sábado, 19 de junho de 2021

O ELIXIR DA VIDA II

 

Espiritualidade. Texto de N. Sri Ram (1889-1973). Livro Em Busca da Sabedoria. Capítulo XV. O ELIXIR DA VIDA II. Eliphas Levi (1889-1973) fala da morte como “a transfiguração dos vivos”. Ele parece querer dizer que se pode morrer enquanto se ainda vive, que é essencialmente a mudança que a natureza efetua periodicamente com seu mecanismo, mas que pode ser produzido definitivamente de modo livre e voluntário, através da própria inteligência da pessoa, com total percepção daquilo que está se realizando. A pessoa pode ser transfigurada enquanto ainda vive, como Jesus foi transfigurado. Assim a vida na matéria, ou seja, sufocada pelo apego que toda a matéria implica, pode ser transformada em vida em Espírito, ou vida em sua própria liberdade, desabrochando para esplendores desconhecidos. Eliphas Levi faz uma outra observação sobre a morte em seu estilo vivido e poético: “os corpos mortos nada são senão as folhas mortas da árvore da vida que ainda terá todas as suas folhas na primavera”. A vida em sua totalidade, bem como todos os seres humanos, é uma árvore de vida e os corpos mortos não são apenas físicos – mesmo as células no corpo que morrem aos milhões, enquanto o corpo como um todo está vivendo e pulsando, podem ser consideradas como aquelas folhas mortas. Mas também astrais e mentais. Há referências nas primeiras obras da literatura teosófica a “sombras” que nada são senão os remanescentes astrais da entidade que teve sua passagem, reanimada ou por algum tipo de energia de pensamento ou por alguma outra entidade que não sente qualquer repugnância por elas, mas é capaz de utilizá-las. Exceto por determinados grupos de espiritualistas, e talvez alguns ocultistas errantes, a atmosfera presente no mundo moderno não favorece o interesse nesses fenômenos paranormais representados por elementares, espectros, sombras e assim por diante, que no passado pareciam estar mais envolvidos com seres humanos do que atualmente. Da mesma maneira com que as folhas mortas caem da árvore, enquanto a árvore está viva, esses remanescentes, corporificando as tendências Kama-manásicas da entidade que se retrai, desligam-se em determinado estágio do seu progresso e via de regra desintegram-se. A árvore terá folhas novas na primavera porque a própria vida é eterna e imperecível. A árvore da vida que é cada ser humano cresce periodicamente e depois morre até as suas raízes. A árvore continuará submetida àquelas mudanças até que ela esteja totalmente transformada, tornando-se a árvore da vida e sabedoria, nada haverá a abandonar; as folhas que constituem a sua expressão serão sempre como as folhas na primavera, eternamente frescas, sem conterem nenhum elemento que possa nelas causar decadência. Eliphas Levi segue com a observação de que “a ressurreição dos homens assemelha eternamente àquelas folhas”. Estar ressuscitado não significa renascer na matéria, porém nascer no Espírito que é atemporal e, portanto, não à decadência. A energia integrada na corrente individual da vida reascende para o Espírito quando deixa de ser atraída na direção dos canais de matéria e da sensação. Na mitologia indiana, na qual tantas verdades são indicadas de forma alegórica ou em parábolas, métodos aliás muito usado nos primeiros tempos da humanidade, diz-se que os Devas possuem três atributos. A palavra Deva, deve-se realçar aqui, é usada para diferentes classes de entidades não físicas, variando desde espíritos da natureza brincalhões que são como pequenas crianças, em uma extremidade da escala, aos seres elevados, cujas natureza e atividades o homem não pode conceber bem, na outra extremidade. No meio da escala há Devas que, embora não possuindo corpos físicos, são humanos em sua natureza psíquica. O mito refere-se ao aparecimento, em forma física, de tais Devas humanos. Pode-se descobrir que são Devas, segundo se diz, através de três sinais. Os sinais mencionados são todos físicos, mas podem ser interpretados como referindo-se ou à natureza psíquica ou espiritual daqueles seres. Um dos sinais é que o Deva nunca transpira, outro é que ele olha sem piscar os olhos e o terceiro é que ele não forma sombra. Ele não transpira porque o seu corpo é apenas uma forma materializada capaz de realizar aquilo que deseja e não um corpo organizado como o nosso. Mas há o indício de que a maneira em que o Deva vive e age é destituída de esforço. Quando não há esforço ou tensão ao fazer as coisas que se deseja fazer, há sempre vitalidade e frescor. Sem dúvida haverá um dispêndio de energia, mas poderá haver um influxo correspondente de vitalidade. A condição de não piscar os olhos pode ser devida ao fato de que, sendo uma criação artificial, o corpo não tem todos os processos fisiológicos detalhados; mas também sugere uma tenção concentrada que surge sem esforço do interesse naquilo que ele está observando ou fazendo. O Deva pode comungar, por assim dizer, com tudo que atrai, sem qualquer vascilação ou desvio de atenção, sem uma mente errante. Ele não faz sombra fisicamente, possivelmente porque sua forma, que é ilusória, não é suficientemente densa. Metaforicamente poderia significar que ele tem uma natureza translúcida e não opaca. As características físicas mencionadas talvez sirvam para indicar o tipo de ser que ele é em sua natureza espiritual. A sua qualidade inalterável surge do fluxo de vitalidade que brota de dentro. Quando a fonte interna não estiver bloqueada ou impedida, o fluxo que dela se origina tem as qualidades do frescor e claridade inerentes às águas puras da vida. O homem ressuscitado, que é comparado às folhas na primavera, deve ser presumido como tendo as qualidades espirituais mencionadas, ou seja, ação destituída de esforços, estado desperto permanente (uma radiação constante de consciência) e a pureza que toma a sua natureza translúcida. Jiddu Krishnamurti (1895-1986) faz uma declaração, profundamente interessante quando diz, ou parece dizer, que a morte, a vida e o amor são uma e a mesma coisa. Expresso desta forma pode afigurar-se ininteligível para nós, mas a afirmação pode referir-se a um estado de ser, de mente e coração, que possui a natureza de todos os três – morrer a cada momento para cada partícula de acumulação que compõe o passado, a florescência da vida que está sempre naquele momento que é o presente, e o amor que também se manifesta naquele instante, como sendo algo sempre novo, com uma qualidade que não está baseada no tempo. A vida e a morte são como dois lados de uma moeda. São fenômenos semelhantes ao nascer e o pôr do sol. O sol pode pôr-se em Madras, Índia, e ao mesmo tempo nascer em Chicago, USA. Uma pessoa morre para este mundo, mas simultaneamente aparece em outra parte. Tanto o nascer quanto o morrer são fenômenos ilusórios, causados pela revolução da Terra ao redor do seu eixo e a inclinação do plano do nosso horizonte em relação aos raios solares, enquanto o sol permanece fixo como o centro do seu sistema. Se o sol representa Espírito ou vida em sua fonte, o Espírito, nas palavras do Bhagavad Gita, não nasce e não morre; embora, conforme expresso em uma das cartas dos Mahatmas, “Espírito na matéria é vida”. A vida pode existir em várias formas e gradações. A retirada da vida do envolvimento na matéria, que é uma morte, reintegra-a à sua condição original, que é a ressurreição no Espírito ou liberdade. Esta retirada é um processo de eliminar o passado como é refletido no presente, e ao mesmo tempo, a recuperação da liberdade pela entidade que se permitiu, durante o período de não percepção, ser aprisionada dentro de memórias e obsessões acumuladas naquele passado. A dissolução deste acúmulo, camada por camada, é o “banho em esquecimento” que reintegra a vida individual à sua condição original de novidade e inocência. O que é eliminado naquele banho não é a sua própria natureza, a qual quando se projeta evidencia seu brilho próprio como o ouro puro do qual foi removida a escória, ou como as flores na primavera. Quando tudo que foi acumulado no processo do tempo tiver desaparecido, manifesta-se aquilo que eternamente é. A vida individualizada e a forma sempre caminham juntas. Deve haver um tipo de vestidura para a manifestação da vida, não necessariamente física. Sem alguma forma através da qual possa agir, a vida pode existir apenas como potencialidade, que para nós é uma abstração. Referindo-se ao Espírito, a carta do Mahatma anteriormente mencionada diz: “O que é o Espírito, puro e impessoal, per se? Este Espírito é uma não entidade, uma abstração pura, uma lacuna absoluta para os nossos sentidos, até mesmo para o mais espiritualizado”. Visto que o Espírito em matéria é vida, na fonte ambos são uma e a mesma coisa. A energia que chamamos vida, embora se espalhe no espaço, pode estar contida em um ponto e aparentemente o faz no pralaya, a noite de Brahma (a Divindade na sua primeira manifestação), de acordo com os antigos livros hindus, quando tudo no universo retorna à sua fonte. Esta noite segue-se em um ritmo cíclico ao dia de Brahma, o período ativo do universo, chamado Manvantara. Diz-se que também existem pralayas menores, durante os quais não o todo do universo, porém partes que constituem sistemas em si desaparecem em um sono semelhante ou latência, como poderíamos chamar este estado. Mas, somando-se a estes estados, existe também o conceito de Nitya Pralaya, que pode ser traduzido por pralaya ou morte a cada momento. Isto pode referir-se à morte por milhões de seres humanos, bem como a outras vidas que acontecem a cada momento. Pode também referir-se àquele estado de mente e coração em que há uma morte para toda experiência, seja marcada pelo prazer ou pela dor, quando seria igualmente uma ressurreição, a cada momento. Tal morte é um pôr do sol perpétuo da consciência individual para aquilo que constitui o passado, constituindo simultaneamente um despertar para aquilo que é o presente. A Morte e a Vida estão sempre interligadas. Ambas parecem estar presentes nos mesmo lugares, como por exemplo, a vida no corpo como um todo e a morte das células que constituem o corpo. A forma ou organização é um agregado de partes e o ciclo vital do todo não coincide com o ciclo vital das partes. Como foi dito em um livro notável intitulado O Sonho de Ravan, por um autor anônimo que contribuiu com a obra em forma de folhetim para a revista da Universidade de Dublin – Irlanda, em meados do século passado, toda a nossa terra é um grande ossário quando se olha para o seu passado. Inumeráveis espécies de vida têm morrido durante milhões de anos e a terra está coberta com a poeira e os fragmentos dos seus corpos. Porém, em meio aos mortos há muito tempo e aos que agora morrem, existe vida em toda a sua variedade e glória. A nascente da vida que está por trás jamais cessa de pulsar, e as suas águas brotam por cada poro possível. Embora o tempo seja todo-destrutivo, pode apenas destruir as formas da matéria. Não pode tocar a vida ou o Espírito que, estando sempre naquele momento ilusório que chamamos o presente, está sempre situado fora das garras do tempo. Eliphas Levi continua a dizer que “formas perecíveis são condicionadas por tipos imortais”. O uso da palavra “condicionado” aqui significa que as formas perecíveis, isto é, cada coisa via, assume um estado, que está sujeito à influência do tipo imortal, o arquétipo ou Ideia de Platão (427 AC 328). Em Isis Sem Véu, Helena P. Blavatsky (1831-1891) afirma que “cada mortal possui uma contraparte imortal, o seu arquétipo no céu”. Céu aqui significa o céu das Ideias Divinas. Ela fala do ser humano mortal, enquanto que as formas perecíveis de Eliphas Levi incluiriam tanto os animais quanto as plantas. A forma perecível precisa ser considerada como uma aproximação, não importando a que distância, de sua contraparte imortal, e tendo sutis fios de conexão com ela. Blavatsky diz que está “indissoluvelmente unida àquele arquétipo”, no caso do homem “unido pelo princípio intelectual espiritual nele existente”. O princípio intelectual não e aquela mente que é influenciada por vários tipos de desejo e sensação, mas é uma extensão pura do Espírito, representando de fato o seu instrumento. Eliphas Levi parece querer dizer que para tudo que é imperfeito e portanto perecível, existe em algum lugar um tipo correspondente que é perfeito e imperecível. Esta forma perecível é uma tentativa da natureza de modelar o padrão daquele tipo imortal. Assim ele diz: “todos aqueles que viveram na Terra ali ainda vivem em novos exemplares de seus tipos”. Todos os tipos de animais certa vez passaram pela superfície da Terra, mas desde então desapareceram. As criaturas que agora vemos são os novos exemplares. Em diferentes períodos de tempo existem formas e diferentes estágios de evolução que exemplificam o mesmo tipo imortal. Não há sugestão de reencarnação aqui: a referência é a tipos. Pode se chamar as formas perecíveis aqui como sendo as sombras das formas perfeitas que estão em outro lugar. Em outras palavras, existe uma sucessão de formas em evolução, cada qual melhor do que a precedente e em algumas formas marcadamente diferentes, mas todas elas refletem em diferentes graus ou formas o mesmo padrão ou tipo ideal. Eliphas Levi, referindo-se às formas perecíveis, indica que conquanto possa haver morte neste lado, existe algo imortal correspondente à forma mortal no outro. A morte é a contraparte da imortalidade. Eiphas Levi também diz que “as almas que ultrapassaram o seu tipo recebem em outro lugar uma nova forma baseada em um tipo mais perfeito na medida em que ascendem na escada dos mundos”. Em outras palavras, existe o tipo e existem as aproximações ao tipo. Quando a vida inerente ou a alma desenvolveu-se além dos limites daquele tipo, ela recebe em outro lugar esta nova forma de que ele fala. Pode ser que ele tenha ideia de vida em outra esfera ou sistema. Se almas individuais alcançaram o cume que pode ser atingido sob determinadas condições, deslocam-se para um conjunto diferente de condições onde podem desenvolver-se ainda mais na direção de um tipo superior, porque a capacidade destas almas é ilimitada e infinita. Depois de referir-se a estes protótipos de todas as coisas existentes, ele fala da alma do homem e diz: “as nossas almas são como se fossem a música da qual os nossos corpos são os instrumentos, mas elas não podem fazer-se ouvir sem um intermediário material” – que é precisamente a ideia expressa por Platão ao abordar a natureza da alma. A música exerce efeitos diferentes sobre o homem e difere grandemente em qualidade. Pode tornar-se um mero jogo de ritmos, e pode facilmente transformar-se na mais irreal das fantasias. De fato existem composições musicais que são denominadas “fantasias”, isto é, a sua música é similar a um sonho. Na constituição humana este tipo de ação e experiência está relacionado com a psique, a alma semi material sutil, enquanto distinta da alma espiritual que constitui uma expressão do Espírito. Todo sonho é essencialmente uma projeção do eu psíquico. A alma espiritual, Buddhi, não sonha porque a verdadeira natureza do Espírito deve estar desperta no sentido de sempre perceber aquilo que está para ser percebido, aquilo que é. Quando aquela alma não estiver desperta e ativa, ela pode retirar-se em um estado de pralaya, que, em si, constitui um estado absoluto ou Samadhi, um termo hindu familiar, que é identificado com demasiada frequência e, erroneamente, com total inconsciência. O que o Espírito ou a alma espiritual percebe deve ser a verdade, porém a verdade está dentro de si mesma e é infinita. A alma espiritual é uma corporificação de quaisquer parcelas daquele verdade que foi capaz de atrair para dentro de si. A ação da psique, bem como da individualidade espiritual do homem, seus sonhos e realizações, pode ser representada em forma de música, mas é preciso fazer uma ampla distinção entre a música que exerce um apelo a partes da natureza psíquica, geralmente algo misto, e aquilo que representariam as intuições ou entendimentos da alma espiritual. A qualidade da música diferiria conforme o caso. A música pode induzir a diferentes humores e estados emocionais, e isso foi reconhecido e estudado na música indiana. Os antigos mestres da música gostavam de produzir música capaz de evocar uma atmosfera de amor, de serenidade, de tristeza, de ação enérgica e assim por diante. Lord Byron (1788-1824) escreveu um poema sobre Alexandre, O Grande, que ilustra os notáveis contrastes que a música pode produzir no humor. Existe verdade ou beleza de uma natureza impar em cada ser individual, mas ela está tão profundamente soterrada nele que é difícil percebê-la. Esta beleza ou verdade manifesta-se na alma espiritual e dela se reflete no caráter e na visão do homem. Helena P. Blavatsky, ao traduzir Buddhi como a alma espiritual, deu-lhe uma profundidade de significado que, muitas vezes, não se depreende no uso comum do termo. Buddhi aparentemente possui diversos significados, como podem dizer aqueles que observaram os diferentes contextos em que é usado no Bhagavad Gita. A sua natureza modela a psique em conformidade consigo, que é parte do processo segundo o qual toda a natureza do homem é posta em sintonia com o ser arquétipo. A psique torna-se, então, uma versão ampliada do espiritual, uma versão em um idioma diferente, com notas diferentes, talvez com mais sofisticação, com mais detalhes, ilustrando as qualidades espirituais, porém necessariamente com menos profundidade, menos alcance e penetração interiores, e menos dos indícios desconhecidos que sempre residem em cada partícula da natureza do Espírito. A natureza psíquica é transformada ou transfigurada, ao passo que a alma espiritual meramente se expande e é uma expansão daquilo que nela já está presente. O processo de levar a natureza psíquica à perfeita sintonia com a natureza espiritual pode ser considerado como um processo de remodelar ou reconfigurar, pintando novamente o quadro ou alterando um aspecto comum por variações, e tornando-a uma composição de inacreditável beleza. Essas são todas comparações que de formas diferentes exprimem a mesma verdade. Sempre quando formamos algum conceito da alma, é provável, ao menos em alguns sentidos, que ele seja falho ou imperfeito. A sua natureza pode apenas ser sugerida por símiles. Não pode ser transmitida a uma pessoa que não possui a apreensão necessária para compreendê-la. A afirmação de Eliphas Levi de que “a alma é como se fosse música”, que, sem um corpo ou corpos, não pode ser exteriorizada e expressa, abre muitos vislumbres de pensamento, como o fazem muitas outras afirmações em seu artigo. Livro Em Busca da Sabedoria. Abraço. Davi

