domingo, 25 de outubro de 2020

PENSANDO E CRIANDO UM MUNDO ABERTO

 

Cristianismo. www.vatican.va. CARTA ENCÍCLICA TODOS OS IRMÃOS DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE AMIZADE E FRATERNIDADE SOCIAL. Capítulo Três. PENSANDO E CRIANDO UM MUNDO ABERTO. 87 . O ser humano é feito de tal maneira que não se realiza, não se desenvolve e não pode encontrar a sua plenitude «senão através de um dom sincero de si mesmo». [62] E também ele não vir a reconhecer plenamente a sua própria verdade, exceto no encontro com os outros: "Eu realmente não comunicar comigo mesmo, exceto na medida em que me comunicar com o outro". [63]Isso explica por que ninguém pode experimentar o valor da vida sem faces concretas para amar. Aqui reside um segredo da existência humana autêntica, porque “existe vida onde há vínculo, comunhão, fraternidade; e é uma vida mais forte do que a morte quando é construída sobre relacionamentos verdadeiros e laços de fidelidade. Ao contrário, não há vida em que se pretenda pertencer apenas a si mesmo e viver como ilhas: nessas atitudes prevalece a morte ». [64]. Além. 88 . Do fundo de cada coração, o amor cria laços e amplia a existência, quando tira a pessoa de si mesma para a outra. [65] Fomos feitos para o amor e existe em cada um de nós «uma espécie de lei do« êxtase »: sair de si para encontrar nos outros um aumento do ser». [66] Portanto, "em qualquer caso, o homem também deve decidir de uma vez para sair de si mesmo". [67]. 89. Por outro lado, não posso reduzir a minha vida à relação com um pequeno grupo ou mesmo com a minha família, pois é impossível compreender-me sem um tecido mais amplo de relações: não só o actual mas também o que me precede e o que é. foi tomando forma no curso da minha vida. Meu relacionamento com uma pessoa que respeito não pode ignorar que essa pessoa não vive apenas para o relacionamento comigo, nem eu vivo apenas para me relacionar com ela. A nossa relação, se sã e autêntica, abre-nos a outros que nos fazem crescer e nos enriquecem. O sentido social mais nobre hoje facilmente permanece anulado por trás de intimidades egoístas com a aparência de relacionamentos intensos. Pelo contrário, um amor autêntico, que ajuda a crescer, e as formas mais nobres de amizade habitam os corações que se deixam realizar. O vínculo de casal e a amizade se orientam para abrir o coração que nos rodeia, para que possamos sair de nós mesmos para acolher a todos. Grupos fechados e casais auto referenciais, que se constituem como um "nós" em oposição ao mundo todo, são geralmente formas idealizadas de egoísmo e mera autoproteção. 90 . Não é por acaso que muitas pequenas populações sobreviventes em áreas desérticas desenvolveram uma capacidade generosa para acolher os peregrinos que passavam, dando assim um sinal exemplar do sagrado dever da hospitalidade. As comunidades monásticas medievais também o experimentaram, como se vê na Regra de São Bento. Embora pudesse perturbar a ordem e o silêncio dos mosteiros, Bento XVI (1927 - ) exigia que os pobres e os peregrinos fossem tratados "com todo o respeito e cuidado possíveis". [68] A hospitalidade é uma forma concreta de não se privar deste desafio e deste dom que é o encontro com a humanidade para além do próprio grupo. Essas pessoas reconheceram que todos os valores que pudessem cultivar deveriam ser acompanhados por essa capacidade de transcender a si mesmo em uma abertura para os outros. O valor único do amor.  91 . As pessoas podem desenvolver certas atitudes que apresentam como valores morais: fortaleza, sobriedade, laboriosidade e outras virtudes. Mas, para orientar adequadamente os atos das várias virtudes morais, deve-se considerar também em que medida elas promovem um dinamismo de abertura e união para com as outras pessoas. Esse dinamismo é a caridade que Deus infunde. Do contrário, talvez tenhamos apenas uma aparência de virtude, e estes serão incapazes de construir uma vida em comum. Portanto, Santo Tomás de Aquino (1225-1274) - citando Santo Agostinho (354-430) - disse que a temperança de um mesquinho não é nem mesmo virtuosa. [69] São Boaventura (1221-1274), por outras palavras, explicou que as outras virtudes, sem a caridade, a rigor, não cumprem os mandamentos "como Deus quer". [70]. 92 . A estatura espiritual de uma existência humana é definida pelo amor, que em última análise é "o critério para a decisão final sobre o valor ou o valor negativo de uma vida humana". [71] Porém, há crentes que pensam que sua grandeza consiste em impor aos outros suas próprias ideologias, ou na violenta defesa da verdade, ou em grandes demonstrações de força. Todos nós, crentes, devemos reconhecer isto: em primeiro lugar está o amor, o que nunca deve ser posto em risco é o amor, o maior perigo é não amar (cf. 1 Cor 13, 1-13). 93 . Procurando esclarecer em que consiste a experiência de amar, que Deus torna possível com sua graça, Santo Tomás de Aquino a explica como um movimento que focaliza a atenção sobre o outro "considerando-o uma coisa consigo mesmo. " [72] A atenção afetiva que é dada ao outro provoca uma orientação para a busca de seu bem gratuitamente. Tudo isso parte de uma estima, de um apreço, que em última instância é o que está por trás da palavra "caridade": ser amado é "caro" para mim, quer dizer, que o considero de grande valor. [73] E «do amor pelo qual uma determinada pessoa é apreciada derivam as gratificações para com ela». [74]. 94. O amor, portanto, implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações decorrem de uma união que se inclina cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, agradável e belo, além das aparências físicas ou morais. O amor ao outro por quem ele é nos empurra a buscar o melhor para sua vida. Somente cultivando esta forma de relacionamento, possibilitaremos a amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos. A abertura progressiva do amor. 95 . Enfim, o amor nos leva à comunhão universal. Ninguém amadurece ou atinge a plenitude isolando-se. Por sua própria dinâmica, o amor exige uma abertura progressiva, uma maior capacidade de acolher os outros, numa aventura sem fim que converge todas as periferias para um sentido pleno de pertença mútua. Jesus disse-nos: «Todos sois irmãos» ( Mat eus 23,8). 96 . Essa necessidade de ir além dos próprios limites também se aplica às várias regiões e países. De fato, “o número cada vez maior de interconexões e comunicações que envolvem nosso planeta torna mais palpável a consciência da unidade e do compartilhamento de um destino comum entre as nações da Terra. Nos dinamismos da história, apesar da diversidade de etnias, sociedades e culturas, vemos semeada a vocação de formar uma comunidade composta por irmãos que se acolhem, cuidando uns dos outros ”. [75]. Sociedades abertas que integram todos. 97 . Existem subúrbios que estão perto de nós, no centro de uma cidade ou na família. Há também um aspecto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial. É a capacidade diária de alargar o meu círculo, de alcançar aqueles que espontaneamente não se sentem parte do meu mundo de interesses, embora estejam próximos de mim. Por outro lado, todo irmão ou irmã que sofre, é abandonado ou ignorado por minha sociedade é um estranho existencial, mesmo que tenha nascido no mesmo país. Ele pode ser um cidadão com todas as credenciais, mas elas o fazem se sentir um estrangeiro em sua própria terra. O racismo é um vírus que muda facilmente e em vez de desaparecer se esconde, mas está sempre à espreita. 98 . Quero me lembrar daqueles "exilados ocultistas" que são tratados como corpos estranhos da sociedade. [76] Muitas pessoas com deficiência “sentem que existem sem pertencer e sem participar”. Ainda há muitas coisas "que [os impedem] de ter plena cidadania". O objetivo não é apenas assisti-los, mas sua «participação ativa na comunidade civil e eclesial. É um caminho exigente e também cansativo, que contribuirá cada vez mais para formar consciências capazes de reconhecer cada um como pessoa única e irrepetível ». Penso também nos idosos “que, também pela deficiência, às vezes se sentem um fardo”. No entanto, todos podem dar "uma contribuição singular ao bem comum com a sua biografia original". Permito-me insistir: devemos "ter a coragem de dar voz àqueles que são discriminados pela sua deficiência, porque infelizmente em alguns países, ainda hoje. [77]. Entendimentos inadequados do amor universal. 99 . O amor que vai além das fronteiras tem por base o que chamamos de “amizade social” em cada cidade e em cada país. Quando genuína, essa amizade social dentro de uma sociedade é condição para a possibilidade de uma verdadeira abertura universal. Este não é o falso universalismo daqueles que precisam viajar continuamente porque não suportam e não amam seu povo. Quem olha para o seu povo com desprezo, estabelece na sua sociedade categorias de primeira e segunda classes de pessoas com mais ou menos dignidade e direitos. Ao fazer isso, nega que haja espaço para todos. 100 . Tampouco estou propondo um universalismo autoritário e abstrato, ditado ou planejado por alguns e apresentado como um suposto ideal com o propósito de homogeneizar, dominar e saquear. Existe um modelo de globalização que “visa conscientemente uma uniformidade unidimensional e busca eliminar todas as diferenças e tradições em uma busca superficial da unidade. [...] Se uma globalização pretende igualar todos, como se fosse uma esfera, essa globalização destrói a peculiaridade de cada pessoa e de cada povo ”. [78] Esse falso sonho universalista acaba privando o mundo da variedade de suas cores, de sua beleza e, em última análise, de sua humanidade. Porque «o futuro não é“ monocromático ”, mas, se tivermos coragem, é possível olhar para ele na variedade e na diversidade das contribuições que cada um pode dar. Quanto a nossa família humana precisa aprender a conviver em harmonia e paz sem que tenhamos que ser todos iguais! ». [79] Vá além de um mundo de membros. 