sábado, 21 de outubro de 2017

II. NOÇÃO DE DIREITO PENAL ISLÂMICO

Islamismo. Texto de Zuhra Mohd Hanini. NOÇÃO DE DIREITO ISLÂMICO. II DIREITO PENAL ISLÂMICO. FURTO. SEGUNDO A CONCEITUAÇÃO DA SHARIAH, FURTO consiste no empoderamento ilegítimo de bens moveis alheios, mediante a subtração dos mesmos, ocultamente, do lugar onde encontravam-se guardados e cujo valor supere um montante determinado. Trata-se de um ato ilícito considerado um crime grave, uma vez que o Islam ordena a preservação dos bens, e proibiu ao apoderamento ilegítimo dos mesmos, condenando o furto, a usurpação, a malversação, e tudo aquilo que signifique subtração de coisa alheia com a intenção de tomá-la para si. Quanto à pena por tal crime é estipulada expressamente no Alcorão Sagrado em 5,38-39 "Quanto ao ladrão e à ladra, decepa lhes a mão, como castigo de tudo quanto tenham cometido: é um exemplo, que emana de Deus, porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo. Aquele que, depois da sua iniquidade, se arrepender e se emendar, saiba que Deus o absolverá, porque é Indulgente, Misericordiosíssimo". Vale ressaltar que a amputação trata-se, na visão islâmica, de uma purificação pelo pecado e uma advertência pelo delito, para que tais crimes não se estendam pela sociedade, acabando com a segurança e a tranquilidade da mesma. A amputação só poderá ocorrer se ocorrerem as seguintes condições: 1. QUE O LADRÃO SEJA capaz ante a Lei e que tenha realizado o delito por livre vontade. 2. QUE O VALOR ROUBADO alcance ou supere o valor de 1/4 de dinar, ou seja, o equivalente a 1,06 gramas de ouro. 3. QUE O FURTO TENHA sido cometido ocultamente. 4. QUE A COISA FURTADA tenha sido subtraída de um lugar seguro destinado pelo proprietário para sua segurança. 5. QUE NÃO EXISTA NENHUMA condição que exima a pena como por exemplo o caso de que quem tenha subtraído tenha sido o seu próprio pai ou filho, ou quando é cometido entre os cônjuges, e também quando ocorrer  por situação de extrema necessidade como fome, etc. 6. QUE A VÍTIMA do furto denuncie o ladrão. 7. QUE SE CONFIRME A AUTORIA do furto seja através da confissão dupla por parte do autor ou então por meio do testemunho de duas pessoas que tenham visto ele cometer o delito. Observa-se que a pena não deverá ser aplicada ante a mínima dúvida sobre a autoria do delito, já que este se presumirá inocente. E por este motivo se a pessoa que confessar se retratar da confissão e não existir provas claras, a pena não será aplicada. Se uma pessoa se apresentar perante o juiz e lhe confessar o furto, sendo que não há nenhuma denúncia contra este, o juiz poderá persuadi-lo a se retratar e a devolver o que foi furtado. Caso este insista em reconhecer o crime e não desmentir a confissão, e uma vez verificada todas as condições a pena lhe será aplicada. A retratação do furto será de duas formas: a primeira será com a devolução do que foi subtraído e a segunda através da amputação da mão no caso de terem se cumprido todas as condições. Aquele que furtar e se arrepender sinceramente perante Deus, devera ressarcir o valor ou o bem furtado, e no caso de não haver demanda contra ele, não deverá fazer público o seu delito, e assim não lhe será aplicada a pena de amputação. A FORNICAÇÃO E O ADULTÉRIO. O ISLAM É UMA RELIGIÃO que priva muito pela castidade e recato do ser humano. Por este motivo estabeleceu o casamento legal como a única e mais sã forma de satisfazer o desejo sexual e preservar os laços de parentesco, e proibiu todo e qualquer outro meio pra tal fim considerando-os graves pecados e delitos, principalmente no que diz respeito à fornicação e ao adultério. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 17,32 "Evitai a fornicação, porque é uma obscenidade, e um péssimo exemplo", em 6,151 é dito: "Não vos aproximeis das obscenidades, tanto pública, como privadamente". Por este motivo a Shariah procura evitar todos os meios pelos quais possa se induzir alguém a cair nestes delitos, dentre eles encontramos o incentivo do Islam aos jovens ao casamento legal. Deus disse no Alcorão 24,32 "Casai os celibatários, dentre vós". Outro meio estipulado pela Shariah com o fim de evitar o adultério e a fornicação é a prescrição aos fiéis para que recatem seus olhares e conservem seus pudores. Também diz o Alcorão Sagrado em 24,30-31 "Dize aos fiéis que recatem os seus olhares e conservem seus pudores, porque isso é mais benéfico para eles; Deus está bem inteirado de tudo quanto fazem. Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores". Além disso, o Islam preserva a mulher e a sociedade ao estabelecer a vestimenta islâmica onde a mulher deve cobrir seus cabelos e seus atrativos, não usando roupas apertadas ou transparentes, exceto perante aqueles que lhe sejam permitidos como estabelece o versículo do Alcorão 24,31 "Dize as fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que normalmente aparecem, que cobram o colo com seus véus e não mostrem os seus atrativos, a não ser a seus esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados, seus sobrinhos, às mulheres suas servas, seus criados, isentas das necessidades sexuais, ou às crianças que não discernem a nudez das mulheres". E também em 33,59 "Ó Profeta, dize a tuas esposas, tuas filhas e às mulheres dos fieis que, quando saírem, se cubram com as suas mantas, isso é mais conveniente, para que distingam das demais e não sejam molestadas; sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo". Também existem várias regras e restrições para evitar que ocorram tais delitos, como por exemplo, a proibição de um homem e uma mulher permanecerem a sós, exceto no caso dos homens que lhe são permitidos (pai, irmão, marido, etc). Proibição do contato físico entre homens e mulheres, a proibição da difusão de obscenidades seja através dos meios de comunicação seja por outros meios, entre outros regramentos estabelecidos no Alcorão Sagrado e na Sunnah do Profeta Muhamad. O ADULTÉRIO E A FORNICAÇÃO são delitos que acarretam grandes prejuízos para a sociedade em geral, atentando contra a preservação e conservação dos laços de parentesco, atentando contra os princípios morais e muitas vezes atentam até mesmo contra o direito das crianças. Como é sabido, nas sociedades onde a fornicação e adultério são praticados normalmente, encontramos milhares de crianças abandonadas nas ruas em função de tais atos irresponsáveis, reduzidas à miséria, além disso, diversas doenças tem se expandido, como por exemplo a AIDS. Inclusive o respeito entre os casais e honra da mulher tem sido afetadas, reduzindo-a muitas vezes em mero objeto de prazer sexual masculino. Todos estes problemas têm sua origem nesses atos que muitas vezes são considerados inocentes e até mesmo são incentivados em muitas sociedades, e ao fim terminam por trazer resultados drásticos para a humanidade. ADULTÉRIO É QUANDO ocorre a relação sexual ilícita entre um homem e uma mulher que sejam casados, mas não entre si. A pena neste caso é a mais grave, todo o adultério seja homem ou que viva num Estado (República) Islâmico e professe ou não o Islam, ser-lhe-á aplicada a pena de apedrejamento. JÁ A FORNICAÇÃO É QUANDO ocorre a relação sexual ilícita entre um homem e uma mulher que não sejam casados. A pena neste caso consiste em 100 vergastadas (açoitar com vara) e penas de desterro por um ano, e será aplicada de igual modo para ambos os sexos: Alcorão 24,2 "Quanto à adultera e ao adúltero, vergastai-os com cem vergastadas, cada um". No entanto tais penas só poderão ser aplicadas se ocorrerem duas condições fundamentais: 1. QUE REALMENTE tenha ocorrido a relação sexual, através do coito. 2. A CONFIRMAÇÃO do fato, e isso se pode dar por duas maneiras: A. A CONFISSÃO DE QUEM COMETEU o delito. Se o autor goza de suas faculdades mentais plenas basta que tenha confessado uma vez perante o juiz. Caso contrário, deverá confessar reconhecendo quatro vezes o delito perante o juiz. Em ambos os casos, o autor deverá ter mencionado expressamente o coito e manter sua confissão até o momento da aplicação da pena. B. PELO TESTEMUNHO E DECLARAÇÃO, perante o juiz, de quatro testemunhas que tenham presenciado e visto o momento da relação sexual, isso confirma que a pena na verdade é destinada para aqueles que fazem questão de tornar público o ato, pois de outra forma seria extremamente difícil conseguir quatro testemunhas oculares do delito. As testemunhas devem ser muçulmanos e reconhecidas pela sua honestidade. Veremos mais adiante que se ficar comprovado que tais testemunhas mentiram todas receberão a pena de 80 vergastadas (vara delgada que serve de chibata). Cabe ressalvar que as penas só se aplicarão se quem cometeu o delito o fez por livre vontade e não tenha sido coagido a tal. No caso, por exemplo, duma mulher que tenha sido violentada, se tal fato ficar comprovado, esta terá o direito de ser indenizada e ao homem será aplicada a pena de adultério ou fornicação dependendo do caso. Também é disposto que se alguém confessa perante o juiz haver cometido um delito punível, sem ter mencionado qual foi, e não existindo denúncias a seu respeito, o juiz deverá manter a confissão em segredo e não indagá-lo sobre o delito, exortando-o a não confessá-lo. Se a pessoa insistir e houver evidências que comprovem deverá ser aplicada a pena. Na aplicação da pena, o fornicado ou adúltero, o incesto e as relações homossexuais são considerados crimes graves, que se comprovadas, serão punidas com a pena de morte. Com relação ao incesto, que se trata da relação sexual com um familiar, que lhe é proibido casar, tal como a irmã, a mãe, a esposa do pai, etc., disse Deus no Alcorão Sagrado em 4,23-24: "Está-vos vedado casar com: vossas mães, vossas filhas, vossas irmãs, vossas tias paternas e maternas, vossas sobrinhas, vossas nutrizes, vossas irmãs de leite, vossas sogras, vossas enteadas, as que estão sob vossa tutela - filhas das mulheres com quem tenhais coabitado; porém, se não houverdes tido relações com elas, não sereis recriminados por desposá-las. Também vos está vedado casar com as vossas noras, esposas dos vossos filhos carnais, bem como unir-vos, em matrimônio, com duas irmãs - salvo fato consumado anteriormente - sabei que Deus é indulgente, Misericordiosíssimo. Também vos está vedado desposar as mulheres casadas". Já com relação ao HOMOSSEXUALISMO, trata-se de delito grave, condenado pelo Islam por tratar-se de desvio sexual que causa doenças terríveis, sejam físicas ou mentais, além de ser algo evidentemente contrária à natureza humana. Deus no Sagrado Alcorão menciona reiteradamente povos da antiguidade que foram castigados por cometerem a sodomia. em 24,54-58 "E recorda-te de Lot, quando disse ao seu povo. Cometeis a obscenidade com convicção? Acercar-vos-eis, em vossa luxúria, dos homens, em vez das mulheres? Qual! Sois um povo de insensatos! Porém, a única resposta de seu povo foi: Expulsai a família de Lot de vossa cidade, porque são pessoas que se consideram castas! Mas o salvamos, juntamente com sua família, exceto sua mulher, que somamos ao número dos deixados para trás. E desencadeamos sobre eles uma tempestade. E que péssima foi a tempestade para os admoestados!". É extremamente importante ressaltar que a regra geral no Islam é a não divulgação dos pecados próprios nem alheios, como forma e medida para evitar que se propague a imoralidade na sociedade. Disse o Profeta Muhamad apud Tuwaijri "Todos os integrantes da minha nação serão perdoados, salvo os exibicionistas que durante a noite cometem indecências e pela manhã, apesar de Deus ter ocultado impedindo que tais coisas fosses descobertas, dizem, pela noite fizemos tal e tal coisa. Passam a noite sem serem descobertos e pela manhã saem revelando os pecados que cometeu e que Deus havia". Portanto, cabe àquele que cometeu tais delitos, se arrepender sinceramente perante Deus e evitar espalhar tal fato, pois é estabelecido pelo Islam que aquele que cometer um pecado e se arrepender sinceramente por ele é como se não tivesse cometido delito algum. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 25,68-70 "Igualmente o são aqueles que não invocam, com Deus, outra divindade, nem matam nenhum ser que Deus proibiu matar, senão legitimamente, nem fornicam, pois sabem que quem assim proceder, receberão a sua punição. No Dia da Ressurreição ser-lhe-á duplicado o castigo, então, aviltadas, se eternizarão nesse estado. Salvo aqueles que se arrependerem, crerem e praticarem o bem; a estes, Deus computará as más ações como boas, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo. Quanto àquele que se arrepender e praticar o bem, converter-se-á a Deus sinceramente". DIFAMAÇÃO E CALÚNIA. O ISLAM PRESA PELA PRESERVAÇÃO da honra das pessoas de tudo aquilo que possa afeta-la, e proíbe expressamente a CALÚNIA e a DIFAMAÇÃO, desta forma protege a dignidade dos seres humanos. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 49,11-12 "Ó fieis, que nenhum povo zombe do outro; é possível que os escarnecidos sejam melhores do que eles os escarnecedores. Que tampouco nenhuma mulher zombe de outra, porque é possível que esta seja melhor do que aquela. Não vos difameis, nem vos motejeis com apelidos mutuamente. Muito vil é o nome que detona maldade, para ser usado por alguém, depois de ter recebido a fé! E aqueles que não se arrependem serão os iníquos. Ó fiéis, evitai quanto possível a suspeita, porque algumas suspeitas implicam em pecado. Não vos espreiteis, nem vos calunieis mutuamente. Quem de vós seria capaz de comer a carne do seu irmão morto? Tal atitude vos causa repulsa! Temei a Deus, porque Ele é Remissório, Misericordiosíssimo". Ainda assim, existem pessoas que caluniam maliciosamente pessoas inocentes e atentam contra a sua honra. Por este motivo a Shariah estabelece uma pena de oitenta vergastadas para aqueles que fizerem acusações graves contra as pessoas sem apresentarem quatro testemunhas oculares do fato que confirme sua acusação. Essa pena abarca quatro tipos de acusações: acusação de adultério, de fornicação, homossexualismo e filiação ilegítima. Tratam-se de pecados graves e delitos puníveis perante a Shariah, cujas penas estão expressas no Alcorão Sagrado em 24,4-5 "E aqueles que difamarem as mulheres castas, sem apresentarem quatro testemunhas, infligem oitenta vergastadas e nunca mais aceiteis os seus testemunhos, porque são depravados. Exceto aqueles que, depois disso, se arrependerem e se emendarem; sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo". Deus exorta no Alcorão Sagrado aos fiéis a não crer em tais difamações e calúnias exceto se forem apresentadas as quatro testemunhas em 24,12-16 "Por que, quando ouviram a acusação, os fiéis, homens e mulheres, não pensaram bem de si mesmos e disseram: É uma calúnia evidente? Por que não apresentaram quatro testemunhas? Se não as apresentarem, serão caluniadores ante Deus. E se não fosse pela graça de Deus e pela Sua misericórdia para convosco, nesse mundo e no outro, haver-nos-ia açoitado um severo castigo pelo que propalastes. Quando a receberdes em vossas línguas, e dissestes com vossas bocas o que desconhecíeis, considerando leve o que era gravíssimo ante Deus. Deveríeis, ao ouvi-la, ter dito: Não nos compete falar disso. Glorificado sejas! Essa é uma grave calúnia!". E disse Deus no Alcorão Sagrado em 24,23-25 referindo-se aos difamadores: "As condições para que esta pena seja aplicada  são quatro: 1. QUE A PESSOA seja capaz perante a lei. 2. QUE AS PESSOAS acusadas sejam muçulmanas e de conduta ilibada, e que sejam acusados de terem cometido relação sexual ilegítima. 3. QUE O ACUSADO solicite a aplicação da pena. 4. QUE O ACUSADOR não comprove a sua acusação através de quatro testemunhas oculares. 4. QUE O ACUSADOR não comprove a sua acusação através de quatro testemunhas oculares. Não será aplicada a pena de forem apresentadas as quatro testemunhas ou se o acusado confessa ter realmente cometido o delito. Cabe ressaltar que se, por exemplo, o acusador vier com mais duas testemunhas, somando um total de três testemunhas oculares do fato, sem, no entanto, haver apresentado a quarta testemunha, a pena de oitenta vergastadas será aplicada aos três. Isso mostra a seriedade da aplicação das penas na Shariah, pois a pena de fornicação, que são cem vergastadas, só será aplicada se forem apresentadas quatro testemunhas oculares do fato, e se estas testemunhas mentirem ou não chegarem ao total de quatro serão punidas com oitenta vergastadas. Aqui convém mencionar que na época do califado de Omar Ibn Khatab (579-644), o segundo califa do Islam, este se dirigiu ao povo anunciando que havia visto duas pessoas cometendo adultério, mas neste momento uma pessoa do povo levantou-se lhe disse firmemente: "Tens quatro testemunhas?", o Califa respondeu: "Mas eu vi com meus próprios olhos", então o homem lhe afirmou: "Se mencionardes os nomes deles lhe aplicaremos oitenta vergastadas por não teres as quatro testemunhas". Aqui é mais uma prova de que no Islam, as leis de Deus estão acima do Estado e de qualquer líder, e todos em conjunto devem respeitá-las. Em outro episódio, também ocorrido no Califado de Omar Ibn Khatab, três pessoas se apresentaram perante o Califa dizendo que foram testemunhas oculares de um adultério, e pediram a condenação dos adúlteros. Neste momento Omar perguntou-lhes: "Acaso vocês tem uma quarta testemunha?" Estes disseram não possuir a quarta testemunha. Então o Califa ordenou que fosse aplicada a pena de difamação sobre os três acusadores. CONSUMO DE EMBRIAGANTES. O CONSUMO DE EMBRIAGANTES, SEM DÚVIDA, é a "mãe" de todos grandes vícios e problemas que assolam a sociedade, pois a embriaguez coloca o ser humano num estado que não lhe permite gozar de suas faculdades mentais plenas e discernimento, provocando-lhes comportamentos prejudiciais à saúde, à alma, à família, à honra e aos seus bens, colocando-o numa posição onde compromete inclusive a sua dignidade. Além disso, é conhecido os efeitos sociais que os embriagante causam tais como a violência, a corrupção, difusão das obscenidades e muitas vezes é causa até de homicídios. Como forma de evitar esse delito a Shariah proíbe qualquer contato com essas substâncias, sendo ilícito o seu consumo, venda, compra, fabricação e inclusive oferecê-las a alguém. Por isso, as autoridades islâmicas devem tomar medidas para que tais inebriantes (que se embriaga) não se expandam pela sociedade. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 2.219 "Interrogam-te a respeito da bebida inebriante e do jogo de azar, dize-lhes: Em ambos há benefícios e malefícios para o homem, porém, os seus malefícios são maiores do que os seus benefícios". Em ,90-91 diz "Ó fieis, as bebidas inebriantes, os jogos de azar, a dedicação às pedras e as adivinhações com setas, são manobras abomináveis de Satanás. Evitai-os, pois, para que prospereis. Satanás só ambiciona infundir-vos a inimizade e o rancor, mediante as bebidas inebriantes e os jogos de azar, bem como afastar-vos da recordação de Deus e da oração. Não desistireis, diante disso?". Disse o Profeta Muhamad: "Não é um verdadeiro crente o muçulmano quando fornica, consome embriagantes, furta ou se apropria ilegitimamente dos bens alheios. A pena pelo consumo de embriagantes deve ser aplicada quando se obtém uma das seguintes provas: 1. A CONFISSÃO DE QUEM reconhece haver consumido embriagantes. 2. O TESTEMUNHO DE DUAS pessoas juntas. Se um muçulmano capaz consumir embriagantes de forma livre e consciente, a ele será aplicada a pena de quarenta vergastadas. Com relação ao CONSUMO E TRÁFICO DE ENTORPECENTES, estes são da mesma forma prejudiciais e puníveis. Segundo os jurisprudentes islâmicos no caso de narcotráfico a pena aplicada será a pena de morte, devido à corrupção e ao enorme prejuízo que causa na sociedade. Já no caso da distribuição de entorpecentes para consumo, comercialização, produção, o juiz dependendo do caso poderá determinar a pena de vergastadas, encarceramento ou multa. No caso de consumo, o juiz determinará a pena mais adequada dependendo do caso. Universidade da Região da Campanha. Campus Universitário do Curso de Direito. Bagé - RS - Brasil. Abraço. Davi.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

