quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O Cristianismo submetido as Patologias do Poder.



Cristianismo. Cristianismo e História. Leonardo Boff (1938-  ). 4.13. Já que o tema é o poder, é pertinente uma comparação entre as duas atitudes, a de Jesus e a da Igreja Católica Romana concernente ao poder. Elas se contrapõem. Os evangelistas apresentam o poder sob a forma de três tentações diabólicas (Marcos 1:12-13; Mateus 4:1-11; Lucas 4:1-13). São postas logo no início dos Evangelhos, antes da pregação de Jesus como uma espécie de advertência e um portal de entrada para que os ouvintes entendessem corretamente a intenção de Jesus. Ele é sim o Messias, mas diferente, despojado de qualquer poder e feito Servo Sofredor. Nas tentações aparecem as três formas clássicas de poder: o profético, das palavras eficazes que transformam pedras em pão. O sacerdotal, que faz uma reforma dos costumes a partir do templo, o político, que domina os povos e cria impérios. Jesus é confrontado com estes poderes apresentados por satanás com projetos a serem escolhidos por ele. Jesus rejeita resolutamente todos os três. Seu caminho não é o do Messias que todos esperavam, portador de todos estes poderes. Mas o do Servo Sofredor e o do Profeta. Perseguido já anunciado por Isaías (53). Este é o núcleo fundamental da pregação dos Evangelhos. Com a Igreja, grande instituição hierárquica, ocorreu exatamente o oposto. Confrontada também com essas três tentações, não soube resistir e sucumbiu fragorosamente em todas elas. Assumiu o poder profético da palavra, monopólio das autoridades e o controle dos milagres. O poder sacerdotal, exercido de forma centralizada na figura do papa e distribuído ao corpo clerical com a completa exclusão dos leigos, homens e mulheres. O poder político, praticado de forma monárquica e absolutista configurada no Estado do Vaticano e na figura do papa.  Isso ocorreu especialmente quando os papas por muito tempo detinham em suas mãos todo o poder, secular e religioso, mantendo um Estado pontifício, com sua burocracia, seu banco central privado (diga-se de passagem com seus dirigentes envolvidos em crimes de lavagem de dinheiro e apropriação indébito do erário religioso), com exércitos e uma justiça que chegava até a condenar a morte (período da chamada Santa Inquisição século XII). Em sua estrutura básica, este tipo de organização se mantém até os dias de hoje, com todas as contradições que encerra. Dificilmente escapa da crítica que Jesus fez a Pedro, que não entendeu o caminho de sofrimento de Jesus e foi acusado de ser “um escândalo” e “tentação” Mateus 16:23. Sobre a pedra do atual Vaticano Jesus jamais construiria a sua Igreja. 4.14. Efetivamente, a história do papado revela grandes contradições. Estamos acostumados às figuras inspiradoras como Papa Pio X (1835-1914), Papa Pio XI (1857-1939), Papa Pio XII (1876-1958), Papa João XXIII (1881-1963), Papa Paulo VI (1897-1978), João Paulo I (1912-1978), Papa João Paulo II (1920-2005). A referência anterior menciona o nascimento e morte dos papas citados. Todos portadores de insignes virtudes. Por outro lado, houve épocas de papas mundanos e em frontal contradição à herança de Pedro e de Jesus.  O eminente Cardeal Cesar Baronius (1538-1607), historiador e bibliotecário do Vaticano, fala até na era pornocrática do papado que vai dos anos 900 até para dentro do ano 1000. Assim o Papa Sérgio (965-1012) assassinou seus dois predecessores. O Papa João XII (937-964), eleito com a idade de 20 anos, adúltero, foi morto pelo marido traído, e, pior ainda, o Papa Bento IX (1012-1056), eleito com 15 anos de idade, revelou-se como um dos mais criminosos e indignos da história dos pontificados papais, chegando a vender a dignidade papal por 1.000 liras de prata. O auge da decadência do papado foi alcançada com o Papa Estevão VI (850-897), que ordenou a exumação de seu antecessor, o Papa Formoso (816-896). Seu cadáver em decomposição foi revestido dos ornamentos pontifícios e instalado sobre a cátedra papal. Os cardeais nomeados por ele tiveram que fazer o beija mão. Um sínodo ( chamado de Sínodo do Cadáver), adrede eleito, em presença do cadáver, decidiu sua degradação de papa e condenação. Foram-lhe retiradas as insígnias, cortaram seus dedos da mão direita que serviam para a bênção papal. Por fim, seu cadáver foi entregue à população e jogado no rio Tibre, na Itália que corta a região da Toscana. Esta cena macabra acabou voltando-se contra Estêvão VI que foi lançado na prisão e, finalmente, estrangulado. Não obstante estas contradições nefastas, a figura do papa constitui permanente ponto de referência de unidade, de continuidade da tradição apostólica e de apelo às igrejas, de juntas constituírem o movimento de Jesus com um mínimo de organicidade, de mútua aceitação e de unidade para que o testemunho cristão ganhe credibilidade. O problema ecumênico não reside no fato do papado, mas na forma centralizada e autoritária como vem sendo exercido, deixando pouco espaço para as diferenças legítimas, presentes nas demais Igrejas cristãs. 