terça-feira, 15 de outubro de 2024

A RELIGIÃO DO ISLAM. Parte V

 

Islamismo. Livro Manual para o Novo Muçulmano. Por Jamaal Zarabozo (1960 - ). A RELIGIÃO DO ISLAM. Parte V. A Justiça e a Proibição de Fazer Mal aos Outros A vida sobre a terra não pode florescer se não houver justiça. Por isso o chamado e a implementação da justiça são uma das características mais destacadas no Islam. Em diversas passagens do Qur’an, Allah ordena aos muçulmanos que cumpram as exigências da justiça, ainda quando estas estejam contra seus próprios interesses ou desejos. Por exemplo, Allah disse:  “Deus manda restituir a seu dono o que vos está confiado; quando julgardes vossos semelhantes, fazei-o com equidade. Quão excelente é isso a que Deus vos exorta! Ele é Oniouvinte, Onividente.” (4:58). “Ó fiéis, sede firmes em observardes a justiça, atuando de testemunhas, por amor a Deus, ainda que o testemunho seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja o acusado rico ou pobre, porque a Deus incumbe protegê-los. Portanto, não sigais os vossos caprichos, para não serdes injustos; e se falseardes o vosso testemunho ou vos recusardes a prestá-lo, sabei que Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.” (4:135). ” Ó fiéis, sede perseverantes na causa de Deus e prestai testemunho, a bem da justiça; que o ódio aos demais não vos impulsione a serdes injustos para com eles. Sede justos, porque isso está mais próximo da piedade, e temei a Deus, porque Ele está bem inteirado de tudo quanto fazeis.” (5:8) . O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) demonstrou que ninguém está acima da lei e da justiça no Islam. Uma vez Usamah, que era muito próximo e querido pelo Profeta, foi convencido a tentar interceder, junto ao Profeta, sobre um castigo prescrito, e o Profeta lhe disse: “Acaso, Usamah, intervéns para impedir um dos castigos prescritos por Allah? Por Allah, se Fátima, a filha do Profeta, roubasse, eu mesmo cortaria sua mão.” (Bukhari). Portanto, a justiça deve ser paliçada a todos: ricos, pobres, jovens, velhos, amigos, inimigos, muçulmanos, não muçulmanos, e assim sucessivamente. Na verdade, se não fosse assim e fosse utilizado algum tipo de intermédio, não seria uma justiça verdadeira. O muçulmano deve ser justo com todos, amigos ou inimigos, incluindo com sua própria alma. Não é permitido que sua alma lhe cause danos, pois isso não é “liberdade”, senão uma das piores formas de injustiça. Um verdadeiro muçulmano é ordenado a ser mais que justo, deve, também, ser benevolente e tolerante. Por isso, Allah disse: “Deus ordena a justiça, a caridade, o auxílio aos parentes, e veda a obscenidade, o ilícito e a iniqüidade. Ele vos exorta a que mediteis.” (16:90). A aplicação da justiça e trabalho em prol dela são algumas das grandes responsabilidades da comunidade islâmica, coletivamente. De certa maneira os muçulmanos são testemunhas, ante o resto da humanidade, do que se trata a verdadeira religião de Allah. A este respeito, Allah disse: “E, deste modo, (ó muçulmanos), contribuímos-vos em uma nação de centro, para que sejais, testemunhas da humanidade, assim como o Mensageiro será para vós...” (2:143). Um dos significados da palavra wasat (no versículo acima traduzido como “de centro”) é justo e equilibrado, que evita os extremos que acompanham sempre a exploração e a injustiça. Por último, existe uma relação muito importante entre a justiça e a obediência à revelação de Allah. Allah é o único com imparcialidade e justiça para determinar leis que não favorecem a uma classe em detrimento de outra (em particular, a dos poderosos sobre os fracos). É também o único com conhecimento total que Lhe permite estabelecer leis verdadeiramente justas. Pode-se ter intenções sinceras, entretanto, devido à necessidade do conhecimento racional perfeito e das interações sociais humanas, corre-se o risco de invocar leis que na realidade são injustas e parciais. Mais uma vez, se uma pessoa uma pessoa deseja uma justiça pura e intacta, não tem outra opção senão recorrer à revelação de Allah e Suas Leis. Ibn al Qaiim escreveu: “Allah enviou Seus mensageiros e revelou Seus Livros para que a gente pudesse viver com justiça. É a mesma justiça e o mesmo equilíbrio em que se baseiam os céus e a terra. Em todo lugar onde estejam visíveis e claros os sinais da verdadeira justiça, ali estará a Lei de Allah e Sua religião.” Afortunadamente, para toda a humanidade, o funcionamento do cosmos se dá segundo a justiça e a verdade de Allah e não se baseia em paixões dos seres humanos. Dessa forma Allah disse: “E se a verdade tivesse satisfeito os seus interesses, os céus e a terra, com tudo quanto encerram, transformar-se-iam num caos. Qual! Enviamos-lhes a Mensagem e assim mesmo a desdenharam.” (23:71). A justiça, que é tão essencial ao Islam, estende-se além desta vida. Em outras palavras, Allah julgará todas as pessoas da maneira mais justa e não prejudicará a ninguém, nem mesmo no mínimo que seja. Parte desta justiça inclui o fato de que nenhuma pessoa carregará o pecado de outra e ninguém será responsável pelo que esteja além de seu alcance. Sobre isso Allah disse: “Dize ainda: Como poderia eu adorar outro senhor que não fosse Deus, uma vez que Ele é o Senhor de todas as coisas? Nenhuma alma receberá outra recompensa que não for a merecida, e nenhum pecador arcará com culpas alheias, então, retornareis ao vosso Senhor, o Qual vos inteirará de vossas divergências.” (6:164). “Quem se encaminha, o faz em seu benefício; quem se desvia, o faz em seu prejuízo, e nenhum pecador arcará com a culpa alheia. Jamais castigamos (um povo), sem antes termos enviado um mensageiro.” (17:15). “Deus não impõe a nenhuma alma uma carga superior às suas forças. Beneficiar-se-á com o bem quem o tiver feito e sofrerá mal quem o tiver cometido...” (2:286). “Que o abastado retribua isso, segundo as suas posses; quanto àquele, cujos recursos forem parcos, que retribua com aquilo com que Deus lhe agraciou. Deus não impõe a ninguém obrigação superior ao que lhe concedeu; Deus trocará a dificuldade pela facilidade.” (65:7). A justiça não só tem um aspecto positivo (o cumprimento e a restituição dos direitos que haviam sido violados), mas também deve ter um componente “negativo”: a proibição de prejudicar o próximo. No Islam é muito evidente o impedimento de se prejudicar o próximo. O Profeta afirmou que Allah lhe disse: “Ó servos Meus, é proibida para Mim a injustiça e proibida para vós. Portanto, não vos prejudiquem uns aos outros.” (Muslim). Ibn Taimiyah sustenta que essa afirmação cobre toda a religião. Tudo o que Allah proibiu, de uma ou outra maneira, é um tipo de injustiça (dhulm), enquanto tudo o que foi ordenado é uma forma de justiça (adl). De fato, Allah disse: “Enviamos os Nossos mensageiros com as evidências: e enviamos, com eles, o Livro e a balança, para que os humanos observem a justiça; e criamos o ferro, que encerra grande poder (para a guerra), além de outros benefícios para os humanos, para que Deus Se certifique de quem O secunda intimamente, a Ele e aos Seus mensageiros; Sabei que Deus é Poderoso, Fortíssimo.” (57:25). Portanto, foram enviados mensageiros, livros foram revelados e alcançou-se um equilíbrio para que a humanidade pudesse se estabelecer e viver com justiça. Além disso, o ferro foi criado para que pudesse ser usado em nome da verdade e justiça. O Livro guia à justiça e a espada e o ferro o apoiam. Existe outra relação muito importante entre justiça e Islam. Para que os seres humanos possam ser realmente justos, necessitam de algum tipo de mecanismo interno que os impulsione a fazer algo correto. É muito fácil ser parcial quando está em jogo a