domingo, 8 de novembro de 2020

A ESPADA AFIADA DE PRAJNA

 

Budismo. www.budavirtual.com.br. Texto de Judy Lief. A ESPADA AFIADA DE PRAJNA. A sabedoria, diz Judy Lief, não é sobre respostas. Trata-se do poder de questionar, de desenvolver uma grande curiosidade que corta toda a solidez e autoengano. Matéria traduzida por Marcos Bauch do original em inglês publicado na Lions Roar disponível aqui O Mahayana é conhecido como “o grande veículo” do budismo porque é vasto e desafiador e aberto a todos. No coração do caminho mahayana estão a compaixão e a sabedoria, ou prajna. Para o praticante, o desafio é como juntar estes dois. Prajna é uma palavra sânscrita que, literalmente, significa “melhor conhecimento” ou “saber melhor”. Prajna é um natural borbulhar de curiosidade, dúvida e exploração. É preciso, mas, ao mesmo tempo, é lúdico. O despertar de prajna aplica-se a todos os aspectos da vida, até os mínimos detalhes. Nosso interesse inquisitivo engloba todos os níveis, dos mais mundanos, como, por exemplo, ‘como eu ligo este computador’, até níveis tão profundos quanto ‘qual é a natureza da realidade?’ Prajna é simbolizada de muitas maneiras: como um livro, um sol, um vaso com elixir, como uma centelha catalítica. Uma das principais formas de simbolizar prajna é como uma espada. Quando você pensa em uma espada, isso pode fazer você se sentir um pouco desconfortável. Uma espada pode ser perigosa e, se você não lidar com ela da forma correta, você pode se machucar. Então, simbolizar prajna como uma espada indica o conhecimento que é ameaçador. Por que prajna é ameaçadora? Porque prajna é o meio pelo qual percebemos a vacuidade, ou shunyata, ela destroí nossa própria noção de realidade e os limites que colocamos em nossa visão de mundo. Nos abrir para a imensidão e a profundidade de shunyata nos obriga a abandonar completamente nossa mente mesquinha e nosso auto apego. Muitos sutras lidam com o tema de prajna. Um dos mais amados é a explicação extremamente concisa e elegante conhecida como o Sutra do Coração, que é recitada diariamente pelos budistas de muitas tradições. Em frases tão famosas e provocativas como: “Não tem olhos, nem ouvidos, nem nariz, nem língua, nem corpo, nem mente (…) não tem sofrimento, nem a origem do sofrimento, nem cessação do sofrimento, nem caminho (…) nem sabedoria, nem realização”, O Sutra do Coração, passo a passo, de forma precisa e sistemática – quase cirurgicamente – remove todas e quaisquer barreiras que nos separam da viva experiência de shunyata. O fio afiado de prajna corta em muitos níveis. No sentido mundano, prajna representa um amolar da percepção e curiosidade. À medida que vamos seguindo nossas vidas, e particularmente, quando entramos em um caminho espiritual, estamos sempre fazendo perguntas. Estamos sempre tentando entender. Em vez de apenas aceitar um entendimento superficial, pensamos profundamente e perguntamos: “O que eu realmente entendo? Isso faz algum sentido”? Prajna tem essa qualidade de dúvida criativa – não apenas aceitando coisas com base em autoridade ou boatos, mas continuamente cavando mais fundo. Além de serem afiadas, as espadas têm pontas que são capazes de perfurar. A espada pontuda e afiada de prajna perfura todos os tipos de delusões, todos os tipos de auto engano, todos os tipos de falsos entendimentos e falsas visões. Essa qualidade perfurante de prajna é abrupta e imediata. Ela toma você de surpresa. Talvez você seja um praticante novo que esteja explorando o dharma, estudando todas essas coisas novas e interessantes e começando a praticar a meditação. De repente, prajna se apossa de você e você se sente perfurado. Você foi pego. Prajna pegou você no ato, seja no ato de auto absorção, de estar envaidecido, ou o ato de mentir para si mesmo. Prajna é uma zona livre de mentiras. Sempre que tentamos nos afastar do presente, da realidade imediata das coisas, estamos nos colocando como um alvo para esta qualidade perfurante de prajna. Podemos dizer que prajna é um mecanismo de defesa. Se continuamos a ser cada vez mais arrogantes, em algum momento somos perfurados pela prajna e tudo entra em colapso. Isso é bom, mas, ao mesmo tempo, essa qualidade de ser perfurante e cortante pode ser vista como uma ameaça. Nos sentimos ameaçados pela possibilidade de ser descobertos, mas, uma vez que prajna é o nosso próprio insight intrínseco, por quem estamos sendo descobertos? Por nós mesmos! Não é que outra pessoa vá dizer: “Ah, eu conheço o seu jogo”. Através de prajna, no fundo nós sabemos o que realmente está acontecendo: conhecemos o nosso próprio jogo. É preciso esforço para continuar a nos auto enganar. Se não nos esforçarmos para seguir nos enganando, fingindo que não sabemos o que está acontecendo, então, mais cedo ou mais tarde, vamos ser perfurados. Você pode ver tudo isso como uma pequena advertência: assim que você entra no caminho budista, começa a praticar a meditação e estudar o dharma, você está recolhendo essa espada de prajna. Agora que você está segurando essa coisa afiada, essa espada que perfura e corta todas as viagens do ego, você tem que encarar isso. A espada de prajna tem dois lados afiados, não apenas um. É uma espada de dois gumes, afiada em ambos os lados, então, quando você golpeia com prajna, ela corta de duas maneiras. Quando você corta o engano, você também está cortando o ego que quer levar o crédito por isso. Você é abandonado no meio do nada, mais ou menos. Quanto mais consciência [mindfulness] você desenvolve, mais poderosa é a espada da prajna. Uma vez que você tenha essa espada, ela corta todas as possibilidades de fuga. Mas não tem ninguém fazendo isso com você – é sua própria inteligência e não um bicho-papão cósmico. O golpe de prajna é como um hara-kiri. Enquanto você está segurando a espada, você prepara o contragolpe, pronto para atacar – e aí descobre que você se cortou em dois. Prajna nunca para de cortar. Se você está podando uma planta, você pode dizer: “Vou apenas podar, podar, podar e então vou ter esse galinho que voltará a crescer”. Mas prajna continua cortando e cortando, até não restar mais nada, apenas esta espada, cortando e cortando. Prajna não nos permite criar uma credencial ou fazer de qualquer coisa uma fundamentação. Podemos criar credenciais de qualquer coisa que fazemos, incluindo a espiritualidade ou a tradição budista ou a prática da meditação. Poderíamos usar qualquer uma dessas coisas na nossa maneira usual e convencional de construir credenciais, construir identidades, tentando ser especiais. Poderíamos dizer: “Agora sou uma pessoa espiritual que faz bla-bla-bla”. A resposta de prajna é: “Bom, tudo bem. Você pode até dizer isso, mas você sabe muito bem que isso não é bem assim. Você sabe que isso não é lá tão sólido”. A espada da prajna corta nosso apego à uma base sólida. Outra imagem para prajna é o sol: o sol de prajna está iluminando nosso mundo. Se somos curiosos, se estamos atentos, um tipo natural de iluminação acontece. Há luz brilhando nos cantos escuros e uma sensação de estar em destaque, totalmente exposto. O engraçado é que, na verdade, pensamos que podemos nos esconder. Como podemos pensar isso? Como podemos pensar que, na verdade, não sabemos quem somos? Mas muitas vezes tomamos a abordagem de não querer olhar, para nós mesmos e para nossas vidas, muito de perto. Nós simplesmente olhamos para o outro lado e seguimos em frente. No entanto, não há um canto onde o sol da prajna não brilhe. Prajna é como ter um sol brilhando em todos os lugares, nunca se pondo. Uma vez que você se abre para prajna, para essa curiosidade fundamental, ela tende a explodir em chamas. É como uma pequena centelha jogada em uma pilha de folhas secas. Uma vez que apareça aquela pequena faísca, aquele pequeno insight, aquela pequena suspeita de que sabemos mais do que achamos – ela explode, ela consome tudo. Prajna é representada iconograficamente pela deidade feminina Prajnaparamita e a deidade masculina Manjushri. Prajnaparamita é retratada como uma bela deidade feminina com quatro braços. Dois braços estão dobrados em seu colo, na postura clássica de meditação, e seus outros dois braços seguram uma espada e um livro. Através desses gestos, ela manifesta três aspectos da prajna: conhecimento acadêmico, corte do engano e percepção direta da vacuidade. A divindade masculina personificando o conhecimento, Manjushri, também é representado segurando uma espada. Às vezes, ele também segura um vaso cheio com o elixir do conhecimento, que simboliza a visão intuitiva direta. A espada é a atividade de prajna e o vaso é o aspecto receptivo da aprendizagem. Às vezes Manjushri segura um livro e uma flor. O livro simboliza o aprendizado acadêmico e a flor representa o desdobramento orgânico de prajna, que, como uma flor, naturalmente se abre e floresce. Não precisa ser forçada. Prajna tem a ver com cultivar a curiosidade da mente, cultivando uma compreensão profunda que não é uma mera identidade, mas nos transforma completamente. Como cultivar prajna? O processo de aprofundamento da nossa compreensão é descrito como os três níveis de prajna, ou as três prajnas. Que chamamos de ouvir, contemplar e meditar. A PRIMEIRa PRAJNA: OUVIR. A primeira prajna, ouvir, é baseada em estar aberto a novas informações, reunir conhecimento e realmente tentar ouvir. Embora seja chamada de ouvir, além de escutar com seus ouvidos, também inclui leitura e observação através de todos os nossos sentidos. Quando você ouve o dharma ou ouve os ensinamentos, você deveria ser como um cervo na floresta. Você ouve um ruído – passos pisando as folhas – e você não sabe se esse barulho vem de um caçador ou de um leão de montanha. Naquele momento, seus sentidos se aguçam completamente. Você está focado e pronto para correr do perigo, se necessário. Você está absolutamente alerta e sintonizado com o meio ambiente. Essa qualidade de alerta e atenção refinadas é a qualidade de ouvir. Você precisa ouvir os ensinamentos como se sua vida dependesse disso. Essa é a maneira correta de seguir a primeira prajna. A SEGUNDA PRAJNA: CONTEMPLAR. No entanto, neste ponto, vemos o conhecimento como algo separado de nós, um objeto lá fora com o qual estamos tentando lidar. Para aprofundar, recorremos à segunda prajna, contemplar. Uma vez que tenhamos ouvido ou lido ou experimentado algo, o contemplar significa realmente mastigar isso. Nós continuamente questionamos o que ouvimos, olhando aquilo de ângulos diferentes, tomando tempo para explorá-lo. Lembro do meu professor, Chögyam Trungpa Rinpoche, dizendo que, se você realmente entender os ensinamentos, você deveria ser capaz de descrevê-los para sua avó de um jeito que ela possa entender. Isso é muito desafiador – você não pode simplesmente chegar marchando e apresentar sua conversa pré-moldada ou suas muitas camadas de listas e termos. Você tem que ter mastigado as coisas e realmente ter pensado sobre isso. Você precisa chegar ao ponto em que você pode expressar os ensinamentos em suas próprias palavras, suas próprias imagens. Você precisa encontrar sua voz, e isso leva tempo. Essa é a ideia de contemplar. Estudar os ensinamentos budistas não é como ir à escola, onde você tem uma aula depois da outra. Na tradição budista, você pega uma ou duas coisas e você as estuda repetidamente. Você pega um tópico e sempre volta nele, vez após vez. Você trabalha com ele toda a sua vida. Vez após vez você retorna a apenas algumas idéias básicas e a cada vez sua compreensão se aprofunda. O processo de contemplação é um relacionamento de longo prazo, como o de um casal velhinho. Isso não acontece rapidamente; leva tempo. A TERCEIRA PRAJNA: MEDITAR.  A terceira prajna é chamada de meditar. Este é o ponto em que você estudou algo tão profundamente, olhou-o tão completamente, que aquilo não está mais separado de você. É parte de quem você é, encravado em seus próprios ossos até a medula. O prajna da meditação significa que você realmente digeriu os ensinamentos. Não há necessidade de tentar acessar o dharma de algum lugar, ou fazer um esforço para reconstruí-lo, porque já está lá. Está em suas células e seu DNA. Ouvir é como colocar um pedaço de comida na sua boca. Contemplar é como engolir essa comida e começar a digerir para ver se isso lhe dá indigestão ou não. Meditar é quando você já digeriu e essa comida faz parte de você. Não pode ser separada de você; Está completamente incorporada em seu ser. Você reteve a essência e descartou qualquer coisa que seja irrelevante, o mesmo que fazemos com a comida que comemos ou com o ar que respiramos. Todo o processo é tão natural quanto comer. Normalmente pensamos que conhecimento significa ter todas as respostas, mas a qualidade de prajna está mais em ter todas as perguntas. A frase que Trungpa Rinpoche (1939-1987) usava sempre era: “A pergunta é a resposta”. Estamos olhando na direção errada se pensarmos que algum caminho ou algum professor ou algum livro ou alguma prática fornecer-nos “a resposta definitiva”. O que deveríamos estar realmente procurando é a pergunta definitiva. Poderíamos aprender a confiar na nossa mente questionadora. Poderíamos aprender a confiar no nosso insight, sem reduzi-lo ou enfiá-lo em nossas categorias convencionais. Na verdade, prajna não pode ser classificada. Isso seria como tentar colocar o sol em um escaninho. Simplesmente não é possível. Que conhecimento é esse que não pode ser possuído, que não podemos segurar, que não é nossas credenciais, que não é um objeto? Que conhecimento é esse que parece aparecer apenas quando não estamos tentando alcançá-lo? Que conhecimento é esse que parece vir do nada? Que conhecimento é esse que é inspirador, mas, ao mesmo tempo, ameaçador? Que conhecimento é esse que nos desafia a reconhecer o que já sabemos, mas que preferimos manter enterrado? Que insight penetrante é esse que nos leva à experiência direta da vacuidade? Fundamentalmente, prajna é uma grande mente questionadora. É um grande questionamento, nem mesmo mente. www.budavirtual.com.br. Abraço. Davi.

