quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O QUE É ESCATOLOGIA


Catolicismo. www.universocatolico.com.br. O QUE É ESCATOLOGIA. Escatologia é o estudo sobre os “últimos acontecimentos”. A palavra vem do grego eschatón (= último). Se refere ao término da história da salvação. Sem isto não compreendemos a vida da Igreja. Os romanos diziam: “em tudo que faças, considera o fim, pois é o fim que dita o itinerário a percorrer”. A realização da Igreja se dará plenamente só na eternidade. O Concílio Vaticano II afirma: “É no fim dos tempos que será gloriosamente consumada [a Igreja], quando, segundo se lê nos Santos Padres, todos os justos, desde Adão, do justo Abel até o último eleito, serão congregados junto ao Pai na Igreja universal” (LG,2). “A Igreja à qual somos todos chamados em Jesus Cristo (...) só será consumada na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas; e, como o gênero humano, também o mundo inteiro, que está intimamente unido ao homem e por ele atinge o seu fim, será totalmente renovado em Cristo” (LG,48). Muitas passagens das Escrituras mostram isso: Atos 3,21 - “Enviará ele o Cristo que vos foi destinado, Jesus, aquele que o céu deve conservar até os tempos da restauração universal, da qual falou Deus pela boca dos seus santos profetas”. Quando de sua vinda gloriosa, Cristo inaugurará o seu Reino definitivo e toda a criação será renovada. 1 Coríntios 15,24-28 - “Depois, virá o fim, quando entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés (...). E, quando tudo lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos”. São Paulo nos ensina que este é o “misterioso” desígnio da vontade do Pai na plenitude dos tempos: Efésios 1,10 - “Reunir em Cristo todas as coisas que estão na terra e no céu”. Colossenses 1,20 - “E por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quando existe na terra e nos céus”. São Pedro fala dessa renovação do mundo e da gloria da Igreja: 2 Pedro 3,10-13. “Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém (...) Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça”. Sabemos que São Pedro escreve numa linguagem apocalíptica, e que não pode ser interpretada ao pé da letra. O que sabemos de certo é que haverá a consumação do universo e a glória da Igreja, segundo o desígnio de Deus. Isaías 65,16 “Eis que faço novos céus e nova terra; e ninguém mais se recordará das coisas passadas; elas já não voltarão à mente”. Apocalipse 21,1 “Vi um céu novo e uma terra nova, pois o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido”. É interessante notar o que Jesus disse aos apóstolos: Mateus 19,28 - “No dia da renovação do mundo, quando o Filho do homem estiver sentado no trono da glória (...)” Mateus 28,20 - “Eis que estou convosco até a consumação do século”. Com relação à data em que acontecerá a renovação do mundo e a inauguração definitiva do Reino de Deus, ninguém sabe e não deve especular a respeito. Muitos se enganaram sobre isto e levaram muitos outros ao engano e ao desespero. Até grandes santos da Igreja erraram neste ponto. Podemos citar alguns exemplos: São Hipólito de Roma (†235) - chegou a afirmar que o final do mundo seria no ano 500 (...). Santo Irineu (†202) - confirmava a tese do Ps Barnabé, de que o final seria no ano 6000 após a criação do mundo (...). Santo Ambrósio (†397) e São Hilário de Poitres (†367) - apoiaram a mesma tese anterior. São Gaudêncio de Bréscia (†405) - indicava o ano 7000 após a criação. No século V, com a queda de Roma (476), São Jeronimo (†420), São João Crisóstomo (†407), São Leão Magno (†461), defendiam que face à queda de Roma, o fim do mundo estava próximo (...) No século VI e VII, São Gregório Magno (†604) afirmava como próxima a vinda de Cristo (...). Muitas vezes as profecias sobre a vinda de Cristo iminente são sugeridas pela necessidade que temos de encontrar uma “saída” para os tempos difíceis em que se vive. Por isso a Igreja é muito cautelosa nesse ponto, e sempre nos lembra: Atos 1,7 - “Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por sua própria autoridade”. Marcos 13,32 - “Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém os conhece, nem mesmo os anjos do céu, nem mesmo o Filho, mas, sim, o Pai só”. Santo Agostinho interpreta essa passagem dizendo que Jesus diz não saber esta data, porque está fora do depósito das verdades que Ele veio revelar aos homens; não pertence à sua missão de Salvador revelar essa data (In Ps 36 Migne 36,355). O Magistério da Igreja quer que se respeite essa vontade de Deus de deixar oculta aos homens essa data. No Concílio Universal de Latrão V, em 1516, foi decretado: “Mandamos a todos os que estão, ou futuramente estarão incumbidos da pregação, que de modo nenhum presumam afirmar ou apregoar determinada época para os males vindouros para a vinda do Anticristo ou para o dia do juízo”. Com efeito, a Verdade diz: “Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por Sua própria autoridade. Consta que os que até hoje ousaram afirmar tais coisas mentiram, e, por causa deles, não pouco sofreu a autoridade daqueles que pregam com retidão. Ninguém ouse predizer o futuro apelando para a Sagrada Escritura, nem afirmar o que quer que seja, como se o tivesse recebido do Espírito Santo ou de revelação particular, nem ouse apoiar-se sobre conjecturas vãs ou despropositadas. Cada qual deve, segundo o preceito divino, pregar o Evangelho a toda a criatura, aprender a detestar o vício, recomendar e ensinar a prática das virtudes, a paz e a caridade mútuas, tão recomendadas por nosso Redentor”. Em 1318, o Papa João XXII, condenando os erros dos chamados Fraticelli disse: “Há muitas outras coisas que esses homens presunçosos descrevem como que em sonho a respeito do curso dos tempos e do fim do mundo, muitas coisas a respeito da vinda do Anticristo, que lhes parece estar às portas, e que eles anunciam com vaidade lamentável”. Declaramos que tais coisas são, em parte, frenéticas, em parte doentias, em parte fabulosas. Por isso nós os condenamos com os seus autores em vez de as divulgar ou refutar” (Curso de Escatologia - Dom Estevão Bettencourt, págs. 123/124). A esperança da Igreja é a vida eterna onde o Reino de Deus será pleno. Jesus disse a Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (João 18,36). Por isso, a Igreja aguarda vigilante a vinda do Senhor. Era a esperança dos Apóstolos: Colossenses 3,4 - “Quando Cristo, nossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória”. 1 João 3,2. Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, por quanto o veremos como Ele é. Filipenses 3,20 - “Nós porém, somos cidadãos dos céus”. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura”. A Igreja sabe que é peregrina neste mundo. O termo Paróquia quer dizer “terra de exílio”. São Paulo expressa bem esta realidade: 2 Coríntios 5,6 - “Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto do Senhor”. E o Apóstolo suspirava estar com Cristo: Filipenses 1,23 - “Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo - o que seria imensamente melhor”. Filipenses 1,21 - “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Antes, porém, de reinarmos com Cristo compareceremos diante dele: 2 Coríntios 5,10 - “Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo, a fim de cada um ser remunerado pelas obras da vida corporal, conforme tiver praticado o bem ou o mal”. E a esperança do Apóstolo é grande: Rom 8,18 - “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não tem proporção alguma com a glória que há de revelar-se em nós “. 2 Timóteo 2,11-12 - “Eis uma verdade absolutamente certa: Se morrermos com Ele, com Ele viveremos. Se soubermos perseverar com Ele reinaremos”. Tito 2,13 - “Na expectativa da nossa esperança feliz, a aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”. Por esta esperança a Igreja busca a santidade, pois sabe que sem ela “ninguém pode ver o Senhor” (Hebreus 12,14). Ser cristão em última instância, é desejar o céu, buscar a santidade e, para isso, desprende de todas as satisfações da terra, aspirando as celestes. Deus fez tudo nesta vida precário, passageiro, transitório, para que não nos acostumemos a viver na terra, como se aqui fosse o céu. O destino da Igreja é o céu, a terra é o caminho. Os santos ansiavam pelo céu, diziam como santa Teresinha: “Tenho sede do céu, dessa mansão bem-aventurada, onde se amará Deus sem restrições”. São belas, sobre o céu, as palavras de São Paulo: 1 Coríntios 2,9 - “Os olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem coração humano imaginou o que Deus tem preparado para aqueles que o amam”. 2 Coríntios 5,1 - “Sabemos, com efeito, que, quando for destruída esta tenda em que vivemos na terra, temos no céu uma casa feita por Deus, uma habitação eterna, que não foi feita por mãos humanas”. E não se importava com o próprio envelhecimento: 2 Coríntios 4,16 - “Ainda que em nós se destrua o homem exterior, o interior renova-se de dia para dia”. Jesus nos chama a olhar para o céu: Mateus 6,19-21 - “Não ajunteis para vós tesouros na terra (...) Ajuntai para vós tesouros no céu (...) porque, onde está o teu tesouro, lá também está teu coração”. A maioria dos homens, mesmo os cristãos, ainda têm o tesouro e o coração na terra; por isso suas vidas espirituais são tíbias e os frutos são poucos. Mateus 18,21 - “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, e dá aos pobres, terás um tesouro no céu”. Não é sem razão que São Leão Magno dizia que “as mãos do pobre são o Banco de Deus”. Marcos 8,36 - “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida? “ Santo Agostinho (354-430) perguntava: “De que vale viver bem, se não me é dado viver sempre? João 14,2-3 - “Na cada do meu Pai há muitas moradas... vou preparar-vos um lugar. Depois de ir, e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais”. Infelizmente hoje, para o mundo, eternidade parece ser uma palavra morta. É a chamada “secularização”, o amor a este século, ao tempo presente. O materialismo, o relativismo, o liberalismo e o hedonismo (busca do prazer como fim) geraram a perda do infinito, do céu, onde está a grande realização do homem. Por isso hoje ele se arrasta como um verme e se desespera na lama da imoralidade, da depressão e do vazio. Pagamos dolorosamente o preço da perda da fé e da esperança. Só Deus pode satisfazer “a fome” infinita que o homem traz em si - como ensina Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja - pois, as criaturas não podem satisfazê-lo, uma vez que são inferiores ao homem. “Só Deus basta”. O Corpo de Cristo, a Igreja, subsiste em três estados: militante, que está na terra a lutar; padecente, que se purifica no purgatório e triunfante, que já vive a bem-aventurança do céu. Ensina-nos o Concílio Vaticano II que: “Até que o Senhor venha em sua majestade e com ele todos os anjos, e destruída a morte, todas as coisas lhe sejam sujeitas, alguns dentre os seus discípulos peregrinam na terra, outros, terminada esta vida, são purificados, enquanto outros são glorificados, vendo claramente o próprio Deus trino e uno, assim como é”. “A união dos que estão na terra com os irmãos que descansam na paz de Cristo, de maneira alguma se interrompe; pelo contrário, segundo a fé perene da Igreja, vê-se fortalecida pela comunhão dos bens espirituais”(LG, 49). Essa comunhão de bens espirituais, que é um verdadeiro intercâmbio de graças, é a riqueza da “Comunhão dos Santos”. Diz a “Lumen Gentium” que: “Pelo fato de os habitantes do Céu estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por nós junto do Pai, apresentando os méritos que alcançaram na terra pelo único mediador de Deus e dos homens, Jesus Cristo. Por conseguinte, pela fraterna solicitude deles, a nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio” (idem) São Domingos, já moribundo dizia a seus irmãos: “Não choreis! Ser-vos-ei mais útil após a minha morte e ajudar-vos-ei mais eficazmente do que durante a minha vida” (CIC, 956). O mesmo dizia Santa Teresinha: “Passarei meu céu fazendo bem na terra” (idem). A Igreja acredita desde os primórdios na salutar “intercessão dos santos” e também na “comunhão com os falecidos”. E nos ensina que: “A nossa oração por eles pode não somente ajudá-los, mas também tornar eficaz a sua intercessão por nós” (CIC, 958). A primeira atestação da crença numa oração dos justos falecidos em favor dos vivos, a Igreja viu no segundo livro de Macabeus. Judas Macabeus, enfrentando o adversário Nicanor, que desejava destruir o Templo, na época da perseguição do terrível Antíoco Epífanes (166-160) AC., colocando toda a sua confiança em Deus, teve um sonho, uma espécie de visão: Ora, assim foi o espetáculo que lhe coube apreciar: Onias, que tinha sido sumo sacerdote, homem honesto e bom, modesto no trato e de caráter manso (...) estava com as mãos estendidas, intercedendo por toda a comunidade dos judeus. Apareceu da mesma forma, um homem notável pelos cabelos brancos e pela dignidade, sendo maravilhosa e majestosíssima a superioridade que o circundava. Tomando a palavra disse Onias: Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito reza pelo povo e por toda a cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus-. Estendendo por sua vez a mão direita, Jeremias entregou a Judas uma espada de ouro, pronunciando essas palavras enquanto a entregava: - Recebe esta espada santa, presente de Deus, por meio da qual esmagarás os teus adversários (2 Macabeus 15,12-15). Esta visão de Judas Macabeus, mostra o grande sumo sacerdote Onias e o profeta Jeremias, ambos, então, já falecidos, intercedendo pelo povo de Deus. Encontramos na Bíblia, a passagem em que Deus manda a Abimeleque que peça orações a Abraão: -Ele rogará por ti e tu viverás- (Gênesis 20,7-17). Ainda sobre a intercessão dos santos por nós, a Igreja deixou claro no Concílio de Trento (1545-1563): Os santos que reinam agora com Cristo, oram a Deus pelos homens. É bom e proveitoso invocar suplicantemente e recorrer às suas orações e intercessão, para que nos obtenham os benefícios de Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, único Salvador e Redentor nosso. São ímpios os que negam que se devam invocar os santos que já gozam da eterna felicidade no céu.Os que afirmam que eles não oram pelos homens, os que declaram que lhes pedir por cada um de nós em particular é idolatria, repugna à palavra de Deus e se opõe à honra de Jesus Cristo, único Mediador entre Deus e os homens- (Sessão 25). Enfim, a Igreja é a “comunhão dos santos”. Na profissão de fé solene - o Credo do Povo de Deus - disse Paulo VI: “Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, dos que são peregrinos na terra, dos defuntos que estão terminando a sua purificação, dos bem-aventurados do céu, formando todos juntos uma só Igreja, e cremos que nesta comunhão o amor misericordioso de Deus e dos seus santos está sempre à escuta das nossas orações “ (CPD, 30). A Eucaristia que celebramos é a antecipação litúrgica da feliz eternidade no Céu. Esta alegria que não tem fim, sempre foi representada pela festa de Bodas, do Noivo (Jesus) com a Noiva (a Igreja). A Eucaristia é a antecipação da consumação da glória da Igreja. Diz o Catecismo que: “À oferenda de Cristo unem-se não somente os membros que estão na terra, mas também os que já estão na glória do céu” (CIC, 1370). O altar em torno do qual a Igreja celebra a Eucaristia, representa, ao mesmo tempo, dois mistérios: “o altar do sacrifício” e a “mesa do Senhor” (CIC nº 1383). São João viu todo o esplendor da Igreja futura na visão do Apocalipse: a Cidade Santa, a Jerusalém celeste, a Noiva, a Esposa do Cordeiro, a filha de Sião: “Vem, e mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro. Levou-me em espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, revestida da glória de Deus” (Apocalipse 21, 9-11). Note que bela comparação: “Assemelhava-se seu esplendor a uma pedra preciosa, tal como o jaspe cristalino. Tinha grande e alta muralha com doze portas, guardadas por doze anjos. Nas portas estavam gravados os nomes das doze tribos dos filhos de Israel (...) A muralha tinha doze fundamentos com os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro (...) O material da muralha era jaspe, e a cidade ouro puro, semelhante a puro cristal”. Os alicerces da muralha da cidade eram ornados de toda espécie de pedras preciosas: o primeiro era jaspe, (...) Cada uma das doze portas era feita de uma só pérola e a avenida da cidade era de ouro, transparente como cristal” (Apocalipse 21, 11-21). Este riquíssimo simbolismo tem grande significação em cada uma de suas palavras, e nos revela que esta cidade inimaginável na terra, só pode existir no céu; é a Igreja na sua glória consumada, onde cada um de nós é chamado a viver na comunhão de toda a família de Deus. Ele e o Cordeiro estão presentes, não haverá falta de nada. Vejamos como continua a descrição: “Não vi nela, porém, templo algum, porque o Senhor é o seu templo, assim como o Cordeiro. A cidade não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina, e a sua luz é o Cordeiro. As nações andarão à sua luz, e os reis da terra levar-lhe-ão a sua opulência. As suas portas não fecharão diariamente, pois não haverá noite. Nela não entrará nada de profano nem ninguém que pratique abominações e mentiras, mas unicamente aqueles cujos nomes estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21.22-27). E continua a descrição da Cidade celeste: “Não haverá aí nada execrável, mas nela estará o trono de Deus e do Cordeiro. Seus servos lhes prestarão um culto. Verão a sua face e o seu nome estará nas suas frontes. Já não haverá noite, nem se precisará da luz de lâmpada ou do sol, porque o Senhor Deus a iluminará, e hão de reinar pelos séculos dos séculos” (Apocalipse 22, 1-5). Esta longa narração mostra a vitória e a gloriosa consumação final da Igreja. E o Apocalipse termina com o Senhor dizendo: “Felizes aqueles que lavam as suas vestes para ter direito à árvore da vida e poder entrar na cidade pelas portas ” (22,14). “O Espírito e a Esposa dizem: Vem! Possa aquele que ouve dizer também: Vem! Aquele que atesta estas coisas diz: Sim ! Eu venho depressa! Amém. Vem, Senhor Jesus!” (22, 17-21). A glória futura da Igreja já está garantida, porque o seu Senhor já reina no céu, sentado à direita do Pai, aguardando o momento de consumar o seu Reino. -Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus-(Marcos16,19). São Paulo explica na Carta aos Efésios todo o esplendor de Cristo, Cabeça da Igreja, já glorificado no céu: -Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, bem acima de toda autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa nomear não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro. Sim, Ele pôs tudo sob os seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a cabeça da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal-(Efésios 1,20-22). É preciso ter em mente que Jesus glorificado à direita do Pai, é o Verbo Encarnado, perfeitamente homem; assim, a humanidade, por Jesus, já voltou ao paraíso, que havia perdido pelo pecado. Desta forma São Paulo nos exorta a vivermos cientes de que a nossa vida - está escondida com Cristo em Deus. Se portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com Ele na glória (Colossenses 3,1s) São Leão Magno (†431) dizia que: “Onde a Cabeça está, aí devem estar também os membros do corpo”. A Igreja tem plena consciência de que a sua glória está assegurada no céu, já que a -Cabeça- já está -sentada à direita do Pai. Na missa da festa da Ascensão do Senhor, rezamos: Ó Deus todo poderoso, a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória. Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu Corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória-. É nesta esperança que vive a Igreja: No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo!. (João 16,33). Sabemos, como nos ensina São Paulo na carta aos tessalonicenses, que a Igreja passará a terrível “provação final”, que será também o momento de dar ao Senhor a prova maior do seu amor, e que será também a sua maior purificação. Após isto será consumada na sua glória. Então, “Deus será tudo em todos” (1 Coríntios 15,28). Estará então restabelecida a “Família de Deus”, que no Paraíso foi dispersa pelo pecado. Novamente Deus viverá no “jardim” celeste com o homem (Gênesis 2,5-8), com toda a intimidade e comunhão desejadas desde o princípio. A harmonia que o pecado rompeu será restabelecida plenamente. É a imagem maravilhosa que o Profeta nos dá do Reino do Messias, onde só haverá paz: “Então o lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos, e um menino pequeno os conduzirá; a vaca e o urso se fraternizarão, suas crias repousarão juntas, e o leão comerá palha com o boi. A criança de peito brincará junto a toca da víbora, e o menino desmamado meterá a mão na caverna da áspide. Não se fará mal nem agravo em todo o meu monte santo, porque a terra estará cheia da ciência do Senhor, assim como as águas recobrem o fundo do mar” (Isaías 11, 6-9). Sobre a “última provação” que a Igreja deverá enfrentar, fala o Catecismo da Igreja: “Antes do Advento de Cristo, a Igreja deve passar por uma provação final que abalará a fé de muitos crentes (Lucas 18,8; Mateus 24,12). A perseguição que acompanha a peregrinação dela na terra (Lucas 21,12; João 15, 19-20) desvendará o “mistério da iniquidade” sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos homens uma solução aparente aos seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A impostura religiosa suprema é a do Anticristo, isto é, a de um falso messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo em lugar de Deus e do seu Messias que veio na carne (2 Tessalonicenses 2,4-12; 1 Tessalonicenses 5,2-3; 2 Jo7; 1 João 2,18-22) (CIC, 675). O Catecismo explica que a grande impostura religiosa anticrística será uma falsificação do Reino de Deus, a ser implantado na terra, pelo próprio homem, sem a necessidade de Deus. É o ateísmo sistemático - já denunciado no santo Concílio Vaticano II (GS 20,21) que leva o homem a se rebelar “contra qualquer dependência de Deus”. “Aqueles que professam tal ateísmo disse o Concílio - sustentam que a liberdade consiste em o homem ser o seu próprio fim e o único artífice e demiurgo [ criador] de sua própria história. E pretendem que esta posição não pode harmonizar-se com o reconhecimento do Senhor (...)” (GS, 20). A Igreja sabe que só entrará na glória do Reino passando por uma “Paixão” semelhante a do seu Senhor. O Catecismo afirma que: “O Reino não se realizará por um triunfo histórico da Igreja segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de Deus sobre o desencadeamento último do mal (cf Apocalipse 20,7-10), que fará a sua Esposa descer do Céu (Apocalipse 21,2-4). Então, finalmente, “haverá um novo céu e uma nova terra” (Apocalipse 21,1) e se realizará o que está escrito: “Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda a lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram! (Apocalipse 21,3-4). DO Livro: A MINHA IGREJA do Prof. Felipe de Aquino. www.universocatolico.com.br. Abraço. Davi

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

POR QUE TOCAMOS O SHOFAR EM ROSH HASHANÁ


Judaísmo. www.morasha.com.br. POR QUE TOCAMOS O SHOFAR EM ROSH HASHANÁ. O principal mandamento da festa de Rosh Hashaná, Ano Novo Judaico, é ouvir os toques do Shofar. Trata-se de um mandamento bíblico. Todas as demais leis e costumes de Rosh Hashaná, como as refeições festivas, as maçãs imersas no mel e, mesmo as orações, têm importância secundária. Em Rosh Hashaná, a prioridade para todos os judeus deve ser ouvir os toques do Shofar. A Torá não nos explica por que devemos ouvir o Shofar em Rosh Hashaná, primeiro dia do mês de Tishrei. Todos os mandamentos da Torá estão acima da razão humana. Têm origem Divina, são produto da vontade e sabedoria Divinas e, assim como D’us é infinito e insondável, também o são Suas Leis. Cumprimos os mandamentos da Torá, como ouvir o Shofar em Rosh Hashaná, pela simples razão de que D’us nos ordenou fazê-lo. Contudo, a Torá nos estimula a investigar o significado de seus mandamentos. Nossos Sábios revelaram algumas das razões pelas quais a Torá nos ordena ouvir os toques do Shofar em Rosh Hashaná. A Coroação do Rei. Rosh Hashaná é o aniversário da humanidade. Celebra o sexto dia da Criação, Yom HaShishi – dia em que D’us criou Adão e Eva. Em nossas orações, nos referimos a Rosh Hashaná como o início da Criação porque o mundo apenas se tornou relevante no dia em que o homem nasceu. O ser humano é o ponto alto da Criação; e, para ele, D’us criou o mundo. Se o homem parasse de cumprir o propósito para o qual foi criado, o mundo deixaria de existir. É em Rosh Hashaná que D’us decide se os seres humanos estão cumprindo seu propósito neste mundo e se Ele ainda está interessado em ser seu Rei. Se D’us decidisse ter perdido o interesse em ser Melech HaOlam – Rei do Mundo –, o universo e tudo o que nele há reverteria ao nada – como tudo era, antes da Criação. A decisão Divina depende de nós. É o homem, e principalmente o Povo Judeu, quem deve tentar convencer a D’us que é válido que Ele continue a manter o mundo. Vale lembrar que nosso relacionamento com D’us é unilateral: somos totalmente dependentes d’Ele, ao passo que Ele não depende de ninguém nem de nada. Em Rosh Hashaná, o Povo Judeu se aproxima de D’us, pedindo-Lhe que continue sendo nosso Rei e Rei de todo o universo. E o destino do mundo depende de Sua concordância. Quando um rei é coroado, soam as trombetas. Em Rosh Hashaná, tocamos o Shofar para anunciar o ininterrupto reino de D’us. Seus toques indicam que estamos coroando D’us como nosso Rei. Já deve estar claro por que razão ouvir o toque do Shofar é o principal mandamento de Rosh Hashaná. Se não proclamamos a coroação do Rei – se não conseguimos levar D’us a continuar em seu papel de Senhor do Universo –, o mundo não existiria além de Rosh Hashaná. Nessa festividade, desejamos uns aos outros um ano bom e doce, mas isso não teria nenhum valor se não houvesse um novo ano por vir. Em Rosh Hashaná, pedimos que D’us nos inscreva no Livro da Vida, mas nossa principal preocupação deveria ser se Ele concordará em continuar sendo nosso Rei. A ideia de um rei pode parecer infantil e anacrônica. Pensamos nos reis como seres gananciosos, loucos pelo poder, déspotas cruéis. No entanto, na tradição judaica, como ensina Maimônides, o rei é um servo do povo, cuja única preocupação é fazer esse povo viver em paz e harmonia. Suas leis e decretos apenas visam ao bem de seu povo, não ao seu próprio (Maimônides, Leis dos Reis, 2:6). Tocamos o Shofar em Rosh Hashaná para coroar D’us como Rei: para dar as boas-vindas a Seu Reinado sobre nós e sobre o mundo todo. Despertador Divino. Maimônides (1135-1204), o maior dos filósofos judeus, ensina que o Shofar é o despertador de D’us, que nos deve despertar do “sono apático” em que vivemos grande parte de nossa vida. Ele explica que geralmente desperdiçamos nosso tempo com coisas que “nem nos ajudam nem nos salvam”. Desperdiçamos nosso tempo, apesar de esse ser o maior presente Divino para nós. O Rebe de Lubavitch disse: “Dizem que tempo é dinheiro. Eu digo que tempo é vida”. Tempo é, de fato, vida, e, diferentemente do dinheiro, não se ganha de volta o tempo perdido. São tantas as coisas extraordinárias que a pessoa pode fazer (…) mas o dia tem apenas 24 horas, a semana sete dias, e um número de anos que é muito curto, ainda que se viva mais de 100 anos (...). Ouvimos o toque do Shofar em Rosh Hashaná, o primeiro dia do ano judaico, que também é o primeiro dos Dez Dias de Teshuvá, para despertar-nos de nossa apatia. O Shofar é o recurso Divino que nos conclama a examinar nossos atos e repensar a maneira como passamos nosso tempo para que não nos arrependamos de como vivemos quando já for muito tarde. O Talmud nos ensina: “Quando o julgamento vem de baixo, não há necessidade de julgamento do Alto”. Isso significa que se despertarmos, não haverá necessidade de que D’us nos desperte. Todos precisamos fazer uma avaliação honesta para saber se estamos aproveitando a vida ao máximo. O toque do Shofar em Rosh Hashaná deve fazer-nos recordar as palavras atemporais do Pirkei Avot: “Rabi Tarfon disse, ‘O dia é curto, o trabalho grande, os trabalhadores preguiçosos, a recompensa grande e o Mestre de tudo nos apressa’” (Avot 2:20). O Shofar no Monte Sinai. O evento mais grandioso na história humana foi a Revelação Divina no Monte Sinai – única instância em que D’us Se revelou explicitamente a um número muito grande de pessoas reunidas. D’us se apresentou perante toda a geração de judeus que deixaram o Egito – 600.000 homens com suas famílias –, proclamou os Dez Mandamentos e iniciou o processo de transmissão da Torá a Moshé. Conta-nos a Torá que um toque muito alto de Shofar se fez ouvir no Monte Sinai quando D’us Se revelou ao Povo Judeu. Recitamos as seguintes palavras durante a oração de Mussaf, em Rosh Hashaná: “E no terceiro dia, ao raiar a manhã, houve trovões e relâmpagos, e uma pesada nuvem estava sobre o monte e um som de Shofar muito forte; e todo o povo que estava no acampamento estremeceu” (Êxodo 19:16). Em Rosh Hashaná, tocamos o Shofar para recordar o evento mais extraordinário na história humana, quando a existência Divina se fez conhecer, tornando-se fato histórico e não mais dependendo da fé pessoal. O toque do Shofar lembra-nos que devemos nos dedicar à Torá – a seu estudo e ao cumprimento de seus mandamentos. O poderoso som do Shofar serve, também, para nos defender perante o Trono Celestial, recordando o vínculo eterno forjado por D’us com Seu povo, no Monte Sinai. Profecia. Shofar relembra a voz de nossos Profetas, que exortava nossos antepassados para que corrigissem seus caminhos, seguindo os mandamentos Divinos e tendo comportamento exemplar perante seus semelhantes. Há milênios, o Povo Judeu teve muitos profetas que transmitiam o que D’us esperava deles, lembrando-lhes que deviam aperfeiçoar seu modo de vida. Hoje, já não temos profetas, mas o toque do Shofar deve sacudir nossa alma, forçando-nos a reexaminar nossa vida, corrigir nossos erros e melhorar, ainda mais, o que está certo. O pranto soluçante de um coração judeu. São dois, basicamente, os sons do ShofarTekiá é o som longo e Teruá uma série de sons curtos em staccato. Em Rosh Hashaná, ouvimos ambos, mas Teruá constitui a maioria dos toques. O Talmud explica, no Tratado de Rosh Hashaná, que o toque de Teruá é o som do choro. Em Rosh Hashaná, muitos olham para o ano que terminou e percebem que não conseguiram viver a vida em todo o seu potencial. Desperdiçaram tempo e oportunidades. Isso os faz soluçar – é seu coração quem chora. Ensinam os cabalistas que os sons chorosos do Shofar simbolizam o pranto soluçante de um coração judeu que anseia por se conectar, crescer e se realizar (Tikunei Zohar – 20-21, 49a). O Rei David escreveu em seus Salmos: “…Os que ora semeiam em lágrimas, hão de chegar à colheita com alegria” (Salmo 126). Devemos traduzir o choro do Shofar em ações significativas no ano que se inicia, para que nosso pranto se transforme em júbilo. O sacrifício de Yitzhak. Shofar é feito do chifre de um carneiro. Este foi o animal