4.15. O preço a pagar de uma instituição Igreja hierárquica que se articula sobre o poder é viver permanentemente em disputas, conflitosa, cruzadas e guerras com outros portadores de poder, ora aliando-se a eles, ora depondo-os de seu trono e excomungando-os, bem na lógica descrita por Thomas Hobbes (1558-1679) em seu livro Leviatan: “o poder quer sempre mais poder, porque não se pode garantir o poder senão buscando mais e mais poder”. Uma instituição Igreja de poder fecha as portas ao amor e perde os pobres. Aliada dos poderosos, ela se torna incapaz de evangelizar os marginalizados e os trabalhadores que forma a massa de fiéis, submissos e sem nenhuma participação nas decisões que dizem respeito à vida e à organização da Igreja. O pobre é visto com  o olhar do rico, e por isso sempre carente e objeto da caridade e da assistência. O trabalhador, com o olhar do patrão e por isso sempre submisso e feito carvão no processo produtivo. Raramente se viu o pobre com o lhar do pobre e então perceber sua força histórica, capaz de ser uma alternativa à sociedade dominante, portanto, com força transformadora da história. Da mesma forma pouco se viu o trabalhador a partir do trabalhador, de seus sindicatos e de sua capacidade de impor limites à voracidade do capital, e assim ator de um outro tipo de sociedade mais igualitária e justa. Ao marginalizar estas grandes maiorias a instituição se distancia do sonho de Jesus, mundaniza-se, perde o rosto humano e se faz insensível aos problemas existenciais, mostrando-se, não raro, cruel e sem piedade face às questões ligadas à família e à sexualidade. 4.16. No conjunto da cultura, a Igreja instituição se transformou num bastião de autoritarismo, conservadorismo e machismo, cada vez mais afastada do curso do mundo com imensas dificuldades de estabelecer um diálogo franco e aberto com outras realidades que não seja ela mesma. Sua arrogância institucional de ser a exclusiva portadora e intérprete legitima da revelação, de ser a única verdadeira Igreja de Cristo. Negando a todas as demais, exceto a Ortodoxa, o título de Igreja, e de apresentar-se como a portadora exclusiva dos meios de salvação a ponto de repetir a lição medieval de que “fora da Igreja não há salvação”, torna-se cada vez mais inaceitável pelas pessoas de bom senso, de espírito religioso ecumênico e com um mínimo de cultura teológica, com o risco de se transformar numa grande seita cristã ocidental. Mas há que se reconhecer que, apesar da estreiteza do quadro institucional, surgiram pastores proféticos e santos que assumiram a causa dos pobres e dos oprimidos, como ocorreu ao largo e ao longo da Igreja latino americana. Leigos, homens e mulheres, notáveis por sua inteligência e saber, fizeram de sua fé uma força política de transformação social, sendo muitos deles vítimas da violência dos próprios irmãos de fé e dos grupos sociais, em sua grande maioria católicos, mais interessados em defender seus privilégios do que fomentar a vigência dos direitos. 4.17. Os intentos de reconversão deste tipo autoritário de Igreja hierárquica, feitos pela Reforma no século XVI e pelo Concílio Vaticano II no século XX (1962-1965), deslocando os acentos do sacro poder para os sacro serviço, da hierarquia para o Povo de Deus, do templo fechado sobre si mesmo para o templo aberto em suas portas e janela para o diálogo com a Modernidade, com as demais Igrejas e religiões, foram frustrados e esvaziados pela burocracia vaticana, legitimada pelos papa João Paulo II (1920-2005) e Bento XVI (1927-  ). Eles reassumem e reforçam um modelo de Igreja com traços medievais, reintroduzindo o latim nas missas segundo o rito de Pio V (1504-1572) do século XVI, trataram com mão de luva os cismáticos seguidores do Bispo Marcel Lefebvre (1905-  ), enquanto com bastonadas aos aliados dos pobres, os bispos e os teólogos da libertação. Orientam-se no sentido da restauração e da volta à grande disciplina. O propósito é manifesto: fortalecer o sistema de poder sagrado, monossexual (só homens), celibatário, sacerdote, centralizado, autoritário, hierárquico e excludente. Dificilmente esta concepção de poder e seu exercício se compaginam com a utopia de Jesus do poder como serviço (hierodulia) e jamais como hierarquia (sacro poder). 7. O cristianismo na versão popular. 4.18. Ao lado da versão oficial do cristianismo encarnado na cultura letrada grego latina germânica moderna surgiu desde o início um vigoroso cristianismo popular, especialmente nas Igrejas periféricas, mas também nas Igrejas centrais, como se constata na Europa em geral, mas mais claramente na Itália e na Espanha. Ele não é uma forma decadente do oficial. Ao contrário, possui igual dignidade ao encarnar a mensagem de Jesus na cosmovisão popular. Expressa-se pela linguagem do imaginário, do coração e do afeto. Possui suas verdades e seu modo de dizer, de rezar a Deus e de viver o sonho de Jesus. Este tipo de cristianismo popular foi quase sempre menosprezado, submetendo os fiéis às doutrinas e aos ritos do corpo clerical. Sem confrontar-se e entrar em conflito direto com o modelo oficial, ele criou seu caminho próprio e desenvolveu um cristianismo da vida cotidiana, das virtudes pessoais e familiares, do seguimento de Jesus, geralmente do Crucificado no qual viam sua própria situação crucificada. Esses anônimos que tem em São José seu arquétipo de referência, guardaram o segredo do sonho de Jesus, feito de esperança, de muitas virtudes pessoais e familiares e de uma entrega confiante à vontade de Deus. Fora do poder não sofreram as patologias próprias dos portadores de poder que é o carreirismo, a bajulação, a dupla moral, o farisaísmo, a hipocrisia, a dureza de coração e a arrogância. Vivem um cristianismo puro e simples, os herdeiros autênticos da ética de Jesus e de seu sonho, de um mundo onde começam os bens do Reino e se antecipam as  promessas divinas. Como todas as coisas, ele contém seus limites e seus equívocos. Não raro mistura fé confiante com superstição, realiza um sincretismo nem sempre feliz e sobrenatural e vê como milagres, com demasiada facilidade, fatos naturais. Mas como as doenças remetem à saúde, também aqui tais desvios remetem à substância do Evangelho de Jesus com toda sua carga de esperança e de alegria que ele irradia. O cristianismo popular é festeiro, acompanhado de santos e santas protetores, cheios de cores, danças, bebidas e comidas. Do Livro Cristianismo o mínimo do mínimo. Abraço. Davi.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Cristianismo e as Igrejas.