sexta-feira, 18 de junho de 2021

O ELIXIR DA VIDA I

 

Espiritualidade. Texto de N. Sri Ram (1889-1973). Livro Em Busca da Sabedoria. Capítulo XV. O ELIXIR DA VIDA I. Um dos fenômenos mais comuns a realizar-se sempre em todo o lugar onde a vida está presente, e que tem profundo significado e importância, é o destino a que está sujeita toda a coisa desde o menor micróbio até o homem, e este fenômeno é a morte. Não gostamos de pensar muito sobre ela porque para a maioria das pessoas constitui uma perspectiva perturbadora: olham-na com pavor e repugnância. Algumas observações profundas foram feitas a este respeito em um artigo publicado em The Theosophist, de outubro de 1881, por Eliphas Levi (1810-1875), para o qual foi dada atenção em uma das cartas dos Mahatmas. Eliphas Levi era um erudito e um abade católico-romano que foi secularizado pela sua igreja porque ela considerava os seus escritos como heréticos. Esses escritos são de uma qualidade mista. Há um livro em particular de sua autoria, intitulado Os Paradoxos da Ciência Oculta, publicado pela Editora Teosófica em Adyar – Índia, a pedido do Senhor C. Jinarajadasa (1875-1953), parte do qual são extremamente sugestivas, mostrando uma visão notável nos assuntos que ele aborda. O artigo em questão faz, entre outras, a afirmação de que “a morte é a dissolução necessária de combinações imperfeitas”. Tudo que percebemos no mundo da forma é realmente uma combinação: consiste de diferentes partes ou elementos. Até mesmo o átomo que conhecemos, e o seu núcleo, foram descobertos pela pesquisa científica como não sendo a coisa indivisível que supostamente era e sim algo deveras divisível. Neste sentido, faz parte da categoria das coisas formadas de alguma maneira que podem ou terão de chegar a um fim em dado momento. Consta que o Buda disse na véspera do dia de sua passagem, que todas as coisas compostas precisam ser decompostas. É apenas aquilo que na última análise não pode ser dividido que é verdadeiramente simples e imperecível. A palavra Mônada, embora não se refira a nada sobre a natureza da matéria como a conhecemos, mas a uma manifestação da Vida Uma ou Espírito, tem esta significação. Conforme concebida na literatura teosófica, ela constitui a essência última de algo que é distinto e individual em sua natureza: existe nela como um ponto de unidade adimensional, que a torna única. Assim ela é indissolúvel. Há uma implicação na afirmação de Eliphas Levi de que quando determinada combinação é perfeita, pode não estar sujeita àquele destino. Por mais perfeita que seja – nada neste mundo imperfeito é absolutamente, impecavelmente perfeito – se for uma combinação, deve ter sido formada de seus elementos – ao menos assim nos parece – e é difícil imaginar que qualquer coisa possa ser formada de tal maneira que jamais venha s ser desfeita depois. Mas talvez aquilo que está implícito seja diferente, e refira-se à forma material visível para nós, mas àquilo que através dela manifesta-se, a alma de sua perfeição, como poderíamos denomina-la, ou o arquétipo divino. O que torna uma coisa perfeita? No nível físico, a forma precisa ser uma combinação de elementos que podem ser movimentos ou linhas e cores, sons e assim por diante, todos da natureza da percepção sensorial. Mas, a partir de um ponto de vista interior, ou para a percepção mais profundamente sensível, a forma merecerá a descrição de “perfeita”, apenas se tiver também a qualidade ou os atributos da beleza, como a proporção, expressão e assim por diante, todos de uma ordem mais intangível. Deve haver harmonia, e não meramente o tipo de ordem que assegura estabilidade por manter unidos os elementos individuais distintos. A harmonia é uma criação ou fato subjetivo estranho, que pode apenas ser sentido ou vivenciado. Constitui a base da beleza. Onde há verdadeira beleza, há uma coalescência de forma e de alma. A forma não mais é algo meramente composto, mas torna-se psicologicamente identificada com o que é expresso, que pode ser um sentimento ou uma qualidade muito sutil. O exemplo mais simples da unidade que pode ser incorporada por algo que é múltiplo em sua constituição é um acorde perfeito na música. As notas permanecem individuais e separadas, mas o sentimento evocado em quem responde àquela beleza não pode ser fragmentado. O mesmo se aplica a todas as outras formas de beleza. As partes existem para revelar a beleza do todo, a qualidade, a perfeição, a divindade do que é expresso. Aquilo que é indissolúvel em uma combinação assim é o que a inspira. As notas que exprimem a beleza do acorde perfeito podem ou não ser soadas, mas a natureza ímpar do acorde permanece como uma realidade subjetiva e pode ser relembrada ou tornar-se manifesta novamente por uma inteligência que dela tem conhecimento. Da mesma maneira o corpo humano, que se desenvolveu através de muitos processos para vir a ser uma vestidura adequada da alma, pode ser deixado e decomposto em seus elementos, mas a alma, se for a alma espiritual, não é um composto e não pode ser dissolvida. Ela pode recolher-se no Espírito, de que é uma expressão, como um círculo de energia através da reversão das forças que o mantém como uma radiação ou impulso a partir do seu centro, podendo recolher-se naquele centro. A possibilidade de uma integração assim perfeita das partes como que manifestarão o tipo de unidade que reside no acorde: sem uma partícula sequer de desarmonia ou dissonância, sem a mínima falha, pode apenas existir em uma natureza da mais alta homogeneidade e adaptabilidade, em que há também um espírito ou instinto de harmonia profundamente arraigados – em outras palavras, apenas na natureza de uma mente e de um coração purificados e sensibilizados, ou a natureza da alma. Qualquer coisa construída da matéria como nós a conhecemos, por mais perfeita que possa se apresentar, provavelmente terá algum pequeno espaço em si para forças de desajuste que trarão como consequência o seu colapso final. A consciência que está totalmente aberta a qualquer forma de harmonia, seja no som, nas cores, no pensamento ou qualquer outra coisa, é assim unificada e integrada; torna-se impregnada com a qualidade que permeia aquela forma. Esta qualidade, absorvida naquela consciência individua, é como uma essência que pertence à substância daquela consciência. Ela não pode tornar-se absolutamente uma com aquela consciência, a menos que a sua natureza esteja inerente naquela consciência como uma potencialidade que pode vir a manifestar-se a qualquer momento. Esta linha de pensamento nos conduz à conclusão de que todas as formas de harmonia, embora cada uma delas seja individual e ímpar, estão latentes na unidade e na aparente monotonia da consciência individualizada em seu estado puro. Cada uma constitui um aspecto da natureza daquela consciência. A monotonia é como a cor branca em que todas as cores distintas estão sintetizadas. O que dá origem a cada forma específica de harmonia na atividade daquela consciência é uma lei ou instinto inato em seu interior similar à de um artista perfeito. Esse instinto pertence à natureza da consciência individualizada em sua pureza; a lei inata é a lei que se obtém em sua liberdade, protegendo-a. Essa consciência, quando em seu estado pristino, não modificado, sempre é um todo. A beleza que a impregna quando encontra um objeto de beleza é a beleza dela evocada. É realmente harmonia que constitui o fundamento comum para sujeito e objeto que superficialmente parecem tão completamente à parte um do outro. A forma de harmonia que surge no campo da consciência como uma realidade subjetiva não é uma combinação imperfeita, mas ela falha quando a energia que a sustém dela se retira. Embora a forma possa deixar de existir, aquilo que estava expresso naquela forma, a sua qualidade essencial, não é perdida, mas permanece como algo distinto, com uma identidade capaz de manifestar-se, não necessariamente no mesmo meio de antes, mas em qualquer meio. Diz-se que um ser humano liberto, que não mais está sob a necessidade de renascer, pode soltar-se não apenas de seu corpo físico, mas também da forma sutil que exprime exatamente a beleza ímpar de sua natureza. Neste último caso, diz-se que ele pode criar à sua vontade esta forma sutil que é sua “própria forma”. Até mesmo quando ele se tiver soltado de sua forma sutil, de modo que ela não se manifesta de forma objetiva, ela terá que ser considerada como existindo em alguma outra condição, sendo portanto, capaz de materializar-se prontamente em um meio que se presta a tal propósito; e se a sua perfeição individual for traçada até sua fonte, talvez se apresente como uma “ideia” divina imperecível. Eliphas Levi continua dizendo que “esta dissolução” de combinações imperfeitas – “é a reabsorção do esboço grosseiro da vida individual no grande trabalho da vida universal”. O homem é um ser complexo. O fenômeno de encarnações repetidas apresenta inevitavelmente diferentes aspectos, considerados em relação aos diferentes tipos de energia nele presente. Olhado do ponto de vista da energia espiritual inicialmente latente em seu interior, mas que ao final deverá tornar-se o fator central e predominante de sua existência, o trabalho a ser realizado constitui em pintar, em termos dos detalhes de sua vida e ação, incluindo todo o pensamento e emoção, a imagem perfeita daquilo que ele deve ser, a imagem de um protótipo preexistente, a ideia divina. Na realização deste trabalho, o seu julgamento, vontade livre e todas as faculdades desenvolvidas no decorrer de sua evolução precisam desempenhar o seu papel e dar a sua contribuição. Assim, aquilo que é criado pela sua livre vontade, originando-se de seus instintos puros e tendências, funde-se em seu predestino. Na verdadeira obra-prima que um artista pinta, usando o seu instinto e julgamento interiores próprios, nenhuma linha poderá ser defeituosa e nenhuma cor poderá estar fora de seu lugar. É concebível que a vida possa ser vivida com uma perfeição assim, expressando, em cada detalhe e no todo, a beleza que constitui a individualidade espiritual do homem, uma beleza atemporal. Apoia-se em torno de uma mudança fundamental que precisa realizar-se em seu interior, mas mesmo antes que esta mudança seja completa, esta ação das correntes espirituais, na medida em que são postas em movimento e que começam a operar em partes da sua natureza. Naturalmente deixariam a sua marca como prenúncios ou traços daquilo que terá de aparecer como o quadro perfeito, traços em forma de um esboço fragmentário ou grosseiro. O esboço superficial produzido em cada vida é apagado pela morte, e apenas partes dele, que podem ser usadas como uma base para uma nova tentativa, permanecem como ideias que podem ser corporificadas no quadro a ser pintado. O restante do esboço, sendo totalmente inaproveitável para o futuro quadro perfeito, é descartado e retoma para a massa cósmica, da mesma maneira como as partes que constituem o corpo físico cremado, após a morte retornam aos elementos da terra, água, ar e assim por diante. “Apenas o perfeito é imortal”, diz Eliphas Levi. O templo da perfeição pode ser construído apenas com o material certo. Helena P. Blavatsky (1831-1891) exprime a mesma verdade quando diz que de todas as experiências de uma vida, apenas uma parte, ou ainda sua essência, a sua qualidade espiritual pura, é assimilada pela individualidade espiritual da pessoa. O resto é rejeitado da mesma maneira que um supervisor pode rejeitar material inadequado. Quando usamos a palavra “qualidade”, ela soa adjetival; a palavra “essencial” possui uma significação substantiva. Mesmo na natureza real das coisas pode não haver uma separação assim entre elas como pensamos. O nosso pensamento raramente percebe a unidade do todo. Vê as partes e as une para compor o todo, mas assim procedendo cria uma lacuna e não consegue apreender a natureza da unidade. A individualidade espiritual é uma mistura perfeita de essências ou de qualidades. Contudo, ela é mais “real” do que qualquer objeto material. Pode ser que o adjetivo contenha a semente do substantivo e possa cria-lo. O sentimento que revolve no coração de um músico cria a canção apropriada. A teoria dos universais de Platão (427 AC 347), dos quais são derivados todos os particulares, tornar-se mais compreensível quando entendermos que uma qualidade é também uma essência que pode moldar uma forma ou tipo a ela ajustável. Isto é, porque o substrato do universo, Svabhavat, para usarmos a palavra budista, é simultaneamente Espírito e Matéria. Eliphas Levi continua com outro pensamento que não pertence a qualquer forma ou combinação, mas à consciência interior: a morte é um “banho no esquecimento”. As suas ideias sobre este assunto são expressas de forma profunda e bela. O que acontece à entidade humana na morte do corpo físico? Gradualmente se desprendem os conteúdos da mente desenvolvida em associação com aquele corpo. O que é expresso na literatura teosófica como pertencente às mudanças que depois se realizam nas condições post-mortem ilustra detalhadamente este processo da dissolução das memórias, camada por camada. Na medida em que determinadas partes desaparecem, outras permanecem, e a consciência é centralizada nelas. Isso realiza-se de acordo com leis psicológicas até que permaneçam apenas memórias de amor, de felicidade imperturbável e outros momentos belos na vida que agora terminou, mas esses sentimentos também desaparecem na medida em que se exaure a energia que lhes aviva. A entidade viva, o homem como é no fim da sua vida física, é transformada nas condições às quais passa na morte, devido ao desgaste da vestidura (ou vestiduras), nas quais então as suas atividades estão centradas, e o desaparecimento das memórias que corporifica. Com o desaparecimento da memória, o apego à memória também desaparece. As memórias permanecem e são ativas apenas enquanto forem reanimadas pelas condições ou experiências das quais se originaram. Quando desaparece o elo com o mundo físico, não há mais o processo reanimador. Visto que todo desejo baseia-se na memória, os desejos que obsedaram ou influenciaram a entidade também desaparecem. Quando este é o caso, é um ser transformado que emerge do processo. Para usar os expressivos termos sânscritos, Kama-manas (desejo-mente), passa a constituir Manas puro. A vestidura é solta quando se torna fragmentada e reduzida a farrapos. Ela representou muito a personalidade anterior, enquanto distinta do Ego sobrevivente, assim denominado porque é uma unidade de consciência e não um ego no sentido estrito da palavra. Tudo, na natureza de uma pessoa, que for construído pelo ambiente, está sujeito ao processo de dissolução. Apenas aquilo que constitui um florescer de dentro, expressando uma natureza diferente não construída, permanece naquele Ego. A entidade que atravessa o processo da morte retoma ao renascimento, tendo esquecido o passado. O passado é complemente eliminado e esquecido e nem sequer um traço permanece na consciência novamente emergente. O indivíduo que retoma é praticamente um ser novo, sem memória do antigo, e assemelha-se muito a uma alma nova que goteja do céu, como algumas pessoas acreditam. O velho foi transformado no novo simplesmente pela desagregação de sua experiência acumulada, e a vida, que é sempre inextinguível, reinicia como um germe de consciência nesta Terra. O germe expande-se muito rapidamente, faz contato com uma coisa após a outra por todos os lados e segue o padrão comum de desenvolvimento, embora não sem variações. Algumas vezes uma criança é precoce, porém mais tarde integra-se em uma rotina normal e estereotipada. Às vezes a planta floresce tardiamente. Nos seus primeiros anos, a criança pode parecer estar nas nuvens, distraída, mas posteriormente chega a um ponto em que a sua qualidade inata precipita-se de forma inesperada. Existem todas as espécies de irregularidades e variações, devido ao fato de que há muitos fatores em cada um de nós, e eles são postos em contato com condições cambiantes. A partir da raiz espiritual imperecível e dos elementos psíquicos sobreviventes e aderentes, brota uma nova árvore da vida, e é este fenômeno do nascimento e do crescimento. Eliphas Levi usa a comparação “uma fonte de juventude, na qual de um lado imerge a velhice e do outro emerge a infância”. O mar do esquecimento contém as águas do rejuvenescimento. O homem idoso que talvez tenha sido difícil e desagradável passa a ser uma criança jovem, dócil, brincalhona e amável – uma transformação incrível. A natureza da vida, quando é incondicionada por qualquer organismo em particular que a limita e condiciona, é diferente de quando está condicionada. As suas qualidades e energias são abafadas e oprimidas pelo organismo no nível do seu próprio funcionamento. A própria vida à parte de qualquer forma com que se revista é eternamente jovem, porém o corpo com o qual se identifica endurece e decai. Quando a vida flui livremente, ela tem uma qualidade muito diferente da que exibe quando obstruída com elementos que penetram sua corrente, turvando-a e encobrindo-a. Vemos a qualidade inata da vida no nível físico apenas em seus primórdios, com as folhas frescas na primavera e o viço de tudo o que é jovem, porque em breve é tolhida pelas mudanças hostis à sua livre expressão. A criança tem uma qualidade de frescor; o jovem, seja menino ou menina, também é assim, não apenas no corpo, mas também na mente. Mas perde progressivamente aquela característica, o homem em idade média, via de regra, mostra muito pouco disso e, na medida em que envelhece, torna-se não apenas evanescido no corpo, mas também mais estabelecido e contraído na mente e no coração, capaz de funcionar apenas dentro de determinados sulcos estreitos. O corpo físico torna-se velho na natureza das coisas, através de reações químicas, deteriorização de células e muitos processo que a sua mente não pode controlar. Ninguém pode reter o envelhecimento do corpo. Talvez o homem esteja destinado a aprender determinadas coisas através das inabilidades que este processo lhe impõe. Mas por que a pessoa torna-se velha internamente? A resposta é que ela é retardada, enrijecida e limitada por aquele processo de acumulação, cujos resultados são eliminados no “banho em esquecimento”. Se observarmos o processo enquanto se realiza durante a vida, pode-se ser capaz de livrar-se dele. É um processo de fixar-se em uma coisa após a outra que lhe dá prazer, porque ele anseia e deseja possuir, seja dinheiro, posição, estima, poder, relações sexuais ou qualquer outra coisa. Livro Em Busca da Sabedoria. Abraço. Davi

