quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A UNICIDADE DE DEUS

 

Judaísmo. www.morasha.com.br. A UNICIDADE DE D’US. “E saberás hoje e considerarás no teu coração, que o Eterno, Ele é D’us, em cima, nos céus, e embaixo, na Terra; não há nada além Dele. (Deuteronômio 4:39). O estudo sobre D'us e Sua Unicidade constitui a matriz do judaísmo. É a essência da Cabalá, que, por sua vez, é a alma da Torá e o portão de entrada a um entendimento mais profundo da lei e filosofia judaica, sua crença e prática. Nosso propósito, nesta análise, é fornecer uma introdução e um convite a aprofundar o estudo de um tema sem fim e, por vezes, paradoxal, e as ideias abaixo apresentadas baseiam-se na Cabalá de Rabi Itzhak Luria, o Arizal (1534-1572), e nos ensinamentos do Rabi Shneur Zalman de Liadi (1745-1813), o Baal HaTanya, autor do Tanya. Adentramos no estudo sobre D'us e sua Unicidade com a consciência de que somos meras criaturas finitas e falíveis tentando discutir o Infinito. O pouco que conhecemos acerca de D'us se deve ao fato de sermos, em parte, a Sua Essência. Falar de D'us é falar de um Ser indefinível e incompreensível, que está além de qualquer medida ou definição. Comparado a D'us, que transcende a sabedoria e o conhecimento, até o mais sábio dos homens nada mais é do que um tolo. E, portanto, qualquer exemplo, metáfora ou analogia que tente entender D'us é, inevitavelmente, imprecisa. Na melhor das hipóteses, pode-se pretender alcançar um pingo da verdade. Um corolário disso é o fato de D'us ser absolutamente singular. Nada nem ninguém a Ele se podem comparar. Há uma linha muito bem definida que O distingue de toda a Sua criação. Temos que ter isto sempre presente em nossa mente, pois, como veremos adiante, apesar de ser o mundo todo divino, o Criador e a criação não representam uma unidade. Nos livros sagrados, inclusive na Hagadá de Pessach, D'us é, às vezes, chamado de HaMakom - O Lugar. A razão para este nome, como ensina o Midrash, é que D'us é O Lugar do mundo, mas o mundo não é o Seu Lugar. Isto significa que a criação reside dentro do Criador, mas D'us não é definido nem dependente do mundo, em instância alguma. Nem Ele nem o Seu Nome podem ser associados a ser algum, vivo ou inanimado; pois isto equivaleria à idolatria. D'us não pode ser confundido com Seus Atributos - as Sefirot. Ele não é a Natureza, nem tampouco alguma forma de anjo ou ser humano onipotente. Até o mais espiritual dos homens, o maior dos sábios, o mais poderoso milagreiro – mesmo Moshé ou o Mashiach, seja este último quem for – são, nas palavras do Tanya, "ingênuos diante de Sua abençoada Presença". Até mesmo um verdadeiro Tzadik, que tem condições de reverter os decretos divinos, nada mais é do que um instrumento de D'us – um canal através do qual flui a misericórdia e a plenitude Divina. Judaísmo é monoteísmo puro. É, também, a busca pela Verdade. Para o judeu, a existência e unicidade de D'us não são mera questão de fé – são a base de toda a Realidade. São verdades mais preciosas do que a própria vida. A contínua criação do mundo. Nós, seres humanos, temos a impressão errônea de que somos criadores. Na verdade, nada criamos; simplesmente moldamos ou transformamos algo em outro algo. Um escultor, por exemplo, não cria sua escultura – ele a modela, com gesso ou outro material. Mesmo um escritor que componha uma história original necessita da matéria física, ou seja, papel e tinta, para gravar seu trabalho. E apenas pelo fato de ter a matéria física, o trabalho do escritor permanece após ser finalizado. Tudo na criação humana é iniciado a partir de um original. Há uma única exceção, o pensamento. Em nossa mente, temos o poder da imaginação, criando assim coisas ou pessoas ou situações inexistentes anteriormente e sem substância física. As crianças, por exemplo, costumam criar na mente amigos imaginários – chegando, mesmo, a lhes atribuir nomes e com eles "conversar". Contrastando com outras criações do homem, o pensamento, criado a partir do nada, jamais se torna independente de seu criador. Um conto publicado pode sobreviver a seu autor, mas se um escritor apenas criar o conto em sua imaginação, este deixará de existir no instante em que ele mudar de pensamento. E se ele se esquecer do mesmo, jamais voltando a pensar no assunto, tal história jamais terá existido. Antes da criação do mundo, não havia nada além de D'us. O Criador não modelou o universo a partir de um original, pré-existente, já que não existia absolutamente nada. Como D'us criou tudo a partir do nada, a criação não pode ser comparada à modelagem de uma estátua ou à escrita de uma conto – são criados a partir de uma matéria física, mas apenas aos pensamentos da mente humana, criados a partir do nada. Em sua essência, é isto o que é o nosso universo: o conjunto dos pensamentos de D'us. Falando por metáforas, Ele pensou e tudo se criou. D'us continua a pensar sobre sua criação e está continua a existir. E como a criação é a mudança do nada em algo, há que haver alguma força que garanta que tudo não volte à forma original de inexistência. Em termos científicos, poder-se-ia dizer que a criação é a força incessante que se opõe à entropia. Para que o mundo continue a existir, D'us precisa