Confucionismo. www.https//rt.br. OS ANALECTOS – LIVRO IX. 1. As ocasiões em que o Mestre falava sobre lucro, Destino e benevolência eram raras. 2. Um homem de um vilarejo em Ta Hsiang disse: “Grande é Confúcio (551 AC 479)! Ele acumulou muito conhecimento, mas não se sobressaiu pessoalmente em campo nenhum”. O Mestre, ao ouvir isso, disse aos seus discípulos: “Em que deveria eu tornar-me proficiente? Em dirigir? Ou no arco? Acho que preferiria dirigir”. 3. O Mestre disse: “Os ritos prescrevem um boné cerimonial de linho. Hoje, usamos seda preta no lugar. Isso é mais frugal, e eu sigo a maioria. Os ritos prescrevem que a pessoa se prostre antes de subir os degraus. Hoje faz-se isso após tê-los descido. Isso é casual, e, embora indo de encontro à maioria, sigo a prática de prostrar-me antes de subir”. 4. Havia quatro coisas com as quais o Mestre recusava ter qualquer relação: recusava-se a fazer conjecturas [99] ou a ser dogmático; recusava-se a ser inflexível ou egocêntrico. 5. Quando estava em estado de sítio em K’uang, o Mestre disse: “Com o rei Wen morto, a civilização (wen) não depende agora de mim? Se o Céu quer que a civilização seja destruída, aqueles que vierem depois de mim não terão qualquer coisa a ver com ela. Se o Céu não quer que esta civilização seja destruída, então o que os homens de K’uang podem fazer contra mim?”. 6. O t’ai tsai [100] perguntou a Tzu-kung: “Com certeza o Mestre é um sábio, não é mesmo? De outra forma, por que teria ele tantas habilidades?”. Tzu-kung disse: “É verdade, o Céu colocou-o no caminho da sabedoria. Entretanto, ele tem vários outros talentos”. O Mestre, ao ouvir isso, disse: “Como o t’ai tsai me conhece bem! Eu era de origem humilde quando jovem. É por isso que tenho várias habilidades manuais. Mas deveria um cavalheiro ter várias habilidades? Não, de modo algum”. 7. Lao [101] disse: “O Mestre disse ‘Nunca recebi um cargo oficial. É por isso que sou um faz-tudo’”. 8. O Mestre disse: “Possuo conhecimento? Não, não possuo. Um camponês me fez uma pergunta, e minha mente ficou completamente vazia. Revirei a pergunta por todos os lados até que consegui extrair tudo dela”. [102] 9. O Mestre disse: “A fênix não aparece, tampouco o rio revela um mapa. [103] É o meu fim”. 10. Quando o Mestre encontrava homens que estavam de luto ou de chapéu e trajes cerimoniais, ou que eram cegos, ele punha-se de pé, mesmo que fossem mais jovens do que ele, e, ao passar por eles, apressava o passo. [104] 11. Yen Yüan, suspirando, disse: “Quanto mais o observo, mais alto ele parece. Quanto mais o pressiono, mais duro ele se torna. Vejo-o à minha frente. De repente, está atrás de mim. “O Mestre é bom em conduzir alguém passo a passo. Ele me estimula com a literatura e me traz de volta às coisas essenciais por meio dos ritos. Eu não conseguiria desistir nem que quisesse, mas, uma vez que dei o melhor que pude, ele [105] parece levantar-se acima de mim e não consigo segui-lo, por mais que eu queira.” 12. O Mestre estava muito doente. Tzu-lu disse a seus discípulos para servirem de empregados. [106] Quando sua saúde melhorou, o Mestre disse: “Yu vem enganando há muito tempo. Ao fingir que eu tinha empregados quando não os tinha, a quem ele estaria enganando? Estaríamos enganando os céus? Além disso, não preferiria eu morrer nas mãos de vocês, meus amigos, do que nas mãos de empregados? E, mesmo que não me fossem dados funerais requintados, eu não morreria em negligência”. 13. Tzu-kung disse: “Se tivesse um belo pedaço de jade, você o guardaria com cuidado em uma caixa ou tentaria vendê-lo por um bom preço?”. O Mestre disse: “Claro que o venderia. Claro que o venderia. Estou apenas esperando pela oferta certa”. 14. O Mestre queria se estabelecer entre as nove tribos bárbaras do Leste. Alguém disse: “Mas o senhor conseguiria suportar seus modos selvagens?”. O Mestre disse: “Uma vez que um cavalheiro se estabelecesse entre eles, que selvageria ainda existiria?”. 15. O Mestre disse: “Foi depois da minha volta de Wei para Lu que a música voltou à ordem, com o ya e o sung [107] sendo designados para os devidos lugares”. 16. O Mestre disse: “Servir a altos oficiais quando no exterior e àqueles mais velhos que eu quando em casa; ao preparar funerais, não poupar a mim mesmo e beber pouco – essas são as coisas comuns que não me causam problema algum”. 17. Certa vez de pé, junto a um rio, o Mestre disse: “Tudo o que passa é, talvez, como este rio. Dia e noite, ele nunca desacelera”. 18. O Mestre disse: “Ainda estou para conhecer o homem que tenha tanta afeição pela virtude quanto pela beleza feminina”. [108] 19. O Mestre disse: “É como fazer um monte: se paro antes de encher a última cesta de terra, então não chegarei ao fim. É como aterrar o chão: se sigo adiante apesar de ter nivelado apenas o conteúdo de uma cesta de terra, então farei progressos”. 20. O Mestre disse: “Se há alguém que consegue me ouvir com atenção incansável, trata-se de Hui, suponho”. 21. O Mestre disse sobre Yen Yüan: “Vi-o progredir, mas não o vi dar completa vazão ao seu potencial. Que pena!”. 22. O Mestre disse: “Há, não é verdade?, plantas jovens que não conseguem produzir botões, e botões que não conseguem produzir frutas?”. 23. O Mestre disse: “Deve-se admirar os jovens. Como podemos ter certeza de que as gerações futuras não serão iguais à presente? Creio que apenas quando um homem atinge a idade de quarenta ou cinquenta anos sem se destacar de nenhuma maneira pode-se dizer que ele não merece ser admirado”. 24. O Mestre disse: “Não se pode senão concordar com palavras exemplares, mas o importante é retificar a si mesmo. Não se pode senão ficar satisfeito com palavras elogiosas, mas o importante é reformar a si próprio. Nada posso fazer com o homem que concorda com esses preceitos mas que não retifica a si próprio, ou com o homem que fica lisonjeado mas que não reforma a si próprio”. 25. O Mestre disse: “Fazer o melhor pelos outros e ser coerente com o que diz: faça disso o seu princípio norteador. Não aceite como amigo ninguém que não seja tão bom quanto você. Quando cometer um erro, não tenha medo de corrigilo”. [109] 26. O Mestre disse: “Pode-se privar os Três Exércitos do seu comandante, mas nem mesmo um homem comum pode ser privado do seu livre-arbítrio”. 27. O Mestre disse: “Se há alguém que pode usar um gorro surrado e remendado com velhos fios de seda e ainda assim conseguir permanecer junto a um homem que veste pele de raposa ou de texugo sem se sentir envergonhado, este é, creio, Yu. Nem invejoso nem ambicioso, Que pode ser ele, senão Bom?”. [110] Portanto, Tzu-lu constantemente recitava esses versos. O Mestre comentava: “O caminho resumido nesses versos dificilmente tornará alguém bom”. 28. O Mestre disse: “Apenas quando chega o frio percebe-se que o pinheiro e o cipreste são os últimos a perder as folhas”. 29. O Mestre disse: “O homem sábio nunca fica indeciso; [111] o homem benevolente nunca fica aflito; [112] o homem corajoso nunca tem medo”. [113] 30. O Mestre disse: “Um homem apropriado para ser o parceiro de alguém nos estudos não é, necessariamente, apropriado como o parceiro na busca pelo Caminho; um homem apropriado para ser um parceiro na busca pelo Caminho não é, necessariamente, apropriado como alguém com quem compartilhar um compromisso; um homem apropriado como alguém com quem compartilhar um compromisso não necessariamente é apropriado como parceiro para o exercício da excelência moral”. 31. As flores da cerejeira, Como ondulam no ar! Não é que eu não pense em você, Mas sua casa fica longe demais. [114] O Mestre comentou: “Ele não a amava de verdade. Se amasse, não existiria algo como ‘longe demais’”. www.https//rt.br. Abraço. Davi
quinta-feira, 16 de janeiro de 2025
terça-feira, 14 de janeiro de 2025
OS ANALECTOS - LIVRO VIII