quarta-feira, 16 de junho de 2021

APRESENTAÇÃO VI

 

Religião Afro-brasileira. Candomblé. Livro O Candomblé da Bahia – Rito Nagô. Tradução de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-2018). Capítulo I. APRESENTAÇÃO VI. Entre os privilégios deste posto, podemos citar o direito de agitar o axé ou cabaça de Xangô e, depois da morte, o de voltar sete dias após, em forma de Egun, para ditar as últimas vontades. Cada um dos oba da direita possui um substituto, ou segundo, que lhe toma o lugar em caso de impedimento, sucedendo-lhe após a morte. Mas os diversos postos que acabamos de nomear não esgotam de modo algum a riqueza e a complexidade do sacerdócio baiano. Só falamos até agora dos postos regulares, indispensáveis ao bom funcionamento do culto, e que por esta razão são encontrados mais ou menos por toda a parte. Mas, ao lado destes, há outros cargos ou títulos sacerdotais, que, porém, só aparecem nos candomblés mais puros, nos mais rigorosamente tradicionais. Não podemos saber, todavia, se têm ou não sempre titulares. Nossa impressão é de que os postos a que correspondem podem ficar anos sem titular, esperando a boa vontade dos deuses ou o acaso da sorte. Citamos entre outros o de Qjuoba "olho do rei", que está ligado a Xangô e que tem também o privilégio de agitar o xerê. Um outro mais importante, wessa (principalmente nos terreiros dirigidos por mulheres), que saúda as divindades, canta-lhes os louvores (devendo, então, conhecer os oriki, que são os cânticos de louvor africanos dos Orixá) e que preside aos sacrifícios. E o de iyanaso que dirige o culto especial de Xangô. A primeira íyanaso que se conheceu na Bahia ocupava já o mesmo posto no palácio de Alafin em Oyo. Reduzida à escravidão, trazida para o Brasil, aqui fundou o candomblé do Engenho Velho. Acima de todos se encontra o babalorixá, ou pai de santo, sacerdote supremo se a seita é dirigida por homem - ou a ialorixá, a mãe de santo, sacerdotisa suprema se a seita é dirigida por mulher. O babalorixá é o chefe do culto; tem por conseguinte toda autoridade sobre o conjunto dos fiéis, indo até à possibilidade de açoitá-los se faltam com seus deveres. É quem prepara os objetos sagrados, quem dirige as festas públicas ou privadas, quem identifica as divindades que então se manifestam, quem controla os sacrifícios e as iniciações, quem consulta os obi (e algumas vezes os búzios) para conhecer a vontade dos Orixá. Se as filhas de santo brigam umas com as outras, deve restabelecer a ordem e a boa harmonia entre elas; se têm aborrecimentos, dá-lhes conselhos, orienta-as. Dessa maneira, embora não seja senão o chefe espiritual das yauó, insinua-se também em sua vida privada, graças à autoridade moral que possui, e dirige-lhes amigavelmente os negócios. Pode mesmo, em certos casos, assumir o papel de curandeiro, sobretudo quando a doença tem origem mística ou sobrenatural. Quando por exemplo é consequência da violação de um tabu, ou quando é "mau-olhado" atirado por macumbeiro ou feiticeiro; é preciso então, conforme o caso, proceder a um bori para "fortificar a cabeça", ou a uma "troca de cabeças", que é rito de contra magia. Consistindo em fazer a doença passar para um animal, que, esfregado no próprio corpo do paciente, é em seguida atirado fora como uma espécie de bode expiatório. Embora os babalorixá, sejam mais numerosos do que as ialorixá, na Bahia, dominam principalmente nas seitas banto. Nas seitas que nos interessam, as yoruba, são ao contrário as ialorixá que presidem à vida do candomblé. Suas funções são idênticas às dos babalorixá, mas, todavia, não podem executar certos gestos puramente masculinos, têm de conservar a seu lado um pégi-gã ou wêssa. Se, por um lado, os sacerdotes ou sacerdotisas supremas têm autoridade absoluta sobre os membros da confraria religiosa que dirigem, por outro lado têm também obrigações para com eles, tanto de assistência pecuniária quanto moral. O que, em plena cidade da Bahia, torna os candomblés verdadeiras sociedades de socorro mútuo de auxílio fraterno, que mantém o espírito comunitário africano. O termo convento que às vezes é dado a tais agrupamentos convém-lhes perfeitamente. Babalorixá ou ialorixá são escolhidos obrigatoriamente entre os ebômin, ou filhos de santo que têm pelo menos sete anos de permanência no candomblé. Desde a iniciação; recebem eles também os Orixá, portanto, caem também em transe, o que os distingue dos ogan, oba e outros funcionários do culto, além do posto que ocupam. Mas não se sucedem de pai a filho ou de mãe a filha, no interior de uma mesma linhagem familiar. São ou as divindades que os designam por intermédio de Ifa, ou é o sacerdote morto, retornando sete anos depois sob a forma de Egun, que indica seu sucessor. Durante o tempo de espera, o culto fica sob a direção da "mãe pequena". Babaforixá e ialorixá gozam, e com razão, de grande prestígio na sociedade africana, o qual vai crescendo com a idade, o número de anos de serviço, o conhecimento mais perfeito dos mitos ou dos ritos, e também às vezes com a pureza de sua ascendência africana. De sua ligação, através da tradição oral, com os templos africanos de que saíram os primeiros sacerdotes introduzidos no Brasil, seus predecessores. O que quer dizer que a ascensão na hierarquia depende, em última instância, da participação mais ou menos completa à civilização africana, do tesouro de conhecimentos reunidos no decorrer dos anos, e que, para descobrir a metafísica yoruba, é àqueles que ocupam os graus mais elevados da seita que devemos nos dirigir. São em geral pessoas extremamente inteligentes, perspicazes, de uma polidez consumada, de extraordinária memória, e que sempre nos acolheram como a um "filho". Mas justamente devido a tudo isto, a transferência de conhecimentos obedece forçosamente à lei africana. Primeiramente, a isso já fizemos alusão, a transferência só pode se fazer progressivamente e dentro dos limites do posto ocupado dentro do candomblé pelo pesquisador. Cada conhecimento novo obriga forçosamente seu possuidor a novos encargos ou, o que é melhor, a novos deveres que podem ser financeiros, e chegamos assim a uma segunda lei. A vida religiosa é dominada pela reciprocidade e pela troca. Há brancos que não o compreendem e que consideram o babalorixá e a ialorixá como pessoas hábeis que aproveitam da superstição popular para enriquecer. Não negamos que o caso pode se produzir em certos terreiros bantos ou candombles de caboclo, mas trata-se de seitas em franca desagregação, repudiadas com violência pelos verdadeiros "africanos". A informação é um dom que, como todos os outros, necessita um contradom, sem o qual haveria uma ruptura nas relações sociais e até mesmo no mundo. O contra dom, que nestes candomblés, não é quase nunca dinheiro propriamente dito, mas um pedaço ele fazenda, um animal que será oferecido em sacrifício, um colar, etc. Compensa a perda de substância, se assim se pode dizer, daquele que ofertou uma parte do "segredo" e restabelece o equilíbrio perdido. Porém, se o contra dom é um animal, o pesquisador fica ligado ao Orixá, que pode então puni-lo se empregar mal o conhecimento obtido, ou que pode lhe dar a permissão de utilizar este conhecimento (uma vez que ele, Orixá, recebeu com o sacrifício o seu contra dom). O contra dom pode ser um colar, um pedaço de fazenda que serão utilizados pelas yauô, de qualquer modo o pesquisador entra assim em união mais estreita com a comunidade religiosa e a transmissão oral se justifica, por isso mesmo que se tornou parte desta saciedade. Estamos, como se vê, muito longe das interpretações dos brancos, que julgam as coisas com sua mentalidade ocidental, modelada pela lei do lucro e da venda de tipo capitalista. A necessidade de compensação na transferência de conhecimentos prova, por outro lado, que esta pesquisa, cujo fim é descobrir a África no Brasil, começou bem, pois desde seus primórdios, imediatamente deparamos com um traço da mentalidade africana. Somente a morte virá romper a dupla solidariedade, de indivíduo com seu Orixá e com a sociedade africana. É evidente que as cerimonias são diferentes conforme o grau da pessoa defunta; mas contrariamente, ao que parecem sugerir as narrativas de tipo jornalístico sobre os enterros, a pompa não é simples homenagem, que seria tanto maior quanto mais estimado e mais célebre fosse o morto; a complexidade do ritual, a importância dos elementos aparentemente decorativos, a duração das cerimônias são uma imposição do estatuto religioso. Quanto mais profundos os laços que prendem o indivíduo ao Orixá, mais dificilmente serão quebrados depois. Os tambores, por exemplo, não acompanham o enterro de uma yauô. Mas sim o de uma ialorixá, pois neste último caso é o santuário inteiro que está de luto, instrumentos musicais, objetos rituais, seres vivos. No primeiro caso, a cerimônia fúnebre durará três dias; noutro caso, sete; é possível também que, noutras circunstâncias, a diversidade se prenda à origem étnica do candomblé, conforme a "nação" a que pertence, ijexá, quetu, gêge. Neste trabalho, nossa tarefa não é descrever o cerimonial com todos os detalhes; já o fizemos noutro, e tão minuciosamente quanto possível. Queremos somente indicar o significado do ponto de vista da vida do candomblé e de seus membros. Quando a morte se aproxima do indivíduo, o Orixá a que pertence a cabeça foge espavorido, pois os deuses temem Iku, a selvagem ceifadora de homens. A impossibilidade de cair em transe é, com efeito, sinal de próximo desaparecimento. Mas a partida do Orixá não impede que a divindade ronde pelas vizinhanças, e no fim da vigília fúnebre, quando o caixão sair da casa aos ombros dos que o carregam, pode acontecer que uma das assistentes desabe violentamente por terra, presa de uma crise de santo bruto. E o "santo" da morta que, para continuar a ser adorado e servido, escolheu para si novo cavalo. Alguns autores