terça-feira, 23 de maio de 2017

IV. A CHAMA ETERNA.

Espiritismo. Texto de Luiz Sérgio. Psicografado por Irene Pacheco Machado. Capítulo 12. DEVASSANDO O INCONSCIENTE. Muitas vezes as verdades nos chegam, mas o nosso orgulho não nos deixa tomar uma atitude que jogará fora toda uma teoria que não mais nos pertence. A sociedade a rejeitou, todavia, ela, mesmo falha, está sendo útil a muitos doentes. A água da fonte nasce pura, mas vai-se contaminando com as impurezas. Muitas teorias são deturpadas pelos próprios adeptos. Isto se deu até com o Cristianismo e vem se repetindo sempre. Cada discípulo acrescenta uma vírgula a mais e daí a deturpação. Muitos brincam com a alma do seu próximo, principalmente com a alma doente, muito doente. Ele fez uma pausa e Carlos perguntou: - Pretende reencarnar logo? Ele sorriu. - Só Deus conhece o dia exato da "morte", mas estarei preparado, já que quando encarnado convivi com ela. A doença tentou ferir minha alma, mas eu me distanciei do desespero, porque Deus me ofertou o saber do meu mundo interior e, quando os ventos da tristeza desejavam arquear meu espírito, refugiava-me nas regiões altas da minha alma. Longe da dor, eu me sentia forte para viver a realidade, a morte, que os espíritas sabiamente chamam desencarne. A separação espírito-carne, eu chamarei de desligamento. Estudando a alma humana, vamo-nos tornando cada vez mais insensíveis, não porque a dor nos endureça, não, isso não, é que constatamos que todos os seres - uns mais que os outros - vivem a sua vida, e nem todas são tão belas nem tão más. 0 ser é que dramatiza ou aceita passivamente as suas horas de vida. Para mim, as neuroses são testemunhas do desenvolvimento do espírito humano. Muito sábia a Bíblia ao afirmar que no princípio vivia o homem no "paraíso". Sempre ao estudar a alma humana, esbarrava com algo para mim inatingível. Hoje sei: vidas passadas, existências vividas. Levando o homem ao seu nada, me deparava com algo que me fazia buscar ainda mais os mistérios da mente. A imaginação do paciente dava-me relatos que nada tinham a ver com o século vivido por nós; fantasias ou uma mente elástica que captava outras reações vividas pelos antepassados, vindo de pais para filhos? Senti que as chamadas neuroses, antes, eram estágios da Humanidade, que a vida foi levando o homem à neurose, pelos antepassados. Cheguei perto, não foi? A Doutrina hoje me ensinaria que as neuroses são lembranças das vivências traumáticas. Mas como pode o analista colocá-las para fora do paciente se poucos têm conhecimento deste fato: a reencarnação? Um dia acordei eufórico! havia descoberto que na negritude da alma havia uma luz. A princípio falei comigo mesmo: é Deus. Depois, à força e coragem, prossegui descobrindo fatos novos que me faziam feliz, mas, pouco a pouco, minhas especulações iam contra as bases científicas. E um estudioso, muitas vezes, tem de calar para não jogar fora todo um trabalho que, a certa altura, não mais lhe pertence. O que descobri sobre a negritude da alma foi surpreendentemente fácil e amplo no princípio; depois, foi ficando tão intrincado e difícil, que me vi quase louco. De um lado, havia eu descoberto algo novo na mente humana; uma fita gravada, ou melhor, um filme com toda a história do indivíduo analisado. Achei prudente não levar a público o estudo, e este ficou perdido. A Psicanálise tinha de alcançar um papel de importância junto à Humanidade. Era cedo ainda e eu me senti fraco. De um lado a fama a me comprimir o espírito que, durante a noite, voava até a espiritualidade e descobria a verdade; mas, mesmo sentindo a vontade de gritar bem alto a minha descoberta, por outro lado, o futuro também me oprimia: não tinha certeza absoluta de que o homem carregasse junto a si um doloroso passado. Não sabia.eu como isso se dava, o porquê de estar sentindo a histeria do medo, a demência, a paranoia e a melancolia; mesmo já tendo um certo controle sobre a minha alma, ela sofria a prisão e não me sentia com força para libertá-la. - E o homossexualismo? - perguntei aproveitando a pausa que ele fizera. - Para mim - respondeu ele - teve por base a própria sociedade. Ela, muitas vezes, leva o ser à libertinagem e, desde que o homem é humano, ele procura o desconhecido. Hoje ainda não possuo conhecimentos a respeito; estou estudando, mas já ouvi dizer que a causa também está no períspirito. Ele se calou e nós, que ali estávamos apenas conversando, vimos que já era hora de nos retirarmos. - Irmão, muito obrigado. Nós amamos você! Olhando-me fixamente, falou: - Sérgio, viva bem a sua realidade. A satisfação não se efetua pelos caminhos mais curtos nem em função das condições impostas pelo mundo exterior. Voltei, e lhe dei um abraço de admiração por tanto saber. Para Carlos ele falou: - 0 médico precisa se conscientizar de que ele tem obrigação de se tornar útil, e só o conhecimento da sua área proporciona-lhe paz e poder. Capítulo 13. CÂNTICO DE MOISÉS Eram firmes os passos de Olavo ao se retirar e nós o fitávamos com carinho. Virei-me para Carlos, dizendo: - Amigão, nem sei como lhe agradecer. Foi ótima a nossa conversa. - Luiz Sérgio, o homem, por ser ainda imperfeito, gosta de criticar a obra do seu próximo, fazendo-o geralmente sem conhecimento, apenas por julgamento próprio. Olavo é um espírito que ainda luta para caminhar, mas merece de todos nós respeito e amor. - Carlos, você está trabalhando no receituário mediúnico, não é mesmo? - Sim, mas nem por isso deixo de vir até aqui receber ensinamentos bastante proveitosos como os que acabamos de obter, para espantar a vaidade. Continuamos conversando sobre vários assuntos, e confesso que no momento de nos separarmos senti imensa tristeza. Aquele jovem médico é um grande e querido amigo; e quem vive sem uma amizade leal? Ao ficar sozinho, recordei-me de Olavo e disse à saudade: você é uma brisa que se faz presente em meu coração, mas não machuca mais, porque hoje eu sei o que representa o sentimento. Já estava na hora da nossa aula e com outros irmãos me encontrei; uns, indiferentes, outros, curiosos, mas todos recebendo de Deus a oportunidade. Sentei em meu lugar preferido e já me impacientava: os meus colegas não chegavam. Quando acenderam as luzes, eles deram entrada, assim como outros grupos, eu é que me havia adiantado. Lourival, que perto de mim sentara, disse: - Tivemos uma aula extra com alguém. - Verdade? Pois eu também estive com o Carlos e o Olavo falando sobre a alma. Lourival, rindo, brincou: - Você está muito mal, hein? Precisando devassar o inconsciente! (...). Nós estivemos com um político, falando sobre a ascensão e a queda do espírito. Calei-me, mas no fundo a minha cuca quase deu um nó. Por que só eu precisei conversar com Olavo, por quê? Conrad, captando meus pensamentos, falou: Esqueces que trabalhas com médiuns, jovens, crianças, enfim, que tu estás em todas? Para ajudá-los tens de penetrar no inconsciente despertando-o para as verdades de Deus. O meu sorriso foi o meu muito obrigado. Quando Jesus disse: Não chameis ninguém de "louco", Ele mostrou a Sua sabedoria. É muito triste rotular as pessoas de malucas. Desvalorizar alguém é muita pobreza de conhecimentos evangélicos. Todos nós só vivemos se acreditamos em nós mesmos e quando alguém procura nos jogar para baixo, precisamos ter muita fé para não sucumbir. Quem convive com o público precisa estar ciente destas palavras de Jesus. Chamar alguém de desequilibrado é desconhecer o amor. Sabe por que estou dizendo isso? Se ao cientificar-me de que somente eu fora a um médico de cuca, fiquei nervoso, imagine aquele que é taxado, a cada instante, de maluco! Portanto, mesmo constatado um estado obsessivo em alguém, cuidado, gente! a mente humana é uma floresta cujos mistérios ainda continuam ocultos. Cuidado, muito cuidado! Ninguém é ainda o dono da verdade, só Jesus; e Ele usou muito bem as palavras, por conhecer nossas fraquezas. Na tela, o Quinto Livro, Deuteronômio 32, Cântico de Moisés, versículo 2: Goteje a minha doutrina como a chuva, destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a relva e como gotas de água sobre a relva. Vs. 4, 5 e 6: Suas obras são perfeitas porque todos os seus caminhos são juízo. Deus é fidelidade e não há nele injustiça: é justo, é reto. Procederam corruptamente contra ele já não são seus filhos, e sim suas manchas; è geração perversa e deformada. É assim que recompensamos o Senhor, povo louco e ignorante? Este Cântico ressoava em nossos ouvidos e presenciávamos a criação da Terra, a vinda do Espírito para compor este Planeta. E no Cântico de Moisés nós presenciamos a sua preocupação como ótimo médium que era. Gostaria de citar versículo por versículo, mas o tempo é curto e o dinheiro para edição dos livros muito mais. Convido o leitor a ler todo o Cântico de Moisés. Ainda no versículo 18, diz Moisés: Olvidaste a Rocha que te gerou e te esqueceste do Deus que te deu o ser. No versículo 17 continua: Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus. E assim fomos assistindo ao desespero de Moisés, quando deu ao homem a chave da vida, mas o ser, enraizado no erro, fingia não compreender as belezas divinas. Nós, que estamos acompanhando a evolução do espírito, ou melhor, a sua trajetória, ficamos meio atônitos quando percebemos que ninguém erra por ignorância e sim por vontade própria. Ali, diante do Cântico de Moisés, percebemos a paciência de Deus enviando mensagens para orientar a Humanidade, e ela, indiferente, seguindo por caminhos contrários e ainda culpando Deus. Capítulo 14. O ANÚNCIO DA VINDA DO SENHOR Os nossos orientadores ainda ficaram conversando conosco, tirando algumas de nossas dúvidas. - Irmão, explique-nos por que no Antigo Testamento tudo surge à nossa frente sob a forma de ameaça como em Samuel II, Capítulo 24, Davi escolhe o castigo: versículos 14 e 15: Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém, caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas misericórdias; mas na mão dos homens não caia eu. Então enviou o Senhor a peste a Israel, desde a manhã ao tempo que determinou, morreram setenta mil homens. - Irmãozinhos, até hoje, quando algo acontece, ainda dizem: é castigo de Deus; naquela época o homem era mais ignorante, portanto, supersticioso por demais, principalmente quando tinha a consciência pesada. Em muitas passagens podemos notar que Davi prefere a fúria do Senhor à dos homens. Agora perguntarão: Mas então, por que morreram tantos homens? Hoje, no ano de 1985, presenciamos o desencarne coletivo por castigo? Não. São espíritos que precisam passar por esse tipo de resgate. E assim também no reino de Davi: ele e o seu povo vieram à Terra para evoluir. E esses fatos tristes, muitas vezes nos servem de alerta. Davi logo procurou agradar ao Senhor à maneira da época: levantando altares. Só o fato dele ter-se lembrado que acima de qualquer poder existe algo que determina a vida e que foge às explicações científicas, isso foi considerado uma prece de arrependimento. Deus não é malvado. Nós é que tornamos os dias das nossas vidas negros de erros. Vejamos no versículo 18: Naquele mesmo dia veio Gade ter com Davi, e lhe disse: Sobe, levante ao Senhor um altar na eira de Araúna, o Jebuseu. Este Capítulo do livro de Samuel oferece-nos muitas pérolas evangélicas. Veja nos versículos seguintes Davi indo até um homem do povo pedir-lhe um favor. Quantas vezes o que julgamos uma violência divina é um chamado de Deus para as coisas do espírito! Se hoje o poder aprisiona, imaginemos nas eras primitivas. 