Filosofia. Por Ubaldo Nicola.
Os Enganos do Verbo Ser. É possível formular em termos lógicos a ideia de
Verdade? A revelação recebida por Parmênides consiste na doutrina do Ser,
sintetizada na célebre formula o Ser É, o Não Ser Não É. Toda a argumentação
baseia-se na redução da ontologia (o estudo do Ser) à linguística e, assim, a
procura da realidade última do mundo coincide com a análise linguística do
Verbo Ser. E enquanto aquilo que é pode ser dito, portanto, pensado, aquilo que
não é afasta-se, por definição, de qualquer formulação linguística e
intelectual. É impossível pensar o nada. No cotidiano, usamos o Verbo Ser de
modo impróprio e acabamos por atribuir realidade a condições de ausência, a
coisas que não existem; a escuridão e o silêncio, por exemplo, são condições de
não ser da luz e do som, portanto, pela lógica, não existem. Somente o Ser pode
ser pensado. Pois bem, eu te direi e tu acolhes a minha palavra: quais são os
únicos caminhos de busca que se podem pensar; um diz que é e que não é possível
que não seja, é a vereda da Persuasão (porque acompanha a Verdade). O Não Ser é
uma noção contraditória em si mesma. O outro diz que não é e que é preciso que
não seja, eu te digo que esta é uma vereda em que nada se pode aprender. De
fato, não poderias conhecer o que não é, porque tal não é factível, nem poderia
expressá-lo. Homens com duas cabeças. o Devir é pensável? Todas as vezes em que
afirmamos uma negação, ou seja, a existência de uma condição de Não Ser,
incorremos em um erro lógico. Por isso o Devir, que Heráclito colocava como
fundamento de toda realidade, não existe. Como passagem de uma condição de ser
a uma de Não Ser, toda mutação, qualquer que seja a sua espécie, é sempre pura
aparência; a verdadeira estrutura do mundo consiste em um ser imutável e
eterno. Os homens que usam tanto o verbo Ser quanto o Não Ser acabam por
raciocinar com duas cabeças. É necessário dizer e pensar que o Ser É; de fato,
o Ser É; o Nada Não É; te exorto a que consideres isso. E, portanto, desse
caminho de busca te conservo distante, mas depois, também daquele sobre o qual
os mortais que nada sabem seguem vagando, homens de duas cabeças; de fato, é a
incerteza que ao seu peito conduz uma desatinada mente. Afirmar a existência do
Não Ser leva a paradoxos insolúveis. Estes são arrastados, surdos e cegos ao
mesmo tempo, estupefatos, raça de homens sem juízo, para os quais Ser e Não Ser
são considerados a mesma coisa e a não mesma coisa; e, portanto, para todas as
coisas, há um caminho que é reversível. O Olho que Não Vê. Real é o que é
constatável pelos sentidos ou o que é demonstrável pela razão? Os cinco
sentidos parecem testemunhar a todo momento a existência de muitas formas do
Devir; o movimento dos corpos, por exemplo, parece uma passagem de uma condição
de estar (em um lugar) a uma de não estar mais. Cada transformação natural
parece poder ser descrita como a passagem de um estado a outro; como, por
exemplo, negar que a morte é um Devir? Tudo isso, segundo Parmênides, não
demonstra absolutamente que os sentidos enganam. É verdade que a vida cotidiana
requer o uso dos órgãos dos sentidos, mas por meios deles não se chega à
verdade. A razão, não o olho, vê o real. Não julgues a doutrina do ser com base
em sensação, mas, sim com base na lógica racional. Mas afastes desse caminho de
busca o teu pensamento, nem o hábito, nascido de muitas experiências, a esse
caminho te obrigues a mover o olho que vê, o ouvido que ribomba e a língua, mas
julgues com a razão a prova muito debatida que por mim te foi fornecida. E
permaneças falando somente sobre o caminho que diz o que é. O Ser é uma esfera
bem redonda. Os atributos do Ser não podem ser encontrados por via experimental
ou sensorial, mas deduzidos com coerência lógica do próprio conceito de Ser.