que Avraham sacrificou em lugar de seu filho, Yitzhak, no famoso episódio da Torá conhecido como Akedat Yitzhak. O Sacrifício de Yitzhak é um dos temas principais de Rosh Hashaná. Lemos essa passagem da Torá no segundo dia da festa e tocamos o Shofar, chifre de um carneiro, para recordar D’us da devoção sem paralelo e do autossacrifício dos dois primeiros Patriarcas do Povo Judeu, Avraham e Yitzhak. O Sacrifício de Yitzhak é relevante para Rosh Hashaná por outra razão. Avraham, segundo nossos Sábios, era o paradigma da bondade e compaixão. De acordo com a Cabalá, ele personifica a Sefirá de Chessed – bondade, generosidade e amor. Pedir a um pai que sacrifique seu próprio filho, mesmo se o pedido vem do Todo Poderoso, é o mais difícil dos pedidos – para qualquer pai, mas especialmente para Avraham, personificação da bondade. Contudo, Avraham teve forças para reprimir seu sentimento de compaixão e amor a fim de cumprir a Vontade de D’us. Em Rosh Hashaná, quando D’us está no Trono Celestial do Julgamento, tocamos o Shofar para recordar o Sacrifício de Yitzhak e, dessa forma, fazer chegar ao Juiz Supremo que: “Se Avraham, simples ser humano mortal, pôde reprimir sua emoção para cumprir a Tua Vontade, Tu, também, o Onipotente, podes reprimir Tuas emoções, caso sejam de ira”. Recitamos durante o Mussaf de Rosh Hashaná: “Lembra-te, em nosso benefício, ó D’us Eterno, o pacto, a bondade e a promessa que fizeste a Avraham, nosso Patriarca, no Monte Moriá; deixa aparecer diante de Ti a Akedá, quando Avraham, nosso Patriarca, amarrou seu filho Yitzhak sobre o altar e reprimiu sua compaixão a fim de cumprir Tua Vontade, com um coração puro e conformado. Que assim possa a Tua compaixão reprimi Tua ira contra nós, e em Tua infinita bondade, deixes tua severa ira contra Teu povo se desfazer (…)”.  A Infinitude Divina. O som do Shofar tem poder indescritível. Em Rosh Hashaná, seus sons nos preenchem de reverência e humildade ao contemplar a infinitude do Rei que neste dia tem seu coroação. Infinitude é um conceito que nós, seres humanos, não conseguimos entender, totalmente – pois somos criaturas finitas, em um mundo finito. Empregamos o conceito de infinito em Matemática, mas raramente paramos para pensar em suas implicações. A Matemática nos ensina que comparado ao infinito todos os tamanhos e medidas são iguais. Comparados ao infinito, não há diferença entre o grande e o pequeno. Isso significa que para um D’us Infinito, não existe o mais e o menos importante: tudo é igualmente importante – o que explica por que o Judaísmo nos ensina que cada detalhe da Criação, inclusive nossa vida pessoal, tem tanta relevância para o Altíssimo. Ser Infinito não significa apenas que D’us é Todo Poderoso. Significa, também, que Ele está em toda parte, sempre, e está ciente de tudo, mesmo de cada um de nossos pensamentos, palavras e atos. Uma das razões para o Shofar nos encher de reverência é o fato de nos fazer lembrar que D’us Infinito nos observa, a todo instante. Como nos diz o Pirkei Avot: “Mantém teu olhar sobre estas três coisas e não pecarás: Conhece o que está acima de ti: um Olho que tudo vê e um Ouvido que tudo escuta, e todas as tuas ações estão gravadas em um livro” (Avot 2:1). Anunciando a chegada do Mashiach.  O som do Shofar transmite muitas mensagens, uma das quais é a liberdade. Quando chegar o Mashiach, ensinam nossos Sábios, o Shofar anunciará sua chegada. A Era Messiânica será um tempo de paz e liberdade para todos os seres humanos. Quando o Mashiach estiver entre nós, a humanidade estará livre de qualquer forma de escravidão e opressão – livre de sofrimento, guerras, pobreza, doenças e, até mesmo, da morte. Durante o Mussaf de Rosh Hashaná, recitamos as seguintes palavras do profeta Isaías: “Ó vós, todos os habitantes do mundo, todos os residentes da Terra: quando nas montanhas for erguido um estandarte (da reunião de Israel), todos o vereis; e quando soar o toque do Shofar, o ouvireis. E nesse dia será tocado um grande Shofar, que atrairá os que se perderam na terra da Assíria e os que foram dispersos pela terra do Egito, e virão adorar o Eterno no sagrado monte de Jerusalém” (Isaías 18-3; 27:13). Rosh Hashaná celebra o nascimento da humanidade. No mesmo dia em que nascia o homem, ele transgrediu a Vontade Divina e D’us o baniu do Jardim do Éden. Seu pecado trouxe morte e toda forma de sofrimento ao mundo. O propósito da humanidade, especialmente do Povo Judeu, é retificar o pecado de Adão e Eva, para que o mundo volte a ser o Jardim do Éden. É esse o significado da Era Messiânica. Em Rosh Hashaná, tocamos o Shofar não apenas para compelir D’us a renovar o mundo por mais um ano, mas para lhe trazer redenção e salvação. www.morasha.com.br. Abraço. Davi

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O SUICÍDIO NA VISÃO ESPÍRITA E DE OUTRAS RELIGIÕES

Espiritismo. www.eradoespirito.blogspot.com. Agradecimento à Eliana Ferrer Haddad pela sugestão do tema. O SUICÍDIO NA VISÃO ESPÍRITA E DE OUTRAS RELIGIÕES. Se cada fase da vida tem algo de importante par nos ensinar, é preciso descobrir o que está reservado para nós no ocaso da existência. A. Trigueiro, “Viver é a melhor opção”. MUITAS VEZES, VIVER É UM ATO DE CORAGEM – Sêneca (4 AC 65 DC). Diz-se que “religião não se discute”, entretanto, é na religião que encontramos uma das maiores forças de manutenção da vida humana. Um assunto que mostra todo poder da religião é a questão do suicídio. André Tregueiro (1966- ) recentemente lançou um livro sobre esse tema. Lembro-me de ler alguém reclamando que essa obra só apresenta a visão espírito do suicídio. Neste post fazemos um resumo dessa breve pesquisa. É interessante comparar as justificativas para a condenação do suicídio nessas diversas visões com a perspectiva espírita, que traz uma novidade. É interessante também observar que há exceções à condenação do “matar-se a si mesmo”, de acordo com as referências de várias religiões. Já escrevemos algo sobre um tipo de suicídio neste blog. Mas, como se manifestam as diversas religiões sobre ele? Mais importante do que isso, como elas justificam suas posições? Há duas bases para se posicionar em relação ao suicídio: 1. A visão de princípios. 2. A visão das consequências do suicídio. Para se convencer disso, basta considerar que, para doutrinas materialistas, a questão do suicídio é de reduzida importância, pois não há alma nem sobrevivência. A lógica materialista acredita que vale a pena continuar a viver desde que existam vantagens em existir. Desaparecendo essas vantagens, cessa também a necessidade de viver. Portanto, a vida para o materialismo não tem valor em si, mas é relevante apenas como condição para eventuais prazeres em existir: O que faz a vida merecer ser vivida? Certamente muito mais ceder ao sangue suicida, que há em mim e procurar o esquecimento no abraço frio da morte. Zane Grey (1872-1939). Podemos falar em um "valor da vida" para cada visão religiosa - incluindo o materialismo - que é derivado da visão que cada doutrina tem da existência humana. Uma vez que o assunto é complexo, optamos por apresentar tudo em apenas um único post que, por isso, resultou extenso. Isso não significa que o assunto tenha sido exaurido. O que colocamos abaixo é apenas um resumo. A referência principal que usamos aqui como orientação pode ser lida integralmente em. Judaísmo.  De acordo com a lei mosaica.  O suicídio é proibido pela lei Judaica. O Judaísmo tradicionalmente vê o suicídio como um pecado. Não é visto como alternativa a se cometer certos pecados capitais que justificariam abandonar a vida ao invés de cometê-los. Entretanto, não há referências explícitas no Talmude sobre o suicídio. A fundamentação é, portanto, de princípios e baseada em interpretações do texto bíblico. Estudiosos e autoridades no Judaísmo porém, podem suspender a proibição do suicídio em determinadas circunstâncias, como foi o caso de Jacob Emden, que afirmou ser o suicídio uma opção a alguém condenado à pena de morte. O suicídio seria então uma maneira de se expiar o pecado que originou a condenação. Catolicismo.  Como é bastante conhecido, o Catolicismo explicitamente condena o suicídio. A razão também tem com base princípios como a proibição "Não matarás" (Êxodo 20:13), ou uma lógica como a que se lê em: O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano em se preservar e perpetuar. Ele se coloca gravemente em oposição ao amor por si próprio. Ele também ofende o amor ao próximo, porque injustamente quebra os laços de solidariedade com a família, nação e outras sociedades humanas para as quais temos obrigações.  O suicídio é contrário ao amor ao Deus vivo. (parágrafo 2281). É possível lembrar que a condenação ao Inferno sempre correu em paralelo com a condenação do suicídio em diversas religiões cristãs. Entretanto, em uma versão moderna do catecismo da Igreja podemos ler: Não se deve temer pela punição eterna das pessoas que tiraram suas próprias vidas. Por meios apenas conhecidos por Ele, Deus pode conceder oportunidade de arrependimento. A Igreja ora pelas pessoas que tiraram suas próprias vidas. (parágrafo 2283, grifo meu). Por que a Igreja teria deixado de ameaçar com o inferno os suicidas? Talvez a condenação eterna esteja muito desacreditada na modernidade e a estratégia de se abrandar a pena recorrendo a um possível meio "somente conhecido por Deus" é mais lógica diante da crença maior em um Deus bom. Com bases semelhantes, religiões de origem protestante também condenam o suicídio. É interessante ir à origem dos movimentos protestantes e de lá extrair uma perspectiva mais moderna sobre o suicídio. Assim, para a Igreja Luterana: Certamente, não temos o desejo de condenar ninguém que opte pela auto destruição. É impossível a nós descer a níveis tão baixos, em que muitos cristãos chegam, e irresponsavelmente cometem tais atos. Talvez o Senhor não os julgará responsáveis, mas nós não sabemos. Esse mesmo texto cita uma passagem em que Lutero (1483-1546) afirmou: Não tenho certeza se os suicidas certamente estão condenados. Penso que eles talvez não quisessem se suicidar, mas capitularam frente ao poder do demônio. Desde esse ponto de vista, o suicídio não pode ser automaticamente condenado porque as razões para o ato são desconhecidas (a decisão de se matar segue sentimentos e intenções privadas do indivíduo). Lutero ainda foi perspicaz o suficiente em ressaltar que sua opinião não