riqueza, a família, a comunidade e a honra. Muitos sabem reconhecer a injustiça dos demais, mas não conseguem, ou mesmo se negam, a reconhecer a própria injustiça. Nesses casos as paixões não nos permitem reconhecer a verdade. Sem dúvidas, uma vez que a verdadeira fé entra no coração da pessoa, a situação muda por completo. A pessoa entende que Allah quer que ela atue com justiça. Ela também sabe que Allah está inteirado de todas as suas ações e intenções, até as mais pequenas. Allah exige justiça e proibiu todas as formas de injustiça. Então, o verdadeiro crente não dará preferência a seus desejos, sua riqueza, sua nação ou o que for, sobre o que Allah exige dele em forma de justiça. Sabe que se encontrará com Allah e que quererá fazê-lo com a consciência limpa. Assim, esforçar-se-á para alcançar a justiça e aceitar somente o que está determine. Muitos convertidos, hoje em dia, vêm de sociedades individualistas, onde, em muitas ocasiões, a justiça é passada para trás para servir aos interesses próprios. Isto não tem cabimento dentro do Islam. Novamente, ainda que vá contra nossos próprios interesses, um muçulmano deve sempre firmar-se e encorajar-se na verdade e justiça. - A Paz Verdadeira A luz e a orientação de Allah é o caminho para a paz verdadeira. Allah disse: “Ó adeptos do Livro, foi-vos apresentado o Nosso Mensageiro para mostrar-vos muito do que ocultáveis do Livro e perdoar-vos em muito. Já vos chegou de Deus uma Luz e um Livro lúcido, pelo qual Deus conduzirá aos caminhos da salvação aqueles que procurarem a Sua complacência e, por Sua vontade, tirá-los-á das trevas e os levará para a luz, encaminhando-os para a senda reta.” (5:15-16). De fato Allah chama os seres humanos à morada da paz eterna: “Onde sua prece será: Glorificado sejas, ó Deus! Aí sua mútua saudação será: Paz! E o fim de sua prece será: Louvado seja Deus, Senhor do Universo!” (10:25). A paz total e verdadeira só se pode ser alcançada quando as pessoas obtêm a paz interior. É a única forma de vida compatível com a natureza dos seres humanos. De fato, é o que podemos chamar “verdadeira vida”. Assim, disse Allah: “Ó fiéis, atendei a Deus e ao Mensageiro, quando ele vos convocar à salvação. E sabei que Deus intercede entre o homem e o seu coração, e que sereis congregados ante Ele.” (8:24). Conhecer a Allah é o que pode trazer a verdadeira felicidade da alma. Se a pessoa não conhece seu Criador, sua alma sempre estará sempre buscando algo que falta em sua vida. A menos que a alma e o coração estejam contentes, a pessoa nunca poderá alcançar a felicidade. O Profeta disse: “A verdadeira riqueza está na felicidade interna.” (Bukhari e Muslim). Também disse: “A verdadeira riqueza é a riqueza do coração. A verdadeira pobreza é a pobreza do coração.” Uma vez que o indivíduo está em paz consigo mesmo e livre de toda agitação interna, pode estabelecer relações verdadeiramente pacíficas com os demais. Isso começa com os mais próximos de sua família e se estende aos vizinhos e outras pessoas da comunidade, para eventualmente alcançar a humanidade em sua totalidade. Assim o Islam estabelece uma estrutura social baseada na interatividade entre as pessoas, de forma que geram uma coexistência pacífica. Os filhos reconhecem os direitos de seus pais sobre eles mesmos, por sua vez, os pais reconhecem as suas responsabilidades para com seus filhos. Os cônjuges se unem não como competidores, mas como companheiros que cooperam para criar um lugar cheio de paz e amor. De fato, Allah ressalta que esta relação - que Ele criou - como um grande sinal: “Entre os Seus sinais está o de haver-vos criado companheiras da vossa mesma espécie, para que com elas convivais; e colocou amor e piedade entre vós. Por certo que nisto há sinais para os sensatos.”(30:21). Allah estabelece leis estritas que protegem a santidade do lar, como as leis que dizem respeito ao adultério, fornicação e injúria. A razão para isso é que o lar é a verdadeira base de toda a sociedade. Dificilmente as pessoas que provêm de um lar conflitado e sem paz poderão se tornar membros positivos e pacíficos da sociedade. Posto que a orientação do Islam não só cobre o que se conhece tradicionalmente como “lei”, senão também o comportamento e a conduta ética; o Islam oferece uma orientação detalhada da maneira em que os membros da sociedade devem interagir entre si. Há uma grande ênfase no respeito mútuo, no que cada membro da sociedade é consciente de que é parte de uma unidade maior e que isso implica direitos e deveres. Este sentimento mútuo produz uma sociedade cheia de paz, na qual cada indivíduo cuida do bem-estar e das necessidades dos outros membros da sociedade. Portanto, quando se põe em prática o Islam, a pessoa encontra paz ao seu redor, tanto em si mesma, quanto na sociedade. Até mesmo a paz mundial só pode ser real através da justiça. Nos últimos anos, cada vez mais pessoas se dão conta disso e declaram que “não há paz sem justiça”. (A justiça geralmente é um lema utilizado em tempos de guerra, mas normalmente não é mais que isso, um lema.) Entretanto, não pode haver paz verdadeira ou justiça até que as pessoas consigam superar os interesses nacionalistas, étnicos, econômicos ou políticos. A verdadeira justiça só pode acontecer quando as pessoas se dedicam inteiramente a Allah, aplicando Sua orientação e eliminando seus egos e paixões em suas decisões. Na próxima vida, desde já afirmo, a paz eterna só poderá ser alcançada crendo em Allah e seguindo Sua orientação. Novamente, Allah deixa bem claro que esse é o destino o qual os seres humanos são convidados: “Deus convoca à morada da paz e encaminha à senda reta quem Lhe apraz.” (10:25). - Uma Última Consideração Não é exagero advertir que todos os objetivos do Islam estão fortemente interligados e isso é algo bastante lógico. Na verdade, todos surgem da base do monoteísmo verdadeiro. Quando uma pessoa se cerca pelos ensinamentos islâmicos, liberta-se da adoração a qualquer coisa ou objeto. Além disso, leva uma vida, neste mundo, de uma maneira que beneficia a sociedade e a civilização. Trabalha pela justiça e se assegura que nem ele, nem os outros provoquem algum tipo de dano. No fim encontra a verdadeira paz e pode transmiti-la aos demais. Entretanto, tudo isso deve começar com a verdadeira interiorização do monoteísmo puro, naquilo que a pessoa adora e se submete – Allah e a prática, com devoção, da religião de Allah em sua vida. Claramente, uma vez que a pessoa entende, aceita e aplica o verdadeiro conceito do monoteísmo islâmico em sua vida, alcança-se os outros aspectos como consequência desta meta principal. Por outro lado, sem um monoteísmo puro, não se pode alcançar os objetivos, inclusive a níveis superficiais. Por isso, é compreensível que, na essência, todo o Qur’an trate do tauhid, ou o monoteísmo puro; de fato, cada capítulo do Qur’an [trata sobre tauhid]. O Qur’an cita os nomes e atributos de Allah. Esse é o tauhid que se refere ao que deve ser conhecido e é reportado. O Qur’an convida a adorá-lo, sem associá-lo companheiros [nessa adoração] e abandonando todo ídolo que não seja Ele. Esse é o tauhid da intenção ou vontade. O Qur’an ordena, proíbe ou decreta a obediência para com Ele. São aspectos essenciais do tauhid e parte de sua totalidade. O Qur’an reporta como [Allah] honra àqueles que aderem ao tauhid, o que Ele faz por estes neste mundo e o que lhes é reservado na próxima vida. Essa é a recompensa por aderir ao tauhid. O Qur’an também reporta sobre os politeístas e de como são tratados neste mundo e que tipo de castigo receberão quando chegar o fim, esse é o castigo para aqueles que abandonam os aspectos do tauhid.” Abraço. Davi.