Cristianismo. Cristianismo e História. Leonardo Boff (1938-  ). 4.7. Aos poucos, duas grandes formações eclesiais se firmaram na história, uma no Ocidente, a Igreja Católico Romana e outra no Oriente, a Igreja Católica Ortodoxa. Há ainda outras Igrejas Católicas menores como a Melquita, a Copta e outras. Estas duas formações maiores possuem características próprias, derivadas principalmente dos estilos de vida das culturas circundantes. A Ocidental deixou-se influenciar fortemente pelo direito romano e pela burocracia palaciana imperial, por isso é mais centralizada e fortemente estruturada ao redor do poder e da figura de Cristo Pantocrator (o que governa tudo). A Oriental se desenvolveu de forma mais autônoma, com os diferentes patriarcados, cujo exercício do poder se assemelha aos dos sátrapas médio orientais, mas num sentido mais espiritual que jurídico. A força da mensagem cristã é colocada nas solenes e longuíssimas celebrações litúrgicas, conferindo centralidade à eucarística e dando ênfase à figura do Cristo ressuscitado, do Espírito Santo e de Virgem Maria, cuja presença como que se encarna nos belíssimos ícones que enchem as igrejas e as casas dos fieis. O engajamento social é diminuto, já que consideram ser dever do Estado cuidar do bom andamento da sociedade e a Igreja a cura das almas. Ambas as Igrejas são consideradas os dois pulmões pelos quais respira o cristianismo. Lamentavelmente, por disputas políticas e teológicas, particularmente por causa da doutrina da procedência do Espírito Santo, filioque, e da reivindicação do primado jurisdicional por parte do bispo de Roma, romperam em 1054. Criou-se um cisma, mas isso não afetou a substância da fé, já que ambas assumem as doutrinas cristológicas e trinitárias dos primeiros cinco concílios ecumênicos. 4.8. No século XVI, com a Reforma Protestante, surgiram várias Igrejas Evangélicas, especialmente com Jan Hus (1369-1415), Martinho Lutero (1483-1546), Ulrico Zwinglio (1484-1531) e João Calvino (1509-1564). Todas elas pretendem anunciar um Evangelho depurado das distorções históricas e doutrinárias ocorridas no seio da Igreja Católica Romana. Depois delas, pelo mundo afora, surgiu uma pletora de denominações cristãs, cada qual tentando assumir a totalidade do legado de Jesus e de vive-lo nos contextos culturais mais diversos. Forte é o fenômeno das Igrejas Pentecostais e Carismáticas, tanto Evangélicas quanto Católicas. Para ambas o Espírito Santo  é a fonte de inspiração. Introduziram criatividade e alegria nas comunidades, antes muito centradas na cruz, e romperam o monopólio da palavra mantido pela hierarquia. Entretanto se mostram pouco sensíveis aos conflitos históricos, ao tema da justiça social e da libertação concreta dos oprimidos. Nelas vigora um excesso de Pai Nosso em detrimento do Pão Nosso, unidade querida por Jesus em seu sonho do Reino. 4.9. Entretanto, seria redutor interpretar a emergência desse pluralismo eclesial como ruptura do manto inconsútil, inteiriço, de Cristo. Num sentido positivo, elas representam formas diferentes de dar carne histórica a herança de Jesus. O único vicio que contamina grande parte destas Igrejas, incluindo especialmente a Católica Romana, é a pretensão de cada uma ser melhor que a outra, quando não a única verdadeira e portadora exclusiva do sonho de Jesus. O Ecumenismo visa a que todas se reconheçam mutuamente para, juntas, apresentarem com mais convencimento e brilho a mensagem profundamente humana e divina de Jesus. Os quatro evangelhos servem de preferência do verdadeiro Ecumenismo, pois, embora diferentes, reconhecem-se mutuamente como autênticos e dão testemunho do único Evangelho vivo que é Jesus. Ou então a fé na Santíssima Trindade, na qual há a diversidade de Pessoas, todas igualmente infinitas e eternas, mas se acolhendo mutuamente no amor e na comunhão, de forma tão profunda, que são um só Deus. Por que deveria ser diferente com as Igrejas? Em suas diferenças e singularidades, formam a Igreja de Jesus e a Igreja de Deus na terra. A diversidade das comunidades eclesiais encontra uma correspondência na biodiversidade da natureza. 5. Cristianismo à mercê do poder sagrado e político. 