senhor. Deus fala por parábolas aos humanos para que se recordem. Por outra, há a parábola de uma palavra vil, comparada a uma árvore vil, que foi desarraigada da terra e carece de estabilidade. Deus firmará os fiéis com a palavra firme da vida terrena, tão bem como na outra vida; e deixará que os iníquos se desviem, porque procede como Lhe apraz.” (14:24-27). Foi narrado que Ibn Abbas disse: “a boa palavra é o testemunho que não existe nada digno de louvor, exceto Allah.” Este versículo demonstra que o monoteísmo puro ou a fé correta é o cimento sobre o qual se constrói todo o bem. É uma base que continua dando suporte e seus resultados são elevados. Esse é o caminho da fé verdadeira: beneficiar a pessoa, contínua e eternamente, nesta e na próxima vida. Além disso, quanto mais fortes e melhor apoiadas sejam as bases ou raízes, maiores serão os frutos. Por outro lado, as falsas crenças, como associar companheiros a Deus, não têm nenhum fundamento sólido. De fato, não são mais que uma ilusão no sentido de que nunca produzirão o que seus seguidores crêem ou sustentam. Portanto, não é um segredo, muito menos uma surpresa, que a primeira parte da missão do Profeta, segundo é provado pelas revelações que recebeu em Makkah, foi concentrada na purificação da fé. Foi dedicada a eliminar todas as formas de ignorância, superstição e falsas crenças, pois a alma humana não pode descansar se está dispersa em várias direções, perseguindo objetivos distintos. Allah descreveu, de uma bela maneira, a semelhança entre quem não enxerga que sua alma só reconhece um objeto de adoração e quem tem esta consciência: “Deus expõe, como exemplo, dois homens: um está a serviço de sócios antagônicos e o outro a serviço de uma só pessoa. Poderão ser equiparados? Louvado seja Deus! Porém, a maioria dos homens ignora.” (39:29). De uma perspectiva islâmica, não existe forma de que uma pessoa compraza a mais de um deus, pois, segundo a definição islâmica da palavra “Deus”, Deus deve ser o primeiro e principal no coração do indivíduo. Na realidade, quando a pessoa se dá conta de que tem apenas uma meta clara, o efeito sobre sua alma é muito profundo. Já não precisa perseguir uma grande quantidade de objetivos, sem nunca conseguir satisfazê-los ou alcançá-los completamente. De fato, muitas vezes as metas das pessoas são contraditórias e nunca todas podem ser alcançadas. Pode-se ter certeza que suas metas e caminhos estarão desperdiçados. Suas energias não devem ser esgotadas buscando alcançar um sem-fim de metas. Quando se tem apenas uma meta, pode-se determinar com facilidade se avança até esta meta ou não. Pode-se empregar toda a sua energia e sua mente em trabalhar por alcançar esta única meta. Pode-se ter a certeza de que sua meta e seu caminho estarão definidos. Assim, não há razão para que se tenha dúvidas ou confusões. Logo, à medida que se aproxima mais e mais à meta, pode-se experimentar a verdadeira felicidade e gozo. Tudo isso é parte da beleza e o legado quando os seres humanos reconhecem, recebem e aceitam o verdadeiro monoteísmo, o único sistema de fé compatível com sua própria criação e natureza. A religião de Allah O Islam não é uma filosofia ou uma religião criada pelo homem. Seus ensinamentos vêm diretamente do Criador. É a orientação que o Criador, por Sua misericórdia, outorgou à humanidade. Na verdade, Deus é o único que sabe como quer ser adorado. Ele é o único que sabe que forma de viver o agrada. Os filósofos e pensadores se perguntam que tipo de vida agrada a Deus, mas na realidade os detalhes dessa vida estão além do alcance da racionalidade e da experiência humana. O que os humanos declaram, independentemente da revelação de Deus, como o melhor modo de adorar a Deus, não necessariamente é o que mais agrada a Deus senão o que mais agrada à pessoa que estabeleceu as regras. Assim, só Deus conhece, por exemplo, a maneira a qual devemos rezar para Ele. Por haver apenas uma forma de vida que Deus aprova, esta também será a única aceita por Ele no final. Dois versículos do Qur’an foram escolhidos para assinalar esta conclusão: “Para Deus a religião é o Islam. E os adeptos do Livro só discordaram por inveja, depois que a verdade lhes foi revelada. Porém, quem nega os versículos de Deus, saiba que Deus é Destro em ajustar contas.” (3:19). “E quem quer que almeje (impingir) outra religião, que não seja o Islam, (aquela) jamais será aceita e, no outro mundo, essa pessoa contar-se-á entre os desventurados.” (3:85). Deve-se insistir neste ponto constantemente. A pergunta principal deve ser: O que é aceitável e compraz a Allah? Ninguém pode afirmar seriamente com uma prova real que algum caminho divergente ao que Allah estabeleceu com Sua orientação seja de Seu agrado. Tal afirmação seria absurda e infundada. Integralidade O Islam é integral de muitas maneiras. É completo no sentido de que se aplica a todos os seres humanos e é aplicável por todos, sendo o local e época irrelevantes. O Islam ou submissão a Deus é a verdadeira forma de vida desde os primeiros seres humanos até o último que pise nesta terra. Além disso, o Islam é para todas as classes de pessoas. O Islam é tão relevante para o cientista de renome quanto para o beduíno mais analfabeto. Allah falou sobre o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): “Dize: Ó humanos, sou o Mensageiro de Deus, para todos vós” (7:158). “E não te enviamos, senão como universal (Mensageiro), alvissareiro e admoestador para os humanos; porém, a maioria dos humanos o ignora.” (34:28). Entre os seguidores do Profeta havia ricos e pobres, nobres e humildes, letrados e analfabetos. Todos eles podiam aplicar o Islam e assim, pela vontade de Allah, ganhar a complacência d’Ele. O Islam também engloba esta vida e a próxima, não é uma religião que só se ocupa da outra vida. O Islam também oferece uma orientação prática e completa para os assuntos deste mundo. Como foi dito, uma das metas do Islam é estabelecer uma sociedade sólida e correta nesta vida. E quanto à próxima vida, o benefício da mesma depende completamente do Islam e de como foi trabalhado para chegar lá da maneira correta. Allah pode dar a qualquer um alguns dos bens deste mundo, mas reserva o bem da próxima vida apenas para aqueles que são crentes devotos. Allah disse: “Quanto àqueles que preferem a vida terrena e seus encantos, far-lhes-emos desfrutar de suas obras, durante ela, e sem diminuição. Serão aqueles que não obterão na vida futura senão o fogo infernal; e tudo quanto tiverem feito aqui tornar-se-á sem efeito e será vão tudo quanto fizerem.” (11:15-16). “A quem quiser as coisas transitórias (deste mundo), atendê-lo-emos ao inferno, em que entrará vituperado, rejeitado. Aqueles que anelarem a outra vida e se esforçarem para obtê-la, e forem fiéis, terão os seus esforços retribuídos. Tanto a estes como àqueles agraciamos com as dádivas do teu Senhor; porque as dádivas do teu Senhor jamais foram negadas a alguém.” (17:18-20). O Islam também se encarrega de todos os pormenores do ser humano. Ocupase do espírito, intelecto, corpo, fé, ações e moral. Protege o ser humano das enfermidades do coração como também das enfermidades do corpo e da sociedade em sua totalidade. Assim, pode-se encontrar ajuda sobre a enfermidade da arrogância, que aparece no coração; sobre como fazer com que os seres humanos comam e bebam sem extravagâncias e como afastá-los da corrupção e enfermidades sociais como adultério e outras. Na essência, o Islam orienta os seres humanos a uma vida equilibrada, onde não se ignora nenhuma particularidade. Pelo contrário, cada detalhe recebe toda a atenção que merece. O Islam também é integral no sentido que envolve todos os aspectos da vida de uma pessoa, desde os rituais de adoração ao comportamento moral, passando pelas relações comerciais e governamentais. Nada, pela graça e misericórdia de Allah, tem sido deixado de lado. Não há razão para que alguém se sinta perdido, em qualquer área de sua vida. Não importa qual seja o assunto, encontrará algo que o guie.