afirmam que esta troca de cabeça, no momento da partida do cortejo fúnebre não se produz mais hoje; mas tal opinião é contrariada por outros informantes; digamos, pois, que é possível, mas não obrigatório que se dê o fato. Tudo depende sem dúvida do estado de espírito do Orixá, tomado de dois sentimentos contraditórios: de um lado, o medo da morte que o faz fugir para o mais longe possível; de outro lado, o desejo de possuir novo cavalo que continue seu culto; não se pode saber de antemão qual das tendências acabará por arrastá-lo. O defunto, porém, não estava somente ligado à divindade pelo fenômeno da possessão, como também, de modo certamente menos espetacular embora mais contínuo e mais eficaz, através da pedra, dos objetos sagrados do pegi pessoal, diversos objetos que só para ele tinham valor. Em trecho anterior, insistimos suficientemente sobre esta participação alcançada através da lavagem e do sangue, não sendo necessário voltar a ela. Tais objetos serão então colocados no caixão ao lado do corpo, e é o que explica frases no gênero desta, de Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906): "No cemitério das quintas dos Lázaros, preferido pelas pessoas pobres, encontram-se comumente, por ocasião de serem revolvidas as sepulturas antigas, de envolta com os esqueletos, inúmeros fetiches e ídolos africanos". Mas o morto deixou outros objetos ainda, que não estão em sua casa, mas se encontram no próprio recinto do candomblé. Não podem servir a nenhuma outra pessoa, pois foram ligados unicamente àquele que acabou de morrer; constituem de certo modo seus “pertences", são elementos constitutivos de sua personalidade. Far-se-á, pois, um despacho com tais elementos litúrgicos; depois de ter perguntado aos Orixá ou a Ifa, com o auxílio dos búzios, o lugar onde as vestes, as insígnias, etc., devem ser abandonadas, mar, água doce, floresta - os filhos do terreiro se dirigem ao lugar designado para tudo ali atirar, e em seguida regressam sem olhar para trás nem uma vez. No caso do sacerdote ou da sacerdotisa suprema, teoricamente seria o pegi todo inteiro que deveria ser assim "despachado". Eis talvez o que explica a descoberta, no início do século XIX, de admiráveis esculturas africanas jogadas à praia pelo mar; na realidade, hoje, também neste caso são apenas os bens pessoais ou os "pertences" particulares que são eliminados, de modo idêntico aos das filhas de santo. Nina Rodrigues afirma que se o Orixá encontra novo cavalo no dia do enterro, este toma os instrumentos litúrgicos do defunto, o despacho tendo lugar somente quando tal não se verifica: "Se o orixá não encontra quem aceite as responsabilidades de prosseguir no culto que dirigia o morto; ou se não acha nos presentes algum digno dessa honra, as insígnias e ornamentos, os ídolos e seus altares são levados, às horas mortas, em misteriosa procissão, a uma água corrente, a fim de que o regato, o rio ou a maré vazante os conduzam à África, onde, estão certos os negros, infalivelmente irão ter". Nada nos permite endossar esta conclusão; o despacho aparece como parte obrigatória de todo cerimonial fúnebre, tenha ou não o Orixá do morto uma cabeça que o substitua. Em si mesmo, não apresenta o enterro nada de muito interessante para nosso objetivo, embora conserve ainda certos traços africanos. O morto impõe aos que o carregam uma marcha hesitante, com um passo para a frente e outro para trás, mas tal ritmo titubeante não está ligado a nenhum rito divinatório, como acontece na África ou entre os negros da Guiana, onde constitui a procura daquele que atirou a morte sobre o defunto. Cenas de dor podem ter lugar, pessoas podem chorar; mas em conjunto não se trata de cerimônia triste, pois é somente o corpo que se enterra. O ori ou espírito permanece, e é preciso proceder em seguida à sua expulsão. Não tem outra finalidade o ritual do axêxê. Não é destituído de perigos e aqueles que a ele assistem são obrigados a tomar precauções especiais para não serem possuídos pela alma do morto. Usam, por exemplo, um bracelete de palha em torno do pulso. Não podem também sair do candomblé funerário enquanto não estiver terminada a expulsão, sob pena de levarem consigo a morte a outras casas. Uma vez que o ori partiu para se tornar Egun, resta fixá-lo à casa dos Eguns do terreiro, para que daí por diante possam lhe ser prestadas as honras necessárias. Mas já aqui intervém novo sacerdócio, que ultrapassa os limites deste ou daquele candomblé; teremos, pois, de voltar mais tarde ao problema. Se o morto é um babalorixá ou uma ialorixá, o cerimonial fúnebre ainda não está terminado. Pois no decorrer de sua vida, tanto um quanto outro iniciaram grande número de yauô, que assim ficaram a eles ligadas. Existe, pois, uma última participação a ser rompida, além da que liga o Orixá à cabeça e que se desfez por si mesma durante a agonia, pela própria vontade do deus espavorido. Além da que unia os objetos litúrgicos ao defunto; além da conexão entre o ori e o corpo: é a participação social entre o sacerdote e sua confraria. O sacerdote impôs sua mão à cabeça das iniciadas para ali colocar o deus; é preciso agora "tirar a mão da cabeça", pois tendo-se ela tornado defunta e tendo os Orixá medo da morte, talvez as yauô não voltem mais a cair em transe. Em todo o caso, devem estas pertencer a uma autoridade viva, não podem permanecer filhas de um Egun! Infelizmente ainda nos falta uma boa descrição desta cerimônia. Não temos sobre o assunto senão as informações muito insuficientes de Manuel Querino; seja-nos, porém, permitindo citá-las, uma vez que não dispomos de outras: "Por falecimento da mãe ou pai do terreiro, uma das primeiras cerimônias em homenagem à memória do extinto consiste em tirar a mão da cabeça. Quem assumiu a direção do candomblé designa um dia, de ordinário depois dos sufrágios pela alma do antecessor, para realização daquele ato. Cada pessoa feita contribui com a quantia de cinco mil réis, e mais uma navalha nova, pombos, galinhas, patos, etc .. No dia marcado reúnem-se todos na casa do candomblé. Aí o indivíduo mais idoso toma da navalha que traz um dos presentes, e com ela procede à depilação da cabeça. À medida que se vai concluindo esta operação sacrifica-se uma das aves e o sangue é derramado na cabeça depilada, sendo que as mulheres o conservam coagulado até o dia seguinte, quando procedem à lavagem da cabeça. Este preceito é de rigor e tem por fim obstar a que seja vítima de algum malefício a pessoa que o deixar de observar. Certo número de conclusões se desprende, todavia, deste texto. Notamos primeiramente que o rito é necessário; não porque a yauô que o deixe de seguir corra o risco de um malefício qualquer, como pensa Querino; mas porque de outra maneira ela pertenceria a um Egun. Esta situação lhe traria desgraça, pois imediata e diretamente dela resultaria a morte que visaria reunir a filha de santo em questão a seu chefe espiritual. Verificamos em seguida que a sequência dos ritos obedece à ordem inversa da iniciação. A lavagem com sangue precede a lavagem com as ervas. Um de meus informantes fez o reparo, seguindo idêntica orientação de pensamento, que o desaparecimento do Orixá se processa na ordem inversa de sua criação ou fixação no decorrer da iniciação. Mas é evidente que o cerimonial deve ser infinitamente mais complexo ainda do que aquele que o texto nos sugere, e que as diversas espécies de participação da yauô e do babalorixá devem ser cortadas umas após as outras, começando pelas mais fortes para terminar pelas mais fracas. A iniciação tem por fim fazer o indivíduo entrar no candomblé. Os ritos funerários têm por missão fazê-lo sair, ou mais exatamente, visam outra entronização, agora sob a forma de Egun. Pois, se me permitem utilizar a ·expressão cristã, o candomblé é também uma comunhão de santos, e não unicamente de vivos. Quem estuda os candomblés não deixa de se impressionar pela falta de ligação orgânica entre eles. Cada seita ou terreiro é autônoma, sob a dependência de um pai ou mãe de santo que não reconhece nenhuma autoridade superior à sua. Constituem mundos à parte, espécies de ilhas africanas no meio de um oceano de civilização ocidental, e não continente ou bloco aglutinado. É possível que os membros de um candombé vizinho ou amigo venham assistir às cerimônias, por ocasião de festas públicas; e neste caso presta-lhes homenagem. Os tambores, por exemplo, mudam de música para tocar os ritmos da "nação" do visitante; as filhas de santo em êxtase vêm abraçá-lo num rito especial de polidez. Mas trata-se de simples relações de vizinhança, que não ultrapassam o plano das homenagens mútuas, e que não impedem, subjacentes, conflitos entre babalorixás, ciúmes, rivalidades entre candomblés. É certo, também, que os candomblés tradicionais nasceram por cissiparidade, a partir de uma célula única. O mais antigo de todos é o do Engenho Velho, que deu nascimento depois ao do Gantois, e mais tarde ao de Opô Afonjá. Mas estes novos terreiros, uma vez formados, tornam-se inteiramente independentes das células-mãe de que derivaram, e com o decorrer dos anos a rivalidade pode até suceder à primitiva amizade. É verdade que todos estes grupos se organizaram, em 1937, numa União das Seitas Afro-brasileiras da Bahia. Mas trata-se de instituição artificial, de defesa coletiva, segundo o modelo dos sindicatos, e que nada têm absolutamente de africano, nem em suas origens, nem em sua constituição, deixando além disso a cada candomblé autonomia total. Esta autonomia, que de modo nenhum negamos, não deve encobrir, porém, outro fenômeno - a existência, fora dos candomblés propriamente ditos, embora ligados a eles, de sacerdotes que de certa maneira recobrem o conjunto do sistema, ou pelo menos recobrem os terreiros de uma mesma "nação". Livro O Candomblé na Bahia – Rito Nagô. Abraço. Davi. 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