4.10. Caminho singular percorreu a Igreja Romano Católica sobre a qual nos deteremos com certo detalhe por ser aquela na qual nos inscrevemos e por ser a mais numerosa. Para melhor entender sua atual configuração histórica, importa considerar seus dois eixos estruturadores. Um político, a ideia do Império Romano, e outro teológico, a ideia da Cidade de Deus de Santo Agostinho (354-430). Do Império Romano herdou o sentido do direito, da hierarquia, da burocracia e a perspectiva imperial de conquistar todos os povos à mensagem cristã. De Santo Agostinho assumiu a ideia de que ele representa a Cidade de Deus em contraposição da cidade dos homens, onde reina o pecado e satanás. A Igreja é o pequeno mundo reconciliado não contaminado pela cidade dos homens. Ocorre, entretanto, que esse imaginado mundo reconciliado também é perpassado pela cidade dos homens, com suas vaidades, vícios e pecados. Assim como a Igreja nunca poderá ser identificada com o Reino de Deus, da mesma forma ela nunca realizará plenamente a Cidade de Deus. Nela, as duas cidades se mesclam e tornam dramática a existência da Igreja que permanentemente precisa de conversão e de purificação. 4.11. Entretanto, por circunstâncias históricas, alheias à  sua própria natureza, a Igreja institucional foi solicitada a assumir uma função de poder político dentro do Império Romano, que já se encontrava numa fase avançada de decadência. Isso teve início a partir do ano de 325 com o Imperador Constantino, e oficialmente instaurada como instituição político religiosa em 392, quando Teodósio (347-395), o Grande, impôs o cristianismo como única religião oficial do Estado. Com o imperador bizantino Justiniano I (483-565), que unira Ocidente e Oriente e reconquistara o Norte da África. Ainda elabora a primeira codificação jurídica à base da fé cristã, o Código Justiniano (529), o cristianismo foi feito obrigatório para todos os povos. As demais religiões foram perseguidas, proibidas e até eliminadas. Os perseguidos de ontem passaram a perseguidores de agora. Os mártires  de um lado, os cristãos, produziram mártires de outro lado, os “pagãos”. A partir de então a instituição Igreja assumiu esse poder com todos os títulos, honrarias, pompas e hábitos palacianos que perduram até os dias de hoje no estilo de vida dos bispos, cardeais e papas. Este modo de ser, não raro, escandaliza os fiéis que vêm da leitura dos Evangelhos, onde descobrem o Nazareno, pobre e humilde, próximo do povo e longe dos palácios e dos templos. É o preço que têm que pagar, perder os simples e os pobres que acabam não sendo evangelizados ou feitos mera massa, consumidora de bens simbólicos. 4.12. A categoria chave que estrutura a Igreja Romana é a potestas sacras, o poder sagrado. Esse poder é hierarquizado, exercido por um corpo especializado, os clérigos, tendo como cabeça o papa, portador supremo do poder sagrado. Esse poder ganhou, com o tempo, formas cada vez mais centralizadas, mostrando por vezes características totalitárias e até tirânicas. São Bernado (1090-1153), por exemplo, chega escrever ao Papa Eugênio III (1088-1153) que ele é “mais sucessor de Constantino do que de Pedro.”. Essa tendência já se anunciava antes, com o Papa Gregório VII (1020-1085), em 1075, especialmente em seu decreto Dictatus Papae (a ditadura papal). Ele se autoproclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo secular, submetendo a seu beneplácito reis e imperadores, pondo-os consoante suas conveniências. Na mesma linha de radicalização, Inocêncio III (1161-1216), o Papa mais poderoso da história, pois toda a Europa até a Rússia lhe era submetida, pelos pactos de suserania. Apresentou-se não apenas como sucessor de Pedro, mas como representante de Cristo. Em seguida, Inocêncio IV (1195-1254), não satisfeito, deu o último passo e se anunciou como representante de Deus, e por isso senhor universal da Terra. Munido com esse poder divino, os papas se arrogavam o direito de distribuir porções da Terra a quem quisessem, como efetivamente ocorreu. Os papas, pelo Tratado de Tordesilhas, dividiram o mundo por conquistar entre Espanha e Portugal. O Papa Nicolau V (1397-1455), com a bula Romanus pontifex, concedeu a Portugal uma metade, e Alexandre VI (1451-1503) com a bula Inter Caetera a outra metade à Espanha. Só faltava proclamar o papa infalível, o que aconteceu em 1870 com o Concílio Vaticano I (1869-1870) sob Pio XI (1857-1939). Atribuiu-se ao papa o absoluto poder: “ordinário, supremo, pleno, imediato e universal” (cânon 331), atributos, na verdade, só cabíveis a Deus. Não sem razão, alguns teólogos, súcubos (os que se deixaram dominar) dos papas, os chamassem de deus minor in terra, vale dizer, o deus menor na Terra. Do Livro Cristianismo o mínimo do mínimo. Abraço. Davi.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

