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O QUE É ESCATOLOGIA. Escatologia é o estudo sobre os “últimos acontecimentos”.
A palavra vem do grego eschatón (= último). Se refere ao término da história da
salvação. Sem isto não compreendemos a vida da Igreja. Os romanos diziam: “em
tudo que faças, considera o fim, pois é o fim que dita o itinerário a
percorrer”. A realização da Igreja se dará plenamente só na eternidade. O
Concílio Vaticano II afirma: “É no fim dos tempos que será gloriosamente
consumada [a Igreja], quando, segundo se lê nos Santos Padres, todos os justos,
desde Adão, do justo Abel até o último eleito, serão congregados junto ao Pai
na Igreja universal” (LG,2). “A Igreja à qual somos todos chamados em Jesus
Cristo (...) só será consumada na glória celeste, quando chegar o tempo da
restauração de todas as coisas; e, como o gênero humano, também o mundo
inteiro, que está intimamente unido ao homem e por ele atinge o seu fim, será
totalmente renovado em Cristo” (LG,48). Muitas
passagens das Escrituras mostram isso: Atos 3,21 - “Enviará ele o Cristo que
vos foi destinado, Jesus, aquele que o céu deve conservar até os tempos da
restauração universal, da qual falou Deus pela boca dos seus santos profetas”.
Quando de sua vinda gloriosa, Cristo inaugurará o seu Reino definitivo e toda a
criação será renovada. 1 Coríntios 15,24-28 - “Depois, virá o fim, quando
entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado,
toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que ele reine, até que
ponha todos os inimigos debaixo de seus pés (...). E, quando tudo lhe estiver
sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem àquele que lhe sujeitou
todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos”. São Paulo nos ensina
que este é o “misterioso” desígnio da vontade do Pai na plenitude dos tempos:
Efésios 1,10 - “Reunir em Cristo todas as coisas que estão na terra e no céu”.
Colossenses 1,20 - “E por seu intermédio reconciliar consigo todas as
criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz,
restabeleceu a paz a tudo quando existe na terra e nos céus”. São Pedro fala
dessa renovação do mundo e da gloria da Igreja: 2 Pedro 3,10-13. “Entretanto,
virá o dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os
elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras
que ela contém (...) Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e
uma nova terra, nos quais habitará a justiça”. Sabemos que São Pedro escreve
numa linguagem apocalíptica, e que não pode ser interpretada ao pé da letra. O que sabemos de certo é que haverá a consumação do universo e a glória
da Igreja, segundo o desígnio de Deus. Isaías 65,16 “Eis que faço novos céus e
nova terra; e ninguém mais se recordará das coisas passadas; elas já não
voltarão à mente”. Apocalipse 21,1 “Vi um céu novo e uma terra nova, pois o
primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido”. É interessante notar o
que Jesus disse aos apóstolos: Mateus 19,28 - “No dia da renovação do mundo,
quando o Filho do homem estiver sentado no trono da glória (...)” Mateus 28,20
- “Eis que estou convosco até a consumação do século”. Com relação à data em
que acontecerá a renovação do mundo e a inauguração definitiva do Reino de
Deus, ninguém sabe e não deve especular a respeito. Muitos se enganaram sobre
isto e levaram muitos outros ao engano e ao desespero. Até grandes santos da
Igreja erraram neste ponto. Podemos citar alguns exemplos:
São Hipólito de Roma (†235) - chegou a afirmar que o final do mundo seria no ano
500 (...). Santo Irineu (†202) - confirmava a tese do Ps Barnabé, de que o
final seria no ano 6000 após a criação do mundo (...). Santo Ambrósio (†397) e
São Hilário de Poitres (†367) - apoiaram a mesma tese anterior. São Gaudêncio
de Bréscia (†405) - indicava o ano 7000 após a criação. No século V, com a
queda de Roma (476), São Jeronimo (†420), São João Crisóstomo (†407), São Leão
Magno (†461), defendiam que face à queda de Roma, o fim do mundo estava próximo
(...) No século VI e VII, São Gregório Magno (†604) afirmava como próxima a
vinda de Cristo (...). Muitas vezes as profecias sobre a vinda de Cristo
iminente são sugeridas pela necessidade que temos de encontrar uma “saída” para
os tempos difíceis em que se vive. Por isso a Igreja é muito cautelosa nesse
ponto, e sempre nos lembra: Atos 1,7 - “Não toca a vós ter conhecimento dos
tempos e momentos que o Pai fixou por sua própria autoridade”. Marcos 13,32 -
“Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém os conhece, nem mesmo os anjos do
céu, nem mesmo o Filho, mas, sim, o Pai só”. Santo Agostinho interpreta essa
passagem dizendo que Jesus diz não saber esta data, porque está fora do
depósito das verdades que Ele veio revelar aos homens; não pertence à sua
missão de Salvador revelar essa data (In Ps 36 Migne 36,355). O Magistério da
Igreja quer que se respeite essa vontade de Deus de deixar oculta aos homens
essa data. No Concílio Universal de Latrão V, em 1516, foi decretado: “Mandamos
a todos os que estão, ou futuramente estarão incumbidos da pregação, que de
modo nenhum presumam afirmar ou apregoar determinada época para os males
vindouros para a vinda do Anticristo ou para o dia do juízo”. Com efeito, a Verdade diz: “Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e
momentos que o Pai fixou por Sua própria autoridade. Consta que os que até hoje
ousaram afirmar tais coisas mentiram, e, por causa deles, não pouco sofreu a
autoridade daqueles que pregam com retidão. Ninguém ouse predizer o futuro
apelando para a Sagrada Escritura, nem afirmar o que quer que seja, como se o
tivesse recebido do Espírito Santo ou de revelação particular, nem ouse
apoiar-se sobre conjecturas vãs ou despropositadas. Cada qual deve, segundo o
preceito divino, pregar o Evangelho a toda a criatura, aprender a detestar o
vício, recomendar e ensinar a prática das virtudes, a paz e a caridade mútuas,
tão recomendadas por nosso Redentor”. Em 1318, o Papa João XXII, condenando os
erros dos chamados Fraticelli disse: “Há muitas outras coisas que esses homens
presunçosos descrevem como que em sonho a respeito do curso dos tempos e do fim
do mundo, muitas coisas a respeito da vinda do Anticristo, que lhes parece
estar às portas, e que eles anunciam com vaidade lamentável”. Declaramos que tais coisas são, em parte, frenéticas, em parte doentias,
em parte fabulosas. Por isso nós os condenamos com os seus autores em vez de as
divulgar ou refutar” (Curso de Escatologia - Dom Estevão Bettencourt, págs.
123/124). A esperança da Igreja é a vida eterna onde o Reino de Deus será
pleno. Jesus disse a Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (João 18,36). Por
isso, a Igreja aguarda vigilante a vinda do Senhor. Era a esperança dos
Apóstolos: Colossenses 3,4 - “Quando Cristo, nossa vida, aparecer, então também
vós aparecereis com ele na glória”. 1 João 3,2. Caríssimos, desde agora somos
filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que,
quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, por quanto o veremos
como Ele é. Filipenses 3,20 - “Nós porém, somos cidadãos dos céus”. É de lá que
ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará
nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do
poder que tem de sujeitar a si toda criatura”. A Igreja sabe que é peregrina
neste mundo. O termo Paróquia quer dizer “terra de exílio”. São Paulo expressa
bem esta realidade: 2 Coríntios 5,6 - “Sabemos que todo o tempo que passamos no
corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão. Estamos,
repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir
habitar junto do Senhor”. E o Apóstolo suspirava estar com
Cristo: Filipenses 1,23 - “Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte,
desejaria desprender-me para estar com Cristo - o que seria imensamente
melhor”. Filipenses 1,21 - “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é
lucro”. Antes, porém, de reinarmos com Cristo compareceremos diante dele: 2
Coríntios 5,10 - “Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo, a
fim de cada um ser remunerado pelas obras da vida corporal, conforme tiver
praticado o bem ou o mal”. E a esperança do Apóstolo é grande: Rom 8,18 -
“Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não tem proporção alguma
com a glória que há de revelar-se em nós “. 2 Timóteo 2,11-12 - “Eis uma verdade
absolutamente certa: Se morrermos com Ele, com Ele viveremos. Se soubermos
perseverar com Ele reinaremos”. Tito 2,13 - “Na expectativa da nossa esperança
feliz, a aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”. Por esta esperança a Igreja busca a santidade, pois sabe que sem ela
“ninguém pode ver o Senhor” (Hebreus 12,14). Ser cristão em última instância, é
desejar o céu, buscar a santidade e, para isso, desprende de todas as
satisfações da terra, aspirando as celestes. Deus fez tudo nesta vida precário,
passageiro, transitório, para que não nos acostumemos a viver na terra, como se
aqui fosse o céu. O destino da Igreja é o céu, a terra é o caminho. Os santos
ansiavam pelo céu, diziam como santa Teresinha: “Tenho sede do céu, dessa mansão
bem-aventurada, onde se amará Deus sem restrições”. São belas, sobre o céu, as
palavras de São Paulo: 1 Coríntios 2,9 - “Os olhos não viram, nem ouvidos
ouviram, nem coração humano imaginou o que Deus tem preparado para aqueles que
o amam”. 2 Coríntios 5,1 - “Sabemos, com efeito, que, quando for destruída esta
tenda em que vivemos na terra, temos no céu uma casa feita por Deus, uma
habitação eterna, que não foi feita por mãos humanas”. E não se importava com o
próprio envelhecimento: 2 Coríntios 4,16 - “Ainda que em nós se destrua o homem
exterior, o interior renova-se de dia para dia”. Jesus nos
chama a olhar para o céu: Mateus 6,19-21 - “Não ajunteis para vós tesouros na
terra (...) Ajuntai para vós tesouros no céu (...) porque, onde está o teu
tesouro, lá também está teu coração”. A maioria dos homens, mesmo os cristãos,
ainda têm o tesouro e o coração na terra; por isso suas vidas espirituais são
tíbias e os frutos são poucos. Mateus 18,21 - “Se queres ser perfeito, vai,
vende os teus bens, e dá aos pobres, terás um tesouro no céu”. Não é sem razão
que São Leão Magno dizia que “as mãos do pobre são o Banco de Deus”. Marcos
8,36 - “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua
vida? “ Santo Agostinho (354-430) perguntava: “De que vale viver bem, se não me
é dado viver sempre? João 14,2-3 - “Na cada do meu Pai há muitas moradas... vou
preparar-vos um lugar. Depois de ir, e vos preparar um lugar, voltarei e
tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais”. Infelizmente
hoje, para o mundo, eternidade parece ser uma palavra morta. É a chamada
“secularização”, o amor a este século, ao tempo presente. O materialismo, o relativismo, o liberalismo e o hedonismo (busca do
prazer como fim) geraram a perda do infinito, do céu, onde está a grande
realização do homem. Por isso hoje ele se arrasta como um verme e se desespera
na lama da imoralidade, da depressão e do vazio. Pagamos dolorosamente o preço
da perda da fé e da esperança. Só Deus pode satisfazer “a fome” infinita que o
homem traz em si - como ensina Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja -
pois, as criaturas não podem satisfazê-lo, uma vez que são inferiores ao homem.