Confucionismo. www.https//rt.br. OS ANALECTOS – LIVRO VIII. 1. O Mestre disse: “Seguramente T’ai Po pode ser considerado muito virtuoso. Três vezes ele abriu mão de seu direito de governar o Império sem dar ao povo a oportunidade de louvá-lo”. 2. O Mestre disse: “Amenos que um homem tenha o espírito dos ritos, ao ser respeitoso ele vai exaurir a si mesmo, ao ser cuidadoso ele vai se tornar tímido, ao ter coragem ele vai se tornar indisciplinado e, ao ser íntegro, ele vai se tornar intolerante. [88] “Quando o cavalheiro sente profunda afeição por seus pais, o povo será levado à benevolência. Quando ele não esquece amigos de longa data, o povo não fugirá de suas obrigações.” 3. Quando estava seriamente doente, Tseng Tzu chamou seus discípulos e disse: “Olhem para as minhas mãos. Olhem para os meus pés. As Odes dizem: Com medo e tremendo Como se aproximando de um profundo abismo, Como se andando sobre gelo fino. [89] Somente agora tenho a certeza de ter sido poupado [90] , meus jovens amigos.” 4. Tseng Tzu estava muito doente. Quando Meng Ching Tzu o visitou, eis o que Tseng Tzu disse: Triste é o canto de um pássaro que morre; Boas são as palavras de um homem que morre. “Há três coisas que o cavalheiro mais valoriza no Caminho: ficar longe de violência ao apresentar uma aparência séria, tornar-se confiável ao mostrar no rosto uma expressão apropriada e evitar ser entediante e pouco razoável ao falar em um tom apropriado. Quanto às questões da liturgia ritual, há oficiais responsáveis por isso.” 5. Tseng Tzu disse: “Ser competente e ainda assim pedir conselho para aqueles que não são. Ter muitos talentos e no entanto pedir conselho para aqueles que têm poucos. Ter e no entanto parecer que não tem. Estar cheio e no entanto parecer vazio. [91] Sofrer uma transgressão e no entanto não se importar. Era para esses objetivos que meu amigo [92] costumava dirigir seus esforços”. 6. Tseng Tzu disse: “Se a um homem pode ser confiado um órfão de seis ch’ih [93] de altura e o destino de um reino de cem li quadrados de tamanho, sem que ele se desvie dos seus propósitos nem mesmo em momentos de crise, não se trata de um cavalheiro? Trata-se, de fato, de um cavalheiro”. 7. Tseng Tzu disse: “Um Cavalheiro deve ser forte e resoluto, pois seu fardo é pesado e sua estrada, longa. Ele toma a benevolência como fardo. Isso não é pesado? Apenas com a morte a estrada chega a um final. Isso não é longo?”. 8. O Mestre disse: “Inspire-se nas Odes, firme sua atitude com os ritos e aperfeiçoe-se pela música”. 9. O Mestre disse: “O povo pode ser obrigado a seguir um caminho, mas não pode ser forçado a entendê-lo”. 10. O Mestre disse: “A insatisfação com a pobreza levará um homem de índole corajosa a um comportamento indisciplinado. O ódio excessivo levará homens que não são benevolentes a um comportamento indisciplinado”. 11. O Mestre disse: “As qualidades de um homem tão talentoso quanto o duque de Chou não mereceriam atenção se ele fosse também arrogante e egoísta”. 12. O Mestre disse: “Não é fácil achar um homem capaz de estudar durante três anos sem pensar em receber um salário”. 13. O Mestre disse: “Dedique-se com fé a aprender e espere a morte da maneira certa. Não entre em um reino instável; não permaneça em um reino instável. Mostre-se quando o Caminho vingar no Império, mas esconda-se quando isso não acontecer. É vergonhoso ser pobre e humilde quando o Caminho prevalece no reino. Igualmente, é vergonhoso ser rico e nobre quando o Caminho cai em desgraça no reino”. 14. O Mestre disse: “Não se preocupe com questões de governo a menos que sejam da responsabilidade do seu cargo”. [94] 15. O Mestre disse: “Quando Chih, o mestre de música, começa a tocar, e quando o Kuan chü [95] chega ao fim, como o som enche os ouvidos!”. 16. O Mestre disse: “Homens que rejeitam a disciplina e que, no entanto, não são corretos, homens que são ignorantes e que, no entanto, não são cautelosos, homens que são desprovidos de habilidade e que, no entanto, são inconfiáveis estão bem além da minha compreensão”. 17. O Mestre disse: “Mesmo com um homem que persegue os estudos como quem luta pela própria vida meu temor é que ainda assim ele não consiga fazê-lo a tempo”. 18. O Mestre disse: “Quão superiores Shun e Yü foram ao se manter à distância do Império quando, na verdade, tinham domínio sobre ele”. 19. O Mestre disse: “Yao foi de fato um grande governante! Que sublime! O Céu é grande, e Yao espelhou-se nele. Ele era tão grandioso que o povo não tinha palavras para louvar-lhe as virtudes. Superior foi ele em seus sucessos e brilhante em suas realizações!”. 20. Shun tinha cinco oficiais, e o Império era bem-governado. O rei Wu disse: “Tenho dez oficiais competentes”. Confúcio comentou: “É difícil encontrar pessoas talentosas: que verdade! Os tempos de T’ang e Yü [96] foram ricos em pessoas talentosas. [97] Eram, na verdade, apenas nove, incluindo uma mulher. [98] A dinastia Chou continuou servindo a Yin mesmo quando dominava dois terços do Império. A virtude de Chou pode ser considerada suprema”. 21. O Mestre disse: “Em Yü não encontro defeito algum. Ele comia e bebia frugalmente ao passo que fazia oferendas aos espíritos dos ancestrais e aos deuses com a mais extrema devoção, apropriada a um descendente. Ele vestia roupas comuns ao passo que não poupava enfeites em suas vestes e chapéus litúrgicos. Ele morava em pobres casebres ao passo que devotava toda sua energia à construção de canais de irrigação. Em Yü não encontro defeito algum”. www.https//rt.br. Davi. Abraço.
domingo, 12 de janeiro de 2025
A BELEZA DA VIRTUDE. Parte II
Espiritualidade. Livro em Busca da Sabedoria. Por N. Sri Ham (1889-1973). A BELEZA DA VIRTUDE. Parte II. A forma que vem à existência modifica-se de momento em momento, quando a ação que cria a forma surge de uma base de sensibilidade e vida, a vida significa mudança a cada momento. Pode haver uma ação assim espontânea porque quando o terreno está livre, quando há uma qualidade de pureza ou inocência naquele solo. A semente divina presente em toda parte da natureza, ela é realmente uma concentração de energia, floresce por si mesma. O que é divino é sempre belo. As suas energias agem em conjunto e criam uma forma de beleza. Um conhecido hino hindu antigo fala da “semente uma” que floresce em muitas formas diferentes. Ela é tão fértil, tão plena de potencialidade, que suas energias irrompem em ação por si mesmas quando o caminho está aberto para que assim o façam. Todas as virtudes emergentes de um mesmo solo puro de uma natureza incorrupta, constituem, em sua totalidade, uma forma de perfeição. É esta verdade que é transmitida na lenda do Cristo que nasceu da Virgem Maria. O Cristo sendo a personificação da graça e beleza divinas bem como da Sabedoria. Maria representando aquela natureza imaculada, da qual a perfeição surge espontaneamente. Quando há um instinto de beleza, tudo o que se faz acompanhando aquele instinto será belo. Da mesma maneira, pode haver um instinto de virtude ou retido, e quando ele entra em ação, tudo o que se faz, pensa e sente, será reto e belo. Quando a harmonia que é inata e latente na natureza incondicionada ou espiritual é manifestada em uma forma de beleza. Podemos denominá-la a beleza da alma, e ela é mais bela do que qualquer beleza exotérica. Tem sido dito que todas as artes aspiram na direção da música. São uma à forma assumida pela música mais bela. Todas as obras de pintura, escultura e arquitetura precisam ser criação em um meio menos plástico do que o som. A música sobressai-se porque nela há também mudança e movimento de um momento ao outro. A natureza que estamos discutindo se modifica de instante em instante, e a mudança que está em um meio que representa o limite em plasticidade pode ser mais sutil do que qualquer outra coisa que posso ser concebida por nossas mentes. É uma tal natureza de sensibilidade e harmonia, isenta de qualquer elemento que possa impedir ou distorcer a sua ação. Prestando-se as mais sutil modificações e nuances, que constitui a verdadeira individualidade da alma do homem. Toda a beleza que vemos ao nosso redor, nas coisas externas a nós, nada mais é do que reflexos imperfeitos da beleza que reside no interior. Essa beleza interior quando passa a manifestar-se, traduz em vida a ação, sempre cambaleante, porém apresentando em cada mudança um aspecto daquela harmonia que constitui a sua base. Uma distinção fundamental nas virtudes estaria entre aquelas que podem ser chamadas básicas ou espirituais. Expressando a natureza essencial da alma, a qualidade nela presente, virtudes tais como humildade, inocência, pureza e amor e outras que são auxiliares ou representam efeitos secundários prestando-se a razão como necessária e prática. Exemplo dessas últimas seriam a liberdade de indolência, perseverança, discrição e assim por diante. Estas em si mesmas são insuficientes. A perseverança é necessária, mas pode-se perseverar na direção errada. Pode-se não ser indolente, mas energético, e pode-se estar fazendo mais mal do que bem com sua energia. É preciso penetrar profundamente na natureza de todo bem e mal na forma que existe em nós. Deve haver uma compreensão, por exemplo, do que implica a indolência e o que ela faz conosco e com os outros. Quando houver uma