OS ANJOS EM OUTROS CREDOS - NA TEOSOFIA E NA LITERATURA

 

Espiritualidade. www.afilosofiadaadministraçao.com.br. OS ANJOS EM OUTROS CREDOS – NA TEOSOFIA E NA LITERATURA. A palavra anjo em hebraico é malach, que significa mensageiro, daí a razão pela qual Jeová, o deus bíblico, utiliza-se desse termo para designar a todos os espíritos obsessores que são seus subalternos e que formam as suas diversas falanges, pois que eles são os verdadeiros mensageiros do mal. Mas estando ainda presos na fase da imaginação, os seres humanos raciocinam apenas através das representações de imagens, combinando-as, e as imagens que lhes vêm é que os anjos são os entes por mor de Jeová, tais como se fossem enantiomorfos, que servem de elo transmissor entre esse deus trevoso e os seres humanos, sendo por isso que a existência desses anjos é revelada em vários trechos da Bíblia hebraica, em diversos textos da literatura rabínica e no folclore judaico, pois que tudo isso é proveniente dos espíritos obsessores, que atuam sobre os médiuns videntes, ouvintes e psicográficos, daí a razão pela qual alguns anjos são até citados pelos seus próprios nomes. Todos os anjos são espíritos inferiores que se encontram quedados no astral inferior, que assumem os tipos de funções, segundo as suas especialidades obsessivas, cujas funções se apresentam aos olhos dos credulários como se decorressem de boas ações, mas são todas voltadas para o lado do mal. O budismo e o hinduísmo descrevem os anjos, que também são chamados de devas, de maneira semelhante aos demais credos e seitas ocidentais, em que o seu nome é derivado da raiz sânscrita div, que significa brilhar, cujo brilho não é proveniente da luz astral, mas sim do fogo, daí a razão pela qual o nome significa seres brilhantes. Segundo as tradições budistas e hinduístas, os anjos comem e bebem, o que se explica em função dos seus estados materializados, e podem construir formas ilusórias para poderem se manifestar em planos de existência diferentes dos seus próprios planos, o que se explica em função dos seus corpos fluídicos, que podem assumir todos os tipos de formas. O budismo estabelece as categorias angélicas de um modo relativamente completo para os seus devas, cujas categorias foram herdadas em grande parte da tradição hinduísta. Mas o fato é que não existem os anjos propriamente ditos, pois que todos eles não passam de espíritos obsessores quedados no astral inferior, não importando o credo ou a seita em que eles sejam considerados. A imagem abaixo retirada do blog dharmadhannyael.blogspot.com.br/, que segue o credo budista, também retrata com clareza a esses espíritos inferiores. Os seres humanos ainda não conhecem naturalmente a importância fundamental das vibrações magnéticas, das radiações elétricas e das radio vibrações eletromagnéticas, que devem ser dirigidas a Deus e ao Astral Superior, para que assim possam formar correntes de atração realmente poderosas com os espíritos luz, para que através destas correntes eles consigam se deslocar dos seus Mundos de Luz e virem até a este mundo, a fim de que possam espargir os seus fluidos benéficos e revitalizadores em nossa alma, assim como também a raiar os seus raios de luz em nossos corpos mentais, desobstruindo os nossos criptoscópios e os nossos intelectos, avivando as nossas percepções e as nossas compreensões, respectivamente, para que as nossas consciências possam coordená-los, estando os nossos órgãos mentais desobscurecidos. Somente através das nossas vibrações magnéticas, radiações elétricas e radio vibrações eletromagnéticas dirigidas a Deus e ao Astral Superior, é que se poderão formar correntes realmente poderosas para que todos os anjos negros possam ser arrebatados do astral inferior, juntamente com os seus deuses, tais como Jeová, Alá e outros, para que assim eles possam ser  transladados para os seus respectivos mundos de origem, que são os Mundos de Luz, quando então eles poderão dar prosseguimento às suas evoluções espirituais, não deixando que os débitos por eles contraídos venham a aumentar ainda mais, pois que já são demasiadamente grandes os débitos espirituais que eles contraíram. Sem que tenham a mínima noção acerca das vibrações magnéticas, das radiações elétricas e das radio vibrações eletromagnéticas, que devem ser dirigidas a Deus, ao verdadeiro Deus, que é o Ser Total, a Força Total, a Energia Total e a Luz Total, em que Nele todo o Universo se encontra contido, pois que Ele é o Todo, e também ao Astral Superior, que são os executores da Sua vontade, os credulários budistas vêm tratar apenas das vibrações magnéticas, que parte da imaginação humana, mas, infelizmente, dirigida diretamente ao astral inferior. Vejamos o que diz o blog budista dharmadhannyael.blogspot.com.br/, que assim se expressa: “A imaginação é magnética vibracional. Olhe para esta imagem e veja o poder infinito que o homem carrega dentro de si, ele espelha a inteligência e a vontade de Deus. Eu sou tudo aquilo que é. Procure cultivar a alma, a Presença Divina do Eu Superior com a integridade e a honestidade, que a chave virá para as suas mãos, a porta do universo da mente de Deus irá abrir. O homem traz em seus átomos a memória divina e para ter acesso, a luz de Deus deve descer e assumir a consciência. Seja feita a vontade de Deus”. Esse rol de bobagens contido nesse blog budista não possui o mínimo fundamento, pois o homem não carrega dentro de si nem o poder e nem a ação infinitos, os quais vão se alojando em si em conformidade com o processo evolutivo, já que a nossa meta evolutiva é alcançar a onipotência, a onipresença e a onisciência, quando então nós poderemos proceder aos nossos retornos ao verdadeiro Criador, no qual nós sempre existimos e Dele saltamos individualizados para habitar o Universo, diferentemente das patifarias contidas no Gênesis da Bíblia. Não é a mente de um deus trevoso e malvado que irá se abrir para também nos abrir a porta do Universo, já que todos os deuses se encontram quedados no astral inferior, presos à atmosfera terrena, assim como também os seus anjos negros, sem qualquer possibilidade de acesso ao Universo, pois quem deve abrir as portas do Universo somos nós mesmos, envidando o máximo de esforço por evoluir, para adquirirmos a moral e a ética, portanto, a educação, que são os fatores fundamentais para que possamos alcançar a esse desiderato, ou seja, para que possamos nos universalizar. É por isso que os espíritos obsessores enegrecem e assumem a consciência dos seres humanos, pois que estes só raciocinam como se fossem átomos e moléculas, cativos da ilusão da matéria, ou mesmo como se fossem almas, e também espíritos, embora não saibam diferenciar a alma do espírito, posto que cativos do devaneio do sobrenatural. E, por fim, quando eles dizem: “Seja feita a vontade de Deus”; é o mesmo que dizer: “Seja feita a vontade do astral inferior”. Note-se que os budistas dizem o seguinte: “Olhem para esta imagem e veja o poder infinito que o homem carrega dentro de si”. Pois bem, a imagem a que se referem os budistas é esta posta logo abaixo, e esse “poder infinito” se encontra posto logo mais abaixo. Ressaltando-se aqui que Buda é um espírito de altíssimo valor, que compõe a plêiade do Astral Superior, por haver sido um grande veritólogo. Mas os ensinamentos da sua doutrina foram todos deturpados pelos seus seguidores no decorrer do tempo, e, além de deturpados, foram divididos em várias correntes que ainda hoje se encontram espalhadas pelo mundo. O espiritismo faz uma descrição angélica muito semelhante à tradição judaica e à tradição dita cristã, pelo fato dele ser bíblico, por isso considera os anjos como se fossem seres perfeitos que atuam como mensageiros dos planos superiores, embora não venha atribuir forma ou aparência a tais seres, sendo apenas uma visão de suas formas morais. Mas se o espiritismo considera a visão angélica como sendo a sua forma moral, então vejamos a visão moral angélica do espiritismo, através da imagem posta logo abaixo, cuja imagem foi retirada do blog Fraterluz – Fraternidade Espírita Luz do Cristianismo. Sendo bíblico o espiritismo, então esse credo jamais poderia adquirir uma visão realística a respeito do verdadeiro Deus, por isso a sua visão se volta totalmente para Jeová, o deus bíblico, que passa a ser personificado como se fosse soberanamente bom e justo, em que a diferença da visão espírita para os demais credos e seitas bíblicos é que o deus bíblico não precisa mais evoluir, pois que sempre foi perfeito e imutável, justamente por esta razão não teria criado os homens perfeitos, pois isso seria creditar ao deus bíblico a capacidade de ser injusto, em função da necessidade que os homens enfrentam em relação à experimentação sucessiva para que possam se aperfeiçoar. Como todos os credos e seitas são sobre naturalísticos, pois que nenhum deles consegue discernir o que sejam a alta e a baixa espiritualidades, portanto, o que sejam o Astral Superior e o astral inferior, e que não existem anjos, sendo isto uma invenção do astral inferior, pois que os anjos não passam de espíritos obsessores, vem o espiritismo apresentar a sua versão de que tais seres angélicos, independente das suas hierarquias celestiais, estão neste ponto evolutivo por mérito próprio, sendo espíritos santificados e livres da interferência da matéria pelas próprias escolhas que fizeram no sentido evolutivo e de renúncia de si mesmos ao longo do tempo, sendo facultado também aos homens atuais, ainda muito materializados, poderem atingir a esses estágios de perfeição, através dos seus esforços morais e intelectuais nas múltiplas reencarnações por que passarem em suas existências. O