“Só Deus basta”. O Corpo de Cristo, a Igreja, subsiste em três estados:
militante, que está na terra a lutar; padecente, que se purifica no purgatório
e triunfante, que já vive a bem-aventurança do céu. Ensina-nos o Concílio Vaticano II que: “Até que o Senhor venha em sua
majestade e com ele todos os anjos, e destruída a morte, todas as coisas lhe
sejam sujeitas, alguns dentre os seus discípulos peregrinam na terra, outros,
terminada esta vida, são purificados, enquanto outros são glorificados, vendo
claramente o próprio Deus trino e uno, assim como é”. “A união dos que estão na
terra com os irmãos que descansam na paz de Cristo, de maneira alguma se
interrompe; pelo contrário, segundo a fé perene da Igreja, vê-se fortalecida
pela comunhão dos bens espirituais”(LG, 49). Essa comunhão de bens espirituais,
que é um verdadeiro intercâmbio de graças, é a riqueza da “Comunhão dos
Santos”. Diz a “Lumen Gentium” que: “Pelo fato
de os habitantes do Céu estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam
com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por
nós junto do Pai, apresentando os méritos que alcançaram na terra pelo único
mediador de Deus e dos homens, Jesus Cristo. Por conseguinte, pela fraterna
solicitude deles, a nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio” (idem) São
Domingos, já moribundo dizia a seus irmãos: “Não choreis! Ser-vos-ei mais útil
após a minha morte e ajudar-vos-ei mais eficazmente do que durante a minha
vida” (CIC, 956). O mesmo dizia Santa Teresinha: “Passarei meu céu fazendo bem
na terra” (idem). A Igreja acredita desde os primórdios na salutar “intercessão
dos santos” e também na “comunhão com os falecidos”. E nos ensina que: “A nossa
oração por eles pode não somente ajudá-los, mas também tornar eficaz a sua
intercessão por nós” (CIC, 958). A primeira atestação da crença numa oração dos
justos falecidos em favor dos vivos, a Igreja viu no segundo livro de Macabeus.
Judas Macabeus, enfrentando o adversário Nicanor, que desejava destruir o
Templo, na época da perseguição do terrível Antíoco Epífanes (166-160) AC.,
colocando toda a sua confiança em Deus, teve um sonho, uma espécie de visão:
Ora, assim foi o espetáculo que lhe coube apreciar: Onias, que tinha sido sumo
sacerdote, homem honesto e bom, modesto no trato e de caráter manso (...)
estava com as mãos estendidas, intercedendo por toda a comunidade dos judeus.
Apareceu da mesma forma, um homem notável pelos cabelos brancos e pela
dignidade, sendo maravilhosa e majestosíssima a superioridade que o circundava.
Tomando a palavra disse Onias: Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito
reza pelo povo e por toda a cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus-.
Estendendo por sua vez a mão direita, Jeremias entregou a Judas uma espada de
ouro, pronunciando essas palavras enquanto a entregava: - Recebe esta espada
santa, presente de Deus, por meio da qual esmagarás os teus adversários (2
Macabeus 15,12-15). Esta visão de Judas Macabeus, mostra o grande sumo
sacerdote Onias e o profeta Jeremias, ambos, então, já falecidos, intercedendo
pelo povo de Deus. Encontramos na Bíblia, a passagem em que Deus manda a Abimeleque
que peça orações a Abraão: -Ele rogará por ti e tu viverás- (Gênesis 20,7-17).
Ainda sobre a intercessão dos santos por nós, a Igreja deixou claro no Concílio
de Trento (1545-1563): Os santos que reinam agora com Cristo, oram a Deus pelos
homens. É bom e proveitoso invocar
suplicantemente e recorrer às suas orações e intercessão, para que nos obtenham
os benefícios de Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, único Salvador e Redentor
nosso. São ímpios os que negam que se devam invocar os santos que já gozam da
eterna felicidade no céu.Os que afirmam que eles não oram pelos homens, os que
declaram que lhes pedir por cada um de nós em particular é idolatria, repugna à
palavra de Deus e se opõe à honra de Jesus Cristo, único Mediador entre Deus e
os homens- (Sessão 25). Enfim, a Igreja é a “comunhão dos santos”. Na profissão
de fé solene - o Credo do Povo de Deus - disse Paulo VI: “Cremos na comunhão de
todos os fiéis de Cristo, dos que são peregrinos na terra, dos defuntos que
estão terminando a sua purificação, dos bem-aventurados do céu, formando todos
juntos uma só Igreja, e cremos que nesta comunhão o amor misericordioso de Deus
e dos seus santos está sempre à escuta das nossas orações “ (CPD, 30). A
Eucaristia que celebramos é a antecipação litúrgica da feliz eternidade no Céu.
Esta alegria que não tem fim, sempre foi representada pela festa de Bodas, do
Noivo (Jesus) com a Noiva (a Igreja). A Eucaristia é a antecipação da
consumação da glória da Igreja. Diz o Catecismo que: “À
oferenda de Cristo unem-se não somente os membros que estão na terra, mas
também os que já estão na glória do céu” (CIC, 1370). O altar em torno do qual
a Igreja celebra a Eucaristia, representa, ao mesmo tempo, dois mistérios: “o
altar do sacrifício” e a “mesa do Senhor” (CIC nº 1383). São João viu todo o
esplendor da Igreja futura na visão do Apocalipse: a Cidade Santa, a Jerusalém
celeste, a Noiva, a Esposa do Cordeiro, a filha de Sião: “Vem, e mostrar-te-ei
a noiva, a esposa do Cordeiro. Levou-me em espírito a um grande e alto monte e
mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus,
revestida da glória de Deus” (Apocalipse 21, 9-11). Note que bela comparação:
“Assemelhava-se seu esplendor a uma pedra preciosa, tal como o jaspe
cristalino. Tinha grande e alta muralha com doze portas, guardadas por doze
anjos. Nas portas estavam gravados os nomes das doze tribos dos filhos de
Israel (...) A muralha tinha doze fundamentos com os nomes dos doze Apóstolos
do Cordeiro (...) O material da muralha era jaspe, e a cidade ouro puro,
semelhante a puro cristal”. Os alicerces da muralha da
cidade eram ornados de toda espécie de pedras preciosas: o primeiro era jaspe,
(...) Cada uma das doze portas era feita de uma só pérola e a avenida da cidade
era de ouro, transparente como cristal” (Apocalipse 21, 11-21). Este riquíssimo
simbolismo tem grande significação em cada uma de suas palavras, e nos revela
que esta cidade inimaginável na terra, só pode existir no céu; é a Igreja na
sua glória consumada, onde cada um de nós é chamado a viver na comunhão de toda
a família de Deus. Ele e o Cordeiro estão presentes, não haverá falta de nada.
Vejamos como continua a descrição: “Não vi nela, porém, templo algum, porque o
Senhor é o seu templo, assim como o Cordeiro. A cidade não necessita de sol nem
de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina, e a sua luz é o
Cordeiro. As nações andarão à sua luz, e os reis da terra levar-lhe-ão a sua
opulência. As suas portas não fecharão diariamente, pois não haverá noite. Nela
não entrará nada de profano nem ninguém que pratique abominações e mentiras,
mas unicamente aqueles cujos nomes estão inscritos no livro da vida do
Cordeiro” (Apocalipse 21.22-27). E continua a descrição da Cidade celeste: “Não
haverá aí nada execrável, mas nela estará o trono de Deus e do Cordeiro. Seus
servos lhes prestarão um culto. Verão a sua face e o seu nome estará nas suas
frontes. Já não haverá noite, nem se precisará
da luz de lâmpada ou do sol, porque o Senhor Deus a iluminará, e hão de reinar
pelos séculos dos séculos” (Apocalipse 22, 1-5). Esta longa narração mostra a
vitória e a gloriosa consumação final da Igreja. E o Apocalipse termina com o
Senhor dizendo: “Felizes aqueles que lavam as suas vestes para ter direito à
árvore da vida e poder entrar na cidade pelas portas ” (22,14). “O Espírito e a
Esposa dizem: Vem! Possa aquele que ouve dizer também: Vem! Aquele que atesta
estas coisas diz: Sim ! Eu venho depressa! Amém. Vem, Senhor Jesus!” (22,
17-21). A glória futura da Igreja já está
garantida, porque o seu Senhor já reina no céu, sentado à direita do Pai,
aguardando o momento de consumar o seu Reino. -Depois de falar com os
discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de
Deus-(Marcos16,19). São Paulo explica na Carta aos Efésios todo o esplendor de
Cristo, Cabeça da Igreja, já glorificado no céu: -Ele manifestou sua força em
Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos
céus, bem acima de toda autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer
título que se possa nomear não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro.
Sim, Ele pôs tudo sob os seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a cabeça
da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude
universal-(Efésios 1,20-22). É preciso ter em mente que Jesus glorificado à
direita do Pai, é o Verbo Encarnado, perfeitamente homem; assim, a humanidade,
por Jesus, já voltou ao paraíso, que havia perdido pelo pecado. Desta forma São
Paulo nos exorta a vivermos cientes de que a nossa vida - está escondida com
Cristo em Deus. Se portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do
alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de
cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com
Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós
aparecereis com Ele na glória (Colossenses 3,1s) São Leão Magno (†431) dizia
que: “Onde a Cabeça está, aí devem estar também os membros do corpo”. A Igreja tem plena consciência de que a sua glória está assegurada no
céu, já que a -Cabeça- já está -sentada à direita do Pai. Na missa da festa da
Ascensão do Senhor, rezamos: Ó Deus todo poderoso, a ascensão do vosso Filho já
é nossa vitória. Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois,
membros de seu Corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória-.
É nesta esperança que vive a Igreja: No mundo tereis tribulações. Mas tende
coragem! Eu venci o mundo!. (João 16,33). Sabemos, como nos ensina São Paulo na
carta aos tessalonicenses, que a Igreja passará a terrível “provação final”,
que será também o momento de dar ao Senhor a prova maior do seu amor, e que
será também a sua maior purificação. Após isto será consumada na sua glória.
Então, “Deus será tudo em todos” (1 Coríntios 15,28). Estará então
restabelecida a “Família de Deus”, que no Paraíso foi dispersa pelo pecado.