II. Cultivando Emoções Construtivas.



Budismo Tibetano.  Complementação da palestra de sua Santidade o Dalai Lama em São Paulo, Brasil em 2011. Ao falar desse conceito budista da interdependência que é a lei da causalidade, esse conceito diz que todos os fenômenos estão se transformando a cada segundo, eles todos ocorrem a partir de suas próprias causas e condições; então todo resultado depende inteiramente de suas causas e condições. Essa a primeira maneira de se entender a interdependência. Dentro da tradição sânscrita, nós encontramos duas escolas de pensamento: a escola Cittamatra e a escola Madhyamika. Os entendimentos da escola Madhyamika, a meu ver, são os mais profundos; na escola Madhyamika se diz que não apenas o resultado depende da causa, mas a causa também é totalmente dependente do resultado; para que uma causa possa ser causa ela vai depender do resultado; e também existe uma outra distinção que se faz em Madhyamika do conceito de interdependência que é a ligação entre a parte e o todo, entre o átomo e o todo. O fato da existência de uma pessoa ser totalmente definida a partir dos agregados físicos dela, não existe uma noção de pessoa que se assente no conjunto dos agregados, este é o postulado da falta de existência intrínseca do eu. Nós encontramos este postulado nas quatro escolas budistas: Vaibhashika, Sautrantika, Cittamatra e Madhyamika. Além da ausência da existência intrínseca das pessoas, o budismo também fala que os fenômenos não têm existência intrínseca. Se nós olharmos os cinco agregados que formam a base para designarmos, por exemplo, uma pessoa, se nós formos examinar os agregados que a compõem, vamos ver que eles também, por sua vez, dependem de suas partes. Isso vale não só para os agregados físicos que existem no mundo grosseiro observado, mas também vale para as essências a partir das quais esses cinco agregados físicos provém. Essas essências também são desprovidas de existência intrínseca. Isso vale tanto para o nível mais grosseiro quanto para o nível mais sutil; se nós olharmos coisas mais etéreas como o espaço, veremos que elas são desprovidas de existência intrínseca, também são dependentes de seus componentes. Isso é válido não só para o mundo externo que é observado, mas se aplica também à própria mente que observa os fenômenos, ela também não tem existência intrínseca, e é assim que se descreve a falta de existência intrínseca dos fenômenos. Dentro da tradição budista que vem do sânscrito, nós encontramos dois tipos de vacuidade quando falamos dos seres sencientes: existe a vacuidade do Eu e existe a vacuidade da base do Eu. As diferentes escolas budistas, como Cittamatra e Madhyamika, têm conceitos, têm postulados diferentes sobre a vacuidade: Sunyata. Qual o sentido de desenvolvermos todas essas complicações filosóficas? Porque a causa última do sofrimento é a ignorância e quando falamos de ignorância, falamos de dois tipos: aquilo que pode ser chamado de mera ignorância, por exemplo, não saber o que é ABC: uma criança, até que chega o dia em que ela vai a escola e onde alguém lhe ensina o alfabeto, ela não conhece o ABC, então essa ignorância é uma falta de conhecimento. O segundo tipo de ignorância é uma percepção ou uma apreensão errônea da realidade: alguém olhar a letra A e achar que é B, olhar B e achar que é o C. A remoção completa da ignorância só acontece quando se chega ao estado búdhico. No budismo se diz que a apreensão errônea da realidade é a causa última do sofrimento e, sendo assim, qual seria o antídoto que poderia se contrapor a essa causa? Não é a oração, também não é a mera meditação, tampouco bodhicita, ela não pode ter essa função, nem a compaixão infinita pode debelar essa concepção errônea da realidade. A única coisa que pode desempenhar esse papel é a sabedoria; através da sabedoria você pode ir se familiarizando mais e mais com a realidade até por fim chegar a entendê-la e quando você, de fato, entende plenamente a realidade em sua instância última, isso debela a ignorância e, por conseguinte, o sofrimento. De modo geral, nós temos uma apreensão incorreta da realidade: se eu olho para vocês e vocês olham para mim, vocês podem estar me vendo como um ser absoluto, independente de vocês; eu sou o Dalai Lama e você é você. Mas essa é uma compreensão incorreta: não existe nada que seja independente de forma absoluta; todas as coisas são interdependentes e, a partir dessa concepção errônea da realidade, surge a base do apego, a base de todas as emoções negativas. Quanto às emoções positivas, elas podem ser cultivadas a partir de um treinamento; então, se você pratica o amor e a bondade, isso