I. NOÇÃO DE DIREITO PENAL ISLÂMICO

Islamismo. Texto de Zuhra Mohd Hanini. NOÇÃO DE DIREITO ISLÂMICO. I. DIREITO PENAL ISLÂMICO. HOMICÍDIO - A SHARIAH CLASSIFICA OS DIREITOS e deveres em dois grupos, o primeiro deles refere-se aos direitos e deveres entre a pessoa e seu Criador, e dentro desta classificação vem todas as leis cultuais, sendo as mais destacadas o monoteísmo (crença num só Deus) puro e o cumprimento das orações. O segundo grupo refere-se aos direitos entre as pessoas, e o mais destacado destes direitos é o direito de respeito à vida alheia. Segundo a crença islâmica, no Dia do Juízo Final a primeira coisa que as pessoas serão questionadas será sobre o cumprimento das orações, e após isso haverá a justiça referente aos delitos contra a vida. No Islam, causar a morte de uma pessoa é o mais grave pecado após a idolatria, a menos que seja no cumprimento de uma sentença pelos responsáveis por administração da justiça. Deus disse no Alcorão Sagrado em 5,32 "Quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na Terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade". -+O homicídio se divide em três classes: Homicídio doloso. Homicídio preterintencional. Homicídio culposo. Homicídio culposo. Homicídio doloso. HOMICÍDIO DOLOSO é quando uma pessoa procede com a intenção de tirar a vida alheia empregando para esse fim um maio que sirva para matá-lo. Esse tipo de homicídio pode ser praticado de diversas formas contra uma pessoa, como por exemplo: golpeando-a, introduzindo em seu corpo uma faca, projétil ou outro elemento, por meio da asfixia, envenenando-a ou ainda apresentando falsas testemunhas que acusem a de ter cometido um delito penalizado com pena de morte e esta seja executada. O HOMICÍDIO DOLOSO é penalizado através da lei de talião, isso implica a execução (morte) do homicida. Mas os familiares da vítima podem optar entre pedir sua execução, receber indenização ou perdoá-lo, sendo esta última opção a mais recomendada. Disse Deus no Alcorão Sagrado em 2,237: "Sabei que o perdão está mais próximo da virtude". A Shariah estabelece condições para que seja aplicada a pena de morte, entre elas temos o fato de que a vítima tenha sido assassinada injustamente, e não quando, por exemplo, se tratar de um soldado inimigo que tenha lhe atacado, ou no caso de legítima defesa. Outra condição é que o homicida seja capaz e tenha cometido o homicídio com dolo. A pena de morte não será aplicada no caso de homicídio cometido por criança, dementes e pessoas que não tenham tido a intenção de matar, sendo que nestes casos a pena será pagar uma indenização à família. No caso da criança ou demente, se estas cometerem o homicídio instigado por um capaz, a este será aplicada a pena de morte, porque se considerará a criança como ferramenta utilizada pelo instigador para cumprir com o homicídio. No caso de um sequestro, por exemplo, onde duas pessoas participam do crime, mas uma tinha a intenção de cometer o homicídio e o efetiva, enquanto o outro só tinha a intenção de sequestrá-la, a pena de morte será aplicada somente sobre aquele que cometeu o homicídio, mas se houver uma cooperação ou auxílio, a ambas será aplicada a pena de morte. Não há distinção de sexo na aplicação da pena. As condições que devem existir para que seja exigida a aplicação da pena de morte são 1. QUE TODOS OS FAMILIARES DIRETOS, ou seja, herdeiros legítimos, da vítima estejam de acordo em pedir a execução do homicida, basta que um deles perdoe par que este não possa ser executado. Nesse caso só poderá ser exigido do mesmo o pagamento de uma indenização. 2. DEVE SER GARANTIDA a integridade de quem, sem ser  partícipe do delito, esteja relacionado ao homicida. Por exemplo: Se for solicitada a execução de uma mulher homicida que se encontra grávida, então a execução da pena deverá ser postergada até que dê a luz ao bebê e o amamente por dois anos, para então ser aplicada a pena. Segundo o que estabelece a Shariah, a pena será aplicada no caso do homicida confessar seu crime ou no caso de dois homens reconhecidamente honestos derem testemunho do fato ou ainda quando é realizada a chamada "Qassamah", que consiste no juramento reiterado que realizam várias pessoas, no mínimo cinquenta, com o fim de acusar alguém como autor do homicídio, desde que haja fortes evidências que este foi realmente o autor do crime. A execução da sentença condenatória que decrete a pena de morte será realizada perante a presença da máxima autoridade ou seu representante e deve ser aplicado com um instrumento adequado, como por exemplo, uma espada afiada para quando se executar através da decapitação. Também se pode executar aplicando a regra do talião, e neste caso será aplicada a pena da mesma forma que assassinou a vítima. Inclusive nesses casos apena deve ser aplicada com benevolência. Disse o Profeta Muhammad: "Deus prescreveu a benevolência quanto a todos os assuntos, inclusive quando tiverdes de aplicar a pena de morte (...). Se os herdeiros legítimos da vítima perdoarem o homicida em troca de uma indenização, este deverá pagar o equivalente ao valor de 100 camelos, atualmente cerca de US$ 30 mil dólares, mas as partes poderão acordar um valor menor ou maior que este. O Profeta Muhammad apud Tuwaijri disse: "Quem matar um crente dolosamente, estará nas mãos dos herdeiros legítimos da vítima. Se estes decidirem aplicar-lhe a pena de morte, então será executado, e se optarem por uma indenização, deverá pagar-lhes 30 camelas de três anos., 30 de quatro anos e 40 prenhas, ou o monte acordado. Isto em conceito de indenização agravada". A indenização é agravada por tratar-se de homicídio doloso, poi o valor estabelecido para os outros tipos de homicídio é inferior. No caso de serem vários os homicidas condenados pelo homicídio de uma única pessoa, então estes deverão pagar a indenização de forma conjunta. No caso de homicídio qualificado, que ocorre no caso do homicídio ser cometido mediante uma agravante tal como o engano, armadilha, no caso de latrocínio (roubo seguido de morte), a pena será a pena de morte, e neste caso não se contempla a absolvição da pena por parte dos herdeiros legítimos da vítima. HOMICÍDIO PRETERINTENCIONAL. É QUANDO A MORTE DA VÍTIMA ocorre sem que o homicida tivesse o propósito de causá-la, pois sua intenção era consumar um delito distinto. Como por exemplo, da pessoa que golpeia outra sem a intenção de matá-la, mas em razão deste se produz a morte da vítima. Para este tipo de homicídio não se aplica a pena de morte. Neste caso, a pena é pagar uma indenização aos familiares da vítima e cumprir com a expiação do pecado cometido, que consiste em libertar um escravo crente ou na impossibilidade disso, jejuar dois meses consecutivo. A indenização cnsiste no pagamento de 100 camelas, estando 40 delas prenhas, ou o valor equivalente. Disse o Profeta Muhamad: "A indenização que deve pagar quem comete um homicídio preterintencional, ou seja, aquele que golpeia outro sem ânimo de matá-lo com uma vara ou algo do gênero e a pessoa morre por causa disso, é de 100 camelas, 40 delas prenhas". Os familiares do homicida estão obrigados a entregar estes camelos ou pagar o valor equivalente em dinheiro. Esta indenização pode ser paga em um prazo de até três anos, se os familiares não tiverem dinheiro suficiente para pagar a totalidade da indenização, o valor restante será coberto com os fundos do Tesouro Público Nacional. HOMICÍDIO CULPOSO. OCORRE QUANDO A MORTE de alguém é csusada sem intenção do homicida, mas por imprudência ou negligência deste. Na culpa, a intenção está referida à ação ou omissão que causa o dano sem propósito de fazê-lo, como por exemplo, o caçador que dispara e mata uma pessoa por engano, ou por exemplo, no caso de um acidente de automóvel quando o mesmo ocorre por negligência ou imprudência do homicida. Entram dentro desta categoria o homicídio cometido pelo menor e pelo demente. A pena aplicável ao homicida que cometer um homicídio doloso é de indenização e cumprimento da expiação de seu pecado. A indenização neste caso é de valor inferior aos demais da categoria de homicídio. O Profeta Muhamad disse: "A indenização em caso de homicídio culposo será de 100 camelas, 30 de um ano, 30 de três anos e 10 camelos de dois anos". O pagamento poderá ser feito em camelos ou no valor correspondente, que atualmente é cerca de US$ 26 mil dólares, que poderá sr paga num prazo de três anos, e no caso de insolvência (circunstância em que se encontra a pessoa que não tem meios, ou condições para pagar aquilo que deve) dos familiares, o valor restante será coberto com os fundos do Tesouro Público Nacional. A expiação do pecado consiste na liberação de um escravo crente, e no caso de impossibilidade se deverá jejuar dois meses consecutivamente, esta se trata de uma obrigação que deve ser cumprida pelo autor do delito para expiar seu pecado, conforme o Islam. Uma observação que deve ser feita é que quando um muçulmano matar outro muçulmano por engano numa situação de guerra, ao confundi-lo com um inimigo, este deverá somente cumprir com a expiação, não sendo necessário pagar a indenização à família da vítima. Deus estabelece estas regras no Alcorão Sagrado no seguinte texto em 4,92 "Não é dado, a um fiel, salvo involuntariamente, e quem, por engano matar um fiel, deverá libertar um escravo fiel e pagar compensação à família do morto, a não ser que esta se disponha a perdoá-lo. Se a vítima for fiel, de um povo adversário do vosso, impõe-se o pagamento de uma indenização à família e a manumissão (alforria) de um escravo fiel. Contudo, quem não estiver em condições de fazê-lo, deverá jejuar dois meses consecutivos, como penitência imposta por Deus, porque Ele é Sapiente". Vale ressaltar que as mesmas regras se aplicam da mesma forma se a vítima não for muçulmana, pois o Profeta Muhamad apud Tuwaijri disse: "Quem assassinar um não muçulmano com quem o Estado Islâmico (1) mantém um acordo de paz, não sentirá sequer o aroma do Paraíso. E por certo que seu aroma poderá ser percebido à distância de quarenta anos". (1). Quatro países árabes são considerados hoje republicas islâmicas - Afeganistão, Irã, Mauritânia e Paquistão. Universidade da Região da Campanha. Campus do Curso de Direito. Bagé – RS – Brasil. Abraço. Davi.

