Budismo. www.bodisatva.com.br. O ÚNICO ANTÍDOTO É
A SABEDORIA. Na tarde do dia 15 de setembro de 2011, Sua Santidade o Dalai Lama
ofereceu ensinamentos em São Paulo, Brasil. Sua fala apresenta um panorama
histórico das diferentes tradições filosóficas budistas e nos brinda com o
elixir da mais pura sabedoria, o antídoto último de todos os males. Hoje, 9 de
abril de 2020, resgatamos esta preciosidade do nosso acervo com a aspiração de
que a raiz de todo o sofrimento seja diretamente erradicada. Todas as grandes religiões
do mundo – apesar das várias diferenças filosóficas – veiculam uma mesma
mensagem: de amor, compaixão, perdão, autodisciplina, justiça e honestidade.
Todas falam sobre esses valores e, mais importante, todas oferecem instrumentos
para podermos cultivá-los com o objetivo de criar uma comunidade humana
saudável e feliz. Dentro dessas tradições, encontramos dois grandes grupos: de
um lado, as religiões teístas e, de outro, as não teístas. Na categoria das não
teístas há uma subdivisão: as religiões que acreditam na existência de um eu
independente e aquelas que não acreditam na existência de um eu independente. O budismo se insere na categoria das religiões não
teístas e é uma religião que não postula a existência de um eu independente.
Antes, o budismo fala sobre a lei da causalidade. Essa ausência de crença em um
eu independente é um conceito único do budismo. O budismo vai falar naquilo
que se costuma chamar de “originação interdependente”, que em sânscrito é pratityasamutpada. No budismo, encontramos duas tradições: a páli e a
sânscrita. A tradição páli constitui a base – ela consegue se manter por si só,
é completa; a tradição sânscrita, diferentemente, depende da tradição páli. A
tradição páli é o alicerce sobre o qual se assenta a tradição sânscrita. Mas a
tradição que vem do sânscrito contém as explicações mais sofisticadas e mais
profundas que o budismo tem a oferecer. De acordo com o
conceito budista da interdependência – a lei da causalidade –, todos os
fenômenos estão se transformando a cada segundo, todos ocorrem a partir de suas
próprias causas e condições; então todo resultado depende inteiramente de suas
causas e condições. Essa é a primeira maneira de se entender a
interdependência. Dentro da tradição sânscrita, nós encontramos duas escolas de
pensamento: a escola Cittamatra e
a escola Madhyamika. Os
entendimentos da escola Madhyamika, a meu ver, são os mais profundos. Na escola
Madhyamika se diz que não apenas o resultado depende da causa, mas a causa
também é totalmente dependente do resultado; para que uma causa possa ser causa
ela vai depender do resultado. Em Madhyamika, também existe uma outra distinção
do conceito de interdependência, que é a ligação entre a parte e o todo, entre
o átomo e o todo: a existência de uma pessoa, por exemplo, é totalmente
definida a partir dos agregados físicos dela; não existe uma noção de pessoa
que se assente no conjunto dos agregados. Este é o postulado da falta de
existência intrínseca do eu. Nós encontramos este postulado nas quatro escolas
budistas: Vaibhashika, Sautrantika, Cittamatra e Madhyamika. No budismo, não só as pessoas, mas também os
fenômenos são desprovidos de existência intrínseca. Se nós olharmos os cinco
agregados que formam a base que designa, por exemplo, uma pessoa – se
examinarmos os agregados que a compõem – vamos ver que eles também, por sua
vez, dependem de suas partes. Isso vale não só para os agregados físicos que
existem no mundo grosseiro observado, mas também para as essências a partir das
quais esses cinco agregados físicos provêm. Essas essências também são
desprovidas de existência intrínseca. Isso vale tanto para o nível mais
grosseiro quanto para o nível mais sutil; se nós olharmos coisas mais etéreas,
como o espaço, veremos que elas são desprovidas de existência intrínseca,
também são dependentes de seus componentes. Isso é válido não só para o mundo
externo que é observado, mas se aplica também à própria mente que observa os
fenômenos – ela também não tem existência intrínseca. É dessa maneira que se
descreve a falta de existência intrínseca dos fenômenos. Dentro da tradição sânscrita, encontramos dois
tipos de vacuidade quando falamos dos seres sencientes: existe a vacuidade do
eu e existe a vacuidade da base do eu. As diferentes escolas budistas, como
Cittamatra e Madhyamika, têm conceitos e postulados diferentes sobre a
vacuidade, ou shunyata. Mas para que desenvolvermos todas essas
complicações filosóficas? É que a causa última do sofrimento é a ignorância, e
quando falamos de ignorância, falamos de dois tipos. O primeiro é o que
chamamos de “mera ignorância”: por exemplo, uma criança antes de ir à escola,
onde alguém lhe ensina o alfabeto, não conhece o alfabeto; essa ignorância é
uma falta de conhecimento. O segundo tipo de ignorância é uma percepção ou uma
apreensão errônea da realidade: alguém olhar a letra A e achar que é B, olhar B
e achar que é C. A remoção completa da
ignorância só acontece quando se chega ao estado búdico. No budismo, diz-se que
a apreensão errônea da realidade é a causa última do sofrimento. Sendo assim, qual seria o antídoto que poderia se
contrapor a essa causa? Não é a oração, também não é a mera meditação, tampouco
bodicita – ela não pode ter essa função, nem a compaixão infinita pode
erradicar essa concepção errônea da realidade. A única coisa que pode
desempenhar esse papel é a sabedoria. Através da sabedoria você pode ir se familiarizando
mais e mais com a realidade até, por fim, passar a entendê-la. E quando você,
de fato, entende plenamente a realidade em sua instância última, isso erradica
a ignorância e, por conseguinte, o sofrimento. De modo geral,
nós temos uma apreensão incorreta da realidade: se eu olho para vocês e vocês
olham para mim, vocês podem estar me vendo como um ser absoluto, independente
de vocês; eu sou o Dalai Lama e você é você. Mas essa é uma compreensão
incorreta: não existe nada que seja independente de um modo absoluto; todas as
coisas são interdependentes e, a partir dessa concepção errônea da realidade,
surge a base do apego, a base de todas as emoções negativas. Quanto às emoções
positivas, elas podem ser cultivadas a partir de um treinamento. Se você
pratica o amor e a bondade, isso reduz as emoções negativas, como a inveja ou a
raiva. Em termos últimos, o que vai
erradicar as emoções negativas é a sabedoria, é você se familiarizar com o que,
de fato, é a realidade em sua instância última. Assim você entenderá que as
coisas aparecem aos nossos olhos como absolutas e independentes, mas que isso é
apenas uma miragem. Quando você verdadeiramente compreende isso, essa é a base
a partir da qual as emoções destrutivas podem ser dissipadas. Na tradição sânscrita se diz
que o Buda girou a roda do Darma três vezes: no primeiro giro, ele falou sobre
a base do budismo – as quatro nobres verdades. No segundo, o Buda deu
explicações adicionais sobre a terceira nobre verdade, que é a possibilidade da
cessação, baseada no conceito das duas verdades: a verdade convencional e a
verdade última. No terceiro giro, ele ofereceu ensinamentos mais elaborados
sobre a quarta nobre verdade, que é a possibilidade da eliminação de todas as
emoções destrutivas, e isso é possível porque, no nível mais sutil, a natureza
da mente é clara como a luz. A natureza da água é limpa e
pura, mas muitas vezes quando ela se mistura com o barro ou outra substância,
ela fica turva. Porém, por mais suja que possa estar, a sua natureza essencial
é límpida. Isso vale para a nossa mente: por mais turva que a nossa mente possa
estar pelas emoções destrutivas, no nível da realidade última ela é límpida, e
por isso essa separação se torna possível. As emoções destrutivas nos divorciam
da realidade. A sabedoria pode gerar a compreensão da realidade última, e esse
é o antídoto. Por mais potentes que sejam as emoções destrutivas, por mais
sobrecarregada de negatividades que esteja uma mente, essas negatividades podem
ser limpas absolutamente, pois elas não são a natureza última. Embora tibetano, tenho uma conexão direta com a
tradição da Universidade de Nalanda.
Isso porque, no Tibete, o ensino foi introduzido por um grande mestre chamado
Shantarakshita, um grande erudito que dava ensinamentos nessa instituição. Ele
chegou ao Tibete no século VIII a convite do Imperador. Como era monge, ele
introduziu a tradição monástica no Tibete. Mas ele também era um grande
filósofo, um grande erudito, então introduziu também ensinamentos de
Madhyamika, de lógica, de epistemologia. Shantarakshita deu ensinamentos tão
profundos e completos que até os dias de hoje esses textos são estudados. Também veio ao Tibete um grande mestre tântrico
chamado Padmasambava. Assim, podemos dizer que o budismo tibetano é completo:
ele inclui a tradição dos sutras que vem do páli, toda a versão que vem do
sânscrito e toda a versão tântrica. É importante enfatizar essa raiz do
budismo, proveniente da Universidade de Nalanda. Na tradição tibetana,
encontramos basicamente 300 volumes de textos, sendo que 100 contêm as palavras
do próprio Buda, e os demais são comentários sobre as palavras do Buda. É muito
importante que esses textos sejam estudados – não devem ser tomados apenas como
objetos de veneração para se colocar sobre o altar e aos quais dirigir orações.
Para que possam ser de fato eficazes, precisam ser usados, estudados. Ao longo da implantação do budismo no Tibete, em
diferentes regiões, diferentes ensinamentos foram criados e diferentes nomes
foram dados às escolas que cultivavam esses ensinamentos. Foi assim que
apareceu a seita dos chapéus vermelhos e dos chapéus amarelos – fico com
vontade de criar uma nova seita, a dos chapéus verdes! – mas isso não é importante.
O importante é que todas têm uma raiz comum, essa nobre tradição da
Universidade de Nalanda. Por vezes, em decorrência dessas diferentes seitas,
também se desenvolveu o sectarismo no Tibete – as pessoas se apegavam à sua
própria seita. Mas também no Tibete se
desenvolveu um movimento muito importante de não sectarismo, e um grande mestre
dessa tradição é Jamyang Khyentse Wangpo. Eu cultivo, estudo e prezo as
tradições não sectárias do budismo tibetano. Os Dalai Lamas pertencem à seita dos chapéus
amarelos mas, ao longo da história, muitos Dalai Lamas – inclusive o atual –
receberam ensinamentos das diferentes escolas do budismo tibetano: dos Sakyas,
dos Nyingmas, dos Kagyus. Isso ajuda muito. Não faz muito sentido ficar apegado
apenas à sua tradição, pois isso limita o conhecimento. Por outro lado, se você
se coloca aberto para receber os ensinamentos das diferentes tradições, isso o
fortalece. www.bodisatva.com.br. Abraço.