domingo, 13 de outubro de 2024

A DEIDADE

Teosofia. Livro Introdução a Teosofia. Por Charles W. Leadbeater (1854-1934). A DEIDADE. Quando declaramos a existência de Deus como o primeiro e o maior dos nossos princípios, torna-se necessário para nós definirmos o sentido no qual empregamos essa palavra desgastada e ainda assim poderosa. Nós tentamos redimi-la dos estreitos limites que são impostos pela ignorância dos homens não desenvolvidos, restaurando-a ao seu esplêndido conceito. Embora tão infinitamente aquém da realidade que lhe emprestam os fundadores das religiões. E nós distinguimos entre Deus com existência infinita, e a manifestação dessa suprema existência como um Deus revelado, evoluindo e guiando um universo. Somente a essa manifestação limitada deve o termo “Deus pessoal” ser aplicado. Em si mesmo, Deus está além dos limites da personalidade. Está em “tudo e através de tudo”. De fato, é tudo, e do infinito, do Absoluto, do Todo, podemos apenas dizer que “Ele é”. Para todos os propósitos e práticas, não precisamos ir além daquela sua manifestação maravilhosa e gloriosa. Que é um pouco mais compreensível do que o Absoluto, que está totalmente além da nossa compreensão. A grande força diretora ou Deidade de todo o nosso sistema solar a quem os filósofos têm chamado de Logos. Dele é verdadeiro tudo que já ouvimos afirmar de Deus, tudo que é bom, não as concepções blasfemas que lhe são as vezes imputadas, atribuindo-lhe vícios humanos. Mas tudo que já foi dito do amor, da sabedoria, do poder, da paciência, da compaixão, da onisciência, da onipresença. Tudo isso, e muito mais, é verdadeiro a respeito do Logos do nosso sistema. Verdadeiramente “nele vivemos, nos movemos e temos nosso ser”, Atos 17,28-29, não como uma expressão poética. Mas por mais estranho que possa parecer, como um fato científico definido. Assim, quando falamos da Deidade, nosso primeiro pensamento é naturalmente do Logos. Nós não temos uma vaga esperança de que Ele possa ser. Nem mesmo acreditamos como questão de fé que Ele seja. Nós simplesmente o sabemos, como conhecemos que o Sol brilha. Pois, para o investigador clarividente desenvolvido e treinado, essa poderosa existência é uma certeza definitiva. Não que qualquer simples desenvolvimento humano possa nos habilitar a vê-lo diretamente. Mas aquela inconfundível evidência de sua ação e de seu propósito nos envolve de todos os lados. À medida que estudamos a vida do mundo invisível, que é na realidade somente a parte mais elevada deste. Aqui encontramos a explicação de um dogma que é comum a maioria de todas as religiões, o dogma da Trindade. Por mais incompreensível que muitas das afirmações feitas sobre esse assunto em nossos credos possam parecer ao leitor. Tornam-se significativas e luminosas quando a verdade é revelada. Por exemplo, quando Ele aparece para nós em sua obra, o Logos Solar é indubitavelmente triplo. Três e ainda assim um, como as religiões nos têm dito há tanto tempo. Tanto da explanação desse aparente mistério, quanto o intelecto humano possa captar será encontrado nos livros que logo serão mencionados. Ele está dentro de nós assim como fora de nós. Em outras palavras, o homem em si mesmo é essencialmente divino. Essa é outra grande verdade que é uma certeza para o estudante do lado mais elevado da vida. Embora aqueles que estão cegos a tudo, exceto ao mundo menos elevado e mais exterior, possam ainda discutir a respeito. Da constituição da alma do homem e seus vários veículos falaremos sob a égide da segunda das verdades, basta, por enquanto, notar que a divindade inerente é um fato. Que nela reside a certeza do retorno último de todo ser humano no nível divino. O Esquema Divino. Talvez nenhum de nossos postulados apresente mais dificuldade à mente mediana que o primeiro corolário para essa primeira grande verdade. Olhando ao nosso redor, na vida do dia a dia, vemos tanto de tempestade e de estresse, de mágoa e de sofrimento, que o mal parece ter triunfado sobre o bem. É quase impossível supor que toda essa aparente confusão é, na realidade, parte de um progresso ordenado. Todavia, essa é a verdade, podendo ser vista como tal logo que escapemos da nuvem de poeira levantada peal contenda nesse mundo exterior. Olhemos para tudo isso a partir da posição vantajosa do conhecimento mais completo é da paz interior. Dessa forma, o real movimento da complexa maquinaria torna-se aparente. Então se vê que o que parecia ser a contracorrente do mal prevalecendo contra a corrente do progresso é meramente uma minúscula onde para a qual, pode-se desviar um pouco d’água. Ou um pequeno redemoinho na superfície, no qual parte da água parece momentaneamente estar retrocedendo. Mas o tempo todo o rio poderoso está fluindo firmemente em seu curso determinado, levando com ele os remoinhos superficiais. De modo semelhante, a grande corrente da evolução está se movendo uniformemente em seu curso, e o que nos parece uma terrível tempestade é o mero encrespar de sua superfície. Em verdade, como nos diz a nossa terceira grande verdade, a justiça absoluta é oferecida a todos. Assim, qualquer que seja a circunstância em que um homem se encontre, ele sabe que somente ele e nenhum outro a criou Mas também pode saber muito mais que isso. Ele pode ter a certeza de que, sob a ação da lei de evolução, as coisas são arranjadas de tal modo a propiciar-lhe a melhor oportunidade possível para o desenvolvimento. Em seu interior, daquelas qualidades de que mais necessita. As suas circunstâncias não são de modo algum necessariamente aquelas que ele teria escolhido para si mesmo. Porém são exatamente as que ele merece. Sujeitando apenas a essa consideração quanto às coisas que merece, que frequentemente impõem sérias limitações, são elas as que melhor se adaptam ao seu progresso. Elas podem trazer toda sorte de dificuldades, mas estas são oferecidas apenas para que ele possa aprender a superá-las e desenvolver dentro de si mesmo coragem, determinação, paciência, perseverança. Ou qualquer outra qualidade que possa não possuir. Os homens sempre falam como se as forças da natureza estivessem conspirando contra eles. Mas seria muito bom se pudessem compreender que, na realidade, tudo a respeito deles está cuidadosamente calculado para assisti-los no seu caminho ascendente. Já que existe um esquema divino, sendo dever do homem tentar compreendê-lo, é uma proposição que certamente não precisa de argumento. Mesmo que fosse apenas por motivos de interesse próprio, aqueles que têm de viver sob um certo conjunto de condições fariam bem em familiarizar-se com elas. Quando o objetivo do homem na vida é tornar-se altruísta. Faz-se ainda mais necessário para ele compreender, para poder ajudar mais efetivamente. Sem sombra de dúvida, faz parte desse plano de evolução que ele próprio deva cooperar diligentemente com o plano, logo que tenha desenvolvido inteligência suficiente para assimilá-lo e bons sentimentos suficientes para desejar ajudar. Todavia, de fato, esse esquema divino é maravilhoso e tão bel que, quando um homem o vê, anda mais lhe é possível senão lançar toda sua energia no esforço de tornar-se um trabalhador do esquema. Não importa quão humilde possa ser a parte que tenha de sustentar. Para informações mais completas sobre os assuntos deste capítulo, sugiro a leitura dos seguintes livros: Cristianismo Esotérico e A Sabedoria Antiga, ambos de Annie Besant (1847-1933). O Credo Cristão e a Gnose Cristã, de minha autoria. Muita luz é ainda lançada sobre esses conceitos a partir do ponto de vista grego em Orpheus, de G. R. S. Mead (1863-1933). Do ponto de vista gnóstico-cristão no seu Fragments of a Faith Forgottem. “Eu sei, à medida que minha vida envelhece. E que meus olhos adquirem uma visão mais clara. Que sob cada posição errada em algum lugar. Jaz a raiz da justiça. Que cada infortúnio tem o seu propósito. Pelo arrependimento do que não pode ser adivinhado. Que, tão certo quanto o Sol traz o amanhã. O que quer que seja, é melhor. Eu sei que cada ação pecaminosa. Tão certo quanto a noite traz a sombra. É em algum lugar, algum tempo, punida. Embora a hora possa muito demorar. Eu sei que a alma é auxiliada. Às vezes pelo desassossego do coração. E crescer significa muitas vezes sofrer. Mas o que quer que seja, é o melhor. Eu sei que não há erros. No grande plano eterno. E que todas as coisas se combinam. Para o bem final do homem. Eu sei que quando minha alma acelerar para adiante. Em sua grande e eterna ventura. Eu direi, enquanto olho de volta para a Terra. O que quer que seja é o melhor. Anon. Abraço. Davi