reduz as emoções negativas como a inveja ou a raiva. Em termos últimos, o que vai debelar as emoções negativas é a sabedoria, é você se familiarizar com o que, de fato, é a realidade em sua instância última; então, você poderá entender que as coisas aparecem aos nossos olhos como absolutas e independentes, mas isso é apenas uma miragem. Quando, de fato, você tem essa compreensão, essa é a base a partir da qual as emoções destrutivas podem ser dissipadas. Na tradição sânscrita do budismo se diz que o Budha girou a roda do darma três vezes: no primeiro giro, ele falou sobre a base do budismo: as quatro nobres verdades. No segundo giro da roda do darma, o Budha deu explicações adicionais sobre a terceira nobre verdade que é a verdade da cessação, a possibilidade da cessação, baseada no conceito das duas verdades: a verdade convencional e a verdade última. No terceiro giro da roda do darma, o Budha ofereceu ensinamentos mais elaborados sobre a quarta nobre verdade: que é a possibilidade da eliminação de todas as emoções destrutivas e isso é possível porque no nível mais sutil da natureza da mente, ela é clara como a luz. A natureza da água é ser limpa e pura, mas muitas vezes quando ela se mistura com o barro ou outra substância, ela fica turva, porém por mais suja que ela possa estar, a sua natureza essencial é límpida. Isso vale para a nossa mente: por mais turva que a nossa mente possa estar pelas nossas emoções destrutivas, a realidade última da nossa mente é que ela é límpida e por isso essa separação se torna possível. As emoções destrutivas nos divorciam da realidade. A sabedoria pode dar a compreensão da realidade última e esse é o antídoto. Por mais potentes que possam ser as emoções destrutivas, por mais sobrecarregada de negatividades que possa estar uma mente, essas negatividades podem ser absolutamente limpas, pois elas não são a natureza última. Embora tibetano, tenho uma conexão direta com a tradição da Universidade de Nalanda. Isso porque, no Tibete, o ensino foi introduzido por um grande mestre chamado Shantarakshita, um grande erudito que dava ensinamentos na Universidade de Nalanda. Ele chegou ao Tibete no século VIII (701-800) a convite do Imperador; como ele era monge, ele introduziu a tradição monástica no Tibete, mas ele era também um grande filósofo, um grande erudito, então ele introduziu também ensinamentos de Madhyamika, de lógica, de epistemologia; deu ensinamentos tão profundos e completos que até os dias de hoje esses textos são estudados. Também veio ao Tibete um grande mestre tântrico, Padmasambava. Podemos então dizer que o budismo tibetano é completo: ele inclui a tradição dos sutras que vem do páli, toda a versão que vem do sânscrito e toda a versão tântrica. É importante enfatizar essa raiz do budismo, proveniente da Universidade de Nalanda; na tradição tibetana, encontramos basicamente 300 volumes de textos, sendo que 100 textos contém as palavras do próprio Budha e os demais são comentários sobre as palavras do Budha. É muito importante que esses textos sejam estudados, eles não devem ser tomados apenas como objetos de veneração para se colocar sobre o altar e para se dirigir as orações, para que eles possam ser de fato eficazes, precisam ser usados, estudados. Ao longo da implantação do budismo no Tibete, em diferentes regiões, diferentes ensinamentos foram criados e diferentes nomes foram dados às escolas que cultivavam esses ensinamentos. Foi assim que apareceu a seita dos chapéus vermelhos e dos chapéus amarelos, fico com vontade de criar uma nova seita, a dos chapéus verdes!, mas isso não é importante; o importante é que todos têm uma raiz comum, essa nobre tradição da Universidade de Nalanda. Às vezes, por causa dessas diferentes seitas, também se desenvolveu o sectarismo no Tibete, as pessoas se apegavam à sua própria seita. Mas também no Tibete se desenvolveu um movimento muito importante de não sectarismo e um grande mestre dessa tradição é Jamyang Khyentse Wangpo (1820-1892). Eu cultivo, estudo e prezo as tradições não sectárias do budismo tibetano; originalmente os Dalai Lamas pertenciam à seita dos chapéus vermelhos mas, ao longo da história, muitos Dalai Lamas, inclusive o atual Dalai Lama, receberam ensinamentos das diferentes escolas do budismo tibetano: dos Sakyas, dos Nyngmas, dos Kagyus. Isso ajuda muito; não faz muito sentido ficar apegado apenas à sua tradição, isso vai limitar o seu conhecimento, ao passo que se você se coloca aberto para receber os ensinamentos das diferentes tradições, isso vai fortalecê-lo. http://www.bodisatva.com.br. Abraço. Davi.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