Davi.
segunda-feira, 20 de julho de 2020
domingo, 19 de julho de 2020
OS ANALECTOS - LIVRO XIV
Confucionismo.
www.https//rt.br. OS ANALECTOS – LIVRO
XIV. 1. Hsien perguntou sobre a vergonha. O Mestre disse: “É vergonhoso fazer
do salário seu único objetivo, indiferente quanto a se o Caminho prevalece no
reino ou não”. “Manter-se longe da tentação de tentar agir em proveito próprio,
de jactar-se de si mesmo, de guardar rancores e de ser ambicioso pode ser considerado
‘benevolente’?” O Mestre disse: “Pode ser considerado ‘difícil’, mas não sei se
se trata de benevolência”. 2. O Mestre disse: “Um cavalheiro que é apegado ao
conforto não merece ser chamado de Cavalheiro”. 3. O Mestre disse: “Quando o
Caminho prevalece no reino, fale e aja destemidamente e com altivez; quando o
Caminho não prevalece, aja destemidamente e com altivez, mas fale com reserva e
de modo suave”. 4. O Mestre disse: “Um homem de virtude com certeza é o autor
de dizeres memoráveis, mas o autor de dizeres memoráveis não é necessariamente
virtuoso. Um homem benevolente com certeza é corajoso, mas um homem corajoso
não necessariamente é benevolente”. 5. Nan-kung K’uo perguntou a Confúcio:
“Tanto Yi, que era bom no tiro com arco, e Ao, que era tão bom marinheiro que
podia fazer um barco navegar sobre a terra seca, tiveram mortes violentas,
enquanto Yü e Chi, que ajudaram a semear as lavouras, dominaram o Império”. O
Mestre nada replicou. Depois que Nan-kung K’uo foi embora, o Mestre comentou:
“Quão cavalheiro é esse homem! Como ele reverencia a virtude!”. 6. O Mestre
disse: “Podemos supor que há casos de cavalheiros que não são benevolentes, mas
não há um homem vulgar que seja, ao mesmo tempo, benevolente”. 7. O Mestre
disse: “É possível amar alguém sem fazer com que essa pessoa trabalhe duro? É
possível dar o melhor de si por alguém sem educá-lo?”. 8. O Mestre disse: “Ao
redigir o texto de um tratado, P’i Ch’en escrevia o rascunho, Shih Shu fazia
comentários, Tzu-yü, o mestre de protocolo, fazia os retoques, e Tzu-ch’an de
Tung Li o embelezava”. 9. Alguém perguntou sobre Tzu-ch’an. O Mestre disse:
“Era um homem generoso”. Amesma pessoa perguntou por Tzu-hsi. O Mestre disse:
“Aquele homem! Aquele homem!”. Então perguntou sobre Kuan Chung. O Mestre disse:
“Era um homem. [145] Tomou trezentas casas do domínio da família Po na cidade
de P’ien, e Po, obrigado a viver apenas de arroz comum, não disse uma só
palavra em reclamação, até o fim dos seus dias”. 10. O Mestre disse: “É mais
difícil não reclamar da injustiça quando pobre do que não se comportar com
arrogância quando rico”. 11. O Mestre disse: “Meng-kung ch’uo seria mais do que
qualificado para o cargo de administrador de grandes e nobres famílias como
Chao ou Wei, mas ele não seria qualificado para o cargo de ministro, nem mesmo
em um pequeno reino como T’eng ou Hsüeh”. 12. Tzu-lu perguntou sobre o homem
completo. O Mestre disse: “Um homem tão sábio quanto Tsang Wu-chung, tão livre
de desejos quanto Meng-kung-ch’uo, tão corajoso quanto Chuang-tzu de Pien e tão
talentoso quanto Jan Ch’iu, que é mais refinado em matéria de ritos e música,
pode ser considerado um homem completo”. Então acrescentou: “Mas para ser um
homem completo hoje em dia não é necessário ter todas essas coisas. Se um
homem, à vista de uma vantagem a ser obtida, lembra-se do que é certo, se, em
face do perigo, está pronto para dar a própria vida e se não esquece seus
princípios mesmo quando passa por longos períodos de dificuldade, então ele
pode ser chamado de completo”. 13. O Mestre perguntou a Kung-ming Chia sobre
Kung-shu Wen-tzu: “É verdade que o seu Mestre nunca falava, nunca ria e nunca
aceitava?”. Kung-ming Chia respondeu: “Seja lá quem for que disse isso,
exagerou. Meu Mestre falava apenas quando era o momento de ele falar. De modo
que as pessoas nunca se cansavam da sua fala. Ria apenas quando se sentia
feliz. De modo que as pessoas nunca se cansavam do seu riso. Aceitava alguma
coisa apenas quando era certo que o fizesse. De modo que as pessoas nunca
achavam que ele aceitava demais”. O Mestre disse: “Será que essa pode ser a
explicação correta para o modo como ele era?, é o que me pergunto”. 14. O
Mestre disse: “Tsang Wu-chung valia-se do seu domínio sobre o seu feudo para
exigir que esse fosse reconhecido como hereditário. Se alguém dissesse que ele
não estava coagindo o seu senhor, eu não acreditaria”. 15. O Mestre disse: “O
duque Wen de Chin era hábil e lhe faltava integridade. O duque Huan de Ch’i,
por outro lado, tinha integridade e não era hábil”. 16. Tzu-lu disse: “Quando o
duque Huan mandou matar o príncipe Chiu, Shao Hu morreu pelo príncipe, mas Kuan
Chung, não”. Ele acrescentou: “Nesse caso, faltou benevolência a este último?”.
O Mestre disse: “Foi por causa de Kuan Chung que o duque Huan pôde, sem ter de
demonstrar força, reunir nove vezes os senhores dos estados feudais. Essa era a
sua benevolência. Essa era a sua benevolência”. 17. Tzu-kung disse: “Não acho
que Kuan Chung fosse um homem benevolente. Não apenas ele não morreu pelo
príncipe Chiu, mas viveu para ajudar o duque Huan, que havia mandado assassinar
o príncipe”. O Mestre disse: “Kuan Chung ajudou o duque Huan a se tornar o
líder dos senhores feudais e a evitar que o Império entrasse em colapso. Até
hoje, o povo ainda goza dos benefícios dos seus atos. Não fosse por Kuan Chung,
poderíamos muito bem estar usando os cabelos soltos e dobrando nossos trajes à
esquerda. [146] Certamente ele não foi como o homem ou a mulher que, por causa
de suas pequenas fidelidades, cometem suicídio em uma vala sem que ninguém se
aperceba”. 18. O ministro Chuan, que tinha sido um oficial na casa de Kung-shu
Wen-tzu, foi promovido a um alto cargo no governo, servindo lado a lado com
Kung-shu Wentzu. Ao ouvir isso, o Mestre comentou: “Kung-shu Wen-tzu merecia o
epíteto ‘wen’”. [147] 19. Quando o Mestre falou sobre a absoluta falta de
princípios morais de parte do duque Ling de Wei, K’ang Tzu comentou: “Sendo
esse o caso, como é que ele não perdeu seu reino?”. Confúcio disse: “Chung-shu
Yü era o responsável pelos visitantes estrangeiros, o sacerdote T’uo pelo
templo ancestral, e Wang-sun Chia pelas questões militares. Sendo esse o caso,
que possibilidade haveria de o duque perder o reino?”. 20. O Mestre disse:
“Promessas feitas imodestamente são difíceis de cumprir”. 21. Ch’en Ch’eng Tzu matou
o duque Chien. Depois de lavar-se cuidadosamente, Confúcio foi à corte e
reportou-se ao duque Ai, dizendo: “Ch’en Heng matou seu próprio senhor. Posso
pedir que um exército seja enviado para puni-lo?”. O duque respondeu: “Diga
isso aos Três Senhores”. [148] Confúcio disse: “Reportei-o ao senhor
simplesmente porque tenho o dever de fazê-lo, já que ocupo lugar junto aos
ministros, mas mesmo assim o senhor diz: ‘Diga aos Três Senhores’”. Ele foi e
reportou-se aos Três Senhores, e eles recusaram seu pedido. Confúcio disse:
“Reporto isso aos senhores simplesmente porque tenho o dever de fazê-lo, já que
ocupo um lugar junto aos ministros”. [149] 22. Tzu-lu perguntou sobre o modo
correto de servir um senhor. O Mestre disse: “Certifique-se de que não está
sendo desonesto quando ficar frente a frente com ele”. 23. O Mestre disse: “O
progresso do cavalheiro é para cima; o progresso do homem vulgar é para baixo”.
[150] 24. O Mestre disse: “Os homens de antigamente estudavam para aprimorar a
si próprios; os homens de hoje estudam para impressionar os outros”. 25. Ch’ü
Po-yü enviou um mensageiro a Confúcio. Confúcio sentou-se com ele e
perguntou-lhe: “O que faz o seu Mestre?”. Ele respondeu: “Meu mestre tenta
reduzir seus erros, mas não tem obtido êxito”. Quando o mensageiro foi embora,
o Mestre comentou: “Que mensageiro! Que mensageiro!”. 26. O Mestre disse: “Não
se preocupe com questões de governo a menos que sejam da sua alçada”. [151]
Tseng Tzu comentou: “O cavalheiro não permite que seus pensamentos devaneiem
além do seu cargo”. 27. O Mestre disse: “O cavalheiro tem vergonha de que suas
palavras sejam mais ambiciosas que suas ações”. 28. Os cavalheiros têm sempre
três princípios em mente, nenhum dos quais consegui seguir: ‘O homem
benevolente nunca fica aflito [152] ; o homem sábio nunca fica indeciso [153] ;
o homem corajoso nunca tem medo’”. [154] Tzu-kung disse: “Aquilo que o Mestre
acaba de citar é uma descrição de si mesmo”. 29. Tzu-kung era dado a
classificar as pessoas. O Mestre disse: “Quão superior é Ssu! De minha parte,
não tenho tempo para essas coisas”. 30. O Mestre disse: “Não é quando os outros
falham em apreciar as suas habilidades que você deveria ficar incomodado, [155]
mas sim quando essas habilidades de fato faltam”. 31. O Mestre disse: “Não é
superior um homem que, sem antecipar traições ou prever atos de má-fé, é, ainda
assim, o primeiro a perceber quando tais ações ocorrem?” 32. Wei-sheng Mu disse
a Confúcio: “Ch’iu, por que está tão inquieto? Está, talvez, tentando se
exibir?”. Confúcio respondeu: “Não sou tão impertinente a ponto de me exibir.
Só que detesto a inflexibilidade”. 33. O Mestre disse: “Um bom cavalo é
exaltado por suas virtudes, não por sua força”. 34. Alguém disse: “‘Pague uma
injúria com uma boa ação’. [156] O que você acha desse ditado?”. O Mestre
disse: “Com o quê, então, você paga uma boa ação? Deve-se pagar a injúria com a
retidão, mas pagar com uma boa ação apenas uma boa ação”. 35. O Mestre disse:
“Ninguém me entende”. Tzu-kung disse: “Como assim, ninguém o entende?”. O Mestre
disse: “Não estou reclamando do Céu, tampouco culpo os homens. Em meus estudos,
começo de baixo e vou em direção às coisas mais elevadas. Se sou compreendido
de algum modo, é, talvez, pelo Céu.” 36. Kung-po Liao falou mal de Tzu-lu para
Chi-Sun. Tzu-fu Ching-po relatou-o, dizendo: “Meu Mestre mostra sinais
inequívocos de estar sendo influenciado por Kung-po Liao, mas ainda tenho
influência suficiente para expor seu cadáver no mercado público”. O Mestre
disse: “Se o Caminho prevalece, é o Destino; também é o Destino se o Caminho
cai em desgraça. Como pode Kung-po Liao desafiar o Destino?”. 37. O Mestre
disse: “Homens que evitam o mundo vêm em primeiro lugar; aqueles que evitam um
lugar em particular vêm em seguida; aqueles que evitam um olhar hostil, em seguida;
aqueles que evitam palavras hostis vêm por último”. O Mestre disse: “Houve sete
que se levantaram”. [157] 38. Tzu-lu preparava-se para passar a noite no Portão
de Pedra. O porteiro disse: “De onde você vem?”. Tzu-lu disse: “Da família
K’ung”. “Do K’ung que continua perseguindo um objetivo que ele sabe ser
impossível?” 39. Enquanto o Mestre estava tocando os sinos de pedra em Wei, um
homem que passava em frente à porta, carregando um cesto, disse: “O modo com
que ele toca os sinos de pedra está carregado de sentimento”. Mas logo em
seguida, disse: “Que medíocre esta musiquinha. Se ninguém entende este homem,
[158] então ele deveria desistir, isso é tudo. Quando a água é funda, caminhe
devagar; Quando é rasa, erga seu traje e caminhe”. [159] O Mestre disse: “Ele é
muito decidido, de fato. Contra tal determinação, não pode haver qualquer
argumento”. 40. Tzu-chang disse: “O Livro da História diz: Kao Tsung
confinou-se no seu casebre, enlutado, e por três anos permaneceu em silêncio.