OS TRÊS GIROS DA RODA DO DHARMA

Budismo. Texto de Kenchen Thrangu Rinpoche (1933-  ). BUDHA, o sublime, apresentou a VISÃO DO CAMINHO DO MEIO muitas vezes, de maneiras diferentes, as quais se acham sumarizadas nos TRÊS GIROS DA RODA DO DHARMA. Ele ensinou primeiramente em Sarnath - Índia, pouco após sua iluminação, à um grupo de seres que não tinham nem grande energia, nem mentes expansivas. Ministrou-lhes as QUATRO NOBRES VERDADES: ensinou que toda existência comum é sofrimento, que tal sofrimento resulta de nosso próprio carma e que este carma é gerado através do condicionamento degradado de nossas próprias mentes. A mente degradada, afirmou, provém de nosso apego à noção de uma individualidade ou ego. Assim, o Budha demonstrou a natureza sofredora da existência no mundo e suas causas. Em seguida, mostrou a possibilidade da liberação do sofrimento ao alcançarmos o Nirvana. Para se alcançar o NIRVANA (estado de libertação atingido pelo ser humano ao percorrer sua busca espiritual), não é suficiente ter inclinação moral, ou o sentimento de poder alcançá-lo: deve-se estar compelido a praticar o caminho a fim de atingir a completa cessação das degradações e do consequente sofrimento; cessação esta que é o Nirvana. Nesse contexto, O CAMINHO significa contra agir ao apego à noção de ego e auto existência. Assim procedendo, podemos nos livrar das degradações de nossas mentes, da necessidade de gerar carma, e dessa forma, sermos dispensados da necessidade de continuadas passagens (renascimentos) pelo mundo. No PRIMEIRO GIRO da Roda do Dharma", Buddha Shakyamuni, NÃO ENSINOU ESPECIFICAMENTE A VACUIDADE, embora tenha MENCIONADO INDIRETAMENTE. VACUIDADE é uma tradução aproximada do termo sânscrito Shunyata e do termo tibetano Tongpa nyi. O significado básico da palavra Shunyata é zero, enquanto a palavra Tongpa em tibetano é vazio, não no sentido de um vácuo ou espaço vazio, mas sim no sentido de que a base da experiência está além da capacidade de perceber com nossos sentidos ou de ser capturada em um belo e bem arranjado conceito. Talvez uma melhor compreensão do sentido profundo da palavra pode ser "inconcebível ou inominável". Assim, quando os budistas falam da Vacuidade com base em nosso ser, não querem dizer que quem ou o que somos não é nada, é um zero, esse é um ponto de vista que pode dar lugar a um cinismo (ato daquele que demonstra descaso pelas normas sociais ou por uma moral pré estabelecida, ausência de prudência). Os verdadeiros ensinamentos sobre a Vacuidade implicam em um espaço infinitamente aberto, que permite a qualquer coisa aparecer, mudar, desaparecer e reaparecer. O significado básico de Vacuidade, em outras palavras,  é a abertura, ou potencial. No nível básico de nosso ser, nós somos "vazios" de características definidas. Ngawang Tsoknyi Gyatso Rinpoche (1966-   ). A ausência de ego que BUDHA proclamou naquela oportunidade não era a ausência de individualidade num sentido último, mas no sentido mais simples de que não existe nenhum ego, ou auto natureza, permanente e solidamente individual. Posteriormente, em Rajgir, cidade na Índia, ele transmitiu o SEGUNDO GIRO da Roda do Dharma, os ensinamentos a respeito da AUSÊNCIA DE CARACTERES FUNDAMENTAIS. Ensinou as dezesseis modalidades de Vacuidade: as aparências externas são vazias, o mundo interior dos pensamentos é vazio; tanto as coisas externas quanto internas, em conjunto, são vazias; e, assim por diante, em dezesseis estágios. Desta maneira, ele demonstrou que não existe nenhum ego, não apenas no sentido comum, mas também, que nenhuma realidade inerente pode ser encontrada em coisa alguma, seja lá onde investiguemos. Mais tarde, em Sravasti (cidade Hindu onde Sakkiamuni BUDHA passou a maior parte de sua vida monástica) ensinou o TERCEIRO GIRO da Roda, no qual revela que a VACUIDADE NÃO É MERAMENTE VAZIA, mas dá origem a todos os fenômenos e é continuamente expressiva. Este terceiro giro inclui lições sobre a "Fonte dos Tathágatas – um termo impreciso, talvez de maneira intencional, entre assim ido, ou assim vindo, referindo-se ao estado iluminado do BUDHA. Aquele que transcendeu a existência em samsara – é o termo sânscrito e em pali para movimento contínuo ou fluxo contínuo, referindo-se no budismo ao conceito de nascimento, velhice, doença, decrepitude e morte. No qual todos os seres no Universo participam, e do qual só se pode escapar através da iluminação. Tathágata Garba, o ensinamento básico sobre o qual a filosofia da Escola "Mente Única" ou Escola "Somente Consciência", conhecida como (Vijnanavada), nome pela qual foi fundada. A distinção entre o segundo e o terceiro giros é que, nos ensinamentos de Rajgir, o BUDHA pregou a Vacuidade como sendo uma função da aparência,  isto é, a mais alta qualidade da aparência (a sua falta de verdadeira existência), enquanto que, em Sravasti, ensinou-nos a Vacuidade como uma espécie de fundamento a partir da qual tudo é expresso. Os TRÊS GIROS, então, compõem o ensinamento da VISÃO CORRETA. Esse NOBRE CAMINHO há que ser percorrido EM OITO PONTOS, sem se descuidar de um único, SÓ ASSIM É POSSÍVEL SE CONVERTER EM UM BUDHA. 1. VISÃO CORRETA.  É ver de acordo com a realidade de que existe o sofrimento, a sua causa, o seu fim é o caminho que conduz a esse fim. 2. PENSAMENTO CORRETO. Pensamento livre de sensualidade, má vontade e crueldade. 3. LINGUAGEM CORRETA. Linguagem livre de engano, insulta, malícia e estupidez. 4. AÇÃO CORRETA. Ação livre de assassinato, roubo, adultério, mentira e entorpecentes. 5. VIDA CORRETA. Quando o discípulo evita um comércio perverso (adivinhação, usuras, armas, seres vivos, carne, narcóticos e veneno) ganhando a vida por meio retos e honoráveis. 6. ESFORÇO CORRETO. Com os esforços corretos se impedem os pensamentos negativos, desenvolvendo-se os positivos. 7. ATENÇÃO CORRETA. Quando o devoto fica atento e sabe que o corpo, os sentimentos, a mente e os pensamentos são impermanentes estando submetidos à decadência. 8. CONCENTRAÇÃO CORRETA. É a unidirecionalidade da MENTE mediante EXERCÍCIOS RESPIRATÓRIOS e MEDITAÇÕES especiais.  BUDHA ensinou também, muitos métodos para o reconhecimento da Natureza Fundamental e para a prática do caminho segundo os ensinamentos do Mahamudra (SUPREMO GESTO) e as lições sobre Maha Sandhi, ou Dzogchen (A GRANDE PERFEIÇÃO), métodos para a prática e alcance da realização, os quais não diferem do enfoque da VISÃO DO CAMINHO DO MEIO (Madhyamaka). O PRIMEIRO GIRO da roda do Dharma, o primeiro ensinamento sobre AS QUATRO NOBRES VERDADES, e outros aspectos, geralmente diz respeito ao Hinayana. A PRIMEIRA NOBRE VERDADE É QUE HÁ SOFRIMENTO. A DOENÇA é sofrimento, o NASCER é sofrimento, a VELHICE é sofrimento, a MORTE é sofrimento, a DOR e o DESESPERO são sofrimento, o contato com o DESAGRADÁVEL é sofrimento, o DESEJO INSATISFEITO é sofrimento, OS CINCO AGREGADOS da MENTE E DO CORPO que produzem os desejos são sofrimentos. A SEGUNDA NOBRE VERDADE É QUE O SOFRIMENTO SE ORIGINA NOS DESEJOS, que causa o renascimento estando acompanhado pelo prazer sensual, buscando a satisfação nessa plano físico. Estando também além, ou seja, a ânsia de prazeres, a ânsia de nascer de novo, a ânsia de ser aniquilado. A TERCEIRA NOBRE VERDADE É QUE A EXTINÇÃO DO SOFRIMENTO É A VERDADEIRA AUSÊNCIA DA PAIXÃO, a destruição completa dessa ânsia de prazeres, dessa ânsia de nascer, e dessa ânsia de ser aniquilado. O não mais albergar essa ânsia provoca a extinção do sofrimento. A QUARTA NOBRE VERDADE É O CAMINHO QUE CONDUZ A EXTINÇÃO E SUPRESSÃO DA DOR, é a via que leva à eliminação de MARA (é o oposto de BUDHA, ou seja, uma vez que BUDHA é a iluminação, MARA é a ilusão. Isso é personificado com o demônio MARA, que teria tentado impedir SIDHARTA GAUTAMA de alcançar a iluminação, e também vive no interior de cada pessoa procurando mantê-la adormecida na ilusão MAYA do mundo) e à contemplação da verdade única do Ser, e portanto, a suprema felicidade. Ao refletir sobre as quatro nobres verdades e o CAMINHO QUE CONDUZ A EXTINÇÃO DO SOFRIMENTO, BUDHA NOS DIZ  SOBRE AS DOZE CAUSAS DO ETERNO RETORNO, A ORIGEM DO SOFRIMENTO OU A EXPLICAÇÃO DO POR QUE VOLTAMOS A NASCER UMA E OUTRA VEZ, nesse reino humano ou em outro. 1. EXISTE A IGNORÂNCIA. 2. A IGNORÂNCIA CONDICIONA AS FORMAÇÕES MENTAIS. 3. AS FORMAÇÕES MENTAIS condicionam a consciência. 4. A CONSCIÊNCIA condiciona a mente e o corpo. 5. A MENTE E O CORPO condicionam os sentidos. 6. OS SENTIDOS condicionam os contatos. 7. O CONTATO CONDICIONA a sensação. 8. O SENTIMENTO condiciona o desejo. 9. A ÂNSIA condiciona o apego. 10. O APEGO condiciona o processo de chegar a ser. 11. O PROCESSO DE CHEGAR A SER condiciona o renascimento. 12. O RENASCIMENTO condiciona a decadência e a morte, e também a pena, lamentação, dor e desespero". www.vopus.org.  Hinayana é o veículo menor, modesto e Mahayana é o veículo maior, vasto NO BUDISMO. Os dois termos aparecem pela primeira vez no Sutra Prajnaparamita; também chamado o Sutra do Longo Alcance da Consciência Discriminativa, ou Sutra da Perfeição da Sabedoria; surgidos aproximadamente no século II (101-200) de nossa era. Os ensinamentos do "Segundo Giro", sobre os dezesseis aspectos da Vacuidade, foram desdobrados por Nagarjuna no seu Prajna Nama Mula Madhyamaka Karika e, mais tarde, por Chandrakirti no Madhyamaka Vatara, por Shantirakshita no Madhyamaka Lankara e por Aryadeva nas Quatrocentas Estrofes Sobre a Madhyamaka. Estes quatro comentários (Shastras) clarearam a visão da Vacuidade, bem como da Verdadeira Natureza da fenomenalidade. Maitreinatha deu a Asanga cinco comentários em versos sobre o "Terceiro Giro da Roda do Dharma", referentes à "Fonte dos Tathágatas" e  Asanga fez comentários sobre tais versos. A partir dessas explicações, se deriva a linhagem de visão do "Terceiro Giro". A explicação da Vacuidade de acordo com o "Segundo Giro", os ensinamentos de Nagarjuna e Aryadeva,  são chamados em tibetano de Rangtong, o que, basicamente, significa que toda aparência é vazia. A explicação da Vacuidade de acordo com o "Terceiro Giro", o ensinamento de Asanga, é conhecido como Shentong, que significa que a Vacuidade em si mesma não é meramente vazia, mas expressa as qualidades búdicas. Os verdadeiros meios para se chegar ao reconhecimento da Natureza Fundamental não são diferentes nos dois sistemas. A única distinção diz respeito apenas à maneira pela qual a Vacuidade é explicada. Livro A porta aberta à vacuidade. Abraço. Davi.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