O novo muçulmano deve aceitar o Islam em sua integralidade. Não está livre para escolher qual aspecto do Islam o favorece ou não. Com respeito a este comportamento, Allah disse: “Credes, acaso, em uma parte do Livro e negais a outra?” (2:85). Por exemplo, não se pode restringir seu Islam simplesmente a crer e realizar atos de adoração, rechaçando o que o Islam diz sobre o matrimonio, comércio, bebidas alcoólicas e drogas. Sim, é certo que não se pode esperar que uma pessoa se converta em um muçulmano perfeito da noite para o dia. Sem dúvidas, o assunto principal é a meta, a compreensão e a aceitação no coração da totalidade do Islam. A beleza e consistência da integralidade do Islam é outro sinal de que esta religião foi revelada por Allah. É impossível que os seres humanos, inclusive organizados em grupos, abranjam todos os detalhes desta criação de tal maneira que possam dar uma orientação integral para cada aspecto da vida. A esse respeito, Sayid Qutb escreveu: “Quando um ser humano tenta construir um conceito metafísico ou um sistema de vida através de seus próprios meios, este conceito ou sistema não pode ser integral. Só será válido parcialmente, para um momento e lugar, mas não para os outros momentos e lugares e será apropriado para certas circunstâncias, porém não para outras. Além disso, incluindo ao enfrentar um simples problema, é incapaz de abordá-lo de todos os pontos de vista possíveis e de considerar todas as conseqüências da solução proposta, pois, todo problema se estende no espaço e tempo e está conectado com precedentes e antecedentes que vão além do âmbito de observação e compreensão dos seres humanos. Portanto, concluímos que nenhuma filosofia ou sistema de vida produzido pelo pensamento humano pode ter as características da “integralidade”. Em suma, poderá cobrir um segmento da vida humana e ser válido por certo período. Devido a seu alcance limitado, sempre será deficiente em muitos aspectos e devido a seu caráter temporal, está destinado a causar problemas que requerem modificações e mudanças na filosofia ou sistema de vida original. Os povos e nações que baseiam seus sistemas econômicos, políticos e sociais em filosofias humanas se enfrentam constantemente em contradições e dialéticas. Ter em conta o bem-estar deste mundo e do próximo Como disse antes, o Islam não é uma religião que se ocupa somente da próxima vida ou do que habitualmente se conhece com o “lado espiritual” da vida. A mudança promove o bem-estar dos seres humanos tanto neste mundo como no próximo. Por isso, disse Allah: “A quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e for fiel, concederemos uma vida agradável e premiaremos com uma recompensa, de acordo com a melhor das ações.” (16:97). Muitos sábios analisam a Lei Islâmica em sua totalidade e afirmam que a Lei está desenhada para alcançar metas específicas neste mundo (além dos objetivos óbvios da próxima vida). Pode-se dividir os “desejos” e “necessidades” deste mundo em três categorias: necessidades básicas, necessidades secundárias e comodidades. As necessidades básicas são aqueles elementos da vida que são requeridos para que se leve uma vida digna. Em outras palavras, sem elas nos sentiríamos miseráveis. Depois das necessidades básicas vêm as necessidades secundárias que tornam a vida mais suportável, ainda que seja possível viver sem elas. E então, vêm as comodidades que fazem a vida mais cômoda e desfrutável. A Lei Islâmica, vinda do Criador, identifica e enfatiza quais são as verdadeiras necessidades básicas da vida. Quando se estudam as leis do Islam e a sabedoria por trás das mesmas, descobre-se que foram criadas para estabelecer, proteger, reforçar e perpetuar estas necessidades básicas. Logo que isso tudo esteja realmente garantido e estabelecido, a lei busca satisfazer as necessidades secundárias da vida. E, depois de considerar as necessidades básicas e secundárias devidamente, então a lei procura brindar comodidades para fazer a vida mais fácil para a humanidade. Por razão de espaço, não se discutirão detalhadamente estas três categorias. Portanto, só daremos uma vista geral às cinco necessidades básicas da vida identificadas através da Lei Islâmica. As necessidades básicas segundo estabelecido na Lei Islâmica são: (1) a religião, (2) a vida, (3) os laços e relações familiares, (4) a saúde mental e a riqueza e as posses. Em uma eloquente passagem, o que é representativo do estilo do Qur’an, Allah cita todas as metas da Lei Islâmica: “Dize (ainda mais): Vinde, para que eu vos prescreva o que vosso Senhor vos vedou: Não Lhe atribuais parceiros; tratai com benevolência vossos pais; não sejais filicidas1 , por temor á miséria - Nós vos sustentaremos, tão bem quanto aos vossos filhos; não vos aproximeis das obscenidades, tanto pública, como privadamente, e não mateis, senão legitimamente, o que Deus proibiu matar. Eis o que Ele vos prescreve, para que raciocineis. Não disponhais do patrimônio do órfão senão da melhor forma possível, até que chegue á puberdade; sede leais na medida e no peso - jamais destinamos a ninguém carga maior á que pode suportar. Quando sentenciardes, sede justos, ainda que se trate de um parente carnal, e cumpri os vossos compromissos para com Deus. Eis aqui o que Ele vos prescreve, para que mediteis. E (o Senhor ordenou-vos, ao dizer): Esta é a Minha senda reta. Segui-a e não sigais as demais, para que estas não vos desviem da Sua. Eis o que Ele vos prescreve, para que O temais.” (6:151-153). A mais importante destas metas é a religião. De um ponto de vista islâmico, se as pessoas não têm religião e uma relação sólida com seu Senhor, não chegarão a ter uma vida sã. Portanto, espera-se que as pessoas se esforcem para levar uma vida sã, tanto individual quanto coletivamente, pondo Allah acima de seus próprios interesses e inclusive de seu próprio ser. De fato, disse Allah: “Pode, acaso, equiparar-se aquele que estava morto e o reanimamos á vida, guiando-o para a luz, para conduzir-se entre as pessoas, àquele que vagueia nas trevas, das quais não poderá sair? Assim foram abrilhantadas as ações aos incrédulos.” (6:122). Muitas das leis do Islam estão desenhadas, obviamente, para a conservação desta meta máxima. Por exemplo, o estabelecimento da oração em congregação e, após, a continuidade da vida normal. Assim, a lei de retribuição (lei de Talião) e a pena de morte são parte da legislação islâmica. Estas leis não estão ali simplesmente para castigar. Ditas leis, na realidade, têm como objetivo proteger a vida, como disse Allah: “Tendes, no talião, a segurança da vida, ó sensatos, para que vos refreeis.” (2:179). Com respeito aos laços familiares, foram mencionadas as leis sobre adultério, fornicação e calúnia. Quanto à proteção à riqueza, vemos que sob condições específicas, a mão do ladrão deve ser amputada. A proibição dos “resíduos” da riqueza, a extravagância e os juros, tem como finalidade conservá-la de maneira adequada. Sobre a proteção da capacidade mental, proibisse toda substância embriagante e foram estabelecidos severos castigos por se violar esta lei. - Facilidade e ausência de dificuldade na Lei Um dos aspectos mais claros da Lei Islâmica é o objetivo de trazer facilidades aos seres humanos e evitar a dificuldade, uma vez que os resultados são positivos para todos. Portanto, não é um objetivo independente das outras metas, como a piedade, a justiça, a equidade, o equilíbrio e outras. Próxima página 57. Abraço. Davi