0 medo era o único freio e, para chegarmos aonde chegamos, ele foi usado. Portanto, a dor quase sempre é uma lixa que embeleza o espírito, tornando-o uma peça sem aresta. E o Artista maior, que é Deus, com que carinho nos oferece a bênção da reencarnação! Irmão, se o espírito foi criado simples e inocente, para Deus deve ser muito triste, muito triste, presenciar tantos espíritos ainda cobertos por uma crosta de sujeira. . . Senti que alguns colegas continham o riso, mas os orientadores não estranharam minhas palavras. Confesso que dessa vez nem me perturbei. No painel, Zacarias, Capítulo 13: Naquele dia haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza. Fiquei por último, gostaria de conversar com um dos orientadores, que logo se aproximou de mim. - Gostou, Luiz, da aula de hoje? - Muito boa, só (...). - Já sei. E difícil compreender a razão de tantos cataclismos. - E isso mesmo, irmão. Por que naquele tempo os mensageiros se materializavam, indo até os encarnados para alertá-los? - Luiz, o Antigo Testamento é um valioso roteiro para o homem no Planeta Terra. Se prestarmos atenção, nele encontraremos a escalada do espírito, que se inicia na Gênesis, quando Deus criou o Planeta. Voltaremos ao primeiro Capítulo da Gênesis, versículo 2: A terra, porém, era sem forma e vazia, havia trevas sobre a face do abismo, e o espírito de Deus pairava sobre as águas. Versículo 3: Disse Deus: Haja luz, e houve luz. Sabemos que Deus cria a cada minuto e sendo a Terra uma das Suas obras, ela surgiu do infinitamente pequeno. Era um carvão, que pouco a pouco vai ganhando brilho. Assim iniciou a vida em nosso Planeta, com Jesus, como seu Governador, bem atento a tudo. O Antigo Testamento coloca Adão e Eva como os primeiros habitantes da Terra e sobre isso já falamos. Depois começou a luta do homem pelas coisas perecíveis. O orgulho e a ganância afloraram nos seres novamente. E assim iniciou a purificação por causa do desvio da chama eterna, que é o espírito do homem. No livro Êxodo, sentimos a fúria do homem sobre o homem - era a sede do poder. Dessa maneira, vamos encontrando Deus em cada livro do Antigo Testamento, um Deus que ameaça, um Deus que castiga. Os ministros de Deus tinham que servir-se dos médiuns, que não eram puros, para ditar suas leis. Por isso muitos absurdos foram registrados. Mas Deus nunca abandonou a Terra; estava ao lado dos Seus filhos em todos os momentos, testemunhando Seu amor. Sentindo a falta de fraternidade no povo, Deus ditou através de Seus Mensageiros, para o médium Moisés, o Decálogo, que se encontra no Capítulo 20, do Êxodo. Mas mesmo assim o homem exercia sua força sobre os fracos. Os poderosos eram cada vez mais duros. Então surgiu o Levítico, que mais parece um livro de direito penal. Vejamos no Capítulo 6, versículo 2: Quando alguém pecar, e cometer ofensa contra o Senhor, e negar ao seu próximo o que este lhe deu em depósito, ou penhor, ou roubo, ou tiver usado de extorsão para com seu próximo (...). Se formos seguindo, deparar-nos-emos com as mais surpreendentes leis. Encontramos também leis a favor dos pobres. Capítulo 25: Leis a favor dos servos. - Irmão, é mesmo impressionante a preocupação de Deus! - Vendo que poucos tinham condição de transmitir as Suas palavras, mandou para a Terra o Seu verbo vivo: Jesus. Antes, vieram as profecias. Em doei, Capítulo 1, versículo 10: O campo assolado, e a terra de luto, porque o cereal está destruído, e a vida secou, as oliveiras murcharam. Em Amos: Ameaças contra diversas nações. Depois Abdias. Depois Jônatas. Depois Miquéias, no Capítulo 2: Ai dos opressores gananciosos. Depois, Naum, no Capítulo 3: Ai da cidade sanguinária toda cheia de mentiras e de roubo, e que não solta a sua presa. Depois Habacuque e em Sofonias, Capítulo 1, versículo 14: Está perto o grande dia do Senhor. Capítulo 2, versículo 12: Ameaças contra a Etiópia e Assíria. Depois Ageu e Zacarias. Em Zacarias, Luiz Sérgio, sentimos que o Pai viria até a Terra através da verdade, da vida e do caminho, no Capítulo 13: Eliminados todos os ídolos e os profetas. No versículo 4: Naquele dia se sentirão envergonhados os profetas, cada um da sua visão, quando profetiza, nem mais vestirão manto de pêlos, para enganarem. Em Malaquias, Deus, que vinha lutando para guiar a Humanidade, cientificou-Se de que só o Seu filho Jesus poderia trazer paz à Terra, e assim encerra o Antigo Testamento. Desce então, à Terra o Governador e em nome de Deus anuncia que não vem destruir a Lei, mas fazê-la compreendida através de Seus atos de espírito puro. O livro de Malaquias é rico e temos muito o que nele estudar. Lê-se no Capítulo 3: Eis que envio o meu mensageiro que preparará o caminho diante de mim, de repente virá, ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o Anjo da Aliança a quem vós desejais; eis que Ele vem, diz o Senhor dos Exércitos. Capítulo 15. NO DEPARTAMENTO DA ARTE - Irmão, o último livro do Antigo Testamento deixa bem clara a vinda de Jesus. Ali podemos notar que o mundo espiritual e o mundo material são solidários entre si. Temos de conhecer e respeitar as leis que regem os dois planos. Enquanto conversávamos, Conrad veio buscar-me, pedindo desculpas por ter-nos interrompido, para dizer-me que alguém me esperava no Departamento da Arte da Faculdade. Agradeci ao orientador que com carinho me ofertou belas horas de aprendizado e segui Conrad, ansioso para encontrar quem me esperava. Quando lá chegamos, Pierre gentilmente veio ao nosso encontro e, com poucas palavras, deu-nos a certeza de que estávamos à frente de um gentleman. Falava português misturado com francês. - Desculpe amigo, havia-me esquecido de que lhe pedira uma visita - disse eu. E que trabalhando em livros espíritas gosto de colocar os meus leitores a par de tudo o que se refere ao enobrecimento do homem, principalmente se ele é um meio de comunicação espiritual. Sei que o irmão luta para desenvolver a mediunidade psico pictográfica, (1) e que prepara os artistas para esse trabalho. Ele me sorriu. - Não, irmão, não é bem isso. Preocupo-me em tentar apagar certas imagens negativas que se faz dos artistas e venho, pouco a pouco, procurando levá-los ao plano físico para sua própria melhoria e também para ajudar o médium. Conversando, alcançamos o interior da galeria. Eram tantas as telas, que eu não sabia se as admirava ou ouvia o nosso amigo. Notando o meu interesse, foi-me apresentando os melhores trabalhos e dando explicações sobre cada quadro. Logo depois levou-me a outro local onde vários artistas desenhavam. Notei que eles não possuíam boa vibração. Perguntei o porquê e Pierre respondeu-me: (1) ou psico pictoriográfica, pintura feita por espírito através de médium. Estes são doentes, que são levados aos grupos espíritas para serem tratados através das cores. Sentia-me meio apatetado. Há poucos minutos eu aprendia o Antigo Testamento e agora ali estava, naquele local, ao lado de pessoas muito estranhas, para não dizer "piradas"(...). Pierre, sorrindo para um e para outro, apresentava-me os trabalhos e vim então a saber que também os grandes mestres da pintura, quando voltam ao mundo espiritual, se no corpo físico abusaram do seu dom, sofrem as consequências. 0 mesmo acontece com o que não exerce a medicina condignamente ou dela se aproveita. - Irmão, eles retroagem? - Não, mas o espírito que abusou por demais da bebida, das drogas e de outras coisas, fica meio atordoado. Não esqueça que existe o suicida inconsciente. E muitos deles fugiram até pelo suicídio direto. - E como um grupo mediúnico pode ajudá-los? - Tentamos desenvolver esse dom mediúnico, mas alguns mé- diuns ainda relutam, por falta de incentivo de alguns dirigentes. O certo é criar nos centros espíritas grupos específicos de desenhos mediúnicos. - O médium tem de ter um pouco de dom artístico? - Facilita para o desencarnado, mas mesmo sem o possuir, muitas vezes recebe verdadeiras obras de arte, em se tratando de médium mecânico. - Pierre, nesses grupos só vão os grandes pintores? - Irmão, essa é a nossa maior preocupação. Os médiuns psico pictográficos não podem ficar à espera só dos grandes nomes. Se forem formados os grupos só para esse fim, fica mais fácil o controle, principalmente se o dirigente for humilde. - E necessário que o dirigente possua vidência? - Se tiver, facilitará o trabalho dos médiuns. Aconselhamos o dirigente encarnado a não permitir que as telas sejam assinadas, principalmente as recebidas pelos médiuns iniciantes. A não ser com a permissão do dirigente espiritual, que deve ser um espírito evangelizado. - Evangelizado? Sim, irmão, os pintores precisam de dirigentes e médiuns evangelizados, porque a disciplina é um dom que embeleza a tela mental. Para formar um grupo de psicopictoriografia, antes de tudo o presidente da casa espírita tem de considerá-lo igual a qualquer outro grupo necessitado de estudo da Doutrina e do Evangelho, possibilitando aos artistas o aprendizado da arte do amor eterno. - Irmão, muitos não vão gostar (...) - Está vendo, Luiz? Assim como o irmão, muitos julgam o artista um desequilibrado. Vamos dar-lhes a condição de cura, formando grupos especializados, não com o intuito de só trabalhar com grandes nomes, mas, acima de tudo, pelo real valor da ajuda mútua. - Conhecemos um grupo que foi criado pelo irmão e já está se mantendo. Pode narrar como se deu o início? - Luiz, você disse bem: está se mantendo. E verdade. 0 grupo de pintura gasta muito material e tudo o que utiliza é caro. No início não, mas com o tempo, vai sendo necessário vender as obras para custear as atividades. - Os médiuns não podem comprá-lo? - Nem todos. Muitos médiuns são pobres, porém nada os impede de fazê-lo. Mas se o grupo for bem dirigido, logo ele terá a sua fonte de renda própria, com material de primeira, o que vem a enriquecer os trabalhos. O irmão viu os doentes desta ala. No início do grupo aproveitávamos a boa vontade dos médiuns e levávamos os pintores necessitados. Eles desenvolviam os médiuns e se tratavam. No princípio os desenhos eram feitos a lápis, depois, usou-se as cores; estas atuavam sobre o doente e várias curas se processavam . Alguns médiuns abandonaram o grupo, por considerá-lo cansativo, mas várias curas foram efetuadas. Os que ficaram, hoje estão felizes porque sentem que trabalham com desenvoltura, a mão mais solta. Mesmo estando o grupo nesse estágio mais adiantado, nada nos impede de levar até lá artistas muito doentes. 0 médium humilde compreenderá que está num grupo para servir, não se importando se as suas pinturas são ótimas em um dia e de pior qualidade em outro. Pierre, penso eu que deve ser o mais difícil trabalho mediúnico. Primeiro, porque quem desenha bem não vai querer receber um aprendiz. Depois, se ele já está trabalhando com grandes pintores, não vai gostar de voltar a receber iniciantes. - A humildade é algo que o homem tem de conquistar. Para mim, ela é o horizonte que meus olhos buscam retratar em meu espírito, para que ele seja uma bela obra divina. Após tudo isso, o que mais perguntar? Fiquei calado, mas o nosso amigo continuou mostrando-me outras telas. 0 lugar era muito bonito e pude notar que numerosos enfermeiros ali trabalhavam. - Luiz Sérgio, a maior dificuldade encontramos entre os artistas, principalmente se eles alcançaram a fama e até hoje são recordados como os gênios da pintura. Muitos, quando levados a um grupo, não querem obedecer o horário. Por isso, temos de tomar atitudes enérgicas, ministrando, antes do trabalho prático, aulas sobre a Doutrina e o Evangelho. - Pierre, eles gostam da hora do estudo? - Alguns gostam, outros chegam a ficar irados, achando-o desnecessário. - Por que a sua preocupação com os artistas? - A preocupação não é minha, é de Jesus. Eie deseja que todos nós sejamos pobres de espírito, mansos e pacíficos e que tenhamos puros os corações. Se um mandatário, ao voltar para o plano espiritual, desejar continuar o seu trabalho, apenas ordenando, não conseguirá evoluir; pode, sim, comandar falanges obsessoras que, muitas vezes, pensando ajudar, levam alguns países à desordem. Todos os espíritos ainda carentes de evolução, ao retornarem, têm de obedecer a uma hierarquia. E o artista também não foge desse critério. Quem acompanhou o desencarne de André Luiz deve recordar que ele não pôde exercer a medicina logo que voltou para a espiritualidade. Muitos dos nossos irmãos aceitam trabalhos humildes, porém inúmeros os recusam, porque a vaidade os domina por demais. - Pierre, um grupo de pintura deve ainda requerer médiuns evangelizados, porque se algum vaidoso receber um artista célebre e este ainda estiver precisando de humildade, como ficam as coisas? Muito tristes. Quando o médium não tem a Doutrina no coração, causa ao artista bastante transtorno. 