II. A BÍBLIA SAGRADA

Cristianismo. Texto de Hélcio Bruno de Almeida. II A BÍBLIA SAGRADA. Capítulo Um. O PENSAMENTO CENTRAL DA BÍBLIA. A. A MAIORIA DOS LIVROS SOBRE a Bíblia apresentam Cristo como o seu pensamento central. Porém, segundo a luz que temos recebido, sentimos que é insuficiente dizer simplesmente que o pensamento central da Bíblia é Cristo. As palavras do apóstolo Paulo na carta aos Efésios são: "Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à Igreja" Ef 5,32. Com tal referência, podemos dizer que o pensamento central da Bíblia é Cristo e a Igreja. B. SEM DÚVIDA, TODA A BÍBLIA revela a Cristo. Mas, ao mesmo tempo, ele também nos mostra que Cristo precisa da igreja, assim como o homem precisa de uma esposa. Desde o começo, a Bíblia apresenta isso em tipo - que não era bom que Adão vivesse só. Pelo Novo Testamento sabemos que tal figura refere-se a Cristo necessitar de sua noiva. Portanto, no começo da Bíblia, não apenas Adão é revelado, mas também Eva foi produzida, a partir de Adão, para se tornar sua noiva, e como os dois tornaram-se um. Havia Adão e também Eva. O apóstolo disse que isso é um grande mistério, mas que ele se referia a Cristo e a igreja. Na Bíblia, não podemos ver apenas Cristo, sem ver a  igreja. Na Bíblia há a história de Deus contatando o homem, por meio de Cristo, mas também vemos o homem ocupando uma posição muito importante. Os personagens centrais na Bíblia são não apenas Deus em Cristo, mas também o homem com a noiva de Deus em Cristo. O casal universal é Deus e o homem. No Universo Deus é o único varão e o homem é seu complemento. Se Deus não tem o homem, é como se Ele fosse "solteiro". No Universo tem de haver o casamento de Deus com o homem - Gn 2,18-25; Ef 5,31,32; Ap 22,17. C. POR ESSA RAZÃO, A PRIMEIRA CENA apresentada no Antigo Testamento é a história de um homem buscando uma esposa. Esse homem tipifica Cristo, e Cristo é a corporificação de Deus. Essa esposa tipifica a igreja, e a igreja é um grupo de homens e mulheres salvos por Deus dentre a humanidade para que sejam edificados por Ele. Por todo o Antigo Testamento, Deus colocava-se o tempo todo na posição de marido para com o seu povo. Deus tratou os israelitas como sua esposa. Mais tarde, veio o Senhor Jesus. João, o antecessor do Senhor Jesus, não apenas apresentou-O como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, mas também testificou que aquele que tem a noiva é o Noivo. João não apenas apresenta o Senhor Jesus como o Cordeiro redentor, mas também como o Noivo que tem a noiva. Então, nas Epístolas, o apóstolo Paulo diz: "Tenho preparado para vos (os salvos) apresentar como como virgem pura a um só esposo que é Cristo". 2 Co 11,2. Ele também diz que a igreja é para Cristo, assim como Eva é para Adão. Em Apocalipse, no fim de toda a Bíblia, há uma proclamação de que chegaram as bodas do Cordeiro. Quando a Nova Jerusalém aparece, é dito que ela foi preparada e adornada para o seu marido. Essa é a união de Deus com o homem. Todas as pessoas redimidas e o Redentor tornam-se um como o mistério do Universo, que é Cristo e a igreja. D. PORTANTO O PERSONAGEM CENTRAL de toda a Bíblia é esse casal misterioso. Deus e o homem tornam-se um, da mesma maneira que o homem tornam-se um, da mesma maneira que o homem e a mulher tornam-se uma carne. O homem e a mulher tornam-se uma carne típica; Deus e o homem tornam-se um. Cristo é Deus tornando-se um com o homem, e a igreja é o homem tornando-se um com Deus. Deus vem em seu Filho, Cristo, para poder tornar-se um com o homem. O homem é edificado em Seu Filho com como Sua igreja, para que possa tornar-se um com Deus. Essa unidade, essa união misteriosa, é Cristo e a igreja, e também a união de Deus com o homem. Esse é o pensamento central da Bíblia. E. TAMBÉM PODEMOS FALAR DO PENSAMENTO central da Bíblia de outra maneria. Cristo é a palavra viva de Deus, e a Bíblia é a palavra escrita de Deus. Cristo é o conteúdo da Bíblia e a Bíblia é a explanação de Cristo. Se tirarmos Cristo da Bíblia, ela se tornará um livro vazio, como um vaso vazio sem o seu conteúdo. Ao mesmo tempo, ninguém pode conhecer bem a Cristo sem conhecer a Bíblia, porque a Bíblia é a explanação de Cristo. Somente quando alguém lê a explanação na Bíblia pode entender e conhecer o que Cristo é. A Bíblia nos diz que tudo o que é de Cristo foi posto na igreja e é expresso pela igreja. Portanto, o pensamento central da Bíblia é Cristo e a igreja. É insuficiente conhecer apenas Cristo, temos de conhecer também a igreja. A Bíblia mostra-nos que a personagem central e Universal tem tanto uma cabeça quanto um corpo. A Cabeça é Cristo e o Corpo é a igreja. Portanto, Cristo e a igreja são o pensamento central da Bíblia. F. FINALMENTE AO OBSERVARMOS a criação do homem em Gênesis, vemos a razão pela qual o casal homem e mulher foram criados. Deus os criou e os abençoou para serem fecundos, multiplicarem, encherem e sujeitarem a Terra, tendo assim domínio sobre a criação de Deus. Isso revela que o casal universal é para o estabelecimento do reino de Deus. Neste sentido podemos concluir que o pensamento central da Bíblia é Cristo e a igreja pra o reino de Deus - Gn 1,26-28. VI OS LIVROS E AS SEÇÕES DA BÍBLIA SAGRADA - A BÍBLIA se divide em duas partes. A primeira parte é chamada de Antigo Testamento e a segunda de Novo Testamento. A. O ANTIGO TESTAMENTO: ESTE SE REFERE a primeira parte da Bíblia, a qual se compõe de trinta e nove livros que se dividem em: 1. OS LIVROS DA LEI: Estes compreendem um total de cinco livros - Gênesis, Êxodos, Levíticos, Números e Deuteronômio, e são chamados de livros da lei porque neles há os mandamentos, os estatutos e os juízos que formam a lei de Moisés para o povo de Israel. 2. OS LIVROS DE HISTÓRIA: Estes compreendem um total de doze livros: Josué, Juízes, Rute, Samuel, Reis I e II, Crônicas I e II, Esdras, Neemias e Ester. Relatam a história dos israelitas desde sua entrada em Canaã até seu regresso do cativeiro. Portanto, eles são chamados dos livros de história. 3. OS LIVROS DE POESIA: Estes compreendem um total de cinco livros: Jó, Provérbio, Salmos, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, os quais expressam em poesia as diferentes experiências espirituais do povo de Deus. 4. OS LIVROS DOS PROFETAS: Estes compreendem um total de dezessete livros, de Isaías a Malaquias, escritos pelos profetas concernentes aos israelitas, aos gentios e a Cristo. Eles dividem-se em profetas maiores de Isaías até Daniel (5 livros), e profetas menores de Oseias até Malaquias (12 livros). B. O NOVO TESTAMENTO: Este se refere a segunda parte da Bíblia, a qual se compõe de vinte e sete livros que se dividem em: 1.OS LIVROS DE HISTÓRIA: Estes compreendem um total de cinco livros, do Evangelho de Mateus aos Atos dos Apóstolos. Os quatro primeiros são uma história do Senhor Jesus e o último é a narração do mover dos discípulos na Terra depois da ascensão do Senhor aos céus. 2. AS EPÍSTOLAS: Estas compreendem um total de vinte e um livros, desde o livro de Romanos até o livro de Judas, os quais são cartas escritas pelos apóstolos às igrejas, ou aos santos em particular. Elas transmitem a visão e o encargo de cada apóstolo às igrejas e aos santos de acordo com as suas necessidades, a fim de que tenham uma vida da igreja e espiritual normal. 3. O LIVRO DE PROFECIA: O único livro de profecia do Novo Testamento é o Apocalipse, o qual é o livro que conclui o Novo Testamento e é o último livro de toda a Bíblia. Contem profecias relacionadas com a igreja, Israel, o mundo, a segunda vinda de Cristo, o destino de Satanás, o juízo final, a era vindoura e a eternidade. VII; OS TEMAS DA BÍBLIA SAGRADA: A. O TEMA GERAL: Deus planejou e criou; Satanás rebelou-se e danificou; o homem caiu e perdeu-se; e Cristo redimiu e edificou para o estabelecimento do reino de Deus. B. O TEMA DO ANTIGO TESTAMENTO: 1. Deus criou, Satanás danificou, o homem caiu e Deus prometeu a vinda de Cristo para a redenção. 2. Deus deseja levar o homem a Cristo para obter a redenção voltando a pertencer a Deus. C. O TEMA DO NOVO TESTAMENTO: 1. Cristo vindo para redimir os pecadores e edificar a igreja, conforme o plano de Deus. 2. Em Cristo, a igreja é redimida e edificada, e o reino é estabelecido. D. AS DIFERENÇAS ENTER O NOVO TESTAMENTO E O VELHO TESTAMENTO: 1. Os dois testamentos e as duas alianças que Deus fez com o homem. 2. Deus fez uma promessa para Abraão e mais tarde também confirmou com um juramento - Gn 22,16. 3. A promessa tornou-se uma aliança - Gl 3,15-17. 4. A velha aliança foi proclamada no monte Sinai (Os Dez Mandamentos), por Moisés, em Ex 19 e continuou até o tempo de João Batista 0 Mt 11,12-13. 5. Dois mil anos mais tarde, Deus enviou Jesus, que derramou Seu sangue na cruz e cumpriu a nova aliança - Lc 22,20. E. O VELHO TESTAMENTO, UMA ALIANÇA que foi acrescentada e abolida - Rm 5,20; Gl 3,19; 22-26; Hb 8,13. 1. Promulgada por mão de Moisés - Gl 3,19; Jo 1,17, Ex 24,3. 2. Sancionada pelo sangue de touros e de bodes - Hb 9,22; 18-20; Ex 24,6-8. 3. Baseada na lei, como sua condição, a qual não pode dar vida - Dt 6,1-3; Gl 3,10; 3,21. 4. Requer que o homem faça algo - Gl 3,12; Dt 4,1; 5,1. Aplica-se somente ao período do Velho Testamento - Hb 8,13; Jr 31,31-34. F. O NOVO TESTAMENTO, UMA MELHOR ALIANÇA QUE É ETERNA - Hb 8,6; 7,16; 13,20; 8,13. 1. Cumprida por Jesus Cristo - Mt 26,28. 2. Estabelecida com o sangue de Jesus, o Filho de Deus - Lc 22,20; 1 Jo 1,7. 3. Baseada na graça, como sua condição, a qual dá vida - Rm 6,14. 4. Exige que o homem somente creia - Rm 11,6; Jo 3,15,18. 5. Aplica-se para o período do Novo Testamento e pela eternidade - Jr 31; Hb 13,20. VIII. COMO LER A BÍBLIA - Como a Bíblia é a Palavra de Deus, sua natureza é divina e espiritual, precisamos aprender a lê-la para obter benefício em todo o nosso ser. A. LENDO-A COM ENTENDIMENTO. "Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras" Lc 24,45. Ao ler a Bíblia, devemos primeiro usar o entendimento de nossa mente para compreender seu texto, o qual está escrito em linguagem humana, e conhecer seu significado. B. LENDO-A COM SABEDORIA. 1. "Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria" Cl 3,16. 2."Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele" Ef 1,17. Estes dois versículos indicam que necessitamos entender com sabedoria a palavra com respeito às coisas divinas reveladas por Deus na Bíblia. Efésios 1,17 também nos mostra que tal sabedoria está unida ao nosso espírito. Esta sabedoria não é a que temos por natureza, mas a que obtemos por meio da oração. Tal sabedoria em nosso espírito é mais profunda e mais alta que o entendimento em nossa mente. Compreendemos a letra da Bíblia com o entendimento em nossa mente, mas ganhamos a revelação da verdade da Bíblia por meio da sabedoria em nosso espírito. C. RECEBENDO-A COM O ESPÍRITO. "Tomai também (...) a espada do Espírito, que é a palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito" Ef 6, 17-18. Aqui nos diz que recebemos a palavra de Deus orando no espírito. Isto nos revela que também necessitamos exercitar nosso espírito quando lemos e recebemos a palavra de Deus. Isto se faz, indubitavelmente, por meio da oração. Portanto, ao ler a Bíblia, depois de haver entendido o significado do texto com nosso entendimento e haver compreendido a verdade do texto com nossa sabedoria, devemos usar nosso espírito mediante a oração para receber as verdades da Escritura na parte mais profunda de nosso ser, isto é, em nosso espírito. Em outras palavras, depois de entendido o texto e recebido a verdade que contém, todavia devemos exercitar nosso espírito para converter em oração o que entendemos e compreendemos afim de que a verdade seja assimilada em nosso espírito e assim tornar-se nosso suprimento de vida e a base de nossa experiência espiritual. D. LER-ORAR A PALAVRA: Outra forma simples, espiritual e benéfica de desfrutar a Bíblia é tomá-la por meio do ler-orar. Lemos o texto bíblico com repetição, com ênfase, de maneira viva, transformando cada frase e cada palavra em nossa oração. Às vezes podemos aplicar o texto a nós mesmos mediante a oração. Quanto mais praticarmos o ler-orar, mais elevado, liberado, mais profundo e mais cheio ficará o nosso espírito. Esse é o benefício que recebemos. E. DESFRUTANDO A PRECIOSIDADE E DOÇURA DA PALAVRA. "Para mim vale mais a lei que procede de tua boca do que milhares de outro ou de prata" Sl 119,72. "São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado e são mais doces do que o mel" Sl 19,10. Esses versículos revelam a preciosidade da palavra de Deus na Bíblia, pela qual o nosso desejo é continuamente despertado. Revelam também a doçura e amabilidade da palavra de Deus. F. DEDICANDO UM TEMPO PARA LER A BÍBLIA: Podemos ler a Bíblia em qualquer momento e devemos fazê-lo sempre que possível ou necessário. No entanto, falando em termos gerais, é melhor lê-la pela manhã, antes de ter contato com qualquer pessoa ou coisa. Tais ocasiões podem não durar muito tempo, mas devemos anelar ler a Bíblia antes de qualquer outra coisa, sempre que possível mesclados com oração - Sl 119,145-149. IX. OS PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA. A. TODO ENSINAMENTO DA BÍBLIA DEVE estar perfeitamente harmonizado com a linha central da economia de Deus, a qual é revelada na própria Escritura. B. OS FATOS OU RELATOS QUE ESTÃO INCLUÍDOS NA BÍBLIA não indicam, necessariamente, que devem ser seguidos como um ensinamento, mas é preciso discernimento para perceber qual é a vontade de Deus - Hb 4,12; Ef 1,15-17; At 15,22-29. C. A BÍBLIA EXPLICA A PRÓPRIA BÍBLIA: 1. Somente a totalidade dos versículos pode manifestar toda a verdade - 2 Pe 1,20. 2. Uma porção da Escritura não é suficiente para representar de modo completo uma verdade - Mt 4,7; Sl 91. 3. Ao concluirmos sobre uma verdade não podemos omitir nenhuma porção da Palavra sobre aquele assunto: exemplo acerca da salvação eterna e a disciplina dispensacional - Rm 10,13; 1 Co 3,19; 1 Co 9,27. 4. Os textos podem ser de interpretação literal como também na forma de parábolas para aplicação. Devemos ter muito cuidado com tais porções para não formalizar ensinamentos errôneos ou que contrariam o sentido moral ou ético das demais Escrituras - Lc 16,1-9; 19-31. 5. Devemos levar em conta a diferença das pessoas para quem a palavra é dirigida, as diferenças nas dispensações e o background (histórico ou pano de fundo) - 1 Co 10,32; Mt 5,21-22; Jo 13,5-11. 6. A revelação das Escrituras é progressiva e constante - Mt 5,43-44; 17,1-8; 2 Pe 1,12,19. 7. As Escrituras revelam dois grupos de verdades, as básicas e as secundárias. As básicas podem ser comparadas ao tronco e as secundárias com os galhos da árvore. As básicas são essenciais à vida, e dizem respeito à revelação de Deus e de sua obra redentora em Cristo, enquanto as secundárias são referentes às práticas dos crentes e das igrejas. Devemos discernir entre os dois grupos - Mt 16,16-18; 1 Co 14,1-4,31,30. X. COMO ESTUDAR A BÍBLIA - sendo uma pessoa correta: A. A NECESSIDADE DE SER ESPIRITUAL: 1. As palavras que eu vos tenho dito são Espírito - Jo 6,63,55; 4,24;3,6; Cl 2,23. 2. Conferindo coisas espirituais com espirituais, sendo espiritual e andando segundo o espírito - 1 Co 2,1-4,5-7. B. A NECESSIDADE DE CONSAGRAÇÃO: 1. Estando com o coração aberto. - 2 Co 3,18. 2. Tendo o olhar singelo - Mt 6,21,24. 3. Sendo continuamente obediente - Jo 7,17. C.  A NECESSIDADE DE PRÁTICA - Hb 5,13,14. Livro As Doze Lições Básicas do Ministro do Evangelho. Abraço. Davi  