101. Voltemos agora à parábola do bom samaritano, que ainda tem muito a nos oferecer. Havia um homem ferido na estrada. Os personagens que por ele passaram não se voltaram para a vocação interior para a proximidade, mas sim para a função, para a posição social que ocupavam, para uma profissão de prestígio na sociedade. Eles se sentiam importantes para a sociedade daquela época e o que importava para eles era o papel que deveriam desempenhar. O homem ferido e abandonado na estrada era um estorvo para este projeto, uma interrupção, e por sua vez era alguém que não tinha função. Ele era um "ninguém", não pertencia a um grupo digno de consideração, não teve nenhum papel na construção da história. Enquanto isso, o generoso samaritano resistiu a essas classificações fechadas, embora ele próprio ficasse fora de todas essas categorias e fosse simplesmente um estranho sem lugar próprio na sociedade. Assim, livre de qualquer título e estrutura, pôde interromper sua jornada, mudar seus planos, estar disposto a se abrir para a surpresa do ferido que precisava dele. 102 . Que reação essa narrativa poderia provocar hoje, em um mundo onde os grupos sociais aparecem e crescem continuamente e se agarram a uma identidade que os separa dos outros? Como pode mover aqueles que tendem a se organizar de modo a impedir qualquer presença estranha que possa perturbar essa identidade e essa organização auto defensiva e auto referencial? Neste esquema fica excluída a possibilidade de ser vizinho, sendo possível estar próximo apenas de quem permite a consolidação de vantagens pessoais. Assim, a palavra "vizinho" perde todo o significado, e apenas a palavra "parceiro" adquire significado, aquele que está associado por determinados interesses. [80] Liberdade, igualdade e fraternidade. 103. A fraternidade não é fruto apenas de condições de respeito às liberdades individuais, nem de uma certa justiça regulamentada. Embora sejam condições de possibilidade, não são suficientes para que delas derivem como resultado necessário. A fraternidade tem algo de positivo a oferecer à liberdade e à igualdade. O que acontece sem a fraternidade conscientemente cultivada, sem uma vontade política da fraternidade, traduzida na educação à fraternidade, ao diálogo, à descoberta da reciprocidade e ao enriquecimento mútuo como valores? Acontece que a liberdade encolhe, resultando antes numa condição de solidão, de pura autonomia para pertencer a alguém ou algo, ou apenas possuir e desfrutar. Isso não esgota de forma alguma a riqueza da liberdade, que se orienta sobretudo para o amor. 104 . A igualdade não se obtém definindo abstratamente que "todos os homens são iguais", mas é o resultado do cultivo consciente e pedagógico da fraternidade. Aqueles que só são capazes de ser parceiros criam mundos fechados. Que sentido pode ter neste esquema uma pessoa que não pertence ao círculo de companheiros e chega a sonhar com uma vida melhor para si e para sua família? 105 . O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não pode gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode nos proteger de tantos males que estão se tornando cada vez mais globais. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de derrotar. Enganar. Faz-nos acreditar que tudo consiste em dar rédea solta às nossas ambições, como se acumulando ambições e certezas individuais pudéssemos construir o bem comum. Amor universal que promove as pessoas. 106 . Há um reconhecimento básico, imprescindível para caminhar rumo à amizade social e à fraternidade universal: perceber quanto vale um ser humano, quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância. Se todos valem tanto, é preciso dizer com clareza e firmeza que “o simples fato de nascer em um lugar com menos recursos ou menos desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam com menos dignidade”. [81] Este é um princípio elementar da vida social, que é habitualmente e de várias maneiras ignorado por aqueles que vêm que não se adequa à sua visão de mundo ou não serve aos seus fins. 107 . Todo ser humano tem direito a viver com dignidade e desenvolver-se plenamente, e nenhum país pode negar este direito fundamental. Todo mundo tem, mesmo que seja ineficiente, mesmo que tenha nascido ou tenha sido criado com limitações; de facto, isso não diminui a sua imensa dignidade de pessoa humana, que não se baseia nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando este princípio elementar não é salvaguardado, não há futuro nem para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade. 108 . Existem empresas que aceitam parcialmente este princípio. Aceitam que há oportunidades para todos, mas argumentam que, diante disso, tudo depende de cada um. Nessa perspectiva parcial, não faria sentido “investir para que os que ficaram para trás, os fracos ou os menos dotados possam fazer o seu caminho na vida”. [82] Investir em favor de pessoas vulneráveis ​​pode não ser lucrativo, pode levar a menos eficiência. Requer um Estado presente e ativo, e instituições da sociedade civil que vão além da liberdade dos mecanismos de eficiência de certos sistemas econômicos, políticos ou ideológicos, porque se orientam verdadeiramente, antes de tudo, para as pessoas e o bem comum. 109 . Alguns nascem em famílias abastadas, recebem uma boa educação, crescem bem alimentados ou possuem habilidades notáveis ​​naturalmente. Eles certamente não precisarão de um estado ativo e só pedirão liberdade. Mas obviamente a mesma regra não se aplica a uma pessoa com deficiência, àqueles que nasceram em um lar pobre, àqueles que cresceram com uma educação de baixa qualidade e com poucas possibilidades de tratar adequadamente suas doenças. Se a sociedade se baseia principalmente nos critérios de liberdade e eficiência do mercado, não há lugar para eles, e a fraternidade será, na melhor das hipóteses, uma expressão romântica. 110 . O fato é que “a simples proclamação da liberdade econômica, quando as condições reais impedem muitos de realmente acessá-la, e quando o acesso ao trabalho é reduzido, torna-se um discurso contraditório”. [83] Palavras como liberdade, democracia ou fraternidade são vazias de significado. Porque, na realidade, “enquanto o nosso sistema econômico-social ainda produzir uma vítima e houver apenas uma pessoa rejeitada, não pode haver celebração da fraternidade universal”. [84]Uma sociedade humana e fraterna é capaz de trabalhar para assegurar de forma eficaz e estável que todos sejam acompanhados ao longo do caminho de sua vida, não apenas para atender às necessidades básicas, mas para que possam dar o melhor de si, mesmo que seu desempenho não o faça. será o melhor, mesmo que vá devagar, mesmo que sua eficiência não seja relevante. 111 . A pessoa humana, com seus direitos inalienáveis, está naturalmente aberta aos vínculos. O chamado para se transcender no encontro com os outros vive na sua raiz. Por isso, «é necessário estar atento para não cair em alguns mal-entendidos que podem surgir de uma má compreensão do conceito de direitos humanos e do seu paradoxal abuso. De facto, hoje existe uma tendência para uma exigência cada vez mais ampla dos direitos individuais - estou tentado a dizer individualista -, o que esconde uma concepção da pessoa humana desligada de qualquer contexto social e antropológico, quase como uma "mônada" ( monás), cada vez mais insensível [...]. Se o direito de cada um não é ordenado harmoniosamente para o bem maior, acaba sendo concebido sem limites e, portanto, fonte de conflitos e violências ”. [85] Promova o bem moral. 112 . Não podemos deixar de dizer que o desejo e a procura do bem dos outros e de toda a humanidade implicam também trabalhar para o amadurecimento das pessoas e das sociedades nos diversos valores morais que conduzem ao desenvolvimento humano integral. No Novo Testamento, um fruto do Espírito Santo é mencionado (cf. Gálatas 5,22 ) definido com a palavra grega agathosyne . Indica apego ao bem, a busca do bem. Mais ainda, é proporcionar o que mais vale, o melhor para os outros: seu amadurecimento, seu crescimento em uma vida saudável, o exercício de valores e não apenas o bem-estar material. Existe uma expressão latina semelhante: bene-volentia, ou seja, a atitude de querer o bem do outro. É um forte desejo pelo bem, uma inclinação para tudo o que é bom e excelente, que nos leva a preencher a vida dos outros com coisas belas, sublimes, edificantes. 113 . Nessa linha, ressalto dolorosamente que "já estamos na degradação moral há muito tempo, zombando da ética, da bondade, da fé, da honestidade, e chegou a hora de reconhecer que essa superficialidade alegre é servido pouco. Esta destruição de todos os alicerces da vida social acaba por nos colocar uns contra os outros para defender os nossos próprios interesses ». [86] Voltemo-nos para promover o bem, para nós e para toda a humanidade, e assim caminharemos juntos para um crescimento genuíno e integral. Toda sociedade precisa garantir a transmissão de valores, porque se isso não acontecer, se transmitem o egoísmo, a violência, a corrupção em suas diversas formas, a indiferença e, em última instância, uma vida fechada a toda transcendência e arraigada em interesses. Individual. O valor da solidariedade. 114. Desejo sublinhar a solidariedade, que “como virtude moral e atitude social, fruto da conversão pessoal, exige o empenho de uma multiplicidade de sujeitos, que têm responsabilidades de carácter educativo e formativo. O meu primeiro pensamento dirige-se às famílias, chamadas a uma missão educativa primária e essencial. Eles constituem o primeiro lugar onde são vividos e transmitidos os valores do amor e da fraternidade, da convivência e da partilha, da atenção e do cuidado pelo outro. São também o ambiente privilegiado para a transmissão da fé, a partir daqueles primeiros simples gestos de devoção que as mães ensinam aos filhos. No que diz respeito aos educadores e formadores que, na escola ou nos vários centros infanto-juvenis, têm a exigente tarefa de educar as crianças e os jovens, são chamados a ter consciência de que a sua responsabilidade diz respeito à dimensão moral, espiritual e social da pessoa. Os valores de liberdade, respeito mútuo e solidariedade podem ser transmitidos desde tenra idade. […] Os operadores das redes culturais e sociais também têm responsabilidades no campo da educação e formação, especialmente nas sociedades contemporâneas, onde o acesso aos instrumentos de informação e comunicação é cada vez mais generalizado ».