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

OS ANALECTOS - LIVRO XIX

 

Confucionismo. www.https//rt.br. OS ANALECTOS – LIVRO XIX. Tzu-chang disse: “Pode-se, talvez, ficar satisfeito com um cavalheiro que, em face do perigo, esteja pronto a sacrificar a própria vida, que, à vista de um benefício a ser obtido, não esquece do que é certo [203] e que, durante um sacrifício, não esquece a reverência, nem a dor enquanto de luto”. 2. Tzu-chang disse: “Se um homem não consegue se agarrar à virtude com todas as suas forças nem acreditar no Caminho com todo o coração, como se pode dizer que ele tem alguma coisa, ou que não tem nada?”. 3. Os discípulos de Tzu-hsia perguntaram a Tzu-chang sobre a amizade. Tzuchang disse: “O que Tzu-hsia diz?”. “Tzu-hsia diz: ‘Você deveria fazer amizade com aqueles que são adequados e desprezar os inadequados’.” Tzu-chang disse: “Isso é diferente do que eu ouvi. Ouvi que o cavalheiro honra aqueles que lhe são superiores e é tolerante para com a multidão, que é cheio de elogios para com os bons ao mesmo tempo em que se apieda dos incapazes. Se sou muito superior, qual homem eu não toleraria? Se sou inferior, então outros vão me desprezar, e como poderia eu desprezá-los?”. 4. Tzu-hsia disse: “Mesmo artes menores têm aspectos válidos, mas o cavalheiro não se aventura com elas, pois o medo do homem que tem um longo caminho a percorrer é ser barrado por algo”. 5. Tzu-hsia disse: “Se um homem tem consciência, ao longo do dia, do que ele não sabe e não esquece, ao longo de um mês, aquilo que ele já dominou, então ele pode, de fato, ser considerado alguém que gosta de aprender”. 6. Tzu-hsia disse: “Aprenda bastante e seja persistente; pergunte com sinceridade e reflita sobre o que está à disposição, e não haverá necessidade de procurar benevolência em outro lugar”. 7. Tzu-hsia disse: “Os artesãos das cem artes dominam seu ofício ao permanecerem na oficina; o cavalheiro aperfeiçoa seu Caminho por meio do estudo”. 8. Tzu-hsia disse: “Quando o homem vulgar comete um erro, ele com certeza tenta mascará-lo”. 9. Tzu-hsia disse: “O cavalheiro passa três impressões diferentes. À distância ele parece formal; de perto ele parece cordial; ao falar ele parece severo”. 10. Tzu-hsia disse: “Apenas depois de conquistar a confiança do povo o cavalheiro o faz trabalhar duramente, pois de outra maneira o povo se sentiria usado. Apenas depois de conquistar a confiança dos senhores o cavalheiro pode criticar suas medidas, pois de outra maneira o senhor se sentiria ofendido”. 11. Tzu-hsia disse: “Se uma pessoa não passa dos limites no que diz respeito a questões importantes, não importa se ela não é meticulosa no que diz respeito a questões desimportantes”. 12. Tzu-y u disse: “Os discípulos e jovens seguidores de Tzu-hsia com certeza conseguem varrer e limpar, atender a porta e responder perguntas corriqueiras, apresentar-se e retirar-se, mas isso são apenas detalhes. Em tudo que é básico eles são ignorantes. O que se pode fazer com eles?”. Quando Tzu-hsia ouviu isso, disse: “Oh! Quão enganado está Yen Yu! No caminho do cavalheiro, como saber o que pode ser ensinado antes e o que deve ser deixado por último, por ser menos urgente? O primeiro pode ser facilmente distinguido do último como a grama o é das árvores. É fútil tentar passar um retrato tão falso do caminho do cavalheiro. Apenas o sábio, tendo começado alguma coisa, sempre a levará a cabo”. [204] 13. Tzu-hsia disse: “Quando um homem com um cargo oficial descobre que pode fazer mais do que dar conta dos seus deveres, então ele estuda; quando um estudante descobre que ele pode mais do que dar conta dos seus estudos, então ele aceita um cargo oficial”. 14. Tzu-y u disse: “Quando o luto dá plena expressão à tristeza, nada mais pode ser pedido”. 15. Tzu-y u disse: “Meu amigo Chang é difícil de ser imitado. Mesmo assim ele ainda não conseguiu atingir a benevolência”. 16. Tseng Tzu disse: “Grande, de fato, é Chang, tanto que é difícil trabalhar ao lado dele no cultivo da benevolência”. 17. Tseng Tzu disse: “Ouvi o Mestre dizer que em nenhuma ocasião um homem tem plena consciência de si próprio, embora, quando pressionado, ele tenha dito que o luto pelos próprios pais pode ser uma exceção”. 18. Tseng Tzu disse: “Ouvi o Mestre dizer que outros homens poderiam imitar tudo que Meng Chuang Tzu fazia como bom filho, exceto uma coisa: ele manteve inalterados tanto os oficiais de seu pai quanto suas políticas. Eis o que era difícil de imitar”. [205] 19. A família Meng apontou Yang Fu como magistrado, e ele buscou o conselho de Tseng Tzu. Tseng Tzu disse: “As autoridades perderam o Caminho, e o povo está, há muito tempo, sem raízes. Se você conseguir extrair a verdade de pessoas do povo, não se congratule por isso, mas tenha-lhes compaixão”. 20. Tzu-kung disse: “Chou não era tão malvado assim. É por isso que o cavalheiro detesta morar para os lados do sul, pois é lá que tudo o que é sórdido no Império abre caminho”. 21. Tzu-kung disse: “Os erros do cavalheiro são como um eclipse do sol e da lua no sentido de que, quando ele erra, o mundo inteiro vê e, quando ele corrige seu erro, o mundo inteiro o observa, admirado”. 22. Kung-sun Ch’ao de Wei perguntou a Tzu-kung: “Com quem Chung-ni [206] aprendeu?”. Tzu-kung disse: “O caminho do rei Wen e do rei Wu ainda não caiu por terra, mas ainda pode ser encontrado nos homens. Não há homem que não tenha algo do caminho de Wen e Wu em si. Homens superiores guardaram aquilo que tem maior importância, ao passo que homens inferiores guardaram o que é de pouca importância. De quem, então, o Mestre não aprende? Do mesmo modo, como poderia ele ter um único professor?” 23. Shu-sun Wu-shu disse para os ministros da corte: “Tzu-kung é superior a Chung-ni”. Isso foi relatado a Tzu-kung por Tzu-fu Ching-po. Tzu-kung disse: “Peguemos os muros como uma analogia. Meus muros são da altura do ombro, de modo que é possível olhar por sobre eles e apreciar a beleza da casa. Mas os muros do Mestre têm sete ou dez metros de altura, de modo que, a não ser que uma pessoa seja admitida pelo portão, não é possível ver a magnificência dos templos ancestrais ou a suntuosidade dos prédios oficiais. Já que aqueles que são admitidos pelo portão são, podemos dizer, poucos, é de se admirar que o cavalheiro falasse como falou?”. 24. Shu-sun Wu-shu fez comentários difamatórios sobre Chung-ni. Tzu-kung disse: “Ele está simplesmente perdendo o seu tempo. Não é possível difamar Chung-ni. Em outros casos, homens de excelência são como montanhas que uma pessoa pode escalar. Chung-ni é como o sol e a lua, que ninguém escala. Mesmo que alguém quisesse escapar do sol e da lua, como isso deporia contra eles? Isso somente serviria para mostrar mais claramente que não teve consciência do seu próprio tamanho”. 25. Ch’en Tzu-ch’in disse para Tzu-kung: “Você está apenas sendo respeitoso, não é? Certamente Chung-ni não é superior a você”. Tzu-kung disse: “Um homem é considerado sábio por apenas uma palavra que ele diga; igualmente, ele é considerado tolo por apenas uma palavra que ele diga. É por isso que devemos ter muito cuidado quanto ao que dizemos. O Mestre não pode ser igualado, assim como o céu não pode ser medido. Estivesse o Mestre prestes a se tornar o líder de um reino ou de uma família nobre, ele seria como o homem descrito no provérbio: tudo o que ele tem a fazer é ajudá-los a ficar de pé, e eles ficarão de pé, guiá-los, e eles caminharão, trazer paz a eles, e eles o seguirão, destinar-lhes tarefas, e eles trabalharão em harmonia. Em vida, ele é glorificado e, na morte, será pranteado. Como pode ele ser igualado?”. www.https//rt.br. Abraço. Davi