compreensão, deixar-se-á de ser indolente, preso, amarrado, estático e inerte. Quando um artista cria uma bela forma, ela sempre expressa determinada qualidade que parece permear aquela forma. Ela evoca no observador um sentimento que possui aquela qualidade. Toda forma bela de comportamento exprime uma qualidade que está na natureza da alma. Aquela natureza consiste nessas qualidades. Contudo uma forma copiada de um modelo não pode ter a beleza ou a graça que possuiu uma forma trazida à existência a partir de uma compreensão ou um sentimento interior, enquanto criação espontânea.A natureza da alma possui uma beleza atemporal, que não é desta Terra. Todas as virtudes são manifestações daquela beleza. Em sua totalidade, elas constituem, por assim dizer, a flor da alma. Aquela beleza manifesta-se quando a pessoa for verdadeiramente altruísta. Mas não é fácil extirpar o eu, porque mesmo quando não está presente como uma entidade ativa projetando sua presença, pode subconscientemente permear a natureza da pessoa, operando ali de maneira indireta. Todavia quando tudo o que se conota pela palavra “eu” ambição, exaltação, luxúria, engano e assim por diante. Desaparece, então, como um céu límpido, a natureza da alma aflora com as suas belas qualidades. Mesmo se apenas uma dessas qualidades for realizada com perfeição, todas as demais a acompanharão, pois surgem do mesmo estado de ser sempre indivisível, e cada uma envolve as demais. É possível dizer que a humildade é a mãe de todas as virtudes ou que o amor, em seu sentido mais belo, constitui a virtude fundamental. Ou que deve existir uma qualidade de inocência ou pureza na pessoa, como uma base primária. No entanto não é necessário cultivá-las uma após a outra. Na realidade, elas não podem ser cultivadas no sentido de serem copiadas de um modelo. Pode-se compreender aquele estado de ser em que todas essas e outras virtudes estão presentes. Por ser uma questão de compreensão pela própria pessoa, a virtude é algo que, em sua verdadeira qualidade, não pode ser ensinada. Pode-se aprender através da observação ou das palavras de outras pessoas, os caminhos ou as formas com que determinada virtude se manifesta. Porém a forma, embora possa sugerir o que significa para uma pessoa intuitiva, não pode criar o espírito ou o sentimento daquilo que é expressão. A virtude não é como o conhecimento comum, que pode ser transmitido através de palavras. Encontra-se na mesma categoria que o gosto, um sentimento para com o belo, além de outros dons inatos que não podem ser ensinados. Eles precisam ser apreendidos por outros meios. Quando houver amor no sentido real, criando um acordo solidário ou um estado de comunhão entre duas pessoas, digamos, entre uma mãe e o seu filho. Aquilo que está no coração da mãe pode então ser transmitido para a criança. Não sabemos o que o amor realmente significa. Conhecemos apenas o amor que se baseia no apego e na posse. Quando uma pessoa se enamora, especialmente se for amor a primeira vista, não construído através de reações acumuladas, o objeto de amor parece revestir-se de uma beleza divina. Infelizmente, essa condição esvaece, pois se mescla a outros sentimentos, mas ela indica o que é a real natureza do amor. É a luz que brilha de uma natureza dentro de nós próprios que ilumina a beleza oculta nas coisas. Toda a ação da natureza espiritual tem o encanto e o frescor da espontaneidade. A virtude tem esse encanto. É como uma flor sempre nova. A ação da natureza espiritual não é apenas integralmente voluntária, ela é também irrestrita. Ela se doa completamente. A beleza da virtude está em tal doação. Existe uma natureza muito profunda dentro de nós que se exterioriza apenas quando o terreno estiver desimpedido para ela. Aquela natureza permanece a mesma, e é atemporal em sua qualidade, no entanto, é capaz de uma variedade de ação infinita. Todo modo e forma de sua ação constituem uma forma de beleza, quando se expressam na conduta da pessoa, também constituem uma forma de virtude. Abraço. Davi
sexta-feira, 10 de janeiro de 2025
A BELEZA DA VIRTUDE. Parte I
Espiritualidade. Livro em Busca da Sabedoria. Por N. Sri Ham (1889-1973). A BELEZA DA VIRTUDE. Parte I. Existem determinadas palavras na língua inglesa, e em outra língua, cujo significado nos é apenas parcialmente conhecido porque precisa ser descoberto através da nossa própria vida e ação. “Sabedoria” é uma palavra assim. Podemos ter um determinado conceito do que ela significa, porém este conceito, mesmo que esteja vago e falho, provavelmente será parcial em sua verdade. Podemos não saber o que é sabedoria em sua verdadeira natureza, sua qualidade, beleza e ação. Virtude é outra palavra assim. Às vezes usamos a forma singular “virtude” para abranger tudo daquela natureza. As vezes falamos sobre “as virtudes” para alcançar tudo daquela natureza. Às vezes falamos sobre “as virtudes” no plural, distinguindo uma da outra. As virtudes, assim divididas, tem sido classificada de formas diferentes. Por exemplo, no pensamento grego clássico, consideravam justiça, temperança, coragem e prudência como as virtudes principais. Essas palavras, sendo traduções do grego original, podem não transmitir exatamente o sentido em que eram entendidas naquele tempo. Mas, usando as palavras para referir-se ao seu significado atual comum, não parece claro o porquê dessas virtudes especificas terem sido consideradas fundamentais, sendo outras presumivelmente adicionais ou subsidiárias. Por mais excelentes que possam ser quando exibem a qualidade correta e indispensável como base para a conduta individual e coletiva da sociedade. São virtudes que pertencem ao campo da razão onde se precisa partir das premissas corretas. Qualquer homem inteligente pode ver que a prudência, por exemplo, é necessária para proteger os seus interesses, a temperança ou a moderação, para assegurar o seu próprio bem-estar. Juntamente com a coragem e a justiça, elas seriam aceitáveis para qualquer homem médio, em conformidade com a sua sabedoria mundana. Todavia, auto interesse e virtude, em seus aspectos superiores, podem não combinar. Quando a influência do Cristianismo se espalhou pela Europa, outras virtudes de um caráter predominantemente não mundano como humildade, caridade, amor e fé assumiram uma posição de importância. Foram consideradas como as mais próximas do coração de Deus ou da natureza divina. Na Escola de pensamento Mahayana do Budismo setentrional, o caminho da virtude era identificado com a verdadeira sabedoria. Bem como a ação de autos sacrifício, foi concebido com sendo marcado por sete portais, cada um dos quais exigia determinado tipo de desenvolvimento. Representando um aspecto da perfeição humana e tendo suas raízes em uma natureza incorrupta e incorruptível presente no âmago de cada ser humano. A chave para o primeiro portal, conforme é explicado na obra A Voz do Silêncio, de Helena Petrovna Blavatsky (1931-1891), é Dana, uma palavra sânscrita, traduzida por ela como “caridade e amor imortal”. Literalmente a palavra significa doação, mas é uma doação sem reservas, com o coração e com as mãos. A menos que a viagem seja realizada a partir de uma motivação pura de altruísmo, do desejo de devotar-se a felicidade e a iluminação de cada ser humano. Ao bem de cada criatura viva, não poderá ser empreendida de forma alguma. O coração e a mente da pessoa precisam primeiramente sintonizar-se com o coração e a mente de todos os seres vivos. O segundo portal representa Shila, todos eles com nomes em sânscrito ou páli, idiomas hindus, geralmente compreendidos como o viver limpo e reto em todos os aspectos da vida e conduta da pessoa. H.P. Blavatsky, o traduz como “harmonia em ato é palavra”, visto que a harmonia no interior da pessoa, inseparável do viver correto, manifesta-se como harmonia em ato e palavra. O terceiro portal significa Kshanti, que ela descreve como “doce paciência que nada pode perturbar”. O significado dicionarizado da comum da palavra inclui tolerância e perdão. As próximas duas virtudes são Vairagya ou imparcialidade e Virya ou energia. Blavatsky traduz Vairagya como “indiferença ao prazer e à dor, conquista sobre a ilusão, percepção somente da verdade”. Virya como a “energia intrépida que vence seu caminho para a verdade suprema” Não é o tipo de energia que pertence às coisas da matéria, mas a energia da vida ou Espírito que surge de um estado puro incondicionado. Portanto, pode manifestar o ardor ou paixão máximos e mesmo assim permanecer desapegada, não se envolvendo nas