[87] 115 . Nestes momentos em que tudo parece dissolver-se e perder consistência, faz-nos bem apelar à solidez [88] que deriva de saber que somos responsáveis ​​pela fragilidade alheia, buscando um destino comum. A solidariedade se expressa concretamente no serviço, que pode assumir formas muito diversas no modo de cuidar dos outros. O serviço é «em grande parte, cuidar da fragilidade. Servir significa cuidar daqueles que estão frágeis em nossas famílias, em nossa sociedade, em nossa gente ”. Neste compromisso, todos são capazes de “deixar de lado as suas necessidades, expectativas, desejos de omnipotência perante o olhar concreto dos mais frágeis. [...] O serviço sempre olha para o rosto do irmão, toca sua carne, sente sua proximidade a ponto de "sofrê-la" em alguns casos e busca a promoção do irmão. Por isso o serviço nunca é ideológico, pois não precisa de ideias, mas de pessoas ». [89] 116. Estes últimos em geral “praticam aquela solidariedade muito especial que existe entre os que sofrem, os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido, ou pelo menos deseja muito esquecer. Solidariedade é uma palavra que nem sempre é apreciada; Eu diria que às vezes transformamos isso em um palavrão, não pode ser dito; mas é uma palavra que expressa muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade. É pensar e agir em comunidade, na prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por alguns. Também luta contra as causas estruturais da pobreza, da desigualdade, da falta de trabalho, de terra e de moradia, da negação dos direitos sociais e trabalhistas. Está enfrentando os efeitos destrutivos do império do dinheiro [...]. Solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo,[90] 117 . Quando falamos em cuidar da casa comum que é o planeta, apelamos para aquele mínimo de consciência universal e preocupação com o cuidado mútuo que ainda pode permanecer nas pessoas. Na verdade, se alguém tem sobra de água, e ainda assim a mantém pensando na humanidade, é porque atingiu um nível moral que lhe permite ir além de si mesmo e de seu próprio grupo. Isso é maravilhosamente humano! Esta mesma atitude é necessária para reconhecer os direitos de todo ser humano, mesmo que nasça fora de suas fronteiras. Voltar a propor a função social de propriedade. 118 . O mundo existe para todos, porque todos nós, seres humanos, nascemos nesta terra com a mesma dignidade. As diferenças de cor, religião, capacidade, local de origem, local de residência e tantos outros não podem ser precedidos ou utilizados para justificar os privilégios de alguns em detrimento dos direitos de todos. Consequentemente, como comunidade, somos obrigados a garantir que cada pessoa viva com dignidade e tenha oportunidades adequadas para seu desenvolvimento integral. 119 . Nos primeiros séculos da fé cristã, vários estudiosos desenvolveram um sentido universal em sua reflexão sobre a destinação comum dos bens criados. [91] Isso nos leva a pensar que se alguém não tem condições de viver com dignidade é porque outro está se apropriando dela. São João Crisóstomo resume dizendo que «não dar aos pobres a parte dos seus bens é roubar dos pobres, é privá-los da própria vida; e o que possuímos não é nosso, mas deles ». [92] Além destas palavras de São Gregório Magno: «Quando distribuímos alguma coisa aos pobres, não damos o nosso material, mas devolvemos-lhes o que lhes pertence». [93] 120 . De novo faço a minha e proponho a todos algumas palavras de São João Paulo II , cuja força talvez não tenha sido compreendida: “Deus deu a terra a todo o gênero humano, para que sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém. " [94] Nesta linha, recordo que “a tradição cristã nunca reconheceu o direito à propriedade privada como absoluto ou intocável e destacou a função social de qualquer forma de propriedade privada”. [95] O princípio do uso comum dos bens criados para todos é o "princípio primeiro de toda a ordem ético-social", [96] é um direito natural, originário e prioritário. [97]Todos os demais direitos sobre os bens necessários à realização integral das pessoas, inclusive o da propriedade privada e qualquer outro, «não devem, portanto, impedir, mas, pelo contrário, facilitar sua realização», como afirmou São Paulo VI. [98] O direito à propriedade privada só pode ser considerado um direito natural secundário derivado do princípio da destinação universal dos bens criados, e isso tem consequências muito concretas, que devem se refletir no funcionamento da sociedade. Porém, frequentemente acontece que os direitos secundários são colocados acima dos direitos prioritários e originais, privando-os de relevância prática. Direitos podem impedir que isso aconteça. Assim como é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos por ser mulher, é igualmente inaceitável que o próprio local de nascimento ou residência leve a menos oportunidades de uma vida digna e de desenvolvimento. 122 . O desenvolvimento não deve ser orientado para a crescente acumulação de poucos, mas deve garantir "os direitos humanos, pessoais e sociais, econômicos e políticos, incluindo os direitos das nações e dos povos". [99] O direito de alguns à liberdade de empresa ou de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos e da dignidade dos pobres; e nem mesmo acima do respeito ao meio ambiente, já que “quem possui uma parte, só administra em benefício de todos”. [100] 123 . A atividade de empreendedores efetivamente “é uma nobre vocação voltada para a produção de riquezas e a melhoria do mundo para todos”. [101] Deus nos promove, espera que desenvolvamos as habilidades que ele nos deu e encheu o universo com potencial. Em seus projetos, cada pessoa é chamada a promover seu próprio desenvolvimento, [102] e isso inclui a implementação de capacidades econômicas e tecnológicas para aumentar os ativos e aumentar a riqueza. Mas, em qualquer caso, essas habilidades dos empresários, dádiva de Deus, devem ser claramente orientadas para o progresso das outras pessoas e a superação da miséria, especialmente através da criação de oportunidades de emprego diversificadas. Sempre, junto com o direito à propriedade privada, há a prioridade e o direito precedente de subordinação de toda propriedade privada à destinação universal dos bens da terra e, portanto, o direito de todos ao seu uso. [103] Direitos dos povos. 124 . A certeza da destinação comum dos bens da terra exige hoje que ela se aplique também aos países, seus territórios e seus recursos. Se olharmos não só pela legitimidade da propriedade privada e dos direitos dos cidadãos de uma dada nação, mas também pelo primeiro princípio da destinação comum dos bens, então podemos dizer que todo país pertence também ao estrangeiro, como os bens de um território não deve ser negado a uma pessoa necessitada que venha de outro lugar. De facto, como ensinaram os Bispos dos Estados Unidos, existem direitos fundamentais que «precedem qualquer sociedade porque derivam da dignidade conferida a cada pessoa criada por Deus». [104] 125 . Isso também pressupõe outra forma de entender as relações e as trocas entre os países. Se toda pessoa tem uma dignidade inalienável, se todo ser humano é meu irmão ou irmã, e se o mundo realmente pertence a todos, não importa se alguém nasceu aqui ou se mora fora das fronteiras de seu país. A minha Nação é também corresponsável pelo seu desenvolvimento, embora possa cumprir esta responsabilidade de diversas formas: acolhendo-a generosamente quando é imperioso, promovendo-a na sua própria terra, esvaziar países inteiros de recursos naturais, favorecendo sistemas corruptos que impedem o desenvolvimento digno dos povos. Isso, que se aplica às nações, se aplica às diferentes regiões de cada país, entre as quais ocorrem muitas vezes graves desigualdades. Mas a incapacidade de reconhecer a igual dignidade humana às vezes leva as regiões mais desenvolvidas de certos países a aspirar a se livrar do "lastro" das regiões mais pobres para aumentar ainda mais seu nível de consumo. 126 . Estamos falando de uma nova rede de relações internacionais, porque não há como resolver os graves problemas do mundo raciocinando apenas em termos de ajuda mútua entre indivíduos ou pequenos grupos. Lembremos que “a desigualdade atinge não apenas indivíduos, mas países inteiros, e nos obriga a pensar uma ética das relações internacionais”. [105] E a justiça requer reconhecer e respeitar não só os direitos individuais, mas também os direitos sociais e os direitos dos povos. [106] O que afirmamos implica que o "direito fundamental dos povos à subsistência e ao progresso" está garantido, [107]que às vezes é severamente prejudicado pela pressão decorrente da dívida externa. O pagamento da dívida em muitos casos não só não favorece o desenvolvimento como o limita e condiciona fortemente. Embora se mantenha o princípio de que qualquer dívida legitimamente contraída deve ser paga, a forma de cumprir este dever que muitos países pobres têm para com os países ricos não deve conduzir a comprometer a sua subsistência e o seu crescimento. 127 . Sem dúvida, essa é outra lógica. Se você não tentar entrar nessa lógica, minhas palavras soarão como fantasias. Mas se aceitarmos o grande princípio dos direitos que emanam do mero fato de possuir a dignidade humana inalienável, é possível aceitar o desafio de sonhar e pensar outra humanidade. É possível querer um planeta que garanta terra, casa e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz, e não a estratégia tola e míope de semear o medo e a desconfiança das ameaças externas. Porque a paz real e duradoura só é possível “a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro marcado pela interdependência e corresponsabilidade em toda a família humana”. [108]. www.vatican.va. Abraço. Davi