Novamente Deus viverá no “jardim” celeste com o homem (Gênesis 2,5-8), com toda
a intimidade e comunhão desejadas desde o princípio. A harmonia que o pecado
rompeu será restabelecida plenamente. É a imagem maravilhosa que o Profeta nos
dá do Reino do Messias, onde só haverá paz: “Então o lobo será hóspede do
cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão
juntos, e um menino pequeno os conduzirá; a vaca e o urso se fraternizarão,
suas crias repousarão juntas, e o leão comerá palha com o boi. A criança de
peito brincará junto a toca da víbora, e o menino desmamado meterá a mão na
caverna da áspide. Não se fará mal nem agravo em todo o meu monte santo, porque
a terra estará cheia da ciência do Senhor, assim como as águas recobrem o fundo
do mar” (Isaías 11, 6-9). Sobre a “última provação” que a Igreja deverá
enfrentar, fala o Catecismo da Igreja: “Antes do Advento de Cristo, a Igreja
deve passar por uma provação final que abalará a fé de muitos crentes (Lucas
18,8; Mateus 24,12). A perseguição que acompanha a
peregrinação dela na terra (Lucas 21,12; João 15, 19-20) desvendará o “mistério
da iniquidade” sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos
homens uma solução aparente aos seus problemas, à custa da apostasia da
verdade. A impostura religiosa suprema é a do Anticristo, isto é, a de um falso
messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo em lugar de Deus e do seu
Messias que veio na carne (2 Tessalonicenses 2,4-12; 1 Tessalonicenses 5,2-3; 2
Jo7; 1 João 2,18-22) (CIC, 675). O Catecismo explica que a grande impostura
religiosa anticrística será uma falsificação do Reino de Deus, a ser implantado
na terra, pelo próprio homem, sem a necessidade de Deus. É o ateísmo
sistemático - já denunciado no santo Concílio Vaticano II (GS 20,21) que leva o
homem a se rebelar “contra qualquer dependência de Deus”. “Aqueles que
professam tal ateísmo disse o Concílio - sustentam que a liberdade consiste em
o homem ser o seu próprio fim e o único artífice e demiurgo [ criador] de sua
própria história. E pretendem que esta posição não pode harmonizar-se com o
reconhecimento do Senhor (...)” (GS, 20). A Igreja sabe que só entrará na
glória do Reino passando por uma “Paixão” semelhante a do seu Senhor. O Catecismo afirma que: “O Reino não se realizará por um triunfo
histórico da Igreja segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de
Deus sobre o desencadeamento último do mal (cf Apocalipse 20,7-10), que fará a
sua Esposa descer do Céu (Apocalipse 21,2-4). Então, finalmente, “haverá um
novo céu e uma nova terra” (Apocalipse 21,1) e se realizará o que está escrito:
“Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu
povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda a lágrima dos
seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor
haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram! (Apocalipse 21,3-4). DO Livro: A MINHA IGREJA do Prof. Felipe de Aquino. www.universocatolico.com.br. Abraço. Davi
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
POR QUE TOCAMOS O SHOFAR EM ROSH HASHANÁ
Judaísmo. www.morasha.com.br.
POR QUE TOCAMOS O SHOFAR EM ROSH HASHANÁ. O principal mandamento da festa de
Rosh Hashaná, Ano Novo Judaico, é ouvir os toques do Shofar. Trata-se de um
mandamento bíblico. Todas as demais leis e costumes de Rosh Hashaná, como as
refeições festivas, as maçãs imersas no mel e, mesmo as orações, têm
importância secundária. Em Rosh Hashaná, a prioridade para todos os judeus deve
ser ouvir os toques do Shofar. A Torá não nos explica por que devemos ouvir
o Shofar em Rosh Hashaná, primeiro dia do mês
de Tishrei. Todos os mandamentos da Torá estão acima da razão
humana. Têm origem Divina, são produto da vontade e sabedoria Divinas e, assim
como D’us é infinito e insondável, também o são Suas Leis. Cumprimos os
mandamentos da Torá, como ouvir o Shofar em Rosh
Hashaná, pela simples razão de que D’us nos ordenou fazê-lo. Contudo, a
Torá nos estimula a investigar o significado de seus mandamentos. Nossos Sábios
revelaram algumas das razões pelas quais a Torá nos ordena ouvir os toques
do Shofar em Rosh Hashaná. A Coroação do Rei. Rosh
Hashaná é o aniversário da humanidade. Celebra o sexto dia da
Criação, Yom HaShishi – dia em que D’us criou Adão e Eva. Em
nossas orações, nos referimos a Rosh Hashaná como o início da
Criação porque o mundo apenas se tornou relevante no dia em que o homem nasceu.
O ser humano é o ponto alto da Criação; e, para ele, D’us criou o mundo. Se o
homem parasse de cumprir o propósito para o qual foi criado, o mundo deixaria
de existir. É em Rosh Hashaná que D’us decide se os seres
humanos estão cumprindo seu propósito neste mundo e se Ele ainda está
interessado em ser seu Rei. Se D’us decidisse ter perdido o interesse em
ser Melech HaOlam – Rei do Mundo –, o universo e tudo o que
nele há reverteria ao nada – como tudo era, antes da Criação. A decisão Divina
depende de nós. É o homem, e principalmente o Povo Judeu, quem deve tentar
convencer a D’us que é válido que Ele continue a manter o mundo. Vale lembrar
que nosso relacionamento com D’us é unilateral: somos totalmente dependentes
d’Ele, ao passo que Ele não depende de ninguém nem de nada. Em Rosh
Hashaná, o Povo Judeu se aproxima de D’us, pedindo-Lhe que continue sendo
nosso Rei e Rei de todo o universo. E o destino do mundo depende de Sua
concordância. Quando um rei é coroado, soam as trombetas. Em Rosh
Hashaná, tocamos o Shofar para anunciar o ininterrupto
reino de D’us. Seus toques indicam que estamos coroando D’us como nosso Rei. Já
deve estar claro por que razão ouvir o toque do Shofar é o
principal mandamento de Rosh Hashaná. Se não proclamamos a coroação
do Rei – se não conseguimos levar D’us a continuar em seu papel de Senhor do
Universo –, o mundo não existiria além de Rosh Hashaná. Nessa
festividade, desejamos uns aos outros um ano bom e doce, mas isso não teria nenhum
valor se não houvesse um novo ano por vir. Em Rosh Hashaná, pedimos
que D’us nos inscreva no Livro da Vida, mas nossa principal preocupação deveria
ser se Ele concordará em continuar sendo nosso Rei. A ideia de um rei pode
parecer infantil e anacrônica. Pensamos nos reis como seres gananciosos, loucos
pelo poder, déspotas cruéis. No entanto, na tradição judaica, como ensina
Maimônides, o rei é um servo do povo, cuja única preocupação é fazer esse povo
viver em paz e harmonia. Suas leis e decretos apenas visam ao bem de seu povo,
não ao seu próprio (Maimônides, Leis dos Reis, 2:6). Tocamos o Shofar em Rosh
Hashaná para coroar D’us como Rei: para dar as boas-vindas a Seu
Reinado sobre nós e sobre o mundo todo. Despertador Divino. Maimônides
(1135-1204), o maior dos filósofos judeus, ensina que o Shofar é
o despertador de D’us, que nos deve despertar do “sono apático” em que vivemos
grande parte de nossa vida. Ele explica que geralmente desperdiçamos nosso
tempo com coisas que “nem nos ajudam nem nos salvam”. Desperdiçamos nosso
tempo, apesar de esse ser o maior presente Divino para nós. O Rebe de
Lubavitch disse: “Dizem que tempo é dinheiro. Eu digo que tempo é vida”. Tempo
é, de fato, vida, e, diferentemente do dinheiro, não se ganha de volta o tempo
perdido. São tantas as coisas extraordinárias que a pessoa pode fazer (…) mas o
dia tem apenas 24 horas, a semana sete dias, e um número de anos que é muito
curto, ainda que se viva mais de 100 anos (...). Ouvimos o toque do Shofar em Rosh
Hashaná, o primeiro dia do ano judaico, que também é o primeiro dos Dez
Dias de Teshuvá, para despertar-nos de nossa apatia. O Shofar é
o recurso Divino que nos conclama a examinar nossos atos e repensar a maneira
como passamos nosso tempo para que não nos arrependamos de como vivemos quando
já for muito tarde. O Talmud nos ensina: “Quando o julgamento vem de baixo, não
há necessidade de julgamento do Alto”. Isso significa que se despertarmos, não
haverá necessidade de que D’us nos desperte. Todos precisamos fazer uma avaliação
honesta para saber se estamos aproveitando a vida ao máximo. O toque do Shofar em Rosh
Hashaná deve fazer-nos recordar as palavras atemporais do Pirkei
Avot: “Rabi Tarfon disse, ‘O dia é curto, o trabalho grande, os
trabalhadores preguiçosos, a recompensa grande e o Mestre de tudo nos apressa’”
(Avot 2:20). O Shofar no Monte Sinai. O evento mais
grandioso na história humana foi a Revelação Divina no Monte Sinai – única
instância em que D’us Se revelou explicitamente a um número muito grande de
pessoas reunidas. D’us se apresentou perante toda a geração de judeus que
deixaram o Egito – 600.000 homens com suas famílias –, proclamou os Dez
Mandamentos e iniciou o processo de transmissão da Torá a Moshé. Conta-nos a
Torá que um toque muito alto de Shofar se fez ouvir no Monte
Sinai quando D’us Se revelou ao Povo Judeu. Recitamos as seguintes palavras
durante a oração de Mussaf, em Rosh Hashaná: “E no
terceiro dia, ao raiar a manhã, houve trovões e relâmpagos, e uma pesada nuvem
estava sobre o monte e um som de Shofar muito forte; e todo o
povo que estava no acampamento estremeceu” (Êxodo 19:16). Em Rosh
Hashaná, tocamos o Shofar para recordar o evento mais
extraordinário na história humana, quando a existência Divina se fez conhecer,
tornando-se fato histórico e não mais dependendo da fé pessoal. O toque
do Shofar lembra-nos que devemos nos dedicar à Torá – a seu
estudo e ao cumprimento de seus mandamentos. O poderoso som do Shofar serve,
também, para nos defender perante o Trono Celestial, recordando o vínculo eterno
forjado por D’us com Seu povo, no Monte Sinai. Profecia. O Shofar relembra
a voz de nossos Profetas, que exortava nossos antepassados para que corrigissem
seus caminhos, seguindo os mandamentos Divinos e tendo comportamento exemplar
perante seus semelhantes. Há milênios, o Povo Judeu teve muitos profetas que
transmitiam o que D’us esperava deles, lembrando-lhes que deviam aperfeiçoar
seu modo de vida. Hoje, já não temos profetas, mas o toque do Shofar deve
sacudir nossa alma, forçando-nos a reexaminar nossa vida, corrigir nossos erros
e melhorar, ainda mais, o que está certo. O pranto soluçante de um coração
judeu. São dois, basicamente, os sons do Shofar. Tekiá é
o som longo e Teruá uma série de sons curtos em staccato.