próprio Allan Kardec (1804-1869), que foi o fundador do espiritismo kardecista, afirmou que os anjos seriam os espíritos elevados de benignidade, superior protetores dos necessitados e mensageiros do amor, os que trazem mensagens do mundo incorpóreo, sendo por isso chamados de anjos, cuja palavra significa mensageiros, os quais aparecem inúmeras vezes nos textos sagrados dos credos judaico-cristãos, indicando a comunicabilidade entre os vivos e os mortos. Ainda segundo o espiritismo, em sua imaginação mais comumente conhecida e aceita pelos espíritas, os anjos seriam criaturas perfeitas ao serviço do deus bíblico, sendo, pois, os espíritos que já alcançaram a perfeição passível de ser alcançada pelas criaturas, que assim, ao alcançá-la, passariam a dedicar a sua existência a fazer cumprir a vontade do deus bíblico na sua criação, por serem capazes de compreendê-la completamente. No entanto, tal como se fosse uma criança, a alma é inexperiente nas primeiras fases da existência, sendo por isso falível, pois que o deus bíblico não lhe dá essa experiência, apenas o meio para adquiri-la. Assim, um passo em falso na senda do mal passa a ser um atraso para a alma, como se existisse a involução, que aprende à sua custa o que importa evitar, aos sofrer as consequências. Deste modo, pouco a pouco, a alma se desenvolve, aperfeiçoa-se e se adianta na hierarquia espiritual até ao estado de puro espírito, ou anjo. Os anjos, pois, são as almas dos homens que chegaram ao grau de perfeição que a criatura comporta, usufruindo em sua plenitude a prometida felicidade. Porém, antes de atingir ao grau supremo, gozam de felicidade relativa ao seu adiantamento espiritual, cuja felicidade consiste nas funções que o deus bíblico apraz lhe confiar, sem qualquer ociosidade, com os seus desempenhos sendo ditosos, sendo este o meio mais recomendável para se obter o progresso espiritual. Por fim, para o espiritismo, por toda a eternidade sempre tem havido puros espíritos, ou anjos, porém, como a sua existência humana se passou em um infinito passado, eis que supomos como se tivessem sido sempre anjos em todos os tempos. Assim, realiza-se a grande lei da unidade do criacionismo, pois o deus bíblico nunca esteve inativo e sempre teve puros espíritos, experimentados e esclarecidos para a transmissão das suas ordens e da sua direção do Universo, desde o governo dos mundos até aos mais ínfimos detalhes. Tampouco teve o deus bíblico a necessidade de criar seres privilegiados, isentos de obrigações, uma vez que todos os antigos e novos adquiriram as suas posições na luta e por mérito próprio, pois, enfim, são filhos das suas obras. A angelologia islâmica é largamente dependente das tradições do zoroastrianismo, do judaísmo e do falso cristianismo primitivo, por isso nela existe também uma classificação hierárquica. Mas a angelologia islâmica deverá ser tratada em capítulo à parte, pois que ela se relaciona diretamente com Lúcifer. Registra-se apenas as imagens de espíritos obsessores que formam a angelologia islâmica, pois que todos os anjos representam espíritos quedados no astral inferior, de acordo com a imagem posta logo abaixo. A Teosofia é uma palavra proveniente do grego theos, que significa deus, mais a palavra grega sophia, que significa sabedoria, acrescida do sufixo ia, cujo significado literal pode ser compreendido como sendo o conhecimento de deus, assim mesmo em minúsculo, mas como existem vários deuses pululando no astral inferior, a Teosofia passa a designar diferentes doutrinas místicas e iniciáticas de sentido esotérico. Os espíritos obsessores atuam sobre as pessoas que são iniciadas na Teosofia, por isso elas têm uma noção mais primitiva de caráter abstrato sobre os deuses, sendo impraticável a descrição completa de tudo isso, pois cada teosofista possui o seu próprio conceito de Teosofia, que se liga a si próprio, em conformidade com as intuições obsessivas e as obras que estudou, que passam a formar a sua imaginação. Essa noção de caráter mais primitivo acerca dos deuses é proveniente do substrato de todos os credos e seitas existentes desde a antiguidade, que se mesclam com as saperologias equivocadas postas no mundo pelos veritólogos, em que nesses encontros desencontrados, digamos assim, estabelece-se os diversos sistemas de crenças ao longo da história, em maior ou em menor grau, pelo que se inclui até o método científico. Além de tudo isso, existe uma forte ligação com o ocultismo, ressalvando-se aqui que, ao contrário do senso comum, que liga o ocultismo como sendo algo vinculado ao mal, a Teosofia aborda o conhecimento oculto como sendo uma fonte viável de informações, tal como aborda os credos e as suas seitas, limitando-se a propagar os conhecimentos voltados para o bem e a elevação espiritual, porém, como medra na ignorância e se relaciona diretamente com o astral inferior, não pode deixar de se situar ao lado do mal, pois que o bem somente pode ser praticado com o esclarecimento espiritual. Em 7 de setembro de 1875, a Sociedade Teosófica passou a surgir a partir de uma primeira reunião na cidade de Nova Iorque, com a sua primeira ata sendo lavrada no dia seguinte, tendo como os seus principais fundadores o coronel Henry Olcott (1832-1907), que foi indicado o seu primeiro presidente, William Judge, que foi indicado como sendo o seu primeiro secretário, e Helena Blavatsky (1831-1891), uma influente fundadora do total de dezesseis membros fundadores. O discurso inaugural foi proferido pelo seu primeiro presidente e fundador, o coronel Henry Olcott, em 17 de novembro, cuja data é considerada como sendo a data oficial de fundação da sociedade. Essa sociedade foi fundada para promover os ensinamentos antigos da Teosofia, considerando a sabedoria relacionada ao divino como sendo a base de outros movimentos do passado, tais como o neoplatonismo, o gnosticismo e as escolas de mistérios do mundo clássico. Mas como essa sociedade foi fundada sob a influência do astral inferior, em função disso passaram a ocorrer conflitos e desentendimentos internos, principalmente após a morte de Helena Blavatsky, uma das fundadoras e o membro de maior influência, que desencadearam em alguns minúsculos grupos dissidentes da sociedade, como, por exemplo, o grupo de dissidentes da Sociedade Teosófica dos Estados Unidos se tornou independente e a sociedade então foi dividida em duas. A Teosofia admite a existência dos seres angélicos, assim como também a existência de várias classes entre eles, embora existam relativamente poucos estudos nesse campo que possibilitem uma sistematização mais profunda, em que os estudos de Charles Leadbeater (1854-1934) e de Geoffrey Hodson (1886-1983) são as suas fontes mais ricas e paradigmáticas. Charles Leadbeater vem afirmar que os anjos constituem um dos muitos reinos da criação divina, e, ao contrário daquilo que afirma o espiritismo, o reino angélico, assim como os demais reinos, está também sujeito à evolução, por isso existem grandes diferenças em poder, sabedoria, amor e inteligência entre os seres angélicos. Por esse mesmo motivo, ou seja, o de constituírem um reino independente, com interesses e as suas próprias metas, ele afirma que os anjos não existem mormente em função dos homens e dos seus problemas humanos, assim como imagina a cultura popular, apesar de assisti-los em uma variedade imensa de formas, como, por exemplo, na ministração dos sacramentos das igrejas, na cura espiritual e corporal dos homens, e também na sua inspiração, encorajamento, proteção e instrução. Mesmo que o reino angélico como um todo esteja envolvido em muitas tarefas que não dizem respeito ao homem, ele vem afirmar em sua obra A Ciência dos Sacramentos, que existe uma classe de anjos especialmente associada aos homens, a classe dos anjos da guarda, que na verdade são uma espécie de silfos — seres mitológicos da tradição ocidental que são masculinos, ao contrário das fadas, cujo termo é proveniente de Paracelso (1493-1541), que as descreve como elementais que reinam no ar, assemelhando-se às vezes aos anjos, chegando a favorecer ao homem na sua imaginação, comprovando assim as ações do astral inferior —, aos quais se confiam as pessoas por ocasião dos seus batismos, e que por seus serviços conquistam a individualização, tornando-se serafins. Como se pode claramente constatar, o batismo é extremamente prejudicial aos seres humanos. Geoffrey Hodson vem afirmar que os anjos possuem uma atitude completamente diferente da atitude humana em relação ao que ele considera deus, não concebendo uma existência personalizada individual, mas sim uma consciência única central e, ao mesmo tempo, difusa e onipresente, de onde as suas próprias consciências derivam e à qual estão inextricavelmente ligadas. Os anjos se sentem unidos a essa consciência única central e para eles não é possível experimentar o egoísmo, a separação, o desejo, a possessividade, o ódio, o medo, a revolta ou a amargura, em função desse unidade. Apesar de serem essencialmente seres amorosos, o seu amor é impessoal, sendo extremamente raras as associações estreitas com quaisquer indivíduos. Em seus escritos, Geoffrey Hodson divide os anjos em quatro tipos principais, associando-os aos quatro elementos da saperologia antiga: terra, água, fogo e ar. O autor faz também uma associação dos anjos com a Árvore Sefirotal. Sefirot são as dez emanações de Ain Soph na cabala. Segundo a cabala, Ain Soph é um princípio que permanece não manifestado, sendo incompreensível à inteligência humana, sendo desse princípio que emanam os Sefirot em sucessão, cuja sucessão de emanações forma a árvore da vida. Os Sefirot emanados obedecem a seguinte sequência:

1.Kether: coroa;

2.Chokmah: sabedoria;

3.Binah: entendimento;

4.Chesed: misericórdia;

5.Geburah: julgamento;

6.Tipareth: beleza;

7.Netzach: vitória;

8.Hod: esplendor;

9.Yesod: fundamento;

10.               Malkuth: reino.

Geoffrey Hodson afirma ainda que um dos aspectos do Logos é de natureza angélica, acrescentando que ao reino angélico pertencem os chamados espíritos da natureza. Para ele, muitos desses anjos estão envolvidos em processos naturais básicos, como a formação celular e a cristalização mineral, por isso são de dimensões microscópicas, constituindo os primeiros degraus da sua longa evolução em direção aos anjos planetários e a formas mais grandiosas, como os arcanjos solares de estatura verdadeiramente colossal, ao ponto de poderem ser percebidos dos pontos próximos à extremidade externa do sistema solar. Outros tipos de anjos são os silfos, as salamandras, as fadas, as dríades, as ondinas, e os variados espíritos da natureza conhecidos desde a antiguidade em várias culturas. As suas descrições fornecem uma vívida representação da importância desses seres na manutenção da ordem cósmica e na manifestação do Universo, desde a sua origem insondável até as formas físicas, passando por todos os degraus intermediários. Eu sua obra O Reino dos Deuses, o autor oferece uma série de ilustrações dos aspectos de vários tipos de anjos, diferindo radicalmente das tradicionais representações angélicas da cultura ocidental, dizendo que apesar disso tanto o homem como o anjo derivam as suas formas de um mesmo arquétipo. A imagem posta logo abaixo retrata aquilo que Geoffrey Hodson imagina sejam os anjos e as suas realidades como espíritos obsessores. Na literatura da modernidade pouco espaço foi reservado para os anjos, que sobrevive mais em função do culto dos mais jovens, porque perdeu o seu significado original e assumiu a característica de um ser romântico, que muitas vezes perde a sua natureza angelical ao se apaixonar por uma pessoa humana. Mas, de qualquer maneira, as obras que tratam dos anjos passam a diferir umas das outras, em que algumas são mais imaginativas, com os anjos que são caídos enfrentando dilemas morais e éticos no âmbito existencial. Em algumas estórias eles vivem aventuras repletas de ação e suspense. Em outras, eles vêm à Terra para conhecer ou ajudar pessoas, quando então acabam por se apaixonar. Além das asas, geralmente há sempre algo comum entre eles, que é o caráter humano que trazem consigo, pois que mesmo apelando para o sobrenatural, os autores não podem imaginar algo diferente da natureza humana. No entanto, há sempre uma tendência na literatura de apresentar os anjos como sendo os seres que mais próximos se encontram dos seres humanos, e, embora ignorem completamente a natureza dessas proximidades, isto é realmente um fato, a realidade da vida espiritual. www.afilosofiadaadministração.com.br. Abraço. Davi

sexta-feira, 11 de junho de 2021

EXISTE A VERDADE. PARTE II

 