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

A PACIÊNCIA

 

Islamismo. www.arresala.org.br. Ministrado por Nasser Khazraji. A PACIÊNCIA. Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. Uma das principais características do fiel é a “paciência”. A paciência é um atributo de extrema importância para o sucesso e a vida do fiel. Diversas passagens e versículos afirmam a importância desta característica, uma delas é a do Imam Assadiq (A.S.), que nos explica qual a posição e o valor da paciência em nossa vida. Imam Assadiq (A.S.) diz: “A paciência mediante a fé é como a cabeça para o corpo”. Deus, o Altíssimo, disse em diversos pontos do Alcorão Sagrado o quanto Ele aprecia esta característica e quanto Ele ama aqueles que praticam e possuem esta caraterística. Ele diz: “Deus aprecia os perseverantes”. (3:146). A recompensa. A paciência exige o controle, exige perseverança, exige um alto grau de força, e por isso a sua recompensa também é muito grande. Isso porque a paciência é exigida desde nas questões do dia a dia a até mesmo as questões muito grandes. Um fazendeiro precisa de paciência para colher sua plantação, um estudante precisa ter paciência para finalizar seus estudos, uma mãe precisa ter paciência para ver seus filhos crescerem, e assim por diante, a paciência é uma tradição da vida, e quanto mais o homem possuir paciência terá uma vida melhor e mais tranquila. Numa passagem o Imam Assadiq (A.S.) nos expôs a recompensa de uma pessoa que é paciente. Ele (A.S.) dizia: “Aquele entre nossos seguidores que é paciente terá a recompensa de 1000 mártires”. O Mensageiro de Deus (S.A.A.S.) disse: “A paciência possui três categorias: a paciência diante das calamidades, na obediência e frente a desobediência. E quem for paciente diante das calamidades, Deus o recompensará erguendo-o em trezentas posições, sendo que entre uma posição e outra há a distância entre a Terra e os Céus. Já aquele que é paciente ao praticar a obediência a Deus, Ele o recompensará em seiscentas posições, sendo que entre uma posição e outra há a distância entre o centro da Terra o trono divino. Aquele que for paciente e não desobedecer a Deus será recompensado por Ele em novecentas posições, sendo que entre cada uma há a distância entre o centro da Terra até o fim do trono divino”. Os frutos da paciência. A paciência possui diversos frutos e consequências benéficas ao ser humano. Alguns podem ser sentidos nesta vida e outros na outra vida. Abaixo algumas das principais consequências da paciência nesta vida: a) Deus está com você. Não há dúvida que Deus estará do lado do paciente. Deus ama aquele que é perseverante e paciente perante os problemas e as tragédias que lhe atingem. O que todos almejamos é contar com a companhia de Deus e o Seu apoio e ajuda, e isso só será possível se formos pacientes. b) A clemência divina. Deus, o Altíssimo, disse no Alcorão Sagrado: “Certamente que vos poremos à prova mediante o temor, a fome, a perda dos bens, das vidas e dos frutos. Mas tu (ó Mensageiro), anuncia (a bem-aventurança) aos perseverantes (155) Aqueles que, quando os aflige uma desgraça, dizem: Somos de Deus e a Ele retornaremos (156) Estes serão cobertos pelas bênçãos e pela misericórdia de seu Senhor, e estes são os bem encaminhados (157)” (2). Certamente que aqueles que são clementes e pacientes, além de contarem com o apoio e auxilio de Deus, serão abençoados e perdoados por Deus. E este versículo é a prova disso. c) O paraíso. A recompensa do paciente mediante os problemas e as calamidades certamente será o paraíso e nada mais. No início da revelação do Islam, quando o Profeta Mohammad (S.A.A.S.) passou perante a casa de Ammar e viu os incrédulos torturando o seu pai e sua mãe, disse: “Tenham paciência, ó família de Yaser. A vossa recompensa será o paraíso”. E não há nada melhor e nem mais desejado do que o paraíso para todos nós. d) A vitória. A paciência levará a vitória absoluta. Certamente que ter mais paciência te fará vitorioso. Isso pois o próprio Profeta Mohammad (S.A.A.S.) prometeu e afirmou isso dizendo: “A vitória é aliada da paciência, o alivio é aliado do problema e com a dificuldade vem a facilidade”. e) Alcançar o objetivo. A paciência deve ser a aliada de todo aquele que luta para conquistar seus objetivos. Sem a paciência o mesmo não será perseverante e perderá a vontade de correr atrás de seus sonhos. O Imam Ali (A.S.) diz assim: “Com a paciência que se alcança os sonhos”. f) O alivio. Como diz uma nobre tradição: “A paciência é a chave do alivio”. Muitos dos problemas e questões só se resolvem com uma simples questão que é a paciência. Jamais se pode perder a paciência pois isso levará o homem a um caminho oposto ao que ele deseja e seu resultado será tudo aquilo que ele menos espera, sendo que a desgraça e declínio é uma delas. Portanto, é com a paciência que se conquista o paraíso, pois todos nós devemos ser pacientes mediante as tentações e ganâncias que esta vida nos inspira. Paciência em Karbala. Uma das verdadeiras lições de perseverança e paciência foi dada pelo Imam Al-Hussein (A.S.) durante toda a jornada que o levou a Karbala. Depois que ele foi chamado para liderar uma revolta contra os Omíadas e viu a traição do povo de Kufa, que levou a execução de seu primo Muslim ibn Aquil, e depois que ele viu como seus filhos, familiares, soldados e companheiros foram massacrados pelo exército inimigo sendo esquartejados sem piedade, depois que ele viu as tragédias caírem sobre ele uma após a outra, ele não se abalou com nada disso e permaneceu firme e paciente mediante a toda esta situação, dizendo: “Isso tudo é aceitável, pois é visto pelos olhos de Deus”. E além da paciência do Imam Al-Hussein (A.S.) a nossa senhora Zainab Al-Kubra, a irmã do Imam (A.S.), a qual carregou as dores daquela tragédia por uma longa jornada saindo de Karbala até Kufa, e depois a Sham. Ela foi paciente e foi pregando a mensagem do Islam pela qual o Imam Hussein (A.S.) foi martirizado por todos os lugares que passava. Além disso, ela não deixou de desmascarar a fraude que eram os Omíadas, que manipularam tradições, matavam e mentiam para o povo alegando serem os guardiões do Alcorão e da Sunnah, mas na verdade eram os aliados e amigos de Satã. Um dos principais frutos da paciência é a fé, pois através da fé o indivíduo tem certeza que está tudo entregue nas mãos de Deus e tudo que ocorrerá com ele é da vontade de Deus, e não há como evitar. “A paciência mediante a fé é como a cabeça para o corpo”, como dizia o Imam Assadiq (A.S). Ou seja, um corpo sem cabeça não vive, o mesmo ocorreria com a fé que sem paciência não tem valor. A paciência do Imam Al-Hussein (A.S.) mediante a injustiça que sobre ele foi aplicada e cujo resultou em seu martírio e de seus familiares, filhos e companheiros, está paciência germinou, e mesmo centenas de anos depois hoje vemos o que ocorreu e sabemos a verdade no mundo inteiro. A mensagem do Imam Al-Hussein (A.S.) contra a injustiça e tirania dá uma lição de vida e moral para as gerações do mundo inteiro. A melhor saída é a paciência. Sempre a melhor saída e solução é a paciência. Isso porque se a pessoa for paciente, além de Deus lhe mostrar uma saída, ela será recompensada por Deus. Já se ela perder a paciência mediante a situação ou a tragédia que caiu sobre ela, além de não ser recompensada terá que conviver com a tragédia e a impaciência na vida, e isso a levará a um desgaste emocional e espiritual, e até mesmo físico e material. Louvado seja Deus, o senhor do universo. Aula ministrada por: Nasser Khazraji. Data: 12/09/2020. www.arresala.org.br. Abraço. Davi

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

NÓS OS FILHOS PRODIGOS

 