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

VINHO NOVO EM ODRE VELHO

 

Gnosticismo. www.gnosisonline.org.br. Por All Onaissi. VINHO NOVO EM ODRE VELHO. É primordial e absolutamente necessário que cada discípulo tenha consciência da necessidade de realizar seu trabalho psicológico a partir da auto-observação, pois se não fizermos isso, estaremos perdendo o tempo lamentavelmente. E nossa vida deve ser aproveitada ao máximo para que dê frutos espirituais. O Cristo ensina que há que se “colocar vinho novo em odre novo”. Esse vinho novo é a sabedoria gnóstica, e o odre novo é a mente purificada com o trabalho psicológico, para, aí sim, receber o vinho como ensinamento. Se não fazemos assim, simplesmente haveremos computado como máquinas o ensinamento gnóstico, para realizar logo comparações com outras informações, estabelecendo verdades falsas e geralmente deformadas, adulteradas e tergiversadas. É irrefutável que o trabalho esotérico começa com a rigorosa observação de “si mesmo” e o fugir deste tipo de trabalho ou buscar desculpas ou evasivas, é sinal inconfundível de degeneração , ou seja, é impossível uma criação ou desenvolvimento interior. Desafortunadamente, no mundo das opiniões subjetivas, diversa teorias pseudo esotéricas servem de rua sem saída para os discípulos que não trabalham sobre “si mesmos”. O conhecimento deste ensinamento só serve se o levarmos à prática, à vivência, à compreensão profunda e iluminadora. Mas, infelizmente, o homem-máquina desenvolve unicamente o lado do conhecimento, acumulando em seu computador ou subconsciente mais e mais teorias e conceitos, esquecendo-se do Ser Divino que se encontra dentro de si. Um estudante gnóstico perguntou: “Há coisas nos estudos gnósticos com as quais estou de acordo e outras não”. Mas esse estudante se equivoca, porque a Gnosis como sabedoria transcendental não é para se estar ou não de acordo com ela, senão para comprová-la, levando à prática o ensinamento do Mestre Samael Aun Weor (1917-1977), para que assim o Centro de Gravidade de nossas ações seja a consciência e não o ego com seu subconsciente computadorizado. O trabalho psicológico nos permite ir estabelecendo uma continuidade de propósitos. É normal que alguém se entusiasme pelo trabalho espiritual e logo o abandone. Necessitamos mudar com urgência máxima, para que os germes do homem, desse Cristo Interior em nós, comece a dar frutos. Só trabalhando sobre “si mesmo”, com verdadeira continuidade de propósitos, é que poderemos nos converter em homens solares e isso implica consagrar a totalidade de nossa existência ao trabalho esotérico sobre “si mesmo”, não nos perdendo nem nos identificando com as diferentes circunstâncias da vida. Desafortunadamente, essa continuidade de propósitos que nos permite consagrar a totalidade de nossa existência ao trabalho sobre “si mesmos” é muito difícil, já que não possuímos a verdadeira individualidade. Somos uma multiplicidade egóica, e cada eu ou defeito tem seus critérios, projetos, ilusões. Aqui está o porquê de tantas desculpas, tantas evasivas, tantas atrações fascinantes para realizarmos o trabalho psicológico que torna quase impossível a urgência do trabalho interior. Um homem é o que é sua vida. Um dia de nossa vida é uma pequena réplica desta mesma vida, em sua totalidade. Se o discípulo não se propuser a trabalhar um primeiro dia sobre “si mesmo”, nunca poderá mudar nem se autoconhecer. Nossa vida divide-se em dias, meses e anos, e se não trabalhamos no primeiro dia, ou seja, o aqui e agora, é claro que não haverá um ponto de partida. Talvez digamos “amanhã”, mas lembre-se: “Não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje”. E: “O ontem não existe mais, o amanhã é somente uma possibilidade, e a única realidade é o hoje”. Enquanto dissermos que começaremos amanhã, nunca começaremos. Cada dia é uma réplica ou cópia de toda a vida. Por quê? Porque todos os dias fazemos o mesmo, na grande maioria das vezes de forma repetitiva e mecânica: levantamos, tomamos banho, comemos, saímos à rua, vamos ao trabalho sempre pelo mesmo caminho e da mesma forma, trabalhamos, nos relacionamos com pessoas sempre com as mesmas reações, voltamos para casa e dormimos… Se começamos a nos auto-observar e estamos conscientes no primeiro dia, é lógico que teremos iniciado um verdadeiro desenvolvimento espiritual, e continuando-o no próximo “hoje”, diariamente, nos permitirá estabelecer uma continuidade de propósitos, logrando, assim, progressivamente um CENTRO DE GRAVIDADE SOBRE A NOSSA CONSCIÊNCIA. Com o propósito de trabalhar sobre “si mesmo” é preciso demarcar o campo de trabalho, não devemos sonhar preguiçosamente a trabalhar num futuro, ou em esperar uma oportunidade extraordinária, senão trabalhar hoje, demarcar o trabalho prático para o dia de hoje, a esse mesmo dia em todos os seus eventos, e a não pensar em termos de amanhã. Caro leitor, você começou a observar-se no tocante ao dia de hoje, AGORA, ao dia comum, sempre recorrente, miniatura de um ano e de sua vida inteira? Todos conhecem este ditado: “A cada dia lhe basta seu afã”. Mas você tem pensado alguma vez no que significa esse ditado e tem considerado o contexto sob o qual o Cristo Jesus fez essa observação? Por exemplo, que sentido tem quando diz “basta”? “Basta”, para quê? Basta trabalhar para o afã de hoje? Se um homem começa a trabalhar, ainda que seja um pouco, a cada dia, sobre seus desgostos e penas, e a fazer-se consciente de seus atos recorrentes diários, começa então a trabalhar praticamente sobre “si mesmo”. Mas é preciso que conheça seu dia e que você se conheça em relação com seu dia. Há um certo dia ordinário que cada pessoa experimenta, exceto nos acontecimentos inusitados. Os eventos do dia ordinário têm certa similaridade recorrente para cada pessoa. Agora bem, vamos supor que um homem nunca se dá conta deste particular e nunca observa a “si mesmo” em conexão com os eventos do dia comum. Então, como pode ocorrer a ele que está trabalhando sobre si e como pode supor que é possível mudar? A mudança do Ser começa com a troca das reações ante os verdadeiros incidentes do dia. Isto é o começo de viver a vida de uma nova maneira, num sentido verdadeiro e prático. Se você se comporta de mesma maneira todos os dias ante os mesmos eventos recorrentes (ou seja, que se repetem continuamente), como poderão crer que é possível mudar? Para chegar ao conhecimento de si, comece a observar sua conduta ante os acontecimentos de um só dia de suas vida. Observe quais são suas reações, quer dizer, observe suas reações mecânicas ante todos os pequenos eventos que ocorrem e ante as demais pessoas; examine o que dizem, sentem e pensam, e como você reage mentalmente, verbalmente e fisicamente. Então, trate de ver como podem mudar essas reações. Claro está, se tem a certeza de que SEMPRE SE COMPORTA DE FORMA CONSCIENTE e racional e que NUNCA ESTÁ EQUIVOCADO, nada mudará em você, porque nunca será capaz de se dar conta de que VIVE COMO UMA MÁQUINA, absolutamente repetitiva, uma pessoa mecânica, que sempre diz, sente, pensa e faz uma e outra vez as mesmas coisas. Mas, quiçá, devido a uma crescente consciência de si, você se dá conta de que não é uno, de que não é um indivíduo plenamente consciente, senão que em certo momento é uma pessoa mesquinha, no próximo uma pessoa irritável, depois uma pessoa benevolente, mais tarde uma pessoa escandalosa ou caluniadora, depois um santo e logo um embusteiro. Faça o exercício de se comportar de forma consciente durante uma pequeníssima parte de sua vida, porque tudo o que fazemos aqui e agora nos afeta para sempre. Um só momento em que se está bastante consciente para não se comportar mecanicamente, se fez isso voluntariamente, modificará muitos resultados futuros. Se você aprende, digamos, um pouco de francês hoje, conhecerá mais amanhã; mas se hoje não faz nada, amanhã não conhecerá nada. Ocorre o mesmo com o trabalho sobre si. Mas é preciso trabalhar voluntariamente sobre si e não porque alguém lhe diga que deve fazê-lo. Trabalhar de má vontade ou para fazer méritos é uma coisa; e trabalhar sobre si porque há algo que não nos agrada e anelamos mudar, é outra coisa. O modo como tomamos a vida é equivocado porque a causa do hábito chega a se petrificar e deste modo torna-se mecânica. Logo, em verdade, como mecânicos e por isso carecemos de todo sentido verdadeiro do que estamos fazendo e nossos dias passam de uma estranha maneira não sentida, por exemplo, levamos a cabo os hábitos mecânicos do dia. Assim, não temos uma verdadeira vida e não recebemos novas impressões. O “eu”, quer dizer, a máquina, atua. Mas se um homem inicia seu dia conscientemente, o dia inteiro será diferente para ele. O discípulo deve chegar a conhecer o que significa trabalhar sobre “si mesmo” e, desta forma, tomará sua vida como um dia. Deve ver, observar e compreender que é para ele um dia, e não crer que um dia carece de importância por ser tão habitual e que o trabalho não tem significado para o futuro ou que o trabalho é algo “que ainda não tem oportunidade de aplicar a si, porque está ocupado com o trabalho do dia a dia”. Como você se levanta? Qual seu estado de ânimo no desjejum? O que é que sempre o transtorna? Etc. Rogo a você, caro estudante, não pensar que a mudança de si mesmo significa um mero fumar menos ou comer menos. Recorde que esse trabalho é psicológico. Nossa vida cotidiana, nossa profissão, nosso negócio, nossa ocupação etc., não são senão um sonho com o qual nos identificamos. Esta compreensão vem lentamente quando compreendemos melhor o que significam o sonho e a mecanicidade e por que se diz que a humanidade está adormecida e que sua vida é mecânica. Para trabalhar sobre si mesmo é preciso trabalhar sobre a vida cotidiana e então compreenderemos o que significa a misteriosa frase na Oração do Senhor: “O PÃO-NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE”. A frase “cada dia”, significa, “O pão substancial” em grego “o pão do alto”. Os ensinamentos como produto deste trabalho psicológico nos dão o pão para a vida, a vida psicologicamente vivida, no duplo sentido de ideias e de forças para fazer frente aos desgostos da vida mecânica cotidiana; nos oferecem “o pão substancial” e assinala a nova vida que começa em nós mesmos; porque no trabalho psicológico todos buscamos ser uma nova pessoa, absolutamente diferente de tudo quanto temos vivido. Agora, ninguém pode alterar sua vida ou modificar coisa alguma a respeito das reações mecânicas de sua vida cotidiana a menos que conte com a ajuda de novas ideia e receba auxílio Divino. No trabalho psicológico não existe nada depreciável. Qualquer pensamento, por insignificante que seja, merece ser observado do mesmo modo que qualquer emoção ou reação negativa. Necessitamos preparar os centros inferiores para receber as ideias e as forças que sempre vêm dos centros superiores (mas não são captados devido ao pesado estado de sono interno). Mas toda tentativa feita voluntariamente, para corrigir uma ação negativa ou separar-se dela, todo intento de recordação de si ante uma dificuldade, todo ato de sincera observação de si, como quando alguém mente ou se dá demasiada importância devido à falsa personalidade, ou se deforma a verdade para ferir outra pessoa, ajuda a fazer as conexões corretas nos centros inferiores e os prepara assim para sua união com os centros superiores e para receber a ajuda que provém deles. Nesse trabalho psicológico, o discípulo, ao voltar-se consciente de seus atos recorrentes, afasta-se dos efeitos mecânicos da vida. De outro modo, estaria devorado pela mecânica da vida. Se o discípulo se identifica com todos os eventos da vida prática e esgota suas forças em emoções negativas e em autoconsiderações e em vão palavrório insubstancial de conversa ambígua nada edificante, nenhum elemento real pode se desenvolver nele fora do que pertence ao mundo mecânico. Se nós queremos que algo real cresça em nosso interior, é claro que devemos evitar o escape das energias psíquicas. Quando temos perda de energia e não estamos isolados na intimidade, é inquestionável que não poderemos lograr o desenvolvimento de algo real em nossa psique. A vida ordinária comum e corrente quer nos devorar implacavelmente, e nós devemos lutar contra a vida diariamente, devemos aprender a nadar contra a corrente. Esse trabalho psicológico vai contra a vida, trata-se de algo muito distinto aos nossos dias, e sem embargo devemos praticá-lo de instante em instante, então, com isso nos referimos à Revolução de Consciência. www.gnosisonline.org.br. Abraço. Davi.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