[160] O que isso significa?”. O Mestre disse: “Não há necessidade de recorrer a
Kao Tsung para exemplo. Isso sempre foi assim entre os homens de antigamente.
Quando o governante morria, todos os oficiais juntavam-se e apresentavam-se ao
primeiro-ministro e, por três anos, aceitavam seu comando”. 41. O Mestre disse:
“Quando aqueles que governam são observadores dos ritos, o povo será facilmente
comandado”. [161] 42. Tzu-lu perguntou sobre o cavalheiro. O Mestre disse: “Ele
cultiva a si próprio e, portanto, obtém respeito”. “Isso é tudo?” “Ele cultiva
a si próprio e, portanto, traz paz e prosperidade aos seus semelhantes.” “Isso
é tudo?” “Ele cultiva a si próprio e, portanto, traz paz e segurança às pessoas
comuns. Até mesmo Yao e Shun achariam penosa a tarefa de trazer paz e segurança
às pessoas.” 43. Yüan Jang esperava sentado, com as pernas bem abertas. O
Mestre disse: “Não ser nem modesto nem deferente quando jovem, não conquistar
nada válido na idade adulta e recusar-se a morrer quando velho, isto é o que eu
chamo de um parasita”. E assim dizendo, o Mestre cutucou-lhe o queixo com seu
cajado. 44. Depois que um garoto de Ch’üeh anunciou um visitante, alguém
perguntou sobre ele: “Trata-se de alguém que progredirá?”. O Mestre disse: “Já
o vi afirmando que ocupará um cargo e andando lado a lado com seus colegas mais
velhos. Ele não quer progredir. Ele está atrás de resultados rápidos”. www.https//rt.br. Abraços. Davi
sexta-feira, 17 de julho de 2020
BEM AVENTURADOS OS OBREIROS DA PAZ
Catolicismo. www.w2.vatican.va.
Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Celebração do Dia Mundial da Paz. 01
de janeiro de 2013. BEM AVENTURADOS OS OBREIROS DA PAZ. 1. Cada ano novo traz
consigo a expectativa de um mundo melhor. Nesta perspectiva, peço a Deus, Pai
da humanidade, que nos conceda a concórdia e a paz a fim de que possam
tornar-se realidade, para todos, as aspirações duma vida feliz e próspera. À
distância de 50 anos do início do Concílio Vaticano II, que permitiu dar mais
força à missão da Igreja no mundo, anima constatar como os cristãos, Povo de
Deus em comunhão com Ele e caminhando entre os homens, se comprometem na
história compartilhando alegrias e esperanças, tristezas e angústias,[1] anunciando
a salvação de Cristo e promovendo a paz para todos. Na realidade o nosso tempo,
caracterizado pela globalização, com seus aspectos positivos e negativos, e
também por sangrentos conflitos ainda em curso e por ameaças de guerra, requer
um renovado e concorde empenho na busca do bem comum, do desenvolvimento de
todo o homem e do homem todo. Causam apreensão os focos de tensão e conflito
causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio
duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um
capitalismo financeiro desregrado. Além de variadas formas de terrorismo e
criminalidade internacional, põem em perigo a paz aqueles fundamentalismos e
fanatismos que distorcem a verdadeira natureza da religião, chamada a favorecer
a comunhão e a reconciliação entre os homens. No entanto, as inúmeras obras de
paz, de que é rico o mundo, testemunham a vocação natural da humanidade à paz.
Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo
modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem-sucedida. Por outras
palavras, o desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou
seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e
isto faz parte dos desígnios que Deus tem para o homem. Na verdade, o homem é
feito para a paz, que é dom de Deus. Tudo isso me sugeriu buscar inspiração,
para esta Mensagem, às palavras de Jesus Cristo: «Bem-aventurados os obreiros
da paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mateus 5, 9). A
bem-aventurança evangélica. 2. As bem-aventuranças proclamadas por
Jesus (cf. Mateus 5, 3-12; Lucas 6, 20-23)
são promessas. Com efeito, na tradição bíblica, a bem-aventurança é um género
literário que traz sempre consigo uma boa nova, ou seja, um evangelho, que
culmina numa promessa. Assim, as bem-aventuranças não são meras recomendações
morais, cuja observância prevê no tempo devido – um tempo localizado geralmente
na outra vida – uma recompensa, ou seja, uma situação de felicidade futura; mas
consistem sobretudo no cumprimento duma promessa feita a quantos se deixam
guiar pelas exigências da verdade, da justiça e do amor. Frequentemente, aos
olhos do mundo, aqueles que confiam em Deus e nas suas promessas aparecem como
ingénuos ou fora da realidade; ao passo que Jesus lhes declara que já nesta
vida – e não só na outra – se darão conta de serem filhos de Deus e que, desde
o início e para sempre, Deus está totalmente solidário com eles. Compreenderão
que não se encontram sozinhos, porque Deus está do lado daqueles que se
comprometem com a verdade, a justiça e o amor. Jesus, revelação do amor do Pai,
não hesita em oferecer-Se a Si mesmo em sacrifício. Quando se acolhe Jesus
Cristo, Homem-Deus, vive-se a jubilosa experiência de um dom imenso: a participação
na própria vida de Deus, isto é, a vida da graça, penhor duma vida plenamente
feliz. De modo particular, Jesus Cristo dá-nos a paz verdadeira, que nasce do
encontro confiante do homem com Deus. A bem-aventurança de Jesus diz que a paz
é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana. Na verdade, a paz pressupõe
um humanismo aberto à transcendência; é fruto do dom recíproco, de um mútuo
enriquecimento, graças ao dom que provém de Deus e nos permite viver com os
outros e para os outros. A ética da paz é uma ética de comunhão e partilha. Por
isso, é indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e
éticas fundadas sobre motivos teórico práticos meramente subjetivistas e
pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em
critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins, e vice-versa, a
cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na
eficiência. Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do
relativismo e da apologia duma moral totalmente autónoma, que impede o
reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por
Deus na consciência de cada homem. A paz é construção em termos racionais e
morais da convivência, fundando-a sobre um alicerce cuja medida não é criada
pelo homem, mas por Deus. Como lembra o Salmo 29, « o Senhor dá força ao seu
povo; o Senhor abençoará o seu povo com a paz » (v. 11). A paz: dom de
Deus e obra do homem. 3. A paz envolve o ser humano na sua integridade
e supõe o empenhamento da pessoa inteira: é paz com Deus, vivendo conforme à
sua vontade; é paz interior consigo mesmo, e paz exterior com o próximo e com
toda a criação. Como escreveu o Beato João XXIII na Encíclica Pacem in terris – cujo cinquentenário
terá lugar dentro de poucos meses –, a paz implica principalmente a construção
duma convivência humana baseada na verdade, na liberdade, no amor e na justiça.[2] A
negação daquilo que constitui a verdadeira natureza do ser humano, nas suas
dimensões essenciais, na sua capacidade intrínseca de conhecer a verdade e o
bem e, em última análise, o próprio Deus, põe em perigo a construção da paz.
Sem a verdade sobre o homem, inscrita pelo Criador no seu coração, a liberdade
e o amor depreciam-se, a justiça perde a base para o seu exercício. Para nos
tornarmos autênticos obreiros da paz, são fundamentais a atenção à dimensão
transcendente e o diálogo constante com Deus, Pai misericordioso, pelo qual se
implora a redenção que nos foi conquistada pelo seu Filho Unigénito. Assim o
homem pode vencer aquele germe de obscurecimento e negação da paz que é o
pecado em todas as suas formas: egoísmo e violência, avidez e desejo de poder e
domínio, intolerância, ódio e estruturas injustas. A realização da paz depende
sobretudo do reconhecimento de que somos, em Deus, uma única família humana.
Esta, como ensina a Encíclica Pacem in terris, está estruturada mediante
relações interpessoais e instituições sustentadas e animadas por um «nós»
comunitário, que implica uma ordem moral, interna e externa, na qual se
reconheçam sinceramente, com verdade e justiça, os próprios direitos, e os
próprios deveres para com os demais. A paz é uma ordem de tal modo vivificada e
integrada pelo amor, que se sentem como próprias as necessidades e exigências
alheias, que se fazem os outros comparticipantes dos próprios bens e que se
estende sempre mais no mundo a comunhão dos valores espirituais. É uma ordem
realizada na liberdade, isto é, segundo o modo que corresponde à dignidade de
pessoas que, por sua própria natureza racional, assumem a responsabilidade do
próprio agir.[3]
A paz não é um sonho, nem uma utopia; a paz é possível. Os nossos olhos devem
ver em profundidade, sob a superfície das aparências e dos fenómenos, para
vislumbrar uma realidade positiva que existe nos corações, pois cada homem é
criado à imagem de Deus e chamado a crescer contribuindo para a edificação dum
mundo novo. Na realidade, através da encarnação do Filho e da redenção por Ele
operada, o próprio Deus entrou na história e fez surgir uma nova criação e uma
nova aliança entre Deus e o homem (cf. Jeremias 31, 31-34),
oferecendo-nos a possibilidade de ter « um coração novo e um espírito novo »
(cf. Ezequiel 36, 26). Por isso mesmo, a Igreja está
convencida de que urge um novo anúncio de Jesus Cristo, primeiro e principal
fator do desenvolvimento integral dos povos e também da paz. Na realidade,
Jesus é a nossa paz, a nossa justiça, a nossa reconciliação (cf. Efésios 2,
14; 2 Coríntios 5, 18). O obreiro da paz, segundo a
bem-aventurança de Jesus, é aquele que procura o bem do outro, o bem pleno da
alma e do corpo, no tempo presente e na eternidade. A partir deste ensinamento,
pode-se deduzir que cada pessoa e cada comunidade – religiosa, civil, educativa
e cultural – é chamada a trabalhar pela paz. Esta consiste, principalmente, na
realização do bem comum das várias sociedades, primárias e intermédias,
nacionais, internacionais e a mundial. Por isso mesmo, pode-se supor que os
caminhos para a implementação do bem comum sejam também os caminhos que temos
de seguir para se obter a paz. Obreiros da paz são aqueles que amam,
defendem e promovem a vida na sua integridade. 4. Caminho para a
consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o respeito pela vida
humana, considerada na multiplicidade dos seus aspectos, a começar da
concepção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural. Assim, os
verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida
humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. A vida
em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e
crimes contra a vida. Aqueles que não apreciam suficientemente o valor da vida
humana, chegando a defender, por exemplo, a liberalização do aborto, talvez não
se deem conta de que assim estão a propor a prossecução duma paz ilusória. A
fuga das responsabilidades, que deprecia a pessoa humana, e mais ainda o
assassinato de um ser humano indefeso e inocente nunca poderão gerar felicidade
nem a paz. Na verdade, como se pode pensar em realizar a paz, o desenvolvimento
integral dos povos ou a própria salvaguarda do ambiente, sem estar tutelado o
direito à vida dos mais frágeis, a começar pelos nascituros? Qualquer lesão à
vida, de modo especial na sua origem, provoca inevitavelmente danos
irreparáveis ao desenvolvimento, à paz, ao ambiente. Tão pouco é justo
codificar ardilosamente falsos direitos ou opções que, baseados numa visão
redutiva e relativista do ser humano e com o hábil recurso a expressões
ambíguas tendentes a favorecer um suposto direito ao aborto e à eutanásia,
ameaçam o direito fundamental à vida. Também a estrutura natural do matrimónio,
como união entre um homem e uma mulher, deve ser reconhecida e promovida contra
as tentativas de a tornar, juridicamente, equivalente a formas radicalmente
diversas de união que, na realidade, a prejudicam e contribuem para a sua
desestabilização, obscurecendo o seu carácter peculiar e a sua insubstituível
função social. Estes princípios não são verdades de fé, nem uma mera derivação
do direito à liberdade religiosa; mas estão inscritos na própria natureza
humana – sendo reconhecíveis pela razão – e consequentemente comuns a toda a
humanidade. Por conseguinte, a acção da Igreja para os promover não tem
carácter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, independentemente da
sua filiação religiosa. Tal ação é ainda mais necessária quando estes
princípios são negados ou mal entendidos, porque isso constitui uma ofensa
contra a verdade da pessoa humana, uma ferida grave infligida à justiça e à
paz. Por isso, uma importante colaboração para a paz é dada também pelos
ordenamentos jurídicos e a administração da justiça quando reconhecem o direito
ao uso do princípio da objecção de consciência face a leis e medidas
governamentais que atentem contra a dignidade humana, como o aborto e a
eutanásia. Entre os direitos humanos basilares mesmo para a vida pacífica dos
povos, conta-se o direito dos indivíduos e comunidades à liberdade religiosa.