sexta-feira, 25 de outubro de 2024

CAPÍTULO II. Parte I. DEUS VEM AO ENCONTRO DO HOMEM

 Cristianismo. Livro Catecismo da Igreja Católica. CAPÍTULO II. Parte I. DEUS VEM AO ENCONTRO DO HOMEM. Mediante a razão natural, o homem pode, com certeza, conhecer a Deus a partir de suas obras. Existe, porém, outra ordem de conhecimento que o homem de modo algum pode atingir por suas próprias forças, a da revelação divina. Por uma decisão totalmente livre, Deus se revela e se doa ao homem. Faz isto revelando seu mistério, seu projeto benevolente, que, desde toda a eternidade, concebeu em Cristo, em favor de todos os homens. Revela plenamente seu projeto, enviando seu Filho bem-amado, nosso Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo. A Revelação de Deus. 1. Deus revela seu projeto benevolente. “Aprouve a Deus em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade, pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo. Tem acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina”. Deus, que “habita numa luz inacessível” I Timóteo 6,16, quer comunicar sua própria vida divina aos homens, criados livremente por ele, em seu Filho único, filhos adotivos. Ao revelar-se, Deus quer tornar os homens capazes de responder-lhe, de conhecê-lo e de amá-lo bem mais do que seriam capazes por si mesmos. O projeto divino da Revelação realiza-se ao mesmo tempo por ações e por palavras, intimamente ligadas entre si e que iluminam mutuamente. Este projeto comporta uma pedagogia divina peculiar. Deus comunica-se gradualmente com o home, o prepara, por etapas, para acolher a revelação sobrenatural que faz de si mesmo e que culmina na Pessoa e na missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo. Santo Irineu de Lion (130 d.C.) fala, repetidas vezes, desta pedagogia divina sobre a imagem da familiaridade mútua entre Deus e o homem. “O Verbo de Deus (...) habitou no homem e se fez Filho do homem para acostumar o home a apreender a Deus e acostumar Deus a habitar no homem, segundo o consentimento da Pai”. 2. As etapas da revelação. Desde a origem, Deus se dá a conhecer. “Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo, oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo na criação, Romanos 1,1-20”. Além disso, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o princípio, aos nossos primeiros pais. Depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-lhes a esperança da salvação, Gênesis 3,15, cuidando continuamente do gênero humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a salvação Romanos 2,6-7. No devido tempo chamou a Abraão, para fazer dele pai de um grande povo, Gênesis 12,2 povo que, depois dos patriarcas, ele instruiu. Por meio de Moisés e dos profetas, para que o reconhecessem como único Deus vivo e verdadeiro, pai providente e juiz justo. Para que esperassem o Salvador prometido, assim preparou Deus através dos tempos o caminho ao Evangelho. Convidou-os a uma comunhão íntima consigo mesmo, revestindo-os de uma graça e de uma justiça resplandentes. Esta revelação não foi interrompida pelo pecado de nossos pais. Deus, com efeito, “após a queda deles (...) com a promessa da redenção, os consolou com a esperança da salvação e velou permanentemente pelo gênero humano. A fim de dar a vida eterna a todos aqueles que, pela perseverança na prática do bem, procuram a salvação. “Quando pela desobediência perderam vossa amizade, não os abandonastes ao poder da morte (...). Oferecestes, muitas vezes, aliança aos homens e às mulheres”. A Aliança com Noé. Desfeita a unidade do gênero humano pelo pecado. Deus procura, antes de tudo, salva a humanidade intervindo em cada uma de suas partes. A Aliança com Noé, depois do dilúvio, exprime o princípio da economia divina para com as nações, isto é, para com os homens agrupados “segundo seu país, língua, família e nação” Gênesis 10,5. Esta ordem cósmica, social e religiosa da pluralidade das nações destina-se a limitar o orgulho de uma humanidade decaída que, unânime em sua perversidade, gostaria de construir, por si mesma, sua unidade a maneira de Babel, Gênesis 11,4-6. Contudo, devido ao pecado, o politeísmo, assim como a idolatria da nação e de seu chefe, constitui uma contínua ameaça de perversão pagã para essa economia provisória. A Aliança com Noé permanece em vigor durante todo o tempo das nações, até a proclamação universal do Evangelho. A Bíblia venera algumas grandes figuras das nações, tais como Abel o justo, o rei sacerdote Melquisedeque, figura de Cristo, ou os justos Noé, Daniel e Jó. Assim, a Escritura exprime que grau elevado de santidade pode atingir os que vivem segundo a Aliança de Noé, na expectativa de que Cristo congregue na unidade “todos os filhos de Deus dispersos, João 11,52. Deus elege Abraão. Para congregar a humanidade dispersa, Deus elege Abraão. Para congregar a humanidade dispersa, Deus elege Abrão, o chamando. “Sai de tua terra, do meio de teus parentes, da casa de teu pai”, Gênesis 12,1. Para fazer dele Abraão, o pai de uma multidão de nações, Gênesis 17,5. “Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” Gênesis 12,3. O povo originado de Abraão será o depositário da promessa feita aos patriarcas, o povo escolhido, chamado a preparar, um dia, a unidade da Igreja de todos os filhos de Deus. Este povo será a raiz sobre a qual serão enxertados os descrentes tornados crentes. Os patriarcas e os profetas, bem como outras personalidades do Antigo Testamento, foram e serão sempre venerados como santos em todas as tradições litúrgicas da Igreja. Deus forma seu povo. Depois forma seu povo Israel. Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, o salvando da escravidão do Egito. Fez com ele a Aliança do Sinai e deu-lhe, por intermédio de Moisés, sua Lei, para que o reconhecesse e o servisse como o único Deus vivo e verdadeiro. Pai providente e juiz justo, para que esperasse o Salvador prometido. Israel é o povo sacerdotal de Deus, aquele sobre o qual é invocado o Nome do Senhor, Deuteronômio 28,10. É o povo daqueles aos quais Deus falou em primeiro lugar, o povo dos irmãos mais velhos da fé de Abraão. Por meio dos profetas, Deus forma seu povo na esperança da salvação, na expectativa de uma Aliança nova e eterna, destinada a todos os homens, e que será impressa nos corações. Os profetas anunciam uma redenção radical do Povo de Deus, a purificação de todas as suas infidelidades, uma salvação que incluirá todas as nações. Serão sobretudo os pobres e os humildes do Senhor os portadores desta esperança. As mulheres santas como Sara, Rebeca, Raquel, Miriam, Débora, Hulda, Ana, Judite e Ester mantiveram viva a esperança da salvação de Israel. Entre todas elas, a figura mais luminosa é Maria. Cristo Jesus “mediador e plenitude de toda a revelação. Deus tudo disse no seu Verbo. “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos país, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, Hebreu 1,1-2. Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele o Pai disse tudo, e não há outra palavra senão está. São João da Cruz (1542-1591), a exemplo de tantos outros, expressa isto de maneira brilhante, ao comentar Hebreus 1,1-2. “Porque em dar-nos, como nos deu, seu Filho, que é sua Palavra única, e não há outra, tudo nos falou de uma só vez nessa única Palavra, e nada mais tem a falar (...). De fato, aquilo que outrora falou parcialmente aos profetas, agora nos disse inteiramente em seu Filho, nos dando o todo que é seu próprio Filho. Portanto, se alguém ainda quisesse interrogar o Senhor e pedir-lhe visões ou revelações. Não só cometeria uma insensatez como ofenderia a Deus, por não fixar seu olhar unicamente em Cristo e buscar fora dele coisas diferentes ou novidades”. Não haverá outra revelação. A economia cristã, portanto, como Aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todavia, embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo. Cabe a fé cristã captar gradualmente, ao longo dos séculos, todo o seu alcance. No decurso dos séculos, houve revelações denominadas “privadas”, algumas delas reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, contudo, ao depósito da fé. A função delas não é “melhorar” nem “completar” a Revelação definitiva de Cristo. Todavia ajudar a viver dela, com mais plenitude, em determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o sendo dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou de seus santos à Igreja. A fé cristã não pode aceitar “revelações” que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação da Qual Cristo é a perfeição. Este é o caso de certas religiões não cristãs e de certas seitas recentes que se fundamentam em tais “revelações”. Abraço. Davi

 

 