continuar com o pensamento no mundo – a dizer, Ele precisa estar constantemente recriando-o, sem parar; de outra forma, tudo reverteria ao nada, onde tudo se originou. O ato da criação, portanto, não foi um evento único, de uma única vez; é um evento contínuo e incessante. Esta é a razão pela qual todas as manhãs, em nossas orações, louvamos D'us por ser Aquele "que, em sua bondade, renova dia após dia, continuamente, a obra da criação". Contudo, como tudo está constantemente sendo criado do nada, o mundo pode, a qualquer momento, reverter ao nada, seu estado inicial. D'us não precisa inundar novamente o mundo para se livrar da humanidade. Basta que Ele pare de pensar no homem. À luz disto, o Talmud ensina que se em um momento qualquer, em algum ponto da Terra, não houver ao menos um judeu estudando a Torá, D'us perderia o interesse na criação e todo o universo súbita e instantaneamente deixaria de existir. Criação contínua significa que D'us está constantemente pensando em tudo e em todos; nada, portanto, escapando ao Seu escrutínio. A existência de qualquer ser – um micróbio, um ser humano ou uma galáxia - está sob Seu constante domínio. Nada pode existir ou ocorrer sem Sua Presença. Como está escrito na Torá, "pois que Ele é nossa própria vida" (Deut., 30: 20). A criação constante nos ensina que Ele não é apenas Quem dá a vida, mas Ele é a nossa vida. É fundamental ter isso bem claro para se entender a unicidade de D'us. Há quem acredite que D'us criou o mundo e o afastou de Si; é a teoria filosófica intitulada Deísmo. Outros acreditam que D'us apenas intervém no mundo esporadicamente, através da realização de um milagre. Tais noções – a de que existe um mundo e de que há um D'us e ambos interagem ou não interagem – são falsas. O mundo não é uma realidade absoluta; somente D'us o é. Pois, assim como os pensamentos residem na mente de uma pessoa, o mundo reside em D'us. E é por isso que D'us conhece tudo o que transpira no universo – não porque Ele invade nossa mente e nosso domínio individual – mas porque nós residimos dentro d'Ele. Assim sendo, nada do que pensamos ou fazemos Lhe é desconhecido. Afirmar que D'us não percebe ou não se importa se a pessoa diz a bênção antes de comer ou se a pessoa destina uma doação para caridade, é, no mínimo, uma leviandade. Na Torá que Ele compôs, D'us descreve Seu ato de criação como um produto de Sua fala, dos Dez Pronunciamentos Divinos. Esta metáfora da fala explica a criação na forma da Revelação Divina. Assim como as palavras de uma pessoa são reveladoras, a "fala" Divina implica que o mundo emanou d'Ele e que a criação realmente aconteceu. Mas tal metáfora tem limitações - como o têm todas as demais usadas para descrever D'us e Seus Atos - pois quando uma pessoa fala, as palavras emanam de seu íntimo. Há um orador e um discurso. Este, uma vez pronunciado, deixa o domínio do orador, não podendo ser revertido. Mas, em se tratando de D'us, não há nada fora de Seu domínio. Como D'us é Infinito, assim como tudo o que existe dentro d'Ele, Sua fala, contrariamente à do homem, nunca o abandona. Neste sentido, é mais preciso comparar a criação Divina do mundo aos pensamentos de uma pessoa que nunca são exteriorizados. Resumindo, a Criação tem elementos que são comparáveis à fala e ao pensamento do homem. Como a fala, a Criação é uma forma de revelação e expressão; como o pensamento, nunca abandona o domínio de um ser. Isto significa que os Dez Pronunciamentos Divinos resultaram na criação do universo, mas isso não é, de forma alguma, apartado ou independente de D'us. A Criação, através do ocultamento. A luz de uma vela tem maior significado à noite; mas se torna menos relevante, apesar de não mudar sua luminosidade, em plena luz do dia. E, se de alguma maneira, a vela fosse colocada dentro do sol, sua luz seria imediatamente anulada pela potente luz do sol. A luz de uma vela dentro do sol somente teria relevância se o sol se tornasse escuro. Apenas ocultando a luz do sol, a luz da vela seria perceptível. Esta analogia ajuda a ilustrar que a Criação, que é finita e reside dentro do Infinito, na verdade é anulada dentro de D'us. Esta analogia fica aquém da realidade, pois uma vela, por menor que seja, ainda é uma fração infinitesimal do sol. Comparado com o Infinito, qualquer número, por maior que seja, é insignificante. Ademais, por definição, o infinito não pode ser decomposto em partes, e, portanto, não permite a existência de mais nada. Como discutimos acima, não há espaço fora de D'us; e, como o infinito não faz espaço para nada mais, como pode o mundo existir? A Cabalá revela que o mundo foi criado não apenas pela fala Divina, mas pelo Tzimtzum. Comumente traduzido por Divina Constrição, Tzimtzum deve ser entendido como Divino Ocultamento: D'us ocultou Sua Luz Infinita para que o mundo não parecesse estar sendo anulado dentro d'Ele. Nós, portanto, vemos o mundo, mas não vemos D'us. Referindo-se ao ocultamento de D'us, o Zohar fala de uma "Lâmpada da Escuridão" que oculta a Luz Infinita para fazer crer que a Criação é separada de seu Criador. Como a presença do Infinito e o finito – D'us e o mundo – estão sempre em oposição, sua coexistência é uma contradição. O mundo somente pode existir quando