coisas por entre as quais se movimenta. Os dois últimos portais designados, Dhyana, significando contemplação ou estado meditativo. Prajna, compreensão perfeita, realmente são condições de existência em que podem estar presentes as qualidades de qualquer uma ou de todas as virtudes. Quando usamos a palavra “virtude”, qual é nosso conceito a seu respeito? Comumente nos ocorre uma fórmula, princípio ou preceito ao qual precisamos adaptar-nos. Ao procedermos desta maneira, sempre há uma lacuna entre aquela fórmula, que é o ideal, e a realidade, e isso a ser uma causa de conflito para a pessoa. O ideal pode ser verdadeiro, não apenas em palavras, mas também em conduta e pensamento. Se não se consegue alcançá-lo, a menos que se ame a verdade pelo que em si significa, sem um eu na busca do êxito. Um sentido de realização e boa opinião de si mesmo, certamente haverá insatisfação, e isso poderá ser até mesmo transferido ao ideal. Tal insatisfação poderá conduzir a um questionamento do próprio ideal, resultando em uma revolta contra ele. Podemos notar este tipo de reação no caso de uma pessoa que deseja abrir mão de algo a que se sente fortemente vinculado, mas acha difícil fazê-lo. Depois de algum tempo, poderá até parecer-lhe que é bom entregar-se a fraqueza em determinada medida, pois alivia tensões, conduz a boas reações e assim por diante. A virtude pode ser considerada sob outro prisma, não como conformação a uma regra ou princípio que é colocado diante de nós, que aceitamos por uma ou outra razão. Contudo como a expressão espontânea e livre de uma natureza ou ser básico puro que se encontra em cada homem. Uma natureza que é incorrupta e, de fato, incorruptível. Quando aquela natureza passa a agir, a forma pela qual age é em si mesma o caminho da virtude. É esta virtude que Lao Tsé (571 a.C.), o grande filósofo chines, expõe em seu famoso clássico, porém ela requer um claro insight para que seja vista como um fato. Para nós a questão é a seguinte: Será que vislumbramos a existência de uma tal natureza em nós próprios como uma possibilidade? Se esta contingência existe, referindo-nos a virtude em geral ou às virtudes, todas elas são caminhos ou formas de ação. Assumidas pela energia que se origina daquela natureza pura, para sempre incondicionada, não modificada por qualquer influência exterior. Na nobre óctupla senda, ensinada pelo Buda, o primeiro de todos os passos é o “discernimento” e não a fé, como é tão frequentemente mal traduzida a palavra páli. Constitui um discernimento para dentro de si a maneira com que a pessoa é afetada por todas as coisas que a rodeia. Como ela reage, as suas próprias ações e reações, que a colocam no caminho da sabedoria. Então, poderá haver reto pensar, reto falar, reto agir assim por diante, que são os outros passos. Mas deve-se ter a capacidade de ver aquilo que está certo e aquilo que não está em todas as formas da própria ação, incluindo o pensamento e o discurso. Quando a virtude for assim compreendida, como uma expressão totalmente livre e espontânea de uma natureza existente em todos nós, ao menos potencialmente não haverá vontade envolvida. A vontade somente surge quando a ação da pessoa precisar estar direcionada de acordo com determinado conceito ou imagem. Esta vontade surge do próprio condicionamento e inclinações. Não se trata de vontade livre no real sentido. Pode tornar-se em formas de auto asserção e teimosia egoístas. Com frequência trata-se apenas de insistência e obstinação cegas. Não é a vontade inata nos movimentos livres da vida. A energia que surge de qualquer forma de condicionamento é mecânica em sua ação e uma resultante de forças induzidas. Não é a energia da natureza espiritual, sempre original e incondicionada, agindo de forma total e não parcial. Livre ou espontaneamente, e inteligentemente, porque não atua de acordo com um padrão mecânico. A virtude em ação, sem ação não há virtude, não erra nem por excesso ou defeito. É por isso que se tem falado de sua senda como o justo meio termo. A natureza que é incorrupta sabe por instinto aquilo que é certo em ação e pensamento, agindo de acordo, como um mestre em artes sabe como formar uma curva de beleza e o faz com um instinto certeiro. Ele sabe exatamente onde a linha deve ser colocada, quais os pontos que ela terá de atravessar. Na natureza pura incondicionada existe tal instinto, que se revela na maneira de sua ação, bem como na natureza dos resultados atingidos. A maneira é tão importante, e pode ser até mais importante do que o resultado concreto perceptível. Porque a maneira como a pessoa age transmite a maneira como sente. Ela irradia uma determinada qualidade, como o tom e a inflexão da voz ao produzir uma música em compasso que deve permanecer sem falhas até o fim. A energia da natureza incondicionada age livremente, e ao fazê-lo, cria um padrão ou forma que é sempre uma forma de harmonia, e podem existir inúmeras formas assim. Não age de acordo com algum padrão impositivo, não haverá liberdade em tal ação, mas a sua livre ação assume a forma que expressa a qualidade de harmonia inata naquela natureza que sempre age como um todo, jamais perdendo sua unidade. Todas essas formas que surgem da mesma base, isto é, daquela natureza unificada, deverão estar em harmonia reciprocamente. Assim como todas as leis da natureza harmonizam-se reciprocamente. Juntos constituiriam umas sínteses perfeitas que é a virtude em um sentido geral e abrangente, representando a harmonia total daquela natureza como um todo. Abraço. Davi
quarta-feira, 8 de janeiro de 2025
O QUE SIGNIFICA ACREDITAR EM DEUS?
Judaísmo. pt.chabad.org. Por Manis Friedman (1946 - ). O QUE SIGNIFICA “ACREDITAR EM D’US?”. Até o ateu mais sincero concordará que uma primeira causa, um ser original, deve ter precedido o universo. Essa causa ou fonte original é aquilo que tanto humilhava Einstein, embora ele a descrevesse incorretamente como uma experiência religiosa. As questões da fé começam em como entendemos essa Primeira Causa, sua natureza, e seu relacionamento conosco e com o universo. A declaração: “Eu creio que existe um D'us” não tem sentido. Fé não é a capacidade de imaginar aquilo que não existe. Fé é encontrar relevância naquilo que é transcendente. Acreditar em D'us, então, não significa que você é da opinião de que Ele existe, mas sim que você encontrou relevância Nele. Quando uma pessoa diz “Eu acredito em D’us, o que realmente quer dizer é “D'us é importante na minha vida.” Ao discutir nosso relacionamento com D'us, a pergunta que primeiro devemos fazer é: Quem se importa? De que maneira Ele é relevante? Para algumas pessoas, D'us é relevante porque elas estão preocupadas com as origens da existência. Para outras, D'us é relevante porque elas estão preocupadas com a outra vida, e fé é um pré-requisito para ir para o céu. Finalmente, para outras, D'us é relevante porque elas acreditam que a vida tem um propósito. No Judaísmo, particularmente no Chassidismo, o interesse em D'us vem da convicção de que a vida tem significado. A questão recorrente na filosofia chassídica é: Por que uma alma é enviada ao mundo para sofrer num corpo físico durante 80, 90 anos? Sabemos que há um propósito, que D'us é o autor daquele propósito, e desejamos saber e entender isso. O Chassidismo Chabad ensina que a mente é a capacidade da alma de detectar a lógica, o coração é a capacidade da alma de reagir negativamente ou positivamente. As respectivas funções da mente, coração e alma com frequência são confundidas. Aquele que vive exclusivamente pelo coração, confia apenas naquilo que sente. Quem vive exclusivamente pela mente, confia apenas naquilo que faz sentido. Porém nenhum desses diz a verdade a você. A mente exige que a lógica seja confiada, o coração exige que as emoções sejam confiadas. Porém ambos podem estar enganados. Eles não revelam a verdade inerente. Para isso, voltamos para a alma, a neshamá. Porque a alma é parte do Divino – e isso é verdade, é a essência. Quando temos fé, quando encontramos relevância em D'us, estamos confiando naquele instinto na alma que nos diz que D'us é o propósito da vida. Em termos pragmáticos, a mente, o coração e a alma devem cada qual cumprir sua função: quando sabemos tudo que pode ser sabido, quando chegamos à beira do conhecimento e a própria lógica nos diz que atingimos seus limites exteriores e ela não pode ir além desse ponto, aí entra a fé. Onde a mente não é mais adequada, a alma reage à verdade. Isso é fé. Esta fé, essa reação da alma, é necessária no cumprimento