implicava na redução da gravidade do suicídio como pecado. A opinião presente dos evangélicos nacionais sobre o suicídio pode ser lida aqui: As Escrituras Sagradas relatam a história de algumas pessoas que cometeram suicídio, dentre estas: Saul (I Samuel 31:4), Aitofel (II Samuel 17:23), Zinri (I Reis 16:18) e Judas (Mateus 27:5). Todos foram maus, perversos e pecadores, o que provavelmente após a morte experimentaram a condenação eterna. Ora, sem a menor sombra de dúvidas a Bíblia vê o suicídio do mesmo modo que o assassinato – e assim o é – um auto-assassinato. Cabe a Deus decidir quando e como a pessoa morrerá. Tomar de assalto este por em suas próprias mãos, de acordo com a Bíblia, é atentar contra Deus. Admitido isso, também não creem que um "cristão verdadeiro" perca sua salvação com o suicídio. Islã. A recente onda de atentados de fundamentalistas islâmicos no ocidente por suicídio pode levar a se pensar que o suicídio seja amplamente aprovado pelo Islã, mas isso não é verdade. De acordo com: E não se matem. Certamente Alá será mais misericordioso convosco. Corão, Sura 4 (An-Nisa). Ayat 29. E, nos ditados de Maomé, suicidas são condenados explicitamente ao inferno. Porém, segundo Daud Matthews (8), não se deve julgar quem se suicida porque não são conhecidas as circunstâncias que levaram à decisão de se matar: Aqui só podemos afirmar o que o Islã diz sobre o suicídio como ato. Ainda assim, não podemos julgar um caso específico de suicídio porque nunca sabemos o que apenas Alá sabe sobre o estado do suicida no momento em que comete o ato. Uma pessoa que parece se atirar de uma sacada pode ter caído por acidente, o que não sabemos. Assim, nunca devemos julgar e deixamos que isso seja feito pelo Criador que definitivamente sabe muito mais do que nós. Como pode então existir fundamentalistas islâmicos que se suicidam em nome do Islã? É que, como todas as religiões antigas, o Islamismo se fragmentou em muitas vertentes interpretativas e algumas delas sustentam que o suicídio deve ser incentivado se for feito com objetivo de guerra religiosa. Não é na origem do movimento que devemos procurar os problemas que surgiram com as várias religiões, mas nos seguidores que interpretam de forma diferente os fundamentos.  Hinduísmo. A pratica do Sati era um rito funeral em certas comunidades asiáticas em que viúvas recentes cometiam suicídio atirando-se no fogo da pira funerária de seus maridos. Foi banida pelos Britânicos no século XIX. De acordo com Jaraya.
O suicídio em Sânscrito é chamado "Atmahatya" que significa matar a própria alma. Essa palavra representa amplamente a atitude do Hinduísmo para com o suicídio. Suicídio é matar a si mesmo, pura e simplesmente. Porque o Hinduísmo vê o suicídio de forma tão negativa, como um ato desprezível e um pecado, pode ser entendido pelas seguintes razões (...). Uma lista resumida dessas causas é fornecida na continuação do texto: "porque o Hinduísmo vê a vida como sagrada (mesmo a de insetos e animais), porque cada ser humano tem um papel e responsabilidade a desempenhar no mundo, porque o suicídio, motivado por paixões más, ignorância e ilusão, representa mau uso da autonomia que Deus deu ao homem e porque, com a vida, o homem tem obrigações para consigo mesmo, com os outros, os deuses e com seus ancestrais". Entretanto, o Hinduísmo mantem uma crença estranha de que o suicídio é permitido em alguns casos, principalmente se cometidos por gurus como um ato de auto sacrifício ou imolação. De acordo com tal crença, casos de imolação por fogo (agnipravesa), fome lenta (prayopavesa) ou por suspensão da respiração (entrada no estado de samadhi) são considerados suicídios válidos. Portanto, para o Hinduísmo, apenas é condenável o suicídio por razões banais ou por auto ilusão. Budismo.  Das doutrinas antigas, o Budismo pode ser considerado uma das mais sofisticadas: O Budismo ensina que todas as pessoas experimentam o sofrimento (dukka), que se origina primariamente de atos anteriores negativos (karma) ou que resultam do processo natural do ciclo de nascimento e morte (samsara). Outras razões para a prevalência do sofrimento dizem respeito ao conceito de ilusão (maya). Uma vez que tudo está em estado constante de impermanência ou fluxo, indivíduos passam por insatisfação com os eventos naturais da vida. Para quebrar a samsara, o Budismo advoca o nobre caminho óctuplo e não apoia o suicídio. Como o primeiro preceito determina que não se tire a vida de ninguém - inclusive a própria - o suicídio é considerado um ato negativo pelo Budismo. De acordo com a crença, alguém que cometa suicídio por razões negativas pode renascer em condições bastante tristes como consequência de seus pensamentos negativos. Para o Budismo, a condenação do suicídio não pode ser absoluta, devendo-se observar as razões do ato que, se negativas, são contrárias ao caminho da iluminação. Mesmo assim, na tradição Budista, há duas estórias de monges que estavam muito próximos da morte e que, afirmando terem atingido a iluminação, cometeram suicídio - ou o que seria hoje conhecido como "eutanásia". Tais contos implicam que o Budismo antigo pôde aceitar o suicídio em certas circunstâncias (que não envolvem pensamentos negativos). Entretanto, conforme o texto (3) explica, "pessoas que alcançaram a iluminação não cometem suicídio", o que ressalta a opinião negativa que o Budismo tem hoje do suicídio. Xintoísmo.  O excessivo caso de suicídios no Japão (11) leva a se considerar influências culturais e religiosas nessa prática. A religião nacional do Japão é o Xintoísmo. Diz-se que o Xintoísmo é excessivamente condescendente com os suicidas. A origem pode ser a crença de que a vida continua na forma  os Kamis (deuses) e que a morte nada significa além da continuidade. Mas sobre esse aparente apoio dado ao suicídio, encontramos vozes no Japão que se colocam contra alguns posicionamentos ocidentais: Um simpósio entre religiões no Japão explorou as atitudes das comunidades japonesas com o suicídio, incluindo o uso comum do termo "morte voluntária" - escreve Hisashi Yukimoto. Promovido pela conferência dos bispos católicos do Japão, a conferência considerou a tendência recente de se designar o suicídio pelo termo "jishi" - que significa "morte voluntária" ou "matar-se a si mesmo".  Muitas pessoas, incluindo membros de famílias enlutadas, agora preferem usar "jishi" (o título oficial do encontro foi "A missão dos religiosos - sobre a morte voluntária"). Um dos conferencistas, Wataru Kaya, um sacerdote xintoísta e psiquiatra, enfatizou a importância das preces e da compaixão para aqueles que se matam voluntariamente, com base na cultura tradicional japonesa. Ele reiterou que o Xintoísmo "não vê a morte voluntária como um mal absoluto". Mas, Hiroshi Saito, que gerencia o escritório de estudos do Instituto da Doutrina Oomoto. Um cisma xintoísta, desde 1892, observa que o cânon Oomoto diz: "O suicídio é um pecado entre os pecados". Advertiu ainda, "ao se usar o termo 'morte voluntária', acredito que o sentido de pecado que existe ao se praticar o suicídio está sendo inconscientemente reduzido". Saito criticou as considerações de José M. Bertolote, do Departamento de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde que, em um artigo na revista "The Economist", disse que o suicídio no Japão é parte de uma cultura que prega ainda "o padrão ético de se preservar a honra e se fazer responsável por meio do suicídio". Saito afirmou que essas são "visões muito tendenciosas...Poucas pessoas veem o suicídio hoje no Japão como uma virtude". Espiritismo. Além de outras obras fundamentais, a questão do suicídio foi introduzida por A. Kardec na IV Parte de "O Livro dos Espíritos", mais precisamente entre as questões 944 e 957. O assunto se inicia pela questão #944:  944. Tem o homem o direito de dispor da sua vida? Não; só a Deus assiste esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão da lei divina. a) – Não é sempre voluntário o suicídio? O louco que se mata não sabe o que faz. É importante considerar, porém que, para o Espiritismo, o suicídio deve ser evitado a todo custo por causa das consequências do ato que são positivamente estudadas por meio de comunicações mediúnicas. Trata-se, assim, de uma extensão do suicídio frustrado. Mesmo para o materialismo, o suicídio pode não valer pena se o suicida não tiver competência suficiente para se matar e, do ato, resultarem sequelas e piora da situação. Suicidas em desespero podem não calcular corretamente o risco a que estão sujeitos, caso não consigam se livrar completamente de suas vidas. Tomando como ponto de partida que o suicídio foi motivado por pensamentos e intenções negativas, a IV Parte do "Livro dos Espíritos" exploras os possíveis caminhos morais que o suicida poderia tomar caso raciocinasse diferente. Com certo escrutínio psicológico, os Espíritos identificam a grande causa como a falta de fé no futuro a principal razão para o ato suicida.  A escalada do suicídio nos tempos modernos confirma essa identificação porque ela tem, no materialismo, a sua principal doutrina de apoio: A propagação das ideias materialistas é, pois, o veneno que inocula a ideia do suicídio na maioria dos que se suicidam, e os que se constituem apóstolos de semelhantes doutrinas assumem tremenda responsabilidade. Com o Espiritismo, tornada impossível a dúvida, muda o aspecto da vida. O crente sabe que a existência se prolonga indefinidamente para lá do túmulo, mas em condições muito diversas; donde a paciência e a resignação que o afastam muito naturalmente de pensar no suicídio; donde, em suma, a coragem moral. (O "Evangelho S. o Espiritismo" Capítulo V,  "Suicídio e Loucura". Parágrafo 16). A certeza da vida futura tem, portanto, a capacidade de anular o efeito do suicídio nesses casos: A calma e a resignação hauridas da maneira de encarar a vida terrestre e da fé no futuro dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos de loucura se deve à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem a coragem de suportar. Ora, se encarando as coisas deste mundo da maneira por que o Espiritismo faz que ele as considere, o homem recebe com indiferença, mesmo com alegria, os reveses e as decepções que o houveram desesperado noutras circunstâncias, evidente se torna que essa força, que o coloca acima dos acontecimentos, lhe preserva de abalos a razão, os quais, se não fora isso, a conturbariam. (O "Evangelho S. o Espiritismo" Capítulo V, "Suicídio e Loucura". Parágrafo 14). Com relação ao "suicídio por sacrifício", há condições específicas que o desqualificariam como um suicídio, conforme pode-se ler na questão #951 de "O Livro dos Espíritos": 951. Não é, às vezes, meritório o sacrifício da vida, quando aquele que o faz visa salvar a de outrem, ou ser útil aos seus semelhantes?  