I. A BÍBLIA SAGRADA

Cristianismo. Texto de Hélcio Bruno de Almeida. I A BÍBLIA SAGRADA. Capítulo Um. PREFÁCIO. Louvado seja o Senhor pela sua infinita misericórdia em nos conceder a sua palavra e nos permitir desfrutar e publicar este material que trata de maneira bastante completa a respeito de pelo menos doze principais pontos que descrevem toda história de Deus com o homem. Cremos que estas lições darão uma base sólida para todo crente que ler e desfrutar delas com um coração para ser ajudado. Este material tem como objetivo, dar-nos uma visão completa da linha central que percorre toda Bíblia. As duas primeira lições abrangem  desde a origem da Bíblia, como a sua função, conteúdo e também o que ela revela acerca da criação de Deus e do propósito de Deus ao criar o homem com três partes - corpo, alma e espírito - afim de se dispensar para dentro dele com vida, tornando-se seu conteúdo. Estas lições também  trazem uma explicação profunda a respeito da intenção original de Deus ao fazer tal obra grandiosa, que é criar o homem à sua imagem e semelhança. Nas lições de Três e quatro podemos ver com muita clareza a respeito da queda do homem e sua condenação, bem como quais são os inimigos do homem. A lição cinco mostra a maneira maravilhosa que o Senhor preparou para que o homem fosse resgatado pelo preciosos Sangue de Cristo. Louvamos ao Senhor, pois por meio da redenção de Cristo o homem foi reconciliado com Deus,foi salvo eternamente, pois a vida eterna, a vida de Deus entrou nele, regenerando-o. Esta é a base para a salvação não apenas do espírito humano, mas também da alma que deve ser transformada, e por fim, o corpo glorificado. Tudo isso podemos ver nas lições seis e sete. As lições oito e nove deste material vêm para nos ajudar em relação a nova maneira de vida e também alcançar o crescimento de vida, a plena filiação. Nas lições dez e onze é-nos mostrado que tal crescimento ocorre em um ambiente puro e cheio de vida que é a vida da igreja, onde os santos são aperfeiçoados e alcançam a maturidade. Por fim, na lição doze vemos que a prática da vida da igreja é dada por meio dos grupos familiares onde todos os santos são cuidados mutuamente. Nos grupos familiares os santos também são apascentados e alimentados com a comunhão do ensinamento dos apóstolos. E como resultado seremos aperfeiçoados e ajudados quanto a pregação do evangelho que é a nossa comissão. Nós agradecemos ao Senhor pela graça concedida e oramos para que todos aqueles que tenham este material saibam desfrutá-lo e serem beneficiados, não com que ensinados por uma cartilha de conhecimentos gerais, mas sim que sejam nutridos com vida de Deus e calçados com o evangelho da paz. A BÍBLIA SAGRADA - ESBOÇO GERAL. I. A BÍBLIA É A PALAVRA DE DEUS. II. A ORIGEM DA BÍBLIA. III. O CONTEÚDO DA BÍBLIA. IV. AS FUNÇÕES DA BÍBLIA. V. O PENSAMENTO CENTRAL DA BÍBLIA. VI. OS LIVROS E AS SEÇÕES DA BÍBLIA. VII. OS TEMAS DA BÍBLIA. VIII. COM LER A BÍBLIA. IX. COM INTERPRETAR A BÍBLIA. X. COMO ESTUDAR A BÍBLIA. I. A BÍBLIA SAGRADA - A. É a revelação de Deus para o homem, a fim de que ele conheça a si mesmo, a Deus e ao plano de Deus. B. O homem precisa conhecê-la, pois sem dúvida, nela obterá as respostas para todos os seus questionamentos e a solução para todos os seus problemas. C. Se o homem não reconhece que a Bíblia é a Palavra de Deus, então o seu estudo será apenas a obtenção de mero conhecimento para satisfazer a curiosidade ou de pensamentos, provérbios e filosofias, que não terão a menor possibilidade de satisfazer as sus reais necessidade. D. Os principais argumentos. que sustentam a afirmação de que a Bíblia é a Palavra de Deus são: 1. PELA FÉ: Deus soprou dentro do homem o espírito, que é também o espírito da fé, pelo qual o homem pode contatar Deus, reconhecê-lo e discernir as suas coisas - Gn 2,7; Jó 12,10; 32,8; Pv 20,27; Mt 5,3; ICo 2,14. 2. PELA LÓGICA: A. Por constituir no único livro que afirma claramente que Deus é a sua fonte; por superar a qualquer outro livro quanto ao seu inigualável padrão moral; por ser o único livro que aborda com clareza e exatidão a origem do Universo, a criação e a função do homem, o futuro da Terra e da Humanidade e a existência de Deus; além de ser o livro com maior número de exemplares e de maior alcance (mais de 2 mil idiomas) - Gn 1,1,26; Jo 1,1-3. B. John Wesley (1703-1791) disse que a Bíblia, se não tivesse sido escrita por Deus, somente poderia ter sido escrita por um homem bom ou por um mal. Um homem mal não teria sido, pois ele estaria se condenando, tampouco um homem bom, pois ele seria mentiroso, uma vez que a Bíblia atribui ao próprio Deus a sua autoria. 3. PELA SUA COMPLETAÇÃO: A. Seus escritores são mais de 40 e seus escritos feitos em mais de 1600 anos; a soma das letras de cada palavra do Pentateuco (cinco primeiros livros do Antigo Testamento)), em hebraico, é múltiplo de sete (o número sete indica um ciclo completo); os registros dos erros dos antepassados revela sua singularidade: II Sm 24,10, 14-17; Mt 1,6; e sua lei moral revela um incomparável padrão do criador e legislador; Ex 20,17; Rm 7,7. B. Tanto o hebraico, o idioma que foi escrito o Antigo Testamento, e o grego "Koiné", o idioma do Novo Testamento, não sofreram evolução como a maioria dos idiomas existentes. Isso protege o significado original dos textos bíblicos. Com relação as aplicações, não há problemas linguísticos seu entendimento. A Bíblia apresenta fatos, pensamentos e o sentir do Espírito, todos eles, desde que compreendidos adequadamente, podem ser aplicados aos nossos dias. Os relatos bíblicos mostram que a cultura e os hábitos dos povos podem mudar, mas as suas necessidades de segurança, satisfação e de paz continuam as mesmas, e, especialmente, no que se refere a necessidade humana de relacionar-se com Deus - Gn 4,16, 20-26. 4. POR SUAS PROFECIAS (alguns exemplos): A. Uma profecia válida deve ser anunciada antes do seu acontecimento; deve estar além da capacidade de provisão humana; deve explicar detalhes; o tempo para o seu comprimento deve ser suficiente para que não haja manipulação humana; e o seu cumprimento deve ser claramente manifestado. B. As concernentes a Cristo, cujo cumprimento com relação a sua primeira vinda e obra foi cabal e agora vemos o cumprimento de suas palavras em relação a sua segunda vinda - Is 7,14; Mq 5,2; Os 11,1; Jr 2,18, Is 11,1; Mt 24,3-14. C. As concernentes as experiências do povo de Israel - Dt 28,58-68; 30,1-6; 2Rs 17,3-13; Ed 1,1-4. D. As concernentes a povos, nações e cidades como Tiro, Sidom e Babilônia - Ez 28,11-19, 20-26; Jr 51,54-64. 5. PELO SEU PODER: manifestado na pregação do evangelho; na mudança do comportamento das pessoas; na sensibilização da consciência; no amor dedicado pelos seus leitores, mesmo diante de ameças e da morte; e na sua indestrutibilidade e avanço mesmo sofrendo perseguição implacável e duradoura (tal como o Império Romano lançou por mais de 300 anos). 6.PELA CIÊNCIA: A. Por conter registros acerca da redondeza e coração da Terra (Jó 26,7; Is 40,22, Jó 38,14) e do número ilimitado das estrelas (Jr 33,22), antes mesmo de que houvesse qualquer tecnologia capaz de fazer tais constatações. B. A ciência é evolutiva, suas conclusões dependem de estudos, pesquisas e tecnologia que estão permanentemente avançando, as quais, via de regra, contrariam ou refutam resultados anteriores. Nesse sentido, podemos afirmar que nenhum fato bíblico pode ser, adequada e comprovadamente, contestado pela ciência. A formação do homem a partir do pó da Terra, segundo Gênesis 2,  é cabalmente confirmado pelo estudo da constituição química do corpo etc. C. Quanto aos milagres que a Bíblia menciona, tal como a travessia do Mar Vermelho e a destruição do exército de Faraó: tais fatos são aceitos pelos cristãos pela fé, da mesma maneira que creem na própria existência de Deus e em sua obra de criação (Hebreus 11,1-6; Romanos). As pessoas que dizem não crer em Deus Porque não o veem, via de regra, não tem dificuldades em crer que um cheque corresponde a um valor no banco que elas não estão vendo, da mesma forma que acreditam em bactérias e em outras descobertas científicas, sem também nunca tê-las visto ou comprovado. Por que não creem no que a Bíblia diz? Somente porque não veem Deus? Muitas pessoas acreditam que uma explosão (teoria do big bang ocorrido aproximadamente a 14 bilhões anos atrás) ocasional foi a origem de todas as coisas. Porém como poderiam explicar que desta explosão o homem tenha surgido e com ele todas as coisas inteligentes? Tais pessoas duvidam que Deus possa abrir e fechar uma passagem pelo Mar Vermelho, ou faze chover sobre a Terra até que ela fique submersa, como no caso do dilúvio, mas são capazes de crer que o nada fez tudo isto que temos agora. Logo, se cremos que Deus existe, não há lógica em duvidar que Ele seja capaz de fazer qualquer coisa, sendo que criou o Universo e todas as demais coisas a partir do nada. Assim a existência de Deus explicaria qualquer milagre. D. A questão da vida pré adâmica também é apresentada pela Bíblia, uma vez que ela confirma a existência de uma Terra primitiva, com seus habitantes, os quais envolveram-se na rebelião de Lúcifer. A reação divina veio na forma de um julgamento aos rebeldes, os quais passaram a constituir o reino das trevas, sob a liderança de Satanás. A Terra, portanto, tornou-se sem forma e vazia. Naquele momento Deus veio fazer uma obra de restauração, que foi concluída com a criação do homem, a fim de restabelecer o reino de Deus na Terra - Gn 1,1; Is 14,12-16; Ez 28,11-19; Ap 12,4; Lc 10,18 Jó 40,1. 7. PELA HISTÓRIA DO POVO JUDEU: desde seu chamamento, formação, viver, divisão, cativeiro e restauração - Ex 19,5-6; Dt 28,58-68; 30,1-6; 1Rs 17,3-13. 8. PELO TESTEMUNHO DO PRÓPRIO SENHOR JESUS E DE OUTROS ESCRITORES DA BÍBLIA: Jesus referiu-se 49 vezes ao Velho Testamento no Evangelho de Mateus (Mt 5,17-18; Davi (Sl 119,135; Nm 6,25); Pedro (1Pe 2,6; Is 28,16); Paulo (Rm 9,17; Ex 9,16); também fizeram referência ao Antigo Testamento. 9. PELOS DOCUMENTOS ANTIGOS E PELA ARQUEOLOGIA (livro Conhecendo a Bíblia de Witnees Lee (1905-1997). II. A ORIGEM DA BÍBLIA. A. "Toda Escritura é (soprada) inspirada por Deus" 2 Tm 3,16. 1. A origem da Bíblia é o próprio Deus. 2. Todas as palavras que fazem parte da Bíblia foram inspiradas por Deus, ou seja, foram divinamente citadas e registradas para revelar toda a sabedoria do seu amor. 3. O que foi soprado não forma somente palavras, mas também Espírito e vida -Jo 6,63. B. "Homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" 2 Pe 1,21. 1. Por meio de seu Espírito, Deus soprou sua palavra para dentro e de dentro dos homens que, conduzidos pelo Espírito Santo, falaram a palavra de Deus. 2. No Antigo Testamento Deus usou os profetas, sejam eles líderes do povo como Moisés, sejam pessoas humildes como boieiros, a exemplo de Amós. No Novo Testamento Deus usou o Seu Filho, que por Sua vez usou seus santos e apóstolos - Hb 1,1-2; 2Pe 3,15-16. 3. Os autores da Bíblia foram inspirados, porém os seus registros não são apenas do que Deus disse, mas incluem porções do que o homem disse e até mesmo de Satanás. - Gn 3,1-8; Mt 41-11; 16,21-23; 17,1-8. III. CONTEÚDO DA BÍBLIA. A. O conteúdo da Bíblia é a verdade e a vida - Jo 17,17; 6,63. B. "A tua palavra é a verdade" Jo 17,17. Nesta passagem o Senhor Jesus indica que a Palavra de Deus Pai na Bíblia é a verdade; ela nos revela a realidade do próprio Deus e do seu plano, para que creiamos Nele e o recebamos: 1. A verdade traz-nos a revelação e o conhecimento de todas as realidades do Universo, tais como a realidade de Deus, a realidade do homem, a realidade de Todas as coisas da era presente, da vindoura e da eterna, especialmente a realidade do Cristo designado por Deus que é percebida como o Espírito da realidade - Jo 14,6, 16-17; 16,13; 4,23-24. 2. Um grande problema é não praticar a verdade ou seja torná-la Espírito e vida, para que sejamos habilitados a vivê-la. Se ela não é praticada torna-se mera doutrina ou letra, que traz soberba, condenação e morte - 2 Co 3,5-6; 1 Co 8,1. Por isso, graças ao Senhor, que hoje nos tem conduzido a praticar o LORP: Ler, Orar, Ruminar e Profetizar. Dessa forma, temos desfrutado da Palavra cada vez mais como Espírito e vida e temos podido aplicá-la a nosso viver diário, tornando-a real para nós. 3. A verdade precisa ser revelada pelo Pai, mediante o Espírito, que é o próprio Senhor, para que seja praticada - Dt 29,29; Mt 11,25-27; 13,11; 2Co 3,14-18. C. "Dizei ao povo todas as palavras desta Vida" At 5,20 - Este versículo mostra-nos o que o anjo falou a Pedro, ordenando-o que anunciasse ao povo as palavras da Vida, que são as palavras da Bíblia pregadas pelos apóstolos: 1. Visto que as palavras contêm vida, elas podem suprir vida, e essa vida é o próprio Deus - Jo 1,1-4; 1 Jo 5,12,20. 2. Vida é o próprio Deus vindo para ser a nossa vida, fazendo com que sejamos regenerados, cresçamos, sejamos transformados e conformados a imagem de Cristo, que expressa Deus, a fim de tornar-nos sua expressão - Jo 1,12; 3,16; Rm 8,29-30. IV. AS FUNÇÕES DA BÍBLIA. A. "AS ESCRITURAS (...) SÃO elas mesmas que testificam de mim" Jo 5,39. A primeira função da Bíblia é testificar de Cristo. A Bíblia é a explicação e a expressão de Cristo. Cristo é a Palavra viva de Deus, e a Bíblia é sua palavra escrita. Cristo, a Palavra viva, é a realidade. Sem Ele, as palavras escritas da Bíblia não passam de doutrinas vazias e letras vãs. Todavia, sem a palavra escrita da Bíblia como Sua expressão, Cristo, a Palavra viva, seria abstrato e intocável. Portanto, para conhecer Cristo devemos ler a Bíblia. B. "AS SAGRADAS LETRAS que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus" 2 Tm 3,15. Por um lado, a Bíblia testifica de Cristo, por outro, torna-nos sábios para a salvação pela fé em Cristo Jesus, revelando-nos o método do homem pela fé, para que saibamos como ser salvos. C, "FOSTES REGENERADOS NÃO de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente" 1 Pe 1,23. A palavra viva de Deus, na Bíblia, é a semente da vida que nos capacita a obter a vida de Deus para sermos regenerados. D. "DESEJAI ARDENTEMENTE, COMO CRIANÇAS recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação" 1 Pe 2,2. "O leite espiritual" refere-se à Palavra de Deus que se torna o leite que alimenta. Para as crianças espirituais, recém-regeneradas, a Bíblia é o leite nutritivo que as faz crescer. E. "NÃO SÓ DE PÃO VIVERÁ o home, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" Mt 4,4. Pelo contexto, as palavras que saem da boca de Deus se referem às palavras de Deus na Bíblia. Tais palavras não são apenas nosso leite espiritual, mas também nosso alimento espiritual, que no nutre, a fim de podermos não apenas crescer, mas nos fortalecer e amadurecer. F. "LÂMPADA PARA OS MEUS PÉS é a sua Palavra, e luz para os meus caminhos" Sl 119,105. A palavra de Deus na Bíblia não somente ilumina nosso coração e espírito, interiormente, para nos dar sabedoria e revelação, como também ilumina nossos passos e caminhos, exteriormente, para que não nos desviemos na carreira da salvação. G. "TODA ESCRITURA (...) É ÚTIL PARA O ENSINO, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra" 2 Tm 3,16-17. As palavras da Bíblia podem também ensinar, repreender, corrigir e educar as pessoas na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e completamente habilitado para toda boa obra. Livro As Doze Lições Bíblicas do Ministro do Evangelho. Abraço. Davi.