D'us Se esconde. Se a Luz Infinita fosse revelada, instantaneamente Ela consumiria e anularia tudo o que existe. A existência do universo envolve dois processos concomitantes: a contínua criação Divina, pois, do contrário, o mundo reverteria ao vazio, ao nada; e o ocultamento de D'us, pois, do contrário, o mundo seria totalmente anulado dentro de Sua Luz Infinita. No entanto, o Tzimtzum apenas explica como podemos perceber o mundo, mas não como o mundo pode coexistir com o Infinito. O mundo é um produto da Revelação Divina e do Ocultamento Divino. O fator comum a ambos os mecanismos é o Divino, não deixando espaço para nada mais. Como pode um mundo finito ser criado por D'us, oscilando entre a luz e a escuridão? Revelado ou oculto, é tudo Ele. O Baal HaTanya elucida este paradoxo com a seguinte analogia: alguém que fique fora do sol pode diferenciar entre o próprio sol e os raios de luz que emite. De fato, as pesadas nuvens arruinarão um dia a ar livre apesar do sol nunca deixar de brilhar. Mas, a luz solar dentro do sol é vinculada à sua origem. Dentro do sol, não há distinção entre o sol e a luz solar; há apenas o sol. De forma similar, como não há nada fora de D'us, o mundo nem pode ser comparado a um raio de sol que, apesar de ser completamente dependente do sol, é reconhecido como uma entidade em si só. Pelo contrário, o universo todo é anulado dentro de D'us assim como o raio de sol o é dentro do sol. Como escreve o Baal HaTanya, este é o significado da verdadeira unicidade de D'us: o fato de que tudo é nada, comparado a Ele, pois tudo é verdadeiramente anulado dentro de Sua Existência. A unicidade de D'us não significa que não haja outros deuses no mundo. Significa que não há nada além d'Ele. Pois, ainda que nosso mundo realmente exista, assim como a luz existe dentro do sol, esse mundo é completamente anulado dentro de sua Origem: não possui existência independente ou absoluta. O ato de idolatria - quer se adore uma estrela, uma estátua ou um homem qualquer, mesmo um Tzadik - é abandonar tudo pelo nada, pois que apesar de o mundo ser a fala Divina, o mundo não é D'us. Prova disto é que o mundo está constantemente sendo criado do nada e poderia reverter ao vazio do nada - sem efetuar qualquer mudança em D'us. Segundo a Cabalá, o ponto de partida da idolatria não é a negação de D'us nem a crença em outros deuses, mas é a assunção de qualquer coisa que seja independente d'Ele. O epítome da idolatria foi personificado pelo Faraó do Egito - o vilão arrogante que afirmou ser um deus, auto criado. Não é de surpreender que D'us tenha escolhido Moshé, cuja essência é a antítese da idolatria, para enfrentar e vencer o Faraó. Pois Moshé, apesar de ser o maior de todos os profetas, foi também o homem mais humilde que já existiu: ele personificou a verdadeira santidade, que significa a auto anulação diante do Divino. Pode-se conjeturar que a humildade de Moshé não era simplesmente produto do tipo de pessoa que era, mas também do que ele vivenciou. Chegando tão próximo a D'us, como a nenhum outro ser humano foi dado chegar, ele pôde perceber, melhor do que ninguém, que tudo e todos nada são quando comparados ao Criador. Moshé pergunta, pois, retoricamente: "E que somos nós?" (Êxodo, 16:7). A resposta é que comparados a D'us, nada somos. O paradoxo da Criação - de como um mundo finito pode existir quando, na verdade, nada existe além de D'us - é transmitida pela seguinte história. Um rabino chassid disse, certa vez, a um filósofo, que "pessoas como você pensam em D'us o tempo todo, enquanto os chassidim apenas pensam em si próprios". Percebendo um sorriso no rosto do filósofo, o rabino disse, "não o digo como elogio", explicando a seguir: "Pessoas como você têm certeza de sua própria existência. E, por isso, passam os dias pensando em D'us. 'Será que Ele existe? E que tipo de D'us é Ele?' Por outro lado, nós, os chassidim, sabemos que D'us existe. Portanto, passamos o dia pensando se nós próprios existimos. E em como é possível esta nossa existência". Corre uma história sobre assunto semelhante acerca de um grande mestre do Chassidismo, Rabi Aharon, de Karlin (1802-1872). Grande líder e erudito, além de poderoso milagreiro, ele foi um dos principais alunos do Maguid de Mezeritch. Certa vez lhe perguntaram o que havia aprendido enquanto estudara em Mezeritch. "Nada", respondeu. "Nada?", repetiram, incrédulos. "Nada", reiterou. "Em Mezeritch, aprendi que nada sou". Estamos falando de um homem verdadeiramente extraordinário - um Tzadik, um sábio, um fazedor de milagres e maravilhas - cuja sabedoria e conhecimentos apenas o tornavam mais humilde pelo fato de o fazerem constatar que o mundo inteiro é, de fato, anulado diante do Criador. No entanto, essa anulação perante D'us não significa que o mundo não exista. Fosse este o caso, não haveria paradoxo algum na Criação. Diferentemente do misticismo oriental, o judaísmo não afirma que o mundo é uma ilusão. O mundo é uma realidade. Se a vida fosse uma ilusão, não haveria diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado, uma mitzvá e um pecado. Se, por exemplo, o alimento que ingerimos fosse uma ilusão dos sentidos, que diferença faria comer matzá ou chametz, em Pessach? Portanto, negar