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

OS MISTÉRIOS. Parte IV

 Religião Afro-brasileira. Umbanda. Livro Código de Umbanda. Por Rubens Saraceni (1951-2015). OS MISTÉRIOS. Parte IV, Pessoas despreparadas, mas motivadas, ora pelo ego, ora pela vontade de ensinar, acabaram por bloquear um código aceitável que norteasse a nascente religião regida pelos mesmos Orixás. Cultuados pelos gregos, fenícios, egípcios, hindus, chineses, japoneses, indonésios etc. Que regem tanto o Candomblé como as religiões dos nossos irmãos da África. Se insistirmos no assunto “Mistério” é porque ele é importantíssimo para o entendimento da religiosidade. A Umbanda recorre em seu ritual prático a muitas divindades, umas opostas as outras quando estudamos os seus mistérios. Mas que se manifestam em um mesmo espaço dedicado as práticas religiosas. Se estudarmos o mistério “Ogum do Fogo”, descobrimos que o ar e o fogo são seus elementos básicos. No elemento ar, ele é ordenador da Lei, e no elemento fogo é aplicador da justiça. Contudo, se estudamos o mistério “Oxum das Cachoeiras”, descobrimos que o mineral, a água e o ar são seus elementos básicos. No elemento mineral, ela é energizadora, no elemento água, é geradora, no elemento ar é purificadora. Então, sabendo de tudo isso, perguntamo-nos por que as encantadas da Orixá Oxum das Cachoeiras formam, naturalmente, pares vibratórios com os encantados do Orixá Ogum do Fogo. Já que o fogo é diluidor da energia mineral, é antagônico a energia aquática e consome a energia ar, da qual se alimenta. O estudo dos mistérios nos mostra que todo Ogum é ar na sua essência original, e que o Ogum do Fogo usa dessa energia. Todavia a manipula conforme suas necessidades, já que tanto o alimenta quanto o enfraquece, sempre de acordo com as necessidades de seu mistério ordenador ou da Lei. Mostra-nos, que, justamente por ele não ser fogo, porém por controlá-lo naturalmente, então forma um par energético ideal com Oxum das Cachoeiras. Irradiando seu elemento básico (mineral) muito mais facilmente quando é “aquecido” pelo fogo. Irradiado na forma de calor por Ogum, e não como chamas que só Xangó consegue irradiar. O fogo do Ogum do Fogo chega a Oxum das Cachoeiras como o calor que ele irradia através de seu elemento básico ar. Este calor não altera o composto energético das irradiações da Oxum das Cachoeiras, porque aquece seu mineral, sua água e seu ar, dando-lhe maior mobilidade ou aumentando seu padrão vibratório. Sem alterar a energia composta que flui junto com suas irradiações. Adquirindo maior mobilidade, ela aumenta seu campo de ação e, aumentando sua vibração, ela realiza mais rapidamente o que seus fiéis lhe solicitam, energizando-os com muito mais intensidade. Já um Xangô tem como elemento básico o fogo, irradiando sua energia na forma de chamas, que chegam ao elemento básico mineral de Oxum por meio do elemento ar. Formando o composto energético irradiado por ela, mas por ele consumido, porque precisa dele para aumentar sua temperatura e tornar “líquido” o mineral. Que maleável, fluirá através do elemento água, junto com o mineral e o ar, formando a energia composta irradiada pelo seu mistério. O Ogum do Fogo dá mobilidade ao mineral de Oxum das Cachoeiras, aquecendo seu ar e sua água. Já Xangó do Fogo precisa consumir o ar dela para diluir seu mineral e aquecer sua água. Intensificando suas vibrações e acelerando suas irradiações energéticas. É dessa maneira que as lendas devem ser interpretadas, e não como querem alguns, que nada entenderam e dão as “ligações” elementais a interpretação de procedimentos humanos. Parece complicado, não? Pois saibam que é mesmo. E por isso a doutrina de Umbanda repele as codificações espúrias feitas ao sabor das vaidades dos médiuns dotados de pouco ou nenhum conhecimento a respeito da natureza elemental básica dos Orixás. Ou acerca dos seus mistérios e das energias puras ou compostas que eles irradiam. Divindades naturais, Orixás e mistérios de Deus são sinônimos. Não será fundamentado nas lendas e em um intelectualismo sofista que o Ritual de Umbanda Sagrada concretizará, no plano material, os conhecimentos fundamentais que sua doutrina precisa transmitir aos médiuns. Manipuladores dos mistérios dos Orixás, invocados nos trabalhos práticos por intermédio dos nomes simbólicos adotados pelo Ritual de Umbanda Sagrada. Quando um médium invoca um Orixá – Xangó, por exemplo – tanto pode chamar pelo Senhor da Justiça Divina, o Orixá maior, como pode invocar o regente de um dos mistérios da Justiça Divina, Xangó das Pedreiras, por exemplo. Logo, a hierarquia existe, é ativa e ocupa todos os níveis vibratórios das irradiações da Justiça Divina. Esse conhecimento não é visível por intermédio do estudo das lendas ou dos mitos, mas sim por meio da correta interpretação do mistério de Deus denominado “Justiça Divina”. Mas a doutrina de Umbanda estudou esse mistério e encontrou em cada um dos Orixás Xangós os manifestadores dos mistérios derivados do mistério “Justiça Divina”. Em que cada um atua como seu irradiador nas linhas regidas pelos outros senhores Orixás dos elementos. No elemento fogo é o Xangó do Fogo que atua. No elemento ar é o Xangó das Águas que atua. No elemento água é o Xangó das Águas que atua. No elemento terra é o Xangó da terra que atua. No elemento vegetal é o Xangó Vegetal que atua. No elemento mineral é o Xangó das Pedras que atua. No elemento cristalino é o Xangó do Tempo que atua. Cada um desses Xangós intermediários atua na irradiação desses elementos, que possuem vibrações próprias, pois são originados desses elementos, que possuem vibrações próprias, uma vez que são originados de essências diferentes. Eles também recebem nomes simbólicos pelos quais são invocados durante os trabalhos práticos realizados pelos médiuns. Cada um deles possui suas hierarquias intermediadoras que atuam na horizontal, ou nível terra. Onde nós nos localizamos juntamente com todos os espíritos. As vezes, os médiuns encontram dificuldades para interpretar corretamente os nomes simbólicos dos Orixás, já que lhes falta este conhecimento, que não está a disposição em livros que abordam os Orixás. Por isso, recomendamos estudarem com atenção os nomes simbólicos das linhas de caboclos e de exus. Eles são as chaves para os mistérios ocultados pelos nomes simbólicos dos Orixás. 1. Essência cristalina: irradiação dos mistérios da Fé. 2. Essência mineral: irradiação dos mistérios da Amor. 3. Essência vegetal: irradiação dos mistérios do Conhecimento. 4. Essência ígnea: irradiação dos mistérios da Justiça. 5. Essência eólica: irradiação dos mistérios da Lei. 6. Essência telúrica: irradiação dos mistérios da Evolução. 7. Essência aquática: irradiação dos mistérios da Geração. O Xangó ancestral é em si mesmo a irradiação da Justiça Divina, emitindo-a para as outras irradiações divinas por intermédio de seus Orixás Xangós intermediários. O Xangó do Fogo é o irradiador para a própria linha da justiça ou faixa vibratória por onde flui a irradiação pura ou elemental do fogo da Justiça Divina, purificador dos excessos. O Xangó do Tempo é o irradiador da Justiça Divina para a linha cristalina ou vibratória da Fé, regida por Oxalá e Oyá-Tempo. O Xangô das Pedras é o irradiador da Justiça Divina para a linha mineral ou vibratória do Amor e da Concepção, regida por Oxum e Oxumaré. O Xangô Vegetal é o irradiador da Justiça Divina para a linha vegetal ou vibratória do Conhecimento, regida por Oxóssi-Obá. O Xangô dos Raios é o irradiador da Justiça Divina para a linha do ar ou vibratória da Lei, regida por Ogum e Egunitá. O Xangô da Terra é o irradiador da Justiça Divina para a linha da terra ou vibratória da Evolução, regida por Obaluaiê e Nanã Buruquê. O Xangô da Água é o irradiador da Justiça Divina para a linha da água ou vibratória da Geração, regida por Iemanjá e Omolu. Esses sete Xangôs são divindades ou Orixás intermediários do mistério “Justiça Divina” regido pelo ancestral Orixá Xangô, um mistério de Deus em si mesmo. Eles irradiam os mistérios da Justiça Divina para as linhas de forças regidas por outros Orixás e nelas, com suas irradiações já incorporados, fluem naturalmente distribuindo a Justiça Divina. Isso significa que eles não aplicam “pessoalmente” a Justiça Divina, contudo sim que a irradiam e a fazem fluir junto com as vibrações dos Orixás Regentes das linhas de forças que irradiam outros mistérios de Deus. Um Orixá não entra pessoalmente na faixa vibratória dos outros, pois não é preciso. Ele é um mistério em si mesmo e irradia continuamente um padrão específico que interpreta todas as faixas, ainda que sejam de diferentes graus vibratórios. As faixas vibratórias localizam-se na horizontal e as irradiações divinas ou dos Orixás acontecem na vertical. Aqui só mostramos um pouco do conhecimento ainda não aberto a Umbanda praticada nas tendas, porém todo ele já codificado como noção fundamental do Ritual de Umbanda Sagrada e ensinado e ensinado nas escolas iniciáticas existentes no astral. O tempo possibilitará que esse conhecimento seja trazido para o plano material e assimilado pelos estudiosos dos mistérios. Automaticamente, as construções falaciosas surgidas de tempo em tempo cederão lugar a uma doutrina uniforme também no plano material, no entanto, ainda estamos no experimentalismo religioso. E se não adquirirem aqui, no plano material, certamente adquirirão no plano espiritual. Tudo é uma questão de tempo, e o primeiro passo foi dado quando se religaram as hierarquias de Umbanda. Abraço. Davi.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

III. O EVANGELHO DO BUDA

 