 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

JESUS. Parte VI

Judaísmo. Livro Judaísmo e Cristianismo – As Diferenças. Por Trude Weiss Rosmarin (1908-1989). JESUS. Capítulo 8. JESUS. Parte VI. A Bíblia Hebraica considera todos os seres humanos como irmãos por parte do Pai do Céu. Portanto, os profetas eram os mensageiros de Deus para toda a humanidade e não somente para seu próprio povo. Jesus, por outro lado, apresentou uma atitude definitivamente exclusivista ao enfatizar que fora enviado somente para “as ovelhas desgarradas do povo de Israel” Mateus 15,24. Esse aspecto é ainda mais enfatizado na recusa de Jesus em curar a filha de uma canaanita. A Bíblia Hebraica está repleta de exemplos de gestos de bondade dirigidos a não judeus. Para citar apenas um: quando Naamã, o general arameu acometido por lepra, dirigiu-se ao Rei de Israel pedindo ajuda, o profeta Eliseu prontamente ofereceu seus préstimos restabelecendo sua saúde devido à graça Divina, II Reis 5. O fato de Naamã não ser israelita não fez com que o profeta não o ajudasse. De modo semelhante, todos os códigos de lei e guias éticos judaicos enfatizam que o judeu não deve discriminar os não judeus. Mas auxiliá-los na adversidade, doença e tragédia, assim como ajudaria um judeu. A dura resposta de Jesus à canaanita não foi menos contrária à tradição judaica do que aos padrões éticos aceitos. Pois quando a mulher implorou: “Tenha piedade de mim, Senhor! Minha filha está terrivelmente possuída pelo demônio”, Jesus não a reconfortou e instruiu seus discípulos: “Mande-a embora pois fica implorando”, e acrescentou: “Fui enviado somente para as ovelhas desgarradas da casa de Israel”. Quando a mãe alterada continuou implorando, ele exclamou as cruéis palavras: “Não é certo tirar o pão das crianças e jogar aos cães”, querendo dizer com isso que os não judeus são cães e, consequentemente, não tem direito à misericórdia Divina. Somente quando a pobre mulher se humilhou, a ponto de aceitar o papel de um cão, dizendo: “Até os cães comem as migalhas que caem da mesa de seu dono”. É que Jesus considerou e prometeu ajudá-la “porque você possui grande fé”, Mateus 15,22-28. Mas, mesmo assim ao ajudá-la, ele o fez sem humanidade ou piedade, porém como retribuição à grande fé da mulher em sua pessoa. Assim como suas inconsistências e oposições a certos princípios da crença e ética judaicas colocaram Jesus em oposição ao judaísmo. Da mesma foram as interpretações arbitrárias de certas leis primordiais o desqualificaram como “rabino” ou “mestre”. Vimos que o reconhecimento de Jesus de que ele não veio para alterar a Lei foi anulado pela parábola de que um retalho novo não pode remendar uma roupa velha, nem um vinho novo pode ser mantido num barril envelhecido. Apesar de Jesus ter apregoado que nenhum pingo no i ou traço no t deveria ser retirado da Lei. Ele próprio desconsiderou e violou várias leis importantes. Já analisamos a ilegalidade da autorização a seus discípulos e apanharem as espigas de milho no Shabat. Pois estar faminto não se trata de emergência que justifique a transgressão do Shabat. Também vimos que ao enumerar os Dez Mandamentos, Jesus omitiu os quatro referentes aos deveres cerimoniais. Isto, entretanto, foi somente parte da desconsideração deliberada de Jesus pela Lei. Em várias ocasiões ele curou pessoas no Shabat que não estavam em situação emergencial, alegando que poderia fazê-lo em oposição aos rabinos que sustentavam que o Shabat pode (e deve, na verdade) ser transgredido somente com vistas a salvar e preservar uma vida. Contudo não para tratar de pessoas com enfermidades crônicas cujo estado se prolonga por anos e que, sem qualquer perigo de vida e saúde, podem aguardar algumas horas até o término do Shabat, ver Mateus 12,14-19. Lucas 13,10-16. A lei judaica aprova e recomenda o divórcio como meio de findar um matrimônio infeliz e insustentável. De fato, a Lei é notavelmente liberal, pois aceita como justificativa para o divórcio a incompatibilidade, o que não é admitido por várias religiões progressistas. O motivo subjacente, claro, é que é cruel e imoral forças duas pessoas que não mais se amam ou respeitam viverem sob o mesmo teto. A sensibilidade extremamente refinada do judeu para a santidade do vínculo do matrimônio pode ser vista pelo fato de que a lei judaica proíbe a intimidade conjugal se o marido odeia sua esposa “em seu coração”. O divórcio se constitui numa tragédia, ao que todos os mestres judeus prontamente admitem. Na verdade, é tão trágico que o próprio altar de Deus verte lágrimas quando um homem se divorcia da esposa que conheceu na sua juventude. Mas devido ao fato de a vida ser como é, o divórcio é necessário. Assim, a lei judaica aprova o divórcio e o Talmud devota um tratado inteiro para as implicações legais da dissolução do casamento – Guitim. “A eles (os judeus) foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe uma carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que repudia sua mulher, a não ser por motivo de fornicação, faz com que ela adultere, e aquele que se casa com a repudiada, comete adultério”. Mateus 5,31 e seguintes: comparar com Mateus 19,3-9. Abraço. Davi

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

MITOLOGIA E INFLUÊNCIA. Parte IV

 