a realidade do universo não soluciona o paradoxo da Criação. O propósito do ocultamento. Buscando algum sentido para o paradoxo da Criação, tomemos emprestada uma analogia do campo da Física. A olho nu, a matéria parece ser sólida e inerte. Mas um objeto como uma pedra é composto do movimento constante de partículas cuja solidez física é questionável. Os elétrons são pontos concentrados de ondas de energia. Ao mencionar isto, quer-se defender o fato de que mesmo dentro do reino do mundo físico, nem tudo é o que parece. Percebemos apenas os sólidos tangíveis porque nossa percepção é limitada. Contudo, justamente esta falta de percepção é o que nos permite funcionar. Não teríamos condições de viver efetivamente se apenas víssemos partículas atômicas. Esta analogia nos ajuda a entender que pode haver mais de um nível de percepção. O mesmo é válido para a Realidade, como um todo. Por um lado, tudo no universo é produto da fala Divina. Nada há além de D'us; somente Ele existe e o mundo é anulado dentro d'Ele. Por outro, o mundo não é uma ilusão: matzá é matzá; chametz é chametz e o ser humano é um ser humano. Quem estuda Cabalá e não consegue aceitar este paradoxo ou perde a razão ou perde a fé. Esta é uma das razões porque o estudo do misticismo judaico foi proscrito durante tanto tempo. A Cabalá aborda o paradoxo da criação através da revelação de que há dois níveis de unicidade: Unicidade Superior, Yichudá Ila'á, que é a perspectiva do Criador, e a Unicidade Inferior, Yichudá Tata'á, que é a perspectiva da criação. A Superior significa que, sob a perspectiva Divina, o mundo é totalmente anulado dentro d'Ele, assim como a luz do sol o é dentro do sol. A Unicidade Inferior significa que nós vemos um mundo que aparenta ser separado de seu Criador, assim como alguém que fica fora do sol percebe os raios de luz totalmente dependentes do astro-rei, mas não anulados dentro dele. Dois níveis de Unicidade Divina significam que o relacionamento entre D'us e o universo não é idêntico nas duas direções. D'us é totalmente independente do mundo, ao passo que o mundo é totalmente dependente d'Ele. O Criador tudo vê, mas nenhuma de suas criaturas, nem mesmo os anjos, podem vê-Lo diretamente. Isto significa que o ocultamento Divino é a escuridão para nós, não para D'us. A partir de Seu ponto de vista, não há barreira alguma entre Ele e sua criação – Ele nos vê como se estivéssemos dentro d'Ele. Mas, a partir de nosso ponto de vista, parece haver uma linha divisória entre D'us e o mundo. Podemos comparar esta situação a um espelho de um só lado. De um deles, é um espelho, enquanto que do outro é totalmente transparente. Nós, que olhamos do lado espelhado, conseguimos ver nossa imagem refletida e, por essa razão, aceitamos a nossa existência como um fato tácito e natural. Mas perante D'us, tudo é como o vidro translúcido, que nada encobre nem oculta, não havendo nenhuma barreira a nos separar d'Ele. Isto explica o fato de que D'us ouve todas as preces. Como o Ocultamento Divino não é real - mas meramente uma falta de percepção de nossa parte - não há separação real entre o Criador e toda a criação. D'us percebe tudo, em todos os níveis, seja o desejo não expresso de uma criança ou o canto de um anjo. Ele está sempre infinitamente próximo, ainda que não O possamos ver. Na corrente dos mundos espirituais, o nosso é aquele que mais oculta a Presença Divina. Na liturgia judaica e nos livros sagrados repete-se, muito apropriadamente, que D'us está nos Céus - não porque Ele não esteja em lugar algum - mas porque nos mundos espirituais D'us é menos oculto. Nós, contudo, vivemos em um mundo que, como diz o Zohar, aparenta ser "um palácio sem governante". E a razão para tal é que se D'us não Se ocultasse, nosso mundo seria obliterado por Sua Luz Infinita. O Tzimtzum, portanto, é um elemento essencial da criação. Mais do que isso, é o que nos outorga o livre arbítrio. Se sentíssemos a Presença de D'us pairando sobre nós e nos envolvendo, nenhum de nós conseguiria fazer nada de errado e o conceito do livre arbítrio perderia todo o seu significado. Assim é que está escrito que nenhum ser "há de Me ver e continuar vivo". Mesmo os grandes Tzadikim e os mais sábios entre nossos sábios não podem ver o Divino, diretamente. Nem Moshé, a alma mais elevada que já existiu, pôde ser totalmente anulado diante da Essência Divina. Pois aquele que apenas vê a Divindade perde seu livre arbítrio e não mais pode participar deste mundo. Diz-se que em seus últimos momentos de vida, o Baal HaTanya (1745-1813), que se abrigava em uma cabana, chamou seu neto e lhe pediu: "O que você vê?" O neto, que viria a ser um grande Rebe, respondeu: "Vejo paredes de madeira e um teto". O Baal HaTanya respondeu: "Pois eu, não. Neste momento, só vejo a Divindade". O Maguid de Mezeritch dizia que essa capacidade - de deixar de ver o mundo para apenas enxergar a fala Divina - é investida em um Tzadik três dias antes de seu falecimento. É o sinal de que seus dias neste mundo se esgotaram. No que tange aos seres humanos, a anulação perante o Divino não deve ser interpretada como forma de repúdio ao mundo ou à própria existência. O nível Inferior da Unicidade é a nossa realidade e esta realidade não permite