Isso significa que é impossível que existam todos os modos em que se explica o
não ser; o nascimento (como passagem de um estado de não existência ao de
existência), a morte (pelo motivo inverso), o movimento como passagem do estar
em um lugar a não mais estar, e todas as formas de Devir. O que é será,
portanto, por definição, eterno, imperecível, homogêneo. São teses contrárias
ao senso comum, que sugerem a evidência do Devir, mas conduzidas com rigor
lógico formalmente incontestável. O Ser é Eterno. Não era uma vez, nem será,
porque é agora, ao mesmo tempo, uno, contínuo. Que origem poderás dele
encontrar? Como e de onde teria nascido? Do não ser não te concedo dizê-lo ou
pensá-lo, porque não é possível dizer nem pensar o que não é. O Ser não pode
ser gerado de um Não Ser. Que necessidade te constrangeria a nascer, depois ou
antes, se derivasses do nada? Por isso é necessário que sejas por inteiro, ou
que não sejas por nada. Não existe uma terceira possibilidade o Ser é ou Não é.
E tampouco do ser se originará a força de uma certeza que nasça de algo que
esteja ao lado de uma outra coisa. Por essa razão nem o nascer nem o perecer
concedem a ele a justiça, livrando-o das cadeias, mas prendendo-o fortemente. A
decisão quanto a tais coisas reside nisto; é ou não é. Decidiu-se,
portanto, como é necessário, que um caminho deve ser abandonado, por ser
impensável e inexprimível, porque não é o caminho da verdade e que, no entanto,
o outro é, e é verdadeiro. o Ser não pode estar submetido ao Devir. E como o
ser poderia existir no futuro? E como poderia ter nascido? De fato, se nasceu,
não é, e tampouco é, se deverá ser no futuro. Assim, o nascimento se apaga e a
morte permanece ignorada. O Ser é indivisível, não pode ser decomposto em
partes. E tampouco é divisível, porque é inteiramente igual, nem existe em
algum lugar um de mais que possa lhe impedir de ser unido, nem um de menos, mas
todo inteiro está pleno de ser. Portanto, é continuamente todo inteiro; o Ser,
de fato, se estreita com o Ser. O Ser é sempre idêntico a si mesmo. Mas imóvel,
dentro dos limites de potentes liames, é sem um princípio e sem um fim, pois
nascimento e morte foram expulsos para longe e os repeliu uma verdadeira
certeza. E permanecendo idêntico e no idêntico, em si mesmo jaz, e deste modo
lá se mantém, firme. Ao Se nada pode faltar, deve, portanto, ser perfeito. De
fato, necessidade inflexível o mantém nos liames do limite, que o estreita todo
em volta, pois está estabelecido que o Ser não seja sem complemento; de fato,
não carece de nada; se, no entanto, o fosse, careceria de tudo. Todas as palavras
que indicam uma condição de não ser são falsas. De fato nada é ou será outra
coisa além do ser, pois a sorte o obrigou a ser uno, inteiro e imóvel. Por
isso, serão nomes todas aquelas coisas que os mortais definiram, convencidos de
que fossem verdadeiras: nascer e perecer, ser e não ser, trocar de lugar e
mudar a luminosa cor. A esfera é idêntica em cada uma das suas partes, possui
perfeição, homogeneidade, unidade. É a melhor imagem do Ser. Além disso, posto
que tem um limite extremo, está completo em cada parte, semelhante à massa de
bem redonda esfera, a partir do centro, igual em cada parte; de fato, não deve
ser maior nem menor, de um lado ou do outro. Nem, de fato, existe um não ser
que lhe possa impedir de alcançar o igual, nem é possível que o ser seja do ser
mais de uma parte e menos da outra, pois é um todo inviolável. De fato, igual
em cada parte, de modo igual se mantém entre os seus limites. O Paradoxo de
Zenão (490 AC 430). É possível demonstrar com argumentações racionais a verdade
da doutrina de Parmênides, segundo a qual somente o Ser existe? É possível
demonstrar a existência do Não Ser? Para realizar um movimento é preciso
completar a metade dele, depois a metade da metade e ir subdividindo,
sucessivamente, sem jamais concluir. 1. A argumentação da dicotomia. A primeira
das argumentações sustenta a inexistência do movimento, pelo motivo de que o
movido deve chegar primeiro a metade, e não ao final. Motivo pelo qual a
argumentação que não se pode percorrer elementos espaciais infinitos ou tocar,
na translação, um a um, infinitos elementos espaciais, em um tempo determinado.