Teosofia. Editor do Mosaico. NÓS OS FILHOS PRÓDIGOS. São Lucas 15, 11-31 diz: "E disse um certo homem tinha dois filhos. E o mais moço deles disse ao Pai: Pai dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por ele a fazenda. E poucos dias depois o filho mais novo ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua e ali desperdiçou os bens vivendo desregradamente. (...) E tornando em si disse: quantos jornaleiros de meu Pai tem abundância de pão e eu aqui pereço de fome. (...) E levantando foi-se para seu Pai, e quando ainda estava longe viu o seu Pai e moveu-se de íntima compaixão e correndo lançando ao pescoço e o beijou". A conhecida parábola do Filho Pródigo é apresentada sob várias interpretações e todas partem do princípio de que o filho que se afastou estava errado ao tomar essa decisão e não deveria sair da proteção da família e nem do regaço - abrigo - de seu pai. Mas nossa versão dessa narrativa tem o propósito de enfatizar a importância das experiências pessoais realizadas através de escolhas legítimas. Baseadas no livre arbítrio dado por Deus, tendo o propósito do crescimento e evolução espiritual. Onde a aprendizagem produz a maturidade humana e uma consciência em transformação aberta a interação com os diferentes reinos da natureza. Confúcio (551 AC 479) disse "Há três métodos para ganhar a sabedoria: primeiro por reflexão que é o mais nobre, segundo por imitação que é o mais fácil e terceiro por experiência que é o mais amargo". Vamos pensar em uma analogia para entendermos a Casa do Pai e o relacionamento com seus filhos. Assim a figura de um ninho de águia é bem recorrente como ilustração, pois os pais águias com seus filhotes vivem em harmonia e convivência. Estando com os olhos para o futuro dos filhotes quando esses terão condições de voar e caçar seu alimento através do esforço pessoal de cada um. Mas até lá muitas coisas irão acontecer que envolverão um treinamento e estágios de adaptação as inúmeras fases que deverão ser percorridas. Primeiro os pais águias fazem seus ninhos nos penhascos mais altos das montanhas. Sendo esse fato importante para a segurança e proteção dos filhotes contra os pássaros predadores que voam em altitudes acima da média. Esses adversários são os corvos, abutres, urubus e falcões. Mas um detalhe curioso e sabido entre os ornitólogos – os que estudam os pássaros - as mamães águias para guardarem seus ninhos voam e caçam em distâncias consideráveis. Elas veem no rochedo seus ninhos e geralmente perseguem suas presas em pleno voo. Deixando para os papais águias a responsabilidade de trazerem alimentos mais consistentes. Eles vão a regiões mais distantes avistando suas presas com suas apuradas visões das alturas. Numa precisão milimétrica dificilmente erram em seus ataques aos predadores voadores. Num certo momento da vida dos filhotes sua mãe começa as aulas de treinamento de voos havendo vários tipos deles como: o planado, o planado térmico e o planado aerodinâmico específicos para aves de grandes portes e avantajada envergadura de asas como as águias. Esse é um esforço na tentativas de erros e acertos para os frágeis filhotes. Nessas aulas, com suas mães, inauguram as aventuras pela existência de classe de animais vertebrados, bípedes, endotérmicos e ovíparos. O momento mais importante desse aprendizado é quando a mamãe águia coloca seu precioso filhote para dar um voo rasante em pleno ar. Vão à procura de uma pequena presa. Estando ela parada no ar como professora observando a performance de seu aluno. O filhote é aprovado no teste quando segura com firmeza o alimento levando-o para ser devorado no ninho. Estando assim apto para sair de casa e constituir sua própria família. Um princípio a destacar entre as águias é sua fidelidade – monogamia – para com seu companheiro. Isso acontecendo até a morte de um deles e não se sabe entre os ornitólogos se elas voltam a se acasalarem novamente. Ressaltando uma etapa fundamental entre essas aves é que num determinado período de suas vidas as garras e picos se fragilizam devido ao desgaste das caças, lutas, e intempéries da natureza. Assim o instinto de sobrevivência lhes ensinou que deveriam buscar refúgio no mais alto penhasco e lá sozinhas começarem o doloroso processo de transformação de suas garras, bicos e renovação de sua plumagem. Esse é realizado quando elas batem na rocha seus bicos até que eles soltem desgrudando de suas faces. As garras são friccionadas contra as pedras até que se despreguem de seus pés. Um sofrimento indescritível pra esses pássaros que voluntariamente se submetem a esse processo na solidão da montanha. Esperam pacientemente por novas e vigorosas garras, bicos e plumagem. Assim voltam aos ninhos renovados para continuarem suas vidas no reino animal. Essas aves são realmente misteriosas e dotadas de uma consciência perceptiva bem evoluída em comparação as demais espécies de pássaros existentes. Seu processo de morte é até hoje pouco explicado pelos entendidos e ninguém ainda encontrou um cadáver de águia por aí.  Quando sentem que chegou a hora de partir, elas não se lamentam e nem ficam com medo. Tiram as últimas forças de seu cansaço corporal voando aos picos mais altos quase inatingíveis. Esperando resignadamente o momento final, partindo para a outra vida heroicamente tendo cumprido sua missão aqui na terra. Isso mostra a importância da atitude do filho que saiu da Casa do Pai. O Pai ocultamente aprovou sua atitude sabendo que ele passaria por experiência que trariam sofrimento, medo, perigo, expectativa, escolha, risco, equilíbrio, bom senso, esperança, alegria e maturidade. O primeiro ponto percebido nesse jovem foi sua necessidade de conhecer novos ambientes, novas pessoas, sair do corriqueiro. Enfrentar a vida de peito aberto mostrava que tinha uma boa economia advinda da parte que lhe coube da herança. Porém isso representava apenas o motivo para viver a aventura da existência. Pelo seu próprio esforço e possibilidade se sentir dono de si e criar a esperança de novos caminhos pela tentativa do erro e acerto. Outro aspecto foi sua coragem e determinação numa situação desfavorável. Quando pensamos que ele sai de sua zona de conforto e lançando-se ao desconhecido sem segurança ou expectativa de uma situação cômoda a curto ou médio prazo. Seu desejo de ter experiências que evoluiriam sua espiritualidade dando-lhe o sabor de vencer ou o amargor de ser derrotado. Como precisamos viver essas duas situações reconhecendo a importância delas com diz Abraham Lincoln (1809-1865) "O campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer". A princípio, o filho pródigo, teve experiências negativas gastando todo o dinheiro com futilidades e promiscuidade. Cogito  ficar claro a presença oculta do Eterno Mistério em cada situação que ele passou. Mesmo quando buscou as prostitutas para satisfazer seu desejo sexual. Na verdade, esotericamente pensando, não era isso o que ele queria. Tanto que seu carma foi cobrado logo a seguir quando esteve naquela deprimente situação de apascentar porcos. Comendo do que eles comiam. E vivendo naquele "ambiente". Ele tinha um coração simples e amava os animais, mesmo aqueles que a tradição religiosa considerava como imundos. Isso demonstra que percebia não haver no reino animal nenhuma imundície ou coisa parecida. Tão pouco no reino humano pessoas descriminadas inferiores ou desprezíveis por comportamentos tresloucados e não aceitos pela maioria. Esses estereótipos eram descabidos. Ele reconhecia Deus em Suma Bondade e Misericórdia como o Criador e também como a Criação. Sua prece manifestando o desejo de voltar ilustra bem seu coração compungido e contrito. Diz: "Levantar-me-ei e irei ter com meu Pai, e dir-lhe-ei Pai pequei contra os céus e perante Ti, já não sou digno de ser chamado seu filho faze-me como um dos teus jornaleiros". A experiência do perdão nos situa em no microcosmo como seres que dependemos uns dos outros. Estamos conectados pela vida e a consciência evoluída onde intuição, recordação, imaginação, cognição e abstração dão-nos o direito de escolher pelo livre arbítrio nosso destino. A divindade não impede que tomemos nossa decisão seja qual for se para o bem ou para o mal. Por isso a importância das circunstâncias vividas. Através delas saberemos distinguir o melhor do pior, o bom do ruim, o doce do amargo, a luz das trevas, a altura do cumprimento, a profundidade da largura. O reencontro com seu Pai é uma expressão do amor altruísta e incondicional. Esse aguardava a volta do filho desde o primeiro minutos que ele saiu de sua casa. Vendo nele aquele que "esteve morto e reviveu estava perdido e foi achado". Ocultamente pensando, ele passou dum processo natural humano à evolução espiritual de sua alma. Assim a roupa nova, o anel e as sandálias são símbolos de maturidade e idoneidade manifestados na festa que foi dada pelo seu retorno ao lar. Podemos cogitar esses fatos narrados acima pela filosofia esotérica (ocultismo) percebendo que nossa evolução deve passar por estágios. A princípio inferiores e experiências de sofrimentos, vergonhas, dores e humilhações. Ainda em um corpo físico e emocional se acentua a personalidade  presa ao mundanismo dos prazeres, desejos egoístas e narcisismos manifestados no nosso centralismo. Assim alguns de nós precisam passar um período no chiqueiro - porcos -  aprendendo com eles a necessidade de companheirismo e reciprocidade nos relacionamentos. Reconhecendo nossa real constituição viciosa e pecaminosa e percebendo que nossa consciência em muitos casos ainda continua instintiva como a dos animais. Podemos pela vivencia humana mudar essa situação. Evoluindo conscientemente nosso aparelho psíquico (alma) pela observação dos demais reinos da natureza.  Procurando no autoconhecimento, meditação, evocação, solitude e contemplação o sentido para nossa vida humana e espiritual. Saindo do nosso casulo podemos passar pelo processo da metamorfose de lagarta para borboleta. O filho prodigo foi ao fundo do poço. Talvez não precisemos experimentar tantos revezes e sofrimento para mudarmos nossa situação. Que atendamos ao clamor de nossa consciência antes. Uma nova perspectiva agora não mais como uma personalidade rastejante que presencia apenas as coisas superficiais do mundo palpável. Evoluindo, agora, numa consciência pré intuitiva, aquele que saiu do lar, iniciava numa individualidade superior. Podendo voar para conhecer novas espécies aéreas e flores com fragrâncias indescritíveis as begônias, hortências, lírios e orquídeas. Além de polimerizar outras espécies vegetais. Assim a vida evoluiu para um aspecto mais adiantado na cadeia do progresso existencial. Interagindo de forma orgânica pelos métodos de simbiose e comensalismo com vantagens para todos os integrantes dos níveis tróficos. O retorno a Casa Paterna é um percurso longo e demorado. Precisamos passar por inúmeras estações de tratamento de nossos pecados e iniquidades. São as rondas carmicas na vida atual e nas futuras encarnações que produzirão esse equilíbrio entre os nossos vícios e virtudes, méritos e deméritos, bondade e maldade praticados a favor ou contra nosso próximo. Sobressaindo nossa boa vontade, teremos um momento de gozo e consolo quando - entre vidas - desencarnarmos provavelmente num período de uns mil e quinhentos anos ou mais ou menos. Chamado na tradição budista de devachan que corresponde ao multiplicar do dom da vida dado a nós pelo Espírito Divino. Ou dependo da maldade existencial pratica uma parada, ou várias, na ronda das almas penadas. Deus em sua infinita compaixão nos livre de passar por esse temporário tormento que somos exclusivamente responsáveis. O filho que ficou na Casa do Pai optando pela segurança, comodidade e conforto de tudo que possuía era infeliz e entediado. Não compreendia o verdadeiro motivo da existência humana. Imaginando que uma vida tranquila e inalterada desprovida de experiência boa ou má eram suficientes para agradar o coração do Pai. Nessa condição ele retrocedeu espiritualmente, involuiu, impedindo que o progresso da existência fosse realizado. Custando uma fase de atraso em seu desenvolvimento que deveria ser restituído posteriormente. Ocultamente percebemos que o Pai queria também que esse filho tivesse suas próprias experiências para crescimento e evolução do seu Ego Inferior. Saindo de sua casa para ganhar a idoneidade moral, ética e espiritual pelo sofrimento e a dor de início. A aprendizagem como alvo produziria os "frutos do espírito que são amor, alegria, paz, longanimidade, bondade, fé, benignidade, domínio próprio". Esses são vistos apenas como atitudes do Ego Superior que compartilha com o Ego Divino as bem aventuranças destinadas a todos os seres minerais, vegetais, animais e humanos da natureza. Esses estão debaixo, sobre e acima da terra. A festa com vestes novas, anel no dedo e sandálias nos pés demonstra o último estágio da evolução da alma humana. Esse filho que saiu da Casa do Pai e retornou, esotéricamente podemos compará-lo ao próprio Pai - Deus - pois o longo processo evolutivo - homem, Mestre de Sabedoria, Homem Perfeito e Espírito Divino - o mesclara intrinsecamente  a Deidade. Assim estão no Nirvana a completude da consciência humana que viajando pelos vários reinos e planetas de nosso sistema solar chega a seu ponto de origem plenamente aperfeiçoada. Capacitada pelas sucessivas reencarnações vividas em seu processo de inteireza e perfeição cósmica. Isso é o que diz São Paulo em II Timóteo 4, 7,8 "Combati o bom combate acabei a carreira e guardei a fé. Desde agora a coroa da justiça me está guardada a qual o Senhor justo juiz me dará naquele dia, e não somente a mim mas a todos os que amaram a sua vinda". Seria bom se ganhássemos a sabedora pela reflexão ou imitação como disse Confúcio. Porém, sinto em meu caso, que necessito também do caminho amargo da experiência para alcançar esse propósito. Estritamente falando todos saímos da Casa do Pai. Foi o nosso primeiro ambiente de acomodação e suprimento. Tendo essa indestrutível partícula, centelha divina em nós, estamos prosseguindo nossa caminhada espiritual com muitos tropeços é claro. Também enfrentando e vencendo pequenos e grandes obstáculos. Assim chegaremos infalivelmente de volta como seres evoluídos e perfeitos para a Casa do Pai novamente. Abraço. Davi.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

MATSÁ - O PÃO DA FÉ E DA LIBERDADE

 