Neste momento histórico, torna-se cada vez mais importante que este direito
seja promovido não só negativamente, como liberdade de – por
exemplo, de obrigações e coações quanto à liberdade de escolher a própria
religião –, mas também positivamente, nas suas várias articulações, como liberdade
para: por exemplo, para testemunhar a própria religião, anunciar e comunicar
a sua doutrina; para realizar atividades educativas, de beneficência e de
assistência que permitem aplicar os preceitos religiosos; para existir e atuar
como organismos sociais, estruturados de acordo com os princípios doutrinais e
as finalidades institucionais que lhe são próprias. Infelizmente vão-se
multiplicando, mesmo em países de antiga tradição cristã, os episódios de
intolerância religiosa, especialmente contra o cristianismo e aqueles que se
limitam a usar os sinais identificadores da própria religião. O obreiro da paz
deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da
tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a
convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da
erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade
civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Ora, há que considerar que
estes direitos e deveres são fundamentais para a plena realização de outros, a
começar pelos direitos civis e políticos. E, entre os direitos e deveres
sociais actualmente mais ameaçados, conta-se o direito ao trabalho. Isto é
devido ao facto, que se verifica cada vez mais, de o trabalho e o justo
reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não serem adequadamente
valorizados, porque o crescimento económico dependeria sobretudo da liberdade
total dos mercados. Assim o trabalho é considerado uma variável dependente dos
mecanismos económicos e financeiros. A propósito disto, volto a afirmar que não
só a dignidade do homem mas também razões económicas, sociais e políticas
exigem que se continue « a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao
trabalho para todos, ou da sua manutenção ».[4] Para
se realizar este ambicioso objetivo, é condição preliminar uma renovada
apreciação do trabalho, fundada em princípios éticos e valores espirituais, que
revigore a sua concepção como bem fundamental para a pessoa, a família, a
sociedade. A um tal bem corresponde um dever e um direito, que exigem novas e
ousadas políticas de trabalho para todos. Construir o bem da paz através
de um novo modelo de desenvolvimento e de economia. 5. De vários lados
se reconhece que, hoje, é necessário um novo modelo de desenvolvimento e também
uma nova visão da economia. Quer um desenvolvimento integral, solidário e
sustentável, quer o bem comum exigem uma justa escala de bens-valores, que é
possível estruturar tendo Deus como referência suprema. Não basta ter à nossa
disposição muitos meios e muitas oportunidades de escolha, mesmo apreciáveis; é
que tanto os inúmeros bens em função do desenvolvimento como as oportunidades
de escolha devem ser empregues de acordo com a perspectiva duma vida boa, duma
conduta reta, que reconheça o primado da dimensão espiritual e o apelo à
realização do bem comum. Caso contrário, perdem a sua justa valência, acabando
por erguer novos ídolos. Para sair da crise financeira e económica atual, que
provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos,
instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer
da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico. O
modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do
lucro e do consumo, numa óptica individualista e egoísta que pretendia avaliar
as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da
competitividade. Olhando de outra perspectiva, porém, o sucesso verdadeiro e
duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes
intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento
económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do
princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do
dom. [5] Concretamente
na atividade económica, o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações
de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes
e os usuários. Ele exerce a atividade económica para o bem comum, vive o seu
compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as
gerações presentes e futuras. Deste modo sente-se a trabalhar não só para si
mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos. No âmbito
económico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de
desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a
universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e
imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro
e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de
modo que não causem dano aos mais pobres. A solicitude dos diversos obreiros da
paz deve ainda concentrar-se – com mais determinação do que tem sido feito até
agora – na consideração da crise alimentar, muito mais grave do que a
financeira. O tema da segurança das provisões alimentares voltou a ser central
na agenda política internacional, por causa de crises relacionadas, para além
do mais, com as bruscas oscilações do preço das matérias-primas agrícolas, com
comportamentos irresponsáveis por parte de certos agentes económicos e com um
controle insuficiente por parte dos Governos e da comunidade internacional.
Para enfrentar semelhante crise, os obreiros da paz são chamados a trabalhar
juntos em espírito de solidariedade, desde o nível local até ao internacional,
com o objetivo de colocar os agricultores, especialmente nas pequenas
realidades rurais, em condições de poderem realizar a sua atividade de modo
digno e sustentável dos pontos de vista social, ambiental e económico. Educação
para uma cultura da paz: o papel da família e das instituições. 6. Desejo veementemente reafirmar que os
diversos obreiros da paz são chamados a cultivar a paixão pelo bem comum da
família e pela justiça social, bem como o empenho por uma válida educação
social. Ninguém pode ignorar ou subestimar o papel decisivo da família, célula
básica da sociedade, dos pontos de vista demográfico, ético, pedagógico,
económico e político. Ela possui uma vocação natural para promover a vida:
acompanha as pessoas no seu crescimento e estimula-as a enriquecerem-se entre
si através do cuidado recíproco. De modo especial, a família cristã guarda em
si o primordial projecto da educação das pessoas segundo a medida do amor divino.
A família é um dos sujeitos sociais indispensáveis para a realização duma
cultura da paz. É preciso tutelar o direito dos pais e o seu papel primário na
educação dos filhos, nomeadamente nos âmbitos moral e religioso. Na família,
nascem e crescem os obreiros da paz, os futuros promotores duma cultura da vida
e do amor. [6]
Nesta tarefa imensa de educar para a paz, estão envolvidas de modo particular
as comunidades dos crentes. A Igreja toma parte nesta grande responsabilidade
através da nova evangelização, que tem como pontos de apoio a conversão à
verdade e ao amor de Cristo e, consequentemente, o renascimento espiritual e
moral das pessoas e das sociedades. O encontro com Jesus Cristo plasma os
obreiros da paz, comprometendo-os na comunhão e na superação da injustiça. Uma
missão especial em prol da paz é desempenhada pelas instituições culturais,
escolásticas e universitárias. Delas se requer uma notável contribuição não só
para a formação de novas gerações de líderes, mas também para a renovação das
instituições públicas, nacionais e internacionais. Podem também contribuir para
uma reflexão científica que radique as atividades económicas e financeiras numa
sólida base antropológica e ética. O mundo atual, particularmente o mundo da
política, necessita do apoio dum novo pensamento, duma nova síntese cultural,
para superar tecnicismos e harmonizar as várias tendências políticas em ordem
ao bem comum. Este, visto como conjunto de relações interpessoais e
instituições positivas ao serviço do crescimento integral dos indivíduos e dos
grupos, está na base de toda a verdadeira educação para a paz. Uma
pedagogia do obreiro da paz. 7. Concluindo, há necessidade de propor e
promover uma pedagogia da paz. Esta requer uma vida interior rica, referências
morais claras e válidas, atitudes e estilos de vida adequados. Com efeito, as
obras de paz concorrem para realizar o bem comum e criam o interesse pela paz,
educando para ela. Pensamentos, palavras e gestos de paz criam uma mentalidade
e uma cultura da paz, uma atmosfera de respeito, honestidade e cordialidade.
Por isso, é necessário ensinar os homens a amarem-se e educarem-se para a paz,
a viverem mais de benevolência que de mera tolerância. Incentivo fundamental
será « dizer não à vingança, reconhecer os próprios erros, aceitar as desculpas
sem as buscar e, finalmente, perdoar »,[7] de
modo que os erros e as ofensas possam ser verdadeiramente reconhecidos a fim de
caminhar juntos para a reconciliação. Isto requer a difusão duma pedagogia do
perdão. Na realidade, o mal vence-se com o bem, e a justiça deve ser procurada
imitando a Deus Pai que ama todos os seus filhos (cf. Mt 5,
21-48). É um trabalho lento, porque supõe uma evolução espiritual, uma educação
para os valores mais altos, uma visão nova da história humana. É preciso
renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a
acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais
insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada
vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço,
compaixão, solidariedade, coragem e perseverança. Jesus encarna o conjunto
destas atitudes na sua vida até ao dom total de Si mesmo, até «perder a vida»
(cf. Mateus 10, 39; Lucas 17, 33; João 12,
25). E promete aos seus discípulos que chegarão, mais cedo ou mais tarde, a
fazer a descoberta extraordinária de que falamos no início: no mundo, está
presente Deus, o Deus de Jesus Cristo, plenamente solidário com os homens.
Neste contexto, apraz-me lembrar a oração com que se pede a Deus para fazer de
nós instrumentos da sua paz, a fim de levar o seu amor onde há ódio, o seu
perdão onde há ofensa, a verdadeira fé onde há dúvida. Por nossa vez pedimos a
Deus, juntamente com o Beato João XXIII, que ilumine os responsáveis dos povos para
que, junto com a solicitude pelo justo bem-estar dos próprios concidadãos,
garantam e defendam o dom precioso da paz; inflame a vontade de todos para
superarem as barreiras que dividem, reforçarem os vínculos da caridade mútua,
compreenderem os outros e perdoarem aos que lhes tiverem feito injúrias, de tal
modo que, em virtude da sua acção, todos os povos da terra se tornem irmãos e
floresça neles e reine para sempre a tão suspirada paz.[8]
Com esta invocação, faço votos de que todos possam ser autênticos obreiros e
construtores da paz, para que a cidade do homem cresça em concórdia fraterna,
na prosperidade e na paz. Vaticano, 8 de dezembro de 2012. www.w2.vatican.va. Abraço. Davi
quarta-feira, 15 de julho de 2020
QUEM SOU EU? O QUE EU VIM FAZER?
Espiritualidade.
Livro Propósito – A Coragem de Ser Quem Somos. PREFÁCIO. “Depois de passar dos
40 anos e vencer um câncer que me colocou à beira do abismo, estou a pergunta:
quem sou eu? E para quê? Qual é o significado dessa minha existência? Senti que
eu estava sendo chamado para olhar de modo mais atento para essas e outras questões,
então pedi para o meu ser mais profundo que me abrisse as portas do
conhecimento. Até então eu já tinha entendido, com os chacoalhões da vida, que
apesar de pouco (ou nada) sabermos sobre os mistérios da existência, o único
jeito de vibrarmos num outro luar é através da experiência do amor. Só o amor é
capaz de transformar tudo, curar, elevar nossa consciência. Então uma voz
interna já me dizia que talvez esse fosse o sentido de tudo, a razão de
estarmos aqui encarnados: aprendermos (ou reaprendermos) a amar. O que eu não
sabia era: por que é tão difícil abrir o coração para amar de verdade,
desinteressadamente? E eu não sabia sequer que tinha essa dificuldade. Então,
numa perfeita sincronia, o meu caminho cruzou com o do Prem Baba, que desde
então tem me ajudado muito a entender o sentido que busco, a caminhar rumo à
consciência do propósito da minha alma, a me abrir para ouvir o comando do meu
coração. Porém, para alcançar esse aprendizado, precisarei continuar passando
pelo processo de purificação, olhar para minha sombra (ou maldade), para minhas
dores, meus condicionamentos, abrir os porões para poder limpá-los,
iluminá-los. E tudo isso requer muita coragem! Este livro é sobre o Propósito e
seu estudo abrange tanta coisa, tem tantas vertentes! Aqui Prem Baba põe luz
sobre o tema com a clareza própria de um líder espiritual, sugere caminhos,
práticas e exercícios que podem facilitar os processos e entendimentos. Sabemos
que estamos alinhados com nosso Propósito quando encontramos um motivo real para
acordarmos e vivermos o dia com alegria! E esse motivo, em última análise, é
vivermos o amor! Prem tem me ensinado bastante sobre isso e talvez faça parte
do meu Propósito dividir meu caminha com vocês Namastê! (saudação hindu que
diz: o Deus que está em mim felicita o Deus que está em você). Reynaldo
Gianecchini (1972- ), ator e modelo brasileiro. Texto de Sri Prem
Baba (1951- ). INTRODUÇÃO. Talvez o maior infortúnio do ser humano tenha
sido, em algum momento da sua jornada, ter acreditado ser o centro da criação.