Xintoísmo. bushidor.com. MITOLOGIA E INFLUÊNCIA na formação da cultura e o caráter do povo japonês. Parte IV. [...]. Os avós, pelas suas próprias virtudes durante a apagada existência, e pelas propiciações que os vivos lhes tributam, no desempenho dos ritos familiares, alcançam a bem-aventurança; e os seus espíritos agradecidos pagam em afetuosa proteção os cuidados rituais que se lhes votaram, guiando os vivos nos seus passos sobre a terra, aplanando as dificuldades, encaminhando os também para a bem-aventurança esperada. Vive-se, pois, pode dizer-se, para morrer; e morre-se para viver (MORAES, 1924, p. 82-83). À família imperial cabe-lhe outros rituais como o Niinamesai, a comunicação da maioridade e assunção do título de príncipe herdeiro. O imperador deve reportar periodicamente à deusa Amaterasu, no santuário de Ise, os principais acontecimentos do país (HERBERT, 1964, p. 250).  A maioria dos casamentos são celebrados no ritual xintoísta e as cerimônias fúnebres, no budista. O jesuíta português Luís Almeida ao visitar o Japão em 1565, observou: "os japoneses rezam aos kami (divindades) pedindo longevidade, saúde, riqueza, fama e todos os outros benefícios terrenos, voltando-se, no entanto, para Hotoke (Buda) para implorar a sua salvação religiosa pessoal", característica da religiosidade desse povo que permanece ainda atualmente (YUSA, 2002, p. 17).  Poucos são os que optam por enterrar seus mortos em cemitérios xintoístas, preferindo a cremação. Enquanto o xintoísmo é otimista e está ligado a festivais, o budismo acabou assumindo o papel de oficiante dos funerais. Isso deve-se à proibição da presença de cadáveres nos santuários - local dedicado exclusivamente aos kami - e a falta de hábito de ritos funerários dos monges xintoístas - também de dedicação exclusiva aos kami - , devendo qualquer outro assunto ser tratado fora do santuário (ONO, op. cit., p. 110). A dinastia Tokugawa (1603-1867), com a perseguição aos cristãos, ordenou que os sepultamentos fossem realizados apenas por monges budistas (idem). Tida como a religião da natureza, o xintoísmo é a religião que comemora os fatos da vida, celebra e vivifica-os em rituais de renovação: a colheita, as estações do ano, os festivais, adquirindo por esse motivo o ar alegre e festivo das comemorações da comunidade, chamadas matsuri. No Xintô a vida vivida em comunhão com a vontade divina está protegida (ONO, op. cit., p. 50); por isso, o mundo é bom, uma dádiva dos deuses ao qual o homem deve responder com gratidão à sua família, a seus ancestrais e ao kami, assumindo "suas obrigações com a sociedade e contribuindo para o desenvolvimento de tudo que lhe foi confiado" (ibidem p. 103). A vida quotidiana é considerada como um serviço para o kami, isto é, o matsuri (idem). Intimamente ligado à natureza, que se renova visivelmente a cada estação,  a renovação se dá também na reconstrução dos santuários no Parque de Ise, na província. É a mais importante cerimônia do xintô que ocorre em 23 de novembro quando o imperador, como sacerdote supremo do xintô, em nome do povo japonês, partilha arroz novo e saquê branco e preto com a deusa Amaterasu. (HERBERT, 1964, p. 71) 20 .de Mie. Desde o ano 690 no reinado da imperatriz Jito (686-697) os santuários são reconstruídos a cada 20 anos, poucas vezes interrompida por guerras ou dificuldades financeiras da família imperial. (ibidem p. 28). Para essa reconstrução, chamada de sengu, são utilizadas 130 mil árvores de hinoki (cipreste japonês) de 200 anos, (ibidem p. 29) para que "a deusa do sol, Amaterasu (a divina ancestral da casa imperial) e a deusa da colheita, Toyouke, adquiram renovado vigor, garantindo a vitalidade da linha imperial e da cultura do arroz, sem os quais seria impossível a sobrevivência da nação"(LITTLETON, op. cit., p.62-63). As peças dos santuários desconstruídos são utilizadas para construção de outros santuários (idem). A última reconstrução se deu em 1993, o que indica este ano de 2013 como a próxima reconstrução (idem).  A pureza no Xintô. Para o Xintô “a vida só tem sentido e só encontra o seu verdadeiro estado na pureza, e a vida que perde a sua pureza não agrada às divindades e transforma-se assim numa vida anti xintoísta cheia de pecados, de manchas e de desgraças”(ROCHEDIEU, op. cit., p. 60). As cerimônias de início de atividade – inaugurações em geral –   festivais populares ou torneios esportivos geralmente são precedidos por ato de purificação. A purificação diz respeito não apenas ao corpo, mas também ao espírito. Para os xintoístas, a purificação é o ato cerimonial mais importante pois é o que aproxima nosso espírito do espírito puro dos deuses e para alguns é o que permite atingir a Realidade Última, porém, esta união só se dá na presença de um coração puro e claro (ROCHEDIEU, op. cit., p. 61). Para o Xintô, os ritos e a liturgia são elementos secundários diante da importância que assume a atitude de se manter claro e puro o coração (idem). Nos santuários xintoístas está disposta invariavelmente uma pia com água corrente, servida por uma concha de bambu para a higiene da boca e das mãos, antes de o fiel entrar no santuário. Purifica-se o corpo externa e internamente antes de entrar na presença dos deuses (LITTLETON, op. cit., p. 61-62). Para a purificação é preciso que ocorra: (ROCHEDIEU, op. cit., p. 97-100)- a vontade e o poder divino que purifica e- o esforço do homem que busca a purificação. A mancha atrai os maus espíritos e faz o homem dependente destes. São ritos de purificação: 1. O harai – destinado a limpar as manchas advindas do mal cometido. 