daquela categoria de mitsvot conhecida como chukim, leis suprarracionais, leis que não se alinham com a razão. Se alguém tem dificuldades com esses mandamentos em particular, isso é uma indicação de que eles podem estar confiando na mente e no coração às custas da própria capacidade de reagir à verdade – a expressão de sua alma. Quando um judeu cumpre uma mitsvá antes de tê-la intelectualizado totalmente, está permitindo que sua neshamá reaja à verdade. Esta é uma habilidade que muitas vezes precisa ser cultivada. O sexto Rebe de Lubavitch, Rabi Yosef Yitschak Schneersohn (1880-1959), relata em suas memórias que quando criança, certa vez pediu ao pai que lhe explicasse por que seguimos um costume em particular de recitar Modê Ani ao acordar pela manhã. Em vez de dar a resposta, o pai do Rebe levou-o até um judeu idoso e simples, a quem perguntou: “Por que você diz Modê Ani dessa maneira em particular?” Ao que o homem respondeu: “Porque foi assim que meu pai me ensinou a fazer.” O pai do Rebe poderia ter facilmente lhe dado o motivo racional para o costume, mas viu isso como uma chance de exercitar sua capacidade de responder com fé. É por isso que em Chabad-Lubavitch essa é nossa abordagem para convidar um judeu – até mesmo aquele que alega não acreditar – a cumprir uma mitsvá, antes de engajá-lo numa discussão sobre a fé. Porque em consideração da existência da alma, podemos presumir que não temos de convencer as pessoas do Divino propósito da vida. Temos apenas de levá-las a começar, e a cada mitsvá que cumprem, sua neshama se afirmar cada vez mais, e as questões se tornam resolvidas por si mesmas. A título de analogia, se o instinto maternal de uma mulher parece estar ausente, você não discute a filosofia da maternidade com ela. Apenas coloca um bebê em seu colo e sua reação maternal vai emergir. A relevância que encontramos Nele vai diferir de pessoa para pessoa. Como Ele é tudo, as pessoas sentirão D'us de todas as maneiras possíveis. Ele é o D'us de Avraham e Yitschac, da Benevolência e Poder. E é verdade, como D'us diz, “Eu sou conhecido de acordo com os meus atos.” Alguns O conhecerão como um D'us que recompensa, outros como um D'us que castiga, que provê, que salva, que ilumina, que inspira, e assim por diante. No princípio, D'us Se revelou como criador, mestre, rei – todos papéis muito impessoais. Na Halachá (lei da Torá) D'us revela Suas leis, mas não permite que Seus “sentimentos pessoais” apareçam. Mais tarde, na Cabalá, D'us Se torna vulnerável; Ele compartilha detalhes íntimos. Ele é humanizado num relacionamento de duas mãos. Portanto o halachista tem grande respeito pela sabedoria dos mandamentos, ao passo que o místico vê D'us como aceitando pessoalmente as mitsvot. Quando D'us diz: “Não corte árvores frutíferas”, se fôssemos sensíveis não apenas ouviríamos um mandamento, como veríamos algo sobre D'us. A Cabalá revela este algo. As halachot são os detalhes; a Cabalá lê entre as linhas. A Cabalá nos dá uma perspectiva bastante diferente sobre o comportamento “antropomórfico” de D'us. Lembra-nos que a Torá vem para nos ensinar sobre D'us, e que expressões como “D'us falou”, “A mão de D'us”, a “ira de D'us” precisam ser consideradas sob a perspectiva da Torá ou de D'us. Não somos o ponto de referência para o comportamento de D'us; D'us deveria servir como uma referência para o nosso comportamento. Ele criou o mundo. Fala, mão, ira, inveja – estas são todas Suas criações, são todas direitos Divinos. Nossa fala, nossa ira, nossa inveja – estas são apenas metáforas para a coisa real, não o contrário. Quando lemos que “D'us ergue Sua mão” e abre o mar, precisamos medir nossa própria mão contra isso, Quando a erguemos, o que acontece? Nada. Aprendemos então que não somos tão poderosos quanto D'us. Quando lemos que D'us fica irado e castiga porque Ele criou um mundo com um propósito Divino, e aquele propósito é frustrado, deveríamos medir nossa própria ira contra isso. O que criamos? Nada. Não podemos, portanto, ficar furiosos e castigar como D'us faz. Considerando a ira de D'us e outros atributos dessa maneira nos leva a um humilde reconhecimento. Somente quando nossa raiva ou inveja é uma expressão de indignação moral é que reflete as verdadeiras e Divinas qualidades. Assim então podemos exercitar essas expressões. Qualquer que seja a verdade que há em nós, é a extensão na qual incorporamos aquilo que Ele nos diz sobre Si Mesmo. Abraço. Davi.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2025
A RELIGIÃO DO ISLÃ. Parte VII
Islamismo. A RELIGIÃO DO ISLÃ. Parte VIII. Manual para o Novo Muçulmano. Por Jamaal Zarabozo. (1961 - ). Da mesma forma, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Quem se encontre com Allah havendo pronunciado o testemunho de que não existe nada digno de adoração afora Allah e que eu sou o Mensageiro de Allah, com plena certeza, entrará no Paraíso.” (Muslim). Por outro lado, Allah descreve os hipócritas como aqueles cujos corações titubeiam. Por exemplo, Allah disse: “Pedir-te-ão isenção só aqueles que não creem em Deus, nem no Dia do Juízo Final, cujos corações estão em dúvida e, em sua dúvida, vacilam.” (9:45). A terceira condição do testemunho de fé é a aceitação. Se uma pessoa satisfaz as condições de conhecimento e certeza, deve seguir adiante à aceitação, com a palavra e o coração, em tudo o que implique esse testemunho. Quem se nega a aceitar o testemunho de fé com todas as suas implicações, sabendo que é verdadeiro e tendo a certeza de sua veracidade, torna-se incrédulo. Esta negativa a aceitar deve-se ao orgulho, inveja ou outras razões. Em todo caso, o testemunho não é aceito sem sua aceitação incondicional. Esta condição também implica que o muçulmano crê em tudo o que está escrito no Qur’an ou que foi dito pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), sem direito a escolher o que quer crer e o que quer repelir. Allah disse no Qur’an: “...Credes, acaso, em uma parte do Livro e negais a outra? Aqueles que, dentre vós, tal cometem, não receberão, em troca, senão aviltamento, na vida terrena e, no Dia da Ressurreição, serão submetidos ao mais severo dos castigos...” (2:85). “Não é dado ao fiel, nem à fiel, agir conforme seu arbítrio, quando Deus e Seu Mensageiro é que decidem o assunto. Sabei que quem desobedecer a Deus e ao Seu Mensageiro desviar-se á evidentemente.” (33:36). A quarta condição é a submissão e a concordância. Isso implica a realização física por meio de ações. Trata-se de um dos significados principais da palavra “Islam”, a submissão à vontade e mandamentos de Allah. Allah assim ordena no Qur’an: “Arrependei ante vosso Senhor e submeteis a Ele.” (39:54). “Qual! Por teu Senhor, não crerão até que te tomem por juiz de suas dissensões e não objetem ao que tu tenhas sentenciado. Então, submeter-se-ão a ti espontaneamente” (4:65). Isto não significa que o verdadeiro crente nunca cai em pecado. De fato, os verdadeiros crentes cometem, sim, pecados. Mas, tanto quanto reconheçam que o que fizeram não é correto e não é coerente com sua obrigação de submeter-se a Allah, não haverá violado a solidez de seu testemunho. A quinta condição é a veracidade, a divergência da hipocrisia e desonestidade. Isso significa que quando a pessoa diz o testemunho de fé, diz com honestidade, sentindo realmente. Não mente quando se trata de seu testemunho, nem tampouco tentar enganar a ninguém. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Quem testemunha que não existe nada digno de adoração a não ser Allah, com sinceridade no coração, Allah proibirá que o Fogo do Inferno o toque.” (Bukhari). A sexta condição é a sinceridade, ou seja, pronunciar o testemunho de fé apenas pela causa de Allah. Não se deve fazer por nenhum outro motivo ou pelo nome de ninguém mais. Desta maneira, o significado da sinceridade se opõe à associação de parceiros a Allah. Deve-se converter e seguir sendo muçulmano somente para servir a Allah, evitar Sua ira e castigo, e obter Sua recompensa e misericórdia. Allah disse no Qur’an: “Em verdade, temos te revelado do Livro. Adora, pois, a Deus, com sincera devoção.” (39:2). O Profeta (que a paz esteja com ele) também disse: “Allah proibiu o Fogo do Inferno para todo aquele que diga sinceramente, buscando o rosto de Allah, ‘Não existe nada digno de ser adorado senão Allah’.” (Muslim). A sétima condição é o amor. Quer dizer, o crente ama o testemunho de fé, ama segundo o testemunho, ama suas implicações e requisitos e ama aqueles que atuam e se esforçam nesta causa. O amor é uma condição necessária do testemunho de fé. Se uma pessoa realiza o testemunho, mas não o ama, tampouco ama o que ele representa, então, sua fé não é completa. Não é a fé de um verdadeiro crente. Se não sente amor por este testemunho ou se, na realidade, sente ódio por ele, está negando-o. O verdadeiro crente não coloca nada no mesmo nível de amor que sente por Allah. Disse Allah, no Qur’an: “Entre os humanos há aqueles que adotam, em vez de Deus, rivais (a Ele) aos quais professam igual amor que a Ele; mas os fiéis só amam fervorosamente a Deus...” (2:165). “Dize-lhes: Se vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, vossas esposas, vossa tribo, os bens que tenhais adquirido, o comércio, cuja estagnação temeis, e as casas nas quais residis, são-vos mais queridos do que Deus e Seu Mensageiro, bem como a luta por Sua causa, aguardai, até que Deus venha cumprir os Seus desígnios. Sabei que Ele não ilumina os depravados.” (9:24). A oitava condição é que a pessoa que pronuncia o testemunho deve negar todo e qualquer objeto de adoração. Apesar de ficar claro nas palavras do próprio testemunho de fé, não parece claro para todos os que o pronunciam. Portanto, há de ser mencionado explicitamente. Na surah al Baqara, Allah recorda os muçulmanos este aspecto importante do testemunho. O testemunho de fé não é simplesmente uma afirmação, senão uma afirmação e uma negação. Allah disse: “...Quem renegar o sedutor e crer em Deus, Ter-se-á apegado a um firme e inquebrantável sustentáculo, porque Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo” (2:256). A nona condição é que o muçulmano se atenha ao testemunho de fé até sua morte. Isso é obrigatório se o testemunho significa algo além, ou seja, para a próxima vida. Não se deve pautar apenas pelo que foi feito no passado. De fato, a declaração de fé deve ser sua bandeira até o dia de sua morte. Allah disse no Qur’an: “Ó fiéis, temei a Deus, tal como deve ser temido, e não morrais, senão como muçulmanos.” (3:102). Por último, não é necessário que o testemunho se realize em idioma árabe ou com palavras específicas, mas deve ser muito claro quanto ao significado exato e a intenção do que é dito. O Testemunho de Fé: Muhammad é o mensageiro de Allah É importante compreender também o significado e as implicações da segunda parte do testemunho de fé. De fato, às vezes, afasta-se do Caminho Correto e do Islam por não se implementar adequadamente a segunda parte da declaração de fé. Quando se testemunha que Muhammad é o Mensageiro de Allah, está sendo afirmado que se crê que o Profeta (que a paz esteja com ele) foi eleito por Allah para ser Seu Mensageiro e transmitir Sua Mensagem. Allah escolheu especificamente ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) para que fosse Seu Mensageiro. Allah disse: “...Deus sabe melhor do que ninguém a quem deve encomendar a Sua missão...” (6:124). Isso indica algumas características do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), pois obviamente Allah, devido à Sua justiça, sabedoria e misericórdia, não elegeria como Seu Mensageiro um mentiroso ou traidor. Allah não elegeria para uma missão tão importante alguém que Ele soubesse que não levaria a mensagem ou que a utilizaria como vantagem pessoal. Se alguém sustenta que o Profeta (que a paz esteja com ele), na realidade, não transmitiu a mensagem completa ou a distorceu de alguma maneira, está dizendo que Allah não soube eleger a pessoa correta para que trouxesse Sua Mensagem. Isso implica em incredulidade. Em segundo lugar, quando se realiza o testemunho de fé, também está sendo testemunhado que o Profeta (que a paz esteja com ele) havia sido enviado para toda a humanidade até o Dia do Juízo Final. Allah disse no Qur’an: “Dize: Ó humanos, sou o Mensageiro de Deus, para todos vós...” (7:158). É obrigatório que todas as pessoas desde os tempos do Profeta (que a paz esteja com ele) até o Dia do juízo creiam e sigam ao Profeta. Isso também alude que os ensinamentos do Profeta e sua Sunnah são válidas e obrigatórias para toda a humanidade até o Dia do juízo. Algumas pessoas parecem querer resistir à idéia de que devem seguir o Profeta (que a paz esteja com ele). Quando resistem, devem se dar conta que vão contra tudo o que têm testemunhado. Testemunham que a mensagem do Profeta, que inclui Qur’an e Sunnah, é para toda a humanidade – incluindo todas as pessoas que vivem hoje em dia. Em terceiro lugar, quando se pronuncia a declaração de fé é testemunhada a crença verdadeira que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) transmitiu a Mensagem, que a transmitiu de forma correta, completa e clara. Allah disse no Qur’an: “...porque não incumbe ao Mensageiro mais do que a proclamação da lúcida Mensagem.” (24:54). O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Deixei-os em um caminho iluminado, cuja noite ou dia são iguais. Ninguém se afasta dele depois de mim sem ser destruído.” O Profeta (que a paz esteja com ele) transmitiu toda a orientação e revelação que recebeu de Allah. Transmitiu-a e explicou de forma clara. Portanto, também é testemunhado que o Profeta transmitiu todos os aspectos da religião – seus aspectos fundamentais e também os secundários. Não existe assunto na religião que seja necessário e que não tenha sido transmitido à humanidade ou que Allah e o Profeta tenham esquecido. Portanto, quando esta completa e clara orientação do Profeta (que a paz esteja com ele) está presente, não há necessidade de que nenhum muçulmano recorra a outras fontes buscando algum rumo. Não há necessidade de consultar os livros dos judeus ou cristãos. De fato, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse a Umar, quando o viu lendo uma folha da Torá, que se o Profeta Moisés (que a paz esteja com ele) estivesse vivo naquele momento, ele também não teria outro caminho senão seguir ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Não há necessidade que nenhum muçulmano recorra aos filósofos gregos, por exemplo, para aprender teologia. Também não é necessário que nenhum muçulmano recorra aos ensinamentos religiosos ou espirituais de nenhuma outra religião senão o Islam. Tudo que é necessário está mencionado no Qur’an e na Sunnah. Isso é parte do que o muçulmano atesta. O muçulmano testemunha que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) transmitiu a mensagem completa. Quando se declara “Muhammad é o Mensageiro de Allah”, também está sendo declarado que é o último profeta enviado por Allah. Allah diz no Qur’an: “Em verdade, Muhammad não é o pai de nenhum de vossos homens, mas sim o Mensageiro de Deus e o prostremos dos profetas; sabei que Deus é Onisciente.” (33:40). Não haverá outro profeta depois de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Nenhum profeta novo nem nenhuma escritura virão substituir o que Muhammad (que a paz esteja com ele) trouxe. Além disso, se alguém depois do profeta Muhammad disser ser um profeta, automaticamente se saberá que é um mentiroso. Há que se opor a tal pessoa e declarar que tudo o que diz é falso. Aceitar a qualquer outro como profeta, depois do profeta Muhammad, é falsificar o próprio testemunho de fé. Também, deve-se ter em mente que quando se realiza o testemunho de fé, não apenas implica a crença em certas coisas, mas a aceitação de certas responsabilidades. Por exemplo, quando se diz que não existe nada digno de adoração exceto Allah, para que este testemunho seja certo, significa que a partir dali adquirir-se a responsabilidade de adorar apenas Allah. Da mesma forma, quando se diz: “Atesto que Muhammad é o Mensageiro de Allah”, estão aceitas certas responsabilidades em relação ao profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Quando não se cumpre algumas dessas responsabilidades, não se cumpre completamente com seu testemunho de fé. Inclusive, pode-se chegar ao ponto de anular o testemunho por completo em caso de negação ao cumprimento das responsabilidades para com o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) toda forma de amor baseia-se na fé total que requer que se ame ao Profeta mais que a qualquer pessoa ou coisa deste mundo. Allah disse no Qur’an: “Dize-lhes: Se vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, vossas esposas, vossa tribo, os bens que tenhais adquirido, o comércio, cuja estagnação temeis, e as casas nas quais residis, são-vos mais queridos do que Deus e Seu Mensageiro, bem como a luta por Sua causa, aguardai, até que Deus venha cumprir os Seus desígnios. Sabei que Ele não ilumina os depravados.” 