Isso é sublime, conforme a intenção, e, em tal caso, o sacrifício da vida não constitui suicídio. Mas Deus se opõe a todo sacrifício inútil, e não o pode ver de bom grado se tem o orgulho a manchá-lo. Só o desinteresse torna meritório o sacrifício e, algumas vezes, quem o faz guarda oculto um pensamento, que lhe diminui o valor aos olhos de Deus”. O "valor aos olhos de Deus" é uma designação metafórica para o real estado da consciência no momento da realização do ato. Por sua importância, essa "exceção" é comentada por Allan Kardec: Todo sacrifício que o homem faça à custa da sua própria felicidade é um ato soberanamente meritório aos olhos de Deus, porque é a prática da lei de caridade. Ora, sendo a vida o bem terreno a que maior apreço dá o homem, não comete atentado o que a ela renuncia pelo bem de seus semelhantes: faz um sacrifício. Mas, antes de o cumprir, deve refletir sobre se sua vida não será mais útil do que sua morte. (grifo meu). É claro que o ato só é justificável se tem como consequência o bem dos semelhantes. Dito isso, ainda assim são raríssimas as evidências mediúnicas que atestariam essa exceção. A maior parte delas relata grandes sofrimentos com a morte planejada. O que dizem as cartas psicografadas. Como uma extensão dos casos de sequelas de suicídios malogrados, a visão das "consequências" se explica ao se conhecer com precisão o estado da alma após a morte. O Espiritismo traz uma contribuição inovadora porque afirma ser possível conhecer essa situação por meio de evidências. Os meios de contato com os mortos constituem um processo antigo, cuja importância para o pensamento religioso e psicológico tem o seu reconhecimento no Espiritismo. O problema do suicídio adquire uma nova dimensão apenas quando a visão da vida futura é aceita abertamente. Em "O Céu e o Inferno", II Parte do Capítulo V, há duas comunicações analisadas por A. Kardec. A do "Suicida da Samaritaine" e a do "Sr. Félicien". Há também outros trechos, como na "Revista Espírita" de Agosto de 1860  e Janeiro de 1869. No caso do suicida de Samaritaine, a conformação do sofrimento pode ser lida na resposta dada à invocação do Espírito, que ainda alimentava a ideia de desaparecer, ignorante de seu estado: 5. Que motivo vos levou a vos suicidardes?  Eu morri? (...) Não (...) habito meu corpo (...) Não sabeis quanto sofro! (...). Asfixio (...). Que uma mão compassiva tente acabar comigo! Encontramos em nossas pesquisas 14 autores de cartas psicografadas por Chico Xavier reportados como suicidas. Desses destacamos como exemplo Francisco A. Nogueira Filho (1960-1978). Sua morte se deu por enforcamento a 15 de agosto de 1978. Sobre sua carta, destacamos alguns trechos: Ignoro que forças indomáveis me fizeram aceitar a ideia de uma corda que me pendurasse o corpo, a fim de que tudo acabasse para mim. (...). O que se passou, não tenho vocábulos para contar. Quanto tempo me arrastei naquelas sombras densas, arrependido e infeliz, não sei dizer. Tive medo da vida, sem a presença de meu pai, mas o medo era o que eu sentia e não aquela temeridade que acabou por me perder. (...) Depois de um tempo que para mim teve a duração de séculos, uma voz me veio atender aos gritos de socorro... (grifos meus) A explicação para as "sobras densas" (que também aparece nas comunicações obtidas por Kardec) pode ser achada neste comentário de A. Kardec ("Céu e Inferno", II Parte, Cap. V, "O Suicida de Samaritaine"): Sua alma, embora separada do corpo, ainda está completamente mergulhada no que se poderia chamar o turbilhão da matéria corpórea; as ideias terrestres ainda são vivazes; ele não acredita que está morto. A "duração de séculos", em verdade, foi menos de cinco anos, pois a data da primeira mensagem é de janeiro de 1982. Em todas essas cartas - que tocaram profundamente os parentes e lhes serviram como lenitivos para as dores da separação - os Espíritos suicidas reconhecem a falta, a passagem pelo sofrimento e a perspectiva de reparação no futuro. Com relação ao sofrimento experimentado por suicidas com a morte, já havia observado Kardec pelas comunicações que não havia uma regra uniforme para todos os casos: Esse estado é frequente nos suicidas, mas nem sempre se apresenta em condições idênticas; varia sobretudo na duração e na intensidade segundo as circunstâncias agravantes ou atenuantes da falta. Ela é frequente entre aqueles que viveram mais da vida material do que da vida espiritual. Em princípio, não há falta sem punição; mas não há regra uniforme e absoluta nos meios de punição. (O Céu e o Inferno, II Parte, Exemplos, Capítulo V - Suicidas: O suicida da Samaritaine). De fato, em uma das cartas psicografadas, um dos autores reporta o estado de uma parenta suicida cuja culpa não teria se estabelecido pelo seu estado de doente mental. Perspectivas com as evidências de além tumulo. Nossa pesquisa bastante imperfeita mostra que, embora textos considerados sagrados possam veementemente condenar os suicidas, a maior parte das autoridades religiosas mais lúcidas são cuidadosas em ressaltar a impossibilidade da condenação absoluta - punição eterna -  pelo desconhecimento das causas que levaram o ato. Em todos os casos, o suicídio é condenável porque: Entende-se que o direito de subtração da vida não compete ao homem a quem a vida foi dada por um poder superior. O suicídio rompe laços de família e de obrigação que o indivíduo tem com sua sociedade e com o poder criador. Nossa conclusão é que, embora as diferenças patentes entre as crenças, fundamentalmente as religiões condenam o suicídio por motivos semelhantes. Porém, o Espiritismo permite pesquisar as consequências do ato após a morte: Por causa do rompimento abrupto do fluxo vital que viria a termo com a morte natural, o suicida está exposto a uma variedade de sofrimentos cuja duração não pode ser prevista e que gerará consequências para sua vida futura. Alguns intelectuais, ignorantes da fenomenologia psíquica, mantem a opinião de que a visão de sofrimento dos suicidas no além túmulo é um recurso psicológico - que se acredita inválido - para desmotivar o suicídio. Tal como a condenação eterna, seria um recurso para "assustar criancinhas". Ingenuamente creem eles, em sua visão materialista, que o ser não sobrevive e, portanto, não há porque se preocupar com isso. Como já dissemos antes, o materialismo não tem como frear o impulso suicida, sendo na verdade um potencializador dele, porque sua principal motivação é a falta de fé no futuro e a crença errônea de que a morte é o fim do ser. O Espiritismo, ao abrir um canal com os mortos - antes considerado proibido ou inaceitável por algumas religiões - permite conhecer em detalhes o estado da vida futura, conforme os atos previamente cometidos. Trata-se, portanto, de uma extensão dos casos das sequelas dos suicídios frustrados em estado desencarnado.  Não mais nosso estado presente de compreensão se baseará em antigas tradições ou crenças, mas na comprovação e nas evidências - que ainda não são universalmente aceitas por razões alheias aos fatos. É um novo mundo que se abre, permitindo o planejamento de nossas vidas pelo conhecimento das consequências finais dos erros alheios. A certeza na continuidade abranda as dores do agora e permite que o suicídio deixe de ser considerado como solução final. O suicídio é, acima de tudo, um problema de saúde espiritual e como tal deve ser tratado. www.eradoespirito.blogspot.com. Abraço. Davi


Editor do Mosaico. Uma oração. Divina, Santíssima e Amada Maternidade Cósmica. Concede-nos a graça de permanecer unidos a tua beatífica bondade e compaixão. Proteja todos nós, do egoísmo, narcisismo, masoquismo e sadismo. Elementos corruptores da vida encarnada outorgada pela divindade. Tendo seu tempo de duração e suas implicações cármicas em nossas ações e disciplina. Quando extrapolamos os limites do bom senso e integração de amor com as vidas humana, animal, vegetal e mineral. Irrefletidamente abortar a vida, fere mortalmente todo o processo evolucionário que adiantaria nosso progresso espiritual. Regredindo em centenas de encarnações num doloroso sofrimento, que passa a tornar-se a marca ou sinal de nossa transgressão voluntária. Apagado posteriormente em centenas de renascimentos para saldar esse terrível e impensado débito. Mãe Divina, indubitavelmente, temos no sofrimento o esmerilar de nosso quaternário inferior (físico, energético, emocional e mental), quando passado na normalidade encarnada cotidiana. Entretanto, ele, na situação onde a personalidade não foi formalmente destruída pelos senhores do carma, devido a obstrução voluntária egoisticamente realizada é uma extrema desconsolação. Podendo ser comparado ao esmagar de algumas toneladas de pedra numa bola de grafeno (um dos metais mais duros do mundo). Na mitologia temos o exemplo da maldição de Prometeu que acorrentado ao cume do monte Cáucaso, por haver roubado o fogo dos deuses e dado aos homens. Por causa desse delito, Zeus, o deus do Olimpo, ordenou que todos os dias uma águia (ou corvo) fosse ao monte é dilacerasse o fígado do Titã Prometeu, que horas depois, começava a regenerar-se. Mãe Divina, compunge nosso coração para aproveitar bem cada segundo, minuto, hora, dia, mês e ano de nossa vida. Praticando o amor e compaixão para com todos os seres, inclusive nós mesmos. Em I Samuel 2,6 é dito "O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer a sepultura e faz tornar a subir". Mãe Divina, guarde a todos nós muçulmanos, budistas, judeus, hinduístas, Hare krishnas, religião afrodescendentes, cristãos e todos os seguimentos espirituais para não atentarmos contra nossa preciosa e divina vida. Que possamos, ao término de nossa encarnação, oferecer-te com honra e veneração essa existência, que gratuitamente nos oferecestes, como forma de evolução para alcançar a completude com o Espírito Eterno. Louvado seja teu nome, Oh! Divina, Santa e Imaculada Mãe Universal. Tu que continuas intercedendo no Trono da Graça para o bem de todos os teus filhos aqui na Terra. Amém!   