Em Rosh Hashaná, ouvimos ambos, mas Teruá constitui
a maioria dos toques. O Talmud explica, no Tratado de Rosh Hashaná,
que o toque de Teruá é o som do choro. Em Rosh Hashaná,
muitos olham para o ano que terminou e percebem que não conseguiram viver a
vida em todo o seu potencial. Desperdiçaram tempo e oportunidades. Isso os faz
soluçar – é seu coração quem chora. Ensinam os cabalistas que os sons chorosos
do Shofar simbolizam o pranto soluçante de um coração judeu
que anseia por se conectar, crescer e se realizar (Tikunei Zohar –
20-21, 49a). O Rei David escreveu em seus Salmos: “…Os que ora semeiam em
lágrimas, hão de chegar à colheita com alegria” (Salmo 126). Devemos traduzir o
choro do Shofar em ações significativas no ano que se inicia,
para que nosso pranto se transforme em júbilo. O sacrifício de Yitzhak. O Shofar é
feito do chifre de um carneiro. Este foi o animal que Avraham sacrificou em
lugar de seu filho, Yitzhak, no famoso episódio da Torá conhecido como Akedat
Yitzhak. O Sacrifício de Yitzhak é um dos temas principais de Rosh
Hashaná. Lemos essa passagem da Torá no segundo dia da festa e tocamos
o Shofar, chifre de um carneiro, para recordar D’us da devoção sem
paralelo e do autossacrifício dos dois primeiros Patriarcas do Povo Judeu,
Avraham e Yitzhak. O Sacrifício de Yitzhak é relevante para Rosh
Hashaná por outra razão. Avraham, segundo nossos Sábios, era o
paradigma da bondade e compaixão. De acordo com a Cabalá, ele personifica
a Sefirá de Chessed – bondade, generosidade e
amor. Pedir a um pai que sacrifique seu próprio filho, mesmo se o pedido vem do
Todo Poderoso, é o mais difícil dos pedidos – para qualquer pai, mas
especialmente para Avraham, personificação da bondade. Contudo, Avraham teve
forças para reprimir seu sentimento de compaixão e amor a fim de cumprir a
Vontade de D’us. Em Rosh Hashaná, quando D’us está no Trono
Celestial do Julgamento, tocamos o Shofar para recordar o
Sacrifício de Yitzhak e, dessa forma, fazer chegar ao Juiz Supremo que: “Se
Avraham, simples ser humano mortal, pôde reprimir sua emoção para cumprir a Tua
Vontade, Tu, também, o Onipotente, podes reprimir Tuas emoções, caso sejam de
ira”. Recitamos durante o Mussaf de Rosh Hashaná:
“Lembra-te, em nosso benefício, ó D’us Eterno, o pacto, a bondade e a promessa
que fizeste a Avraham, nosso Patriarca, no Monte Moriá; deixa aparecer diante
de Ti a Akedá, quando Avraham, nosso Patriarca, amarrou seu
filho Yitzhak sobre o altar e reprimiu sua compaixão a fim de cumprir Tua
Vontade, com um coração puro e conformado. Que assim possa a Tua compaixão
reprimi Tua ira contra nós, e em Tua infinita bondade, deixes tua severa ira
contra Teu povo se desfazer (…)”. A Infinitude Divina. O som
do Shofar tem poder indescritível. Em Rosh Hashaná,
seus sons nos preenchem de reverência e humildade ao contemplar a infinitude do
Rei que neste dia tem seu coroação. Infinitude é um conceito que nós, seres
humanos, não conseguimos entender, totalmente – pois somos criaturas finitas,
em um mundo finito. Empregamos o conceito de infinito em Matemática, mas
raramente paramos para pensar em suas implicações. A Matemática nos ensina que
comparado ao infinito todos os tamanhos e medidas são iguais. Comparados ao
infinito, não há diferença entre o grande e o pequeno. Isso significa que para
um D’us Infinito, não existe o mais e o menos importante: tudo é igualmente
importante – o que explica por que o Judaísmo nos ensina que cada detalhe da
Criação, inclusive nossa vida pessoal, tem tanta relevância para o Altíssimo.
Ser Infinito não significa apenas que D’us é Todo Poderoso. Significa, também,
que Ele está em toda parte, sempre, e está ciente de tudo, mesmo de cada um de
nossos pensamentos, palavras e atos. Uma das razões para o Shofar nos
encher de reverência é o fato de nos fazer lembrar que D’us Infinito nos
observa, a todo instante. Como nos diz o Pirkei Avot: “Mantém teu
olhar sobre estas três coisas e não pecarás: Conhece o que está acima de ti: um
Olho que tudo vê e um Ouvido que tudo escuta, e todas as tuas ações estão
gravadas em um livro” (Avot 2:1). Anunciando a chegada do
Mashiach. O som do Shofar transmite
muitas mensagens, uma das quais é a liberdade. Quando chegar o Mashiach,
ensinam nossos Sábios, o Shofar anunciará sua chegada. A Era
Messiânica será um tempo de paz e liberdade para todos os seres humanos. Quando
o Mashiach estiver entre nós, a humanidade estará livre de
qualquer forma de escravidão e opressão – livre de sofrimento, guerras,
pobreza, doenças e, até mesmo, da morte. Durante o Mussaf de Rosh
Hashaná, recitamos as seguintes palavras do profeta Isaías: “Ó vós, todos
os habitantes do mundo, todos os residentes da Terra: quando nas montanhas for
erguido um estandarte (da reunião de Israel), todos o vereis; e quando soar o
toque do Shofar, o ouvireis. E nesse dia será tocado um
grande Shofar, que atrairá os que se perderam na terra da Assíria e
os que foram dispersos pela terra do Egito, e virão adorar o Eterno no sagrado
monte de Jerusalém” (Isaías 18-3; 27:13). Rosh Hashaná celebra o
nascimento da humanidade. No mesmo dia em que nascia o homem, ele transgrediu a
Vontade Divina e D’us o baniu do Jardim do Éden. Seu pecado trouxe morte e toda
forma de sofrimento ao mundo. O propósito da humanidade, especialmente do Povo
Judeu, é retificar o pecado de Adão e Eva, para que o mundo volte a ser o
Jardim do Éden. É esse o significado da Era Messiânica. Em Rosh Hashaná,
tocamos o Shofar não apenas para compelir D’us a renovar o
mundo por mais um ano, mas para lhe trazer redenção e salvação. www.morasha.com.br. Abraço. Davi
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
O SUICÍDIO NA VISÃO ESPÍRITA E DE OUTRAS RELIGIÕES
Espiritismo. www.eradoespirito.blogspot.com.
Agradecimento à Eliana Ferrer Haddad pela sugestão do tema. O SUICÍDIO NA VISÃO
ESPÍRITA E DE OUTRAS RELIGIÕES. Se cada fase da vida tem algo de importante par
nos ensinar, é preciso descobrir o que está reservado para nós no ocaso da
existência. A. Trigueiro, “Viver é a melhor opção”. MUITAS VEZES, VIVER É UM
ATO DE CORAGEM – Sêneca (4 AC 65 DC). Diz-se que “religião não se discute”,
entretanto, é na religião que encontramos uma das maiores forças de manutenção
da vida humana. Um assunto que mostra todo poder da religião é a questão do
suicídio. André Tregueiro (1966- ) recentemente lançou um livro sobre esse
tema. Lembro-me de ler alguém reclamando que essa obra só apresenta a visão
espírito do suicídio. Neste post fazemos um resumo dessa breve pesquisa. É
interessante comparar as justificativas para a condenação do suicídio nessas
diversas visões com a perspectiva espírita, que traz uma novidade. É
interessante também observar que há exceções à condenação do “matar-se a si
mesmo”, de acordo com as referências de várias religiões. Já escrevemos algo
sobre um tipo de suicídio neste blog. Mas, como se manifestam as diversas
religiões sobre ele? Mais importante do que isso, como elas justificam suas
posições? Há duas bases para se posicionar em relação ao suicídio: 1. A visão de princípios. 2. A visão das consequências do suicídio. Para se convencer disso, basta considerar que, para doutrinas
materialistas, a questão do suicídio é de reduzida importância, pois não há
alma nem sobrevivência. A lógica materialista acredita que vale a pena
continuar a viver desde que existam vantagens em existir. Desaparecendo essas
vantagens, cessa também a necessidade de viver. Portanto, a vida para o
materialismo não tem valor em si, mas é relevante apenas como condição para
eventuais prazeres em existir: O que faz a vida merecer ser vivida?
Certamente muito mais ceder ao sangue suicida, que há em mim e procurar o
esquecimento no abraço frio da morte. Zane Grey
(1872-1939). Podemos falar em um "valor da vida" para cada visão
religiosa - incluindo o materialismo - que é derivado da visão que cada
doutrina tem da existência humana. Uma vez que o assunto é complexo, optamos
por apresentar tudo em apenas um único post que, por isso, resultou extenso.
Isso não significa que o assunto tenha sido exaurido. O que colocamos abaixo é
apenas um resumo. A referência principal que usamos aqui como orientação pode
ser lida integralmente em. Judaísmo. De acordo com a lei mosaica. O suicídio é proibido pela lei Judaica. O
Judaísmo tradicionalmente vê o suicídio como um pecado. Não é visto como
alternativa a se cometer certos pecados capitais que justificariam abandonar a
vida ao invés de cometê-los. Entretanto, não há referências explícitas
no Talmude sobre o
suicídio. A fundamentação é, portanto, de princípios e baseada em
interpretações do texto bíblico. Estudiosos e autoridades no Judaísmo porém,
podem suspender a proibição do suicídio em determinadas circunstâncias, como
foi o caso de Jacob Emden,
que afirmou ser o suicídio uma opção a alguém condenado à pena de morte. O
suicídio seria então uma maneira de se expiar o pecado que originou a
condenação. Catolicismo. Como é bastante conhecido, o Catolicismo
explicitamente condena o suicídio. A razão também tem com base princípios como
a proibição "Não matarás" (Êxodo 20:13), ou uma lógica como a
que se lê em: O
suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano em se preservar
e perpetuar. Ele se coloca gravemente em oposição ao amor por si
próprio. Ele também ofende o amor ao próximo, porque injustamente quebra os
laços de solidariedade com a família, nação e outras sociedades humanas para as
quais temos obrigações. O suicídio é contrário ao amor ao Deus vivo.