9:24). Em segundo lugar, quando se realiza um testemunho de fé significa que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) é aceito como exemplo de vida e comportamento corretos que agradam a Allah. Allah disse no Qur’an: “Realmente, tendes no Mensageiro de Deus um excelente exemplo para aqueles que esperam contemplar Deus, deparar-se com o Dia do Juízo Final, e invocam Deus frequentemente” (33:21). “Dize: Se verdadeiramente amais a Deus, segui-me...” (3:31). É muito estranho que algumas pessoas realizem o testemunho de fé e declarem que Muhammad é o Mensageiro e Profeta de Allah, mas, ao mesmo tempo, não o considerem um exemplo de vida, como deveriam fazer todos os crentes. Em muitos casos não apenas não o consideram como exemplo, senão que se opõem aos que o tomam como exemplo. Isso não é mais que um claro sinal de que dita pessoa não entende com clareza o significado e as consequências do testemunho de fé realizado. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Juro por Allah que sou quem mais teme a Allah e quem está mais consciente d’Ele. Mas, também, [como parte de minha sunnah] jejuo e quebro meu jejum, realizo minhas orações e durmo [na noite] e me caso com mulheres. Aquele que se distancia de minha Sunnah não é dos meus verdadeiros seguidores.” (Bukhari). Neste hadith, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) explicou que ele é quem mais teme a Allah e o mais consciente dentre os humanos. Portanto, ninguém pode inventar desculpa alguma para não seguir o seu exemplo e sua orientação. Também afirmou que aquele que se afasta de seu exemplo e sua prática não faz parte dos seus seguidores. Não se pode declarar a crença em Muhammad (que a paz esteja com ele) e sua aceitação e, ao mesmo tempo, se negar a aceitar sua vida como o exemplo no qual todos devemos nos mirar. Outras ações relacionadas ao ato de adotar o Islam Existem outras ações que se associam com o ato da declaração de fé. Estas são: (1) um banho completo, (2) a eliminação de todo o pelo dos dias anteriores ao Islam, (3) a circuncisão. Cada uma delas será tratada em detalhes mais adiante. Antes de continuar, cabe destacar que nenhuma dessas ações deveria atrasar a conversão ao Islam por parte de uma pessoa. De fato, uma vez que a pessoa decide adotar o Islam, não se deve adiar a concretização, por exemplo, para um momento mais adequado ou quando haja mais testemunhas, etc. na realidade, ninguém sabe quando a morte poderá surpreendê-lo, por isso, quando uma pessoa toma a decisão definitiva de abraçar o Islam, deve fazê-lo neste momento, pronunciando a declaração de fé. Página 82. Abraço. Davi
sábado, 4 de janeiro de 2025
IX. O EVANGELHO DO BUDA
Budismo. Texto do yogi Kharishnanda Sarawasti (1922-2001). IX. O EVANGELHO DO BUDA. A pregação do Buda. Capítulo Dois. A Aniquilação. Numa ocasião, muitos cidadãos ilustres se reuniam na Casa do Povo e elogiavam o Buda, o Dharma e o Sangha. Entre eles se encontrava Simha, general dos exércitos reais, que pertencia à seita dos Nirgranthas, que dizia consigo: Verdadeiramente o Bhagavad deve ser o Buda, o Santo. Quero vê-lo. Simha aproximou-se de Iryataputra, o chefe da seita, e disse-lhe: Senhor, desejo ir ver o asceta Gautama. Irytaputra respondeu-lhe: Por que você, Simha, que sabe que as ações dão seus resultados, quer ver o asceta que ensina aos seus discípulos a doutrina da inação e nega as consequências das ações? Por isso não teve Simha mais tanto desejo de ir ver Gautama. Porém, como Simha ouvisse novamente enaltecerem o Buda, o Dharma e o Shanga (comunidade budista), o seu desejo de ir ver o Bem-aventurado foi reavivado, mas também dessa vez Iryataputra o dissuadiu. Porém, pela terceira vez Simha ouviu elogios a grandeza do Buda, do Dharma e do Sangha, e pensou: Certamente o asceta Gautama deve ser o santo Buda. Irei vê-lo mesmo sem o consentimento dos Nirgranthas. Simha foi ver o Bhagavad e disse-lhe: Senhor, ouvi dizer que o asceta Gautama nega as consequências das ações e ensina a doutrina da inação, dizendo que as ações dos homens não recebem recompensas, porque proclama a aniquilação. Responda-me, senhor: é certo que o senhor ensina que a alma do homem morre e se aniquila? Peço-lhe que me esclareça se os que dizem tal coisas enganara-se ou levantam falso testemunho. O Bem-aventurado respondeu-lhe. Em parte, ó Simha, dizem a verdade os que assim falam de mim, mas em outra erram. Ouça-me: eu ensino que não devemos pensar, falar ou agir mal. Ensino que não devemos consentir com os estados de ânimo ou com as sinistras disposições. Ensino que nossos pensamentos, palavras e ações devem ser justos e que devemos estabelecer disposições de ânimo harmônicas. Ensino, ó Simha, que se tem que aniquilar os maus pensamentos, palavras e ações, e quem os anula e se livra deles de sorte que jamais rebrotem, aniquila a personalidade. Prego o aniquilamento do egoísmo da luxúria, do ódio e do erro, mas não prego o aniquilamento da bondade, da compaixão, do amor e da verdade. Digo que os maus pensamentos, palavras e ações são abomináveis, e que a virtude e a verdade merecem louvor. Se alguns ensinam que o nirvana é a aniquilação da alma, diga-lhes que mentem. Se alguns ensinam que o nirvana é vida separada, diga-lhes que se enganam, porque ignoram a Verdade; não veem a luz que brilha através de suas lâmpadas partidas, e não sabem que a felicidade está fora da existência do tempo e do espaço. Simha respondeu: Resta ainda uma dúvida na minha mente. O senhor quer dissipá-la de modo que eu possa compreender o Dharma que ensina? O Senhor Buda consentiu e Simha prosseguiu: Ó Bhagavad, sou soldado, e por ordem do rei cumpre-me o dever de respeitar a lei e de combater por ele. Se o Tathágata prega a bondade sem limites, o amor ao inimigo e a compaixão por todos que sofrem, permitirá castigo para os criminosos? Acreditarão que não é lícita a guerra para os criminosos? Acreditarão que não é lícita a guerra para defender nossos lares, nossas mulheres, nossos filhos e nossas terras? A doutrina da renúncia prescreve que devemos deixar o malfeitor agir a seu bel prazer, não resistir e deixar que nos roubem o que nos pertence? Acredita o Tathágata que a guerra é ilícita quando promovida por uma causa justa? Ao que Buda respondeu: O Tathágata ensina que o culpado merece castigo, e o digno de favor deve ser favorecido. Porém também ensina que não deve fazer sofrer nenhum ser vivente, mas ter o coração cheio de amor e compaixão. Esses dois ensinamentos não são contraditórios, porque quem recebe castigo pelos seus crimes não sofre por maldade do juiz e sim em consequência de sua culpa. Suas más ações lhe acarretaram o mal que lhe impõe o executor da lei. Quando um magistrado castiga, deve estar livre de todo ódio; e o criminoso condenado à morte deve considerar que o seu suplício é consequente do seu crime e, se ele compreende que o castigo lhe purificará a alma, alegrar-se-á da morte. O Tathágata ensina que é deplorável toda guerra entre os homens, porém não condena os que guerreiam por uma causa justa, depois de haver esgotado todos os meios para manter a paz. O causador da guerra merece execração. O Tathágata ensina a total renúncia à personalidade, porém não ensina que a pessoa se entregue às potestades sinistras. Deve haver luta entre a individualidade e a personalidade, pois a luta é a vida terrena; porém, o combatente deve abster-se de combater contra a verdade e a injustiça, no interesse de sua personalidade. Aquele que luta pelo interesse egoísta de celebridade, grandeza, poder ou riqueza, não receberá recompensa; porém, o que combate pela justiça e a verdade, receberá o galardão, porque será vitorioso, mesmo que sofra alguma derrota transitória antes do triunfo final. O egoísmo não é o recipiente adequado para o êxito, porque a personalidade é frágil e pequena. Pelo contrário, a individualidade é capaz de conter as aspirações nobres de suas personalidades sucessivas, e quando uma personalidade se rompe como uma bolha de sabão, o seu conteúdo harmônico se identifica com a individualidade Universal. Quem vai à guerra, Ó Simha, mesmo por uma causa justa, está exposto a morrer nas mãos dos inimigos, porque esse é o destino dos guerreiros. Porém, o vencedor deve pensar na relatividade das coisas humanas. Brilhante pode ser sua vitória, porém a roda da fortuna pode girar e transformar a vitória em derrota. No entanto, alcançará eterna vitória se, extinto o ódio em seu coração, se aproximar do vencido e dizer-lhe: Vem agora, façamos as pazes e sejamos irmãos. Grande é um