Budismo. Livro Vida e Doutrina de Sidarta Gautama. Por Yogi Kharisnanda. O SERMÃO FINAL. Capítulo X. O Senhor Buda assim falou a Ananda de mim, como representante de toda a Ordem: Que espera a Ordem de mim? Preguei a Verdade sem distinção entre a doutrina esotérica e a exotérica - misteriosa de pouco acesso, pois no tocante à verdade, o Tathágata não tem nada semelhante ao punho cerrado de um instrutor que oculta alguma coisa. Certamente, Ananda, se alguém desejar ser o guia da Ordem e acreditar que é o fundamento da Ordem. Deveria dar instruções pertinentes ao governo da Ordem. Por que haveria o Tathágata de dar instruções para o governo da Ordem? Já sou velho. Ananda: tenho 80 anos e concluo meus dias. Assim como um carro velho roda com dificuldade, do mesmo modo o meu corpo se sustenta com muito cuidado. Meu corpo só está bem quando me abstrato em prece fervorosa, meditando, fora do mundo material. Desse modo, Ananda, sejam suas próprias lâmpadas. Apoiem-se em vocês mesmos e não em algum sustentáculo externo. Mantendo-se firmes à luz de suas lamparinas, busquem a libertação na Verdade. Não peçam auxílio a ninguém mais do que a vocês mesmos. Porque, como, Ananda, pode um irmão em lamparina para si mesmo se não se apoia em si, mas em algo externo. Se não mantém firme a Verdade e na Verdade não busca a salvação, sem outro auxílio que o seu próprio? Assim, pois, Ananda, já que o irmão mora num corpo, procure vencer as dores que fluem dos desejos do corpo. Que enquanto esteja exposto as sensações, considere-as de tal maneira que vença neste mundo a dor resultante das sensações. E aqueles que agora ou depois de minha morte forem lamparinas de si mesmos e buscarem a libertação na Verdade sem pedir auxílio externo, alcançarão a iluminação. Entre no Caminho! Não há dor mais amarga do que o ódio, nem sofrimento como o da paixão, nem engano maior do que o da luxúria e da torpe sensualidade. Entre no caminho! Muito adiantado já está quem espezinha vício dominante. Entre no Caminho! Dali fluem as salutares fontes que saciam toda sede. Ali florescem as flores que não murcham e que alegremente acarpetam todos os caminhos. Ali se apressam as horas mais velozes e felizes. Mais valioso que as joias é o tesouro da lei. Sua doçura excede à do favo de mel. Suas delícias excedem a todo deleite. Não matem. Sejam compassivos e não detenham em seu ascendente caminho nem o mais ínfimo ser. Deem e receberão generosamente, porém, não arrebatem de ninguém, cobiçosos, seus bens com violência ou fraude. Não deem falsos testemunhos. Não caluniem. Não mintam. A Verdade é manifestação da pureza interior. Abstenham-se de drogas e bebidas que perturbam a mente. Iluminem a mente. As mentes puras e os corpos puros necessitam do néctar do Soma - planta sagrada da Índia. Não toquem na mulher do próximo nem cometam pecados carnais contra a natureza. Aqueles que não podem quebrar desde já as opressoras cadeias dos sentidos e cujos pés são demasiado débeis para trilhar a estrada pedregosa. Devem disciplinar sua conduta de tal modo que todos os dias terrenos transcorram irrepreensíveis, praticando obras caridosas. Devem dar, embora vacilantes, os primeiros passos no caminho óctuplo, vivendo puros. Humildes, pacientes, compassivos. Amando todos os seres como a si mesmos, porque o mal é consequente do passado mal e o bem procede de um passado bom. Agindo deste modo, o homem livra-se de sua personalidade, ajuda o mundo, aumenta a sua felicidade na vida futura e aproxima-se da perfeição. Há tempos, na hora do alvorecer, quando eu passeava por um bosque de bambus próximo de Rajagriha. Vi o chefe de uma família cingalesa - grupo étnico do antigo Ceilão, atual Sri Lanka - que, ao sair do banho e com a cabeça descoberta. Saudava a terra, o céu e os quatro pontos cardeais, espalhando arroz branco e vermelho com as duas mãos. Por que está saudando assim, meu irmão?, perguntei-lhe. É a regra, respondeu. Nossos pais nos ensinaram que pela manhã, antes de iniciar as tarefas cotidianas, se deve conjurar o mal que vem do céu que nos cobre. Da terra que está sob nossos pés e dos quatro pontos cardeais. Respondi-lhe: Não espalhe arroz, mas, antes, ofereça a todas as criaturas pensamentos e ações de amor. A seus pais, olhando para o Oriente, de onde brota a luz. A seus mestres, olhando para o Sul, de onde provêm valiosos dons. A sua mulher e seus filhos, olhando para o Ocidente, de onde fulgem suaves e delicadas cores e onde morrem os dias. A seus amigos, parentes e a todos os seres, olhando para o Norte. Aos humildes, inclinando-se para o solo. Aos santos, aos anjos e aos mortos bem-aventurados, contemplando o céu. Procedam vocês também assim que conjurarão todo mal e saudarão o mundo em suas seis direções cardeais. Abraços. Davi.
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