Budismo. Texto do Yogi Kharishnanda Saraswati (1922-2001). III. O EVANGELHO DE BUDA. Capítulo três. As três dores.  Os palácio dado ao príncipe pelo rei resplandecia com todo o luxo da Índia, porque o rei queria que o seu filho fosse feliz. Tudo quanto parecesse doloroso para ser contemplado, todas as misérias e todas as noções de sofrimento, forma afastados de Sidharta, para que ele ignorasse os males do mundo. Porém, assim como o elefante cativo suspira pelas selvas, o príncipe se impacientava por ver o mundo, e pediu ao rei, seu pai, permissão para satisfazer o seu ardente desejo. Então, Suddhodana mandou atrelar quatro magníficos corcéis (cavalos) num carro adornado de pedrarias, e enfeitar os caminhos por onde Sidharta deveria passar. As casas da cidade foram enfeitadas com cortinas e bandeiras, e os espectadores, alinhados de cada lado, contemplavam avidamente o herdeiro do trono. Assim passou Sidharta com Channa, seu cocheiro, pelas ruas da cidade, e atravessou a campina sulcada de arroios e povoada de árvores frondosas. Em determinado lugar, encontrou um velho. Quando o príncipe viu aquele homem de corpo encurvado e rosto envelhecido com um sulco de dor entre as sobrancelhas, perguntou ao cocheiro: Quem é este? Sua cabeça é branca, seus olhos tremem e tem o corpo maltratado. Só consegue manter-se em pé apoiado num bastão! O cocheiro, a princípio embaraçado, atreveu-se por fim a dizer a verdade, e respondeu: Esses são os sinais da velhice. Esse homem foi uma criancinha e, depois, um adolescente cheio de entusiasmo e de prazer; porém os anos se passaram, e agora seu porte esbelto se foi e o vigor do seu corpo desapareceu. Sidharta, profundamente aflito pelas palavras do cocheiro, suspirou por causa do sofrimento da velhice e disse de si para si: Que gozo e que prazer podem experimentar os homens, quando sabem que a velhice virá e os fará sofrer e andar com tanta fraqueza? Mais adiante, à medida que seguiam, viram de um lado do caminho um enfermo, ofegante, as feições desfiguradas, convulso e gemendo de dor. O príncipe perguntou ao cocheiro: Que classe de homem é essa? E o cocheiro respondeu: Este homem está enfermo. Os quatro elementos do seu corpo estão confusos e em desordem. Todos nós estamos sujeitos aos mesmos acidentes: o pobre e o rico, o ignorante e o sábio. Todas as criaturas que têm corpo estão expostas ao mesmo mal. E Sidharta se comoveu ainda mais. Todos os prazeres lhe pareciam vãos, e sentiu desgosto pelos prazeres da vida. O cocheiro fustigou o cavalo para fugir de espetáculo tão triste, mas logo tiveram de parar em sua rápida carreira. Quatro pessoas passavam levando um cadáver; e o príncipe, enternecido ante a visão do corpo privado da vida, perguntou ao cocheiro. O que estas pessoas estão levando? Vejo umas bandeirolas e umas grinaldas de flores; porém os homens caminham tristes e pesarosos. O cocheiro lhe informou: É um morto, seu corpo está rígido, a vida fugiu dele, e seu pensamento se extinguiu. Sua família e seus amigos levam agora o corpo dele para o sepulcro. E o príncipe, cheio de horror e espanto, perguntou: Este caso é uma exceção, ou há no mundo outros exemplos semelhantes? Com o coração oprimido, o cocheiro lhe respondeu: Isto é igual para todos. Todos os que nascem devem morrer. Ninguém escapa da morte. Com a voz apagada e balbuciante, o príncipe exclamou: Ó homens mundanos, como é fatal o erro em que estão! Inevitavelmente o corpo de vocês se transformará em pó, e não obstante continuam a viver descuidados e despreocupados. O cocheiro, vendo a profunda impressão que aqueles lúgubres espetáculos causaram no príncipe, deu meia volta e entrou novamente na cidade. Ao passar pelo palácio da jovem princesa, sobrinha do rei, esta, surpreendida com a beleza varonil de Sidharta e vendo-o preocupado, exclamou: Ditoso o pai que o gerou, ditosa a mãe que o criou; ditosa a mulher que chama de marido um homem tão glorioso. Ao ouvir esse elogio, o príncipe respondeu: Ditosos são os que encontraram a salvação. Aspirando à paz do espírito, eu buscarei a felicidade do nirvana. E ofereceu-lhe seu colar de pérolas preciosas, como para recompensá-la da lição que lhe havia dado e entrou no seu palácio. Capítulo quatro. A renúncia. Certa noite, o príncipe estava repousando quando repentinamente levantou-se foi ao jardim. Ah!, exclamou: o mundo está cheio de trevas e ignorância; ninguém sabe como curar os males da existência. E suspirou dolorosamente. Yasodhara atirou-se aos seus pés, suspirando aflita e dizendo: Meu senhor não encontra a felicidade em mim? Sidharta respondeu: Ah, querida esposa! Sinto a alma dilacerada ao pensar que essa felicidade terá fim e envelheceremos sem amor, repulsivos, débeis, encurvados. Sim, ainda que os nossos lábios tenham sido tão fortes selos da vida e do amor, que noites e dias fosse um só o nosso alento; e se interrompesse entre ambos o tempo para arrebatar minha paixão e sua beleza, como a negra noite apaga os rosados raios que brilham no cume dos montes e os cobre com seu sombrio sendal. Eis o que descobri: meu coração estremeceu de espanto a essa ideia, e todo o meu ser só pensa em resguardar o amor dos ataques do tempo implacável, que envelhece os homens. Toda aquela noite o príncipe passou inconsolável e insone. No dia seguinte pediu a seu pai que o deixasse ver a cidade tal qual era, sem os enfeites nem os preparativos de uma festa ilusória, na vida costumeira dos homens que não são reis. O rei Suddhodana concordou, e na hora em que o sol passa pelo meridiano, Sidharta saiu disfarçado de mercador, e, juntamente com o cocheiro Channa com hábito de religioso, caminharam a pé pelas ruas, confundidos entre os cidadãos, olhando tudo quanto de alegre e triste existia na cidade. Ao chegarem ao rio, viram uma comitiva de pessoas tristes e chorosas que se aproximavam da margem a passos apressados. À frente ia um homem agitando uma taça de barro cheia de brasas. Seguiam-no os parentes mal vestidos e com a cabeça coberta de luto. Depois vinha o féretro composto de quatro varas com um leito de pedaços de bambus entrelaçados, onde jazia um cadáver rígido, emagrecido, com os pés para a frente, a boca cerrada, os olhos vidrados, as mãos crispadas, coberto de um pó vermelho e amarelo. Os que o carregavam conduziram o féretro (caixão) até a margem do rio, onde estava disposta uma pira sobre a qual o colocaram, cobrindo-o com folhas secas. Em seguida, atearam fogo nos quatro lados. A chama brotou subitamente, lambendo a pira e, com suas sibilantes línguas de fogo, devorou o cadáver. A pele dessecada rasgou-se e as articulações se desprenderam. Por fim clareou a fumaça da gordura e as cinzas caíram pardas e vermelhas, com pó de ossos brancos que salpicavam a cor das cinzas. Era tudo quanto restava do homem. O príncipe disse: Este é o fim de todos os viventes? Channa respondeu-lhe: Este é o fim de todos. Aquele que o senhor viu na pira e cujos restos são tão desprezíveis que os corvos grasnantes desdenhariam como fútil manjar; já comeu, bebeu, riu, amou e considerou a vida grata e prazenteira. Porém, o que sobrevém depois? Quem o sabe? Um violento sopro de ar da selva, um tropeço no caminho, algo suja na cisterna, a picada de uma cobra, um resfriado, a espinha de um peixe, a queda de uma telha, a vida escapa e o homem morre. Já não tem apetites, nem prazer nem dores. Nada significa para ele, um beijo na boca nem uma queimadura nos lábios. Não sente o mau cheiro da sua carne tostada, nem o perfume do sândalo, nem os aromas que ardem na pira. Sua boca perdeu o paladar, seus ouvidos não ouvem e seus olhos não veem. Desolados, gemem aqueles que ele amava, porque também é preferível destruir o corpo que era a lâmpada da vida, do que oferecer um festim horrendo aos corvos. Esse é o destino comum de toda carne. Altos e baixos, bons e maus, têm que morrer; e segundo nos ensinam, renascem depois para uma nova vida (...) onde? Como? Quem sabe? E outra vez as angústias, a morte e as chamas da pira. Esse é o destino do homem. Sidharta levantou para o céu os olhos em que brilhavam lágrimas divinas, e em seguida baixou-os ao chão, inundados de celeste piedade. Contemplava alternativamente o céu e a terra, como se em voo solitário seu espírito buscasse alguma visão longínqua que unisse o céu à terra. Depois, ansiosamente, inflamado pela ardorosa paixão de um amor inefável, de uma infinita e insaciável esperança, exclamou: Oh, triste mundo! Oh, os seres de minha carne, conhecidos e desconhecidos, presos nesta rede comum de mortes, vida e dores que a todos nos atam! Vejo e sinto a imensa agonia do mundo, a vaidade dos seus prazeres, a ilusão de sua felicidade, a angústia de seu infortúnio, pois a dor substitui o prazer; a velhice a juventude, a perda do se amado o amor, a odiosa morte a vida, e a morte em vidas desconhecidas que de novo atam os homens à sua roda para girar em círculo de deleites ilusórios e sofrimentos reais. A mim também me alucinou este sonho, e parecia-me agradável viver a vida como um regato luminoso que flui sem cessar em paz inalterável, e cujo buliçoso caudal desliza ligeiramente pelos floridos prados para jorrar mais apressado suas águas no mar impuro. Caiu o véu que me cegava! Sou como esses homens que em vão imploram aos deuses que não os ouvem. No entanto, algum auxílio há de existir para eles e para mim, e para todos os que necessitarem de ajuda. Será que os deuses também estão precisando de auxílio? São tão fracos que não podem salvar os que os invocam com tristeza nos lábios? Não deixarei chorar os que puder salvar! Como é possível que Brahma criasse o mundo para abandoná-lo na miséria? Se é onipotente e o deixa miserável, não é bondoso, e se não é onipotente, não é Deus. Sidharta sentou-se sob a frondosa arvore bo, chamada também azvattha, ou banano, e entregou-se aos seus pensamentos, meditando sobre a vida e a morte, os males e a decrepitude. Concentrando o seu espírito, libertou-se de toda confusão. Todos os vis desejos desapareceram do seu coração e uma calma perfeita o inundou completamente. Nesse estado de êxtase, viu com seu olho mental toda miséria e dor existentes no mundo; viu as dores causadas pelo prazer e a inevitável certeza da morte que pesa sobre todos os seres. No entanto, os homens não despertaram ainda para a verdade. E uma profunda compaixão invadiu a sua alma. Enquanto meditava sobre o problema do mal, o príncipe viu com o olho do seu espírito, sob as árvores, uma venerável figura revestida de majestade, calma e dignidade. Perguntou-lhe: De onde vem o senhor? Quem é? A visão lhe respondeu: Sou um Samana. Atormentado pelos pensamentos sobre a velhice, a enfermidade e a morte, fui de lugar em lugar para buscar o caminho da salvação. Todas as coisas se precipitam para a ruína; só a Verdade é eterna. Tudo muda e nada dura; unicamente as palavras dos Budhas são imutáveis. Eu aspiro à felicidade inalterável, ao tesouro imperecedouro, à vida sem princípio nem fim. Por isso, destruí todo pensamento mundano e retirei-me para o deserto para viver em solidão e mendigar o meu sustento, e assim me consagrei à única coisa necessária. Sidharta perguntou-lhe: E como pode alguém obter a paz neste mundo agitado? Já transpus a vaidade e o prazer e tenho horror à sensualidade. Tudo me entristece e a própria vida se tornou intolerável para mim. O Samana lhe respondeu: Onde há calor também pode haver frio. Os seres sujeitos à dor possuem a faculdade de sentir prazer. A origem do mal ensina que pode existir o bem. Porque essas coisas são correlatas. Assim, onde há muita desgraça, haverá muita felicidade, contanto que os olhos se abram para vê-la. Da mesma maneira que aquele que cai na lama procura um lago de lótus para limpar-se, também, quando existe um caminho santo que conduz ao nirvana, e o homem sujeito ao pecado não o busca, a falta não está no caminho e sim no pecador. Se um enfermo não chama o médico que pode curá-lo, se ele morrer a culpa não será do médico, e sim do enfermo. Do mesmo modo, se o enfermo da alma não busca o guia espiritual da luz, se o doente da alma continua enfermo a culpa não será do guia. O príncipe escutou as nobres palavras do seu visitante e lhe respondeu: O senhor é mensageiro de boas novas, porém não sei se cumprirei meu propósito. Meu pai me incita a desfrutar a vida e a sujeitar-me aos deveres mundanos que me dão nobreza e enaltecem minha casa. Disse que sou muito jovem e que meu coração ainda palpita por demais fortemente para me entregar à vida religiosa. A venerável aparição moveu a cabeça em sinal de discordância e respondeu: Jamais houve tempo e falta de tempo para buscar a verdadeira religião. Com o coração palpitando de alegria, Sidharta disse: Este é o momento de buscar a verdadeira religião. É o instante propício para romper os laços que me impedem de alcançar a perfeita iluminação. Esta é a hora de aceitar a vida mendicante e de encontrar a senda da libertação. O mensageiro celeste, satisfeito com a resolução de Sidharta, disse-lhe: De fato, esta é a oportunidade que você depara para encontrar a verdadeira religião. Vá e cumpra o seu propósito, porque você é o Buda escolhido e destinado a iluminar o mundo. Você é o perfeito. Tathágata, porque cumprirá toda justiça e será o verdadeiro rei do Dharma. Você é Bhagavad, o Bendito, porque há de ser salvador do mundo. Vá e cumpra a perfeição da Verdade. Mesmo que sobre a sua cabeça caia o raio, não ceda jamais à ilusão que desvia o homem do caminho da Verdade. Assim como o Sol não se detém em nenhuma das quatro estações do ano, não se afaste do caminho da justiça. Você será Budha. Persevere em seu caminho e encontrará o que está buscando. Prossiga até o fim sem se desviar, e alcançará o prêmio. Combata com coragem e vencerá. Que a benção dos deuses, dos santos, de todos os que buscam a luz seja contigo, e que a celeste sabedoria guie seus passos. Você será o Budha nosso Amo e Senhor. Iluminará o mundo e salvará a humanidade da perdição. Dito isso, a visão celeste desapareceu e a alma de Sidharta ficou em paz. Do Livro O Evangelho de Budha. Vida e doutrina de Sidharta Gautama. Abraço. Davi.