I. Cultivando Emoções Construtivas.



Budismo Tibetano. Cultivando Emoções Construtivas. Na tarde do dia 15 de setembro de 2011 sua Santidade o Dalai Lama falou em São Paulo, Brasil sobre emoções construtivas. A palestra foi transcrita por Isabel Poncio. Esta manhã, numa palestra, tive a oportunidade de falar sobre o afeto, sobre a importância das qualidades que vêm do coração, da importância do calor que vem do coração e de como isso é um fator crucial para trazer felicidade para nossa vida, para criar a amizade. Todos os mamíferos, cachorros, gatos, elefantes e até mesmo os pássaros que vivem em comunidade, todos esses seres têm uma experiência de felicidade e esse sentimento não somente é agradável como é necessário para a sobrevivência da espécie. Esse é um fator que aparece naturalmente, faz parte da natureza, e também faz parte da natureza dos seres humanos enquanto animais sociais. Todos nós, desde o nosso nascimento, crescimento e especialmente na nossa primeira idade, estamos sujeitos ao afeto e ao cuidado das nossas mães, fomos nutridos pelo leite das nossas mães. Se esse corpo que nós carregamos hoje se desenvolveu numa atmosfera de afeto e as pessoas que, em tenra idade, receberam uma quantidade máxima de afeto de suas mães ou de seus familiares, são pessoas que trazem consigo, num nível bastante profundo, uma sensação de segurança e serenidade. Ao contrário, as pessoas que, nesta primeira fase, não tiveram o mérito de receber afeto de sua mãe ou de seus parentes ou se, ainda pior, foram vítimas de maus tratos, essas pessoas, não importa a aparência externa que elas possam manifestar, vão deixar transparecer a sua insegurança, o seu medo e a sua desconfiança. Elas terão muito mais dificuldade de tocar o outro, de se comunicar com o outro, de estabelecer verdadeiras relações de amizade; isso é muito mais fácil para uma pessoa que tenha recebido afeto na sua infância. E, se dentro de uma família existe uma pessoa infeliz, isso vai afetar o clima de toda a família; ao contrário, se existe uma pessoa muito alegre e calorosa, esse sentimento se espalha, há uma influência positiva para tornar essa família compassiva e afetuosa. Todas as grandes tradições religiosas do mundo, como é o caso do Budismo e das religiões teístas,  aquelas que propõem a ideia de um Deus, todas têm uma mensagem comum: mensagem de amor, compaixão, tolerância e perdão; todas essas tradições falam sobre esses valores humanos, todas as religiões enfatizam esses fatores cruciais, essenciais à raça humana. Eu usei a expressão “valores humanos” e por que eu usei esse termo? Porque esses valores são úteis à nossa felicidade; são até mesmo necessários à nossa existência e eu uso a expressão “valores humanos” porque eles não vêm necessariamente associados a uma crença religiosa, tampouco eles são algo imposto, por exemplo, por um governo. Esses valores são relevantes à nossa vida, tanto para uma pessoa que tenha uma religião, uma fé, uma crença quanto para uma pessoa que não tenha uma crença. Mesmo uma pessoa agnóstica, que se oponha à religião, ela também precisa de afeto, igualmente ela cresceu nutrida pelo afeto. Eu acredito que nos primórdios da humanidade, há muitos milênios atrás, os seres humanos viviam em comunidade e o que conseguiam obter, compartilhavam entre si; provavelmente havia um espírito de cooperação entre essas comunidades e também um sentimento de amizade. Com o decorrer dos séculos e com o aumento da população, a vida do homem foi se tornando mais sofisticada, apareceram novas habilidades, profissões foram desenvolvidas, e assim, foram criadas as classes entre os seres humanos e, no decorrer desse processo, a minha impressão é que se esqueceu que todos aqueles seres humanos formavam uma comunidade única, passou-se a ter um sentimento de “meu grupo” em oposição ao grupo do outro lado. Nos últimos três séculos, nós assistimos ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia; os seres humanos não só desenvolveram como começaram a se maravilhar com os progressos oferecidos pela tecnologia e pela ciência. A partir desse interesse, também se desenvolveu o sentimento de que as secções religiosas eram uma coisa antiquada, mas se nós olharmos para a tecnologia, para o dinheiro, veremos que essas coisas não têm sentimento, não trazem intrinsecamente uma noção de bem e de mal; a nossa noção de bem e mal está muito ligada à nossa experiência de prazer e de dor. As coisas que nos trazem prazer e felicidade, nós as chamamos de boas, positivas; ao contrário, as que nos trazem sofrimento, nós as chamamos de negativas: é assim que nós diferenciamos, estabelecemos critérios, para definir o que é positivo e o que é negativo; nós nos baseamos nos sentimentos que as coisas produzem. Mas se olharmos para a matéria, ela não traz intrinsecamente essa noção do certo ou do errado, do bom ou do mau; a matéria não tem a capacidade do pensamento e à medida que valorizamos muito as coisas materiais, nós vamos esquecendo e negligenciando os valores humanos. Na segunda metade do século passado, algumas pessoas, embora tivessem muito sucesso, se tornassem muito ricas contando com todo o tipo de recurso à sua volta, ao seu dispor, ainda assim, essas pessoas traziam o sentimento de que alguma coisa parecia estar faltando; apesar de serem abastadas, poderosas e influentes, muitas ainda experimentavam infelicidade. Ficou então patente que os recursos materiais não conseguem nos proporcionar paz interior; esse é um fator a ser levado em conta. Um segundo fator é que, com as pesquisas científicas, a ciência médica passou a se interessar mais sobre as emoções e sobre a mente humana; constatou-se que a influência das emoções e da mente sobre a recuperação da saúde, por exemplo, é de grande importância. Também se desenvolveu o conhecimento científico sobre o cérebro humano; mais pesquisas são feitas nesse campo e quanto mais profundas elas são, mais os