(parágrafo 2281). É possível lembrar que
a condenação ao Inferno sempre correu em paralelo com a condenação do suicídio
em diversas religiões cristãs. Entretanto, em uma versão moderna do catecismo
da Igreja podemos ler: Não se deve temer pela punição eterna das
pessoas que tiraram suas próprias vidas. Por meios apenas conhecidos por Ele,
Deus pode conceder oportunidade de arrependimento. A Igreja ora pelas pessoas
que tiraram suas próprias vidas. (parágrafo 2283, grifo meu). Por que a Igreja teria
deixado de ameaçar com o inferno os suicidas? Talvez a condenação eterna esteja
muito desacreditada na modernidade e a estratégia de se abrandar a pena
recorrendo a um possível meio "somente conhecido por Deus" é mais
lógica diante da crença maior em um Deus bom. Com bases semelhantes,
religiões de origem protestante também condenam o suicídio. É interessante ir à
origem dos movimentos protestantes e de lá extrair uma perspectiva mais moderna
sobre o suicídio. Assim, para a Igreja Luterana: Certamente, não temos
o desejo de condenar ninguém que opte pela auto destruição. É impossível a nós
descer a níveis tão baixos, em que muitos cristãos chegam, e irresponsavelmente
cometem tais atos. Talvez o Senhor não os julgará responsáveis, mas nós não sabemos. Esse mesmo texto cita uma passagem em
que Lutero
(1483-1546) afirmou: Não tenho certeza se os suicidas certamente
estão condenados. Penso que eles talvez não quisessem se suicidar, mas
capitularam frente ao poder do demônio. Desde esse ponto de
vista, o suicídio não pode ser automaticamente condenado porque as razões para
o ato são desconhecidas (a decisão de se matar segue sentimentos e intenções
privadas do indivíduo). Lutero ainda foi perspicaz o suficiente em ressaltar
que sua opinião não implicava na redução da gravidade do suicídio como pecado. A opinião presente dos evangélicos nacionais sobre o suicídio
pode ser lida aqui: As Escrituras Sagradas relatam a história de
algumas pessoas que cometeram suicídio, dentre estas: Saul (I Samuel 31:4),
Aitofel (II Samuel 17:23), Zinri (I Reis 16:18) e Judas (Mateus 27:5). Todos
foram maus, perversos e pecadores, o que provavelmente após a morte
experimentaram a condenação eterna. Ora, sem a menor sombra de dúvidas a Bíblia
vê o suicídio do mesmo modo que o assassinato – e assim o é – um
auto-assassinato. Cabe a Deus decidir quando e como a pessoa morrerá. Tomar de
assalto este por em suas próprias mãos, de acordo com a Bíblia, é atentar
contra Deus. Admitido isso, também não creem que um
"cristão verdadeiro" perca sua salvação com o suicídio. Islã. A recente onda de
atentados de fundamentalistas islâmicos no ocidente por suicídio pode levar a
se pensar que o suicídio seja amplamente aprovado pelo Islã, mas isso não é
verdade. De acordo com: E não se matem. Certamente Alá será mais
misericordioso convosco. Corão, Sura 4 (An-Nisa). Ayat 29. E, nos ditados de Maomé,
suicidas são condenados explicitamente ao inferno. Porém, segundo Daud Matthews
(8), não se deve julgar quem se suicida porque não são conhecidas as
circunstâncias que levaram à decisão de se matar: Aqui só podemos
afirmar o que o Islã diz sobre o suicídio como ato. Ainda assim, não podemos
julgar um caso específico de suicídio porque nunca sabemos o que
apenas Alá sabe sobre o estado do suicida no momento em
que comete o ato. Uma pessoa que parece se atirar de uma sacada
pode ter caído por acidente, o que não sabemos. Assim, nunca devemos julgar e
deixamos que isso seja feito pelo Criador que definitivamente sabe
muito mais do que nós. Como pode então existir fundamentalistas
islâmicos que se suicidam em nome do Islã? É que, como todas as religiões
antigas, o Islamismo se fragmentou em muitas vertentes interpretativas e
algumas delas sustentam que o suicídio deve ser incentivado se for feito com
objetivo de guerra religiosa. Não é na origem do movimento que devemos procurar
os problemas que surgiram com as várias religiões, mas nos seguidores que
interpretam de forma diferente os fundamentos. Hinduísmo. A pratica do Sati era um rito funeral em certas
comunidades asiáticas em que viúvas recentes cometiam suicídio atirando-se no
fogo da pira funerária de seus maridos. Foi banida pelos Britânicos no século
XIX. De acordo com Jaraya.
O suicídio em Sânscrito é chamado
"Atmahatya" que significa matar a própria alma. Essa
palavra representa amplamente a atitude do Hinduísmo para com o suicídio.
Suicídio é matar a si mesmo, pura e simplesmente. Porque o Hinduísmo vê o
suicídio de forma tão negativa, como um ato desprezível e um pecado, pode ser
entendido pelas seguintes razões (...). Uma lista resumida dessas causas é fornecida na continuação do
texto: "porque o Hinduísmo vê a vida como sagrada (mesmo a de insetos e
animais), porque cada ser humano tem um papel e responsabilidade a desempenhar
no mundo, porque o suicídio, motivado por paixões más, ignorância e ilusão,
representa mau uso da autonomia que Deus deu ao homem e porque, com a vida, o
homem tem obrigações para consigo mesmo, com os outros, os deuses e com seus
ancestrais". Entretanto, o
Hinduísmo mantem uma crença estranha de que o suicídio é permitido em alguns
casos, principalmente se cometidos por gurus como um ato de auto sacrifício ou
imolação. De acordo com tal crença, casos de imolação por fogo (agnipravesa),
fome lenta (prayopavesa) ou por suspensão da respiração (entrada no
estado de samadhi) são considerados suicídios válidos. Portanto,
para o Hinduísmo, apenas é condenável o suicídio por razões banais ou por auto
ilusão. Budismo. Das doutrinas antigas, o Budismo pode ser considerado uma das
mais sofisticadas: O Budismo ensina que
todas as pessoas experimentam o sofrimento (dukka), que se origina
primariamente de atos anteriores negativos (karma) ou que resultam do
processo natural do ciclo de nascimento e morte (samsara). Outras razões
para a prevalência do sofrimento dizem respeito ao conceito de ilusão (maya).
Uma vez que tudo está em estado constante de impermanência ou fluxo, indivíduos
passam por insatisfação com os eventos naturais da vida. Para quebrar a
samsara, o Budismo advoca o nobre caminho óctuplo e não apoia o suicídio. Como o primeiro preceito determina que não se
tire a vida de ninguém - inclusive a própria - o suicídio é considerado um ato
negativo pelo Budismo. De acordo com a crença, alguém que cometa suicídio por
razões negativas pode renascer em condições bastante tristes como consequência
de seus pensamentos negativos. Para o Budismo, a condenação do suicídio não
pode ser absoluta, devendo-se observar as razões do ato que, se negativas, são
contrárias ao caminho da iluminação. Mesmo assim, na tradição Budista, há duas estórias de monges que
estavam muito próximos da morte e que, afirmando terem atingido a iluminação,
cometeram suicídio - ou o que seria hoje conhecido como "eutanásia".
Tais contos implicam que o Budismo antigo pôde aceitar o suicídio em certas circunstâncias
(que não envolvem pensamentos negativos). Entretanto, conforme o texto (3)
explica, "pessoas que alcançaram a iluminação não cometem suicídio",
o que ressalta a opinião negativa que o Budismo tem hoje do suicídio. Xintoísmo.
O excessivo caso de suicídios no
Japão (11) leva a se considerar influências culturais e religiosas nessa
prática. A religião nacional do Japão é o Xintoísmo. Diz-se que o
Xintoísmo é excessivamente condescendente com os suicidas. A origem pode ser a
crença de que a vida continua na forma
os Kamis (deuses) e que a morte nada significa além da
continuidade. Mas sobre esse aparente apoio dado ao suicídio, encontramos vozes
no Japão que se colocam contra alguns posicionamentos ocidentais: Um simpósio entre religiões no Japão explorou
as atitudes das comunidades japonesas com o suicídio, incluindo o uso comum do
termo "morte voluntária" - escreve Hisashi Yukimoto. Promovido pela
conferência dos bispos católicos do Japão, a conferência considerou a tendência
recente de se designar o suicídio pelo termo "jishi" - que significa
"morte voluntária" ou "matar-se a si mesmo". Muitas pessoas,
incluindo membros de famílias enlutadas, agora preferem usar "jishi"
(o título oficial do encontro foi "A missão dos religiosos - sobre a morte
voluntária"). Um dos conferencistas,
Wataru Kaya, um sacerdote xintoísta e psiquiatra, enfatizou a
importância das preces e da compaixão para aqueles que se matam
voluntariamente, com base na cultura tradicional japonesa. Ele reiterou que o
Xintoísmo "não vê a morte voluntária como um mal absoluto". Mas, Hiroshi Saito, que gerencia o escritório
de estudos do Instituto da Doutrina Oomoto. Um cisma xintoísta, desde 1892,
observa que o cânon Oomoto diz: "O suicídio é um pecado
entre os pecados". Advertiu ainda, "ao se usar o termo 'morte
voluntária', acredito que o sentido de pecado que existe ao se praticar o
suicídio está sendo inconscientemente reduzido". Saito criticou as
considerações de José M. Bertolote, do Departamento de Saúde Mental da
Organização Mundial de Saúde que, em um artigo na revista "The
Economist", disse que o suicídio no Japão é parte de uma cultura que prega
ainda "o padrão ético de se preservar a honra e se fazer responsável por
meio do suicídio". Saito afirmou que essas são "visões muito
tendenciosas...Poucas pessoas veem o suicídio hoje no Japão como uma
virtude". Espiritismo. Além de outras obras fundamentais, a questão
do suicídio foi introduzida por A. Kardec na IV Parte de "O Livro dos
Espíritos", mais precisamente entre as questões 944 e 957. O assunto se
inicia pela questão #944: 944. Tem o homem o direito de dispor da sua vida? Não; só a
Deus assiste esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão da lei
divina. a) – Não é sempre voluntário o suicídio? O louco que se mata não
sabe o que faz. É importante
considerar, porém que, para o Espiritismo, o suicídio deve ser evitado a todo
custo por causa das consequências do ato que são positivamente estudadas por
meio de comunicações mediúnicas. Trata-se, assim, de uma extensão do suicídio
frustrado. Mesmo para o materialismo, o suicídio pode não valer pena se
o suicida não tiver competência suficiente para se matar e, do ato,
resultarem sequelas e piora da situação. Suicidas em desespero podem não
calcular corretamente o risco a que estão sujeitos, caso não consigam se livrar
completamente de suas vidas. Tomando como ponto de partida que o
suicídio foi motivado por pensamentos e intenções negativas, a IV
Parte do "Livro dos Espíritos" exploras os possíveis caminhos
morais que o suicida poderia tomar caso raciocinasse diferente. Com certo
escrutínio psicológico, os Espíritos identificam a grande causa como a falta
de fé no futuro a principal razão para o ato suicida. A escalada
do suicídio nos tempos modernos confirma essa identificação porque ela tem, no
materialismo, a sua principal doutrina de apoio: A propagação das ideias materialistas é, pois,
o veneno que inocula a ideia do suicídio na maioria dos que se suicidam, e os
que se constituem apóstolos de semelhantes doutrinas assumem tremenda
responsabilidade. Com o Espiritismo, tornada impossível a dúvida, muda o
aspecto da vida. O crente sabe que a existência se prolonga indefinidamente
para lá do túmulo, mas em condições muito diversas; donde a paciência e a
resignação que o afastam muito naturalmente de pensar no suicídio; donde, em
suma, a coragem moral. (O "Evangelho S. o Espiritismo" Capítulo V, "Suicídio e Loucura". Parágrafo
16). A certeza da vida futura tem, portanto, a capacidade de anular o efeito do
suicídio nesses casos: A calma e a resignação
hauridas da maneira de encarar a vida terrestre e da fé no futuro dão ao
espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e
o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos de loucura se deve
à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem a coragem de
suportar. Ora, se encarando as coisas deste mundo da maneira por que o
Espiritismo faz que ele as considere, o homem recebe com indiferença, mesmo com
alegria, os reveses e as decepções que o houveram desesperado noutras
circunstâncias, evidente se torna que essa força, que o coloca acima dos
acontecimentos, lhe preserva de abalos a razão, os quais, se não fora isso, a
conturbariam. (O "Evangelho S. o
Espiritismo" Capítulo V, "Suicídio e Loucura". Parágrafo 14).