Nossa inteligência nos proporcionou muitas conquistas. Conseguimos um certo
domínio sobre a matéria e com isso passamos a agir como se a natureza existisse
somente para nos servir. O ego, enquanto símbolo da individualidade, tomou
conta da nossa experiência na Terra. Essa visão limitada nos conduziu ao
esquecimento de quem somos e do que viemos fazer aqui. E hoje sofremos de uma
profunda doença chamada egoísmo, que nos leva a manifestar um grau
insustentável de desrespeito à natureza e aos outros seres humanos, além de uma
profunda ignorância em relação ao significado da vida. No decorrer dos séculos,
temos usado nossa inteligência para reafirmar essa visão autocentrada e para
provar que somos superiores a tudo e a todos. O ego, que é apenas um veículo
para a experiência da alma neste plano, tornou-se o imperador máximo, e o
individualismo tomou proporções brutais. Perdemos a conexão com nossa
identidade espiritual e com a própria razão de estarmos aqui. Deixamos de nos
questionar sobre o sentido da vida, e isso aprofundou o esquecimento da nossa
essência e dos valores intrínsecos a ela. A teoria que considera o Universo
como o produto de um acidente cósmico (o Big Bang) sustenta a visão
materialista de que não existe um propósito para a vida. Se somos produto de um
acidente, estamos aqui por acaso. E se estamos aqui por acaso, não há um
propósito para a nossa existência. Essa ideia, porém, decorre da nossa
incapacidade de explicar, através dos métodos científicos, o que está por trás
do mistério da criação. E isso é o que nos leva a negar o espírito e a
acreditar que não existe nada além do corpo e da matéria. Mas esse materialismo
é o que tem impedido a nossa evolução, não somente espiritual, mas também
material! Porque, dessa maneira, estamos nos tornando cada vez mais cegos e
ignorantes em relação ao nosso próprio poder. A ideia de que somos apenas um
corpo combinada à crença de que somos superiores a tudo é o que sustenta a
indiferença diante da destruição do nosso planeta e o ceticismo em relação à
espiritualidade. Desconsiderando até mesmo as descobertas não tão recentes da
Física, continuamos cultivando uma visão estritamente materialista da vida.
Enquanto indivíduos e sociedade, seguimos negando a existência de um espírito
único que dá vida e interconecta todos os seres vivos e a natureza. Tudo isso,
porém, faz parte dos desafios da experiência humana na Terra, pois nós estamos
aqui justamente para realizar a lembrança de quem somos e do que viemos fazer.
O esquecimento, apesar de ser um instrumento de aprendizado nesse jogo da vida,
quando levado ao extremo, se torna um grande obstáculo para a expansão da
consciência. A maioria não tem a mínima ideia do que veio fazer aqui e nem
chega a se perguntar. Estamos nos aproximando de um ponto crítico, no qual uma
virada se faz necessária. É como se estivéssemos mais perto do final de um
grande projeto e estivéssemos sendo pressionados a cumprir nossa missão. Alguns
dizem que o prazo final já passou e que não tem mais jeito. Outros acreditam
que ainda temos chances de realizar nossa meta. Eu acredito que, para sermos
bem sucedidos, precisaremos passar por grandes transformações. Em primeiro
lugar, precisamos nos abrir para a verdade de que somos seres espirituais
vivendo uma experiência na Terra e que nós todos temos uma missão comum,
porque, sem essa consciência, estamos fadados à extinção. QUEM SOU EU? O QUE EU
VIM FAZER AQUI? É parte de nossa missão chegar à resposta para essas perguntas.
Estamos constantemente sendo levados a questionar e a encontrar soluções para
questões como essas. O tempo todo somos convidados a perceber e compreender o
Mistério. A natureza tem enviado mensagens bem claras de que chegou a hora de
despertar do sonho do esquecimento e de acordar para a realidade. Tornou-se
inaceitável que, com tanta informação disponível sobre a insustentabilidade do
nosso estilo de vida, continuemos agindo sem a mínima consciência ecológica.
Tornou-se inconcebível que ainda sejamos tão céticos e fechados para a
percepção da realidade maior, que transcende a matéria, pois é esse fechamento
que nos impede de ter acesso ao propósito da vida. Eu, como um mestre
espiritual, mas principalmente como um ser humano consciente, tenho a obrigação
de dizer a verdade, por mais dolorosa que ela possa ser: nós, seres humanos,
estamos caminhando para um grande fracasso. Até este ponto da nossa passagem
aqui na Terra, não fomos capazes de encontrar essa tão desejada felicidade. E
isso ocorre pelo fato de estarmos buscando no lugar errado – fora de nós. A
felicidade não está no futuro, nos bens materiais ou na opinião que os outros
têm sobre nós. Ela está aqui e agora, dentro de nós. Precisamos ter coragem e
humildade para abrir mão do orgulho e assumir nossos erros. Precisamos nos
curar do egoísmo. E somente o autoconhecimento pode trazer essa cura. E foi
justamente com o intento de oferecer instrumentos que possibilitam e facilitam
o processo de autoconhecimento, mas principalmente com o intuito de dar
movimento a uma energia capaz de impulsionar uma verdadeira transformação, que
eu decidi escrever este livro. Todos e cada um de nós viemos para este plano
com uma missão, um propósito a ser realizado. E apesar de, na superfície, não
sermos iguais e termos diferentes qualidades, estamos unidos por um propósito
único que, em última instância, é a expansão da consciência. E a consciência se
expande através do amor. Por isso costumo dizer que o nosso trabalho enquanto
seres humanos é despertar o amor, em todos e em todos os lugares. Podemos
comparar o processo de expansão da consciência ao desenvolvimento de uma
árvore. A raiz representa nossas memórias, nossas heranças, nossos ancestrais,
ou seja, nossa história na Terra. Ao mesmo tempo em que nos mantém aterrados, a
raiz não nos deixa cair. Ela é o que dá sustentação ao tronco da árvore, que,
por sua vez, representa nossos valores e virtudes consolidados. Quanto mais
forte o tronco, mais alto podemos chegar. Os galhos representam os
desdobramentos das nossas virtudes em dons e talentos: as folhas representam o
impulso de vida e a nossa eterna capacidade de renovação. E quando conseguimos
nos tornar canais do amor, através dos nossos dons e talentos, brotam flores e
frutos que representam justamente o que viemos realizar, o que viemos oferecer
ou entregar ao mundo. As flores e os frutos representam a manifestação ou a
realização do nosso propósito de vida. Agora eu quero convidar você a embarcar
comigo numa jornada rumo à expansão da consciência. Trata-se de uma aventura
cheia de incertezas e desafios que nos leva da semente ao fruto, da Terra ao
céu, do esquecimento à lembrança, do estado de adormecimento ao estado de
consciência desperta. Uma jornada que revela os infinitos desdobramentos do
amor – esse poder que nos habita, nos move e nos liberta. O amor é a
semente, a seiva e o sabor do fruto. Ele é a beleza e a fragrância da flor. O
início, o meio e o fim. Despertar o amor é o motivo de estarmos aqui. Que a
transmissão contida neste livro possa servir de inspiração e guia para o seu
caminhar. Livro Propósito – A Coragem de Ser Quem Somos. Abraço. Davi.
terça-feira, 14 de julho de 2020
CURVA DA COVID SUGERE IMUNIDADE MAIOR E SEGUNDA ONDA MENOS PROVÁVEL
www.jornaldebrasilia.com.br.
CURVA DA COVID SUGERE IMUNIDADE MAIOR E SEGUNDA ONDA MENOS PROVÁVEL. Nos países
que vinham sendo poupados, os casos estão subindo, elevando a média geral tanto
no Brasil como nos Estados Unidos. Texto de Fernando Canzian – São Paulo – SP.
Em 13/07/2020. Em praticamente todas as regiões do mundo mais duramente
afetadas pelo novo coronavírus e que retomaram as atividades há queda
sustentada no número de mortes e infecções. A tendência é a mesma na Europa e
nos estados brasileiros e norte-americanos mais contaminados. Nos que vinham
sendo poupados, os casos estão subindo, elevando a média geral tanto no Brasil
quanto nos Estados Unidos. Na Europa, onde a epidemia chegou antes, ela está em
declínio, apesar de muitos países terem voltado a funcionar quase normalmente.
Nos EUA, cidades mais afetadas e que tiveram ondas de protestos de rua contra o
racismo após a morte de George Floyd, em 25 de maio, também não tiveram novos
surtos. Já estados como Califórnia e Texas, alheios à irrupção inicial, são os
novos focos. No Brasil, cidades como São Paulo, Manaus, Rio e Recife, já
fortemente afetadas, estão reabrindo até agora sem repiques. Mas a epidemia se
alastra no interior, assim como nas regiões Sul e Centro Oeste, até então
poupadas. Epidemiologistas e novos estudos sugerem que a chamada imunidade
coletiva necessária para conter a expansão da Covid-19 pode ter sido
superestimada ou estar sendo calculada de forma imprecisa. Isso explicaria a
não ocorrência de uma segunda onda de infecções até agora. Mesmo que, nos locais
inicialmente mais afetados e reabertos, menos de 20% da população tenha
desenvolvido anticorpos para o novo coronavírus. Há alguns meses, estimava-se
que até 70% das pessoas deveriam contrair o vírus antes que ele não encontrasse
hospedeiros para se propagar. O motivo pode ter relação com ao menos dois
fatores: 1) Muito mais pessoas pegaram o vírus e desenvolveram anticorpos que
diminuem com o tempo, resultando depois em testes negativos; ou elas se curaram
mesmo sem a criação de anticorpos; 2) O principal vetor de transmissão do vírus
seriam os adultos jovens, que circulam mais pelas cidades, sobretudo em
transportes coletivos. Tome-se o caso de Manaus, considerada por
epidemiologistas como um campo de provas para a livre evolução da epidemia
devido ao baixíssimo isolamento social que resultou no colapso dos sistemas de
saúde e funerário. Segundo a Epicovid19, maior mapeamento do coronavírus do
país conduzindo pela Universidade Federal de Pelotas, o máximo de prevalência
de anticorpos na população da capital do Amazonas foi encontrado entre os dias
4 e 7 de junho: 14,6%. Na rodada seguinte de testes, entre 21 e 24 de junho, a
pesquisa encontrou só 8% dos manauaras com anticorpos. Junho foi o mês em que
os sepultamentos e cremações em Manaus se reaproximaram das taxas pré epidemia;
e julho vem sendo marcado pela desmobilização de parte do aparato para a
Covid-19. Na cidade de São Paulo, com mais isolamento e menos mortes que
Manaus, proporcionalmente, o máximo de prevalência de anticorpos encontrada na
população foi de 3,3%, entre 14 e 21 de maio. Mesmo assim, e apesar da
reabertura gradual, a capital registra queda sustentada de novos casos, a ponto
de oferecer leitos a cidades onde a epidemia agora avança. Segundo
imunologistas, é provável que o Sars-CoV-2 possa estar sendo combatido em duas
frentes: pelos linfócitos (células) B, que produzem anticorpos, na resposta
imune denominada humoral; e pelos linfócitos T, que não fazem isso, mas que
também combatem o vírus eliminando células infectadas –nesse caso, por resposta
citotóxica. Como a ação dos linfócitos T não produz anticorpos, muitas pessoas
teriam defesa contra o vírus sem que a maioria dos testes hoje aplicados (não
celulares) detecte isso. Outro ponto é que os anticorpos produzidos pela ação
dos linfócitos B podem diminuir com o tempo, mas sem que se perca a imunidade.