que se trate o mundo, os demais seres ou a própria vida como uma ilusão inconsequente. O nível Inferior de Unicidade foi criado por D'us com um propósito - para que tivéssemos como interagir com Ele. É a perspectiva de ser independente - de não conseguir ver que verdadeiramente nada existe além d'Ele – o que nos dá o livre arbítrio de nos agarrarmos a D'us ou de negá-Lo ou de nos rebelarmos contra Ele. Assim sendo, abandonar o mundo a uma mera ilusão é frustrar o magnífico plano da Criação. O que a anulação diante do Divino requer - e é bem mais do que a maioria das pessoas alcança no curso de sua vida - é o sentimento genuíno de humildade e repúdio a auto ego. O mais próximo ao "Unio Mystica” – total obliteração de si próprio - que há, neste mundo, é o estudo da Torá e o cumprimento de Seus mandamentos - através dos quais a pessoa anula sua própria vontade frente à Vontade Divina. O estudo da Torá, em particular, revela o Divino, pois como ensina o Zohar, é na Torá que D'us oculta Sua Luz Infinita. O mestre chassid, Rabi Nachman de Bratslav, ensinava que o paradoxo da criação não será plenamente entendido até o fim dos dias. Mas, apesar de certamente ser melhor conhecer esse paradoxo do que manter conceitos errôneos sobre D'us e Sua Unicidade, nosso propósito neste trabalho não foi apresentar um enigma e deixá-lo em suspenso. Uma resposta possível é que o mundo é algo que reside entre a não-existência e a existência - e que está no processo de se tornar uma realidade. Temos razão para crer nisto porque o Talmud ensina que, no futuro, D'us Se revelará abertamente, mas a humanidade não será obliterada. O Baal HaTanya explica que a Torá que estudamos e os mandamentos que cumprimos são uma blindagem para este mundo que estamos construindo, para que, um dia, este mundo possa suportar, sem ser consumido, uma Revelação Divina explícita. E, à pergunta de por que o Ocultamento Divino deve chegar ao fim, a resposta é que tudo o que há de errado, no mundo, somente existe porque D'us Se oculta; as pessoas não vêm D'us e costumam usar o livre arbítrio para fazer o mal. Portanto, por um lado, o mundo não pode ser aperfeiçoado até que a Luz Infinita seja revelada. Mas, por outro, essa Luz tem que permanecer oculta até que o mundo esteja pronto para suportá-la. Isto explica por que a perfeição do mundo é dependente de nossos atos: pois, cada vez que uma pessoa estuda a Torá ou cumpre a Vontade Divina, esta pessoa está transformando este mundo envolto em escuridão em uma Morada de D's, um lugar onde um dia Ele possa livremente revelar Sua Luz Infinita. O Talmud ensina que quando esse dia vier a Presença Divina será clara para todos nós. E nosso povo, que viveu por Ele e tanto sofreu por se recusar a negar a Sua Unicidade, proclamará: "Este é nosso D'us; esperamos por Ele e Ele nos salvou. Este é o Eterno por Quem ansiamos, exultemos e rejubilemos em Sua salvação" (Isaías, 25:9). www.morasha.com.br. Abraço. Davi.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

COMPARAÇÕES DOS MINISTÉRIOS TERRENOS DE KRISHNA, BUDHA E JESUS DE NAZARÉ

 

Teosofia. Algumas ponderações do livro Ísis de Véu, volume IV, páginas 165-170 de Helena Petrovna Blavatsky (1831-1899) enfatizando as COMPARAÇÕES DOS MINISTÉRIOS TERRENOS DE KRISHNA, BUDHA E JESUS DE NAZARÉ. "Esse credo não decaiu, e sua filosofia oculta, tal como a entendem agora os hindus iniciados, é exatamente a mesma há quase 10.000 anos. Mas podem nossos eruditos esperar seriamente que aqueles a revelem ao primeiro pedido, ou esperam ainda eles penetrar os mistérios da Religião Universal por seus ritos populares exotéricos (exteriores)? Nenhum brâmane ou budista ortodoxo negaria o mistério da encarnação cristã, mas eles a compreendem à sua própria maneira, e como poderiam negá-la? A pedra  fundamental de seu sistema religioso são as encarnações periódicas da Divindade. Sempre que a Humanidade está prestes a cair no materialismo e na degradação moral, um Espírito Supremo se encarna na criatura selecionada para o propósito. O "Mensageiro do Superior" liga-se à dualidade da matéria e da alma, e, completando-se assim a Tríade por meio da união de sua Coroa, nasce um Salvador, que ajuda a Humanidade a retornar ao caminho da verdade e da virtude. A igreja cristã primitiva, imbuída da filosofia asiática, partilhava evidentemente da mesma crença – do contrário, jamais teria erigido em artigo de fé o segundo advento, nem inventado a fábula do Anti Cristo como uma precaução contra as possíveis encarnações futuras. Nem teria imaginado que Melquisedeque foi um Avatar de Cristo. Eles só precisariam folhear a Bhagavad Gita para descobrir Krishna ou Bhagavat dizendo a Arjuna: "Aquele que me segue está salvo pela sabedoria e também pelas obras, ( ... ). Assim que a virtude declina no mundo, eu me torno manifesto para salvá-lo". Na verdade, é muito difícil não partilhar essa doutrina das encarnações periódicas. Não tem o mundo testemunhado, em raros intervalos, o advento de personagens tão grandiosos como KrishnaSakyamuni Budha e Jesus? Como estes dois últimos caracteres, Krishna parece ter sido um ser real, deificado por sua escola em algum tempo no alvorecer da história, e inserido no quadro do venerando programa