 

Filosofia. Livro Antologia Ilustrada de Filosofia. Das Origens à Idade Moderna. Por Ubaldo Nicola.   EXISTE A VERDADE. PARTE II. Por Ubaldo Nicola. Os Enganos do Verbo Ser. É possível formular em termos lógicos a ideia de Verdade? A revelação recebida por Parmênides consiste na doutrina do Ser, sintetizada na célebre formula o Ser É, o Não Ser Não É. Toda a argumentação baseia-se na redução da ontologia (o estudo do Ser) à linguística e, assim, a procura da realidade última do mundo coincide com a análise linguística do Verbo Ser. E enquanto aquilo que é pode ser dito, portanto, pensado, aquilo que não é afasta-se, por definição, de qualquer formulação linguística e intelectual. É impossível pensar o nada. No cotidiano, usamos o Verbo Ser de modo impróprio e acabamos por atribuir realidade a condições de ausência, a coisas que não existem; a escuridão e o silêncio, por exemplo, são condições de não ser da luz e do som, portanto, pela lógica, não existem. Somente o Ser pode ser pensado. Pois bem, eu te direi e tu acolhes a minha palavra: quais são os únicos caminhos de busca que se podem pensar; um diz que é e que não é possível que não seja, é a vereda da Persuasão (porque acompanha a Verdade). O Não Ser é uma noção contraditória em si mesma. O outro diz que não é e que é preciso que não seja, eu te digo que esta é uma vereda em que nada se pode aprender. De fato, não poderias conhecer o que não é, porque tal não é factível, nem poderia expressá-lo. Homens com duas cabeças. o Devir é pensável? Todas as vezes em que afirmamos uma negação, ou seja, a existência de uma condição de Não Ser, incorremos em um erro lógico. Por isso o Devir, que Heráclito colocava como fundamento de toda realidade, não existe. Como passagem de uma condição de ser a uma de Não Ser, toda mutação, qualquer que seja a sua espécie, é sempre pura aparência; a verdadeira estrutura do mundo consiste em um ser imutável e eterno. Os homens que usam tanto o verbo Ser quanto o Não Ser acabam por raciocinar com duas cabeças. É necessário dizer e pensar que o Ser É; de fato, o Ser É; o Nada Não É; te exorto a que consideres isso. E, portanto, desse caminho de busca te conservo distante, mas depois, também daquele sobre o qual os mortais que nada sabem seguem vagando, homens de duas cabeças; de fato, é a incerteza que ao seu peito conduz uma desatinada mente. Afirmar a existência do Não Ser leva a paradoxos insolúveis. Estes são arrastados, surdos e cegos ao mesmo tempo, estupefatos, raça de homens sem juízo, para os quais Ser e Não Ser são considerados a mesma coisa e a não mesma coisa; e, portanto, para todas as coisas, há um caminho que é reversível. O Olho que Não Vê. Real é o que é constatável pelos sentidos ou o que é demonstrável pela razão? Os cinco sentidos parecem testemunhar a todo momento a existência de muitas formas do Devir; o movimento dos corpos, por exemplo, parece uma passagem de uma condição de estar (em um lugar) a uma de não estar mais. Cada transformação natural parece poder ser descrita como a passagem de um estado a outro; como, por exemplo, negar que a morte é um Devir? Tudo isso, segundo Parmênides, não demonstra absolutamente que os sentidos enganam. É verdade que a vida cotidiana requer o uso dos órgãos dos sentidos, mas por meios deles não se chega à verdade. A razão, não o olho, vê o real. Não julgues a doutrina do ser com base em sensação, mas, sim com base na lógica racional. Mas afastes desse caminho de busca o teu pensamento, nem o hábito, nascido de muitas experiências, a esse caminho te obrigues a mover o olho que vê, o ouvido que ribomba e a língua, mas julgues com a razão a prova muito debatida que por mim te foi fornecida. E permaneças falando somente sobre o caminho que diz o que é. O Ser é uma esfera bem redonda. Os atributos do Ser não podem ser encontrados por via experimental ou sensorial, mas deduzidos com coerência lógica do próprio conceito de Ser. Isso significa que é impossível que existam todos os modos em que se explica o não ser; o nascimento (como passagem de um estado de não existência ao de existência), a morte (pelo motivo inverso), o movimento como passagem do estar em um lugar a não mais estar, e todas as formas de Devir. O que é será, portanto, por definição, eterno, imperecível, homogêneo. São teses contrárias ao senso comum, que sugerem a evidência do Devir, mas conduzidas com rigor lógico formalmente incontestável. O Ser é Eterno. Não era uma vez, nem será, porque é agora, ao mesmo tempo, uno, contínuo. Que origem poderás dele encontrar? Como e de onde teria nascido? Do não ser não te concedo dizê-lo ou pensá-lo, porque não é possível dizer nem pensar o que não é. O Ser não pode ser gerado de um Não Ser. Que necessidade te constrangeria a nascer, depois ou antes, se derivasses do nada? Por isso é necessário que sejas por inteiro, ou que não sejas por nada. Não existe uma terceira possibilidade o Ser é ou Não é. E tampouco do ser se originará a força de uma certeza que nasça de algo que esteja ao lado de uma outra coisa. Por essa razão nem o nascer nem o perecer concedem a ele a justiça, livrando-o das cadeias, mas prendendo-o fortemente. A decisão quanto a tais coisas reside nisto; é ou não é. Decidiu-se, portanto,  como é necessário, que um caminho deve ser abandonado, por ser impensável e inexprimível, porque não é o caminho da verdade e que, no entanto, o outro é, e é verdadeiro. o Ser não pode estar submetido ao Devir. E como o ser poderia existir no futuro? E como poderia ter nascido? De fato, se nasceu, não é, e tampouco é, se deverá ser no futuro. Assim, o nascimento se apaga e a morte permanece ignorada. O Ser é indivisível, não pode ser decomposto em partes. E tampouco é divisível, porque é inteiramente igual, nem existe em algum lugar um de mais que possa lhe impedir de ser unido, nem um de menos, mas todo inteiro está pleno de ser. Portanto, é continuamente todo inteiro; o Ser, de fato, se estreita com o Ser. O Ser é sempre idêntico a si mesmo. Mas imóvel, dentro dos limites de potentes liames, é sem um princípio e sem um fim, pois nascimento e morte foram expulsos para longe e os repeliu uma verdadeira certeza. E permanecendo idêntico e no idêntico, em si mesmo jaz, e deste modo lá se mantém, firme. Ao Se nada pode faltar, deve, portanto, ser perfeito. De fato, necessidade inflexível o mantém nos liames do limite, que o estreita todo em volta, pois está estabelecido que o Ser não seja sem complemento; de fato, não carece de nada; se, no entanto, o fosse, careceria de tudo. Todas as palavras que indicam uma condição de não ser são falsas. De fato nada é ou será outra coisa além do ser, pois a sorte o obrigou a ser uno, inteiro e imóvel. Por isso, serão nomes todas aquelas coisas que os mortais definiram, convencidos de que fossem verdadeiras: nascer e perecer, ser e não ser, trocar de lugar e mudar a luminosa cor. A esfera é idêntica em cada uma das suas partes, possui perfeição, homogeneidade, unidade. É a melhor imagem do Ser. Além disso, posto que tem um limite extremo, está completo em cada parte, semelhante à massa de bem redonda esfera, a partir do centro, igual em cada parte; de fato, não deve ser maior nem menor, de um lado ou do outro. Nem, de fato, existe um não ser que lhe possa impedir de alcançar o igual, nem é possível que o ser seja do ser mais de uma parte e menos da outra, pois é um todo inviolável. De fato, igual em cada parte, de modo igual se mantém entre os seus limites. O Paradoxo de Zenão (490 AC 430). É possível demonstrar com argumentações racionais a verdade da doutrina de Parmênides, segundo a qual somente o Ser existe? É possível demonstrar a existência do Não Ser? Para realizar um movimento é preciso completar a metade dele, depois a metade da metade e ir subdividindo, sucessivamente, sem jamais concluir. 1. A argumentação da dicotomia. A primeira das argumentações sustenta a inexistência do movimento, pelo motivo de que o movido deve chegar primeiro a metade, e não ao final. Motivo pelo qual a argumentação que não se pode percorrer elementos espaciais infinitos ou tocar, na translação, um a um, infinitos elementos espaciais, em um tempo determinado. Aquiles jamais alcançará a tartaruga, porque antes fará a metade do percurso, depois a metade da metade, depois a metade da metade, ao infinito. 2. O paradoxo do veloz Aquiles. Esta argumentação sustenta que o mais lento não será jamais alcançado, na sua corrida, pelo mais veloz. De fato, é preciso que aquele que segue ao encalço chegue primeiro ao lugar de onde partiu aquele que foge, de modo que necessariamente o mais lento terá sempre uma certa vantagem. Se fotografamos a flecha em cada instante do seu movimento, obteremos uma série de instantâneos em que a flecha aparece parada. Mas um movimento não pode nascer da soma de tantos momentos de repouso. 3. O movimento não é real. O raciocínio de Zenão, assumindo que tudo aquilo que ocupa um espaço igual a si mesmo ou se move ou está parado, e que nada se move em um instante e que o movido sempre ocupa um espaço igual a si mesmo em todos os instantes, parece que se processa da seguinte forma: a flecha que se move, e que em cada instante ocupa um espaço igual a si mesma, não se move, posto que nada se move em um instante; mas o que não se move está parado, posto que tudo ou se move ou está parado; então, a flecha que se move, enquanto se move, está parada durante todo o tempo da translação. Se as coisas são multíplices, então deveriam ser tanto finitas (uma quantidade determinada) quanto infinitas, porque separadas umas das outras por outras coisas (as quais precisariam de outras coisas, para resultarem separadas). 4. Esta argumentação nega a multiplicidade, sustentando que se os entes são muitos é necessário que sejam tantos quantos são e não a mais nem a menos. E se são tantos quantos são, serão limitados, finitos. Mas se os entes são muitos, são também infinitos; de fato, entre os entes sempre existem outros, e entre esses, novamente outros. E, desse modo, os entes são infinitos. Livro Antologia Ilustrada de Filosofia. Das Origens à Idade Moderna.  Abraço. Davi.