Judaísmo. www.morasha.com.br. MATSÁ – O PÃO DA FÉ E DA LIBERDADE. A matsá, símbolo maior de Pessach, incorpora a própria essência do Êxodo - é o pão da pobreza e da escravidão. Mas, por mais contraditório que possa parecer, é também o pão da liberdade e da redenção. É tão fundamental à celebração da festividade que a Torá se refere à data como Chag HaMatsot, a "Festa das Matsot". Todo o Seder praticamente gira em volta de três matsot, que são exibidas ao se iniciar a narrativa da Hagadá, com a declaração, "Ha-Lachmá Anyá, "Este é o pão da pobreza que nossos antepassados comeram na terra do Egito. Todas as noites comemos chamets ou matsá; mas, nesta noite, somente matsá". No judaísmo, tudo tem uma razão de ser, especialmente na noite do Seder, quando cada ato é repleto de inúmeros simbolismos. É nessa noite que relembramos e ensinamos a nossos filhos, como D'us nos transformou, tão rapidamente, de escravos - empobrecidos, material e espiritualmente - em uma nação de homens livres, prestes a iniciar sua jornada a caminho do Sinai. A matsá, pão ázimo em português, pão simples feito apenas de farinha e água, assado antes que a massa fermente, representa essa jornada. E, segundo a Cabalá, representa a fé de nossos ancestrais. A Matsá em contraposição ao chamets. Comer matsá em Pessach é um mandamento bíblico. Mais do que ordenar que só comêssemos desse pão ázimo durante os oito dias da festividade, D'us nos proibiu terminantemente de comer ou sequer ter em nossa posse a mais ínfima partícula de chamets. Frequentemente traduzido por fermento e levedura, este termo engloba, na realidade, qualquer alimento produzido com alguma das cinco espécies de cereais - trigo, cevada, centeio, aveia e trigo sarraceno - ou qualquer de seus derivados que tenha entrado em contato com água, pois isso desencadearia o processo de fermentação. A Torá ordena que, antes do início de Pessach, nos desfaçamos de tudo o que é chamets em nossa propriedade, em virtude da proibição de usufruir ou tirar proveito do mesmo. Uma busca rigorosa é feita em nossos lares para eliminar qualquer vestígio dos alimentos proibidos. O pão é o alimento mais básico da espécie humana e a matsá, o mais básico dos pães, feito como vimos, com um mínimo de ingredientes. Qual é diferença entre estes dois alimentos? Não são os ingredientes, pois ambos são feitos com farinha e água. A resposta é o tempo, mais especificamente, 18 minutos. Todo o ciclo de produção da matsá, desde o instante em que se mistura farinha e água, até estar completamente assada, deve levar, no máximo, 18 minutos. Se passar disso, o alimento é considerado chamets, pois se terá iniciado o processo natural de fermentação. Microrganismos encontrados no ar - as leveduras - invadem a mistura, metabolizando os açúcares e liberando um gás responsável pelo volume, gosto e textura da massa. Foram os egípcios, há cerca de 4 mil anos, os primeiros a descobrir esta propriedade: deixando-se descansar uma mistura de água e farinha por algum tempo, a mesma "cresce". O pão egípcio tinha o inconveniente de levar mais tempo para ser produzido, mas era macio e saboroso, bastante parecido com o que estamos acostumados a comer, hoje. Assim sendo, a primeira lição que a matsá nos ensina é a noção de tempo. Meros 18 minutos determinam se a massa poderá ser utilizada em Pessach, ou não. E, como ensinava o Rebe de Lubavitch (1902-1994), tempo é vida. Em hebraico, o número 18 equivale, numericamente, à palavra "chai" - vida. Isto pode ser interpretado da seguinte maneira: quando desperdiçamos nosso tempo, usando-o de forma negativa ou mesmo improdutiva, estamos permitindo que a ação positiva que a matsá simboliza se torne o que o chamets simboliza em Pessach - um desvio de caminho. E, similarmente ao chamets, que nunca poderá voltar a ser matsá, o tempo perdido também é irrecuperável, não volta jamais. A produção de matsot é um processo meticuloso, que incorpora em si várias lições. Uma diz respeito ao fato de que nenhum "elemento" externo pode definir o formato de uma matsá - contrariamente ao que ocorre com o pão, cuja forma e textura são definidas pela "invasão" de micro organismos. E tal invasão independe da vontade de quem o está fabricando, pois se a massa ficar parada ou se o processo levar mais do que 18 minutos, os levedos passam a agir. A Cabalá traça um paralelo entre a invasão e ação da levedura sobre a massa e a "intrusão" de forças espirituais negativas em nosso "eu" espiritual, a essência de nossa vida interior. Todo ser humano, ensina o Zohar, anseia imbuir sua existência de sentido, mas a realidade física em sua volta, bem como medos e desejos, interferem em sua percepção. Ao nos invadirem, freqüentemente contra nossa vontade, tais elementos estranhos modificam pensamentos e atitudes, fazendo com que trilhemos por caminhos que nos afastam de D'us. Segundo a Cabalá, a matsá representa o homem em controle de suas emoções, que não permite a elementos externos influir em seus atos. À pergunta "por que em Pessach é proibido comer ou mesmo estar de posse do chamets", o Talmud responde com outra pergunta, que, à primeira vista, nada tem com o assunto: por que as pessoas pecam? E responde que o homem vive em constante luta com sua natural inclinação ao mal e, se perde esta batalha, ele peca. O Talmud então sugere que quem cometer um pecado, faça a seguinte declaração: "D'us do Universo. Tu, Onisciente, que tudo conheces, sabes que é nosso desejo fazer Tua Vontade. Mas o que nos impede de fazê-lo? É justamente o fermento da massa". O chamets representa o impulso negativo, a inclinação ao mal que leva os homens a se afastar de D'us e de Seus mandamentos. Para nossos Sábios, a matsá representa a humildade enquanto a levedura o orgulho e a arrogância, que, se não forem controlados e direcionados para algo positivo, podem levar uma pessoa a inflar seu próprio ego de tal forma a não mais reconhecer a Mão de D'us em sua vida. Pão da aflição e da redenção. Ao iniciar o Seder, relembramos, geração após geração, de que "Fomos escravos do Faraó no Egito e D'us nos tirou de lá, com Mão forte e com Braço estendido". Rashi explica que a Torá chama a matsá do 'lechem oni', o pão da aflição, por ser o que nos faz relembrar da escravidão. Já Rabi Yehudah ben Yakar (1173-1201) afirmava que posta na mesa do Seder a matsá representa o 'lechem ani', o pão dos pobres, o alimento que nossos antepassados comiam no Egito. Ao menos durante a primeira parte da leitura da Hagadá, a matsá é o pão da escravidão e da pobreza. Porém, mais adiante, aparece de uma forma totalmente diferente. Após ler a afirmação de que é um dos três símbolos que constituem a essência do Êxodo, quem conduz o Seder, mostra uma das matsot postas na mesa, e recita as palavras "Matsá zô - esta matsá que comemos - qual a sua razão? Por não ter havido tempo para que a massa de nossos antepassados levedasse antes que o Rei dos Reis, o Santo, Bendito Seja, Se revelasse perante eles para redimi-los". Nesta passagem, a matsá representa a Redenção dos Filhos de Israel pelo Todo Poderoso; uma redenção que ocorreu de forma tão rápida que os judeus não tiveram tempo de esperar que fermentasse a massa do alimento que levariam em sua jornada. E continua o relato: "... E assaram a massa em pães ázimos, não levedados, pois foram expulsos do Egito e não mais puderam deter-se, nem tampouco haviam preparado provisões para o caminho..." Os conceitos expostos na Hagadá parecem, contraditórios. Afinal, a matsá é símbolo de miséria e escravidão ou de redenção e liberdade? Segundo Rabi Raphael S. Hirsch (1808-1888), em seus comentários, é o "pão da aflição", o alimento dos escravos, pessoas totalmente dependentes, cujo tempo não lhes pertence. No Egito, os judeus se alimentavam de pão ázimo porque seus opressores lhes negavam até o tempo necessário para fazer um pão fermentado. De acordo com o Rabi Hirsch, até na hora de Redenção, os Filhos de Israel continuavam dependentes. Num primeiro momento, eram submissos aos egípcios. Mas, estes, apavorados pela última praga que se abatera sobre eles, queriam os judeus fora de seu país sem mais delongas. A partir daí, os judeus se tornaram dependentes de D'us, que os tomou como Sua nação e fez deles Seus eternos servos. Rabino Hirsch explica que comer matsot em Pessach é como se nos estivéssemos dedicando, ano após ano, à nossa missão eterna de servir a D'us. O Maharal de Praga, Rabi Yehudah Lowe (1520-1609), o criador do Golem, tem outra interpretação. Segundo ele, a matsá é o pão da Redenção, não da aflição. A súbita saída dos judeus do Egito nos ensina que esta não aconteceu graças a uma ação nossa. Foi D'us, que com "Mão forte e Braço estendido" nos resgatou da terra da escravidão, libertando-nos dos grilhões egípcios. O símbolo dessa Redenção apressada e instantânea é a matsá que assamos rapidamente. Ainda segundo o Maharal, quando a Torá se refere a esta como o "pão de pobreza", está subentendido que é o pão da simplicidade. Pois, como explica o sábio, enquanto o mundo físico é um mundo caracterizado pela complexidade, no qual os elementos se conectam e interdependem entre si, o mundo espiritual é caracterizado pela simplicidade e independência. Redenção e liberdade são o resultado da conexão do homem com o mundo espiritual. E por essa razão D'us nos ordenou comer matsá no Seder de Pessach. Ainda no Egito os judeus puderam provar o gosto da iminente liberdade e redenção, assando o pão simples, alimento espiritual não sujeito às restrições e limitações do mundo físico. Para o Maharal, a matsá significa a liberdade que o homem alcança ao se conectar com D'us. A natureza de nossa libertação Como vimos, a matsá serve de lembrança da natureza de nossa Redenção: a mudança, súbita e drástica, que D'us realizou em nossas vidas, o processo que transformou escravos em homens livres. Quando chegou a hora da libertação, para aqueles escravos oprimidos foi difícil compreender em toda a sua profundeza aquele evento sem precedentes na História humana, no qual eram protagonistas passivos. Mais difícil ainda entender o papel para o qual Ele os escolhera. Tudo que tinham era fé em D'us - uma fé que perseverara através do longo e amargo exílio. E, na véspera de Pessach, D'us a reacendeu revelando, de forma extraordinária e única, o Seu poder e a Sua verdade - libertando os hebreus da escravidão física e espiritual em que se encontravam. Segundo a Cabalá, a matsá é o "pão de fé", já que representa o estado espiritual do Povo judeu no momento do Êxodo. O profeta Jeremias descreve esse momento com as palavras "Assim diz D'us: Lembro-me de seu amor jovem, sua devoção nupcial, a Me seguir deserto afora, para uma terra estéril, não cultivada". Foi esta fé, unicamente, o que nos tirou do Egito e nos conduziu até o Sinai. A matsá não é, portanto, um alimento insípido, tem o sabor da fé e da liberdade. www.morasha.com.br. Abraço. Davi