religioso. Comparai os dois Redentores, o hindu e o cristão, separados no tempo por um espaço de alguns milhares de anos, colocai entre eles Sidharta Budha, que reflete Krishna e projeta na noite do futuro a sua própria sombra luminosa, com cujos raios foram esboçadas as linhas gerais do mítico Jesus, e de cujos ensinamentos derivaram os do Christos histórico, e descobrireis que sob uma mesma capa idêntica de lenda poética viveram e respiraram três figuras humanas reais. O mérito individual de cada uma delas ressalta do mesmo colorido mítico, pois nenhum caráter indigno poderia ter sido selecionado para a deificação pelo instinto popular, tão infalível e justo quando desimpedido. O brocardo Vox populi, vos Dei outrora verdadeiro, embora falso quando aplicada à atual massa dominada pelo clero. Kapila, Orfeu, Pitágoras (570 AC 495), Platão (428 AC 347), Basílides (120-145), Marcion (85-160), Amônio Sacca (175-242) e Plotino (204-270) fundaram escolas e semearam os germes de muitos e nobres pensamentos, e, ao desaparecerem, deixaram atrás de si o brilho de semideuses. Mas as três personalidades de Krishna, Gautama Budha e Jesus surgiram como deuses verdadeiros, cada qual em sua época, e legaram à humanidade três religiões edificadas na imperecível rocha dos séculos. O fato de que as três, especialmente a fé cristã, tenham sido adulteradas com o tempo, e de que a última seja quase irreconhecível, não se deve a nenhuma falha dos nobres reformadores. São os clérigos que se intitulam de cultivadores da "vinha do Senhor" que devem prestar contas à posteridade. Purificai os três sistemas da escória dos dogmas humanos, e a pura essência permanecerá a mesma. Mesmo Paulo, o grande, o honesto apóstolo, no ardor de seu entusiasmo, perverteu involuntariamente as doutrinas de Jesus, ou então seus escritos foram desfigurados depois de reconhecidos. O Talmude hebreu, o registro de um povo que, não obstante a sua apostasia do Judaísmo, sentiu-se compelido a reconhecer a grandeza de Paulo como filósofo e teólogo, diz a propósito de Aher (Paulo), no Yerushalmi, que "ele corrompeu a obra daquele homem” – ou seja, Jesus. Entretanto, antes que essa fusão seja realizada pela ciência honesta e pelas gerações futuras, lancemos uma vista de olhos ao quadro atual das três legendárias religiões. As Lendas dos Três Salvadores. (1). Krishna. Época: Incerta. A ciência europeia teme comprometer-se. Mas os cálculos bramânicos a fixam por volta de há 5.000 anos. Krishna descende de uma família real, mas é educado por pastores, é chamado de deus pastor. Seu nascimento e sua ascendência divina são mantidos em segredo de Kansa. Encarnação de Vishnu, a segunda pessoa da Trimúrti (Trindade). Krishna foi adorado em Maturã, no rio JummnaKrishna é perseguido por Kansa, tirano de Madura, mas escapa miraculosamente. Na esperança de destruir a criança, o rei mata milhares de varões inocente. A mão de Krishna foi Devaki, uma virgem imaculada (porém que havia dado à luz oito filhos antes de Krishna). Krishna é dotado de beleza, onisciência e onipotência desde o nascimento. Produz milagres, cura os aleijados e cegos, e expulsa demônios. Lava os pés dos brâmanes, e, descendo às regiões inferiores (inferno), liberta os mortos, e retorna a Vaikuntha – o paraíso de VishnuKrishna era o próprio Deus Vishnu era o próprio deus Vishnu em forma humana. Krishna cria meninos de carneiros, e vice - versa. Esmaga a cabeça da serpente. Krishna é unitário. Persegue o clero, acusa-o de ambição e hipocrisia, divulga os grandes segredos do Santuário – a  Unidade de Deus e a imortalidade do nosso espírito. A tradição diz que ele caiu vítima de sua vingança. Seu discípulo favorito, Arjuna, nunca o abandona. Há tradições fidedignas segundo as quais ele morreu perto de uma árvore (ou cruz), sendo atingido no pé por uma flecha. Os eruditos mais sérios concordam em que a Cruz irlandesa, em Tuam, erigida muito antes da era cristã, é asiática. Krishna sobe ao Svarga e torna-se Nirguna. (2). Gautama buddha (563 AC 469). Época: Segunda a ciência europeia e os cálculos cingalese, há 2.540 anos. Guatama é o filho de um rei. Seus primeiros discípulos são pastores e mendigos. Segundo alguns, uma encarnação de Vishnu, segundo outros, uma encarnação de um dos Budhas, e mesmo de Adi – Budhas, a Sabedoria Suprema. As lendas budistas estão livres deste plágio, mas a lenda católica que o transforma em São Josafá mostra que seu pai, rei de Kapilavastu, matou inocentes jovens cristãos (ver a lenda dourada). A mãe de Budha foi Maya ou Mayadevi, não obstante o seu casamento, manteve-se virgem imaculada. Budha é dotado dos mesmos poderes e qualidades, e realiza prodígios semelhantes. Passa sua vida com mendigos. Pretende-se que Gautama era diferente de todos os outros Avatares, tendo todo o espírito de Budha em si, ao passo que os demais tinham apenas uma parte da divindade. Gautama esmaga a cabeça da serpente, abole o culto de Naga por fetichismo, mas, como Jesus, faz da serpente o emblema da sabedoria divina. Budha abole a idolatria, divulga os mistérios da Unidade de Deus e o Nirvana, cujo verdadeiro significado era conhecido apenas pelos sacerdotes. Perseguido e expulso do país, escapa da morte reunindo ao seu redor algumas