Isso explicaria a redução da prevalência, com o tempo, de anticorpos detectados
na população nos testes em Manaus e em outras cidades monitoradas pela
Epicovid19 —e sem que haja novos surtos. Para Julio Croda, infectologista da
Fiocruz, a imunização contra o coronavírus pode estar se dando de forma
“cruzada”: pela suscetibilidade individual (com linfócitos B e T) e por outros
fatores genéticos combinados às políticas de distanciamento social e o uso de
máscaras. “Sem o distanciamento e a máscara, o percentual de infectados e
mortos na população teria de ser muito maior para chegarmos à imunidade
comunitária”, afirma. Por discordar do presidente Jair Bolsonaro na questão do
isolamento social, Croda deixou a direção do Departamento de Imunizações e
Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde no final de março. Para Natalia
Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão
de Ciência, o ataque ao vírus pelos dois tipos de linfócitos (B e T) e o fato
de os anticorpos poderem cair abaixo do detectável, sem prejudicar a
imunização, tornam difícil aferir o tamanho da população ainda suscetível ao
vírus. “Ela talvez já não seja tão grande, mas não sabemos. O que não podemos é
tratar isso de forma que dê a impressão de um liberou geral [onde o vírus já
fez muito estrago].” Pasternak afirma que a imunidade total só pode ser obtida
com um número muito elevado de mortes ou com uma vacina –as principais em
elaboração hoje tentam emular os dois caminhos (humoral e citotóxico) para a
destruição do novo coronavírus. Para Daniel Soranz, pesquisador da Escola
Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, o número elevado de mortes em algumas
cidades do Brasil ajudaria a explicar a inexistência de uma segunda onda de
infecções, apesar da reabertura desses locais. “Isso ocorre às custas de muitas
mortes. Pois se fossemos desenhar um cenário ruim, não poderíamos criar nada
pior do que o que vimos em algumas cidades do Brasil, sobretudo nas comunidades
mais pobres, como as daqui do Rio”, afirma Soranz. Agora, sem nenhuma fila e
com cerca de mil pacientes em leitos de UTI no Sistema Único de Saúde, em menos
de 20 dias a capital fluminense poderá zerar as internações — a um ritmo de 50
saídas ao dia, por alta hospitalar ou morte. Esper Kallás, infectologista e
professor da USP, suspeita que tenham sido justamente os moradores das
comunidades menos ricas, sobretudo os adultos jovens, os maiores responsáveis
pela disseminação do coronavírus e da obtenção de uma imunidade comunitária
maior nas cidades mais afetadas até agora. Mesmo que não detectada totalmente
nas pesquisas de prevalência imunológica, como as da Universidade Federal de
Pelotas, essa imunidade maior impediria agora uma segunda onda de infecções.
“Os adultos jovens, que se locomovem muito mais em transporte público, e que
não apresentam sintomas importantes, parecem ter sido os grandes disseminadores
do vírus e os responsáveis, neste segundo momento, pela contenção de sua
propagação.” Kallás afirma que, no caso da gripe comum, a imunidade comunitária
é atingida com 33% a 44% da população infectada. Em se tratando da Covid-19, a
taxa necessária para que isso ainda é incerta, mas ele suspeita que seja menor.
Sergio Cimerman, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia
(SBI), alerta, porém, para os cuidados que devem ser tomados onde as atividades
vem sendo retomadas. “Estamos longe de qualquer sinal de uma segunda onda,
apesar da flexibilização em muitos locais. O que é certo é que o risco aumenta
quando existem aglomerações.” Para a professora e infectologista Raquel
Stucchi, da Unicamp, a dinâmica da pandemia do novo coronavírus tem sido um
aprendizado —e ele ainda não teria terminado. “O Brasil foi o único país que iniciou
a flexibilização na subida da curva. Quem fez isso próximo do platô, parece
ainda estar em situação adequada. Já o interior, que tentou flexibilizar antes,
acabou se dando muito mal”, afirma. Agora, com a epidemia avançando mais no
Sul, no Centro Oeste e no interior, esse conjunto de decisões estaduais e
municipais, combinado ao enorme grau de desorganização do governo federal,
ainda provoca cerca de 40 mil infecções e mais de 1.000 mortes no Brasil todos
os dias. www.jornaldebrasilia.com.br.
Abraço. Davi
Editor do Mosaico. O
Brasil com mais de 1 milhão e 900 mil infectados além de mais de 73 mil mortos.
Estados Unidos com mais de 3 milhões e 300 mil casos além de mais de 135 mil
óbitos são os países mais afetados pelo novo coronavirus. No mundo, eles, ocupam o
segundo e primeiro lugares nessa trágica lista. O planeta já registrou mais de
12 milhões e 900 mil casos com mais de 571 mil mortes. Os dois países detêm
quase a metade de todos os falecimentos até agora. A reportagem traz esperança
de uma luz no fim do túnel. Mesmo que seja um pequenino ponto luminoso quase
imperceptível. A ideia já é conhecida pela ciência a décadas, trata-se da
imunidade de rebanho. Um assunto ainda sem unanimidade entre os estudiosos do
covid-19. Porém, o registro é enfatizado no texto. A tal
imunidade de rebanho só virá quando aproximadamente mais de 90 por cento da
população de determinado país ou região for infectada. Como ainda não temos
vacina e nesse patamar, o número de mortos seria assustadoramente gigantesco. A
expectativa positiva desse estudo deve ser levada em consideração.
Mencionam que o DNA e RNA são elementos preponderantes quanto a transmissão,
não transmissão e morte do vírus ao entrar no organismo humano. Esse é um mecanismo
realizado pelo sistema linfático responsável pela produção dos anticorpos.
Assim, grande parcela dos indivíduos eliminariam o agente nocivo, criando um “cordão de retraimento” diminuindo a ação e o transito do vírus no ambiente. Consequentemente impedindo sua proliferação e
difusão. Essa é uma das ideias referida. Contudo, pesquisas ainda
inconclusivas, e carentes de experimentação sugerem que a imunidade adquirida
por recuperados do covid-19 não durem nem 3 meses. Essa a meu ver representa mais especulação, pois se divulgam resultados carentes de comprovação. O
Brasil, infelizmente, é um dos países que menos testam para a covid-19. Nossa
taxa é inferior a países como Cuba – 2,65. Chile – 6,43. Paraguai – 0,83. Peru
– 4,44. Equador – 1,15. Países como Alemanha – 25,11. Itália – 23,64. Estados
Unidos – 12,08 estão muito a nossa frente. A testagem do Brasil é de 0,63 ou 63
por cada 100 mil habitantes. Isso mostra que nossa real situação da pandemia
está sub notificada. Os casos de infeções e mortes são muitíssimo maiores.
Triste saber ainda que os Presidentes do Brasil e Estados Unidos, os países que mais sofrem com a
pandemia atualmente, são os mais politizadores do tema. Criam elementos alheios ao debate duvidando do que a ciência, sanitaristas
e os infectologistas dizem quanto ao tratamento e cuidado pessoal para
não contrair o vírus. Além de questionar medidas para conter a propagação do contágio entre
a população. Especialistas dizem que o Brasil está bem perto do platô ou curva
descendente da pandemia. Quando os contágios de pessoas, mortes, internações e
UTIs começarem a declinar. Lembrando porém que a estabilização de casos e mortes
ainda está bem alto. Os falecimentos chegam a impressionante marca de mais de 1.000 por dia.
Enquanto não chega essa inclinação para baixo devemos continuar nos prevenindo
e salvaguardando outros. As medidas, já conhecemos, usar máscaras sempre que
sair de casa. Lavar as mãos regularmente. Manter distanciamento entre as
pessoas de no mínimo 1,50 metros em ambientes fechados e abertos. Continuar praticando o isolamento social
“quarentena”. Não esquecendo o esforço dos laboratórios e cientistas na
produção de uma vacina. Alguns apostam que até o final do ano teremos condições
de uma vacinação em massa da população mundial. China e Reino Unido já fazem
testes em humanos com resultados promissores. A advertência espiritual é. Se o governo brasileiro continuar nessa política equivocada quanto ao desmatamento das florestas: amazônica, mata atlântica e cerrado. Fazendo "vista grossa" a grilhagem, contrabando e afrouxando a legislação ambiental. Favorecendo empresários e empreendimentos nessa área as custas da fauna e flora nativas. Tardando em amparar e assistir nossa população indígena. Extremamente carente da assistência dos órgãos públicos. É necessário o crescimento do país, mas ele deve ser feito com preservação da natureza. Do contrário, a disciplina cármica tratará com severidade nosso lamentável e inescrupuloso descaso com a criação divina. Finalizo com um alerta. A Organização Mundial de Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária não recomendam o uso dos seguintes remédios: cloroquina, ivermectina, azitromicina e hidroxicloroquina para tratamento da covid-19. Muito menos como prevenção da doença. Mesmo que médicos prescrevam o medicamento é prudente não tomá-los. Todos produzem efeitos colaterais debilitantes ao organismo, agravando os sintomas. Que o Eterno continue tendo misericórdia de nós e abençoe-nos a todos. Abraço. Davi.
segunda-feira, 13 de julho de 2020
OS ANALECTOS - LIVRO XIII
Confucionismo.
www.https//rb.br. OS ANALECTOS – LIVRO
XIII. 1. Tzu-lu perguntou sobre governo. O Mestre disse: “Dê o exemplo você
mesmo e, assim, estimule o povo a trabalhar duro”. Tzu-lu perguntou mais. O
Mestre disse: “Não permita que seus esforços esmoreçam”. 2. Enquanto era
administrador da família Chi, Chung-kung perguntou sobre governo. O Mestre
disse: “Sirva de exemplo para os seus oficiais seguirem; mostre tolerância para
com pequenos ofensores; e promova homens de talento”. “E como identificar os
homens de talento, para promovê-los?” O Mestre disse: “Promova aqueles que você
reconhece. Acha que os outros vão permitir que aqueles que você não reconhece
sejam esquecidos?”. 3. Tzu-lu disse: “Se o senhor de Wei o encarregasse da
administração (cheng) do estado, o que o senhor faria primeiro?”. O Mestre
disse: “Se algo tem de ser feito primeiro, é, talvez, a retificação (cheng)
[140] dos nomes”. Tzu-lu disse: “É mesmo? Que caminho indireto o Mestre toma!
Para que tratar da retificação?”. O Mestre disse: “Yu, como você é atrapalhado.