domingo, 6 de outubro de 2024

CAPÍTULO I. O HOMEM É "CAPAZ" DE DEUS

 Cristianismo. Livro Catecismo da Igreja Católica. A profissão de fé. O fragmento de um afresco encontrado nas catacumbas de Priscila, Roma – Itália, início do século III, é a mais antiga imagem da Santíssima virgem. Esta imagem, entre as mais antigas da arte cristã, apresenta o que é central na fé cristã: o mistério da encarnação do Filho de Deus nascido da Virgem Maria. A esquerda, se vê uma figura de homem que aponta para uma estrela, situada acima da Virgem com o menino: um profeta, provavelmente Balaão a anunciar que “um procedente de Jacó se torna chefe” Números 24,17. É longa a espera da Antiga Aliança e o apelo da humanidade decaída a um Salvador redentor. Esse anúncio vê-se realizado com o nascimento de Jesus, Filho de Deus feito homem, concebido por obra do Espírito Santo, nascido da Virgem Maria que o traz ao mundo e dá aos homens. Assim ela é a figura mais pura da Igreja. Eu Creio – Nós Cremos. Quando professamos nossa fé, começamos dizendo: “Eu creio” ou “nos cremos”. Por isso, antes de expor a fé da Igreja tal como é confessado no credo, celebrada na liturgia. Vivida na prática dos mandamentos e na oração, nos perguntamos: o que significa crer? A fé é a resposta do homem a Deus que se revela e a ele se doa, trazendo, ao mesmo tempo, uma luz superabundante ao homem – Capítulo I. Em seguida, a revelação divina, pela qual Deus se apresenta ao homem – Capítulo II. Logo após, a resposta da fé – Capítulo III. CAPÍTULO I. O HOMEM É “CAPAZ DE DEUS”. 1. O Desejo de Deus. O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, visto que o home é criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem a si e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar. “O aspecto mais sublime da dignidade humana está nesta vocação do homem à comunhão com Deus. Este convite que Deus dirige ao homem de dialogar com ele, começa com a existência humana, pois se o homem existe, é porque Deus o criou por amor. E, por amor, não cessa de dar-lhe o ser. O homem só viverá plenamente segunda a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu Criador”. Em sua história, e até os dias de hoje, os homens têm expressado sua busca de Deus de múltiplas maneiras. Por meio de suas crenças e de seus comportamentos religiosos: orações, sacrifícios, cultos, meditações etc. Apesar das ambiguidades que podem comportar, estas formas de expressão são tão universais que o homem pode ser chamado de um ser religioso. “De um só homem ele (Deus) fez toda a espécie humana, para habitar sobre toda a face da terra. Tendo estabelecido o ritmo dos tempos e os limites de sua habitação. Assim fez, para que buscassem a Deus e, talvez às apalpadelas, o encontrassem, a ele que na realidade não está longe de cada um de nós. Sendo que nele vivemos, nos movemos e existimos, Atos 17,26-28. No entanto, esta “união íntima e vital com Deus” pode ser esquecida, ignorada e até rejeitada explicitamente pelo homem. Tais atitudes podem ter origens muito diversas, a revolta contra o mal no mundo. A ignorância ou a indiferença religiosa, as preocupações com as coisas no mundo e com as riquezas. O mau exemplo dos crentes, as correntes de pensamentos hostis à religião. A atitude do homem pecador que, por medo, esconde-se na presença de Deus e foge diante de seu chamado. “Alegre-se o coração dos que buscam o Senhor!” Salmos 105,3. Se o homem pode esquecer ou rejeitar Deus, este, de sua parte, não cessa de chamar todo homem a procurá-lo, para que viva e encontre a felicidade. Esta busca, porém, exige do homem todo o esforço de sua inteligência, a retidão de sua vontade. Um reto coração, e o testemunho dos outros, que o ensinam a procurar Deus. “Vós sois grande, Senhor, e altamente digno de louvor, grande é o vosso poder, a vossa sabedoria não tem medida. O homem, pequena parcela de vossa criação, pretende louvar-vos, precisamente o homem que, revestido de sua condição mortal, traz em si o testemunho de seu pecado e de que resistis aos soberbos. A despeito de tudo, o homem, pequena parcela de vossa criação, quer louvar-vos. Vós mesmo o instigais a isto, fazendo com que ele encontre suas delícias no vosso louvor, porque nos fizestes para vós e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em vós”. 2. As vias de acesso ao conhecimento de Deus. Criado a imagem de Deus, chamado a conhecer e a amar Deus, o homem que procura Deus descobre certos caminhos para chegar ao conhecimento de Deus. Eles são também chamados de “provas da existência de Deus”, não no sentido das provas que as ciências naturais buscam. Mas no sentido de argumentos convergentes e convincentes que permitem chegar a verdadeiras certezas. Estas “vias” para chegar a Deus tem como ponto de partida a criação, o mundo material e a pessoa humana. O mundo a partir do movimento é o devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo, pode-se conhecer a Deus como origem e fim do universo. “São Paulo afirma a respeito dos incrédulos: “O que de Deus se pode conhecer é a eles manifesto, já que Deus mesmo lhes deu esse conhecimento. De fato, as perfeições invisíveis de Deus – não somente seu poder eterno, mas a sua eterna divindade – são percebidas pelo intelecto, através de suas obras, desde a criação do mundo” Romanos 1,19-20. Diz Santo Agostinho (354-430): “Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar que se dilata e se difunde. Interroga a beleza do céu (...) Interroga todas estas realidades. Elas te respondem: Olha-nos, somos belas. Sua beleza é um hino de louvor, confesso. Essas belezas sujeitas a mudanças, quem as fez senão o Belo, Bonito, não sujeito a mudanças. O homem com sua abertura à verdade e à beleza, com seu senso do bem moral, com sua liberdade e a voz de sua consciência. Com sua aspiração ao infinito e à felicidade, o homem se interroga sobre a existência de Deus. Mediante tudo isso percebe sinais de sua alma espiritual. Como “semente de eternidade que leva dentro de si, irredutível à só matéria” sua alma não pode ter origem senão em Deus. O mundo e o homem atestam que não tem em si mesmo nem seu princípio primeiro nem seu fim último. Mas que participam do Ser em si, que é sem origem e sem fim. Assim, por esses diversos caminhos, o homem pode chegar ao conhecimento da existência de uma realidade que é a causa primeira e o fim último de tudo, “a que todos chama Deus”. As faculdades do homem o tornam capaz de conhecer a existência de um Deus pessoal. Porém, para que o homem possa entrar em sua intimidade, Deus quis revelar-se ao homem e dar-lhe a graça de poder acolher esta revelação na fé. As provas da existência de Deus podem, todavia, dispor a fé e ajudar a ver que a fé não se opõe à razão humana. 3. O conhecimento de Deus segundo a Igreja. “A santa Igreja, nossa mãe, sustenta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas”. Sem esta capacidade, o homem não poderia acolher a revelação de Deus. O homem tem esta capacidade por ser “a imagem de Deus”. Todavia, nas condições históricas em que se encontra, o homem enfrenta muitas dificuldades pra conhecer a Deus apenas com a luz de sua razão. “Embora a razão humana, falando simplesmente, possa realmente com suas forças e sua luz natural chegar ao conhecimento verdadeiro e certo de Deus único e pessoal, que sustêm e governa o mundo com sua providência. Bem como ao conhecimento da lei natural, impressa pelo Criador em nossas almas, não são poucos, todavia, os obstáculos que impedem a razão de fazer o uso eficaz e frutuoso dessa sua capacidade natural. De fato, as verdades que se referem a Deus e às relações entre os homens e Deus são verdades que transcendem por completo a ordem das coisas sensíveis e quando entram na prática da vida e a enformam, exigem sacrifício e abnegação própria. Ora, o entendimento humano encontra dificuldades na aquisição de tais verdades, quer pela ação dos sentidos e da imaginação, quer pelas más inclinações nascidas do pecado original. Isso faz com que os homens, em semelhantes questões, facilmente se persuadam de ser falso e duvidoso o que não querem que seja verdadeiro. Por isso, o homem ter necessidade de ser iluminado pela revelação de Deus, não somente sobre o que ultrapassa seu entendimento. Mas também sobre “as verdades religiosas e morais que, por si mesmas, não são acessíveis a razão. A fim de que estas, no estado atual do gênero humano, possam ser conhecidas por todos sem dificuldades, com firme certeza e sem confusão de erro. 4. Como falar com Deus? Ao defender a capacidade da razão humana de conhecer a Deus, a Igreja exprime sua confiança na possibilidade de falar de Deus a todos os homens e com todos os homens. Essa convicção está na base de seu diálogo com as outras religiões, com a filosofia e com as ciências, como também com os não crentes e os ateus. Uma vez que nosso conhecimento de Deus é limitado, também limitada é nossa linguagem sobre Deus. Só podemos falar de Deus a partir das criaturas e segundo nosso modo humano, limitado de conhecer e de pensar. As criaturas todas elas, trazem em si certa semelhança com Deus, muito particularmente o homem criado à imagem e à semelhança de Deus. Por isso as múltiplas perfeições das criaturas (sua verdade, bondade, beleza) refletem a perfeição infinita de Deus. Em razão disso,  podemos falar de Deus a partir das perfeições de suas criaturas, “partindo da grandeza e beleza das criaturas, pode -se chegar a ver, por analogia, o seu Criador. Deus transcende a toda criatura. Por isso, é preciso incessantemente purificar nossa linguagem daquilo que possui de limitado, de proveniente da pura imaginação, de imperfeito. Para não confundir Deus “inefável, incompreensível, invisível, inatingível” com as nossas representações humanas. Nossas palavras humanas permanecem sempre aquém do mistério de Deus. Assim falando de Deus, nossa linguagem se expressa, sem dúvida, de maneira humana. Contudo ela atinge realmente o próprio Deus, ainda que sem poder exprimi-lo em sua infinita simplicidade. Com efeito, é preciso lembrar que “entre o Criador e a criatura não se pode notar uma semelhança, sem que se deva notar entre eles uma ainda maior dessemelhança”. E que, “não podemos apreender de Deus o que ele é, mas apenas o que ele não é e de que maneira os outros seres situam-se em relação a ele”. Resumindo. O homem é, por natureza e por vocação, um ser religioso. Porque provém de Deus e para Ele caminha, o homem só vive uma vida plenamente humana, se vive livremente sua relação com Deus. O homem é feito para viver em comunhão com Deus, no qual encontra sua felicidade. “Quando eu estiver inteiramente em vós, nunca mais haverá dor e provação, repleta de vós por inteiro, minha vida será verdadeira”. Quando escuta a mensagem das criaturas e a voz de sua consciência, o homem pode atingir a certeza da existência de Deus, causa e fim de tudo. A Igreja ensina que o Deus único e verdadeiro, nosso Criador e Senhor, pode ser conhecido, com certeza, por meio de suas obras graças à luz natural da razão humana. Podemos realmente falar de Deus, partindo das múltiplas perfeições das criaturas, semelhanças do Deus infinitamente perfeito, ainda que nossa linguagem limitada não esgote seu mistério. “Sem o Criador (...) a criatura se esvai”. Eis por que os crentes sabem que são impedidos pelo amor de Cristo a levar a luz de Deus vivo aqueles que o desconhecem ou recusam. Abraço. Davi. Capítulo II. Página 36.