0 espírito pode transmitir ao médium vontade de tomar bebidas alcoólicas, fumar ou comer durante o trabalho. Mas se este tiver conhecimentos doutrinários, saberá isolar essas influências negativas. - Isso acontece em grupo bem orientado? - Não, por essa razão é mais prudente a casa espírita criar grupos só de pinturas mediúnicas. Além de ajudar espíritos muito vaidosos ou excêntricos, através das cores há possibilidade de acalmá-los. Enquanto visitávamos o Departamento da Arte, muitos artistas se acercavam de Pierre para pedir que os levasse aos grupos mediúnicos para pintar. A todos o nosso amigo dava muita atenção e prometia atendê-los. Entramos em uma enfermaria, onde vários irmãos estavam comodamente instalados em espreguiçadeiras. Parecia que tinham desencarnado por derrame, pois falavam com dificuldade. Ao lado deles, terapeutas davam assistência; alguns irmãos esforçavam-se para falar. Ali, naquele local, tudo era muito colorido; mesmo em se tratando de um hospital, as paredes, belas telas as adornavam. Pierre conversou com o encarregado daquele setor e, quando saímos, ele me disse: - Luiz Sérgio, esses irmãos, quando encaminhados a grupos mediúnicos, são beneficiados; vários deles voltam a fazer traços e ficam muito felizes. Eles são levados por irmãos que se especializaram no caso de cada um deles. - Que beleza, Pierre! Embora famosos, iniciam fazendo rabiscos? - Sim, mas riem e gostam muito dos esboços. - Gostaria de ver a cara dos médiuns, principalmente dos vaidosos, que só desejam receber os gênios da pintura. - O perfil de alguns desses médiuns não é nada agradável para ser retratado. São fisionomias bem distantes da harmonia divina, esquecendo-se de que o trabalho feito por amor é uma luz que se multiplica. Um dos doentes chamou Pierre e este, com carinho, o atendeu. Notamos que os dois eram grandes amigos; e, quando Pierre voltou, perguntei-lhe: - O que o fez ficar tão doente? - Suicidou-se, respondeu. É mesmo? - falei, olhando aquele amigo, que me acenou sorrindo, mostrando um belo quadro na parede. Compreendi que ele o havia pintado quando ainda no corpo físico. Ao ganharmos o jardim, vários irmãos pintavam telas maravilhosas e pude notar que ali estavam muitos artistas conhecidos, mas nem me atrevi a chegar perto. Pierre foi pouco a pouco me levando de volta; muitas explicações ele me ofereceu desse mundo maravilhoso das cores. E pensei: que papel importante tem um médium com Jesus! Ele é um enfermeiro para quem o sofredor pede ajuda. E mediunidade disciplinada não está preocupada com o nome dos espíritos e sim com o valor do trabalho. Se você pertence a um grupo pode notar se ele está ou não crescendo de produção. E muito importante a gente servir, mas o mais importante mesmo é servir bem. Despedi-me do amigo e ele ainda me disse: - Luiz Sérgio, Deus é um grande artista; Ele, na Sua sapiência, coloriu o Universo, e o homem é uma obra de arte saída das Suas mãos. Se há muitos quadros feios, a culpa não é do artista: é que a poeira da imperfeição os revestiu - inveja, orgulho, ódio, tintas colocadas pelo tempo. Mas um dia, cansados da feiura, voltarão a ser limpos e surgirá a obra de Deus, que está esculpida em nossos espíritos. O dom artístico é um meio de demonstrar a grandeza divina, portanto, todos os artistas têm de lutar para serem fiéis ao talento recebido. Esse Departamento está repleto de irmãos que jogaram, sem critério, as tintas nas telas materiais, mas ainda mais na sua própria alma, esquecidos de embelezá-la através do amor. Obrigado, irmão, e um abraço aos seus leitores. Fiquei a olhá-lo, enquanto se afastava. Ele, para mim, é uma bela tela divina, humilde companheiro. Dei-me em retirada, e recordei o Antigo Testamento, quando Davi diz a Salomão, Capítulo 22, versículo 14: Eis que com penoso trabalho preparei para a casa do Senhor cem mil talentos de ouro e um milhão de talentos de prata e bronze e ferro em tal abundância que nem foram pesados, também madeiras e pedras preparei, cuja quantidade podes aumentar. Depois recitei Provérbios de Salomão, Capítulo 1, versículo 22: Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós escarnecidos, desejareis o escárnio? E vós loucos, aborrecereis o conhecimento? No versículo 32: Os néscios são mortos por seu desvio. Aos loucos a sua impressão de bem-estar os leva à perdição. Capítulo 16. INTERCÂMBIO MUSICAL -Filosofando, Sérgio? era Conrad. Daqui para onde vais? - Tenho algumas horas livres. Acho que vou descansar no meu quarto. - Pensava em te convidar para darmos uma chegada até um local aonde preciso ir. E muito importante para mim em função de aprendizado, por isso lembrei-me de ti. - Obrigado, Conrad. Vamos logo, seja lá aonde for. Ninguém mais do que eu precisa de aprendizado. E assim fomos caminhando. Havia uma quantidade imensa de árvores lindíssimas; nos seus galhos, multicores pássaros, que convivem conosco sem temor. Aqui existe liberdade. Se lhes estendíamos as mãos, carinhosamente nelas empoleiravam-se. Eles gozam da beleza do ambiente e sabem que nós jamais os maltrataremos. E as flores? Aqui são cuidadas pelo jardineiro de Deus: Jesus, e alimentadas pelos espíritos mensageiros. Conrad, vendo-me contemplando a natureza, disse: - Sérgio, tu gostas muito de narrar aos teus leitores este mundo que encontraste, não é mesmo? - Admirando as árvores, as flores e os pássaros, estou a perceber que aqui nada morre, portanto, o pássaro não teme o homem, porque este não pode atingi-lo; assim também as árvores e as flores. Não há morte porque se vive realmente. As vezes fico horas e horas contemplando tudo ao meu redor e quando escrevo falando em pedra, espinhos e sangue, muitos me julgam um louco. Conrad, de que maneira você descreveria a textura das pedras? Respondeu de imediato: - Aveludadas. - Aveludadas? - Sim, elas não são iguais às da Terra. Aqui, no plano em que nos encontramos, a característica das pedras não é diferente das terrenas, porém menos duras, parecem ocas. Sorri, dizendo: - Aqui as pedradas não fazem sangrar, porque quem atira pedras no próximo ainda não conseguiu chegar até aqui. Enquanto caminhávamos, éramos saudados pelo cântico dos pássaros, o perfume das flores e o balancear das árvores; somos todos irmãos, lutando pela evolução. Logo avistamos o local que iríamos conhecer e os nossos ouvidos, pouco a pouco, foram recebendo a dádiva de Deus: a música. Dei uma de bom brasileiro, caminhando a balancear o corpo. Conrad sorriu. - Sambista, hein? (...) - Nas horas vagas (... ) nas horas vagas. Amigo, sempre gostei de música; arranhava o violão, mas longe de entender bem do assunto. Tocava para mim mesmo, pois sempre respeitei o meu próximo. Conhecedor da minha incompetência, procurava não torturar os ouvidos alheios. No Departamento da Música, alcançamos a biblioteca, repleta de obras referentes aos gênios da música - encarnados e desencarnados, e lentamente fomos descobrindo o encantado mundo musical. Em cada sala, vimos grupos de aprendizes tendo como mestres nomes conhecidos em toda a Terra. Parei, deveras deslumbrado com os inúmeros tipos de instrumentos musicais, alguns nunca vistos por mim. Acerquei-me de um irmão, que nos deu explicações. - Na Terra serão fabricados alguns desses instrumentos? - Nem todos. Só quando ela sofrer sua transformação. O homem encarnado ainda está longe de captar a grandeza da música celeste. Os instrumentos eram belos demais e logo recordei de um amigo querendo tocar órgão; aqui ele ficaria maravilhado diante de tantos recursos. Permanecemos algumas horas naquele Departamento a descobrir mais uma realidade: quando o espírito ama o seu dom, ao voltar à vida espiritual, esquece que a terra o louva, e aqui se propõe a trabalhar. Não existe tarefa mais bela ao que a de ajudar ao próximo. Visitávamos um Departamento musical, com seu anfiteatro repleto de apreciadores dessa arte. - Conrad, imagine nos planos superiores a qualidade musical! - E mesmo, Sérgio! Penso que para nos deliciarmos com melodias divinas precisamos estar aptos. A nossa roupagem atual veda um pouco o poder de apreciação, por isso cada um recebe de acordo com a sua capacidade. Notamos que os artistas tocavam instrumentos sólidos, e música verdadeira, bem melhor que a da terra, é verdade, mas tudo bem material, longe do etéreo. "Mas eu chego lá, isso eu chego!" - pensei alto. Chegaremos, amigo, chegaremos - falou-me Conrad. Vendo-me pensativo, o irmão propôs: - Sei que, como eu, tu desejas conhecer este Departamento. Vamos procurar Ernest. E assim, encontramos o irmão que gentilmente nos recebeu; ele acabava de dar uma aula e seus alunos iam-se retirando. Identifiquei dois músicos, bastante respeitados na Terra, ali como aprendizes. Pensei em perguntar algo sobre eles, mas, deixei prá lá! - Sejam benvindos! Fui informado de que os jovens irmãos estão estudando o crescimento da "chama divina", e achei interessante o relato que farão, desde a criação, à queda e ao reerguimento através das vidas sucessivas. Ao tomarmos consciência de que nascemos do Todo Poderoso, mas, mesmo assim o nada se agregou em nós, chega-nos a vontade de fazer brilhar a chama eterna e esta vontade é a condição de vitória. Cada ser deve procurar a fonte da vida: o conhecimento, e ele se chama Deus. A música é um dos componentes necessários do Universo. Ela cura, ameniza e dá paz. - Irmão, aqui o estudo é especializado em música sacra? - Não, Sérgio, esse setor destina-se ao estudo do melhor meio de levar inspiração musical até aqueles que, na Terra, têm vocação para compor. Mas temos alas específicas aos que se dedicam ao canto, à música sacra, aos concertos, enfim, à enorme variedade de dons musicais existentes. - Irmão, algo me despertou o interesse: como se faz o intercâmbio musical? - Um grupo fica encarregado de transmitir aos compositores musicais; outro grupo se ocupa de transmitir até os encarnados. Alguns captam melhor, principalmente se se esforçam através do estudo. Aqui ninguém para, sempre estamos mandando até a terra filamentos de música divina. - Desculpe, irmão, mas a Terra está repleta de músicas ruins. . - Grande parte não procede daqui e muitas são alteradas na sua transmissão. Depois, não se esqueça de que as regiões de trevas também possuem suas músicas. - Eu, hein? Ele nos sorriu, despedindo-se. Agradecidos, dali saímos. Os meus ouvidos estavam recebendo as mais belas melodias e me senti muito feliz. A tudo observava com grande interesse. Conrad já conhecia aquele lugar, pois logo acercou-se dele Paloma, uma bela mulher, que ali trabalhava, à qual fui apresentado. Indaguei-lhe, de pronto, sobre o salão que adentrávamos, ao que me respondeu: - Aqui estão os aprendizes do canto. - E mesmo? E aqui que se aprende a cantar? Irmã posso me inscrever para algumas aulas? Preciso muito pois os meus amigos reclamam da minha falta de "tom". Ela sorriu, respondendo: - Desculpe, mas para o irmão chegar até aqui, faz-se necessário estagiar em várias outras classes. Há uma seleção feita por espíritos capacitados. Quando o irmão chegar ao pátio, procure observar como é belo o nosso colégio musical; ele possui desde pequenas escolas de música, até salas de concerto. - O que fazer então? Conformar-me com a minha incapacidade musical? Paloma respondeu: - Pelo que sei, o irmão possui muita sensibilidade, o que o leva a compor belas melodias; posso afirmar-lhe que um dia você chegará aqui. Já está começando e desejo-lhe completo êxito. Nesse momento, alguém cantava uma opereta. A voz penetrou em meu espírito, e me senti flutuar; olhei para meus amigos: eles resplandeciam amor pois aquela voz transformava o ambiente. A vibração era tão intensa que me imaginei ao lado de Deus, deliciando-me com o paraíso. Em cada companheiro divisei um arcanjo com suas roupas de um colorido diferente, nas mais belas tonalidades. Não posso precisar quanto tempo ali ficamos, e ao nos retirarmos estava até com vergonha de falar. Não queria perturbar os meus amigos, pois também não queria ser perturbado. Era tão belo o momento, que silenciosamente fiz uma prece de agradecimento a Deus, o criador da Chama Eterna. Livro Chama Eterna. Abraço. Davi.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O FUTURO DAS COMUNIDADES JUDAICAS NA EUROPA.