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

AMPLIANDO O AUTOCONHECIMENTO


Islamismo. www.mesquitadobras.org.br. Por Ahmed Ismail. AMPLIANDO O AUTOCONHCIMENTO. O Islam, quer seja em seus aspectos mais evidentes ou em sua dimensão esotérica, enfatiza o autoconhecimento como “caminho” tanto para a compreensão como para a própria “prática real” do din. O Islam, quer seja em seus aspectos mais evidentes ou em sua dimensão esotérica (interior), enfatiza o autoconhecimento como “caminho” tanto para a compreensão como para a própria “prática real” do din. Este necessário autoconhecimento é citado de maneira constante no Alcorão e devido a sua complexidade, isto ocorre em passagens que poderiam ser tomadas como não relacionadas entre si. Contudo, também as fiéis tradições do Mensageiro (saas) e dos purificados Imames de Ahlul Bait (as) de diversas maneiras chamam a atenção para a importância do autoconhecimento demonstrando com clareza que a própria Palavra Revelada trata o tema em muitos de seus aspectos e isto se encontra esquematizado no Livro de Allah como uma Ciência Divina por excelência. Ayats sagrados como: “QUE O HOMEM CONSIDERE, POIS, DO QUE FOI CRIADO!” (S.86 V.5). “PELA ALMA E POR QUEM A APERFEIÇOOU E LHE IMPRIMIU O DISCERNIMENTO ENTRE O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO.” (S. 91 V.7/8). “E QUANDO TEU SENHOR DISSE AOS ANJOS: VOU INSTITUIR UM LEGATÁRIO NA TERRA ...” (S. 2 V. 30). Fazem parte de uma série de passagens em que Allah fala ao homem sobre o homem e o convoca a reflexão sobre si mesmo, sobre os objetivos de sua origem, a natureza de sua essência e a sua posição no universo. A finalidade deste autoconhecimento não é restrita ao aprimoramento moral e espiritual, neste importante progresso da consciência reside também o alcance de uma percepção madura e virtuosa diante dos desafios da vida prática e dos problemas inerentes a cada época. O mundo moderno forjado sob a égide do predomínio das relações econômicas tem apresentado desafios para os seres humanos os quais jamais tinham sido conhecidos em qualquer outro período da história. Os avanços tecnológicos, não obstante, tenham produzido inegáveis benefícios trouxeram consigo uma gama de novas visões e conceitos sobre o homem e sua existência. Uma vigorosa mentalidade materialista que vê na óbvia superioridade da máquina sobre o homem na produção um forte argumento para “subestimar” o valor humano se desenvolveu e se propagou. Correntes ideológicas firmemente ancoradas na lógica do lucro geraram expectativas cruéis sobre os indivíduos. O homem moderno se confronta com angustiantes expectativas de produção e consumo que manipulam sua autoestima e seu auto respeito. No âmago desta realidade está a falsa percepção incutida nos indivíduos de que um homem vale o que produz e o que é capaz de consumir. Podemos afirmar que esta é a mais destrutiva concepção sobre o homem e ela está na base de todas as inquietações e frustrações e em todo processo alienante que arrasta o ser humano a viver mais como um animal e a desperdiçar sua existência. Se tomarmos como exemplo os EUA, veremos que por uma ironia a nação mais rica do mundo é também a nação onde uma maior ansiedade e infelicidade se fazem presentes. Os dois gêneros de livros que mais vendem nos EUA são os que prometem receitas para se ficar rico ou recobrar a autoestima (o que via de regra significa “ter”). A consequência imediata é a frustração, o alcoolismo, o suicídio, as drogas para uma imensa maioria que não chegará “ao lugar ao sol” que muito poucos alcançam. E ao vermos os que “alcançam” percebemos que a realidade não é muito diferente. O número de grandes astros da fama, de magnatas, homens e mulheres bem-sucedidos que encontram a frustração no fim do túnel é incalculável. Esta é uma dura realidade que é sutilmente oculta pelo sistema: tanto o fracasso como o sucesso matam do mesmo jeito e com os mesmos sintomas. A ansiedade de “ter” e a frustração do “não ter” possuem em comum o mesmo referencial: neles não há autoconhecimento, ao contrário, há uma absoluta negação ao autoconhecimento. A palavra pecado em sua origem significa “errar o alvo” e ela se encaixa de modo perfeito para entendermos o processo destrutivo desta mentalidade materialista. Ao abandonarmos o vital empenho da reflexão sobre quem realmente somos e sobre qual o verdadeiro objetivo de nossa existência, somos induzidos a “crer” no que o mundo, um mundo dirigido pelo dinheiro não pela verdade, deseja nos fazer crer. Esta fuga sistemática do autoconhecimento é a força motriz de um estilo de vida inteiramente devotado ao exterior, a diversão, ao consumo desenfreado e a uma percepção dominada pela idéia de que “somos o que produzimos e o que podemos consumir”. Esta mentalidade corresponde a uma espécie de “darwinismo social” no qual seria uma seleção natural que determinaria o bem-estar dos fortes e a desgraça dos fracos e que, por conseguinte, em última análise “a culpa” do insucesso deveria ser inteiramente atribuída aos próprios indivíduos. Essa definição simplista e cruel apenas amplia a força destrutiva dos sentimentos e das frustrações para os quais grande parte dos indivíduos estão sendo arrastados no mundo moderno. Além de cruel, esta ideia é cínica, na medida que pretende ocultar as verdadeiras implicações políticas e econômicas que dirigem o mundo e as sociedades para uma realidade cada vez mais excludente em que as necessidades e o valor dos seres humanos são cada vez menos levados em conta. O Autoconhecimento para Uma Transformação Necessária. A palavra “conversão” no sentido em que é dado a ela no que diz respeito à religiosidade, possui em si uma bela definição do “aprimorar o autoconhecimento”. Quando começamos a compreender quem realmente somos, não segundo o que mundo e as regras econômicas pretendem nos fazer crer, mas sim, segundo o que Allah revelou sobre a natureza humana e sua posição no cosmos, e na medida em que passamos a viver de acordo com este conhecimento, então, somente a partir daí que nossas vidas passam a este estágio de “conversão”. Neste estágio é que se encontra a reavaliação de nossos objetivos, das nossas relações com as outras pessoas, uma reestruturação de nossos valores e de nossa ética em conformidade à Diretriz Divina. O homem comum, o homem produto desta época é mais como “um produto em série”. Se olharmos para os seus objetivos, suas relações no trabalho, na família e todo o conjunto de seus costumes, crenças e valores morais e éticos perceberemos que todos esses itens estão submetidos aos padrões do dinheiro, da produção e do consumo. São estes padrões que afinal determinam o que há e o que não há de ser. Para compreender melhor isso tomemos como exemplo um homem rico e famoso. Se de repente ele se tornar um homem pobre, quais garantias ele tem de que o seu círculo de amizades atual permanecerá? De que sua esposa não o abandonará? De que toda sua família não dará as costas para ele? Este é um exemplo do que significa relações pessoais definidas pelos padrões do dinheiro, da produção e do consumo. O mesmo motivo é que nos tornamos uma sociedade que não suporta a velhice, não só por que ela nos lembra a morte, mas principalmente porque ela significa “sair do padrão exigido de produção”. Então, nos desfazemos de nossos idosos como de “trastes incômodos”, nós os enviamos para asilos para que esperem a morte. Dêem uma olhada nos hospitais e nos manicômios. Eles estão repletos de pessoas que foram abandonadas por seus familiares. Pessoas que quando eram saudáveis e produziam tinham filhos, maridos, esposas e agora que estão gravemente enfermos se tornaram “estorvos”. É bem verdade que esta ainda não é uma regra geral da sociedade moderna, todavia é preocupante a sua crescente incidência nas últimas décadas na mesma proporção em que os valores religiosos decaem. Portanto, é essa busca do auto-conhecimento dirigida para a reavaliação dos nossos objetivos e da nossa visão da vida que se faz necessária. E ela é vital para que não nos tornemos vítimas e algozes de nós mesmos. Há um profundo senso científico e lógico no conhecimento espiritual legado pelos Profetas (as) e Imames (as). Eles não abordavam o conhecimento para a teoria, muito ao contrário, eles o aplicavam segundo a lógica que podia ser compreendida pelo homem comum. Concernente ao tema poderíamos citar a conhecida parábola atribuída a Isa (as) sobre a edificação da casa sobre a rocha ou sobre a areia como o perfeito método para a reavaliação de nossos objetivos e a redefinição de nossa vida. O viver segundo uma mentalidade irreligiosa e materialista se assemelha ao “construir a casa sobre a areia”. Erigir nossa vida sobre valores e objetivos falsos e inconsistentes. Valores e objetivos que de um modo ou de outro, a curto ou longo prazo, nos conduzirá a frustração. Ampliar o nosso autoconhecimento significa, sobretudo, nos livrarmos das muitas falsas concepções que a sociedade materialista nos vende como verdades acabadas, sobre nós mesmos e sobre os demais seres humanos e sobre a própria existência. É compreender que a mentalidade materialista e irreligiosa existe para escravizar nossa mente e o nosso coração para que não encontremos qualquer traço de autoestima e auto respeito senão servindo a ela. Esta mentalidade irreligiosa se alimenta da infelicidade e da ignorância do homem sobre si mesmo. Ao compreendermos isso, teremos dado um passo importante. O segundo passo é “ouvir” “meditar atentamente” sobre o que Allah nos fala no Alcorão sobre “quem realmente somos” e quais são os verdadeiros objetivos de nossa existência. Uma pessoa que dê estes dois passos e que se firme neste caminho não estará vulnerável ao que tem conduzido