Bibliografia:

The Haggadah Treasury - The Artscroll Mesorah Series, Editado por Rabi Nosson Scherman. Rabi Yitzchak Falk, Matzah: Bread of Affliction or Redemption? Yeshivat Hamivtar - Orot Lev. Rabbi Nathan Lopes Cardozo, To be a matza, Jewish World Review, April 2004. Rabi Mendel Weinbach, The Matza Message, março 2004 ,Ohr Somayach. Timeless Patterns In Time, Chassidic Insights Into The Cycle Of The Jewish Year Adapted from the Published Talks of the Lubavitcher Rebbe

terça-feira, 20 de outubro de 2020

OS QUATRO COMPARTIMENTOS DO COSMO I

 

Religião Afro-brasileira. Candomblé. Livro O Candomblé da Bahia – Rito Nagô. Tradução Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-2018). OS QUATRO COMPARTIMENTOS DO COSMO I. A oposição entre os quatro sacerdócios até agora estudados não é senão a consequência da divisão quádrupla do universo. É lícito inquirir se estas divisões são estanques, se nada nos permite passar de uma para a outra, fazendo-as participar ou pelo menos se refletirem umas nas outras. Até este momento, a oposição dos sacerdócios marca a oposição, a ruptura entre tais compartimentos. E que oposição! O culto dos Orixá não é certamente privativo das mulheres, mas as filhas de santo são infinitamente mais numerosas do que os homens, e podem mesmo atingir o grau mais elevado da hierarquia sacerdotal, no interior do candomblé; as seitas mais tradicionais, como já dissemos, são dirigidas por ialorixás e não por babalorixás. Mas, ao contrário, o culto de Ifa, assim como o de Ossaim e dos Egun, são cultos de homens; se a mulher pode, em certas circunstâncias, consultar a sorte, só o pode fazer com os búzios e nunca através do opelê. Esta divisão sexual da tarefa religiosa é reflexo da divisão do mundo em duas partes, a dos deuses e a da criação. Tal diferenciação primeira se complica com uma segunda: o babalaô, o Olosaim e os Oge não podem cair em transe; nem Ifa, nem Ossaim, nem os Egun "descem"; embora possuam seus cânticos e por vezes suas danças, não têm "cavalos" que possam montar. O que prova bem que os Orixá habitam fora do mundo da criação, transcendendo natureza e sociedade; pois só podem nos visitar por meio da mediunidade da encarnação; o termo "baixar", que define o transe, é característico desta transcendência. É certo que aqueles deuses intervêm através das nozes de kola, mas então não "baixam", "falam". Enquanto as