A SUCÁ E SEU SIGNIFICADO

 

Judaísmo. www.morasha.com.br. A SUCÁ E SEU SIGNIFICADO. “E falou o Eterno a Moisés: Fala aos filhos de Israel, dizendo: Aos quinze dias deste sétimo mês, será festa das cabanas (Sucot), por sete dias, ao Eterno. E celebrareis esta festa ao Eterno por sete dias cada ano; estatuto perpétuo pelas vossas gerações; no sétimo mês a celebrareis. Nas cabanas habitareis por sete dias; todo natural de Israel habitará nas cabanas. Para que as vossas gerações saibam que nas cabanas fiz habitar os filhos de Israel, quando os tirei da terra do Egito, Eu sou o Eterno, vosso Deus”. (Levítico 23, 33-34;41-43) Morashá traz uma leitura diferente da mitzvá da celebração de Sucot através dos ensinamentos do Rabino S. R. Hirsch. Nascido em Hamburgo em 1808, o rabino e filósofo liderou a criação de um judaísmo ortodoxo modernizado que pudesse conter o desafio do movimento liberal no judaísmo alemão – então nascente – sem abandonar o que de melhor havia na civilização européia. Quando em 1876 a Prússia adotou a lei que emancipava os judeus, permitindo-lhes estabelecerem-se em sociedades independentes, Rav Hirsch separou sua congregação do restante da comunidade, lutando para mantê-la a fiel à Torá e seus preceitos, pois considerava que o grupo neo-ortodoxo era infiel à Lei de nossos antepassados. Verdadeiro líder da ortodoxia alemã no século 19, apresentava o judaísmo como uma comunidade baseada na fé, que almejava a santificação da vida, a espiritualização do homem e a conscientização da presença Divina na terra. Os trechos selecionados fazem parte da obra HOREB: A Philosophy of Jewish Laws and Observances, em que o Rabino Hirsch apresenta magistralmente nossas leis e como devemos observá-las, dando ênfase especial às idéias subjacentes às mesmas. A obra é considerada um marco do retorno à Halachá como o centro da vida e do pensamento judaico. Rav Hirsch interpreta o mandamento Divino de habitar na fragilidade das tendas, durante Sucot; explica o propósito da festividade, que visa nossa preservação física e espiritual na fartura e na escassez, na riqueza ou na pobreza, sempre confiantes na mão de D’s a guiar nosso povo: “(...). A festa de Sucot é dedicada à preservação física de Israel por D’s. É a época quando a colheita do ano está quase terminada e o celeiro e a casa estão abastecidos. Já não mais voltas, ansioso, teus olhos aos céus, implorando por uma bênção, pois já colheste o que te tocava e, confiante no que estocaste, enfrentas o inverno com serenidade. Por outro lado, a colheita do ano pode ter-te dado escassos resultados e, refletindo sobre tua privação e pobreza, tu e tua mulher e teus filhos podem tornar-se desesperançados e, tomados pelo desespero, vislumbrar um futuro submerso em necessidade.” “(...). Deixa tua moradia, sólida e segura; habita sob o esparso teto de folhagens e aprende a lição que estas nos transmitem: HaShem, teu D’s, fez com que teus antepassados habitassem em tendas durante quarenta anos, quando os tirou do Egito; e Ele os sustentou em suas cabanas e desta forma revelou-Se como a Divina Providência que a todos ampara”. Seus textos mostram-nos o real valor da vida, quão fugazes são as riquezas, quão vazio é o culto ao dinheiro e aos bens materiais. Apontam-nos a riqueza que há na humildade e no respeito a D’s, HaShem, o Único que nos sustenta e nos ampara, onde quer que estejamos, no deserto ou na segurança de nossos lares, nesta e em todas as gerações de nosso povo: “(...). Se és rico, fica ciente de que não são as riquezas nem as posses – nem tampouco os talentos dos quais o homem tanto se orgulha – os deuses que tornam mais segura a tua existência. Somente D’s o faz, este D’s que ampara mesmo nas tendas aqueles que se rendem a Ele em total devoção e lealdade. Lembra-te, então, de agradecer a D’s – e somente a Ele – por tua riqueza, por tua distinção, por teus tesouros; pois tudo isto só é teu enquanto a D’s aprouver. Lembra-te, também, de que cada talento adquirido pode mudar e que os antepassados dos hoje ricos netos, viveram em cabanas, durante 40 anos, na aridez do deserto. Portanto, aprende a não ser escravo da tua riqueza e a não te afastar de D’s. Te sentirás livre sob Sua proteção, quer estejas em uma cabana coberta de folhagens ou sob um firme teto de cimento. No final, se estabeleceres teu próspero lar não sobre a riqueza e o conforto, mas sobre D’s – pois que Ele guarda a tua morada ainda que teu telhado seja de pedra; e foi apenas através de Sua bondade que conseguiste conquistar tuas posses e sobretudo mantê-las – só assim aprenderás – através da opulência e da riqueza – a depositar tua confiança apenas em D’s, que é o Único Sustento de todos os seres vivos.” As palavras do Rabino Hirsch nos dão alento quando a sorte não parece sorrir-nos, quando a roda da fortuna gira para outro lado. Mostram-nos que a mesma Mão que nos tirou do desespero e da desolação do deserto, que nos colocou em cabanas, virará o Seu olhar sobre nós: “(...). E se fores pobre, meu querido irmão judeu, se estiveres na pobreza e no desespero, eu te suplico: vai viver na tenda coberta de folhagem! Afasta-te de teu antigo abrigo protegido e de bom grado vive a vida dos mais pobres e aprenda esta lição: D’s sustentou teus antepassados em meio à aridez das cabanas. Esse mesmo D’s ainda vive e Ele é teu D’s, e assim como o brilho das estrelas cintila sobre o teto de folhagens, assim Ele, com Seu olhar cuidadoso, abraça-te com amor, contempla teu sofrimento e tuas lágrimas, ouve teus suspiros e conhece tuas angústias. Ele não te abandonará assim como não abandonou os teus antepassados. Por acaso estás desesperado por não possuíres os bens sobre os quais os homens constroem suas vidas? Deveras (...) por acaso os teus antepassados, que foram alimentados com o maná, não aprenderam em suas cabanas que sua vida é governada por cada uma das sentenças Divinas? Será que tu não aprenderás esta lição, como o fizeram teus antepassados, ao seguires o teu caminho ao longo da dura estrada da vida? Entra já na Sucá! Aprende a ser forte e animado no sofrimento; tem fé em D’s, Aquele que dá o sustento mesmo nas cabanas e na penúria.” “(...). O que será, na vida, que nos afasta de D’s, tornando-nos convencidos ou despidos de esperança e, em meio a todas as nossas aflições por nosso bem-estar, não deixa espaço para nossa verdadeira felicidade? Porventura será a loucura com a qual nos agarramos aos bens mundanos, colocando-os em um pedestal como se fossem os deuses de nossa vida? Será a loucura com a qual cada um de nós constrói sua própria Torre de Babel, levando-nos a nos sentirmos seguros em nossos falsos abrigos? Que a festa de Sucot possa livrar-nos dessa loucura; que dessa idolatria das posses e bens materiais e das obras humanas possa nossa submissão à Sucá nos libertar; e que ao invés disso leve-nos a D’s que é a única base de nossa vida. Que a festa de Sucot possa nos ensinar a colocar nossa confiança nas mãos de D’s, para apenas em D’s confiar. Isto é a verdadeira fé, isto é emuná.” Nestes trechos, de extrema beleza, Rav Hirsch traça um paralelo com as palavras do profeta Jeremias para alertar os judeus europeus que, deslumbrados com a emancipação que lhes era concedida, afastavam-se de sua lealdade com a herança religiosa de nossos pais. Conclama-os a voltar para a Sucá, voltando a buscar a orientação Divina em meio à dispersão em que se encontravam entre as nações: “(...). Mas tu não deves transferir-te para a Sucá pensando apenas no teu próprio destino ou na emuná que envolve apenas a tua vida; mas sim como um filho de Israel, ciente do destino de teu povo e, portanto, estendendo essa fé também ao destino de teu povo. Ó, se ao menos Israel, enquanto ainda vivia feliz e unido no solo abençoado por D’s, tivesse adentrado a Sucá imbuído do verdadeiro espírito desta, nunca, em tempo algum, teriam “seus deuses se tornado tão numerosos quanto suas cidades”; jamais teria sido ouvida a voz do Profeta: “Voltem à desolada aridez do deserto!” No entanto, vós, queridos irmãos judeus, que novamente estais dispersos pela desolação