milhões de pessoas a frustração, a destruição da autoestima e do auto respeito e consequentemente as muitas formas de autodestruição que o sistema materialista nos coloca a disposição. E quando falo de autodestruição, não me refiro apenas aos seus aspectos mais óbvios do alcoolismo ou das drogas. A autodestruição na maioria das vezes é um processo moral e psicológico que atinge a alma humana. É uma lamentável ironia que a sociedade moderna dirigida por esta mentalidade materialista e irreligiosa inclua na lista das ambições o “viver muito”. A medicina alopática dedica um grande esforço de pesquisa para encontrar recursos para “prolongar a vida”. Todavia, está fora de questão encontrar meios de garantir uma “vida com paz de espírito”. É assustador pensarmos que poderemos viver muito mais tempo não obstante não haja como garantir “satisfação na alma” “sentido a esse viver” de modo a que não seja apenas “uma lenta sucessão de dias e noites para busca de satisfação, enfastio, e, naturalmente, o inevitável envelhecimento e a aproximação da morte. Tudo o que este sistema irreligioso e materialista tem a oferecer e pode garantir é na melhor das hipóteses o enfastio dos sentidos, a sensação do acúmulo de coisas que possa preencher o vazio da alma. Olhe para a publicidade (que é uma espécie de voz deste sistema), veja o que ela está a propor: o “novo” e supermoderno carro que lhe dará (?) sensação de poder, liberdade, independência e principalmente STATUS perante os demais. O “novo” produto ou método miraculoso que lhe dará (?) a juventude permanente, a beleza “que desafia o tempo”. Estas e todas as outras promessas da publicidade estão dirigidas para a sua “insatisfação mais profunda” ao seu medo ao “autoconhecimento”, e por conseguinte, a “ausência de paz de espírito” que o domina. Por isso mesmo este sistema irreligioso e materialista precisa de nossa insatisfação, de nossa ausência de paz e de nossa rejeição ao autoconhecimento. Para que você busque a “sensação” de liberdade ou de poder a todo custo é preciso que você não saiba o que é e não tenha nenhuma verdadeira liberdade ou poder em sua alma. Acaso podemos imaginar um publicitário tentando vender “promessas vazias” de liberdade, poder ou beleza e juventude permanente para um homem que tenha encontrado “um sentido espiritual em sua vida”? Decerto que não. Por esta razão é que este sistema materialista procura “destruir” a verdadeira religiosidade, substituí-la pelo que seja falso e superficial, pelo que possa “ser tratado como produto de consumo”. Este sistema desenvolveu a indústria da fé no ocidente na qual é possível atrair pessoas com slogans de “Jesus o salvará” ou “todos os seus problemas podem ser resolvidos agora”. Do mesmo modo ele pode atrair pessoas para “seitas místicas da moda” ou qualquer outro brinquedo da mente que dará a elas a “sensação” de “encontro interior” (desde que elas possam pagar por isso). O ampliar o autoconhecimento requer a consciência de todos esses processos que visam nos afastar da verdade. Porque o fato concreto é que o “encontro com a verdade” nos causa medo. A verdade não se conforma as nossas ilusões, ao contrário, ela as desfaz. Então, o caminho do autoconhecimento requer coragem. E este é o real significado da “conversão”. Significa que não podemos continuar a viver e pensar segundo o que o sistema materialista e irreligioso nos propõe. Significa que temos que rejeitar os seus valores e padrões, reconhecê-los como falsos e então, substituí-los, pelos valores e padrões do DIN. Isto é, fundamentar a casa sobre a Rocha. Aplicar estes valores e padrões na escolha de nossos objetivos, nas nossas atitudes e no modo como nos relacionamos com nossos semelhantes. Significa que não poderemos “amar” a Allah, ou nossa esposa ou nossos filhos e amigos segundo os interesses da mentalidade irreligiosa. Mas sim, aprender a fazê-lo segundo os padrões espirituais. Não poderemos continuar a nos relacionarmos com Deus como quem tenta se utilizar disso para este ou aquele interesse, não poderemos continuar a “manipular” e nos “utilizar” das pessoas e chamar isso de “amor” ou “amizade”. Somente quando alguém estabelece está “mudança de valores” é que se torna Religiosa. E então a mentalidade materialista, o sistema irreligioso não pode mais traficar suas “falsas esperanças” em sua vida. Isso se assemelha a um homem que, enquanto não conheça a moeda corrente autêntica de um país estranho, aceitará facilmente qualquer moeda falsa que seja oferecida a ele. Porém, ao conhecer a moeda verdadeira não mais aceitará a falsa. Quando alguém amplia seu autoconhecimento através da Orientação do Din, conhece a moeda autêntica. Tudo o que a mentalidade materialista tem a oferecer são moedas falsas que não são o que parecem ser. Se fugirmos do autoconhecimento permanecemos tolos. Continuaremos aceitando moedas falsas. Inquietações e angústias cuidadosamente “fabricadas” inspiradas em “necessidades imaginárias” que o sistema cultiva em nossa mente e em nosso coração continuarão fazendo com que sejamos e vivamos segundo expectativas falsas. E este é um caminho de infelicidade garantida nesta vida e na vida eterna. Autoconhecimento para Autêntica Autoestima. Nada é mais verdadeiro em relação a autoestima e o consequente auto respeito do que o reconhecimento e a adoção do Din como diretriz para nossa vida. Primeiramente, é necessário nos tornarmos conscientes de que a autêntica autoestima nada tem a ver com o que a mentalidade materialista nos oferece como “visão sobre nós mesmos”. Quando seguimos a mentalidade materialista nos convencemos que a nossa autoestima deve se basear em “nos sentirmos superiores aos demais” e em colocarmos nossos interesses e ambições pessoais num pedestal e então “servirmos nossa vaidade”. Esta mentalidade irreligiosa nos condiciona a crença de que quanto mais adotemos estes princípios maior será a nossa autoestima e que isto significa “amar a si próprio”. E, no entanto, tudo isto nada mais é do que “ruína” para a alma e para o coração humano. O fato é que quanto mais alguém deseja “superioridade sobre os demais” maior é a sua sensação de “pequenez” o que o leva a atitudes ignóbeis e indignas. Tanto mais alguém viva para prestar culto a sua vaidade pessoal, maior será sua incapacidade de encontrar satisfação e paz de espírito. Desde que seus interesses e ambições pessoais dirijam sua consciência é certo que praticará injustiças e traições. Em suma, mesmo que venha a iludir aos outros, jamais alcançará algo próximo de qualquer Autoestima. Será na melhor das hipóteses, um dos que enganaram-se a si próprios até acreditarem em suas próprias mentiras. Esse padrão de comportamento e esta mentalidade narcisista tornou-se dominante nos dias atuais. A sociedade moderna exalta como um Modelo Ideal de Vida o culto personalista, o culto ao corpo e as conquistas materiais. As pessoas são levadas a crer que a Autoestima reside no “ter”, mas, não apenas no ‘ter’ mas também no “Ostentar”. Grande parte da indústria do entretenimento existe em função desse narcisismo febril. Artistas, modelos, homens e mulheres bem-sucedidas são consagrados como “ídolos a serem venerados e imitados”. Curiosamente, quando atentamos para essas pessoas, para o que elas dizem e fazem, para suas expectativas e para o modo como veem a vida percebemos que tudo nelas é “falso” sua suposta “felicidade” é movida pela satisfação da vaidade, o que requer destaque, notoriedade pública constante. Suas vidas são completamente vazias do mesmo modo que elas próprias são “vazias”. Na verdade estão condenados a representar eternamente a imagem que criaram de si próprias. Não passam de “ídolos de carne e osso” e como tal não mais possuem domínio sobre suas vidas. Esse tipo de “amor-próprio” se assemelha a cocaína. Cedo ou tarde todo prazer que possa proporcionar termina em frustração e derrota. Não há um caminho para a autêntica autoestima senão através do autoconhecimento pela adoção das diretrizes de Allah. Nenhuma verdadeira autoestima pode ser alcançada enquanto nos deixarmos iludir pela mentalidade materialista que nos faz confundir felicidade com “diversão”, amor com “tudo o que se possa comprar”. Não há nenhuma “autoestima” no orgulho e na vaidade simplesmente porque “não se ama o que não se conhece”. Palavras Finais. A ênfase dos preceitos do Din e os ensinamentos dos profetas e dos Imames está no direcionamento de nossa consciência ao aprendizado da humildade e da generosidade, na adoção de um modo de vida simples para que nosso coração e a nossa razão encontrem o necessário equilíbrio. Sobretudo, há a ênfase neste aprendizado lento e progressivo de compreender o significado de nossas vidas, que em outras palavras se trata do ampliar o nosso “autoconhecimento”. O mundo atual representa imensos desafios neste caminho. Falsas expectativas e inquietações se interpõem entre cada um de nós e as diretrizes divinas do Islam. Entretanto, aqueles que pela misericórdia de Allah adotaram esta Senda contam com um firme sustentáculo a seu alcance para superar esses obstáculos. O sagrado Alcorão e a Sunnah autêntica do Mensageiro (saas) e dos Imames de sua Casa (as) não estão distantes dos que crêem e se firmam. As sombras da ignorância e a Luz do autoconhecimento não distam mais um do outro do que nossas próprias escolhas diárias. Vencer as inquietações e as angústias do mundo em que vivemos é um desafio menor do que vencermos nossas próprias apreensões relacionadas ao nosso excessivo amor à vida mundana e o nosso apego as nossas próprias paixões e caprichos. Por esta razão é tão necessária uma transformação de nossa consciência pela Fé e pela ampliação do autoconhecimento. www.mesquitadobras.org.br. Abraço. Davi