Judaísmo. Por Rabino Lorde Jonathan Sacks (1948-  ). O Futuro das Comunidades Judaicas na Europa. O ódio que começa com os judeus nunca termina com os judeus. Isto é o que quero que entendamos, hoje. Não foram apenas os judeus que sofreram com Adolfo Hitler (1889-1945). Não foram apenas os judeus que sofreram com Joseph Stalin (1878-1953). Não são apenas os judeus que sofrem com o ISIS (estado islâmico) ou a Al Qaeda ou o "Jihad Islâmico". Cometemos um grande erro se pensamos que o antissemitismo constitui uma ameaça apenas para os judeus. Trata-se de uma ameaça, antes de mais nada, para a Europa e as liberdades que este continente levou séculos para conquistar.  O antissemitismo não tem a ver com os judeus. Tem a ver com antissemitas. Tem a ver com pessoas que não podem aceitar responsabilidade por seus próprios fracassos e, ao contrário, têm que culpar um terceiro. Historicamente, se você fosse cristão à época dos Cruzados, ou alemão após a Primeira Guerra Mundial (28/06/1914 – 11/11/1918), e visse que o mundo não tinha se saído da maneira que você acreditava que sairia, você culparia os judeus. Isto é exatamente o que está ocorrendo hoje. E tudo o que eu disser é pouco sobre quão perigoso isto é. Não apenas para os judeus, mas para todos aqueles que valorizam a liberdade, a compaixão e a humanidade. O surgimento do antissemitismo em uma cultura é o primeiro sintoma de uma enfermidade, o sinal prematuro de aviso de um colapso coletivo. Se a Europa permitir que o antissemitismo floresça, isso será o início de seu fim. E o que pretendo fazer com estes breves comentários é simplesmente analisar um fenômeno repleto de incerteza e ambiguidade, pois necessitamos de precisão e compreensão para entender por que os antissemitas estão convencidos de que não o são. Primeiro, definamos o que é antissemitismo. Não gostar de judeus não é antissemitismo. Todos nós conhecemos pessoas de quem não gostamos. Tudo bem, isto é humano; sem perigo algum. Segundo, criticar Israel não é antissemitismo. Em conversa recente com alunos de colégio, eles me perguntaram se criticar Israel era antissemitismo. Eu disse que não. E expliquei a diferença. Perguntei-lhes: Vocês acreditam que têm o direito de criticar o governo britânico? Todos levantaram o braço. Perguntei, então: “Quem acredita que a Inglaterra não tem o direito de existir?”. Ninguém levantou o braço. Então, agora vocês sabem a diferença, disse-lhes. E todos concordaram. Antissemitismo significa negar aos judeus o direito de existir coletivamente como judeus com os mesmos direitos que os demais. Essa negação assume diferentes formas em diferentes eras. Na Idade Média, os judeus eram odiados por causa de sua religião. Nos séculos 19 e início do 20 eram odiados por causa de sua raça. Hoje somos odiados por causa de nosso Estado-nação, o Estado de Israel. O antissemitismo assume diferentes formas, mas segue sendo a mesma coisa: a ideia de que os judeus não têm o direito de existir como seres humanos livres e iguais aos demais. Uma coisa que nem eu nem meus contemporâneos esperávamos era que o antissemitismo reaparecesse na Europa com o Holocausto ainda tão vívido em nossa memória. A razão para não o esperarmos foi o fato de a Europa ter empreendido o maior esforço coletivo, em toda a História, para assegurar-se de que o vírus do antissemitismo jamais voltasse a infectar o corpo político. Foi um empenho colossal de legislação antirracista, educação sobre o Holocausto e diálogo inter-religioso. Contudo e apesar de tudo, o antissemitismo retornou. Em 27 de janeiro de 2000, representantes de 46 governos de países de todo o mundo se reuniram em Estocolmo – Suécia para emitir uma declaração conjunta de recordação do Holocausto e de continuação da luta contra o antissemitismo, o racismo e o preconceito. E, então, veio 11 de setembro, e em poucos dias, as teorias de conspiração inundaram a Internet bradando que tinha sido obra de Israel e de seu Serviço Secreto, o Mossad. Em abril de 2002, em Pessach (páscoa), eu estava em Florença com um casal judeu de Paris, quando eles receberam uma ligação do filho dizendo: “Mãe, pai, está na hora de deixar a França. Aqui já não é mais seguro para nós”. Em maio de 2007, numa reunião privada aqui em Bruxelas – Bélgica, eu disse aos três líderes da Europa, à época, Ângela Merkel (1954-  ), Presidente do Conselho Europeu; José Manuel Barroso (1956-  ), Presidente da Comissão Europeia; e Hans-Gert Pöttering (1945-  ), Presidente do Parlamento Europeu, que os judeus da Europa estavam começando a se perguntar se havia futuro para eles na Europa. Isso foi há mais de nove anos. Desde então, as coisas só pioraram. Já em 2013, antes de alguns dos piores incidentes, a Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia revelou que quase ⅓ dos judeus da Europa pensavam em emigrar em virtude do antissemitismo. Na França, o número era de 46%; na Hungria, 48%. Deixem-me perguntar-lhes algo. Quer sejam judeus, cristãos ou muçulmanos: vocês ficariam em um país onde fosse necessária a presença da polícia para protegê-los enquanto fizessem suas orações? Onde seus filhos precisassem de policiais armados para protegê-los, no colégio? Onde, se usassem um símbolo de sua fé em público, estariam arriscando-se a serem insultados ou atacados? Onde, quando seus filhos chegam à universidade, são insultados e intimidados em virtude do que ocorre em alguma outra parte do mundo? Onde, quando expressam sua própria visão da situação, são silenciados, aos gritos? Isto está ocorrendo com os judeus em toda a Europa. Em cada um dos países da Europa, sem exceção, os judeus temem pelo futuro de seus filhos. A continuar assim, os judeus continuarão a deixar a Europa, até que, excetuando-se os fragilizados e os idosos, a Europa finalmente se tornará Judenrein, limpa de judeus. Como isto aconteceu?  Aconteceu da forma como os vírus sempre vencem o sistema imunológico humano, ou seja, por mutação. O novo antissemitismo é diferente do antigo de três maneiras. Já mencionei uma delas. Primeiro os judeus foram odiados por sua religião. Depois por sua raça. Hoje são odiados por seu Estado-nação. A segunda diferença é que o epicentro do antigo antissemitismo era a Europa. Hoje, é o Oriente Médio e é transmitido globalmente pelos novos meios eletrônicos. A terceira é especialmente perturbadora. Vou explicar. Odiar é fácil; difícil é justificá-lo publicamente. Ao longo da História, quando as pessoas buscavam justificar o antissemitismo, fizeram-no mediante recurso à mais alta fonte de autoridade de sua cultura. Na Idade Média, essa fonte era a religião. Tínhamos, então, anti-judaísmo religioso. Na Europa pós-Iluminismo, essa fonte era a ciência. Estas eram, então, as duas bases da ideologia nazista – o Darwinismo Social e o assim-chamado Estudo Científico da Raça.  Hoje, a mais alta fonte de autoridade no mundo são os direitos humanos. É por isso que Israel – a única democracia em pleno funcionamento no Oriente Médio – com uma imprensa livre e um judiciário independente – é acusada, com regularidade, dos cinco pecados capitais contra os direitos humanos: racismo, apartheid, crimes contra a humanidade, limpeza étnica e tentativa de genocídio. O novo antissemitismo teve tamanha mutação que qualquer um de seus adeptos pode negar que seja antissemita. Afinal, dirá, “Não sou racista. Não tenho nada contra os judeus ou o judaísmo. Meu único problema é com o Estado de Israel”.  Mas num mundo de 56 países muçulmanos e 103 cristãos, há apenas um único Estado judeu – Israel – que constitui ¼ de 1% da extensão de terra do Oriente Médio. Israel é o único entre os 193 países-membros das Nações Unidas que tem seu direito à existência constantemente contestado, tendo, além disso, um país, o Irã, e muitos, muitos outros grupos, comprometidos com sua destruição. Antissemitismo significa a negação do direito dos judeus de existirem como judeus, com os mesmo  direitos que todos os demais.  A forma em que se reveste, hoje, é o antissionismo. Há, naturalmente, uma diferença entre sionismo e  judaísmo, e entre judeus e israelenses, mas esta diferença não existe para os antissemitas. Foram judeus – e não israelenses – as pessoas assassinadas em ataques terroristas em Toulouse, Paris, Bruxelas e Copenhague - Dinamarca.  O antissionismo é o antissemitismo de nossos dias. Na Idade Média os judeus foram acusados de envenenar os poços, disseminando a peste e matando crianças cristãs para usar seu sangue. Na Alemanha nazista, foram acusados de controlar a América capitalista e a Rússia comunista. Hoje, somos acusados de dirigir a ISIS e os EUA. Todos os antigos mitos foram reciclados, do Libelo de Sangue aos Protocolos dos Sábios de Sion.  As caricaturas que inundaram o Oriente Médio são clones das publicados no Der Sturmer, um dos principais veículos de propagando nazista entre 1923 e 1945. A arma fundamental do novo antissemitismo é assombrosa em sua simplicidade. Vejam: o Holocausto jamais deverá ocorrer novamente. Mas os israelenses são os novos nazistas; os palestinos são os novos judeus; todos os judeus são sionistas. Portanto, os verdadeiros antissemitas de nossos dias são, nem mais nem menos, que os próprios judeus! E não se trata de ideias marginais. Estão disseminadas em todo o mundo muçulmano, incluindo as comunidades na Europa, e estão, aos poucos, infectando a extrema esquerda, a extrema direita, os círculos acadêmicos, os sindicatos e, até mesmo, algumas igrejas.  Tendo-se curado do vírus do antissemitismo, a Europa está sendo re-infectada por partes do mundo que nunca passaram pela autoanálise pela qual a Europa passou, assim que os fatos sobre o Holocausto se tornaram conhecidos. Como tais absurdos chegaram a ser críveis? Estamos entrando em um campo vasto e complexo, e eu escrevi um livro sobre o mesmo; mas a explicação mais simples é a que segue.  Quando coisas ruins acontecem a um grupo, seus integrantes podem fazer uma destas duas perguntas: “O que fizemos de errado?” ou “Quem nos fez isto?”. Todo o destino do grupo dependerá da pergunta que escolherem. Se perguntarem, “O que fizemos de errado?”, terão dado início à autocrítica essencial a uma sociedade livre. Se perguntarem “Quem nos fez isto?”, esse grupo se terá definido como vítima. E, a seguir, procurará um bode expiatório a quem culpar por todos os seus problemas. Classicamente, esse tem sido o grupo dos judeus. Antissemitismo é uma forma de fracasso cognitivo que ocorre quando determinados grupos sentem que seu mundo está saindo do controle. Teve início na Idade Média, quando os cristãos perceberam que o Islã os vencera em lugares que eles consideravam seus, o principal deles, Jerusalém. Foi quando em 1096, a caminho da Terra Santa, os Cruzados primeiro se detiveram para massacrar as comunidades judaicas no Norte da Europa. No Oriente Médio nasceu na década de 1920 com o colapso do Império Otomano. Na Europa o antissemitismo ressurgiu, na década de 1870, durante um período de recessão econômica e ressurgente nacionalismo.  