2. O misogi – destinado a remover as impurezas advindas de outros males que não as de cunho moral como por exemplo, contato com coisas impurezas como o cadáver. Usa-se em geral a água como elemento purificador. Mais do que o rito de purificação, o misogi abrange “todo o processo de disciplina mental”. 3. O imi – refere-se a observância de condutas de purificação com evitar a ingestão de certos alimentos, ações e contatos com o intuito de se preservar a pureza total do culto. Neste estado de imi devem estar não apenas o oficiante, mas também os encarregado da preparação da cerimônia. É proibido ainda como atos preparatórios para o imi, ouvir música, ingestão de bebidas alcoólicas ou de alimentos que não tenham sido cozidos em fogo puro e ocupar-se de atividades que causem preocupação, fadiga ou sofrimento. Acredita-se que o homem receba avisos do descontentamento dos deuses quanto à sua conduta, devendo então empregar todos os seus esforços para recuperar seu estado normal de pureza. São faltas ou más condutas: (SIEFFERT, op. cit., p. 12) 1. O tsumi – atitude em que há vontade deliberada de praticar o mal. 2. O wazawai – é a desgraça, a provação e a calamidade, cuja ocorrência independe da vontade; 3. O kegari – a impureza, a mancha ocasionada pelos fatores já vistos. Apenas o tsumi é de inteira responsabilidade individual, havendo, entretanto, responsabilidade na conduta por negligência ou imprudência se formos abatidos por tsumi ou kegari. De fato, mesmo inconscientemente, a invasão de território proibido, de domínio do kami constitui tsumi, adverte Sieffert que, melhor esclarece o conceito de tsumi, desconsiderando o que o Ocidente geralmente traduz por pecado ou falta: é "a transgressão de certos limites nem sempre formalmente proibidos nem definidos, mas carregados de um potencial mágico perigoso devido à simples presença de um kami" (idem). Carregar no corpo ou na alma qualquer das faltas, torna-nos inapropriados para entrar nos santuários, devendo o fiel, antes, realizar a purificação da boca e das mãos com água corrente disposta na entrada chamada temizuya (ONO, op. cit., p. 34). Na época dos samurais, antes dos combates, alguns se purificavam com essa água, vertendo-a também na lâmina de suas espadas. Entre os atos que chocam a sensibilidade e que não se aplicam apenas às más ações, está o cortar a pele viva ou morta, do homem ou de animais, daí serem considerados impuros o manejo do sangue e de seres mortos,  ou ainda infligir cortes e perfurações na pele como as tatuagens ou piercings. O corpo, assim como as vestimentas, deve ser puro, sem mácula (GRIFFIS, op. cit., p. 85). Nos banhos públicos há avisos proibindo a entrada de pessoas alcoolizadas ou tatuadas. São impuros o ofício do açougueiro ou do coveiro, geralmente executados por párias. O parto, a doença, o moribundo e o doente terminal são considerados impuros. William Elliot Griffis (1843-1928) relata que no Japão antigo eram construídas cabanas para parturientes ou moribundos que eram depois queimadas, finalizadas o uso (GRIFFIS, op. cit., p. 85). Perverso costume que penalizava a parturiente e o doente, quando mais precisavam de cuidados e apoio. Esse costume permaneceu ainda em algumas regiões do Japão até 1878 (idem). Nota-se o cuidado com a limpeza em todos os lugares: nos locais públicos, nas casas, nas escolas, onde desde pequenas as crianças aprendem a cuidar da limpeza da classe e das dependências da escola. Discorrendo sobre o que via, o português Wenceslau de Moraes escreve, surpreso, observando as ruas de um Japão ainda de vida pacata: "muito limpas; são os moradores que as varrem, com escrúpulos de minúcia, cada qual na parte que fica em frente à sua casa; o ofício de varredor municipal é desconhecido no Japão" (MORAES, op. cit, p. 75). E em outro trecho: "pode-se dizer que, na habitação japonesa, o principal luxo, muitas vezes o único, é a limpeza; mas esta tão requintada, que embriaga!..." (ibidem p. 77). Ainda nos dias de hoje, curiosamente o Japão não tem varredores nem lixeiras nas ruas, mesmo nas grandes cidades como Tóquio. Sujar lugar público é desrespeitar o próximo que também utiliza o espaço. Manchar