Aquiles jamais alcançará a tartaruga, porque antes fará a metade do percurso,
depois a metade da metade, depois a metade da metade, ao infinito. 2. O
paradoxo do veloz Aquiles. Esta argumentação sustenta que o mais lento não será
jamais alcançado, na sua corrida, pelo mais veloz. De fato, é preciso que
aquele que segue ao encalço chegue primeiro ao lugar de onde partiu aquele que
foge, de modo que necessariamente o mais lento terá sempre uma certa vantagem.
Se fotografamos a flecha em cada instante do seu movimento, obteremos uma série
de instantâneos em que a flecha aparece parada. Mas um movimento não pode
nascer da soma de tantos momentos de repouso. 3. O movimento não é real. O
raciocínio de Zenão, assumindo que tudo aquilo que ocupa um espaço igual a si
mesmo ou se move ou está parado, e que nada se move em um instante e que o
movido sempre ocupa um espaço igual a si mesmo em todos os instantes, parece
que se processa da seguinte forma: a flecha que se move, e que em cada instante
ocupa um espaço igual a si mesma, não se move, posto que nada se move em um
instante; mas o que não se move está parado, posto que tudo ou se move ou está
parado; então, a flecha que se move, enquanto se move, está parada durante todo
o tempo da translação. Se as coisas são multíplices, então deveriam ser tanto
finitas (uma quantidade determinada) quanto infinitas, porque separadas umas
das outras por outras coisas (as quais precisariam de outras coisas, para
resultarem separadas). 4. Esta argumentação nega a multiplicidade, sustentando
que se os entes são muitos é necessário que sejam tantos quantos são e não a
mais nem a menos. E se são tantos quantos são, serão limitados, finitos. Mas se
os entes são muitos, são também infinitos; de fato, entre os entes sempre
existem outros, e entre esses, novamente outros. E, desse modo, os entes são
infinitos. Livro Antologia Ilustrada de Filosofia. Das Origens à Idade Moderna. Abraço. Davi.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Existe A Verdade. Parte I.
Filosofia. Texto escrito por Ubaldo Nicola. Parmênides
(530 AC 460) e Zenão (490 AC 430). Se existe uma coisa com a qual todos os
filósofos do passado e do presente poderiam concordar é a grandeza perturbadora
do pensamento de Parmênides. Pelo rigor das suas argumentações e pela
profundidade das suas análises, Platão o definiu como venerando e terrível,
dedicando a ele um diálogo específico, O Parmênides, e o reconheceu como pai
espiritual; a ponto de achar que ao divergir de algumas das reflexões do mestre
cometia uma espécie de parricídio (pessoa que mata o pai, mãe ou qualquer outro
ascendente legítimo). Esse prestígio é justo, pois Parmênides foi o primeiro a
sustentar a superioridade da interpretação racional do mundo e a negar a
veracidade da percepção sensível. Ver, ouvir, escutar não produzem certezas,
somente crenças e opiniões. Erra quem (como Heráclito) deixa-se enganar pelos
sentidos e considera a realidade em Devir, pois a transformação, uma passagem
do Ser a um Não Ser, não é em si pensável. O Não Ser não é jamais pensável, não
mais do que ver a escuridão (o Não Ser da luz) ou escutar o silêncio (o Não Ser
do som). Sabe-se muito pouco sobre a vida de Parmênides, até mesmo as datas
prováveis de seu nascimento e morte são incertas. Membro de uma família
aristocrática, ele nasceu e viveu em Eleia (hoje chamada Velia), próxima ao
Cabo Palinuro, fundando ali a Escola denominada Eleata. Foi também o autor das
leis aplicadas em sua cidade. Tudo indica que nos últimos anos de sua vida foi
com o discípulo Zenão para Atenas, onde encontrou Sócrates (469 AC 399). Certamente,