centenas de milhares de crentes em seu Budhado. Finalmente morre, cercado por uma hoste de discípulos, com Ananda, seu primo e amado discípulo, o líder de todos eles. O Brien acredita que a Cruz irlandesa em Tuam diz respeito a Budha, mas Gautama jamais foi crucificado. Em muitos templos ele é representado sentado sob uma árvore cruciforme, que é a "Árvore da Vida". Em outra imagem, ele está sentado sobre Naga, o Raja das serpentes com uma cruz em seu peito. Budha sobe ao Nirvana. Jesus de Nazaré. Época: Supõe-se que tenha sido há 1877 anos. Lembrando que o Livro Ísis Sem Véu foi primeiramente publicado em (1875 a 1877 – então Jesus nasceu a aproximadamente 2017 anos atrás). Seu nascimento e sua ascendência real foram ocultados de Herodes, o tirano. Descende da família real de Davi. É adorado por pastores em seu nascimento, e é chamado de "Bom Pastor". Uma encarnação do Espírito Santo, portanto a segunda pessoa da Trindade, agora a terceira. Mas a Trindade, agora a terceira. Mas a trindade só foi inventada em 325 anos depois de seu nascimento. Foi a Matarea, Egito, e ai produziu os seus primeiros milagres. Jesus é perseguido por Herodes, rei da Judéia, mas escapa para o Egito guiado por um anjo. Para se assegurar de sua morte, Herodes  ordena um massacre de inocentes, e 40.000 crianças são mortas. A mãe de Jesus foi Maria, ou Miriam, casou-se com seu marido José, mas manteve-se virgem imaculada, embora tenha tido várias crianças além de Jesus. Jesus tem os mesmos dons que Budha e Krishna. Passa sua vida com pecadores e publicanos. Expulsa igualmente os demônios. A única diferença notável entre os três é que Jesus é acusado de expulsar os demônios pelo poder de Belzebu (maioral dos demônios), ao passo que os outros não. Jesus lava os pés de seus discípulos, morre, desce ao inferno, e sobe ao céu, depois de libertar os mortos. Conta-se que Jesus esmagou a cabeça da serpente, de acordo com a revelação original do Gênesis. Também transforma menino em cabritos e cabritos em meninos. Jesus rebela-se contra a antiga lei judaica, denuncia os Escribas e Fariseus, e a sinagoga por hipocrisia e intolerância dogmática. Quebra o Sabbath, e desafia a Lei. É acusado pelos judeus de divulgar os segredos do Santuário. É condenado a morrer numa cruz (uma árvore). Dos poucos discípulos que havia convertido, um o trai, um o nega, e os outros desertam por fim, exceto João, o discípulo que ele amava. Jesus, Krishna e Budha, os três salvadores, morrem sobre ou sob árvores, e estão relacionados com cruzes que simbolizam os tríplices poderes da criação. Jesus sobe ao Paraíso. Como resultado em meados do século XVIII, contavam essas três religiões com os seguintes números de seguidores : De Krishna (Bramanistas) 60.000.000. De Budha (Budista) 450.000.000. De Jesus (Cristãos) 260.000.000. Tal é o estado atual dessas três religiões (isso no final do século XIX). Cada uma das quais se reflete por sua vez em sua sucessora. Tivessem os dogmatizadores cristãos parado aqui, os resultados não teriam sido tão desastrosos, pois teria sido difícil, de fato, fazer um mau credo dos sublimes ensinamentos de Gautama, ou de Krishna com Bhagavad. Mas eles foram adiante, e acrescentaram ao puro Cristianismo primitivo as fábulas de Hércules, Orfeu e Baco. Assim como os muçulmanos não admitem que seu Alcorão se baseia no substrato da Bíblia Judaica, não confessam os cristãos que devem quase tudo às religiões hindus. Mas os hindus têm a cronologia para prová-lo. Vemos os melhores e mais eruditos de nossos escritores lutando inutilmente por mostrar que as extraordinárias semelhanças – no que se refere à identidade – entre Krishna e Cristo se devem aos espúrios Evangelhos da Infância e do de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), fiel à política de proselitismo que caracterizou os cristãos primitivos, ao encontrar no Malabar o original do Cristo mítico em Krishna, tentou reunir os dois, e, adotando em seu "evangelho" (do qual todos os demais foram copiados) os detalhes mais importantes da história do Avatar hindu, enxertou a heresia cristã na religião primitiva de Krishna. Para quem estiver familiarizado com o espírito do Bramanismo, a ideia de os brâmanes aceitarem qualquer coisa de um estrangeiro é simplesmente ridículo. Que eles, o povo mais fanático no que respeita aos assuntos religiosos, que, durante séculos, não pôde ser compelido a adotar o mais simples dos costumes europeus, sejam suspeitos de ter introduzido em seus livros sagrados lendas não averiguadas sobre um Deus estrangeiro, eis algo tão absurdamente ilógico que é realmente uma perda de tempo tentar contraditar a ideia! Não examinaremos em profundidade as bem conhecidas semelhanças entre a forma externa do culto budista – especialmente o Lamaísmo – e o catolicismo romano, façanha pela qual pagou caro o pobre Huc – mas, tentaremos comparar os pontos mais vitais. De todos os manuscritos originais que foram traduzidos das várias línguas em que o Budismo está exposto, os mais extraordinários e interessantes são o Dhammapada, ou O caminho da virtude, de Budha, traduzido do pali pelo Coronel Rogers, e A Roda da Lei, que contém as observações de um Ministro de Estado siamês sobre a sua própria religião e as