ou ferir nosso corpo, cortando, perfurando, ferindo ou ministrando-lhe drogas que desvirtuem sua natureza, isto é, tudo que nos desvie de um comportamento bom, respeitoso, contrário, segundo um teólogo xintoísta, “ao que foi desejado pelo espírito divino” – significação de nossa vida terrestre - , significa ser desrespeitoso com a divindade que em nós habita. Assim também, uma conduta que ofenda nosso próximo por palavras, ações ou pensamentos, mostra a mácula do espírito, o distanciamento do natural Caminho. O espírito ofensor está duplamente em falta: consigo e com a divindade que está abrigada no próximo. É mancha que lançamos ou permitimos que se lance sobre nós, obstando a volta ao estado natural, vale dizer, de retornarmos ao estado de bons, de retornarmos ao Caminho. Wenceslau relata-nos sua surpresa quanto à língua japonesa: Neste momento, deixemos assomar, se nos apraz, aos lábios um sorriso, como único comentário; mas sorriso benevolente, de simpatia por esta gramática japonesa, a mais cortês de todas as gramáticas conhecidas. De fato, resulta pelo menos uma vantagem evidente; na língua japonesa não existem palavras insultuosas, obscenas; o termo mais rude que um japonês pode proferir é baka, imbecil. A gramática nipônica faz-nos lembrar uma corte 23 .atarefada, meticulosa, na qual os cortesãos em chusma - substantivos, adjetivos, advérbios, verbos, posposições e todo o resto - palpitam, rodopiam incessantemente em mesuras, em cortesias, em requebros, em reverências, seguindo regras de precedência da mais complicada pragmática imaginável, ou antes inimaginável...[...] e a língua japonesa é incontestavelmente uma das mais belas línguas hoje faladas, como também uma das mais difíceis (ibidem p. 40-41). As ações do Xintô, os ritos de purificação e as ideias de mácula procuram alcançar um ideal de pureza corporal e espiritual, destacando-se o esforço ao retorno do “estado normal”, isto é, estado divino, estado de bom. Corolário natural desta concepção, para o xintoísmo não somos maus, apenas estamos mau. Estar nesse estado é estar impuro, com o coração manchado, anuviado; é afastarmo-nos da nosso verdadeiro Eu ou permitir que nos afastem. O homem não é responsável pelos males que se abatem sobre sua vida, salvo aqueles produzidos por sua voluntária conduta, mas é somente sua a responsabilidade de viver uma vida reta, honesta, ética e clara, como é o desejo dos deuses.  A Natureza e o senso estético no Xintô Se observarmos as fases de desenvolvimento por que passaram as religiões, é de indubitável conclusão o primitivismo do Xintô, a fase ainda "das ideias infantis" dessa religião como afirma Griffis (GRIFFIS, op. cit., p. 69). "Estagnado" nessa fase de desenvolvimento, a Natureza - por força da crença de que os homens, a Natureza e os deuses, provêm de um único ancestral - é objeto de profunda apreciação, respeito e inúmeros festivais por todo o país. A comunhão com o divino e com a própria Natureza se funde num único sentimento, assim descrito emocionadamente por Rochedieu: [...] o Japão sabe conservar certos lugares unicamente pela beleza, e é muitas vezes surpreendente e comovedor para o Ocidental ver nos parques grandes templos, ou simplesmente presenciar num jardim público um pai acompanhado do filho parar em silêncio ao pé de um lago, de uma pequena ponte, de uma cascata ou das flores e ter uma atitude de recolhimento porque, para o japonês, a comunhão com o divino obtém-se as mais das vezes através da união de todo o seu ser com as belezas naturais, com obras de arte selecionadas, com a harmonia  que  emana  de  um  monumento. Não é o valor ou  a grandeza da matéria  utilizada   que  cria  a  beleza,  mas  o  amor com  que  o artista se debruça  sobre  a  sua  obra,  nela  trabalhando por vezes durante anos, mas incutindo desse modo, no objeto que cinzela ou no quadro que pinta, algo da sua alma, algo de si próprio, e esse algo que procura transmitir através da obra de arte é sempre aquilo que de melhor há em si (ROCHEDIEU, op. cit., p.37). A beleza natural é fundamental para a veneração dos kami nos santuários, independentemente do kami aí cultuado. Segundo Ono, é esse refinado senso estético da beleza que enleva o homem, conduzindo-o do mundo profano ao sagrado, que o faz 24 .experienciar o viver em comunhão com "o alto e profundo mundo do divino" (ONO, op. cit., p. 97). As leis xintoístas não provêm de um deus único, dado aos homens por revelação como nas grandes religiões do Ocidente. São descobertas dentro da Natureza onipresente, encantadora e ao mesmo tempo mística que se lhe mostra. A Natureza não é hostil como na mitologia judaico-cristã que expulsa o homem do Paraíso; pelo contrário, ela existe abençoada pelos deuses e se desenvolve com harmonia e cooperação (ibidem p. 103). É, portanto, dádiva divina, presente dos deuses para os homens. Página 25. Abraço. Davi