as suas doutrinas tiveram um forte impacto no ambiente ateniense, Plutarco
(45-120) conta que Péricles assistia às suas aulas com interesse. Da sua obra,
restam somente 154 versos do poema filosófico Sobre a Natureza, do qual
propomos aqui as leituras, estruturado em hexâmetros e divididos em duas
partes: Verdade e Opinião. Zenão, o discípulo mais próximo e predileto do seu
mestre. Fez da defesa da doutrina do Ser o escopo do seu filosofar, acentuando
o caráter provocador das argumentações parmenidianas até as últimas e
perturbadoras consequências; se o movimento é uma passagem de um corpo da
situação de estar em um lugar para a de não estar mais naquele lugar, então o
movimento não existe; assim como não existe o tempo, a velocidade, o espaço. A
Viagem em Direção a Verdade. Pode-se distinguir o verdadeiro conhecimento da
opinião? Em que condições se pode alcançar a verdade? A alta densidade
simbólica dificulta a interpretação do poema de Parmênides, principalmente na
primeira parte, dedicada a ilustrar, por meio da metáfora da viagem, o processo
que conduz ao conhecimento. O percurso em direção a verdade inicia-se nas Casa
da Noite, o bairro popular da cidade de Eleia, símbolo da escuridão em que vive
o homem que se deixa levar pelos sentidos. A viagem termina diante das portas
do tempo, no interior do qual, depois de ali ser admitido com dificuldade.
Parmênides recebe a doutrina do Ser, ideia central da sua filosofia,
diretamente da boca da deusa Necessidade. O sentido da metáfora é que a
verdade não é alcançável sem esforço e, principalmente, não é alcançável por
todos. A meta de Parmênides. As éguas que me levam até onde os meu desejo quer
chegar me acompanharam, após me conduzirem e me colocarem no caminho que diz
muitas coisas, que pertence a divindade e que conduz o homem que não sabe a
todos os lugares. Para lá fui levado. As jovens indicam aquilo que impulsiona a
verdade. De fato para lá me levaram as sagazes éguas, tirando meu carro, e as
jovens a indicar o caminho. O eixo do meão soltava um silvo agudo,
incandescendo-se, porque premido entre dois rotantes, círculos de um lado e de
outro, enquanto apressavam o passo, ao me acompanhar, as jovens Filhas do Sol,
após deixar as Casas da Noite, em direção à luz, retirando com as mãos os véus
da cabeça. A porta simboliza a passagem do erro (a escuridão) para a verdade da
luz. Lá está a porta das veredas da Noite e do Dia, tendo nos dois extremos uma
arqui trave e umbral de pedra; e a porta, erguida no Éter, é fechada por
grandes batentes, dos quais a Justiça, que muito pune, tem as chaves qua abrem
e fecham. A Verdade que Parmênides comunica é fruto de uma revelação divina (a
passagem através da porta sagrada. As jovens, então, dirigem-lhe suaves
palavras, e sutilmente a persuadem a que os ferrolhos sem tardar removesse da
porta. E logo esta, ao se abrir, dos batentes fez uma vasta abertura, fazendo
girar nos gonzos, em sentido inverso, os brônzeos umbrais ajustados com pregos
e com ombreiras. Logo, por lá, através da porta, direto para a estrada mestra,
as jovens levaram carro e éguas. A deusa justiça personifica as noções de
racionalidade, necessidade e destino. E a deusa benévola me acolheu, e com a
sua mão a minha mão direita tomou, e assim começou a falar, dizendo-me: O
jovem, companheiro de imortais boleeira, tu, que chegas conduzido pelas éguas à
nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto (infelicidade, desafortunado) o
destino que te fez percorrer este caminho (de fato ele está fora da via seguida
pelos homens), mas a lei divina e a justiça. A Verdade é, metaforicamente, uma