do deserto, entrai na Sucá e gravai na memória como D’s sustentou vossos antepassados enquanto erravam pelo deserto inóspito. Ele está a teu lado, também, em tua atual vagueação pelos áridos desertos. Olha para trás, para os séculos de sofrimento, opressão, degradação e escuridão – estavam ausentes as nuvens protetoras do Todo Poderoso? Porventura não estava a chama ardente a indicar o caminho? Não foi D’s quem te sustentou, ó pobre filho de Israel? E agora, ó Israel, tua geração mais jovem vislumbra nesses atos de misericórdia a sua libertação, o triunfo de sua luta, uma luta pela livre construção de seu ser e a livre consumação de seu próprio modo de vida. Comportam-se como se Israel tivesse sido separado de outras nações para marchar através da história apenas para submergir em meio das nações que idolatram e veneram os bens materiais. Ó jovens de Israel, que ainda estais imbuídos do espírito de Israel, adentrai na Sucá; mantende-vos afastados da loucura deste momento! Agarrai-vos rapidamente a D’s, este D’s que vos transporta nas asas das águias também neste exato momento de provação.” “(...). Sim, adentrai na Sucá como cidadãos do mundo, ó juventude de Israel! Nossos profetas e sábios, no passado, em seus pronunciamentos, nos deram uma visão do que está por acontecer no futuro. E, portanto, quando no futuro os homens tiverem aprendido na própria carne o vazio e a irrealidade de suas obras – este vazio que começou pela Torre de Babel e continua agora, nesta tentativa de fundamentar a vida em deuses terrenos, sem a presença de D’s – quando tiverem aprendido, eles hão de entrar na Sucá. Nesse momento do futuro, um vínculo de fraternidade envolverá a humanidade e, unidos em irmandade sob um Único D’s, estarão libertos do culto ao ídolo do dinheiro. E aí este D’s Único os receberá, a todos, no Tabernáculo da Paz, como seu Pai; e como tal, HaShem, D’s Único, Ele e somente Ele será adorado na face da terra.” Festejemos, pois, em Sucot, a nossa fé, seguindo os ensinamentos de Rav Hirsch! Dispamo-nos de tudo o que denigre a dignidade humana e de tudo aquilo que leva ao nosso coração a adoração pelo poder das riquezas. Estaremos, assim, cada um de nós, em paz com D’s, com o mundo, com nossa própria vida! As palavras do Rabino Hirsch nos dão alento quando a sorte não parece sorrir-nos, quando a roda da fortuna gira para outro lado. Mostram-nos que a mesma Mão que nos tirou do desespero e da desolação do deserto, que nos colocou em cabanas, virará o Seu olhar sobre nós: “(...). E se fores pobre, meu querido irmão judeu, se estiveres na pobreza e no desespero, eu te suplico: vai viver na tenda coberta de folhagem! Afasta-te de teu antigo abrigo protegido e de bom grado vive a vida dos mais pobres e aprenda esta lição: D’s sustentou teus antepassados em meio à aridez das cabanas. Esse mesmo D’s ainda vive e Ele é teu D’s, e assim como o brilho das estrelas cintila sobre o teto de folhagens, assim Ele, com Seu olhar cuidadoso, abraça-te com amor, contempla teu sofrimento e tuas lágrimas, ouve teus suspiros e conhece tuas angústias. Ele não te abandonará assim como não abandonou os teus antepassados. Por acaso estás desesperado por não possuíres os bens sobre os quais os homens constroem suas vidas? Deveras (...) por acaso os teus antepassados, que foram alimentados com o maná, não aprenderam em suas cabanas que sua vida é governada por cada uma das sentenças Divinas? Será que tu não aprenderás esta lição, como o fizeram teus antepassados, ao seguires o teu caminho ao longo da dura estrada da vida? Entra já na Sucá! Aprende a ser forte e animado no sofrimento; tem fé em D’s, Aquele que dá o sustento mesmo nas cabanas e na penúria.” “(...). O que será, na vida, que nos afasta de D’s, tornando-nos convencidos ou despidos de esperança e, em meio a todas as nossas aflições por nosso bem-estar, não deixa espaço para nossa verdadeira felicidade? Porventura será a loucura com a qual nos agarramos aos bens mundanos, colocando-os em um pedestal como se fossem os deuses de nossa vida? Será a loucura com a qual cada um de nós constrói sua própria Torre de Babel, levando-nos a nos sentirmos seguros em nossos falsos abrigos? Que a festa de Sucot possa livrar-nos dessa loucura; que dessa idolatria das posses e bens materiais e das obras humanas possa nossa submissão à Sucá nos libertar; e que ao invés disso leve-nos a D’s que é a única base de nossa vida. Que a festa de Sucot possa nos ensinar a colocar nossa confiança nas mãos de D’s, para apenas em D’s confiar. Isto é a verdadeira fé, isto é emuná.” Nestes trechos, de extrema beleza, Rav Hirsch traça um paralelo com as palavras do profeta Jeremias para alertar os judeus europeus que, deslumbrados com a emancipação que lhes era concedida, afastavam-se de sua lealdade com a herança religiosa de nossos pais. Conclama-os a voltar para a Sucá, voltando a buscar a orientação Divina em meio à dispersão em que se encontravam entre as nações: “(...). Mas tu não deves transferir-te para a Sucá pensando apenas no teu próprio destino ou na emuná que envolve apenas a tua vida; mas sim como um filho de Israel, ciente do destino de teu povo e, portanto, estendendo essa fé também ao destino de teu povo. Ó, se ao menos Israel, enquanto ainda vivia feliz e unido no solo abençoado por D’s, tivesse adentrado a Sucá imbuído do verdadeiro espírito desta, nunca, em tempo algum, teriam “seus deuses se tornado tão numerosos quanto suas cidades”; jamais teria sido ouvida a voz do Profeta: “Voltem à desolada aridez do deserto!” No entanto, vós, queridos irmãos judeus, que novamente estais dispersos pela desolação do deserto, entrai na Sucá e gravai na memória como D’s sustentou vossos antepassados enquanto erravam pelo deserto inóspito. Ele está a teu lado, também, em tua atual vagueação pelos áridos desertos. Olha para trás, para os séculos de sofrimento, opressão, degradação e escuridão – estavam ausentes as nuvens protetoras do Todo Poderoso? Porventura não estava a chama ardente a indicar o caminho? Não foi D’s quem te sustentou, ó pobre filho de Israel? E agora, ó Israel, tua geração mais jovem vislumbra nesses atos de misericórdia a sua libertação, o triunfo de sua luta, uma luta pela livre construção de seu ser e a livre consumação de seu próprio modo de vida. Comportam-se como se Israel tivesse sido separado de outras nações para marchar através da história apenas para submergir em meio das nações que idolatram e veneram os bens materiais. Ó jovens de Israel, que ainda estais imbuídos do espírito de Israel, adentrai na Sucá; mantende-vos afastados da loucura deste momento! Agarrai-vos rapidamente a D’s, este D’s que vos transporta nas asas das águias também neste exato momento de provação.” “(...). Sim, adentrai na Sucá como cidadãos do mundo, ó juventude de Israel! Nossos profetas e sábios, no passado, em seus pronunciamentos, nos deram uma visão do que está por acontecer no futuro. E, portanto, quando no futuro os homens tiverem aprendido na própria carne o vazio e a irrealidade de suas obras – este vazio que começou pela Torre de Babel e continua agora, nesta tentativa de fundamentar a vida em deuses terrenos, sem a presença de D’s – quando tiverem aprendido, eles hão de entrar na Sucá. Nesse momento do futuro, um vínculo de fraternidade envolverá a humanidade e, unidos em irmandade sob um Único D’s, estarão libertos do culto ao ídolo do dinheiro. E aí este D’s Único os receberá, a todos, no Tabernáculo da Paz, como seu Pai; e como tal, HaShem, D’s Único, Ele e somente Ele será adorado na face da terra.” Festejemos, pois, em Sucot, a nossa fé, seguindo os ensinamentos de Rav Hirsch! Dispamo-nos de tudo o que denigre a dignidade humana e de tudo aquilo que leva ao nosso coração a adoração pelo poder das riquezas. Estaremos, assim, cada um de nós, em paz com D’s, com o mundo, com nossa própria vida!

Do capít. Edot da obra Horeb: A Philosophy of Jewish Laws and Observances, Hirsch, S. Raphael. www.morasha.com.br. Abraço. Davi

 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

A MAIOR DE TODAS AS ILUSÕES É O EU

 