general vitorioso, ó Simha, porém maior é quem vence a sua personalidade. A lei da vitória sobre a personalidade não é pregada para aniquilar a alma dos homens, e sim para preservá-la. O que venceu a sua personalidade está mais apto para alcançar o triunfo eterno do que quem continua escravo da personalidade. Lute, pois, com coragem, ó Simha, e combata com esforço marcial nas batalhas; porém seja um soldado da verdade e o Tathágata o abençoará. Simha tornou: Glorioso Senhor. Senhor Gloriosíssimo. O senhor me revelou a verdade. Magna é a doutrina do Bendito. Certamente o senhor é o Buda, o bem-aventurado, o Santo. É o instrutor da humanidade, que nos ensina o caminha da libertação. Quem o seguir, terá luz no caminho. Encontrará paz e santidade. Senhor, eu me refugo no Bhagavad, na Lei e na sua Ordem. Digne-se a aceitar-me por discípulo até o fim de meus dias, pois me refúgio no senhor. E o Bem-aventurado lhe disse: Considere antes, ó Simha, o que você vai fazer. Convém que as pessoas de sua categoria não façam nada sem uma reflexão madura. A fé de Simha aumentou, e ele disse ao Bem-aventurado: Senhor, se outros Mestres conseguissem tornar-me discípulo deles, levariam em procissão seu estandarte pela cidade de Vaisali, gritando: Simha, o general dos exércitos do rei, já é nosso discípulo. Pela segunda vez, eu digo, ó senhor, que me refugo no Buda, no Dharma e no Sangha. Digne-se a receber-me por discípulo, a partir de hoje é até o fim de meus dias, porque me refugo no senhor. E o Bhagavad lhe respondeu: Durante muito tempo os Nirgranthas receberam oferendas em sua casa. É justo que doravante você não negue sua esmola a eles. Alegre e feliz, Simha replicou: Senhor, eu ouvira dizer: O asceta Gautama ensina que só a ele e aos seus discípulos deve ser dada esmola. Porém, o senhor me exorta a que também a dê aos Nirgranthas. Por mais esse motivo me refúgio no Buda, na Lei e na Ordem. Pregação do Buda. Capítulo cinco. As injurias. Observando os costumes humanos, o Senhor Buda viu que muitos males provinham da rapidez com que os vaidosos e egoístas criticavam tolamente o próximo, e disse aos seus discípulos.: Se um tolo me ofendesse, eu lhe responderia com amor cordial e sincero. Quanto maior mal me fizesse, maior bem eu lhe faria. O perfume da bondade estará sempre comigo, e o fétido (fedorento) alento do mal sopraria contra ele. Um tolo ficou sabendo que Buda pregava o mandamento do amor que prescreve restituir com o bem o mal-recebido, aproximou-se dele e injuriou-o gravemente. Tornou a injuriá-lo, e quando já não encontrava palavras para ofendê-lo, o Buda perguntou-lhe: Meu filho, se alguém recusa o presente que outro lhe oferece, para quem fica o presente? O tolo respondeu: Para quem o ofereceu. O Buha continuou: Pois bem, meu filho: você injuriou e eu recuso as suas injúrias. Guarde-as para você. Não serão para você fonte do mal? Assim como o eco pertence ao som e a forma pertence ao corpo, também o mal consumirá o auto do mal. O tolo não soube o que responder, e o Senhor Buda prosseguiu dizendo: O malvado que injuria o virtuoso assemelha-se ao que cospe ao céu, que recebe no rosto o que cuspiu. Aquele que calunia assemelha-se a quem, com o vento contrário, tenta atirar um punhado de pó no rosto de outrem. O pó cega os olhos de quem o atirou. Ninguém pode ferir o virtuoso; sobre o seu próprio autor recairá o mal que alguém lhe tentar fazer. O ofensor afastou-se vagarosamente, envergonhado; porém, depois regressou arrependido e refugiou-se no Buda, no Dharma e na Sangha. Capítulo seis. O deva e o Buda. O Buda estava um dia no jardim de Anathapindika, na cidad de Jetavana, quando lhe apareceu um Deva (anjo) em figura de brâmane e vestido de hábitos brancos como a neve, e entre ambos se estabeleceu o seguinte diálogo: O Deva: Qual é a espada mais cortante? Qual é o maior veneno? Qual é o fogo mais ardente? Qual é a noite mais escura? O Buda: A palavra raivosa é a espada mais cortante; a inveja é o veneno mais mortal; a luxúria é o fogo mais ardente, e a ignorância é a noite mais escura. O Deva: Quem obtém a maior recompensa? Quem sofre a maior perda? Qual é a armadura mais impenetrável? Qual é a melhor arma? O Buda: Quem dá sem desejo de receber é quem mais ganha. Quem recebe de outro sem devolver nada é o que mais perde. A paciência é a armadura mais impenetrável. A sabedoria é a maior arma. O Deva: Qual é o ladrão mais perigoso? Qual o tesouro mais precioso? Quem recusa o melhor que lhe é oferecido neste mundo? O Budha: Um mau pensamento é o ladrão mais perigoso. A virtude é o tesouro mais precioso. Recusa o melhor que se lhe oferece quem aspira à imortalidade. O Deva: O que atrai? O que repugna? Qual é a dor mais terrível? Qual é a maior felicidade? O Buda: O bem atrai. O mal repugna. A maior dor é a má conduta. A libertação é a maior felicidade. O Deva: O que ocasiona a ruína no mundo? O que destrói a amizade? Qual é a febre mais aguda? Qual é o melhor médico. O Buda: A ignorância arruína o mundo. A inveja e o egoísmo destroem a amizade. O ódio é a febre mais aguda. O Buda é o melhor médico. O Deva: Tenho uma dúvida e peço que me responda: O que é que o fogo não queima, nem a ferrugem consome, nem o vento abate e é capaz de reconstruir o mundo inteiro? O Buda: O benefício das boas ações. Tendo o Deva ficado satisfeito com as respostas do Budha, com as mãos juntas se inclinou respeitosamente diante dele e desapareceu. Capítulo sete. Instrução. Os discípulos se aproximaram do Senhor Buda, e depois de saudá-lo de mãos juntas, perguntaram-lhe por intermédio de Ananda: Ó Mestre que tudo vê! Desejamos aprender. Os nossos ouvidos estão dispostos a escutar. O senhor é o nosso incomparável Instrutor. Dissipe as nossas dúvidas, ensine-nos o sagrado Dharma. Fale entre nós, o senhor, de preclaro entendimento. O senhor, que tudo vê, tal qual o Senhor de mil olhos, o Rei dos deuses! Perguntamos ao Sakyamuni que atravessou a corrente e galgou a margem oposta e é bendito e forte: Como poderá um discípulo seguir o caminho reto depois de ter deixado sua casa e eliminado seus desejos? Assim responde ele: Vença o discípulo seus desejos e prazeres terrenos e celestes, e uma vez esgotado o desejo de vida sensorial, cumprirá o Dharma e poderá conduzir-se corretamente no mundo. Quem eliminar seus desejos, libertar-se do orgulho e sub julgar as paixões, seguirá retamente pelo mundo. Quem conhecer a lei e a obedecer fielmente; quem vir o caminho que conduz ao nirvana e tirar a venda dos olhos, irá de maneira certa pelo mundo. Os discípulos disseram-lhe: Certamente, ó Bhagavad, assim é. Se o discípulo se desliga de todos os lações, irá retamente pelo mundo. E o Senhor Buda prosseguiu: O aspirante ao nirvana deve ser consciente e justo, compassivo e benévolo, sem vangloriar-se disso. Que nenhum de vocês menospreze nem engane outrem, nem lhe cause mal algum. Ditoso é o retiro do pacífico que conhece e contempla a Verdade. Feliz é quem permanece sempre firme sob seu amparo. Feliz é quem não tem desejos nem repugnâncias. Felicidade suprema é a vitória sobre a vaidade obstinada. Cada um de vocês deve ligar o seu prazer ao Dharma, afirmar-se no Dharma (ensinamentos) e meditar em suas sublimes verdades. A ninguém aproveita e facilmente se perde um tesouro caído no fundo de um poço. O verdadeiro tesouro acumulado pela caridade, pela compaixão, pela temperança, pelo domínio próprio e pelas boas obras está num lugar seguro, onde ninguém pode roubá-lo, e ao morrer, leva-o consigo o homem para a outra vida. Então os discípulos louvaram a sabedoria do Tathágata, dizendo-lhe: O senhor transcendeu a dor. O senhor é santo. Oh Iluminado, no senhor vemos o homem que já se libertou das paixões. O senhor é grande e glorioso. O senhor eliminou de nós a dor e as vacilações. Por isso o adoramos, ó Sakya Muni, o senhor que conquistou o máximo proveito nos caminhos da sabedoria! O senhor dissipou a nossa dúvida, o senhor que vê claramente. Em verdade, o senhor é o Muni perfeitamente iluminado para quem não há obstáculo possível. Todas as penas desapareceram. O senhor permanece tranquilo. É enérgico e veraz. Está firme. Nós o adoramos, ó excelso Muni! Nós adoramos ao senhor, o melhor dos homens. Nos mundos dos homens e dos deuses ninguém se lhe iguala. O senhor é o Santo, o Mestre, o Buda, o vencedor de Mara, que depois de haver atravessado a corrente, ajuda também a espécie humana a a atravessar para a outra margem. Livro O Evangelho do Buda. Vida e Doutrina de Sidarta Gautama – O Inspirador do Budismo. Abraço. Davi.