esfera: homogênea, compacta, única e sempre igual a si mesma. É preciso que tu
tudo aprendas; o sólido coração da bem redonda Verdade e as opiniões dos
mortais, nas quais não há verdadeira certeza. E, no entanto, também isso aprenderás;
coma as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os
sentidos. Ser é o termo fundamental do pensamento filosófico ocidental. A sua
ambiguidade nasce do fato de poder ser usado em dois modos distintos: como
cópula, ou seja, com forma verbal ligada a um sujeito (Sócrates é ... ), ou,
então, em absoluto, tornando-se ele mesmo sujeito; o Ser (que por sua vez
é ou não é). A possibilidade de usar uma palavra como atributo ou em absoluto
não é exclusividade do verbo ser; outras noções podem sofrer o mesmo tratamento
linguístico. Por exemplo, o termo Belo pode ser entendido como adjetivo ou como
substantivo (o Belo, em absoluto). Ontologia ou Metafísica. Ambas definem o
estudo do Ser em geral. O mundo é feito de coisas multíplices, mas todas,
enquanto são, participam da categoria do existir, ou seja, do Ser. A
Metafísica, prescindindo dos aspectos acidentais presentes em todas as coisas,
estuda o Ser enquanto Ser. As posições podem ser diferentes, porque, como
Parmênides, pode-se colocar a hipótese da Unicidade do Ser (Monismo), a sua
Duplicidade (Dualismo de ideia realidade para Platão, mente corpo para
Descartes) ou, ainda, o Pluralismo Metafísico proposto por Aristóteles. Verdade
e Opinião. A contraposição posta por Parmênides entre Verdade (Aletheia) e
opinião (Doxa) tornaria-se um tema clássico do pensamento ocidental. Opinião é
a crença que se baseia em dados sensíveis e perceptíveis, mesmo quando estes
parecem certos e evidentes; Verdade é a convicção baseada em argumentações
racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total oposição às
evidências sensíveis. Livro Antologia Ilustrada de Filosofia. Das origens à
Idade Moderna. Beijo. Davi.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Santa Sarah. A Filha de Jesus Cristo.
Gnosticismo.
Contam as antigas lendas francesas relacionadas a descendência de Jesus Cristo
e Maria Madalena que durante a perseguição aos cristãos primitivos ocorridas
nos anos seguintes à crucificação,
alguns dos discípulos do Grande Kabir (1440-1518) poeta místico da Índia
medieval, e pessoas próximas ao Divino Casal fugiram da Judeia num barco e
chegaram à costa sul da Gália, atual França. Na embarcação usada para a fuga
pelo mar Mediterrâneo estavam os irmãos Lázaro, Maria Madalena e Marta,
juntamente com a mãe dos apóstolos João e Tiago, chamada Maria Salomé.
Acompanhados ainda por Maria de Cleofas, a tia de Jesus e Maximim d’ Aix, um
dos setenta e dois discípulos de Jesus Cristo e famoso evangelizador da região
de Aix en Provence, comuna francesa. Além de todos eles, participava desta
jornada uma jovem de pele morena, supostamente vinda do Alto Egito para servir
à tia de Jesus com serva. Seu nome era Sarah, quem atualmente vem sendo
identificada na literatura sobre a descendência familiar de Jesus Crsto como
sendo sua filha com Maria Madalena. Esta tradição ressurgiu com força na década
de 1980, graças a obra O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, dos escritores
Michael Baigent (1948-2013), Richard Leigh (1943-2007) e Henry Lincoln (1930- ) sendo o autor da obra O Santo Graal e a
Linhagem Sagrada. Nos últimos anos, as teorias sobre os frutos da união
matrimonial celebrada entre Jesus e sua principal discípula vêm ganhando cada
vez mais forças no imaginário popular graças a publicação de novos romances históricos
baseados nas ideias que acabaram sendo popularizadas pelo escritor Dan Brown.