E está reaparecendo na Europa, atualmente, pelas mesmas razões: recessão, nacionalismo e uma reação contrária aos imigrantes e outras minorias. O antissemitismo ocorre quando a política da esperança abre caminho para a política do medo, que rapidamente se transforma em política do ódio. Isto, então, reduz problemas complexos a simplicidades. Divide o mundo em preto e branco, vendo todas as falhas de um lado e todos os complexos de vítima do outro. Seleciona um grupo, entre centenas de criminosos, a quem culpar.  O argumento é sempre o mesmo. Nós somos inocentes; eles são culpados. Daí se deduz que, para sermos livres, eles, os judeus ou o Estado de Israel, precisam ser destruídos. Assim se iniciam os grandes crimes. Os judeus eram odiados por  serem diferentes. Eram a minoria não-cristã mais visível em uma Europa cristã. Hoje, somos a presença não-muçulmana mais visível em um Oriente Médio islâmico. O antissemitismo sempre se tratou da incapacidade de um grupo de dar espaço à diferença. Nenhum grupo que adote essa linha jamais poderá, nem irá criar uma sociedade livre. Portanto, terminarei aonde comecei. O ódio que começa com os judeus nunca termina com os judeus. O antissemitismo é contra os judeus apenas de forma secundária. Primariamente tem a ver com o fracasso de alguns grupos em aceitar a responsabilidade por seus próprios fracassos, e de construir seu próprio futuro com seu próprio esforço. Nenhuma sociedade que promoveu o antissemitismo manteve a liberdade, os direitos humanos ou a liberdade religiosa. Toda sociedade movida pelo ódio começa buscando destruir seus inimigos, mas termina destruindo a si própria. A Europa, hoje, não é fundamentalmente antissemita. No entanto, permitiu que o antissemitismo penetrasse através dos novos meios eletrônicos. Falhou em reconhecer que o novo antissemitismo é diferente do antigo. Não estamos, hoje, de volta à década de 1930. Mas estamos chegando perto de 1879, quando Wilhelm Marr (1819-1904) fundou a Liga de Antissemitas, na Alemanha; de 1886, quando Édouard Drumont (1844-1917) publicou La France Juive; e de 1897, quando Karl Lueger se tornou prefeito de Viena. Estes foram momentos-chave na disseminação do antissemitismo, e o que precisamos fazer, hoje, é recordar que o que foi dito naquele então sobre os judeus está sendo dito, hoje, sobre o Estado Judeu. A história dos judeus na Europa nem sempre foi feliz. O tratamento que esse continente deu aos judeus agregou certas palavras ao vocabulário humano: disputas, conversão forçada, Inquisição, expulsão, auto da fé, gueto, pogrom e Holocausto – palavras escritas com lágrimas e sangue judeu. E, com tudo isso, os judeus amavam a Europa e contribuíram para enriquecê-la com alguns de seus maiores cientistas, escritores, acadêmicos, músicos, formadores da mente moderna. Se a Europa se deixar ser arrastada novamente por essa mesma estrada, essa será a história contada em tempos vindouros. Primeiro vieram atrás dos judeus. Depois dos cristãos. Depois dos gays. Depois dos ateus. Até que não houvesse nada da alma da Europa, a não ser uma lembrança distante, moribunda. Tentei, aqui, dar voz àqueles que não têm voz. Falei em nome dos assassinados de Roma, Sinti, dos gays, dos dissidentes, dos deficientes mentais e físicos, e de um milhão e meio de crianças judias assassinadas em virtude da religião de seus avós. Em seu nome, digo a vocês: vocês sabem onde essa estrada acaba. Não se deixem arrastar por ela, novamente. Vocês são os líderes da Europa. Seu futuro está em suas mãos. Se não fizerem nada, os judeus partirão, a liberdade europeia morrerá e haverá uma mácula moral no nome da Europa que toda a eternidade não bastará para apagar. Detenham-na, enquanto ainda há tempo. Transcrição de um discurso do Rabino Lorde Jonathan Sacks na Conferência “O Futuro das Comunidades Judaicas na Europa”, no Parlamento Europeu, Bruxelas - Bélgica, em 27 de setembro de 2016. Tradução Lilia Wachsmann. Rabino Lorde Jonathan Sacks  - Rabino Chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth  e Av Beit Din (presidente) do Beth Din de 1991 a 2013. Em 2009, foi recomendado para um pariato vitalício, com assento na Casa dos Lordes, com o título de Barão Sacks de Aldgate na City of London - Inglaterra. Desde que deixou o cargo de Rabino Chefe, o Rabino Sacks vem trabalhando como Professor de Pensamento Judaico na Universidade de Nova York - USA, Professor de Pensamento Judaico na Yeshiva University e Professor de Direito, Ética e Bíblia no King’s College de Londres.


www.morasha.com.br. Abraço. Davi.

sábado, 20 de maio de 2017

A POSSÍVEL SAÍDA DO PRESIDENTE MICHEL TEMER.


Os três textos atribuído ao Jornal O Globo não são estritamente a opinião do Mosaico, entretanto, a gravidade da situação política envolvendo diretamente a pessoa do atual presidente da República, leva-nos a tomar posição diante de fatos, claramente explicitados em gravações já periciadas por especialistas. Mesmo que estas gravações suscitem suspeitas de irregularidades ou apontem para maquiamento de áudio ou transcrição de ondas de rádio. Esse fato não tira o comprometimento do Presidente, ao meu ver, por não informar aos órgãos policiais e judiciais competentes a ilicitude. Sua passividade e omissão ficam claros ao se observar o diálogo com o empresário. Assim, o suposto álibi não justifica o encontro. É inacreditável que sua excelência tenha recebido na residência oficial, no porão do Palácio, as 22 horas e 30 minutos, o empresário Joesley Batista, investigado pelo Ministério Público, acusado de distribuir propinas para políticos, sendo que desde 2003, na gestão dos governos do PT, atua no submundo empresarial, favorecido por benesses do governo em contrato ilícitos e suspeitos, acobertados por autoridades públicas e privadas, que atuavam nos setores onde seu conglomerado econômico tinha interesse. Recebeu facilitação de empréstimos do BNDE de mais de R$ 8 bilhões de reais. Sua empresa a JBS teve faturamento de mais de R$ 170 bilhões de reais em 2016, e iniciava contatos para entrar no trilionário mercado de ações americano, a Bolsa de Nova Iorque. O empresário, Joesley Batista, segundo a Forbes, tem fortuna avaliada em mais de R$ 3 bilhões de reais, foi pego pela Operação Lava Jato da Polícia Federal, que (desde 17/03/2014) investiga a generalização sistêmica da corrupção no país. Assinou o instituto da Delação Premiada com o Ministério Público Federal, expondo todos os seus ilícitos pessoais e da empresa delatando os envolvidos, com a intenção de diminuição de sua pena, quando for julgado pela Justiça Federal. Disse que mais de 1.829 políticos, dentre eles congressistas (Senadores, Deputados e Governadores) foram beneficiados com dinheiro ilícito via Caixa Dois, notas frias e outros subterfúgios. Sua empresa a JBS, com esses crimes injetou mais de R$ 500 milhões de reais na política brasileira. O Presidente Temer, com essa atitude se fragiliza, pois disse que “não está envolvido em nenhum crime, e que os recursos que financiaram as suas campanhas eleitorais foram declarados segundo a lei”. Reiterou em dois rápidos discursos, ontem e hoje que não renunciará. Contudo é quase impossível, com essas revelações, o governo Temer permanecer no comando da nação brasileira. Não existe mais o mínimo de moralidade e ética, além de praticamente pouquíssima sustentação política. Segue a opinião do jornal para os senhores tirarem suas conclusões.  Editorial do Jornal O Globo. “A RENÚNCIA DO PRESIDENTE. Um presidente da República aceita receber a visita de um megaempresário alvo de cinco operações da Polícia Federal que apuram o pagamento de milhões em propinas entregues a autoridades públicas, inclusive a aliados do próprio presidente. O encontro não é às claras, no Palácio do Planalto, com agenda pública. Ele se dá quase às onze horas da noite na residência do presidente, de forma clandestina. Ao sair, o empresário combina novos encontros do tipo, e se vangloria do esquema que deu certo: "Fui chegando, eles abriram. Nem perguntaram o meu nome". A simples decisão de recebê-lo já guardaria boa dose de escândalo. Mas houve mais, muito mais. Em diálogo que revela intimidade entre os dois, o empresário quer saber como anda a relação do presidente com um ex-deputado, ex-aliado do presidente, preso há meses, acusado de se deixar corromper por milhões. Este ex-deputado, em outro inquérito, é acusado inclusive de receber propina do empresário para facilitar a vida de suas empresas no FI-FGTS da Caixa Econômica Federal. O presidente se mostra amuado, e lembra que o ex-deputado tentou fustigá-lo, ao torná-lo testemunha de defesa com perguntas que o próprio juiz vetou por acreditar que elas tinham por objetivo intimidá-lo. Ao ouvir esse relato do presidente, o empresário procura tranquilizá-lo mostrando os préstimos que fez. Diz, abertamente, que "zerou" as "pendências" com o ex-deputado, que tinha ido "firme" contra ele na cobrança. E que ao zerar as pendências, tirou-o "da frente". Mais tarde um pouco, em outro trecho, diz que conseguiu "ficar de bem" com ele. Como o presidente reage? Com um incentivo: "Tem que manter isso, viu?" Não é preciso grande esforço para entender o significado dessa sequência de diálogos. Afinal, que pendências, senão o pagamento de propinas ainda não entregues, pode ter o empresário com um ex-deputado preso por corrupção? Que objetivo terá tido o empresário quando afirmou que, zerando as pendências, conseguiu ficar de bem com ele, senão tranquilizar o presidente quanto ao fato de que, com aquelas providências, conseguiu mantê-lo quieto? E, por fim, que significado pode ter o incentivo do presidente ("tem que manter isso, viu"), senão uma advertência para que o empresário continue com as pendências zeradas, tirando o ex-deputado da frente e se mantendo bem com ele? Esses diálogos falam por si e bastariam para fazer ruir a imagem de integridade moral que o presidente tem orgulho de cultivar. Mas houve mais. O empresário relata as suas agruras com a Justiça, e, abertamente, narra ao presidente alguns êxitos que suas práticas de corrupção lhe permitiram ter. Conta que tem em mãos dois juízes, que lhe facilitam a vida, e um procurador, que