 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

OS ANALECTOS - LIVRO VI

Confucionismo. www.rl.art.br. OS ANALECTOS – LIVRO VI. Texto de Confúcio (551 a.C.479). 1. O Mestre disse: “A Yung pode ser dado o assento de frente para o sul”. 2. Chung-kung perguntou sobre Tzu-sang Po-tzu. O Mestre disse: “É sua simplicidade de estilo que o torna aceitável”. Chung-kung disse: “Ao governar o povo, não é aceitável ser exigente consigo mesmo e condescendente ao tomar medidas? Por outro lado, não é exagerar na simplicidade ser condescendente consigo mesmo, assim como ao tomar medidas?”. O Mestre disse: “Yung tem razão no que ele diz”. 3. Quando o duque Ai perguntou qual dos seus discípulos tinha sede de aprender, Confúcio respondeu: “Havia um Yen Hui que tinha sede de aprender. Ele não descarregava sua raiva em uma pessoa inocente, tampouco cometia o mesmo erro duas vezes. Infelizmente, o tempo de vida que lhe coube era curto, e ele morreu. Agora, não há ninguém. Ninguém com sede de aprender chegou ao meu conhecimento”. 4. Jan Tzu pediu grãos para dar à mãe de Tzu-hua, que estava fora em uma missão para Ch’i. O Mestre disse: “Dê-lhe um fu ”. Jan Tzu pediu mais. “Dêlhe um yü”. Jan Tzu deu-lhe cinco ping de grãos. O Mestre disse: “Ch’ih foi para Ch’i carregado por cavalos bem-alimentados e usando finas peles. Sempre ouvi dizer que um cavalheiro dá para ajudar os necessitados, e não para manter os ricos em uma vida farta”. 5. Ao tornar-se seu administrador, Yüan Ssu recebeu novecentas medidas de grãos, as quais declinou. O Mestre disse: “Os grãos não podem ser úteis para ajudar as pessoas no teu vilarejo?”. 6. O Mestre disse de Chung-kung: “Se um touro nascido de gado de arado tivesse cor castanha e chifres bem-formados, será que os espíritos das montanhas e dos rios o rejeitariam, mesmo que não o achássemos bom o suficiente para ser usado?”. 7. O Mestre disse: “Em seu coração, Hui pode praticar a benevolência durante três meses ininterruptos. Os outros atingem a benevolência meramente por ataques repentinos”. 8. Chi K’ang Tzu perguntou: “Chung Yu é bom o suficiente para que lhe seja oferecido um cargo oficial?”. O Mestre disse: “Yu é decidido. Que dificuldades ele poderia encontrar ao assumir um cargo?”. “Ssu é bom o suficiente para que lhe seja oferecido um cargo oficial?” “Ssu é um homem inteligente. Que dificuldades ele poderia encontrar ao assumir um cargo?” “Ch’iu é bom o suficiente para que lhe seja oferecido um cargo oficial?” “Ch’iu é um homem completo. Que dificuldades ele poderia encontrar ao assumir um cargo?” 9. A família Chi queria fazer de Min Tzu-ch’ien o administrador de Pi. Min Tzuch’ien disse: “Decline a oferta delicadamente por mim. Se alguém tornar a vir atrás de mim, estarei do outro lado do rio Wen”. 10. Po-niu estava doente. O Mestre visitou-o e, segurando sua mão através da janela, disse: “Vamos perdê-lo. Deve ser o Destino. Por que outra razão tal homem seria fulminado por tal doença? Por que outra razão tal homem seria fulminado por tal doença?”. 11. O Mestre disse: “Como Hui é admirável! Morar em um pequeno casebre com uma tigela de arroz e uma concha de água por dia é uma provação que a maioria dos homens acharia intolerável, mas Hui não permite que isso atrapalhe sua alegria. Como Hui é admirável!”. 12. Jan Ch’iu disse: “Não é que eu não esteja satisfeito com o Caminho do Mestre, mas me faltam forças”. O Mestre disse: “Um homem a quem faltam forças entra em colapso ao longo do trajeto. Mas você desiste antes de começar”. 13. O Mestre disse para Tzu-hsia: “Seja um ju [67] cavalheiro, não um ju mesquinho”. 14. Tzu-y u era o governador de Wu Ch’eng. O Mestre disse: “Você fez alguma descoberta lá?”. “Há um T’an-t’ai Mieh-ming que nunca toma atalhos e que nunca esteve em meus aposentos, exceto por razões oficiais”. 15. O Mestre disse: “Meng chih Fan não era dado a vangloriar-se. Quando o exército tomou a estrada, ele ficou na retaguarda. Mas, ao adentrar o portão, ele esporeava seu cavalo, dizendo: ‘Eu não fiquei para trás por modéstia. Simplesmente, meu cavalo recusava-se a ir adiante’”. 16. O Mestre disse: “Você pode ter a beleza de Sung Chao, mas será difícil escapar ileso neste mundo se, ao mesmo tempo, não tiver a eloquência do sacerdote T’uo”. 17. O Mestre disse: “Quem é que pode sair de uma casa sem usar a porta? Por que, então, este Caminho não é seguido?”. 18. O Mestre disse: “Quando a natureza de alguém prevalece sobre a educação recebida, o resultado será uma pessoa intratável. Quando a educação prevalece sobre a natureza, o resultado será uma pessoa pedante. Apenas uma mistura bem equilibrada das duas resultará em cavalheirismo”. 19. O Mestre disse: “Um homem sobrevive graças à sua retidão. Um homem que engana os outros sobrevive graças à sorte de ser poupado”. 20. O Mestre disse: “Gostar de algo é melhor do que meramente conhecê-lo, e encontrar alegria nesse algo é melhor do que meramente gostar dele”. 21. O Mestre disse: “Você pode explicar àqueles que estão acima da média sobre os melhores, mas não pode explicar àqueles que estão abaixo da média”. 22. Fan Ch’ih perguntou sobre a sabedoria. O Mestre disse: “Trabalhar pelas coisas às quais o povo tem direito e manter-se à distância dos deuses e dos espíritos enquanto lhes mostra reverência pode ser chamado de sabedoria”. Fan Ch’ih perguntou sobre a benevolência. O Mestre disse: “O homem benevolente colhe o benefício apenas após vencer as dificuldades. Isso pode ser chamado de benevolência”. 23. O Mestre disse: “O sábio encontra alegria na água. O benevolente encontra alegria nas montanhas. Os sábios são ativos; os benevolentes são plácidos. Os sábios são alegres; os benevolentes são longevos”. 24. O Mestre disse: “Com uma só reforma, Ch’i pode ser transformado em um Lu, e Lu, com uma só reforma, pode ser levado a atingir o Caminho”. 25. O Mestre disse: “Uma garrafa ku que não mede volume algum. Que garrafa ku estranha! Que garrafa ku estranha!”. 26. Tsai Wo perguntou: “Se a um homem benevolente fosse dito que havia outro homem benevolente no poço, iria ele, ainda assim, juntar-se ao outro?”. O Mestre disse: “Por que deveria ser esse o caso? Um cavalheiro pode ser mandado para lá, mas não pode ser atraído à armadilha. Ele pode ser enganado, mas não pode ser feito de bobo”. 27. O Mestre disse: “O cavalheiro que é muito culto mas que é levado às coisas essenciais pelos ritos dificilmente vai se voltar contra aquilo que apoiou”. 28. O Mestre foi ver Nan Tzu. Tzu-lu não gostou. O Mestre jurou: “Se fiz algo inapropriado, que o castigo do Céu caia sobre mim! Que o castigo do Céu caia sobre mim!”. 29. O Mestre disse: “Supremo, de fato, é o Caminho do Meio como virtude moral. Tem sido raro entre o povo há muito tempo”. 30. Tzu-kung disse: “Se houvesse um homem que desse generosamente ao povo e trouxesse auxílio às multidões, o que o senhor pensaria dele? Ele poderia ser considerado benevolente?”. O Mestre disse: “Nesse caso não se trata mais de benevolência. Se é preciso descrever tal homem, sábio é, talvez, a palavra adequada. Mesmo Yao e Shun achariam difícil realizar tanto. Mas, por outro lado, um homem benevolente ajuda os outros a firmar sua atitude do mesmo modo que ele próprio deseja firmar a sua e conduz os outros a isso do mesmo modo que ele próprio deseja chegar lá. A capacidade de tomar o que está ao alcance da mão como parâmetro pode ser considerado o método da benevolência”. www.rl.art.br. Abraço. Davi