Espera-se que um cavalheiro não ofereça nenhuma opinião sobre aquilo que
desconhece. Quando os nomes não são corretos, o que é dito não soará razoável;
quando o que é dito não soa razoável, os negócios não culminarão em sucesso e
ritos e músicas não florescerão; quando ritos e música não florescerem, a
punição não encerrará os crimes; quando a punição não encerrar os crimes, o
povo ficará desanimado. Assim, quando o cavalheiro nomeia algo, o nome com
certeza terá uma função no seu discurso, e, quando ele disser algo, com certeza
será algo passível de ser colocado em prática. Um cavalheiro é tudo menos
casual quando se trata de linguagem”. 4. Fan Ch’ih pediu que Confúcio lhe
ensinasse a criar animais. O Mestre disse: “Não sou tão bom quanto um velho
fazendeiro”. Fan Ch’ih pediu que lhe ensinasse como cultivar vegetais. “Não sou
tão bom quanto um velho jardineiro”. Quando Fan Ch’ih foi embora, o Mestre
disse: “Que tolo é Fan Hsü! Quando os governantes amam os ritos, nenhuma pessoa
comum ousará ser irreverente; quando amam aquilo que é correto, nenhuma pessoa
comum ousará ser insubordinada; quando amam que haja coerência com aquilo que é
dito, nenhuma das pessoas comuns ousará ser insincera. Desse modo, pessoas dos
quatro cantos acorrerão, com os filhos atados às costas. Que necessidade há de
falar sobre a criação de animais?”. 5. O Mestre disse: “Se um homem que conhece
as trezentas Odes de cor falha quando lhe são dadas responsabilidades
administrativas e se mostra incapaz de ter iniciativa própria quando enviado
para estados estrangeiros, então qual a utilidade das Odes para ele, independentemente
de quantas ele tenha aprendido?”. 6. O Mestre disse: “Se um homem é correto,
então haverá obediência sem que ordens sejam dadas; mas se ele não é correto,
não haverá obediência, mesmo que ordens sejam dadas”. 7. O Mestre disse: “Em
seus governos, os reinos de Lu e Wei são como irmãos”. 8. O Mestre disse sobre
o príncipe Ching de Wei que ele mostrava uma atitude louvável em relação à sua
moradia. Quando ele pela primeira vez teve uma casa, disse: “É adequada”.
Quando a ampliou um pouco, disse: “É completa”. Quando ela se tornou suntuosa,
ele disse: “É admirável”. 9. Quando o Mestre foi para Wei, Jan Yu conduziu a
carruagem para ele. O Mestre disse: “Que população florescente!”. Jan Yu disse:
“Quando a população floresce, que outro benefício pode-se acrescentar?”. “Fazer
as pessoas ricas.” “Quando as pessoas tornam-se ricas, que outro benefício
pode-se acrescentar?” “Educá-las.” [141] 10. O Mestre disse: “Se alguém me
empregasse, dentro do período de um ano eu deixaria as coisas em um estado
satisfatório e depois de três anos eu teria provas disso para mostrar”. 11. O
Mestre disse: “Como é verdadeiro o ditado que diz que depois que um reino foi
governado durante cem anos por bons homens é possível vencer a crueldade e
acabar com os homicídios!”. 12. O Mestre disse: “Mesmo com um rei de verdade,
leva-se uma geração inteira para que a benevolência torne-se realidade”. 13. O
Mestre disse: “Se um homem consegue fazer com que ele próprio seja correto, que
dificuldade haverá para ele tomar parte no governo? Se ele não consegue fazer
com que ele próprio seja correto, o que tem ele a ver com fazer os outros serem
corretos?”. 14. Jan Tzu voltou da corte. O Mestre disse: “Por que tão tarde?”.
“Assuntos de Estado.” O Mestre disse: “Só podem ter sido coisas de rotina. Houvesse
algum assunto de Estado, eu teria ficado sabendo sobre ele, mesmo que eu não
tenha mais nenhum cargo”. 15. O duque Ting perguntou: “Existe uma máxima que
garanta a prosperidade de um reino?”. Confúcio respondeu: “Uma máxima não pode
fazer exatamente isso. Há um ditado entre os homens: ‘É difícil ser um
governante, e tampouco é fácil ser súdito’. Se um governante entende a
dificuldade de ser um governante, então não se trata praticamente de uma máxima
levando o reino à prosperidade?”. “Existe uma máxima que possa levar o reino à
ruína?” Confúcio respondeu: “Uma máxima não pode fazer exatamente isso. Há um
ditado entre os homens: ‘Não gosto de ser um governante, exceto pelo fato de
que ninguém vai contra aquilo que eu digo’. Se o que ele diz é bom e ninguém
vai contra ele, ótimo. Mas e se o que ele diz não é bom e ninguém vai contra
ele, então não se trata praticamente de uma máxima levando o reino à ruína?”.
16. O governador de She perguntou sobre governo. O Mestre disse: “Certifique-se
sempre de que aqueles que estão perto estejam satisfeitos e de que aqueles que
estão longe sejam atraídos”. 17. Ao se tornar prefeito de Chü Fu, Tzu-hsia
perguntou sobre governo. O Mestre disse: “Não seja impaciente. Não tenha em
mente apenas ganhos pequenos. Se você for impaciente, não atingirá o seu
objetivo. Se tiver em mente apenas pequenos ganhos, as grandes missões não
serão cumpridas”. 18. O governador de She disse a Confúcio: “Em nossa aldeia há
um homem que é chamado de ‘Retidão’. Quando o pai dele roubou uma ovelha, ele o
denunciou”. Confúcio respondeu: “Em nossa aldeia, aqueles que são corretos são
muito diferentes. Os pais protegem os filhos, e os filhos protegem os pais.
Retidão é algo encontrado nesse comportamento”. 19. Fan Ch’ih perguntou sobre
benevolência. O Mestre disse: “Quando estiver em casa, mantenha-se em uma
atitude respeitosa; quando estiver servindo como oficial, seja reverente;
quando lidar com outros, dê o melhor de si. Essas são qualidades que não podem
ser deixadas de lado, mesmo que você vá viver entre bárbaros”. 20. Tzu-kung
perguntou: “Como deve ser um homem para que possam chamá-lo verdadeiramente de
Cavalheiro?”. O Mestre disse: “Um homem que se mostra honrado na forma com que
se conduz e que, quando enviado para o exterior em missão, não desgraça o nome
de seu senhor pode ser chamado de Cavalheiro”. “E abaixo dele, quem merece
figurar?” “Alguém que dentro do próprio clã é elogiado por ser um bom filho e
que na sua aldeia é elogiado por ser um jovem respeitoso.” “E a seguir?” “Um
homem que insiste em manter sua palavra e em levar suas ações até o fim talvez
esteja qualificado para ser o próximo, mesmo que mostre uma teimosa estreiteza
da mente.” “E quanto aos homens que estão na vida pública, presentemente?” O
Mestre disse: “Oh, eles são de capacidade tão limitada que mal contam”. 21. O
Mestre disse: “Se é impossível encontrar homens moderados para companheiros,
deve-se, se não há alternativa, voltar-se aos indisciplinados e aos cautelosos.
Os primeiros arriscam-se a qualquer coisa, enquanto os últimos demarcam o
limite para alguns tipos de ações”. 22. O Mestre disse: “As pessoas do sul têm
um ditado: Um homem sem consistência [142] não dará nem um xamã nem um médico.
Muito bem dito! ‘Se uma pessoa não demonstra uma virtude consistente, essa pessoa
passará, talvez, vergonha.’” [143] O Mestre continuou, para comentar: “A
importância do ditado é simplesmente a de que, em tal caso, não há razão alguma
para consultar um oráculo”. 23. O Mestre disse: “O cavalheiro concorda com os
outros sem ser um eco. O homem vulgar ecoa sem estar de acordo”. 24. Tzu-kung
perguntou: “‘Todos na aldeia gostam dele.’O que você acha disso?” O Mestre
disse: “Isso não é o suficiente”. “‘Ninguém na aldeia gosta dele.’O que acha
disso?” O Mestre disse: “Isso tampouco é suficiente. ‘Aqueles na aldeia que são
bons gostam dele e aqueles na aldeia que são maus não gostam dele.’Isso ficaria
melhor”. 25. O Mestre disse: “O cavalheiro é fácil de ser servido mas difícil
de agradar. Ele não ficará satisfeito a menos que você tente agradá-lo seguindo
o Caminho, mas quando se trata de empregar os serviços de outras pessoas, ele o
faz dentro dos limites da capacidade delas. O homem vulgar é difícil de ser
servido mas fácil de agradar. Ele ficará satisfeito mesmo que você tente
agradá-lo sem seguir o Caminho, mas quando se trata de empregar os serviços de
outros, ele exige perfeição”. 26. O Mestre disse: “O cavalheiro fica à vontade
sem ser arrogante; o homem vulgar é arrogante sem ficar à vontade”. 27. O
Mestre disse: “Força inquebrantável, resolução, simplicidade e reticência [144]
são próximas da benevolência”. 28. Tzu-lu perguntou: “Como deve ser um homem
para que mereça que o chamem de Cavalheiro?”. O Mestre disse: “Alguém que é,
por um lado, sincero e inteligente e, por outro lado, cordial merece ser
chamado de Cavalheiro – sincero e inteligente entre os seus amigos e cordial
entre irmãos”. 29. O Mestre disse: “Depois que um homem bom educou o povo por
sete anos, aí então o povo estará pronto para pegar em armas”. 30. O Mestre
disse: “Mandar o povo para a guerra sem que ele tenha educação é jogá-lo fora”.
www.http//rb.br.
domingo, 12 de julho de 2020
A ESTRUTURA DO MUNDO II
Religião
Afro-brasileira. O Candomblé da Bahia – Rito Nagô. Tradução de Maria Isaura
Pereira de Queiroz (1918-2018) Capítulo III. A ESTRUTURA DO MUNDO II. As
apetebi e os babalaô de grau superior utilizam de 16 búzio. Finalmente, certos
babalaô têm um jogo de 32 búzios. Todavia, as apetebi não têm o direito de
ultrapassar as 16 "letras", como se diz muitas vezes no meio
africano. Embora existindo búzios nas praias do Brasil, não são empregados na
adivinhação. Esta só pode ser praticada com caramujos vindos da África e que no
mercado são vendidos a alto preço. Cada búzio tem uma das faces quebrada, de
maneira a apresentar um lado aberto e outro fechado. O adivinho sacode os entre
as duas mãos reunidas em concha e lança-os; segundo a maneira pela qual caem,
lê-se a "palavra" formada. O jogo mais utilizado é o de 16 búzios.
Eis, com relação a este, a lista das combinações possíveis e os significados
peculiares à Bahia: 1 aberta 15 fechadas Nome do odu: Okaran: Exú fala. 2
abertas 14 fechadas Nome do odu: Eiioko: os lbeji falam. 3 abertas 13 fechadas
Nome do odu: Etaogunda: Ogun fala. 4 abertas 12 fechadas Nome do odu: Orosun:
Xangô fala. 5 abertas 11 fechadas Nome do odu: Oxé: Yemanjá-Ogun falam. 6
abertas 10 fechadas Nome do odu: Obara: Yansan fala. 7 abertas 9 fechadas Nome
do odu: Odí: Exú fala. 8 abertas Nome do odu: Ejionilé: Oxalá fala. 9 abertas 7
fechadas Nome do odu:osa : Yemanjá fala. 10 abertas 6 fechadas Nome do odu: ofu:
Oxalá fala. 11 abertas 5 fechadas Nome do odu: Owanrin: Exú fala. 12 abertas 4 fechadas Nome do Odu: Efila
Sebora : Xangô fala. 13 bertas 3 fechadas Nome do odu: Efi ologbon: Obetegunda
fala. 14 abertas 2 fechadas Nome do odu: Ika: Oxunmaré fala. 15 abertas 1
fechada Nome do odu: ? Obatala fala. 16 abertas ou 16 fechadas: a jogada é nula, é preciso recomeçar. No
interior dos candomblés há filhas de Oxun; têm o direito de tirar a sorte com
os búzios devido à sua filiação espiritual. Assim, o edilogun não é privativo
dos babalaô. Pode-se vê-lo praticado também no interior dos terreiros por yauô
que pertencem a Oxun. O colar de Ifa, ao contrário, é privilégio dos babalaô
unicamente e estes, para utilizá-lo, têm de se submeter a uma iniciação e
aprendizagem especiais. Este colar ou opelê é composto de quatro metades de
nozes de cola presas a uma cadeiazinha de ferro que se joga sobre a mesa de
modo a cair formando um U cuja abertura fica colocada diante do adivinho
(segundo o método yoruba que neste ponto se distingue do método dahomeano). As
duas extremidades do U são de sexo diferente, e neste sistema yoruba, a
extremidade masculina está à direita do babalaô, a extremidade feminina à sua
esquerda. A diferença de sexo está indicada simbolicamente por um pequeno nó
para o sexo masculino, por uma pequena franja de quatro a cinco pedacinhos de
linha para o sexo feminino. As metades de noz ao cair apresentam os lados
convexos, ou os lados côncavos, obtendo-se então 16 palavras ou odu.