lhe repassa informações. Um escândalo. O que faz o presidente? Expulsa o empresário de sua casa e o denuncia as autoridades? Não. Exclama, satisfeito: "Ótimo, ótimo". Não é tudo, porém. Em menos de 40 minutos de conversa, o empresário ainda encontra tempo para se queixar de um ex-funcionário seu, atual ministro da Fazenda. Diz, com desfaçatez, que tem enfrentado resistência no ministro da Fazenda para conseguir a troca dos mais altos funcionários do governo na área econômica: o secretário da Receita Federal, a presidente do BNDES, o presidente do Cade e o presidente da CVM. Pede, então, que seja autorizado a usar o nome do presidente quando for novamente ao ministro da Fazenda com tais pleitos. O que faz o presidente? Manda-o embora, indignado? Não, de forma alguma. O presidente autoriza: "Pode fazer". Este jornal apoiou desde o primeiro instante o projeto reformista do presidente Michel Temer. Acreditou e acredita que, mais do que dele, o projeto é dos brasileiros, porque somente ele fará o Brasil encontrar o caminho do crescimento, fundamental para o bem-estar de todos os brasileiros. As reformas são essenciais para conduzir o país para a estabilidade política, para a paz social e para o normal funcionamento de nossas instituições. Tal projeto fará o país chegar a 2018 maduro para fazer a escolha do futuro presidente do país num ambiente de normalidade política e econômica. Mas a crença nesse projeto não pode levar ao autoengano, à cegueira, a virar as costas para a verdade. Não pode levar ao desrespeito a princípios morais e éticos. Esses diálogos expõem, com clareza cristalina, o significado do encontro clandestino do presidente Michel Temer com o empresário Joesley Batista. Ao abrir as portas de sua casa ao empresário, o presidente abriu também as portas para a sua derrocada. E tornou verossímeis as delações da Odebrecht, divulgadas recentemente, e as de Joesley, que vieram agora a público. Nenhum cidadão, cônscio das obrigações da cidadania, pode deixar de reconhecer que o presidente perdeu as condições morais, éticas, políticas e administrativas para continuar governando o Brasil. Há os que pensam que o fim deste governo provocará, mais uma vez, o atraso da tão esperada estabilidade, do tão almejado crescimento econômico, da tão sonhada paz social. Mas é justamente o contrário. A realidade não é aquilo que sonhamos, mas aquilo que vivemos. Fingir que o escândalo não passa de uma inocente conversa entre amigos, iludir-se achando que é melhor tapar o nariz e ver as reformas logo aprovadas, tomar o caminho hipócrita de que nada tão fora da rotina aconteceu não é uma opção. Fazer isso, além de contribuir para a perpetuação de práticas que têm sido a desgraça do nosso país, não apressará o projeto de reformas de que o Brasil necessita desesperadamente. Será, isso sim, a razão para que ele seja mais uma vez postergado. Só um governo com condições morais e éticas pode levá-lo adiante. Quanto mais rapidamente esse novo governo estiver instalado, de acordo com o que determina a Constituição, tanto melhor. A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, está acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará. É o que os cidadãos de bem esperam dele. Se não o fizer, arrastará o Brasil a uma crise política ainda mais profunda que, ninguém se engane, chegará, contudo, ao mesmo resultado, seja pelo impeachment, seja por denúncia acolhida pelo Supremo Tribunal Federal. O caminho pela frente não será fácil. Mas, se há um consolo, é que a Constituição cidadã de 1988 tem o roteiro para percorrê-lo. O Brasil deve se manter integralmente fiel a ela, sem inovações ou atalhos, e enfrentar a realidade sem ilusões vãs. E, passo a passo, chegar ao futuro de bem-estar que toda a nação deseja”. www.oglobo.globo.com.br. Texto da jornalista Miriam Leitão com a cooperação de Álvaro Gribel e Marcelo Loureiro.  “O FIM DO GOVERNO. Estava tudo errado naquela reunião. O presidente Michel Temer recebeu na calada da noite um alvo da Justiça que relatou estar tentando interferir na Lava-Jato, querendo influir em órgãos reguladores e dando dinheiro a um investigado. A única saída boa para aquela conversa era Temer chamar o procurador-geral da República e relatar os crimes que ouviu. Seu silêncio fala mais que as palavras. O empresário demonstrou intimidade com Temer até na maneira cifrada de falar e no pedido para outros encontros noturnos. Aquele foi depois das 22h. Temer se pega a detalhes, achando que basta provar que não pediu para Joesley mandar dinheiro para Cunha. O que é estarrecedor é o conjunto da reunião. Joesley reclama de um procurador, diz que deu uma “segurada” em dois juízes, avisa que tem um procurador que passa informações da Força Tarefa. Só isso já é claramente obstrução de Justiça, é confissão de crime. Ele continuou falando sobre interferir na CVM e no Cade, órgãos que regulam empresas. Conta que falou com o “Henrique” Meirelles sobre mexer na Receita Federal. Meirelles trabalhou quatro anos no grupo J&F. Na parte do diálogo sobre o ex-deputado Eduardo Cunha, Joesley usa palavras que por si só são comprometedoras. “Zerei o que eu tinha”, “zerou tudo”, “ele cobrou”. Significa dizer que ele devia dinheiro a Eduardo Cunha e o presidente Temer sabia, entendeu essas frases entrecortadas, em que ele avisava que tinha pagado uma dívida com Cunha. O contexto em que o presidente Temer diz a frase “tem que manter isso” é depois de o empresário ter falado que estava “bem com o Eduardo”. Não era exatamente após ele falar que estava dando mesada. Ainda assim, o que Joesley estava ali falando era que estava bem com outro investigado, porque tinha quitado dívidas. Joesley e Eduardo Cunha estão no mesmo caso, investigados pela Operação Sepsis, do uso dos recursos do FI-FGTS envolvendo pagamento de propina e empréstimos com vantagens indevidas e que foram intermediadas por um amigo de Joesley, Lúcio Funaro, e um indicado de Cunha para a vice-presidência da Caixa, Fábio Cleto. Então ele só poderia estar “bem com Eduardo”, depois que “zerou tudo”, se fosse pagamento de propina. Nada há de republicano em parte alguma daquela conversa. Estão errados o local, a hora, o tom, os temas, a intimidade. Não é por uma frase que Temer tem que ser investigado a propósito dessa reunião, mas por toda ela. O governo ontem, agarrava-se na possibilidade de que o áudio fosse provar a versão do presidente Temer de que ele não pediu para que Joesley desse dinheiro a Eduardo Cunha. Um ministro disse que o governo tentaria ver se “as ruas” aceitariam a versão de Temer. Não há rua alguma a favor de Temer, e até a versão que ele dá para a conversa é ruim o suficiente. Antes havia uma crise política no país, agora é a crise Temer. O presidente é o ponto de instabilidade. Em um país sem governo, o que pode acontecer com os ativos? A forte oscilação que houve ontem. A bolsa despencou. O risco-país disparou. A Petrobras caiu 15%, o Banco do Brasil, 20%, ao longo do dia. Após o anúncio do presidente de que não ia renunciar, a ação do BB caiu 7%. O dólar abriu a R$ 3,13 e chegou a R$ 3,40. A variação poderia ser ainda maior. O BC ofertou o equivalente a US$ 4 bi em contratos que funcionam como venda futura de moeda e a cotação terminou o dia em R$ 3,38, alta de 8%, a maior em um dia desde a maxidesvalorização de janeiro de 1999. De hoje até terça-feira, haverá outros três leilões de swap, no total de US$ 6 bi. O BC vinha reduzindo o estoque desses contratos, mas a volatilidade mudou essa orientação. Isso já se esperava. A questão não é um dia de pânico, mas a sensação de que não há horizonte rápido para a solução do problema político. Um ministro do governo admitiu ontem ao fim do dia que “é muito difícil reverter o quadro” mas acrescentou: “até para terminar é preciso amadurecer”. É simplesmente uma questão de tempo para que o presidente Temer deixe o governo. Pode ser renúncia ou através da saída menos demorada que é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O importante é ser uma solução constitucional”. www.blogs.oglobo.globo.com.br. Abraço. Davi. Por Carolina Morand. “OS SETE PECADOS DE TEMER NA CONVERSA COM JOESLEY BATISTA. Presidente não repreendeu empresário após o relato de um crime, entre outros pecados. O presidente Michel Temer, da República Federativa do Brasil, recebeu o empresário Joesley Batista, dono da JBS, por volta das 22h30 do dia 7 de março de 2017, uma terça-feira, no Palácio Jaburu em Brasília. Temer acabara de voltar de uma festa. Os dois falaram a sós, fora da agenda oficial, durante cerca de 40 minutos - e, como revela a gravação feita por Joesley, falaram em tom de intimidade. Joesley começa perguntando ao presidente: "Como é que tá a correria?". Um pouco de conversa adiante, o empresário diz ao presidente que um dos motivos da visita era que não se encontravam havia algum tempo: "Ainda não tinha te visto desde quando você assumiu". Um comentário em tom informal. No final, os dois se despedem dizendo que gostaram de se ver e concluem que essa forma de encontro é boa. No finalzinho da conversa, Temer comenta: "Você emagreceu". Joesley, dono do conglomerado gigante que tem embutidos e comidas processadas em seu portfólio, explica: "Estou comendo coisa mais saudável, menos doce, menos industrializado." Pode-se considerar que, na conversa entre os amigos, Temer comete pecados capitais. Não repreendeu Joesley por relatar fatos criminosos nem há registro de que tenha levado adiante alguma denúncia. Veja os sete pecados da conversa: PRIMEIRO PECADO: Joesley Batista diz que recebeu cobranças de Eduardo Cunha mesmo quando o ex-deputado já estava na prisão. Depois acrescenta que está “de bem com o Eduardo”, e Temer responde: “Tem que manter isso, viu?”