Alguns autores mais recentes que aproveitam o sucesso do best-seller O Código
Da Vinci e a ideia que identifica o Santo Graal com o sangue real dos herdeiros
do Salvador e sua esposa redimida sugerem que Santa Sarah, a menina egípcia que
acompanhou os familiares e discípulos de Jesus Cristo na embarcação ruma às
terras francesas, era na verdade a filha do divino casal da Galileia. Este é o
caso do Livro A Mulher com o Vaso de Alabastro: Maria Madalena e o Santo Graal,
escrito por Margaret Starbird (1942- ) e
publicado em 1993. Essa obra contem a ideia de que Santa Sarah é a filha de
Jesus e Madalena, e que este fato seria a autêntica fonte da lenda associada
com a mística de Saintes Maries de la Mer. Como já mencionamos acima, a
tradição local afirma que a cidade de Saint Marie de la Mer (comuna francesa na
região da Provença Alpes, foi o porto onde os familiares e discípulos de Jesus
desembarcaram de sua fuga pelo Mediterrâneo. No barco estavam as chamadas Três
Marias: Maria Madalena, Maria Salomé e Maria de Cleofas, as três mulheres que
primeiro que primeiro testemunharam a tumba vazia de Jesus, e cujas relíquias
são o foco de devoção de peregrinos. Assim que Jesus foi crucificado as Três
Marias e sua comitiva teriam partido da cidade egípcia de Alexandria
acompanhadas de seu tio, José de Arimatéia. As lendas francesas sustentam que a
embarcação chegou ao território que hoje corresponde ao sul da França, onde
havia uma fortaleza que hoje corresponde ao sul da França, onde havia uma
fortaleza chamada Oppidum Ra. O local passou logo a ser conhecido como Notre
Dame de Ratis, pois Ra se tornou Ratis, que em latim significa algo como
navegar. Mais tarde torna-se Notre Damede la Mer, e no século XIX, Saintes
Maries de la Mer. Margaret Starbird afirma que o nome Sarah significa
“princesa” em hebraico, um forte indicativo de que ela seria a descendente
esquecida do “Sang Réal”, o sangue real do Rei dos Judeus. O esquecimento de
Sarah teria sido consequência da supressão que o Catolicismo Romano realizou
sobre a veneração e a devoção ao Sagrado Feminino, resultando num desequilíbrio
espiritual da doutrina cristã. Para a autora, o Cristianismo Primitivo incluía
a celebração do chamado Hierosgamo, que significa casamento sagrado, a união
sexual divina e divinizante, o mesmo Sacramento da Câmara Nupcial dos antigos
gnósticos, e o Grande Arcano dos gnósticos contemporâneos, tal como foi
ensinado por Samael Aun Weor (1917-1977) em sua extensa obra. Esta celebração
oferecia um modelo arquetípico do noivo, Jesus Cristo, e da noiva, Maria
Madalena, ensinando a metafísica da
união do Espírito Puro, Real Ser Interior, com a Alma Arrependida, que vai
sendo liberta dos Eus Psicológicos, e a ciência
da união sexual entre homem e mulher. Este último corresponde à mescla
inteligente do erótico com o sagrado, um ato religioso capaz de converter seus
adeptos em deuses, ou seja, de leva-los à união com a Divindade para conhecer
seus mistérios. Este modelo de unidade conciliadora da dualidade acabou sendo
perdido logo nos primeiros séculos do Cristianismo. Uma verdadeira tragédia
espiritual que acabou excluindo as lideranças femininas, o que era muito comum
no tempo dos primeiros discípulos de Jesus. Margaret Starbird insiste que tal
parceria sagrada é universal e apenas reflete aquela existente em outras
regiões do planeta, em contextos religiosos muito anteriores ao daquele em que
se formou a religião do Cristo. Nos dias atuais, para o bem da retomada do equilíbrio
de gêneros na religiosidade cristã e a revisão da importância da sexualidade
para uma espiritualidade conciliadora do humano como o divino. Santa Sarah
converteu-se num instrumento de oposição aos velhos padrões autoritários e de
rigidez hierárquica, onde o masculino impera
à força e as cegas sobre o feminino. Isso por puro medo de perder seu
poder e de ser tragado pela sensualidade que secretamente deseja. E para o
esoterismo gnóstico, Santa Sarah representa o fruto maravilhoso deste casamento
divino que acontece no interior de cada discípulo que celebra o
Hierosgamos, que recebe o Sacramento da
Câmara Nupcial que opera com o grande Arcano ensinado pelo gnosticismo nos dias
atuais. Este fruto é a alma cristificada, livre de toda amarra psicológica, das
ilusões e dos apegos mundanos, pronta para experimentar a Gnosis e com ela a
verdade. http://www.sgi.org.br. Abraço.