Com relação ao "suicídio por sacrifício", há condições específicas
que o desqualificariam como um suicídio, conforme pode-se ler na questão #951
de "O Livro dos Espíritos": 951. Não é, às vezes, meritório o sacrifício da vida, quando
aquele que o faz visa salvar a de outrem, ou ser útil aos seus semelhantes? “Isso é sublime, conforme a intenção, e, em tal caso, o
sacrifício da vida não constitui suicídio. Mas Deus se opõe a todo sacrifício
inútil, e não o pode ver de bom grado se tem o orgulho a manchá-lo. Só o
desinteresse torna meritório o sacrifício e, algumas vezes, quem o faz guarda
oculto um pensamento, que lhe diminui o valor aos olhos de Deus”. O "valor aos olhos de Deus" é uma
designação metafórica para o real estado da consciência no momento da
realização do ato. Por sua importância, essa "exceção" é comentada
por Allan Kardec: Todo sacrifício que o
homem faça à custa da sua própria felicidade é um ato soberanamente meritório
aos olhos de Deus, porque é a prática da lei de caridade. Ora, sendo a vida o
bem terreno a que maior apreço dá o homem, não comete atentado o que a ela
renuncia pelo bem de seus semelhantes: faz um sacrifício. Mas,
antes de o cumprir, deve refletir sobre se sua vida não será mais útil do que
sua morte. (grifo meu). É claro
que o ato só é justificável se tem como consequência o bem dos
semelhantes. Dito isso, ainda assim são raríssimas as evidências
mediúnicas que atestariam essa exceção. A maior parte delas relata grandes
sofrimentos com a morte planejada. O que dizem as cartas psicografadas. Como uma extensão dos casos de sequelas de
suicídios malogrados, a visão das "consequências" se explica ao se
conhecer com precisão o estado da alma após a morte. O Espiritismo traz uma
contribuição inovadora porque afirma ser possível conhecer essa situação por
meio de evidências. Os meios de contato com os mortos constituem um
processo antigo, cuja importância para o pensamento religioso e psicológico tem
o seu reconhecimento no Espiritismo. O problema do suicídio adquire uma nova
dimensão apenas quando a visão da vida futura é aceita abertamente. Em "O Céu e o Inferno", II Parte do
Capítulo V, há duas comunicações analisadas por A. Kardec. A do "Suicida
da Samaritaine" e a do "Sr. Félicien". Há também
outros trechos, como na "Revista Espírita" de Agosto de 1860 e
Janeiro de 1869. No caso do suicida de Samaritaine, a conformação do sofrimento
pode ser lida na resposta dada à invocação do Espírito, que ainda alimentava a
ideia de desaparecer, ignorante de seu estado: 5. Que motivo vos levou a vos suicidardes?
Eu morri? (...) Não (...) habito meu corpo (...) Não sabeis quanto
sofro! (...). Asfixio (...). Que uma mão compassiva tente acabar comigo! Encontramos em nossas pesquisas 14 autores de
cartas psicografadas por Chico Xavier reportados como suicidas. Desses
destacamos como exemplo Francisco A. Nogueira Filho (1960-1978). Sua morte se
deu por enforcamento a 15 de agosto de 1978. Sobre sua carta, destacamos alguns
trechos: Ignoro que forças
indomáveis me fizeram aceitar a ideia de uma corda que me pendurasse o corpo, a
fim de que tudo acabasse para mim. (...). O que se passou, não tenho vocábulos
para contar. Quanto tempo me arrastei naquelas sombras densas,
arrependido e infeliz, não sei dizer. Tive medo da vida, sem a presença de meu pai, mas o
medo era o que eu sentia e não aquela temeridade que acabou por me perder. (...)
Depois de um tempo que para mim teve a duração de séculos, uma voz
me veio atender aos gritos de socorro... (grifos meus) A explicação para as "sobras densas" (que também
aparece nas comunicações obtidas por Kardec) pode ser achada neste comentário
de A. Kardec ("Céu e Inferno", II Parte, Cap. V, "O Suicida de
Samaritaine"): Sua alma, embora
separada do corpo, ainda está completamente mergulhada no que se poderia chamar
o turbilhão da matéria corpórea; as ideias terrestres ainda são vivazes; ele
não acredita que está morto. A "duração de séculos", em verdade, foi menos de cinco
anos, pois a data da primeira mensagem é de janeiro de 1982. Em todas essas
cartas - que tocaram profundamente os parentes e lhes serviram como lenitivos
para as dores da separação - os Espíritos suicidas reconhecem a falta, a
passagem pelo sofrimento e a perspectiva de reparação no futuro. Com
relação ao sofrimento experimentado por suicidas com a morte, já havia
observado Kardec pelas comunicações que não havia uma regra uniforme para todos
os casos: Esse estado é
frequente nos suicidas, mas nem sempre se apresenta em condições idênticas;
varia sobretudo na duração e na intensidade segundo as circunstâncias
agravantes ou atenuantes da falta. Ela é frequente entre aqueles que viveram
mais da vida material do que da vida espiritual. Em princípio, não há falta sem
punição; mas não há regra uniforme e absoluta nos meios de punição. (O Céu e o Inferno, II Parte, Exemplos,
Capítulo V - Suicidas: O suicida da Samaritaine). De fato, em uma das cartas
psicografadas, um dos autores reporta o estado de uma parenta suicida cuja
culpa não teria se estabelecido pelo seu estado de doente mental. Perspectivas
com as evidências de além tumulo. Nossa pesquisa bastante imperfeita mostra
que, embora textos considerados sagrados possam veementemente condenar os
suicidas, a maior parte das autoridades religiosas mais lúcidas são cuidadosas
em ressaltar a impossibilidade da condenação absoluta - punição eterna -
pelo desconhecimento das causas que levaram o ato. Em todos os casos, o
suicídio é condenável porque: Entende-se que o direito de subtração da vida não compete ao
homem a quem a vida foi dada por um poder superior. O suicídio rompe laços de família e de
obrigação que o indivíduo tem com sua sociedade e com o poder criador. Nossa conclusão é que, embora as diferenças patentes entre as
crenças, fundamentalmente as religiões condenam o suicídio por motivos
semelhantes. Porém, o Espiritismo permite pesquisar as consequências do ato
após a morte: Por causa do
rompimento abrupto do fluxo vital que viria a termo com a morte natural, o
suicida está exposto a uma variedade de sofrimentos cuja duração não pode ser
prevista e que gerará consequências para sua vida futura. Alguns intelectuais, ignorantes da fenomenologia psíquica,
mantem a opinião de que a visão de sofrimento dos suicidas no além túmulo é um
recurso psicológico - que se acredita inválido - para desmotivar o suicídio.
Tal como a condenação eterna, seria um recurso para "assustar criancinhas".
Ingenuamente creem eles, em sua visão materialista, que o ser não sobrevive e,
portanto, não há porque se preocupar com isso. Como já dissemos antes, o
materialismo não tem como frear o impulso suicida, sendo na verdade um
potencializador dele, porque sua principal motivação é a falta de fé no futuro
e a crença errônea de que a morte é o fim do ser. O Espiritismo, ao abrir um
canal com os mortos - antes considerado proibido ou inaceitável por algumas
religiões - permite conhecer em detalhes o estado da vida futura, conforme os
atos previamente cometidos. Trata-se, portanto, de uma extensão dos casos das
sequelas dos suicídios frustrados em estado desencarnado. Não mais nosso estado presente de compreensão se baseará em
antigas tradições ou crenças, mas na comprovação e nas evidências - que ainda
não são universalmente aceitas por razões alheias aos fatos. É um novo mundo
que se abre, permitindo o planejamento de nossas vidas pelo conhecimento das
consequências finais dos erros alheios. A certeza na continuidade abranda as
dores do agora e permite que o suicídio deixe de ser considerado como solução
final. O suicídio é, acima de tudo, um problema de saúde espiritual e como tal
deve ser tratado. www.eradoespirito.blogspot.com.
Abraço. Davi
Editor do Mosaico.
Uma oração. Divina, Santíssima e Amada Maternidade Cósmica. Concede-nos a graça
de permanecer unidos a tua beatífica bondade e compaixão. Proteja todos nós, do
egoísmo, narcisismo, masoquismo e sadismo. Elementos corruptores da vida
encarnada outorgada pela divindade. Tendo seu tempo de duração e suas
implicações cármicas em nossas ações e disciplina. Quando extrapolamos os
limites do bom senso e integração de amor com as vidas humana, animal,
vegetal e mineral. Irrefletidamente abortar a vida, fere mortalmente todo o
processo evolucionário que adiantaria nosso progresso espiritual. Regredindo em
centenas de encarnações num doloroso sofrimento, que passa a tornar-se a
marca ou sinal de nossa transgressão voluntária. Apagado posteriormente em
centenas de renascimentos para saldar esse terrível e impensado
débito. Mãe Divina, indubitavelmente, temos no sofrimento o esmerilar de
nosso quaternário inferior (físico, energético, emocional e mental), quando
passado na normalidade encarnada cotidiana. Entretanto, ele, na situação onde a
personalidade não foi formalmente destruída pelos senhores do carma, devido a
obstrução voluntária egoisticamente realizada é uma extrema desconsolação.