domingo, 15 de outubro de 2017

ATMAN - A MONADA

Editor do Mosaico. Na Índia há uma árvore que os Brâmanes hindus consideram como a representação setenária (sete partes) do homem. Ela é pequena e contem sete galhos folheados. É simbolizada como as sete partes do homem; que por sua vez, se dividem em duas. Uma representa o quadrado em quatro partes e a outra representa o triângulo de três vértices. Essa tipologia bipartite do homem traz uma melhor compreensão de suas características física (densas, espessas) e espiritual (fluida, volátil). Grosso modo podemos exemplificar como aquilo que é material e o que é imaterial. No cristianismo temos a clássica divisão do ser humano como: corpo, alma e espírito. O corpo é a parte material e perecível, a alma o lado imanente – que se expressa através da percepção dos sentidos, emoções e sensações. Ela é a personalidade exteriorizada no temperamento e comportamento humano. O espírito é a parte transcendente, identificada com a centelha divina em cada indivíduo. Gn 2,7 “E formou o Senhor Deus o homem do pó da Terra, e soprou em suas narinas o folego da vida; e o homem foi feito alma vivente”. Gn 3,19 “(...) porquanto és pó e em ó te tornarás”. O pensamento teosófico baseado nas tradições orientais, expande estes aspecto dando (alguns em sânscrito – língua hindu) novos nomes e aplicando conceitos mais abrangente e refinados. Esse assunto sempre volta a tona pois, quando falamos do humano num de seus aspecto, precisamos comentar os outros para uma abrangência mais precisa do raciocínio a ser usado. A bipartição humana é formada da parte inferior chamada quaternário e da parte superior chamada tríade. A camada inferior contém: o corpo físico, o corpo etérico, o corpo astral e o manas inferior (alma humana). Essa categoria é a representação de nossa personalidade (conjunto de características psicológicas, que determinam os padrões de pensar e agir, ou seja, a individualidade pessoal e social de alguém. A formação da personalidade é um processo gradual, complexo e único a cada indivíduo). É importante para os futuros renascimentos que a personalidade seja completamente desintegrada após a nossa morte, pois como o centro dos desejos, prazer e vontade mundanos "ela" age involuindo nosso progresso espiritual quando a tomamos para dar vazão aos nossos vícios – ciúme, discórdia, ódio, inveja, luxúria, ira, egoísmo e outros. Não havendo um desprender adequado da personalidade, (pós mortem) nosso carma precisará ser compensado dentro de reencarnações reparadoras e retificadoras. Por conseguinte a personalidade passará por um doloroso processo de eliminação. Uma boa analogia está em Mateus 25, 30 "Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores, ali haverá pranto e ranger de dentes". As "trevas exteriores" aqui, é um lugar de disciplina corretiva para reparar o carma negativo que foi adquirido na encarnação passada. Conforme a gravidade do vício, ela prosseguira em futuras reencarnações, até ser completamente eliminada. A camada superior contêm: o Manas Superior - alma espiritual, Buddhi - intuição e Atma - consciência. Esta classe é a tipificação de nossa individualidade – nossa parte perene que se une ao Divino em nossa Senda evolucionária. Ela é a instância onde reviveremos nossos futuros renascimentos. A compreensão é que nossa vida atual é o resultado das vidas passadas que vivemos. A doutrina teosófica mensura pelo menos 777 novos renascimentos, um postulado feito por Helena P. Blavatsky (1831-1891) em sua celebre obra A Doutrina Secreta. Isso pensando em nosso planeta Terra onde se imagina começar nosso percurso evolutivo. Entretanto esse número não é unanimidade entre os estudiosos da filosofia oculta, preferindo alguns suporem milhares de renascimento como forma de nos unificar ao Logos Divino. A individualidade é perdurável pela eternidade. Acendendo num desenvolvimento e progresso contínuos até a completude com o Espírito Universal. A questão que se coloca diz respeito a luta do ego inferior (personalidade) com o ego superior (individualidade). O que a Bíblia Sagrada diz em Gálatas 5,17 “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; porque são opostos entre si, para que não façais o que, porventura, seja o vosso querer”. São dois "magnetismo" onde um é negativo e o outro positivo. O negativo deseja apenas  os prazeres mundanos e materialistas. Satisfação própria, saciedade, compromissos com vontades efêmeras e ilusórias. O positivo busca percorrer a Senda Espiritual através da - "alegria, paz, longanimidade, benignidade, mansidão, domínio próprio; contra essas coisas não há Lei". Mateus 7, 14 "E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que o encontrem". Tendemos a praticar mais os vícios que estão latentes em nossas emoções, do que as virtudes que precisam ser desenvolvidas pela nossa intuição e consciência - elementos do Divino que estão latentes em nós, precisando ser despertados por uma mente e atitude corretas. É como subir numa montanha de forma espiralada, até alcançar o cume. Este percurso sinuoso e difícil é para aqueles que desejam alcançar o nirvana (gozo e conforto entre os períodos das desencarnações) ou descanso por seu trabalho de beatitudes e méritos para com seu próximo. Um lugar de consolo. Lucas 16, 22 "E aconteceu que o mendigo (Lázaro) morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão". Seu carma foi reparado em vidas passadas e na atual. Nosso grande desafio nesta encarnação é vivermos mais nossa individualidade (a busca pelas coisas espirituais envolvendo a ética e a moral) desgrudando-nos da personalidade (o apego exagerado ao hedonismo, narcisismo, consumismo e futilidades temporais). O tema desta palestra é Atman - Monada. Seu conteúdo está num livro chamado A Doutrina Secreta da escritora russa Helena P. Blavatsky (1831-1891). Vimos que Buddhi é o envoltório da chispa divina (raio luminoso ou monada) que descendo a Terra iniciou o processo evolutivo humano mineralizando um fragmento de rocha. Um famoso texto da tradição mística judaica contido na cabala diz: “Do mineral tornou-se vegetal, do vegetal tornou-se animal, do animal tornou-se homem, do homem tornou-se espírito e do espírito tornou-se deus”. Interessante que estudos avanços no campo da física quântica e a nanofísica comprovam níveis de consciência nesses elementos citados anteriormente. Nos minerais é justificado a presença de primitivas formas de consciências latentes. Como exemplos temos os cristais de rochas. Eles com suas formas (poliedros, tetraedros, hexágonos, cubos) geométricas vistos em laboratórios, microscopicamente realizam mudanças de interações de partículas. Supõe-se um comando em seus bilhões de átomos que realizam ligações à uma primitiva consciência. Nas plantas isso é bastante visível a olho nu. Elas voltando se para a posição do Sol, procuram uma melhor adaptação para realizarem o processo de fotossíntese, fundamental para a produção de seus nutrientes e trocas gasosas com o meio ambiente. As células vegetais agrupam-se em trabalhos organizados para despoluírem ambiente naturais assoreado (obstruido com areia), além de agirem eliminam da atmosfera moléculas de metais pesados como: bromo, flúor, carbono, iodo entre outros. É comprovado por pesquisa científica que as plantas têm percepção quanto ao calor e frio, além de sensibilidade ao receberem carinho ou maus tratos. Os animais são alvos de estudos deste os tempos de Ivan Pavlov (1849-1936). Ele com sua psicologia experimental percebeu uma  pré evoluída consciência nesses bichos. Você teve ter um em sua casa, reconhecendo as suas (afeto, sentimento, gosto, alegria, tristeza) expressões parecidas com as humanas. Cães, gatos, macacos e ratos são usados pela ciência investigativa nas mais diversas experiências. A psicologia e outros ramos da ciência tem nos cães e outros animais objetos de estudos, (cobaias) para após resultados estatísticos comprovados, aplicarem suas conclusões técnicas laboratoriais em seres humanos. Fatos como esses revelam uma consciência mais adiantada nesses animais que em espécies de outros reinos da natureza. A monada (a centelha divina) está velada em (encoberta) cada um desses estágios evolutivos do homem. Salmos 82, 6 "Eu disse: Vós sois deuses e, todos vós filhos do Altíssimo". Atma é o Espírito Universal, A Consciência Cósmica, O Deus Eterno o idealizador, promotor, assegurador, realizador e concluidor do processo evolutivo universal. Este raio luminoso (monada) é uma partícula de Atma. Quem primeiro formulou esta teoria foi o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Ele concebia a monada como um bilionésimo fragmento de átomo. Uma substância segundo ele indestrutível e indissolúvel. Esta monada ou raio vindo de um dos planetas de nosso Sistema Solar incidiria sobre um ínfimo grão de rocha desencadeando assim o processo evolutivo da vida humana. Isso num tempo passado que não conseguimos mensurar no espaço matematicamente. A monada encapsulada em Atma é o princípio ativador da existência. Ela perfaz as várias raças raízes onde encarnamos, reencarnamos e desencarnamos cumprindo o que determina (carma) a lei da causa e do efeito. Segundo o pensamento teosófico vivemos a quinta raça raiz de um total de sete raças raízes. A primeira raça é a dos nascidos por si. Os sem mente. A segunda raça é a dos nascidos do suor. Os sem osso. A terceira raça é a dos nascidos do ovo. Os Lemurianos que eram  gigantes. A quarta raça é a dos Atlantes. Também eram gigantes. A quinta raça é a atual (nossa) chamada de Ariana. A sexta raça será mais desenvolvida que a quinta. A sétima raça será mais desenvolvida que a sexta. Todas as mencionadas raças para começaram um novo ciclo, passam por um processo de desintegração e reintegração. As atuais monadas da quinta raça, ao final de seu processo evolutivo, serão recolhidas, voltando ao seu ponto de origem que é o Logos Divino, a Consciência Universal. Nesses dois últimos estágios (sexta e sétima raças) os indivíduos terão uma consciência muitíssimo evoluída. Duas glândulas cerebrais tem sido (século passado e neste) objeto de estudo da ciência atualmente. A glândula pineal (é uma pequena glândula endócrina localizada perto do centro do cérebro, entre os dois hemisférios. Acima do aqueduto de Sylvius – função – produz a melatonina. Esse hormônio sincroniza os vários ritmos circadianos do organismo com os ciclos dia e noite) segundo recentes pesquisas tem propriedades psíquicas de teletransporte através de suas partículas atômicas abre-se a possibilidade de comunicação com outras consciências menos e mais evoluídas que a nossa. O hipotálamo com formato de uma amêndoa liga o sistema nervoso ao sistema endócrino. Ele é o produtor dos hormônios que ativam as emoções e a sexualidade. Pesquisas e investigações científicas (esotéricas) realizadas nesse órgão esperam para num futuro, grandíssimo desenvolvimento da áudio vidência (audição de infra e ultra sons) e a clarividência (leitura e transmissão de pensamentos com outras pessoas. Também percepção de infra e ultra cores). O que a neurociência tem chamado de "ativação" do sexto e do sétimo sentidos humanos. Completando-se assim o ciclo evolutivo cósmico. Este assunto que abordamos é de um nível de compreensão mais apurado, envolvendo uma considerável abstração lógica para entender suas premissas e pressupostos. Uma matéria que deve ser investigada e analisada demoradamente (anos) com acuidade e perícia. Abraço. Davi.      