Davi.
sábado, 19 de dezembro de 2015
Reflexãos Sobre A Guerra.
Budismo Nitiren Daishonin. Por Daisaku Ikeda (1928- ). Eu tenho um espelho que sempre mantenho
comigo. Realmente, não é nada mais do que um pedaço de vidro quebrado do
tamanho de um palmo. Um pedaço de espelho quebrado, o tipo de objeto que
provavelmente pode ser encontrado em qualquer lata de lixo. Mas, para mim, pode
ser qualquer coisa, menos lixo. Quando a minha mãe se casou, ela o trouxe como
parte do seu enxoval, uma penteadeira com um belo espelho embutido. Quantas
vezes a sua jovem face de noiva não foi refletida neste espelho. Entretanto,
após vinte anos, o espelho se quebrou e meu irmão mais velho, Kiichi e eu,
separamos os cacos e ficamos com os dois pedaços maiores. Pouco depois, a
guerra teve início. Meus quatro irmãos mais velhos, um por um, foram convocados
para a batalha, alguns foram para a China, outros para o Sudeste Asiático. Eu
senti uma grande repulsa contra os esforços em prol da guerra. Meus quatro
irmãos - que estavam no auge de suas vidas, prontos para trabalharem e
contribuírem para nossa família - foram tirados de nós, em sucessão, por um
simples pedaço de papel – o comunicado de convocação. Eu nunca esquecerei
o desgosto e raiva com que Kiichi, ao deixar a China, descrevia as atrocidades
desumanas que ele presenciou serem cometidas pelo Exército Japonês. O Japão
estava errado, ele dizia, sentindo pena do povo chinês. Assim, eu cultivei um
profundo ódio pela guerra, sua crueldade, estupidez e inutilidade.
Tragicamente, a Guerra do Pacífico presenciou o crescente e selvagem
nacionalismo japonês em toda a Ásia. Os japoneses se tornaram emissários
do inferno, trazendo a dor e o sofrimento irreparável tanto para os nossos
vizinhos asiáticos, como para o próprio povo japonês. Nós nunca devemos
esquecer as terríveis crueldades que foram infringidas sobre o belo país das
Filipinas. Eu ofereço as minhas sinceras desculpas pela incalculável miséria
causada pelos militares japoneses daquela época. Minha mãe, cujos quatro
filhos mais velhos foram tirados dela, tentava não mostrar sua dor, mas ela
pareceu ter envelhecido repentinamente. Então, os ataques aéreos tiveram
início sobre Tóquio e em pouco tempo, se tornou algo diário. Eu mantive meu
pedaço de espelho sempre comigo, guardando-o carinhosamente dentro da minha
camisa, ao me esquivar dos bombardeios que caiam sobre nós. A guerra lançou seu
espectro sobre tudo em nossas vidas. Finalmente, o fim que todos nós já
sabíamos chegou: a derrota. “Em 15 de agosto de 1945 o Japão rende, sendo os
documentos de rendição finalmente assinados a bordo do convés do navio de
guerra americano USS Missouri em 2 de setembro de 1945, o que pôs fim a
guerra”. A guerra – que foi levantada e mantida pela égide do Imperador – agora
terminava com a voz do Imperador nas rádios, clamando o povo japonês a suportar
o insuportável. Aos dezessete anos, meu coração estava dilacerado entre a
esperança e a ansiedade. As pessoas somente sentaram em
completo torpor. Mas, logo, nós percebemos que os céus estavam tranquilos pela
primeira vez, em muitos meses. Um senso de alívio pareceu se espalhar. Ao menos
nesta noite, nós poderíamos acender as luzes. Que brilho! Eu pensei – que
maravilha é a paz. Nós todos estávamos aliviados, mas ninguém chegou e disse:
“Eu estou feliz que perdemos. Graças que a guerra acabou”. O único desejo da
minha mãe, sua única esperança, era o seguro retorno dos seus filhos. Ela
estava particularmente preocupada em relação a Kiichi. Nós não tínhamos
recebido nenhuma notícia dele desde que ele escreveu dizendo ter deixado a
China em direção ao Sudeste Asiático. De tempos em tempos, ela nós dizia que
havia visto Kiichi em seus sonhos, e que ele havia lhe dito que estaria
retornando em breve. Eventualmente, cerca de dois anos após o término da guerra e meus outros
irmãos terem retornado, nós recebemos uma notificação de que Kiichi havia sido
morto na Birmânia (atual Myanmar). Neste momento, eu pensei no pedaço de
espelho, pois sabia que ele carregava no bolso da frente do seu uniforme. Eu
pude imaginá-lo, tirando o espelho do seu bolso e mirando sua face com barba a
fazer, pensando continuamente em sua mãe que permanecia em casa. Quando a minha mãe
recebeu a notícia da morte de Kiichi, ela virou-se de costas para nós, trêmula
pela perda. Esta foi a sua maior perda, a mais profunda tristeza que ela
experimentou em sua vida. Eu senti, nas profundezas da minha vida, a tragédia e
a inutilidade da guerra. A guerra, que produz tamanho sofrimento para uma mãe
inocente de qualquer crime, é absolutamente maligna. A guerra somente
traz o sofrimento e miséria para as pessoas comuns, as famílias e mães. Sempre
são as pessoas desconhecidas e sem nome que sofrem e lamentam em meio a lama e
as chamas. Na guerra, a vida humana é usada como um meio para se alcançar um
determinado fim, vidas que podem ser sacrificadas por motivos estratégicos.
Existe um ditado que diz que é preciso 20 anos de paz para se construir um
homem, mas somente 20 segundos para destruí-lo. Esta é a razão para que sejamos
sempre contra a guerra – não nos engajando, nem permitindo que outros
participem nesta barbárie. Todas as rivalidades e conflitos devem ser
resolvidos, não através do poder, mas pela sabedoria. Nos incertos e
turbulentos tempos após a derrota japonesa, eu deixei minha casa e me mudei
para um alojamento. O quarto era pequeno, mal mobiliado e feio, mas por sorte,
eu tinha o pedaço de espelho quebrado comigo. Todas as manhãs, antes de ir para
o serviço, eu o usava para me barbear e pentear meu cabelo. Em 1952, quando me
casei, minha esposa trouxe consigo uma nova penteadeira, e a partir daquela
data, eu olhava minha face neste novo espelho. Um dia, eu encontrei a minha
esposa com o pedaço do velho espelho em suas mãos e um olhar confuso em seu
rosto. Quando eu percebi que o espelho estava prestes a ser jogado na cesta do
lixo, caso eu não falasse nada, eu lhe disse sobre toda a história relacionada
a ele. De alguma forma, ela achou uma pequena e elegante caixinha e guardou o
pedaço de espelho dentro dela. O espelho continua guardado nesta caixa até os
dias de hoje. Todas as vezes que olho para o pedaço de espelho quebrado, ele me
comunica com os árduos dias da minha juventude que são difíceis de descrever,
com as orações da minha mãe e com o triste destino do meu irmão mais velho. E
eu continuarei a mirá-lo enquanto eu viver. http://www.maisbelashistoriasbudistas.com.br.
Abraço. Davi.
Fonte: Mirror Weekly – Semanário publicado na República das
Filipinas
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