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A BATALHA ENTRE O BEM E O MAL. Parte I

 

Zoroastrismo. O Livro das Religiões. Por Editora Globo. A BATALHA ENTRE O BEM E O MAL. Parte I. O triunfo do bem sobre o mal depende da humanidade. Em contexto. Principais seguidores – Zoroastristas. Quando e onde. 1400-1200 a.C. Irã, na Pérsia. Antes. A partir da pré-história. Muitos sistemas de crenças caracterizam-se por um deus destrutivo ou por espírito maligno contrário a uma divindade mais benevolente. Depois. Século VI a.C. Os impérios persa e medo são unificados. O Zoroastrismo vira uma das maiores religiões do mundo. Século IV a.C. Filósofos gregos clássicos, entre eles Platão, estudam com sacerdotes zoroastristas. Diz-se que Aristóteles considerava Platão a reencarnação de Zoroastro. Século X d.C. Os Zoroastristas migram do Irã para a Índia, para evitar conversão ao islamismo. Dando origem aos parsis, a maior comunidade zoroastrista atual. O criador é totalmente bom. Contudo, tanto o bem quanto o mal podem ser vistos no mundo. O mal não tem como vir do bem. Portanto, deve existir um ser totalmente mau, contrário ao criador. Nós devemos escolher o bem, para ajudar o criador na luta contra o mal. O Zoroastrismo, uma das religiões mais antigas ainda existentes e uma das primeiras crenças monoteístas, foi fundado pelo profeta Zoroastro na antiga Pérsia, o atual Irã. A religião de Zoroastro se desenvolveu a partir do antigo sistema de deuses indo-iranianos, que incluía Ahura Mazda, “o senhor da sabedoria”. No Zoroastrismo, Ahura Mazda, às vezes chamado de Ohrmazd, é elevado à condição de deus único e supremo. O sábio criador, fonte de todo o bem, que representa ordem e verdade, em contraposição a maldade e ao caos. Ahura Mazda conta com a ajuda de suas criações, os Amesha Spenta, ou imortais sagrados”, seis espíritos divinos. Um sétimo Spenta menos definível é o Spenta Mainyu, visto como o próprio “espírito santo” de Mazda e agente de sua vontade. De acordo com o zoroastrismo, o bondoso Ahura Mazda ficou preso numa luta contra Ahriman, uma entidade malévola, também chamado de Angra Mainyu, ou espírito destrutivo, desde o início dos tempos. Ahiman e Ahura Mazda sã visos como espíritos gêmeos. No entanto, Ahriman é um espírito caído e não pode ser considerado semelhante a Mazda. Ahura Mazda vive na luz, enquanto Ahriman se esconde na escuridão. A batalha entre eles, na qual o mal está sempre tentando acabar com o bem, constitui a base da mitologia zoroastrista. Ahura Mazda luta com Ahriman utilizando a energia criativa de seu espírito. Spenta Mainyu. A relação exata entre essas três entidades permanece como um aspecto indefinido da religião. Os seres humanos, também criação de Mazda, tem um importante papel na contenção da desordem e do mal, usando o livre-arbítrio para escolher o bem. Pensamentos, palavras e ações positivas fortalecem o asha, a ordem fundamental do universo. O asha encontra-se permanentemente em risco, por conta da força contrária druj, ou caos, alimentada por pensamentos, palavras e ações negativas. A disputa central é entre a criação e a des criação, com o mal ameaçando o tempo todo a estrutura e a ordem do mundo. O nascimento de Zoroastro, cuja missão é convocar a humanidade para a luta entre o bem e o mal, desequilíbrio a balança a favor do bem. De acordo com o zoroastrismo, o bem prevalecerá no final. Um mundo feito de bondade. O zoroastrismo diz que, quando Ahura Mazda quis criar um mundo perfeito, ele criou os Amesha Spenta e um mundo espiritual invisível, que incluía um ser perfeito. O propósito espiritual desse mundo era derrotar Ahriman, que tenta ataca-lo de qualquer maneira. Ahura Mazda derrota Ahriman recitando a oração mais sagrada do zoroastrismo, a Ahunavar, que o lança de volta à escuridão. Ahura Mazda, então, da forma material a seu mundo espiritual. Cria um animal primitivo, um touro, e transforma seu ser espiritual perfeito num ser humano, conhecido com o símbolo do zoroastrismo. O Faravahar, retrata um fravaschi, ou anjo da guarda, que protege a alma dos indivíduos na luta contra o mal. Sacerdote do fogo. . Esses alimentam uma chama sagrada. Eles usam um lenço branco no rosto, o padan, para evitar profanar o fogo com respiração ou saliva. Gayomart, que significa vida mortal ou humana. Pouco tempo depois, contudo, Ahriman se recupera e contra-ataca, cortando o céu como um raio de fogo e trazendo fome, doença, dor, luxúria e morte para o mundo. Ele também cria demônios próprios. Gayomart e o touro acabam morrendo, mas o sêmen deles derrama-se no chão durante sua morte e é fertilizado pelo sol. Ahura Mazda envia chuva, e da semente de Gayomart nascem a mãe e o pai da humanidade. Mashya e Mashyol. Da semente do touro nascem todos os animais do planeta. Como sua criação perfeita foi maculada pela destrutividade de Ahriman, Ahura Mazda estabelece um limite  para o tempo, que antes era ilimitado. Zoroastro. Não se sabe ao certo quando o profeta Zoroastro, também conhecido como Zaratustra viveu, mas é provável que tenha sido entre 1400 a.C. – 1200 a.C. Embora seus ensinamentos se baseassem na literatura hindu – textos como o Rig Veda. Zoroastro atribuía seus insights a visões recebidas diretamente de Deus. Ele já era sacerdote entre os iranianos seminômades do sul das estepes russas quando começou a pregar o culto de Ahura Mazda. No início, teve poucos seguidores, mas acabou adquirindo soberania local, transformando o zoroastrismo na religião oficial do povo avéstico. No entanto, só no reinado de Ciro, o Grande, no século VI a.C. é que a religião se espalhou pelo império persa. Obras-chaves. Século IV a.C. Os ensinamentos de Zoroastro são compilados no Avestá, incluindo os Gathas, dezessete cânticos com as próprias palavras de Zoroastro, conforme se acredita. Século IX d.C. A natureza dualística da filosofia zoroastrista é detalhada em Analytical treatise for the dispelling of doubts. Abraço. Davi.