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

OS SUFISTAS.

OS SUFISTAS

Escrito por Robert Graves (1895-1985), para o livro "Os Sufis", de Idries Shah (1924-1996).
 

Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual cujas origens nunca foram traçadas nem datadas; nem eles mesmos se interessam muito por esse tipo de pesquisa, contentando-se em mostrar a ocorrência da sua maneira de pensar em diferentes regiões e períodos. Conquanto sejam, de ordinário, erroneamente tomados por uma seita muçulmana, os sufis sentem-se à vontade em todas as religiões: exatamente como os "pedreiros-livres e aceitos", abrem diante de si, em sua loja, qualquer livro sagrado - seja a Bíblia, seja o Corão, seja a Toráh - aceito pelo Estado temporal. Se chamam ao islamismo a "casca" do sufismo, é porque o sufismo, para eles, constitui o ensino secreto dentro de todas as religiões. Não obstante, segundo Ali el-Hujwiri, escritor sufista primitivo e autorizado, o próprio profeta Maomé disse: "Aquele que ouve a voz do povo sufista e não diz aamin (amém) é lembrado na presença de Deus como um dos insensatos". Numerosas outras tradições o associam aos sufis, e foi em estilo sufista que ele ordenou a seus seguidores que respeitassem todos os "Povos do Livro", referindo-se dessa maneira aos povos que respeitavam as próprias escrituras sagradas - expressão usada mais tarde para incluir os zoroastrianos.
Tampouco são os sufis uma seita, visto que não acatam nenhum dogma religioso, por mais insignificante que seja, nem se utilizam de nenhum local regular de culto. Não têm nenhuma cidade sagrada, nenhuma organização monástica, nenhum instrumento religioso. Não gostam sequer que lhes atribuam alguma designação genérica que possa constrangê-los à conformidade doutrinária. "Sufi" não passa de um apelido, como "quacre", que eles aceitam com bom humor. Referem-se a si mesmos como "nós amigos" ou "gente como nós", e reconhecem-se uns aos outros por certos talentos, hábitos ou qualidades de pensamento naturais. As escolas sufistas reuniram-se, com efeito, à volta de professores particulares, mas não há graduação, e elas existem apenas para a conveniência dos que trabalham com a intenção de aprimorar os estudos pela estreita associação com outros sufis. A assinatura sufista característica encontra-se numa literatura amplamente dispersa desde, pelo menos, o segundo milênio antes de Cristo, e se bem o impacto óbvio dos sufis sobre a civilização tenha ocorrido entre o oitavo e o décimo oitavo séculos, eles continuam ativos como sempre. O seu número chega a uns cinqüenta milhões. O que os torna um objeto tão difícil de discussão é que o seu reconhecimento mútuo não pode ser explicado em termos morais ou psicológicos comuns - quem quer que o compreenda é um sufi. Posto que se possa aguçar a percepção dessa qualidade secreta ou desse instinto pelo íntimo contato com sufis experientes, não existem graus hierárquicos entre eles, mas apenas o reconhecimento geral, tácito, da maior ou menor capacidade de um colega. O sufismo adquiriu um sabor oriental por ter sido por tanto tempo protegido pelo islamismo, mas o sufi natural pode ser tão comum no Ocidente como no Oriente, e apresentar-se vestido de general, camponês, comerciante, advogado, mestre-escola, dona-de-casa, ou qualquer outra coisa. "Estar no mundo mas não ser dele", livre da ambição, da cobiça, do orgulho intelectual, da cega obediência ao costume ou do respeitoso temor às pessoas de posição mais elevada - tal é o ideal do sufi. Os sufis respeitam os rituais da religião na medida em que estes concorrem para a harmonia social, mas ampliam a base doutrinária da religião onde quer que seja possível e definem-lhe os mitos num sentido mais elevado - por exemplo, explicando os anjos como representações das faculdades superiores do homem. Oferecem ao devoto um "jardim secreto" para o cultivo da sua compreensão, mas nunca exigem dele que se torne monge, monja ou eremita, como acontece com os místicos mais convencionais; e mais tarde, afirmam-se iluminados pela experiência real - "quem prova, sabe" - e não pela discussão filosófica. A mais antiga teoria de evolução consciente que se conhece é de origem sufista, mas embora muito citada por darwinianos na grande controvérsia do século XIX, aplica-se mais ao indivíduo do que à raça. O lento progresso da criança até alcançar a virilidade ou a feminilidade figura apenas como fase do desenvolvimento de poderes mais espetaculares, cuja força dinâmica é o amor, e não o ascetismo nem o intelecto. A iluminação chega com o amor - o amor no sentido poético da perfeita devoção a uma musa que, sejam quais forem as crueldades aparentes que possa cometer, ou por mais aparentemente irracional que seja o seu comportamento, sabe o que está fazendo. Raramente recompensa o poeta com sinais expressos do seu favor, mas confirma-lhe a devoção pelo seu efeito revivificante sobre ele. Assim, Ibn El-Arabi (1165-1240), um árabe espanhol de Múrcia, que os sufis denominam o seu poeta maior, escreveu no Tarju-man el-Ashwaq (o intérprete dos desejos):
"Se me inclino diante dela como é do meu dever E se ela nunca retribui a minha saudação Terei, acaso, um justo motivo de queixa? A mulher formosa a nada é obrigada" Esse tema de amor foi, posteriormente, usado num culto extático da Santíssima e Imaculada Virgem Maria, a qual, até o tempo das Cruzadas, ocupara uma posição sem importância na religião cristã. A maior veneração que ela recebe hoje vem precisamente das regiões da Europa que caíram de maneira mais acentuada sob a influência sufista.
Diz de si mesmo, Ibn El-Arabi (1165-1240):
"Sigo a religião do Amor.
Ora, às vezes, me chamam
Pastor de gazelas [divina sabedoria]
Ora monge cristão,
Ora sábio persa.
Minha amada são três -
Três, e no entanto, apenas uma;
Muitas coisas, que parecem três,
Não são mais do que uma.
Não lhe dêem nome algum,
Como se tentassem limitar alguém
A cuja vista
Toda limitação se confunde"

Os poetas foram os principais divulgadores do pensamento sufista, ganharam a mesma reverência concedida aos ollamhs, ou poetas maiores, da primitiva Irlanda medieval, e usavam uma linguagem secreta semelhante, metafórica, constituída de criptogramas verbais. Escreve Nizami, o sufi persa: "Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro". Essa linguagem era ao mesmo tempo uma proteção contra a vulgarização ou a institucionalização de um hábito de pensar apropriado apenas aos que o compreendiam, e contra acusações de heresia ou desobediência civil. Ibn El-Arabi, chamado às barras de um tribunal islâmico de inquisição em Alepo - Síria, para defender-se da acusação de não-conformismo, alegou que os seus poemas eram metafóricos, e sua mensagem básica consistia no aprimoramento do homem através do amor a Deus. Como precedente, indicava a incorporação, nas Escrituras judaicas, do Cântico erótico de Salomão, oficialmente interpretado pelos sábios fariseus como metáfora do amor de Deus a Israel, e pelas autoridades católicas como metáfora do amor de Deus à Igreja. Em sua forma mais avançada, a linguagem secreta emprega raízes consonantais semíticas para ocultar e revelar certos significados; e os estudiosos ocidentais parecem não ter se dado conta de que até o conteúdo do popular "As mil e uma noites" é sufista, e que o seu título árabe, Alf layla wa layla, é uma frase codificada que lhe indica o conteúdo e a intenção principais: "Mãe de Lembranças". Todavia, o que parece, à primeira vista, o ocultismo oriental é um antigo e familiar hábito de pensamento ocidental. A maioria dos escolares ingleses e franceses começam as lições de história com uma ilustração de seus antepassados druídicos arrancando o visco de um carvalho sagrado. Embora César tenha creditado aos druidas mistérios ancestrais e uma linguagem secreta - o arrancamento do visco parece uma cerimônia tão simples, já que o visco é também usado nas decorações de Natal -, que poucos leitores se detêm para pensar no que significa tudo aquilo. O ponto de vista atual, de que os druidas estavam, virtualmente, emasculando o carvalho, não tem sentido. Ora, todas as outras árvores, plantas e ervas sagradas têm propriedades peculiares. A madeira do amieiro é impermeável à água, e suas folhas fornecem um corante vermelho; a bétula é o hospedeiro de cogumelos alucinógenos; o carvalho e o freixo atraem o relâmpago para um fogo sagrado; a raiz da mandrágora é antiespasmódica. A dedaleira fornece digitalina, que acelera os batimentos cardíacos; as papoulas são opiatos; a hera tem folhas tóxicas, e suas flores fornecem às abelhas o derradeiro mel do ano. Mas os frutos do visco, amplamente conhecidos pela sabedoria popular como panaceia - planta, beberagem, simpatia ou qualquer coisa que se acredite possa remediar vários ou todos os males, não têm propriedades medicinais, conquanto sejam vorazmente comidos pelos pombos selvagens e outros pássaros não-migrantes no inverno. As folhas são igualmente destituídas de valor; e a madeira, se bem que resistente, é pouco utilizada. Por que, então, o visco foi escolhido como a mais sagrada e curativa das plantas? A única resposta talvez seja a de que os druidas o usavam como emblema do seu modo peculiar de pensamento. Essa árvore não é uma árvore, mas se agarra igualmente a um carvalho, a uma macieira, a uma faia e até a um pinheiro, enverdece, alimenta-se dos ramos mais altos quando o resto da floresta parece adormecido, e a seu fruto se atribui o poder de curar todos os males espirituais. Amarrados à verga de uma porta, os ramos do visco são um convite a beijos súbitos e surpreendentes. O simbolismo será exato se pudermos equiparar o pensamento druídico ao pensamento sufista, que não é plantado como árvore, como se plantam as religiões, mas se auto-enxerta numa árvore já existente; permanece verde, embora a própria árvore esteja adormecida, tal como as religiões são mortas pelo formalismo; e a principal força motora do seu crescimento é o amor, não a paixão animal comum nem a afeição doméstica, mas um súbito e surpreendente reconhecimento do amor, tão raro e tão alto que do coração parecem brotar asas. Por estranho que pareça, a Sarça Ardente em que Deus apareceu a Moisés no deserto, supõem agora os estudiosos da Bíblia, era uma acácia glorificada pelas folhas vermelhas de um locanthus, o equivalente oriental do visco - tipo de árvore que produz madeira pesada usada na carpintariaTalvez seja mais importante o fato de que toda a arte e a arquitetura islâmicas mais nobres são sufistas, e que a cura, sobretudo dos distúrbios psicossomáticos, é diariamente praticada pelos sufis hoje em dia como um dever natural de amor, conquanto só o façam depois de haverem estudado, pelo menos, doze anos. Os ollamhs, também curadores, estudavam doze anos em suas escolas das florestas. O médico sufista não pode aceitar nenhum pagamento mais valioso do que um punhado de cevada, nem impor sua própria vontade ao paciente, como faz a maioria dos psiquiatras modernos; mas, tendo-o submetido a uma hipnose profunda, ele o induz a diagnosticar o próprio mal e prescrever o tratamento. Em seguida, recomenda o que se há de fazer para impedir uma recorrência dos sintomas, visto que o pedido de cura há de provir diretamente do paciente e não da família nem dos que lhe querem bem. Depois de conquistadas pelos sarracenos, a partir do século VIII, a Espanha e a Sicília - Itália, tornaram-se centros de civilização muçulmana renomados pela austeridade religiosa. Os letrados do norte, que acudiram a eles com a intenção de comprar obras árabes a fim de traduzi-las para o latim, não se interessavam, contudo, pela doutrina islâmica ortodoxa, mas apenas pela literatura sufista e por tratados científicos ocasionais. A origem dos cantos dos trovadores - a palavra não se relaciona com trobar, (encontrar), mas representa a raiz árabe TRB, que significa "tocador de alaúde" - é agora autorizadamente considerada sarracena. Apesar disso, o professor Guillaume assinala em "O legado do Islã" que a poesia, os romances, a música e a dança, todos especialidades sufistas, não eram mais bem recebidas pelas autoridades ortodoxas do Islã do que pelos bispos cristãos. Árabes, na verdade, embora fossem um veículo não só da religião muçulmana mas também do pensamento sufista, permaneceram independentes de ambos. Em 1229 a ilha de Maiorca - Espanha, foi capturada pelo rei Jaime de Aragão (1208-1276) aos sarracenos, que a haviam dominado por cinco séculos. Depois disso, ele escolheu por emblema um morcego, que ainda encima as armas de Palma, a nossa capital. Esse morcego emblemático me deixou perplexo por muito tempo, e a tradição local de que representa "vigilância" não me pareceu uma explicação suficiente, porque o morcego, no uso cristão, é uma criatura aziaga, associada à bruxaria. Lembrei-me, porém, de que Jaime I tomou Palma de assalto com a ajuda dos Templários e de dois ou três nobres mouros dissidentes, que viviam alhures na ilha; de que os Templários haviam educado Jaime em le bon saber, ou sabedoria; e de que, durante as Cruzadas, os Templários foram acusados de colaboração com os sufis sarracenos. Ocorreu-me, portanto, que "morcego" poderia ter outro significado em árabe, e ser um lembrete para os aliados mouros locais de Jaime, presumivelmente sufis, de que o rei lhes estudara as doutrinas.
Escrevi para Idries Shah Sayed, que me respondeu:
 