Budismo. www.budavirtual.com.br. Texto de Alex Castro. A MAIOR DE TODAS AS ILUSÕES É O EU. Dentre as muitas armadilhas mentais que construímos para nós mesmos, mentiras gigantescas que nunca questionamos e escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas, poucas podem ser mais unânimes (especialmente no Ocidente) do que a ilusão de que, dentro de cada uma de nós, existiria uma essência maior do que a soma de nossas partes: o Eu. A prática de atenção não é “abandonar o Eu” — porque o Eu não existe e não temos como abandonar algo que não existe —, mas sim desapegar dessa ilusão que criamos para buscar o prazer e evitar a dor, dessa ilusão que nos venderam para poderem vender a ela automóveis e pasta de dente. Não existe essência. Eu, se perder um braço, continuaria sendo eu, só que sem um braço. Mas, e se tivesse estudado engenharia ou ido morar na Austrália, eu teria sido eu, apenas com uma vida diferente? Se meus pais tivessem feito sexo cinco minutos depois, eu teria sido eu? Se tivesse nascido na década seguinte, em Manaus, loiro e geminiano, ou na década anterior, em Porto Alegre, ruivo e leonino, eu teria sido eu? Em que momento haveria tantas e mais tantas condições fortuitas e circunstâncias contingentes nas quais eu deixaria de ser eu? Uma caneta Bic, se tiro a tampa, é uma caneta sem tampa, de um lado, e uma tampa, do outro. Mas, se abro o corpo da caneta e tiro a carga, a caneta ainda é uma caneta? Agora, tenho três objetos: (1) uma tampa (2) uma carga, com ponta, e (3) um tubo transparente e oco. Qual desses três objetos é a caneta? Nenhum deles? Todos eles? Em que momento passaram a ser uma caneta? Em que momento deixaram de ser? Onde está a essência da caneta? Se digo que uma mesa existe concretamente, mas não tem essência, o que quero dizer é que sua existência enquanto objeto não depende de si mesma. Se não tivéssemos desenvolvido o conceito de “móvel” e, dentro dele, de “mesa”, aquilo que nos parece um único objeto poderia igualmente e corretamente ser descrito como quatro pedaços de pau espetados numa tábua de madeira. Sem a ideia prévia de “mesa”, nem faria sentido descrever esse ajuntamento temporário de pedaços de madeira como um “objeto” uno, em vez de apenas um breve instantâneo na história de alguns fragmentos de árvore, antes arrumadas assim, depois organizadas assado. Para a mesa existir enquanto “mesa”, ela depende das partes que a compõem (pés, tábua etc.), de suas causas imediatas e distantes (alguém decidiu fazê-la, alguém a fez etc.), de seu material físico (madeira, metal etc.), de sua idealização enquanto conceito (a ideia de mesa) etc. Sem essas condições contingentes (ou seja, fortuitas e dependentes de outras condições), não poderia existir o objeto “mesa”. Ou seja, a mesa não é uma entidade dotada de existência própria e intrínseca, mas apenas uma fatia arbitrária do espaço-tempo que escolhemos chamar por um termo convencionado (“mesa”). Tudo é relação: nada existe por si e para si. O que vale para objetos manufaturados, como a mesa, vale igualmente para seres vivos, tanto a árvore de onde veio sua madeira, quanto eu e você. Não existe o Eu. Não é que eu, aqui, pessoa concreta, de carne e osso, escrevendo essas linhas nesse exato minuto, e você aí, lendo essas linhas nesse exato minuto, não tenhamos existência física, concreta, real. (Afinal, eu sinto , eu sei que estou aqui e você sente, você sabe que está aí.) Mas essa entidade que chamo de Eu — que me parece tão maior e mais transcendental do que apenas a mera soma de “meus” membros, “meu” corpo, “minha” consciência, “meu” nome — é apenas um conceito que não possui existência permanente e autônoma, uma coleção de características contingentes e fortuitas sem nenhum tipo de essência intrínseca. Assim como a mesa, assim como a caneta. Nossa consciência é formada por um contínuo de experiências ao qual damos um nome. Por razões práticas, faz sentido distinguir uma pessoa da outra — sou o Alex Castro porque não sou nem o Chico Buarque nem a Joana D’Arc. Da mesma maneira, distinguimos um rio do outro: o rio Amazonas e o rio Paraíba do Sul são dois rios diferentes porque nascem em pontos diferentes, correm por trajetos diferentes, contêm águas de composições químicas diferentes, deságuam em pontos diferentes. Entretanto, por mais reais e concretos que sejam esses caudalosos rios, eles não possuem qualquer essência: como até os gregos antigos sabiam, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.  Suas águas literalmente nunca são as mesmas. Tudo é contingente: somos pessoas únicas não porque temos uma pretensa essência metafísica (o Eu!) qualitativamente diferente da essência metafísica das outras entidades que não-são-o-meu-Eu, mas sim porque surgimos a partir de condições únicas e de circunstâncias irrepetíveis. Se o nosso Eu tivesse uma essência, então nossa natureza nunca poderia mudar: o fato de o nosso Eu ser vazio de existência intrínseca é justamente o que nos permite a liberdade de nos reconstruir, recriar, reinventar. (…). Síndrome da pessoa alheia. Se temos uma ferida sangrando na perna ou se nosso estômago está roncando, nossa mão não se comporta como se esses problemas lhe fossem alheios: ela estanca o sangue e coloca alimentos na boca. As diferentes partes do todo que é o meu corpo simplesmente, naturalmente se comportam como se fossem um só. As mãos de algumas pessoas, porém, agem à revelia de sua vontade: pegam objetos que não deveriam pegar, fazem gestos que não deveriam fazer e, em casos extremos, até mesmo atacam outros membros do corpo. Só uma parte doente se comporta como se fosse uma entidade separada da totalidade à qual pertence. Por isso, essa doença, chamada de Síndrome da Mão Alheia, é considerada uma desordem neurológica devastadora. Nossa mão não é alheia à fome do nosso estômago, porque ambos reconhecem fazer parte do mesmo todo, mas somos alheias à fome da pessoa que está ali na calçada, porque não nos reconhecemos como parte do mesmo todo que ela. A desordem existencial devastadora de nossa civilização é ver na fome, no sofrimento, na angústia da outra pessoa um problema alheio a nós. Todas sofremos de Síndrome da Pessoa Alheia. Quando finalmente enxergamos a miragem do Eu, cuidar das outras pessoas se torna tão natural quanto a mão que automaticamente estanca o sangue da perna que pertence ao mesmo corpo que ela. Não existe verdade. Uma objeção a esse texto: — No meio de tanto dogmatismo místico, vejo várias contradições. Por exemplo, como você pode ter tanta certeza de que não existe? Não poderíamos parafrasear Descartes e dizer: “Penso ‘não existo’, logo existo?” Quem é esse Eu que escreve textos dizendo que o Eu não existe? Além disso, como posso me autoconstruir, ou escolher o meu mundo… se não existo? Quando passo debaixo da lâmpada, vejo minha sombra no chão; quando entro na banheira, o nível da água sobe na exata proporção do volume do meu corpo; quando assino um contrato, tenho que reconhecer firma no cartório. (Uma das poucas vantagens comprovadas de não existir é nunca precisar reconhecer firma.) Então, se desloco água e abro firma, também posso autoconstruir minha identidade e escolher meu trabalho. A questão não é se eu existo (é claro que eu existo), mas sim que o meu Eu não existe dessa maneira essencial e transcendental como sinto que ele existe, no centro de um universo que gira ao seu redor, observando tudo sempre a partir de sua própria perspectiva. No século XVII, quando Galileu Galilei ousou sugerir que era a Terra que girava em torno do Sol (e não vice-versa), um cardeal retrucou: — Eu não sou uma coisa qualquer, numa estrelazinha qualquer, girando por aí, ninguém sabe até quando. Eu sinto a terra firme debaixo dos meus pés, em repouso, no centro do universo. Eu estou no centro do universo, e o olho do Criador repousa em mim , somente em mim. Os astros e o Sol majestoso giram em torno de mim, fixados em oito esferas de cristal; foram criados para iluminar a minha cercania, e também para me iluminar a mim, para que Deus me veja. Mas o pobre do Galileu não estava dizendo que a Terra e o Sol não existiam, assim como não estou dizendo que o Eu não existe. Galileu dizia apenas que a Terra e o Sol não eram o centro do universo, que eram somente mais um planeta e mais uma estrela, como infinitos outros, sem nada de intrinsecamente especial — a não ser o especialíssimo fato, para nós , de ser o planeta onde nós vivemos, e a estrela que nós orbitamos. Tirando o fato de, para mim, Eu ser Eu (que é mais uma questão de perspectiva do que de essência), o que há de tão importante, transcendental nesse meu Eu? Nada. Quando digo que encaro o meu Eu como se ele não tivesse essência intrínseca, o que estou compartilhando é uma perspectiva, não uma verdade: um método, não uma doutrina; uma prática, não um dogma. A afirmação de uma fé nos convida a acreditar ou desacreditar: a proposta de um método, se acharmos que faz sentido e que pode nos trazer benefícios, nos convida a investigá-lo e vivenciá-lo, testá-lo e corporificá-lo. Em minha experiência pessoal, tem valido a pena viver como se o meu Eu fosse desprovido de essência intrínseca. Algumas pessoas também decidiram viver assim. Outras, não. No fim das contas, independentemente de como escolhemos pensar sobre nós mesmas, todas deslocamos água quando entramos na banheira. Desapegar do Eu não é deixar de se amar. O nosso Eu só sabe amar a si próprio: ele foi criado e treinado para premiar quem lhe pode ser útil e punir quem lhe pode ser incômodo. Por isso, não existe como servir e ajudar as outras pessoas a partir de uma perspectiva egoica: o Eu não consegue ser desinteressado, porque nós o inventamos para perseguir nossos (pretensos) interesses a todo custo. É só isso que ele sabe fazer. Quando o Eu ajuda, ele ajuda para parecer uma pessoa boa, para conseguir reconhecimento, para aumentar seu cacife, para ser feliz. Tudo sempre girando em torno de si mesmo, de seus interesses e de suas necessidades. Um Eu não tem como ajudar ninguém, não tem como ser útil à sua comunidade: mas, se nos desapegamos da ilusão do Eu e percebemos que estamos juntas, então, podemos nos ajudar a nós todas, de igual para igual, no mesmo nível. As práticas de atenção se reforçam umas às outras. Na 17 a prática, Estar presente, aprendemos que tudo passa: nossa dor e nossa alegria, nosso êxtase e nosso luto, nossa vida e o nosso Sol. Mas, se não tivermos nos desapegado do nosso Eu (a 18 a prática), essa percepção pode nos tornar ainda mais egoístas: — A Sâmara está sofrendo, mas pra que vou me dar ao trabalho de acolhê-la e abraçá-la? Essa dor vai passar mesmo! Deixa ela sofrer um pouco, faz bem pra alma! Entretanto, se temos confiança de que tudo passa ao mesmo tempo em que conseguimos nos desapegar do nosso Eu, então podemos estar presentes na alegria e no sofrimento do mundo sem medo nem egoísmo, de forma plena e destemida, nos abrindo à dor de Sâmara, recebendo-a e acolhendo-a, e também deixando-a partir, permitindo que sua dor passe por nós como trens passando por uma estação. Se não somos a nossa dor, também não precisamos ser a dor de Sâmara. Desapegar do Eu não significa nos odiarmos, ou não nos amarmos, mas amarmos a nós mesmas com o mesmo amor com o qual amamos a outra pessoa, porque somos todas partes do mesmo todo. Nós nos amamos e nos cuidamos não para nós mesmas, mas para as outras pessoas, para podermos amá-las e cuidar delas. Quando um avião despressuriza, temos cerca de quinze segundos para colocar a máscara de oxigênio antes de perdermos a consciência. Assim, colocamos a máscara primeiro em nós mesmas não porque somos mais importantes do que as outras passageiras, mas porque, se estivermos desacordadas, não teremos como ajudar mais ninguém com suas máscaras. Desapegar do Eu é engajar-se no mundo. O vazio que sentimos dentro de nós (que tentamos desesperadamente preencher com dinheiro ou fama, sexo ou família, ou qualquer outra coisa que nos pareça factível) só é um problema enquanto tentamos preenchê-lo. Se conseguimos desapegar do Eu, entretanto, o mesmo vazio que antes nos angustiava passa a nos fortalecer: livres da obrigação absorvente de proteger essa frágil entidade dentro de nós e cuidar dela (“será que construí o suficiente em vinte e cinco anos de vida?”, “será que as pessoas gostam mesmo dos meus textos?” etc. etc.), podemos finalmente levantar os olhos, perceber as pessoas à nossa volta e nos dar conta de que elas também estão sofrendo. Desapegar do nosso Eu não nos impede de militar em causas sociais ou de lutar para transformar a realidade. Pelo contrário, ao eliminar a importância excessiva que damos a nós mesmas em relação às outras pessoas, o nosso potencial de engajamento político é finalmente desbloqueado, realizado, magnificado. Nós não estamos dentro do nosso corpo olhando para fora: nós somos o universo olhando para si mesmo. Nós não estamos aqui e o universo ali: nós somos o que o universo está fazendo agora. www.budavirtual.com.br. Abraço. Davi