cientistas esbarram num fator misterioso; porém, ainda que não exista uma compreensão absoluta do que seja a mente, ela continua sendo um grande desafio para a ciência. Os cientistas porém já reconhecem que há uma influência da mente ou dos pensamentos sobre o cérebro; reconhecem até mesmo que o cérebro fisicamente se modifica. Os cientistas, no passado, não se interessavam tanto pela mente, simplesmente achavam que a mente era uma reação, mas agora, cada vez mais, colocam perguntas sobre o que é a mente. Esses dois tópicos: a percepção de que os valores materiais não são suficientes para nos trazer felicidade e o campo da ciência e das pesquisas que, apesar dos mistérios ainda ligados à mente, é um campo que se abriu para a pesquisa científica e o interesse da ciência. Ontem de manhã e à tarde, estivemos reunidos com neurocientistas que estudam o cérebro e, como parte de suas pesquisas, eles têm estudado o efeito que o treinamento da mente produz sobre a saúde humana. Foi descrito um experimento onde os cientistas medem a pressão arterial, medem o nível de stress de uma pessoa; posteriormente, essa pessoa passa por um treinamento da mente sobre a compaixão e, ao final desse treinamento, mede-se novamente a pressão arterial e verifica-se que ela baixou; é testado o nível de stress e os resultados científicos mostram a redução desse nível. Para uma pessoa com nível de stress mais baixo, fica mais fácil estabelecer relações sociais e essa pessoa passa a ser mais feliz; os cientistas então têm mostrado interesse em pesquisar essa questão dos valores internos. Eu tenho um sentimento de que as pessoas em geral, as pessoas comuns, o público, em geral, experimentam uma frustração que existe no mundo moderno: mesmo aqueles países que são democráticos, onde o governo é eleito pelo povo, aqueles países que têm o Poder Judiciário independente, onde há liberdade de imprensa, ainda assim se vê muita injustiça e isso traz uma sensação de frustração. Com isso, mais e mais, vemos pessoas que tomam consciência de que falta cultivar valores éticos na nossa sociedade, falta a incorporação da moral e da ética; começa então, entre professores, cientistas e educadores, a aparecer esse sentimento da importância da ética e da moral na educação e a percepção de como isso não está presente no nível em que deveria estar. Todas as grandes tradições religiosas do mundo vão cultivar esses valores internos, a moral e a ética, mas é fundamental, como premissa básica, que exista harmonia entre as diferentes tradições religiosas porque se isso não acontecer, se houver rixas e inveja entre as tradições religiosas, como pode o religioso ter a pretensão de querer ensinar, propagar algum tipo de valor ético? Certamente alguém iria apontar, “mas você próprio se envolve com brigas, com intolerância, você é o primeiro que deveria estar cultivando paciência e compaixão!” É fundamental que haja um esforço, uma determinação, entre as diferentes tradições religiosas para se encontrar a harmonia e uma convivência pacífica entre elas; se a pessoa se diz religiosa, se ela é adepta dos preceitos de uma religião, é fundamental que ela se conduza de uma forma honesta e verdadeira porque, caso contrário, qual é a condição de uma pessoa que faz orações a Deus e quando se levanta e sai para a sua vida, se envolve, por exemplo, com corrupção? Isso não faz sentido nenhum. Eu só vejo duas possibilidades: ou você é uma pessoa que não tem nenhum envolvimento religioso então, tudo bem se você se envolve com injustiça, com corrupção, com trapaças, mas se você se diz religioso, se você dá importância à ética, então você não pode se envolver com esse tipo de sujeira; só existe uma conduta ou outra, não existe um terceiro caminho e eu acho que as pessoas que são religiosas deveriam, em suas orações, pedir que os falsos religiosos sejam condenados. Em países onde não há liberdade de expressão, onde não há um judiciário independente, onde apenas se valoriza o poder e o dinheiro, a ética fica relegada ao abandono, como acontece na China. Mesmo em países onde há total liberdade, governo eleito pelo povo, como na Índia e no Brasil, ainda assim existe a corrupção que passa até a ser uma forma de vida, passa a ser uma coisa aceitável por uma parte da sociedade. Todas as grandes facções religiosas do mundo, apesar das grandes diferenças filosóficas que existem entre elas, todas veiculam a mesma mensagem: de amor, compaixão, perdão, auto disciplina, justiça e honestidade. Todas falam sobre esses valores e, mais importante, todas oferecem instrumentos para podermos cultivar esses valores com o objetivo de criar uma comunidade humana saudável e feliz. Dentro dessas tradições religiosas, encontramos dois grandes grupos: de um lado as religiões teístas (acreditam num Deus pessoal e absoluto) e, de outro lado, as que são não-teístas (percebem Deus como um princípio contido em todas as coisas). Na categoria das que são não-teístas há uma subdivisão: as religiões que acreditam na existência de um Eu independente e aquelas que não acreditam na existência de um Eu independente. O budismo se insere na categoria das religiões não-teístas e é uma religião que não postula a existência de um Eu independente; antes, o budismo fala sobre a lei da causalidade. Essa ausência de crença num Eu independente é um conceito único do budismo. O budismo vai falar naquilo que se chama originação interdependente que em sânscrito é pratityasamutpada. No budismo, encontramos duas tradições: a tradição páli e a tradição sânscrita. A tradição páli forma a base do budismo, ela por si só consegue se manter, ela é completa; a tradição sânscrita, ao contrário, depende da tradição páli. A tradição páli é o alicerce sobre o qual se assenta a tradição sânscrita. Mas a tradição budista que vem do sânscrito contém as explicações mais sofisticadas e mais profundas que o budismo tem a oferecer. http://www.bodisatva.com.br. Abraço. Davi.