"A palavra árabe que designa o morcego é KHuFFaasH, proveniente da raiz KH-F-SH. Uma segunda acepção dessa raiz é derrubararruinarcalcar aos pés, provavelmente porque os morcegos freqüentam prédios em ruínas. O emblema de Jaime, desse modo, era um simples rébus que o proclamava "o Conquistador", pois ele, na Espanha, era conhecido como "El rey Jaime, Rei Conquistador". Mas essa não é a história toda. Na literatura sufista, sobretudo na poesia de amor de Ibn El-Arabi, de Múrcia, disseminada por toda a Espanha, "ruína" significa a mente arruinada pelo pensamento impenitente, que aguarda reedificação. O outro único significado dessa raiz é "olhos fracos, que só enxergam à noite". Isso pode significar muito mais do que ser cego como um morcego. Os sufis referem-se aos impenitentes dizendo-os cegos à verdadeira realidade; mas também a si mesmos dizendo-se cegos às coisas importantes para os impenitentes. Como o morcego, o sufi está cego para as "coisas do dia" - a luta familiar pela vida, que o homem comum considera importantíssima - e vela enquanto os outros dormem. Em outras palavras, ele mantém desperta a atenção espiritual, adormecida em outros. Que "a humanidade dorme num pesadelo de não-realização" é um lugar-comum da literatura sufista. Por conseguinte, a sua tradição de vigilância, corrente em Palma, como significado de morcego, não deve ser desprezada." A absorção no tema do amor conduz ao êxtase, sabem-no todos os sufis. Mas enquanto os místicos cristãos consideram o êxtase como a união com Deus e, portanto, o ponto culminante da consecução religiosa, os sufis, só lhe admitem o valor se ao devoto for facultado, depois do êxtase, voltar ao mundo e viver de forma que se harmonize com sua experiência. Os sufis insistiram sempre na praticabilidade do seu ponto de vista. A metafísica, para eles, é inútil sem as ilustrações práticas do comportamento humano prudente, fornecidas pelas lendas e fábulas populares. Os cristãos se contentam em usar Jesus como o exemplar perfeito e final do comportamento humano. Os sufis, contudo, ao mesmo tempo que o reconhecem como profeta divinamente inspirado, citam o texto do quarto Evangelho: "Eu disse: Não está escrito na vossa Lei que sois deuses?" - o que significa que juízes e profetas estão autorizados a interpretar a lei de Deus - e sustenta que essa quase divindade deveria bastar a qualquer homem ou mulher, pois não há deus senão Deus. Da mesma forma, eles recusaram o lamaísmo do Tibete e as teorias indianas da divina encarnação; e posto que acusados pelos muçulmanos ortodoxos de terem sofrido a influência do cristianismo, aceitam o Natal apenas como parábola dos poderes latentes no homem, capazes de apartá-lo dos seus irmãos não-iluminados. De idêntica maneira, consideram metafóricas as tradições sobrenaturais do Corão, nas quais só acreditam literalmente os não-iluminados. O Paraíso, por exemplo, não foi, dizem eles, experimentado por nenhum homem vivo; suas huris (criaturas de luz) não oferecem analogia com nenhum ser humano e não se deviam imputar-lhes atributos físicos, como acontece na fábula vulgar. Abundam exemplos, em toda a literatura européia, da dívida para com os sufis. A lenda de Guilherme Tell já se encontrava em "A conferência dos pássaros", de Attar (século XII), muito antes do seu aparecimento na Suíça. E, embora dom Quixote pareça o mais espanhol de todos os espanhóis, o próprio Cervantes reconhece sua dívida para com uma fonte árabe. Essa imputação foi posta de lado, como quixotesca, por eruditos; mas as histórias de Cervantes seguem, não raro, as de Sidi Kishar, lendário mestre sufista às vezes equiparado a Nasrudin (1208-1284), incluindo o famoso incidente dos moinhos (aliás de água, e não de vento) tomados equivocadamente por gigantes. A palavra espanhola Quijada (verdadeiro nome do Quixote, de acordo com Miguel de Cervantes 1547-1616) deriva da mesma raiz árabe KSHR de Kishar, e conserva o sentido de "caretas ameaçadoras". Os sufis muçulmanos tiveram a sorte de proteger-se das acusações de heresia graças aos esforços de El-Ghazali (1051-1111), conhecido na Europa por Algazel, que se tornou a mais alta autoridade doutrinária do islamismo e conciliou o mito religioso corânico com a filosofia racionalista, o que lhe valeu o título de "Prova do Islamismo". Entretanto, eram freqüentemente vítimas de movimentos populares violentos em regiões menos esclarecidas, e viram-se obrigados a adotar senhas e apertos de mão secretos, além de outros artifícios para se defenderem. Embora o frade franciscano Roger Bacon (1214-1292) tenha sido encarado com respeitoso temor e suspeita por haver estudado as "artes negras", a palavra "negra" não significa "má". Trata-se de um jogo de duas raízes árabes, FHM e FHHM, que se pronunciam fecham e facham, uma das quais significa "negro" e a outra "sábio". O mesmo jogo ocorre nas armas de Hugues de Payns (dos pagãos), nascido em 1070 ,que fundou a Ordem dos Cavaleiros Templários: a saber, três cabeças pretas, blasonadas como se tivessem sido cortadas em combate, mas que, na realidade, denotam cabeças de sabedoria. "Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual (...)" De fato, a própria maçonaria começou como sociedade sufista. Chegou à Inglaterra durante o reinado do rei Aethelstan (924-939) e foi introduzida na Escócia disfarçada como sendo um grupo de artesãos no princípio do século XIV, sem dúvida pelos Templarios. A sua reformação, na Londres do início do século XVIII, por um grupo de sábios protestantes, que tomaram os termos sarracenos por hebraicos, obscureceu-lhes muitas tradições primitivas. Richard Burton, tradutor das "Mil e uma noites", ao mesmo tempo maçom e sufi, foi o primeiro a indicar a estreita relação entre as duas sociedades, mas não era tão versado que compreendesse que a maçonaria começara como um grupo sufista. Idries Shah Sayed mostra-nos agora que foi uma metáfora para a "reedificação", ou reconstrução, do homem espiritual a partir do seu estado de decadência; e que os três instrumentos de trabalho exibidos nas lojas maçônicas modernas representam três posturas de oração. "Buizz" ou "Boaz" e "Salomão, filho de Davi", reverenciados pelos maçons como construtores do Templo de Salomão em Jerusalém, não eram súditos israelitas de Salomão nem aliados fenícios, como se supôs, senão arquitetos sufistas de Abdel-Malik, que construíram o Domo da Rocha sobre as ruínas do Templo de Salomão, e seus sucessores. Seus verdadeiros nomes incluíam Thuban abdel Faiz "Izz", e seu "bisneto", Maaruf, filho (discípulo) de Davi de Tay, cujo nome sufista em código era Salomão, por ser o "filho de Davi". As medidas arquitetônicas escolhidas para esse templo, como também para o edifício da Caaba em Meca, eram equivalentes numéricos de certas raízes árabes transmissoras de mensagens sagradas, sendo que cada parte do edifício está relacionada com todas as outras, em proporções definidas. De acordo com o princípio acadêmico inglês, o peixe não é o melhor professor de ictiologia, nem o anjo o melhor professor de angelologia. Daí que a maioria dos livros modernos e artigos mais apreciados a respeito do sufismo sejam escritos por professores de universidades europeias e americanas com pendores para a história, que nunca mergulharam nas profundezas sufistas, nunca se entregaram às extáticas alturas sufistas e nem sequer compreendem o jogo poético de palavras pérseo-arábicas. Pedi a Idries Shah Sayed que remediasse a falta de informações públicas exatas, ainda que fosse apenas para tranqüilizar os sufis naturais do Ocidente, mostrando-lhes que não estão sós em seus hábitos peculiares de pensamento, e que as suas intuições podem ser depuradas pela experiência alheia. Ele consentiu, embora consciente de que teria pela frente uma tarefa muito difícil. Acontece que Idries Shah Sayed, descendente, pela linha masculina, do profeta Maomé, herdou os mistérios secretos dos califas, seus antecessores. É, de fato, um Grande Xeque da Tariqa (regra) sufista, mas como todos os sufis são iguais, por definição, e somente responsáveis perante si mesmos por suas consecuções espirituais, o título de "xeque" é enganoso. Não significa "chefe", como também não significa o "chefe de fila", velho termo do exército para indicar o soldado postado diante da companhia durante uma parada, como exemplo de exercitante militar. A dificuldade que ele previu é que se deve presumir que os leitores deste livro tenham percepções fora do comum, imaginação poética, um vigoroso sentido de honra, e já ter tropeçado no segredo principal, o que é esperar muito. Tampouco deseja ele que o imaginem um missionário. Os mestres sufistas fazem o que podem para desencorajar os discípulos e não aceitam nenhum que chegue "de mãos vazias", isto é, que careça do senso inato do mistério central. O discípulo aprende menos com o professor seguindo a tradição literária ou terapêutica do que vendo-o lidar com os problemas da vida cotidiana, e não deve aborrecê-lo com perguntas, mas aceitar, confiante, muita falta de lógica e muitos disparates aparentes que, no fim, acabarão por ter sentido. Boa parte dos principais paradoxos sufistas está em curso em forma de histórias cômicas, especialmente as que têm por objeto o Kboja (mestre-escola) Nasrudin, e ocorrem também nas fábulas de Esopo, que os sufis aceitam como um dos seus antepassados. O bobo da corte dos reis espanhóis, com sua bengala de bexiga, suas roupas multicoloridas, sua crista de galo, seus guizos tilintantes, sua sabedoria singela e seu desrespeito total pela autoridade, é uma figura sufista. Seus gracejos eram aceitos pelos soberanos como se encerrassem uma sabedoria mais profunda do que os pareceres solenes dos conselheiros mais idosos. Quando Filipe II da Espanha estava intensificando sua perseguição aos judeus, decidiu que todo espanhol que tivesse sangue judeu deveria usar um chapéu de certo formato. Prevendo complicações, o bobo apareceu na mesma noite com três chapéus. "Para quem são eles, bobo?", perguntou Filipe. "Um é para mim, tio, outro para ti e outro para o inquisidor-mor". E como fosse verdade que numerosos fidalgos medievais espanhóis haviam contraído matrimônio com ricas herdeiras judias, Filipe, diante disso, desistiu do plano. De maneira muito semelhante, o bobo da corte de Carlos I (1600-1649), Charlie Armstrong (1881-1952) outrora ladrão de carneiros escocês, que o rei herdara do pai, tentou opor-se à política da Igreja arminiana do arcebispo Laud, que parecia destinada a redundar num choque armado com os puritanos. Desdenhoso, Carlos pedia a Charlie seu parecer sobre política religiosa, ao que o bobo lhe respondeu: "Entoe grandes louvores a Deus, tio, e pequenas laudes ao Diabo". Laud, muito sensível à pequenez do seu tamanho, conseguiu que expulsassem Charlie Armstrong da corte (o que não trouxe sorte alguma ao amo).