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O CONSUMISMO E SEUS MALES

 

Islamismo. www.mesquitadobras.org.br. Por Armed Ismail. O CONSUMISMO E SEUS MALES. O estilo de vida que se tornou predominante nas sociedades modernas, marcado pelo consumismo, tem sido objeto do estudo e da preocupação dos cientistas sociais e filósofos nas últimas décadas. O estilo de vida que se tornou predominante nas sociedades modernas, marcado pelo consumismo, tem sido objeto do estudo e da preocupação dos cientistas sociais e filósofos nas últimas décadas. Especialmente agora que se verifica a sua expansão por todos os continentes, formando algo que seus adeptos e propagandistas afirmam ser a nova cultura global que reflete, segundo eles, a marca da vida moderna. Há uma forte tendência entre os intelectuais críticos da cultura de massa a concordar em torno de certas características deletérias presentes nos padrões comportamentais típicos da sociedade de consumo. Padrões que parecem sugerir uma “nova religião” que substitui os templos pelos shopping centers e que, mais do que isso: “transforma os templos e a própria experiência místico-religiosa numa reprodução do mercado submetida à mesma lógica do capital e da competição. Ao mesmo tempo, seus efeitos têm contribuído de modo considerável para a desestruturação dos valores éticos e a identidade cultural dos povos, para o agravamento das desigualdades e de quase todos os males sociais. A estreita relação entre consumismo e violência torna-se um tema desconcertante para uma sociedade que venera o dinheiro e que assume o consumismo como um ritual dessa veneração; e que por outro lado, se vê submersa numa condição crônica de sintomas ameaçadores, tais como a violência e a criminalidade. Se na década de 60 do século passado, filósofos e cientistas sociais se dedicaram a entender os mecanismos sociais, econômicos e políticos que produziram a cultura de massa e o consumismo, na atualidade, os mesmos se encontram voltados para as consequências a médio e a longo prazo de uma progressiva e global onda de consumismo. A adoção, numa escala jamais vista, do que se pode denominar de um estilo predatório de vida, o qual demanda um consumo incessante de recursos naturais, maior do que o planeta pode suportar, torna-se agora um novo e mais ameaçador sintoma. Estudiosos do meio ambiente sustentam que no caso de um país como a China, o mais populoso da terra, integrar-se a onda consumista de maneira a que todos os seus cidadãos alcancem o mesmo poder de consumo do cidadão médio americano, será uma catástrofe planetária. Uma Percepção Distorcida da Realidade. Tais evidências nos parecem suficientes para demonstrar que esse estilo de vida é essencialmente pecaminoso e contrário às diretrizes divinas. Sua origem reside numa distorcida percepção da realidade e da condição espiritual do ser humano. A perspectiva do comportamento consumista é a do acúmulo e do estabelecimento do valor da vida nos bens materiais. Essa perspectiva só se torna possível com a ausência dos valores espirituais superiores; e isso explica o processo de degeneração dos valores éticos que acompanha uma sociedade submetida à lógica do consumo. O Alcorão Sagrado aborda esse tema a partir de uma descrição de um conjunto de características que definem esse estado de concepção materialista da vida, e que se tornam predominantes nos indivíduos quando reduzem suas expectativas a vida neste mundo. O Livro de Allah, orientação por excelência para nossa felicidade neste mundo e no além, descreve a vida neste mundo para despertar nossa consciência e nos libertar das falsas expectativas e diz: “Sabei que a vida terrena é tão-somente jogo e diversão, veleidades, mútua vanglória e rivalidade, com respeito à multiplicação de bens e filhos; é como a chuva, que compraz aos cultivadores, por vivificar a plantação; logo, completa-se o seu crescimento e a verás amarelada e transformada em feno. Na outra vida haverá castigos severos, indulgência e complacência de Deus. Que é vida terrena, senão um prazer ilusório?”. (C.57 – V.20). Com toda clareza o versículo sagrado define em poucas palavras, o resumo do que é o esforço humano em alcançar metas que satisfaçam seu ego neste mundo e o quão inúteis são suas pretensões, desde que não esteja atento para o significado maior de sua vida. Vemos, pois, que a tendência materialista que produziu o consumismo no mundo moderno se baseia numa total inconsciência quanto ao verdadeiro propósito da vida, e isso leva o indivíduo a tomar a si próprio como medida para todas as coisas. Esta visão hedonista o incapacita de perceber o profundo engano que o move. É interessante notar que o Islam, diferentemente da maioria dos filósofos modernos, aborda o problema de uma ótica focada no indivíduo e no âmago de seu ser. Isto é, não se limita aos sintomas (dos quais o consumismo é apenas um exemplo) ou às manifestações que terminam por surgir no tecido social. Ao contrário, diagnostica o problema essencial que habita o coração do homem e que o arrasta a um estado de miséria existencial e mais do que isso, oferece os meios de saná-lo. A abordagem sociológica e filosófica tende a situar o problema nos fenômenos históricos e econômicos que produziram o que se denomina “cultura de massa”. Não há dúvida sobre a importância dos mecanismos cada vez mais eficientes dessa cultura global do consumo, que em menos de um século tornou-se um poder que desafia culturas e tradições milenares impondo seus valores. Contudo, o Islam identifica o processo dessa degeneração cultural e social dentro dos indivíduos, ressaltando que a solução disso se encontra na vontade e na natureza do homem. Entender o padrão psicológico que define esse estado de distorção da realidade espiritual, nos parece fundamental para que percebamos o que é essencialmente esta tendência materialista que se manifesta na forma do consumismo. Esse padrão psicológico possui um conjunto de características, das quais as principais são: • O condicionamento ao desperdício. • O culto ao supérfluo e o gosto pela frivolidade. • A ostentação e a vaidade. • A inclinação ao que é falso. • A busca incessante do lazer. • O limitado entendimento da realidade da vida. Estas seis características resumem a essência do comportamento humano condicionado e submetido ao que chamamos hoje de “cultura de massa”. Essa incessante máquina de produzir “o Novo” e transformar desejos em “necessidades” num processo de sedução das mentes e dos corações no qual os indivíduos se tornam também “mercadoria”. Sem o sentirem se tornam desprovidos de um senso crítico ao ponto que seus valores e aspirações não são senão os valores e as aspirações da “massa” definidos pela máquina de produção e propaganda. Na realidade, essas características tornaram-se predominantes a medida que as sociedades sofreram um processo de decadência em seus valores tradicionais e os laços comunitários foram substituídos pela competição individualista. Como resultado, o que temos verificado é um irônico estado de infelicidade, frustração e solidão instalado na sociedade moderna, a despeito de tanto consumo de bens materiais e das inovações e comodidades ao alcance de tantas pessoas. A diretriz divina do Islam foi proporcionada pela misericórdia de Allah para libertar o gênero humano de todas as formas de escravidão. E esse padrão psicológico acima descrito é sem dúvida, uma prisão produzida na mente e no coração. Agora que abordamos o processo desse padrão psicológico que escraviza o homem a uma visão materialista, vejamos como o Islam nos orienta para que nos libertemos dele. O Condicionamento ao Desperdício. A desconexão com a sabedoria tradicional que se fundamentava numa relação direta com a natureza produziu o condicionamento ao desperdício. O Islam nos ensina que tudo o que a natureza nos proporciona é um bem, uma dádiva divina em relação a qual estamos comprometidos em fazer uso sábio. A inclinação ao desperdício surge a partir de uma incorreta noção da natureza e do valor dos benefícios que nos cercam. Diz o Sagrado Alcorão: “Deus foi Quem criou os céus e a terra e é Quem envia a água do céu, com a qual produz os frutos para o vosso sustento! Submeteu, para vós, os navios que, com a Sua anuência, singram os mares, e submeteu, para vós, os rios. (C.14 – V.32). E diz ainda: “Ó filhos de Adão, revesti-vos de vosso melhor atavio quando fordes às mesquitas; comei e bebei; porém, não vos excedais, porque Ele não aprecia os perdulários.” (C.7 – V.31). Assim, somos lembrados de que os benefícios e dádivas provém de Allah e não são produtos do acaso. Não podemos viver dirigidos por um sentido destrutivo de esbanjar tudo o que está a nosso alcance. Não detemos a posse absoluta de nenhuma das dádivas que provém de Deus, e portanto, devemos lembrar que as mesmas foram criadas para todas as criaturas, o que naturalmente não nos dá o direito de agirmos como “donos exclusivos”. É lamentável que tenha se tornado comum, por exemplo, o desperdício de água, pela simples razão de que “se possa pagar por ela”. O Islam nos ensina que tal atitude é uma forma de desrespeitar os direitos dos outros, não importa o pretexto que se use para tal. O remédio para esse condicionamento ao desperdício é adquirir a consciência de que todos os benefícios e recursos materiais que nos são dados provém da bondade de Allah e que a moderação no usufruto deles é um meio de adquirir felicidade neste mundo e no além. O Culto ao Supérfluo e o gosto pela Frivolidade. Trata-se de uma extensão natural do condicionamento ao desperdício. É um elemento importante do consumismo um apelo a eleger o supérfluo como uma necessidade vital. O Islam nos ensina a buscar a paz de espírito no cultivo da reflexão e na prática da bondade. Reflexão é o melhor antídoto para não fazermos de nossa própria mente o nosso pior inimigo. Isto é, considerar corretamente os nossos desejos e inclinações, descobrir qual o propósito que nos move, e então buscar o que for melhor e não o que seja conveniente aos nossos caprichos. Saibamos que não alcançaremos paz de espírito e felicidade segundo o número de peças de roupa que tenhamos em nosso guarda-roupa ou a quantidade de objetos que consigamos comprar e acumular em nossas casas. E é exatamente nisso que consiste o culto ao supérfluo e o gosto pela frivolidade: depositar expectativas de que essas coisas nos farão felizes e satisfeitos quando, na verdade, isso é impossível. Tal escolha e modo de pensar não leva senão a frustração, a angústia e ao medo da vida. Não por acaso, os que não crêem no que Deus revelou e que vivem segundo