. Se o áudio, com trechos inaudíveis, não é definitivo sobre o aval de Temer à compra do silêncio de Cunha (a afirmação sobre o aval foi feita pelo Ministério Público com base no contexto da conversa e no conjunto das investigações), ele mostra o presidente endossando a tentativa de Joesley de manter bom relacionamento com o ex-presidente da Câmara, preso por corrupção. SEGUNDO PECADO: Joesley afirma que estaria “segurando” dois juízes que atuam em processos nos quais é investigado, dando a entender que subornou os magistrados. Temer comenta: “Ótimo, ótimo”. Ao Ministério Público, o empresário disse que a declaração foi um blefe, mas àquela altura Temer não sabia disso. Sobre esse trecho da gravação, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República divulgou uma nota afirmando que "o presidente Michel Temer não acreditou na veracidade das declarações". Não há registro de que Temer tenha solicitado qualquer investigação sobre as afirmações de Joesley, apesar de sua gravidade. TERCEIRO PECADO: Em dois trechos, Joesley revela que tem um informante dentro do Ministério Público. Temer se cala. Em 18 de maio, o procurador da República Ângelo Goulart Villela, integrante da força-tarefa da operação Greenfield, foi preso, acusado de repassar informações sigilosas Joesley. QUARTO PECADO: Joesley diz que está atuando para tentar trocar o procurador que o investiga. Temer, mais uma vez, não se opõe. Nem mesmo faz uma crítica após ouvir essa informação. QUINTO PECADO: Joesley pergunta qual é a melhor forma de resolver uma questão de interesse da JBS. Temer indica que ele procure Rodrigo. O Rodrigo em questão é o deputado Rodrigo Rocha Loures. Dias depois da conversa, o dono da JBS marcou um encontro com Rocha Loures em Brasília e conversou com ele sobre uma demanda da empresa no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Pelo serviço, Joesley ofereceu propina de 5% e o deputado concordou. Rocha Loures foi filmado pela Polícia Federal recebendo uma bolsa com R$ 500 mil enviados por Joesley. Temer aceitou ter um intermediário para discutir os interesses de um grupo privado e indicou alguém que fazia parte de um esquema de corrupção. SEXTO PECADO: Joesley diz que quer “ter uma sintonia” com Temer para conversar com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. O empresário sugere que pretende influenciar a escolha dos presidentes do Cade e da CVM. Temer não interrompe a conversa e inclusive autoriza Joesley a falar com Meirelles. SÉTIMO PECADO: Temer sugeriu a Joesley que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderia vir a cortar os juros em 1 ponto porcentual na reunião seguinte. A reunião do Copom ocorreu pouco mais de um mês depois da gravação, no dia 12 de abril, quando o BC resolveu cortar a taxa básica de juros em 1 ponto porcentual, para 11,25% ao ano. O corte de 1 ponto percentual era a aposta que economistas do mercado começavam a fazer em março, mas Temer não faz essa ressalva na conversa. Há um peso quando o presidente fala de uma aposta sobre juros, sobretudo porque o Copom é independente para decidir a taxa”. www.oglobo.globo.com.br.  “OS QUATRO CAMINHOS QUE PODEM DEPOR TEMER DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA: 1 – Impeachment. Oito pedidos já foram protocolados na Câmara dos Deputados contra o Presidente da República. O número não é incomum, o volume ajuda a pressionar uma decisão favorável à saída do Chefe do Executivo. 2 – Supremo Tribunal Federal (STF). Caso a Procuradoria Geral da República afirme que (PGR) afirme que Temer cometeu um crime durante seu mandato, ela pode fazer uma denúncia penal perante o STF. Em seguida o Supremo encaminha o pedido para a Câmara dos Deputados, que com uma aprovação de 2/3 do Plenário, manda de volta a denúncia ao STF. Se o Supremo aceitar a denúncia Temer é afastado de seu cargo por 180 dias. Sendo considerado culpado nesse meio tempo, perde o cargo permanentemente. 3 – Tribunal Superior Eleitoral. Uma terceira possível rota para a queda de Temer começou antes mesmo dele assumir como Vice-Presidente reeleito. No TSE tramita um pedido de cassação da Chapa Dilma-Temer. A ação teve início em 2014, e a justificativa é que a campanha eleitoral teria usado dinheiro de Caixa Dois, doações ilícitas não declaradas à Justiça Eleitoral, havendo toneladas de provas que foram mesmo usadas, como virtualmente todas as campanhas de grande porte. Este julgamento está marcado para o dia 06 de junho. 4 – Renúncia. A pressão sobre Temer é maior do que a que pairava sobre Dilma. Semelhante a que viveu Fernando Collor em 1992. O Editorial acima do Jornal O Globo dá o tom, pede sua saída imediata acrescentando: Temer está só”. www.exame.abril.com.br.  Abraço. Davi.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

II. KRISHNA - SUA POSIÇÃO, SEU NASCIMENTO E SUA MORADA.

Hinduísmo. Texto de Sri Nandanandana. O Senhor também lhes contou que Ele aparecera duas outras vezes como filho deles na forma de Prishnigarbha e Vamanadeva. Aquela era a terceira vez em que Ele aparecia como filho deles para satisfazer-lhes o desejo. Naquela noite, durante uma tempestade, o Senhor Krishna desejou deixar a prisão e ser levado para Gokula. Pelo arranjo de yogamaya, as algemas e os portões prisionais se abriram e os guardas adormeceram, em virtude do que Vasudeva pôde deixar a prisão e levar Krishna para Gokula, salvando assim a criança do perigo de Kamsa. Nesse momento, a própria yogamaya nascia de mãe Yashoda como uma menininha. Quando Vasudeva chegou à casa de Nanda Maharaja, todos estavam em sono profundo. Ele, destarte, pôde colocar o Senhor Krishna nas mãos de Yashoda ao mesmo tempo em que pegava a bebezinha dela para a levar de volta consigo. Quando retornou, colocou a bebê na cama de Devaki e se preparou para reaceitar seu lugar na prisão acorrentando-se novamente. Quando Yashoda despertou em Gokula, ela não conseguia se lembrar se havia dado à luz um bebê do sexo masculino ou feminino, e logo aceitou o Senhor Krishna como o seu bebê. Quando a bebê, Yogamaya, começou a chorar de manhã, seu choro chamou a atenção dos carcereiros, que, então, notificaram o rei Kamsa. Kamsa entrou violentamente na prisão a fim de matar a criança. Devaki suplicou-lhe que poupasse a bebê. Rejeitando o rogo da irmã, arrancou a menina de suas mãos e tentou atirar a bebê contra uma rocha. Contudo, ela deslizou para fora de suas mãos e ergueu-se acima de sua cabeça, flutuando no ar enquanto exibia sua verdadeira forma como a Durga de oito braços. Durga disse a Kamsa que a pessoa pela qual ele estava procurando já havia nascido em outro lugar. Kamsa encheu-se de surpresa vendo que o oitavo filho de Devaki aparecera no sexo feminino e que o inimigo que ele temia havia nascido em outro lugar. Ele, então, libertou Devaki e Vasudeva, pedindo desculpas por tudo o que fizera. Todavia, após se consultar com seus ministros, Kamsa decidiu que o melhor a fazer era matar todas as crianças que haviam nascido nos últimos dez dias de maneira a tentar encontrar e matar seu inimigo, Krishna. Assim tiveram início as atrocidades de Kamsa e seus ministros, pelas quais pagaria quando o Senhor Krishna o matasse. Antes desse dia, o Senhor Krishna começou Seus passatempos com Seus devotos em Gokula e Vrindavana a fim de exibir Suas características, personalidade e beleza únicas. Deste modo, como Sri Uddhava explicou a Vidura, “o Senhor apareceu no mundo mortal através de Sua potência interna, yogamaya. Ele veio em Sua forma eterna, que é perfeitamente apropriada para Seus passatempos. Esses passatempos foram maravilhosos para todos – até mesmo para aqueles orgulhosos de sua própria opulência, incluindo o próprio Senhor em Sua forma como o Senhor Vaikuntha. Assim, o corpo transcendental de Sri Krishna é o ornamento de todos os ornamentos. A Personalidade de Deus, o controlador absolutamente compassivo tanto da criação material quanto da criação espiritual, é não nascido, mas, quando há atrito entre Seus pacíficos devotos e aqueles que estão nos modos da natureza material, Ele nasce assim como o fogo, acompanhado pelo mahat-tattva”. (Srimad-Bhagavatam 3.2.12,15). Como Compreender Deus. Algumas vezes, as pessoas dizem que querem ver Deus, ou que Deus não é perceptível. Ambos os pontos são confirmados na escritura védica, mas com considerações adicionais sobre como podemos perceber o Ser Supremo. A Shvetashvatara Upanishad (4.20) explica: “Sua forma de beleza é imperceptível aos sentidos mundanos. Ninguém O pode ver com olhos materiais. Somente aqueles que concebem, através da profunda meditação de um coração puro, essa Personalidade Suprema, que reside no coração de todos, podem obter a libertação”. A lila de Krishna, ou Seus passatempos, acontecem eternamente no mundo espiritual, ao passo que parecem acontecer somente em certos pontos do tempo dentro da energia material. Contudo, quem purificou sua consciência pode testemunhar essas atividades mesmo enquanto no corpo material. Isso pode ocorrer especialmente nos locais sagrados (dhamas), onde as energias material e espiritual se justapõem e o mundo espiritual aparece dentro desta esfera material. Tais lugares incluem Vrindavana, Mathura, Jagannatha Puri, Dvaraka e assim por diante. E quando o Senhor está satisfeito com o seu serviço, Ele pode Se revelar para você. Desta forma, muitos devotos elevadíssimos e puros de Krishna foram capazes de ter um darshana pessoal do Senhor e testemunhar Seus passatempos mesmo enquanto no corpo material. Tais pessoas deixaram instruções para nós de modo que, seguindo-as, possamos ter a mesma experiência. Essa é a verificação de que o processo devoção, bhakti-yoga, funciona. O Srimad-Bhagavatam (10.14.29) traz este ponto: “Meu Senhor, se alguém é favorecido por mesmo um mero traço da misericórdia de Teus pés de lótus, ele pode entender a grandeza Tua, ó Personalidade Suprema. Aqueles que recorrem à especulação como o meio para compreender a Suprema Personalidade de Deus são incapazes de Te conhecerem, mesmo caso prossigam estudando os Vedas por muitos anos”. Uma vez que Krishna é o Ser Supremo e a fonte de todo desfrute, é de nosso maior interesse nos ocuparmos a Seu serviço, pois isso também nos conectará a Ele e nos dará o grande prazer e a bem-aventurança que sempre tentamos encontrar. Esse é o ponto do serviço devocional, chamado bhakti-yoga, que é o processo de conectar (yoga) com o Supremo através da devoção (bhakti). Desta maneira, nossa inerente propensão amorosa é direcionada ao amante supremo e ao objeto natural do amor: Deus. Não existe melhor maneira para encontrar Deus do que essa. Em outras palavras, através da devoção não tentamos ver Deus, mas agimos de tal forma que Deus Se revele a nós. Então, tudo se concretiza. Não pode haver conquista maior na forma humana de vida do que isso. Tudo mais é temporário – vem e se vai. Somente nossas conquistas espirituais duram eternamente, pois são ligadas à alma imortal. Por conseguinte, redespertar nosso relacionamento com o Supremo é a meta mais elevada na existência humana. Dado que o Senhor Krishna é a Suprema Personalidade, naturalmente há certas maneiras pelas quais O compreender. O segredo é explicado diretamente pelo próprio Senhor Sri Krishna quando Ele diz: “O conhecimento acerca de Mim, como descrito nas escrituras, é muito confidencial e tem que ser assimilado em conjunto com o serviço devocional. Estou explicando a parafernália necessária para esse