terça-feira, 1 de outubro de 2024

JESUS. Parte V

 

Judaísmo. Livro Judaísmo e Cristianismo – As Diferenças. Por Trude Weiss (1908-1989). Capítulo 8. JESUS. Parte V. A maneira pela qual Jesus aplicava esses princípios às situações da vida real pode ser vista por seus rompantes de ira para com os discípulos que desejavam se desvincular de certas obrigações familiares antes de segui-lo. Quando um futuro discípulo dizia a Jesus: “Mestre, vou segui-lo, mas deixe-me primeiramente dizer adeus aos que estão em minha casa”. Ele o reprovava: “Quem coloca sua mão no arado e olha para trás é inadequado para o Reino de Deus” Lucas 9,6. Em oposição ao judaísmo, que espera que o devoto ocupe seu lugar na sociedade como bom filho, marido, pai, irmão e vizinho. Jesus exigiu de seus seguidores que odiassem seu semelhante para serem melhores discípulos. Portanto, ensinava: “Aquele que se aproxima de mim sem odiar seu próprio pai e mãe, esposa e filhos, irmãos e irmãs, e sua vida, não pode ser um dos meus discípulos” Lucas 14,26. Até que ponto Jesus desejava que seus discípulos se desvinculassem de obrigações filiais pode ser julgado a partir dessa resposta a um discípulo que solicitou: “Deixe-me primeiro ir e enterrar meu pai”. A resposta de Jesus foi: “Siga-me e deixe os mortos enterrarem seus próprios mortos” Mateus 8,21 e seguintes. O judaísmo considera a dedicação das últimas reverências ao morto uma obrigação de “benevolência”. O próprio Deus, com o intuito de dar exemplo aos seres humanos, não se nega a demonstrar sua bondade aos mortos. Jesus ordenou a um discípulo para deixar seu pai morto, desenterrado até que “os mortos” (aqueles que não aceitavam a mensagem de Jesus) o enterrassem. Posição totalmente contrária ao verdadeiro espírito judaico. A atitude negativa de Jesus com relação aos deveres mais elementares do filho para com os pais deve ser considerada na análise ao novo tipo de “amor” que ele supostamente introduziu. É verdade, Jesus exigiu, indo além da letra da lei judaica e sem levar em consideração a natureza humana, “ame seus inimigos e ore para seus perseguidores” Mateus 5,44. Entretanto, de que vale esse ensinamento se seu promotor também rezou: “Aquele que se aproxima de mim sem odiar pai e mãe é inadequado para ser um dos meus discípulos” Lucas 14,26. A lei judaica não ordena que se ame seu adversário, pois isso seria antinatural. Ela ordena, entretanto, que evitemos pensar em vingança contra ele e, ainda, que o ajudemos numa emergência, pois isto é o que se espera de um ser humano.  Lei judaica não ordena que se ame seu adversário, sendo que isso seria antinatural. Ela ordena, porém, que evitemos pensar em vingança contra ele e, ainda, que o ajudemos numa emergência, todavia isto é o que se espera de um ser humano. A lei judaica ordena insistentemente amor e respeito aos pais, marido, esposa, filhos, irmãos, irmãs e todos os outros membros da família. Uma preocupação irrestrita em amar todos os semelhantes. O “amor cristão” é frequentemente colocado em oposição ao “legalismo estrito” do judaísmo. Portanto, é oportuno ressaltar que Jesus, conforme representado pelos Evangelhos, comumente não cumpria os elevados princípios que pregava. O fato de Jesus não estar isento de vingança, o que é proibido pela lei judaica. Torna-se evidente por ter ameaçado seus oponentes a negar-lhe o Reino dos Céus; “Então direi a eles diretamente, nunca ouvi falar de você. Afaste-se de mim, você que cometeu erro” Mateus 7,21-23. O judaísmo, a religião do “legalismo estrito”, por outro lado, representam Deus como atraindo para seu lado os pecadores arrependidos, sem querer se lembrar de suas transgressões anteriores. Jesus ensinou: “Não resistais ao homem mau, antes, aquele que te fere na face direita oferece-lhe também a esquerda, e aquele que quer pleitear contigo, pra tomar-te a túnica, deixa-lhe também a veste. E se alguém te obriga a andar uma milha, caminha com ele duas” Mateus 5,39-41. Mas Jesus não seguia esse ensinamento. O Evangelho também registra que ele retribuía o bem com o bem e o mal com o mal: “Todo aquele, portanto, que se declarar por mim diante dos homens, eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos Céus. Aquele, porém, que me renegar diante dos homens, também o renegarei diante de meu Pai que está nos Céus” Mateus 10,32. Outros de seus ensinamentos que o próprio Jesus não cumpria é a célebre bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão a misericórdia” Mateus 5,7. A atitude de Jesus e de seus discípulos para com aqueles que discordavam dele podia ser tudo menos tolerante. Como se evidencia em sua hostilidade cáustica em relação aos fariseus, a quem Jesus se referia como “serpentes” e “ninho de cobras”. Além de os ameaçar com punição eterna no mundo vindouro, Mateus 23,19-33, e muitas outras passagens similares. O quanto Jesus estava longe de ser piedoso e isento de desejo de vingança pode ser avaliado pelo fato de que ele amaldiçoou até mesmo uma árvore que não produziu os frutos que ele esperava! Assim, lemos: “De manhã, ao voltar para a cidade, teve fome. E Avistando uma figueira à beira do caminho, foi até ela, mas nada encontrou senão folhas. E disse à figueira: Nunca mais produzas frutos. E a figueira secou no mesmo instante” Mateus 21,18-20. Jesus estava também distante da santidade necessária para prontamente retribuir o mal com o bem, o que fica bastante evidente em suas inúmeras parábolas e ameaças diretas aos seus inimigos, quando prometia punição futura no Reino dos Céus. Assim, ele assim se dirigia àquele que não optavam por segui-lo Terra: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber. Fui forasteiro e não me recolhestes. Estive nu e não me vestiste, doente e preso, e não me visitastes” Mateus 25,41-43. Existe também uma contradição sem solução entre a beatitude de Jesus: “Bem-aventurados os que promovem a paz porque serão chamados filhos de Deus” Mateus 5,9 e sua declaração: Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer pez, mas espada. Com efeito vim contrapor o homem ao seu pai, a filha a sua mãe e a nora a sua sogra. Em suma, os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” Mateus 10,34-37. Abraço. Davi