suas próprias concepções, são os que fazem dessas coisas a meta de suas vidas. Despendem grandes esforços e recursos para buscar satisfação naquilo que é supérfluo ou em preocupações com o que é leviano, até que a morte lhes chegue e reduza tudo isso a nada. Alguém que deseje escapar dessa armadilha da mente, deve preencher seu coração com a lembrança de Deus, examinar seu próprio coração à luz da orientação divina e se o fizer sinceramente, encontrará satisfação e clareza de entendimento. Substituir maus hábitos por bons embora nos pareça difícil, é uma tarefa que é facilitada quando substituímos nossos conceitos sobre a importância das coisas, e isso é possível quando adotamos o conhecimento correto proveniente do Livro de Allah, dos ensinamentos do Profeta (saas) e dos Imames de sua Casa (as). A Ostentação e a Vaidade. Como consequência lógica da anterior, esta característica se faz presente e se fundamenta na mesma visão incorreta sobre a condição humana no mundo. A busca de afirmação e segurança nos leva de maneira equivocada a acreditar que o nosso valor como pessoa é o resultado do quanto possamos incrementar nossa aparência e ostentar perante os demais os bens materiais que adquirimos. A palavra “sofisticação” ganhou uma posição de prestígio e distinção no mundo moderno; sintetiza a medida predominante que distingue o valor das coisas, ou ao menos a medida consagrada pela máquina de consumo. O grande equívoco neste caso se encontra na própria palavra “sofisticação” que significa apenas “falsidade, falácia, aparência enganosa”. Similar equívoco nos induz a supor que seremos mais felizes do que hoje somos se amanhã possuirmos mais e melhores bens de consumo, e, no entanto, esta é uma competição perdida; o culto ao “novo” decreta que tal esforço está fadado a frustração na medida que jamais há um fim para a “necessidade” de adquirir e ostentar. Então o que vemos é uma constante insatisfação e infelicidade instalada nas pessoas que, ironicamente possuem muito e do melhor e que não podem dizer-se de modo algum mais felizes do que aquelas que pouco ou nada tem. Esta constatação deveria por si só servir as pessoas para despertarem desse estado de autoengano. Não há qualquer possibilidade de libertar-se desse jugo senão reconhecer que toda Grandeza e Majestade pertence a Deus . O islã nos alerta para o fato de que a ostentação e a vaidade em qualquer maneira que se manifeste estão condenadas a encontrarem a ruína neste mundo ainda , desde que o tempo desfaz a boa aparência e o acúmulo de bens não nos livra do envelhecimento , da doença ou da morte. A Inclinação ao Que é Falso. Esta inclinação tem como principal fundamento a inconsciente tendência a negar aquilo que não “corresponde aos nossos desejos”. Enquanto uma pessoa elege seus próprios caprichos e desejos como “medida para a verdade” estará submetido a influência de tudo o que é falso e enganoso; porque a natureza da falsidade é conformar-se aos desejos humanos para atrair e dominar os incautos. Assim, vemos que a essência da propaganda e da publicidade é manipular nossos medos, nossos complexos e problemas pessoais. E atualmente essas técnicas tem sido empregadas mesmo em nome da “religião”; seitas e organizações religiosas com cuidadosas “encenações” prometem a “solução fácil” para os problemas e a satisfação dos desejos utilizando os mesmos métodos da publicidade. O Islam nos ensina que “soluções fáceis” e satisfação dos desejos são as principais armas que Xaitan utiliza para iludir os humanos e arrastá-los para a perdição neste mundo e no além. Ninguém pode livrar-se dessas armadilhas a menos que busque a compreensão da Verdade Revelada, não segundo seus caprichos pessoais tampouco com o intuito de conformar a Orientação Divina a seus desejos. Ou seja, somente renegando a adoração a nossos desejos e caprichos e buscando a adoração sincera a Deus alguém pode ser liberto dessa prisão da mente e do coração que o submete a falsidade. Ao contrário das características anteriores, esta não é um hábito a ser substituído, é, antes, uma má inclinação que sugere um desvio de caráter. Requer uma reforma pessoal a partir de uma atenta autocrítica, que possibilite a pessoa abandonar a visão egocêntrica que a leva a rejeitar o que não esteja de acordo com seus desejos. A Busca Incessante do Lazer. Esta característica, que tem sido explorada pela máquina de consumo, se apoia na reconhecida necessidade humana de um tempo para o lazer no qual a mente se refaça das atividades e tarefas da vida. Contudo, o que se constata em nossa época é uma obsessiva busca de lazer e entretenimento que reflete uma inconsciente e constante “fuga” da realidade. Como resultado, podemos dizer a visão da vida e do mundo que essas pessoas possuem é mais o produto de uma mescla de sonhos, projeções, sensações induzidas artificialmente e desejos inconscientes do que percepção da realidade. O Islam nos orienta a não negligenciarmos nem a necessidade do lazer e da distração tampouco renunciarmos a nossa obrigação de raciocinar sobre as questões essenciais da vida. Nos orienta a buscarmos o conhecimento da realidade espiritual e pautarmos nossas ações e escolhas segundo a diretriz divina, e não vivermos como se a nossa existência se passasse num imenso playground. Não há outro remédio para libertar o humano desse engodo para o qual sua própria mente o induz senão o reconhecimento da efemeridade da vida terrena e de seu objetivo real, tal como os profetas e mensageiros (as) predicaram. Ninguém, pois, que seja sensato tratará sua própria vida com semelhante descaso se tornar-se consciente de seu verdadeiro propósito. O Limitado Entendimento da Realidade da Vida.  Sendo a fonte de todas as características anteriores, esta é, na verdade, a que se puder ser eliminada, todas as outras o serão. O Sagrado Alcorão exemplifica a essência dessa mentalidade tacanha dizendo: “Distinguem tão-somente o aparente da vida terrena; porém, estão alheios quanto à outra vida. Porventura não refletem em si mesmos? Deus não criou os céus, a terra e o que existe entre ambos, senão com prudência e por um término prefixado. Porém, certamente muitos dos humanos negam o comparecimento ante o seu Senhor (quando da Ressurreição). (C.30 V.7 e 8). Os versículos sagrados descrevem a condição dessas pessoas definindo sua limitação de entendimento quer sobre a vida, sobre si próprios e sobre o mundo que os cerca; o que os leva a não acreditar na promessa divina do acerto de contas no dia do juízo. Em razão disso vivem de modo similar aos animais irracionais: para comer, beber, acumular, acasalar e satisfazer suas paixões, sem jamais considerar seriamente a razão de sua estada no mundo. É precisamente essa alienação da realidade espiritual que produziu inúmeras falsas concepções sobre o significado da existência; todas elas em harmonia com as conveniências e as inclinações pessoais. Quer os sistemas filosóficos ateístas ou a pura amoralidade, preconizam algo que pode se definir como “a ideologia do viver bem”. Segundo os que a seguem desde que “não há outra vida senão esta, o ser humano deve gozar o máximo dos prazeres do mundo”. O Sagrado Alcorão menciona a estes dizendo: “Não tens reparado, naquele que idolatrou a sua concupiscência! Deus extraviou-o com conhecimento, sigilando os seus ouvidos e o seu coração, e cobriu a sua visão. Quem o iluminará, depois de Deus (tê-lo desencaminhado)? Não meditais, pois? E dizem: Não há vida, além da terrena. Vivemos e morremos, e não nos aniquilará senão o tempo! Porém, com respeito a isso, carecem de conhecimento e não fazem mais do que conjecturar”. (C.45 - 23 e 24). Embora tal mentalidade não seja algo novo na história humana, podemos dizer que nessa como em nenhuma outra época tornou-se predominante. Alguns dos filósofos e cientistas sociais defendem a tese de que em razão da decadência do pensamento religioso e da ética revolucionária no ocidente, a chamada ideologia do “viver bem” efetivada pela lógica do consumo tornou-se algo como uma “nova religião” que prega a “felicidade possível nesse mundo”. Costumes e modas como o consumismo, a troca de casais, a gastronomia, o culto ao entretenimento, os esportes de alto risco, o consumo de drogas ou os jogos de azar são alguns exemplos da manifestação dessa mentalidade. Chega a ser impressionante que mesmo pessoas que se dizem religiosas quando perguntadas sobre suas concepções sobre a vida após a morte e um possível julgamento de Deus ou a existência do paraíso e do inferno, respondem que não acreditam senão na vida neste mundo. O Sagrado Alcorão resume a condição e o destino dessas pessoas dizendo: “Aqueles que não esperam o Nosso encontro, comprazem-se com a vida terrena, conformando-se com ela, e negligenciam os Nossos versículos.” (C.10 – V.7) “Quanto àqueles que preferem a vida terrena e seus encantos, far-lhes-emos desfrutar de suas obras, durante ela, e sem diminuição. Serão aqueles que não obterão não vida futura senão o fogo infernal; e tudo quanto tiverem feito aqui tornar-se-á sem efeito e será vão tudo quanto fizerem.”(C.11 – V.15 e 16). Assim, receberão no além na medida da consequência de sua descrença e suas obras más perdurarão enquanto suas eventuais boas obras se desvanecerão. Diante de tudo o que foi exposto aqui, percebemos que a oportunidade que nos é dada neste mundo deve ser aproveitada antes que a morte nos surpreenda. Não resta outra solução senão despertarmos para a realidade espiritual, e esse despertar significa libertar-se de todas as visões limitadas e falsas que pretendem escravizar nossa mente e nosso coração. Sanar a alma, tal como sanar o corpo significa adotar o tratamento adequado. Um homem fisicamente doente se apressa e se preocupa em buscar a cura, e, no entanto, prevalece no ser humano uma incompreensível tendência a negligenciar a doença de sua própria alma. Ao olhar ao nosso redor, vemos a todo instante os efeitos maléficos da mentalidade materialista e irreligiosa, vemos uma infelicidade que se aprofunda a despeito de tanta “alegria e prazer artificiais que o sistema proporciona”. Julgamos que a paz e a segurança possam ser garantidas pelo poder do cartão de crédito e, no entanto, não podemos explicar a depressão, a angústia e mesmo o suicídio de tantos “bem sucedidos”. Imam Asssadeq (as) disse: “aquele que devota seu coração a este mundo estará sujeito a três condições: preocupação sem fim, insaciáveis desejos e fútil esperança.” Possa Allah nos conceder a compreensão correta das coisas tal como são e nos guiar para o melhor neste mundo e no além. www.mesquitadobras.org.br. Abraço. Davi