Podendo ser comparado ao esmagar de algumas toneladas de pedra numa bola
de grafeno (um dos metais mais duros do mundo). Na mitologia temos o
exemplo da maldição de Prometeu que acorrentado ao cume do monte Cáucaso, por
haver roubado o fogo dos deuses e dado aos homens. Por causa desse delito,
Zeus, o deus do Olimpo, ordenou que todos os dias uma águia (ou corvo) fosse ao
monte é dilacerasse o fígado do Titã Prometeu, que horas depois, começava
a regenerar-se. Mãe Divina, compunge nosso coração para aproveitar bem
cada segundo, minuto, hora, dia, mês e ano de nossa vida. Praticando o amor e
compaixão para com todos os seres, inclusive nós mesmos. Em I Samuel 2,6 é dito
"O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer a sepultura e faz tornar
a subir". Mãe Divina, guarde a todos nós muçulmanos, budistas, judeus,
hinduístas, Hare krishnas, religião afrodescendentes, cristãos e todos os
seguimentos espirituais para não atentarmos contra nossa preciosa e divina
vida. Que possamos, ao término de nossa encarnação, oferecer-te com honra
e veneração essa existência, que gratuitamente nos oferecestes, como forma
de evolução para alcançar a completude com o Espírito Eterno. Louvado seja teu
nome, Oh! Divina, Santa e Imaculada Mãe Universal. Tu que continuas intercedendo
no Trono da Graça para o bem de todos os teus filhos aqui na Terra. Amém!
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
AMPLIANDO O AUTOCONHECIMENTO
Islamismo. www.mesquitadobras.org.br.
Por Ahmed Ismail. AMPLIANDO O AUTOCONHCIMENTO. O Islam, quer seja em seus
aspectos mais evidentes ou em sua dimensão esotérica, enfatiza o
autoconhecimento como “caminho” tanto para a compreensão como para a própria
“prática real” do din. O Islam, quer seja em seus aspectos mais evidentes ou em
sua dimensão esotérica (interior), enfatiza o autoconhecimento como “caminho”
tanto para a compreensão como para a própria “prática real” do din. Este
necessário autoconhecimento é citado de maneira constante no Alcorão e devido a
sua complexidade, isto ocorre em passagens que poderiam ser tomadas como não
relacionadas entre si. Contudo, também as fiéis tradições do Mensageiro
(saas) e dos purificados Imames de Ahlul Bait (as) de diversas maneiras chamam
a atenção para a importância do autoconhecimento demonstrando com clareza que a
própria Palavra Revelada trata o tema em muitos de seus aspectos e isto se
encontra esquematizado no Livro de Allah como uma Ciência Divina por
excelência. Ayats sagrados como: “QUE O HOMEM CONSIDERE, POIS, DO QUE FOI
CRIADO!” (S.86 V.5). “PELA ALMA E POR QUEM A APERFEIÇOOU E LHE IMPRIMIU O
DISCERNIMENTO ENTRE O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO.” (S. 91 V.7/8). “E QUANDO
TEU SENHOR DISSE AOS ANJOS: VOU INSTITUIR UM LEGATÁRIO NA TERRA ...” (S. 2 V.
30). Fazem parte de uma série de passagens em que Allah fala ao homem sobre o
homem e o convoca a reflexão sobre si mesmo, sobre os objetivos de sua origem,
a natureza de sua essência e a sua posição no universo. A finalidade deste
autoconhecimento não é restrita ao aprimoramento moral e espiritual, neste
importante progresso da consciência reside também o alcance de uma percepção
madura e virtuosa diante dos desafios da vida prática e dos problemas inerentes
a cada época. O mundo moderno forjado sob a égide do predomínio das relações
econômicas tem apresentado desafios para os seres humanos os quais jamais
tinham sido conhecidos em qualquer outro período da história. Os avanços
tecnológicos, não obstante, tenham produzido inegáveis benefícios trouxeram
consigo uma gama de novas visões e conceitos sobre o homem e sua existência.
Uma vigorosa mentalidade materialista que vê na óbvia superioridade da máquina
sobre o homem na produção um forte argumento para “subestimar” o valor humano
se desenvolveu e se propagou. Correntes ideológicas firmemente ancoradas na
lógica do lucro geraram expectativas cruéis sobre os indivíduos. O homem
moderno se confronta com angustiantes expectativas de produção e consumo que
manipulam sua autoestima e seu auto respeito. No âmago desta realidade está a
falsa percepção incutida nos indivíduos de que um homem vale o que produz e o
que é capaz de consumir. Podemos afirmar que esta é a mais destrutiva concepção
sobre o homem e ela está na base de todas as inquietações e frustrações e em
todo processo alienante que arrasta o ser humano a viver mais como um animal e
a desperdiçar sua existência. Se tomarmos como exemplo os EUA, veremos que
por uma ironia a nação mais rica do mundo é também a nação onde uma maior
ansiedade e infelicidade se fazem presentes. Os dois gêneros de livros que mais
vendem nos EUA são os que prometem receitas para se ficar rico ou recobrar a
autoestima (o que via de regra significa “ter”). A consequência imediata é a
frustração, o alcoolismo, o suicídio, as drogas para uma imensa maioria que não
chegará “ao lugar ao sol” que muito poucos alcançam. E ao vermos os que
“alcançam” percebemos que a realidade não é muito diferente. O número de
grandes astros da fama, de magnatas, homens e mulheres bem-sucedidos que
encontram a frustração no fim do túnel é incalculável. Esta é uma dura
realidade que é sutilmente oculta pelo sistema: tanto o fracasso como o sucesso
matam do mesmo jeito e com os mesmos sintomas. A ansiedade de “ter” e a
frustração do “não ter” possuem em comum o mesmo referencial: neles não há
autoconhecimento, ao contrário, há uma absoluta negação ao
autoconhecimento. A palavra pecado em sua origem significa “errar o alvo”
e ela se encaixa de modo perfeito para entendermos o processo destrutivo desta
mentalidade materialista. Ao abandonarmos o vital empenho da reflexão sobre
quem realmente somos e sobre qual o verdadeiro objetivo de nossa existência,
somos induzidos a “crer” no que o mundo, um mundo dirigido pelo dinheiro não
pela verdade, deseja nos fazer crer. Esta fuga sistemática do autoconhecimento
é a força motriz de um estilo de vida inteiramente devotado ao exterior, a
diversão, ao consumo desenfreado e a uma percepção dominada pela idéia de que
“somos o que produzimos e o que podemos consumir”. Esta mentalidade corresponde
a uma espécie de “darwinismo social” no qual seria uma seleção natural que
determinaria o bem-estar dos fortes e a desgraça dos fracos e que, por
conseguinte, em última análise “a culpa” do insucesso deveria ser inteiramente
atribuída aos próprios indivíduos. Essa definição simplista e cruel apenas
amplia a força destrutiva dos sentimentos e das frustrações para os quais
grande parte dos indivíduos estão sendo arrastados no mundo moderno. Além
de cruel, esta ideia é cínica, na medida que pretende ocultar as verdadeiras
implicações políticas e econômicas que dirigem o mundo e as sociedades para uma
realidade cada vez mais excludente em que as necessidades e o valor dos seres
humanos são cada vez menos levados em conta. O Autoconhecimento para Uma
Transformação Necessária. A palavra “conversão” no sentido em que é dado a ela
no que diz respeito à religiosidade, possui em si uma bela definição do
“aprimorar o autoconhecimento”. Quando começamos a compreender quem realmente
somos, não segundo o que mundo e as regras econômicas pretendem nos fazer crer,
mas sim, segundo o que Allah revelou sobre a natureza humana e sua posição no
cosmos, e na medida em que passamos a viver de acordo com este conhecimento,
então, somente a partir daí que nossas vidas passam a este estágio de
“conversão”. Neste estágio é que se encontra a reavaliação de nossos objetivos,
das nossas relações com as outras pessoas, uma reestruturação de nossos valores
e de nossa ética em conformidade à Diretriz Divina. O homem comum, o homem
produto desta época é mais como “um produto em série”. Se olharmos para os seus
objetivos, suas relações no trabalho, na família e todo o conjunto de seus
costumes, crenças e valores morais e éticos perceberemos que todos esses itens
estão submetidos aos padrões do dinheiro, da produção e do consumo. São estes
padrões que afinal determinam o que há e o que não há de ser. Para compreender
melhor isso tomemos como exemplo um homem rico e famoso. Se de repente ele se tornar
um homem pobre, quais garantias ele tem de que o seu círculo de amizades atual
permanecerá? De que sua esposa não o abandonará? De que toda sua família não
dará as costas para ele? Este é um exemplo do que significa relações pessoais
definidas pelos padrões do dinheiro, da produção e do consumo. O mesmo
motivo é que nos tornamos uma sociedade que não suporta a velhice, não só por
que ela nos lembra a morte, mas principalmente porque ela significa “sair do
padrão exigido de produção”. Então, nos desfazemos de nossos idosos como de
“trastes incômodos”, nós os enviamos para asilos para que esperem a morte. Dêem
uma olhada nos hospitais e nos manicômios. Eles estão repletos de pessoas que
foram abandonadas por seus familiares. Pessoas que quando eram saudáveis e
produziam tinham filhos, maridos, esposas e agora que estão gravemente enfermos
se tornaram “estorvos”. É bem verdade que esta ainda não é uma regra geral
da sociedade moderna, todavia é preocupante a sua crescente incidência nas
últimas décadas na mesma proporção em que os valores religiosos decaem.