processo. Podes receber isso cuidadosamente. Tudo o que é Meu, a saber, Minha verdadeira forma eterna e Minha existência transcendental, Minha cor, Minhas qualidades e Minhas atividades – que tudo se desperte dentro de ti por vivência fatual, por Minha misericórdia sem causa”. (Srimad-Bhagavatam 2.9.31-32). Para dar início a esse processo, o sujeito necessita ouvir de alguém que sabe e é familiarizado com as qualidades do Senhor Krishna e pode explicá-las a outros. Isso é estabelecido neste famoso verso: “Àquelas grandes almas que têm fé inabalável tanto no Senhor quanto no mestre espiritual, todos os significados do conhecimento védico são automaticamente revelados”. (Shvetashvatara Upanishad 6.23). “Regularmente ouvindo, cantando e meditando nos belos tópicos do Senhor Mukunda [Krishna] com sinceridade sempre crescente, um mortal alcançará o divino reino do Senhor, onde o inviolável poder da morte não tem influência. Para esse fim, muitas pessoas, incluindo grandes reis, abandonaram seus lares mundanos e partiram para a floresta”. (Srimad-Bhagavatam 10.90.50). Nessa declaração fica claro que, para aqueles que ouvem e entoam o santo nome e os tópicos referentes a Krishna, milhões de graves reações pecaminosas são prontamente reduzidas a cinzas. É claro que o momento mais importante para nos lembrarmos do Senhor e cantarmos Seu nome é a hora da morte. É por isso que é dito que aqueles que cantam “Krishna, Krishna” na hora que o corpo expira são indivíduos aptos para a libertação. A Gopala-tapani Upanishad (1.6) afirma que “aquele que medita na Pessoa Suprema, glorifica-O e adora-O, obtém a libertação”. Em conclusão, o Senhor Krishna explica de maneira simples: “Porque és Meu amigo muito querido, compartilho contigo a parte mais confidencial do conhecimento. Ouve-Me falar-te isso, pois é para o teu benefício. Sempre pensa em Mim e torna-te Meu devoto. Adora-Me e oferece-Me tuas homenagens. Assim, virás a Mim impreterivelmente. Prometo-te isso porque és Meu amigo muito querido. Abandona todas as variedades de religião e simplesmente te rende a Mim. Libertar-te-ei de todas as reações pecaminosas. Não temas”. (Bhagavad-gita 18.63-66). A Consequência de Não Conhecer Krishna. Quando os ensinamentos védicos falam sobre as consequências de alguém não ter suficiente fé no Senhor Krishna, ou no processo para conhecê-lo, é algo bastante diferente do que você talvez encontre em outras fés ou religiões, que talvez professem que você vai para um inferno eterno caso você não creia ou que você é um infiel digno de morte ou qualquer outra coisa do gênero. Contudo, deixar de investigá-lo e conhecer qual é o nosso destino final é algo tido como um desperdício desta vida em particular. O Senhor Krishna explica pessoalmente: “Se alguém é bem versado em toda a literatura védica, mas deixa de familiarizar-se com o Supremo, tem-se de concluir que toda a sua educação é como o fardo de um animal ou como a manutenção de uma vaca que não dá leite”. (Srimad-Bhagavatam 11.11.18). “Aqueles que adoram os deuses nascerão entre os deuses, aqueles que adoram fantasmas e espíritos nascerão entre tais seres, aqueles que adoram os ancestrais terão com os ancestrais, e aqueles que Me adoram viverão comigo”. (Bhagavad-gita 9.25) Assim, a pessoa é autorizada a proceder com sua vida da maneira que queira. O Senhor Krishna permite que cada pessoa se desenvolva em seu próprio caminho e continue vagando pelo universo e por vários tipos de atividades até que comecem a se perguntar sobre o propósito da existência ou se tornem dispostas a um caminho espiritual profundo. As atividades materialistas não é o caminho pelo qual se pode conseguir paz, e a maioria de nós precisa descobrir isso por si mesmo. Contudo, uma pessoa não pode ser ajudada até que esteja pronta. Até essa hora, portanto, podemos oferecer-lhes o conhecimento espiritual de que necessitam, mas decidirão por si mesmas o quanto desse conhecimento desejam utilizar. Quando, por exemplo, Sri Krishna falou todo o Bhagavad-gita a Arjuna, Ele, ao final, perguntou a Arjuna o que ele gostaria de fazer. Ele tinha que tomar sua decisão. Ele não foi forçado a nada. Da mesma maneira, podemos apenas oferecer este conhecimento para o benefício da humanidade, e cada indivíduo pode decidir o que deseja fazer, ou por quanto tempo deseja continuar com sua existência nos mundos materiais. A Eterna Morada Espiritual de Krishna. Os textos védicos descrevem que há inumeráveis planetas espirituais no céu espiritual, além desta criação material, cada um com uma das ilimitadas formas do Senhor com incontáveis devotos ocupados a Seu serviço. No centro de todos os planetas espirituais de Vaikuntha (o mundo espiritual, ou, literalmente, “o local sem ansiedade”), está o planeta conhecido como Krishnaloka, ou Goloka Vrindavana. Essa é a morada pessoal da original Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna. Krishna desfruta de Sua bem-aventurança transcendental em múltiplas formas neste planeta, e todas as opulências dos outros planetas Vaikuntha se encontram ali. Esse planeta tem a forma de uma flor de lótus, e muitos tipos de passatempos acontecem em cada pétala desse lótus, como descreve a Brahma-samhita (5.2,4): “A sublime residência de Krishna, que é conhecida como Gokula, é a morada suprema. Essa morada é o centro de um lótus de milhares de pétalas, e é sustentada por uma fração da energia espiritual de Baladeva chamada Ananta. O centro desse eterno reino de Gokula é a morada hexagonal de Krishna, e suas pétalas são as moradas das gopis, que são partes e parcelas de Krishna, a quem elas são muitíssimo amavelmente devotadas e similares em essência. As pétalas brilham belamente como muitíssimas muralhas. As folhas estendidas desse lótus são várias divisões similares a jardins e caramanchões, destinados a Sri Radhika e as demais gopis”. O único afazer que Sri Krishna tem no reino espiritual é o desfrute transcendental. O único afazer dos servos eternos de Krishna é oferecer-Lhe desfrute. Quanto mais desfrute os servos, ou devotos, concedem a Krishna, mais feliz Ele fica. E quanto mais feliz Krishna fica, mais Seus devotos se veem motivados e experimentam êxtase eterno e transcendental. Desta forma, há uma competição sempre crescente de êxtase espiritual entre Krishna e Suas partes integrantes. Esse é o único afazer no mundo espiritual, como confirma o verso seis da Brahma-samhita: “O Senhor de Gokula é o Senhor Supremo e transcendental, o próprio eu dos êxtases eternos. Ele é superior a todos, ocupa-Se completamente nas recreações do reino transcendental, e não tem associação alguma com Sua potência mundana (material)”. Embora não seja possível experienciar os passatempos espirituais ou ver a forma do Supremo com sentidos ordinários, podemos, como já dito, espiritualizar os nossos sentidos pela prática do yoga devocional e alcançar assim a plataforma de perceber o Supremo a todo instante. Nesse momento, começamos a nos tornar conscientes de Krishna e podemos começar a entrar nos passatempos de Krishna, embora ainda estejamos situados dentro deste corpo material. Caso nos tornemos plenamente espiritualizados dessa maneira, não há dúvidas de que, quando abandonemos este corpo material, retornaremos ao mundo espiritual. Até lá, podemos continuar estudando os textos védicos para nos lembrarmos e nos familiarizarmos com a beleza e amabilidade do mundo espiritual, como descritas a seguir: “Adoro Goloka, onde residem ilimitadas gopis e onde reside Krishna, o amado das gopis e a forma suprema de Deus, onde todas as árvores são árvores-dos-desejos, onde a terra é composta de pedras filosofais, onde a água é tão doce quanto néctar, onde toda palavra é uma canção, todo passo é uma dança, onde a flauta é a melhor amiga – sempre a anunciar jubilosamente e em todo lugar a presença de Krishna –, cuja refulgência é magnífica e plena de bem-aventurança transcendental, onde tudo o que é desfrutável também é pleno de conhecimento e bem-aventurança, onde inumeráveis vacas leiteiras sempre derramam transcendentais oceanos de leite, onde inexiste passado ou futuro em virtude de o tempo não transcorrer sequer pelo espaço de meio instante. Esse reino de Goloka é conhecido apenas por pouquíssimas almas auto realizadas neste mundo”. (Brahma-samhita, 5.56).  “O dhama Vrindavana é um local de júbilo sempre crescente. Flores e frutas de todas as estações crescem ali, e essa terra transcendental é repleta do doce som de vários passarinhos. Todas as direções ressoam com o zunir de abelhões, e são servidas por brisas refrescantes e pelas águas igualmente refrescantes do rio Yamuna. Vrindavana é decorada por árvores-dos-desejos tomadas de trepadeiras e belas flores. O pólen dos lótus vermelhos, azuis e brancos ornamentam sua divina beleza. O solo é feito de joias, cuja glória esplendorosa é igual a uma miríade de sóis surgindo no céu de uma só vez. Nesse solo, há um bosque de árvores-dos-desejos, que sempre derramam amor divino. Nesse jardim, há um templo de joias, cujo pináculo é feito de rubis. Várias joias o decoram, em virtude do que permanece brilhantemente refulgente ao longo de todas as estações do ano. O templo é embelezado por abóbadas de cores intensas, brilhando com várias gemas, e traz ainda telhados decorados por rubis e portões e arcadas ataviadas de pedras preciosas. Seu esplendor é igual a milhões de sóis, e é eternamente livre das seis ondas de misérias materiais. Nesse templo, há um grande trono dourado ataviado de muitas joias. É desta maneira que se deve meditar no reino divino do Senhor Supremo, o dhama Sri Vrindavana”. (Gautamiya Tantra 4). Estudando e ouvindo sobre a beleza do mundo espiritual, compreendemos que tudo pelo que estamos procurando na vida tem sua origem nesse reino eterno. Ali, como se descreve, a pessoa encontra liberdade de todas as dores e de todo sofrimento, e a atmosfera é ilimitadamente plena de beleza, júbilo, felicidade e conhecimento sempre em expansão, bem como relacionamentos amorosos eternos. Nesse reino, ninguém tem as dificuldades de manter o corpo, pois todos possuem formas espirituais. Assim, trata-se de um mundo repleto unicamente de recreação, sem a peleja peculiar à manutenção da própria existência. Jamais há fome, e podemos banquetear sem nunca ficarmos cheios. Tampouco há lamentação quanto ao passado ou medo do futuro. Descreve-se que o tempo é notado por sua ausência. Assim, as necessidades da alma por completa liberdade e felicidade e amor irrestritos se encontram na atmosfera espiritual. Esse é o nosso verdadeiro lar. www.voltaaosupremo.com.br. Abraço. Davi.