yauô desempenham o papel das divindades, o babalaô le e traduz "palavras''. Uma última diferença é a que distingue os Egun dos Orixá. A gente da Bahia diz dos primeiros que são "aparições", e dos segundos que são ''manifestações". Está aí toda a diferença entre o transe e a máscara. Na possessão divina, é o próprio rosto que se transforma em máscara, que se contrai em traços duros para figurar Ogun guerreiro, em traços de orgulho real para figurar Xangô, em traços cheios de volúpia sensual ou lúbrica para figurar Oxun. No caso dos mortos, o corpo fica escondido nas dobras de amplas vestes; é proibido, sob pena de morte, adivinhar o rosto, tocar no Egun; os antepassados são máscaras e a sociedade secreta é o primeiro teatro negro do Brasil. Como objeção poderia ser levantado o caso de Omulú; quando uma filha de santo é possuída por esta divindade, esconde a cabeça num grande capuz de palha que impede que lhe vejam o rosto; mas é porque sua face está então coberta de pústulas, corroída de lepra, não é agradável de ser vista pelos espectadores. Todavia, sob o capuz, a filha de Omulú está em transe enquanto que, no seu disfarce, aquele que desempenha o papel de Egun não está; ele é efetivamente o morto que regressou, não está possuído por este. Em suma: os sacerdotes dos candomblés encarnam os Orixá; os sacerdotes de Ifa escutam as "palavras" dos Orixá; os sacerdotes de Ossaim colhem as ervas dos Orixá; e os sacerdotes dos Egun representam o exército dos mortos. Ou ainda: os babalaô são os sacerdotes dos homens enquanto indivíduos e das coletividades sociais enquanto relações entre homens; os olosaím são os sacerdotes da natureza viva - e se o termo de "vivo" não fosse tão importante, ficaríamos tentados em dizer que a distinção entre os dois sacerdócios equivale à que existe entre res e personae; os ogo são os sacerdotes dos mortos; os babalorixá ou íalorixá são os sacerdotes dos deuses. Costuma certo tipo de sociologia submergir a personalidade dos chamados "primitivos" dentro do todo social; insiste na homogeneidade das crenças e dos sentimentos, no conformismo dos gestos e das atitudes, nas similaridades psíquicas, como se as representações coletivas não se diferenciassem, não se colorissem diferentemente conforme os sêres que as vivem. No entanto, o que a divisão do trabalho vai desentranhar não é o indivíduo, mas o individualismo, coisa muito diferente. Todos os etnógrafos que viveram entre tribos as mais "primitivas" são concordes em reconhecer que seus membros distinguem as idiossincrasias pessoais. Poderíamos ir mesmo mais longe e descobrir mais ou menos por tôda a parte uma primeira filosofia da individuação, que chegaria até a lembrar as disputas da Idade Média, pois trata-se realmente de saber, quase sempre, se o princípio da individuação é o espírito ou a matéria, o reflexo das diferenças míticas ou, como diz Maurice Leenhardt (1878-1954) a propósito dos Canacas da Nova Caledônia, o fato de se possuir um corpo. Se quisermos descobrir a concepção afro-brasileira da pessoa humana, é ao babalaô que devemos nos endereçar, pois é ele o sacerdote dos indivíduos, o sacerdote da pessoa humana enquanto pessoa. Sabe-se que na África, quando nasce uma criança, tira-se o seu odu com duas nozes de kola. No entanto, somente chegando à idade adulta é que irá fazer seu Ifa pessoal, pois "os Antigos nos ensinaram que o indivíduo que não possui um Fa é um ser incompleto". Ora, esse Ifa não é senão um odu desenhado na terra, terra que em seguida é posta num saquinho branco ou numa cabaça e que, no momento da morte, ou será destruído, ou herdado, ou enterrado com o defunto. Este odu, do qual o babalaô indicou previamente ao consulente o significado, os sacrifícios que requer, os tabus que obriga a respeitar, os provérbios que devem guiar a ação do seu possuidor, constitui de certo modo o destino resumido da pessoa em questão. E como todos os indivíduos têm o seu odu, mas o conjunto destes odu forma, apesar de tudo, uma lista fechada, compreende-se ao mesmo tempo porque cada pessoa é diferente, e ao mesmo tempo porque as diferenças não são ilimitadas, sendo possível uma classificação dos caracteres. Toda uma psicologia sistemática existe em gérmen no culto de Ifa. No Brasil, porém, parece que pelo menos atualmente não se tira o Ifa pessoal. Temos mesmo a impressão de que se Martiniano Elizeu do Bonfim (1859-1943) foi se iniciar na África, esta iniciação não consistiu tanto em interrogar os sacerdotes de lá sobre a vida das divindades, mas em tirar seu Ifa pessoal a fim de se tornar babalaô na Bahia, pois em sua cidade natal não encontrara ninguém capaz de fazê-lo. Se o que se chama de "grande jôgo" na Nigéria, desapareceu no Brasil, restam todavia as ideias suficiente em que se baseava. Em primeiro lugar, a ideia de Eleda, isto é, anjo da guarda. Dennet mostrou muito bem que Eleda não é um deus e sim o Ifa pessoal que se tirou, e Trautmann define o Fa pessoal como sendo "o deus tutelar", "o protetor" do indivíduo. Os africanos cristianizados, todavia, já o identificam com o anjo da guarda que vela sobre cada um de nós. Ora, este conceito de Eleda persiste entre os afro-brasileiros. O Padre Brazil não o confunde com o Orixá que reside na cabeça de seus filhos; está, diz ele, situado entre os deuses e os homens, ocupa uma posição intermediária. Há sem dúvida, nas seitas bantos, tendência para confundir Eleda com o Orixá particular de cada um, aquele que se recebeu o nome no momento da iniciação. Mas as seitas mais tradicionais não fazem tal confusão, Eleda é realidade sui generis. Em segundo lugar, se o adulto não desvenda mais seu Ifa, permanece o costume para os pais, no momento do nascimento, de irem consultar o babalaô; o odu que sai nesse momento não apenas nomeia o Orixá a que pertencerá a criança, mas também dá certo número de indicações sobre o destino futuro do recém-nascido. Enfim e principalmente, todos os meus informantes estavam de acordo em dizer que cada indivíduo tem o seu Exú. Ora, o "grande jôgo" dos Yoruba não consiste unicamente em descobrir o Ifa, mas também em tirar o Exú individual pelo Babalaô: Exú de barro, regado de óleo de amêndoas, que será colocado num buraco diante da casa e que daí por diante protegerá seu possuidor. Por ocasião da morte deste, será destruído pela "desconsagração", e para tal será regado com comidas tabu, cujo efeito naturalmente será lhe tirar todas as forças, de tal modo que não poderá mais servir a ninguém. Ora, temos a informação de que, mesmo fora de toda consulta a Ifa, certos africanos da Bahia pedem a sacerdotes de seu conhecimento que lhes fabriquem um Exú de barro para colocá-lo no chão de suas casas, a fim de que os proteja. Mas mesmo que o Exú pessoal não se materialize num Exú de barro, regado de ervas e de sangue, não deixamos, cada um de nós, de ter um Exú, um "deus tutelar" como diria Trautmann. Podemos mesmo ir mais longe. A passagem do Ifa individual para um Exú individual é o reflexo do outro fenômeno que já tínhamos assinalado: a substituição progressiva da adivinhação por meio do opelé, pela adivinhação com o dilogun; mudança que está em processo no mundo dos babalaô da Bahia, vitória dos búzios sobre o colar de nozes de kola, substituição, em suma, das "palavras" de Ifa pelas "palavras" do Exú. Por isso mesmo, o princípio de individuação vai tomar uma forma ligeiramente diferente. Mas antes de estudar esta forma, e preciso fazer uma observação prévia: se o babalaô é obrigatoriamente um homem, as mulheres, como os homens, podem consultá-lo quando lança os búzios. E aqui novamente aparece uma exceção extraordinária, com relação ao que é de regra nos candomblés: A íya-bassé não pode cozinhar os pratos das divindades quando está menstruada; a yauô não poderá, também, ser possuída enquanto estiver neste estado e, se alguma mulher menstruada penetra no santuário no decorrer da festa, imediatamente os tambores desafinam; finalmente, as iniciadas não chegam ao grau supremo do ialorixá senão quando, segundo a expressão popular, "tornaram-se homens", isto é, depois da menopausa. No caso da adivinhação, ao contrário, a mulher pode consultar o babalaô a qualquer momento e em qualquer dia; a menstruação não constitui impedimento. Não se poderia exprimir melhor o princípio da individuação em sua oposição ao princípio da encarnação - o domínio da personalidade por oposição ao domínio dos Orixá. Ou, noutros termos: o sangue catamenial pode constituir um estado perigoso para a pessoa em determinadas circunstâncias, por exemplo, em suas relações com os deuses; mas não impede que a pessoa permaneça uma pessoa, é um estado de perturbação para o indivíduo, mas deixa intacta a individualidade. Pode-se consultar o babalaô em cada dia da existência, ou apenas nos períodos de crise. Cada odu que sai tem seu significado: um designa a ameaça de doença:, outro a morte que rodeia em torno, o terceiro um inimigo, o quarto uma traição, o quinto a pobreza; ou então, ao contrário, felicidade, riqueza, satisfação dos desejos mais caros (...).De tal modo que a existência não passa de uma sucessão de acontecimentos, felizes ou infelizes, ao sabor dos dias que se arrastam de um para outro ano. Em certa medida, podemos escapar ao destino realizando os sacrifícios recomendados. Mas o mito de Oxalá, que citamos a propósito da festa de abertura do ano religioso, prova que o destino não permite senão pequenas margens escapatória: Oxalá evita a morte, mas não evita a fratura dos seus membros nem os sete anos que passa gemendo numa prisão. Se várias pessoas consultam o babalaô no mesmo dia, os odu que saem são diversos para cada uma, pois cada qual tem sua própria existência que não se confunde com a do vizinho. Diríamos, pois, que o que constitui o princípio de individuação nesta filosofia afro-baiana, é a história do indivíduo. E são essas histórias em justaposição, que se entrelaçam, que se correspondem, mas que permanecem sempre autônomas, que compõem a sociedade. Trama em que correm mil fios, cada fio tendo sua cor diferente. Todavia, se o indivíduo é antes de tudo uma história, é também uma história que pode ser definida. E justamente a função do babalaô é dar esta definição através da leitura dos búzios. Todos os acontecimentos possíveis se reduzem a certo número de casos típicos ou de conceitos - o acidente, a doença, o dinheiro, etc. - e o que individualiza a pessoa humana são as variações de todas as combinações possíveis de tais conceitos classificatórios entre si. As combinações mudam porque cada homem tem a sua história, ou melhor, porque ele é a sua história; tais combinações, porém, não passam de combinações de certas classes de acontecimentos, caracterizadas pelo número de búzios caídos sobre o lado aberto ou sobre o lado fechado. Cada uma das jogadas é ao mesmo tempo a "palavra" de um santo. Ora é Ogun que fala, ora Xangô, ora Oxolá, o que faz com que cada um dos acontecimentos tipo que podem surgir na existência particular se ligue, pelo jogo e no jogo, a um Orixá determinado. Por exemplo, se quatro búzios caem sobre os lados abertos e doze sobre os lados fechados, é Xangô que fala e é ao mesmo tempo pobreza ou desastre. Se dez caem sobre os lados abertos e seis sobre os lados fechados, é Yansan que fala e então o espírito de um Egun persegue o vivente, tentando arrastá-lo consigo para o túmulo ... De tal modo que tudo se passa como se os acontecimentos se distribuíssem entre as divindades, como se cada uma dentre elas tivesse em partilha dos conceitos classificatórios, cujas combinações constituem as diversas existências particulares. Chegamos assim às conclusões seguintes: há um primeiro domínio do cosmos, que é composto ele homens, é o domínio da competência do babalaô, - cada homem se diferencia dos demais pelo conjunto de acontecimentos que para ele surgem, pelo seu "destino"; o princípio da individuação é a história da pessoa, história que não passa de uma combinação de palavras significativas, pronunciadas pelos deuses; por isso mesmo não é irracional, pode sempre se definir através dos búzios. Os deuses se tornam assim o princípio da classificação dos acontecimentos: cada um governa um acontecimento típico. Ao estudar a natureza, chegaremos a uma conclusão análoga. Também aí os Orixá nos aparecerão como um princípio de classificação do real.  Ossaim é a divindade do mato. E encontramos aqui imediatamente a separação entre o primeiro domínio, aquele sobre o qual reina o babalaô, e o segundo domínio que depende do Olosaim. Quando o homem aparece para domesticar a natureza, modificar a floresta em campo cultivado, traçar as ruas da cidade, Ossaim ali não mais se encontra. Não vive nem nas terras cultivadas, nem nas casas; como já dissemos, as plantas colhidas nos quintais das habitações citadinas ou compradas no ervanário não têm nenhum valor. O reino de Ossaim começa onde acaba o reino dos homens. E é por isso que o homem, ao nele se aventurar, deve tomar certas precauções, obedecer a determinado ritual, colocar no solo uma oferenda apropriada. Mas se Ossaim é o "dono das ervas", se é a ele e só a ele que é preciso pedir a autorização necessária para colhê-las, se é só a ele que é preciso pagar tributo ao colhê-las, Seja um pouco de tabaco, seja alguns níqueis - cada uma dessas folhas pertence ao mesmo tempo a um Orixá determinado. O mito de Cuba, que talvez se encontre também no Brasil mas que nunca ouvimos contar na Bahia, explica esta dupla dependência. Seja nos permitido citá-lo, pois mesmo ignorado dos negros brasileiros não deixa de explicar admiravelmente a concepção que formulam a respeito das plantas: ''Terminada a criação, o Pai Eterno, antes de se retirar para o céu (...) repartiu o universo entre seus filhos; cada qual recebeu de suas mãos ou obteve por conta própria - "por méritos reconhecidos" - o que lhe pertence ainda hoje: Olokun o mar, Aggayu as savanas, Oké as montanhas (...)  etc. Ossaim recebeu o segredo das ervas, o conhecimento de suas virtudes. As ervas eram exclusivamente suas e não as dava a ninguém até o dia em que Xangô, queixando-se à sua mulher Oya, soberana dos ventos, de que só Ossaim conhecia o mistério de cada ewe, encontrando-se os outros Orixas no mundo sem possuir uma só planta, esta abriu as pregas de suas vestes, agitou-as impetuosamente fazendo-as turbilhonar e fé-fé, um vento violento, começou a soprar. Ossaim guardava os segredos dos ewe numa cabaça colhida de uma árvore; vendo que o vento a tinha aberto e que as ervas se dispersavam, cantou: "Eé eggüero, sáué éreo", mas não pode impedir que todos os Orixas se apoderassem das folhas, repartindo-as entre si. Estes deram nomes e uma virtude a cada uma das que tinham tomado. Assim, embora Ossaim seja a dona das ervas, cada divindade tem também as suas na montanha. O papel dos Orixá é, pois, estabelecer uma classificação das plantas no caos da natureza selvagem, de tal modo que permita o uso racional delas pelo Olosaim. Esta classificação é certamente muito diferente da de um Linneu, mas não deixa de ser uma tentativa de interpretação do mundo vegetal ao mesmo título que a daquele sábio. Obedece a outras regras, mas obedece a regras. Podemos distinguir duas utilizações das "ervas", a utilização religiosa como por exemplo na lavagem da cabeça da yauô, e a utilização medicinal. No primeiro caso, a regra em ação é simbólica, no segundo caso a regra é participante. As ervas estão ligadas a esta ou àquela divindade, de acordo com as analogias que podem apresentar para com ela. Por exemplo, a cor de Oxalá sendo o branco, o tapete de Oxalá cujas folhas são circundadas por uma espécie de pelo branco, e o algodão, que no arrebentar das sementes deixa escapar a brancura imaculada de seus flocos, são atribuídos a Oxalá. A folha de fogo, que tem um colorido avermelhado, a dormideira vermelha ( mas somente a desta cor) são atribuídas a Xangô e a Yansan porque a cor destes dois santos é o vermelho. Existe também certo parentesco entre a cor das vestes, a das contas do colar e o das ervas de cada divindade. Outras vezes, porém, é a forma em lugar da cor que se leva em consideração; por exemplo, a espada de Ogun tem a forma de uma faca, o Ogun é o deus de ferro, o rei da guerra, o padroeiro dos assassinos; a casadinha apresenta sobre as folhas uma espécie de montículos, como que verrugas que lhe dão o aspecto das pústulas cobrindo o corpo de Omolú, o santo da varíola. E se a urtiga é igualmente atribuída a esta divindade, é porque quem nela se esfrega apanha coceiras semelhantes às de diversas dermatoses. Os olhos de Santa Luzia pertencem a Yemanjá. Porque parecem, na verdura dos campos, pedaços minúsculos ao mar mirando o azul do céu. Noutros casos o que importa é o perfume, pois pode-se estabelecer correspondências entre os perfumes (os que saneiam a atmosfera, os acres, os voluptuosos) e o caráter das divindades (divindades de purificação - Oxalá; de luta - Ogun; da sensualidade - Oxun). Note-se que o emprego religioso das plantas não tem nada em comum com seu emprego medicinal. O rosmaninho, por exemplo, pertence a Oxalá devido ao perfume purificador e não às propriedades terapêuticas, pois não há ligação alguma entre a tosse, curada com infusões de rosmaninho, e o deus do céu. Se a espada de Ogun está ligada ao deus da guerra, é devido à sua forma e não por ser diurética. Eis porque os dados dos ervanários não podem nos servir para penetrar no mundo mental dos adeptos dos candomblés. Todavia, os olosaim não são chamados apenas para preparar os banhos das yauô, mas também para curar os doentes. Existe, então, uma classificação medicinal das ervas; mas, como veremos, ela obedece também a outras preocupações diferentes das dos ervanários. Página 192. Abraço. Davi.