Portanto, é essa busca do auto-conhecimento dirigida para a reavaliação dos
nossos objetivos e da nossa visão da vida que se faz necessária. E ela é vital
para que não nos tornemos vítimas e algozes de nós mesmos. Há um profundo
senso científico e lógico no conhecimento espiritual legado pelos Profetas (as)
e Imames (as). Eles não abordavam o conhecimento para a teoria, muito ao
contrário, eles o aplicavam segundo a lógica que podia ser compreendida pelo homem
comum. Concernente ao tema poderíamos citar a conhecida parábola atribuída
a Isa (as) sobre a edificação da casa sobre a rocha ou sobre a areia como o
perfeito método para a reavaliação de nossos objetivos e a redefinição de nossa
vida. O viver segundo uma mentalidade irreligiosa e materialista se assemelha
ao “construir a casa sobre a areia”. Erigir nossa vida sobre valores e
objetivos falsos e inconsistentes. Valores e objetivos que de um modo ou de
outro, a curto ou longo prazo, nos conduzirá a frustração. Ampliar o nosso
autoconhecimento significa, sobretudo, nos livrarmos das muitas falsas
concepções que a sociedade materialista nos vende como verdades acabadas, sobre
nós mesmos e sobre os demais seres humanos e sobre a própria existência. É
compreender que a mentalidade materialista e irreligiosa existe para escravizar
nossa mente e o nosso coração para que não encontremos qualquer traço de
autoestima e auto respeito senão servindo a ela. Esta mentalidade irreligiosa
se alimenta da infelicidade e da ignorância do homem sobre si mesmo. Ao
compreendermos isso, teremos dado um passo importante. O segundo passo é
“ouvir” “meditar atentamente” sobre o que Allah nos fala no Alcorão sobre “quem
realmente somos” e quais são os verdadeiros objetivos de nossa existência. Uma
pessoa que dê estes dois passos e que se firme neste caminho não estará
vulnerável ao que tem conduzido milhões de pessoas a frustração, a destruição
da autoestima e do auto respeito e consequentemente as muitas formas de
autodestruição que o sistema materialista nos coloca a disposição. E quando
falo de autodestruição, não me refiro apenas aos seus aspectos mais óbvios do
alcoolismo ou das drogas. A autodestruição na maioria das vezes é um processo
moral e psicológico que atinge a alma humana. É uma lamentável ironia que
a sociedade moderna dirigida por esta mentalidade materialista e irreligiosa
inclua na lista das ambições o “viver muito”. A medicina alopática dedica um
grande esforço de pesquisa para encontrar recursos para “prolongar a vida”.
Todavia, está fora de questão encontrar meios de garantir uma “vida com paz de
espírito”. É assustador pensarmos que poderemos viver muito mais tempo não
obstante não haja como garantir “satisfação na alma” “sentido a esse viver” de
modo a que não seja apenas “uma lenta sucessão de dias e noites para busca de
satisfação, enfastio, e, naturalmente, o inevitável envelhecimento e a
aproximação da morte. Tudo o que este sistema irreligioso e materialista tem a
oferecer e pode garantir é na melhor das hipóteses o enfastio dos sentidos, a
sensação do acúmulo de coisas que possa preencher o vazio da alma. Olhe
para a publicidade (que é uma espécie de voz deste sistema), veja o que ela
está a propor: o “novo” e supermoderno carro que lhe dará (?) sensação de poder,
liberdade, independência e principalmente STATUS perante os demais. O “novo”
produto ou método miraculoso que lhe dará (?) a juventude permanente, a beleza
“que desafia o tempo”. Estas e todas as outras promessas da publicidade estão
dirigidas para a sua “insatisfação mais profunda” ao seu medo ao
“autoconhecimento”, e por conseguinte, a “ausência de paz de espírito” que o
domina. Por isso mesmo este sistema irreligioso e materialista precisa de nossa
insatisfação, de nossa ausência de paz e de nossa rejeição ao autoconhecimento.
Para que você busque a “sensação” de liberdade ou de poder a todo custo é
preciso que você não saiba o que é e não tenha nenhuma verdadeira liberdade ou
poder em sua alma. Acaso podemos imaginar um publicitário tentando vender
“promessas vazias” de liberdade, poder ou beleza e juventude permanente para um
homem que tenha encontrado “um sentido espiritual em sua vida”? Decerto que
não. Por esta razão é que este sistema materialista procura “destruir” a
verdadeira religiosidade, substituí-la pelo que seja falso e superficial, pelo
que possa “ser tratado como produto de consumo”. Este sistema desenvolveu a
indústria da fé no ocidente na qual é possível atrair pessoas com slogans de
“Jesus o salvará” ou “todos os seus problemas podem ser resolvidos agora”. Do
mesmo modo ele pode atrair pessoas para “seitas místicas da moda” ou qualquer
outro brinquedo da mente que dará a elas a “sensação” de “encontro interior”
(desde que elas possam pagar por isso). O ampliar o autoconhecimento requer
a consciência de todos esses processos que visam nos afastar da verdade. Porque
o fato concreto é que o “encontro com a verdade” nos causa medo. A verdade não
se conforma as nossas ilusões, ao contrário, ela as desfaz. Então, o caminho do
autoconhecimento requer coragem. E este é o real significado da “conversão”.
Significa que não podemos continuar a viver e pensar segundo o que o sistema
materialista e irreligioso nos propõe. Significa que temos que rejeitar os seus
valores e padrões, reconhecê-los como falsos e então, substituí-los, pelos
valores e padrões do DIN. Isto é, fundamentar a casa sobre a
Rocha. Aplicar estes valores e padrões na escolha de nossos objetivos, nas
nossas atitudes e no modo como nos relacionamos com nossos semelhantes. Significa
que não poderemos “amar” a Allah, ou nossa esposa ou nossos filhos e amigos
segundo os interesses da mentalidade irreligiosa. Mas sim, aprender a fazê-lo
segundo os padrões espirituais. Não poderemos continuar a nos
relacionarmos com Deus como quem tenta se utilizar disso para este ou aquele
interesse, não poderemos continuar a “manipular” e nos “utilizar” das pessoas e
chamar isso de “amor” ou “amizade”. Somente quando alguém estabelece está
“mudança de valores” é que se torna Religiosa. E então a mentalidade
materialista, o sistema irreligioso não pode mais traficar suas “falsas
esperanças” em sua vida. Isso se assemelha a um homem que, enquanto não conheça
a moeda corrente autêntica de um país estranho, aceitará facilmente qualquer
moeda falsa que seja oferecida a ele. Porém, ao conhecer a moeda verdadeira não
mais aceitará a falsa. Quando alguém amplia seu autoconhecimento através da
Orientação do Din, conhece a moeda autêntica. Tudo o que a mentalidade
materialista tem a oferecer são moedas falsas que não são o que parecem ser. Se
fugirmos do autoconhecimento permanecemos tolos. Continuaremos aceitando moedas
falsas. Inquietações e angústias cuidadosamente “fabricadas” inspiradas em
“necessidades imaginárias” que o sistema cultiva em nossa mente e em nosso
coração continuarão fazendo com que sejamos e vivamos segundo expectativas
falsas. E este é um caminho de infelicidade garantida nesta vida e na vida
eterna. Autoconhecimento para Autêntica Autoestima. Nada é mais verdadeiro
em relação a autoestima e o consequente auto respeito do que o reconhecimento e
a adoção do Din como diretriz para nossa vida. Primeiramente, é necessário nos
tornarmos conscientes de que a autêntica autoestima nada tem a ver com o que a
mentalidade materialista nos oferece como “visão sobre nós mesmos”. Quando
seguimos a mentalidade materialista nos convencemos que a nossa autoestima deve
se basear em “nos sentirmos superiores aos demais” e em colocarmos nossos
interesses e ambições pessoais num pedestal e então “servirmos nossa vaidade”.
Esta mentalidade irreligiosa nos condiciona a crença de que quanto mais
adotemos estes princípios maior será a nossa autoestima e que isto significa
“amar a si próprio”. E, no entanto, tudo isto nada mais é do que “ruína” para a
alma e para o coração humano. O fato é que quanto mais alguém deseja
“superioridade sobre os demais” maior é a sua sensação de “pequenez” o que o
leva a atitudes ignóbeis e indignas. Tanto mais alguém viva para prestar culto
a sua vaidade pessoal, maior será sua incapacidade de encontrar satisfação e
paz de espírito. Desde que seus interesses e ambições pessoais dirijam sua
consciência é certo que praticará injustiças e traições. Em suma, mesmo que
venha a iludir aos outros, jamais alcançará algo próximo de qualquer Autoestima.
Será na melhor das hipóteses, um dos que enganaram-se a si próprios até
acreditarem em suas próprias mentiras. Esse padrão de comportamento e esta
mentalidade narcisista tornou-se dominante nos dias atuais. A sociedade moderna
exalta como um Modelo Ideal de Vida o culto personalista, o culto ao corpo e as
conquistas materiais. As pessoas são levadas a crer que a Autoestima
reside no “ter”, mas, não apenas no ‘ter’ mas também no “Ostentar”. Grande
parte da indústria do entretenimento existe em função desse narcisismo febril.
Artistas, modelos, homens e mulheres bem-sucedidas são consagrados como “ídolos
a serem venerados e imitados”. Curiosamente, quando atentamos para essas
pessoas, para o que elas dizem e fazem, para suas expectativas e para o modo como
veem a vida percebemos que tudo nelas é “falso” sua suposta “felicidade” é
movida pela satisfação da vaidade, o que requer destaque, notoriedade pública
constante. Suas vidas são completamente vazias do mesmo modo que elas próprias
são “vazias”. Na verdade estão condenados a representar eternamente a imagem
que criaram de si próprias. Não passam de “ídolos de carne e osso” e como tal
não mais possuem domínio sobre suas vidas. Esse tipo de “amor-próprio” se
assemelha a cocaína. Cedo ou tarde todo prazer que possa proporcionar termina
em frustração e derrota. Não há um caminho para a autêntica autoestima senão
através do autoconhecimento pela adoção das diretrizes de Allah. Nenhuma
verdadeira autoestima pode ser alcançada enquanto nos deixarmos iludir pela mentalidade
materialista que nos faz confundir felicidade com “diversão”, amor com “tudo o
que se possa comprar”. Não há nenhuma “autoestima” no orgulho e na vaidade
simplesmente porque “não se ama o que não se conhece”. Palavras Finais. A
ênfase dos preceitos do Din e os ensinamentos dos profetas e dos Imames está no
direcionamento de nossa consciência ao aprendizado da humildade e da
generosidade, na adoção de um modo de vida simples para que nosso coração e a
nossa razão encontrem o necessário equilíbrio. Sobretudo, há a ênfase neste
aprendizado lento e progressivo de compreender o significado de nossas vidas,
que em outras palavras se trata do ampliar o nosso “autoconhecimento”. O mundo
atual representa imensos desafios neste caminho. Falsas expectativas e inquietações
se interpõem entre cada um de nós e as diretrizes divinas do
Islam. Entretanto, aqueles que pela misericórdia de Allah adotaram esta
Senda contam com um firme sustentáculo a seu alcance para superar esses
obstáculos. O sagrado Alcorão e a Sunnah autêntica do Mensageiro (saas) e dos
Imames de sua Casa (as) não estão distantes dos que crêem e se firmam. As
sombras da ignorância e a Luz do autoconhecimento não distam mais um do outro
do que nossas próprias escolhas diárias. Vencer as inquietações e as angústias
do mundo em que vivemos é um desafio menor do que vencermos nossas próprias
apreensões relacionadas ao nosso excessivo amor à vida mundana e o nosso apego
as nossas próprias paixões e caprichos. Por esta razão é tão necessária uma
transformação de nossa consciência pela Fé e pela ampliação do
autoconhecimento. www.mesquitadobras.org.br. Abraço. Davi
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