Antigamente existiam na Bahia, e talvez ainda existam hoje, pequenas pranchas
de madeira ou ononifa sobre as quais eram inscritos os Odu, de acordo com o que
mostrava o opelê. Duas linhas para cada metade de noz caída sobre o lado
côncavo, uma linha para a que caía sobre o lado convexo. Como existem dois
lados, masculino e feminino, e quatro metades de nozes de cada lado, temos duas
séries de linhas que se marcam na prancha e que são lidas da direita para a
esquerda. Está claro que esta marcação de linhas não é necessária em todas as
cerimônias, não é obrigatória senão para quem quer fazer seu Fa pessoal ou kpoli.
Quando se trata de uma consulta comum, o babalaô se contenta em ler o odu sem
escrevê-lo, pronunciando em voz alta seu nome e interpretando-o. Não vimos
nunca na Bahia, sem dúvida por não termos feito nosso kpoli, nenhum babalaô
escrever os odu. Mas como é mais cômodo para a leitura desenhá-los do que
descrevê-los minuciosamente, damos a título de indicação o quadro dos 16 sinais
duplos. 1 - Direito: 4 metades de noz caídas sobre o lado convexo Esquerdo: 4
caídas do lado convexo: Ogbe-meji. 2 - Direito: 4 metades caídas do lado
côncavo Esquerdo: 4 caídas do lado côncavo: Oye-Ku-meii,. 3 - Direita e
esquerda: duas metades caídas sobre o lado côncavo entre duas metades caídas sobre
o lado convexo: Iwori-meji. 4 - Dos dois lados, duas metades caídas sobre a
face convexa entre duas metades caídas sobre a face côncava: Ode-meji. 5 - Dos
dois lados, duas metades sobre a face convexa, seguidas de duas metades sobre a
face côncava: Irosun-meji. 6 - O odu seguinte é inteiramente o inverso do
precedente: Dwonrin-meji. 7 - Dos dois lados, meia noz sobre a face convexa e
três sobre a face côncava: Obara-meji. 8 - O inverso do precedente:
Okaran-meji. 9 - Dos dois lados, duas meias-nozes sobre as faces convexas, e
uma sobre a face côncava: Oguda-meji. 10 - O inverso da jogada precedente:
Osa-mefi. 11 - De cada lado, uma meia noz sôbre a face côncava, uma sobre a
face convexa, as duas últimas sobre as faces côncavas: Ika-meji. 12 - O inverso
da figura precedente: Oturuson-mefi. 13 - De cada lado, uma meia noz sobre a
face convexa, uma sobre a face côncava, as duas últimas sobre as faces
convexas: Otura-meji. 14 - O inverso da figura precedente: Irete-meji. 15 - Dos
dois lados, alternativamente, uma meia noz sobre a face convexa, e uma meia noz
sobre a face côncava: Osemeji. 16. - Dos dois lados, alternativamente, meia noz
sobre a face côncava, meia noz sobre a face convexa: Ofu-meji. Estes sinais
estão colocados em certa ordem: os odu são considerados filhos de ifa, nasceram
uns após outros e os mais velhos são tidos, por isso, como mais fortes que os
mais jovens. A esta primeira observação é preciso acrescentar outra, tão
importante quanto ela: é muito raro que as metades de noz dos lados direito e
esquerdo caiam exatamente simétricas. Os 16 odu que apresentamos são os
odu-meji, mas podem se combinar entre si e formar assim até 256 figuras, da
qual cada metade é uma das metades de um dos odu-mefi. Por exemplo, a parte
direita do opelê pode formar uma das metades de Irete, e a parte esquerda, uma
das metades de Irosun. Neste caso, é a metade mais forte do odu-mefi que vence;
no exemplo que acabamos de dar, seria o Irosun, que tem o nº5, enquanto Irete
tem o nº14 e é, por conseguinte, muito mais jovem. Vê-se que o modo de proceder
na Bahia não apresenta teoricamente nada de muito difícil. Mas, isto posto,
cada odu, simétrico ou complexo, tem um significado diferente; está ligado a
certos sacrifícios que o consulente deve fazer, e que variam em importância e
composição de sinal para sinal. E também a todo um conjunto de historiazinhas
que miticamente explicam o significado, fasto, neutro ou nefasto, do odu. Isto
é verdadeiro não apenas para os 16 sinais do opelê, como ainda para os 16
sinais do edilogun que apresentamos atrás. Desse modo, compreende-se que
condição principal para o indivíduo ser babalaô é possuir boa memória. Mas,
para auxiliá-la, conserva-se a lista dos sacrifícios e as historietas
registradas em cadernos escolares, ao abrigo de olhares indiscretos. Tivemos um
em nosso poder. Ora, é interessante notar que os mitos assim copiados são
também encontrados em Cuba e na África. Tais são os quatro processos principais
de adivinhação dos africanos da Bahia, resumidos brevemente. Somente os dois
últimos pertencem aos babalaô, embora os babalorixá tentem usurpar-lhes hoje o
edilogun. É verdade que, mesmo conseguindo os babalorixá obter vitória neste
domínio, os babalaô continuariam únicos detentores do colar de Ifa.
Infelizmente, estes apresentam atualmente tendência para abandonar Ifa por Exú,
o opelê pelo edilogun. Os informantes que pude interrogar a respeito deste
estranho enfraquecimento de lfa deram-me duas razões diferentes mas não
contrárias: a primeira é que o sacerdote de Ifa deve obrigatoriamente formar,
antes de morrer, um aprendiz em sua arte. Senão Ifa condenar-lhe-á a alma a
errar em torno da terra, sem poder se reencarnar nem encontrar descanso. Ora, é
difícil hoje encontrar alguém que queira consagrar sua vida a Ifa. A segunda
razão que, como se vai ver, longe de se opor à primeira, ao contrário
explicaria aquela amarga constatação final, é que quanto mais se sobe na
hierarquia sacerdotal, mais numerosos são os tabus que manietam as pessoas. As
obrigações ou as proibições concernentes aos babalaô que trabalham com os opelê
são muitíssimo mais rigorosas do que as dos babalaô que se contentam em trabalhar
com 16 ou 32 búzios. Ora, hoje em dia os jovens querem gozar a vida e, uma vez
que os búzios respondem tão bem quanto o colar de Ifa, os babalaô de nossa
época, para evitar carga que se tornou pesada demais para seus ombros, preferem
não trabalhar senão com o edilogun. Sôbre o culto de Ifa paira pois ameaça de desaparecimento,
embora subsista ainda hoje na Bahia. Mas, trabalhem os babalaô com Ifa ou com Exú,
devem obedecer em suas jogadas a certo número de regras que nos resta agora
definir. Primeiramente, a consulta não pode se realizar em qualquer lugar. Tor-
namos
a encontrar aqui o espaço sagrado, com o qual já nos tínhamos deparado no
candomblé. Toda casa de babalaô contém, afora os aposentos da habitação, um
quarto especial no qual Ifa ou Exú são interrogados. Não é tudo; neste cômodo
já consagrado por sua função e muitas vezes pela sua ornamentação, há um lugar
que apresenta como que um grau mais alto de santificação, é a mesa sobre a qual
são atirados o colar ou os búzios. Pode ser uma pequena bandeja de palha
trançada, bem chata, com os bordos ligeiramente revirados, ou então uma grande
mesa formando um círculo constituído pelos colares dos deuses o primeiro, o
mais exterior, de Xangô, o segundo de Oxalá, o terceiro de Ogun e o quarto. O
mais interior, composto de todas as cores para todos os outros Orixá. O opelê
ou os búzios devem cair no interior deste círculo "encantado".
Encontramos igualmente na consulta a lei de participação que tanto nos chamara
a atenção em capitulo anterior. Para que lfa ou Exú possam responder, é preciso
que uma participação seja previamente efetuada entre o colar, os búzios e o
consultante de um lado, e o mundo sobrenatural de outro. Eis porque cada
consulta obedece ao seguinte esquema: 1) O babalaô começa por fazer oração em
língua africana, para pedir a Ifa ou Exú que tenha a bondade de responder às
perguntas que lhe serão feitas. 2) O consulente toma na mão esquerda um búzio
que não esteja quebrado, ou dois búzios colados um ao outro pela base: o
akoueo, e na mão direita uma pedrinha, o adjikoni. Se a pedrinha responde: sim,
o resultado é positivo, ibo-lotum. Se o búzio duplo responde: não, o resultado é
negativo, ibo losi. 3) Antes de começar, o babalaô coloca os búzios em
participação com o consulente, tocando ou com os búzios, ou com o colar,
sucessivamente a testa deste último que é a sede do ori ou espírito, o coração
que é o centro da personalidade, e as duas mãos que seguram os búzios ou a
pedra, pois estes devem responder de acordo com a vontade de Ifa ou de Exú. 4) O
babalaô conversa em voz baixa com seu colar ou com seus búzios. 5) A consulta
começa. O babalaô formula uma questão, depois atira o opelê. Retomemos o
exemplo já dado anteriormente. Imaginemos que a parte direita do colar, ao
cair, apresente uma metade do Irête, e a parte esquerda uma metade de Irosun (uma
vez que o odu é sempre lido da direita para a esquerda). Neste caso, Irosun
ganha por ser o mais velho dos filhos de Ifa. O babalaô faz o consulente abrir
a mão correspondente, a mão esquerda. Se contém a pedrinha, a resposta à
questão formulada é afirmativa; se é o búzio duplo, a resposta será negativa. É
claro que a cada questão proferida o consulente junta as mãos e as sacode, de
modo a fazer búzio e pedrinha mudarem de posição. Mas não é o acaso que leva a
pedrinha ora para a mão direita, ora para a mão esquerda, como não é por acaso
que o colar recai no espaço sagrado apresentando esta ou aquela metade de noz sobre
a face côncava ou convexa. A dupla participação do consulente com o opelê e,
através da oração, do opelê com Ifa, faz com que o modo de deixar cair as
metades de noz, ou a posição da pedrinha obedeçam à vontade do dono do destino.
Acontece algumas vezes que, apesar de tudo, a resposta permanece ambígua; neste
caso, lança-se uma segunda e mesmo uma terceira jogada. A maneira de proceder
do babalaô com o edilogun é semelhante. Mas por que certas respostas podem ser
ambíguas? É que a resposta do odu é dada pelo conjunto de mitos, de lendas ou
de historietas a ele referentes, sendo preciso interpretá-las de acordo com o
sentido da pergunta formulada. Ora, um engano é possível nas interpretações; a
obrigação do babalaô é, pois, pedir sempre uma ou duas confirmações, de modo a
estar seguro de que não se enganou. Sua responsabilidade de adivinho está em jogo,
e ele tem consciência dos deveres de seu cargo. Compreende-se, também, porque
se diz algumas vezes que não é suficiente ter boa memória para ser bom babalaô,
pois outra qualidade, a intuição, se exige dele também. Esta intuição, ele a
demonstra na leitura do odu, no modo pelo qual, tira uma conclusão dos mitos,
conclusão aplicável ao caso particular que tem de resolver. Página 153 – O
BABALOSAIM. Livro O Candomblé da Bahia – Rito Nagô. Abraço. Davi.
Assinar:
Postagens (Atom)