outras, traduzida por Henry Alabaster (1836-1884). A leitura de ambos os livros, e a descoberta neles de semelhanças de pensamentos e doutrina, habilitou o Dr. Inman a escrever muitas das passagens profundamente verdadeiras constantes de uma de suas últimas obras, Ancient Faiths and Modern. "Falo com sóbria sinceridade", escreve esse generoso e franco erudito, "quando digo que após quarenta anos de experiência entre aqueles que professam o Cristianismo, e aqueles que proclamam ( ... ) mais ou menos em silêncio a sua discordância com ele, observei mais virtude e moralidade entre os últimos do que entre os primeiros ( ... ). Conheci pessoalmente muitas pessoas pias e boas cristãs, a quem honro, admiro e talvez gostaria de imitar, mas elas merecem o elogio que assim lhes passo em consequência de seu bom senso, pois ignoram a doutrina da fé de modo quase total, e cultivam a prática das boas obras ( ... ). A meu juízo, os cristãos mais louváveis que conheço são budistas reformados, embora provavelmente nenhum deles jamais tenha ouvido falar de Sidharta Gautama. Entre os artigos de fé e as cerimônias lamaíco – budista e católico – romanas há cinquenta e um pontos que apresentam uma semelhança perfeita e surpreendente, e quatro pontos diametralmente oposto. Como seria inútil enumerar as "semelhanças", pois o leitor pode encontrá-las cuidadosamente anotadas na obra de Inman acima citada. Citaremos apenas as quatro dessemelhanças, e deixaremos ao leitor a tarefa de tirar suas conclusões: (1). Os budistas afirmam que nada que seja contraditado pela razão pode constituir uma verdadeira doutrina de Budha. Os  cristãos aceitarão qualquer absurdo, desde que promulgado pela Igreja como um artigo de fé. (2). Os budistas não adoram a mãe de Sakyamunni, embora a honrem como uma mulher santa, escolhida por suas grandes virtudes para tal tarefa. Os romanos adoram a mãe de Jesus, e lhe pedem ajuda e intercessão. O culto da Virgem enfraqueceu o de Cristo, e lançou por completo na sombra o do Todo Poderoso. (3). Os budistas não tem sacramentos. Os seguidores do papa têm sete que são: batismo, eucarística, matrimônio, crisma, reconciliação ou penitência, unção dos enfermos, ordem religiosa. (4). Os budistas não acreditam em qualquer perdão para os seus pecados, exceto depois de uma adequada punição para toda má ação, e uma compensação proporcional às partes injuriadas. Os cristãos estão certos de que, se apenas acreditam no "precioso sangue de Cristo", esse sangue oferecido por Ele para a expiação dos pecados de toda a humanidade (leia-se cristãos) reparará todos os pecados mortais. Qual dessas teologias mais se recomenda ao pesquisador sincero, eis uma questão que podemos deixar com segurança ao julgamento do leitor. Uma oferece luz, a outra trevas. Reza A roda da Lei: "Os budistas acreditam que todo ato, palavra ou pensamento tem a sua consequência, que aparecerá mais cedo ou mais tarde no atual estado, ou nalgum futuro. Os atos maus produzirão más consequências, prosperidade neste mundo, ou nascimentos no céu ( ... ) em algum estado futuro". Essa é a justiça correta e imparcial. Essa é a ideia de um Poder Supremo que não pode falhar e que, por conseguinte, não pode ter nem ira nem misericórdia, mas deixa todas as causas, grandes ou pequenas, exercerem seus efeitos invitáveis. "Com a medida com que medirdes sereis medidos", tal sentença, nem pela expressão, nem pela implicação assinala qualquer esperança de um futuro perdão ou salvação por procuração. A crueldade e a misericórdia são sentimentos finitos. A Divindade Suprema é infinita, portanto só pode ser JUSTA, e a justiça deve ser cega. Os pagãos antigos tinham a esse respeito concepções mais filosóficas do que os cristãos modernos, pois representam Têmis de olhos vendados. E o autor siamês da obra em pauta dá mostras novamente de pensamentos: "Um budista poderia acreditar na existência de um Deus Sublime acima de todas as qualidades e atributos, um Deus Perfeito, acima do amor e do ódio, repousando calmamente numa silente felicidade que nada pode perturbar, e de tal Deus nada de mal ele poderia falar. Não pelo desejo de agradá-lo, ou pelo medo de ofendê-lo, mas pela veneração natural. Mas ele não pode compreender um Deus com atributos humanos e na qualidade dos homens, um Deus que ama e odeia e mostra raiva, uma Divindade que, conforme a descrevem os missionários cristão, ou os maometanos, os brâmanes e os judeus, cai sob o seu padrão na categoria de um bom homem comum. Já nos temos surpreendido amiúde com as extraordinárias ideias de Deus e Sua Justiça que parecem ser honestamente defendidas pelos cristãos que cegamente confiam no clero quanto aos assuntos religiosos, e jamais em sua própria razão. Quão estranhamente ilógica é essa doutrina da Expiação. Propomos discuti-la com os cristãos do ponto de vista budista, e mostrar ao mesmo tempo por quais séries  de sofismas, dirigidas para o objetivo único de apertar o jugo eclesiástico sobre o pescoço popular, sua aceitação, como um mandamento divino, foi finalmente efetuada, queremos mostrar também que ela se revelou uma das doutrinas mais perniciosas e desmoralizantes. Diz o clero: "Não importa quão enormes sejam os nossos crimes contra as leis de Deus e do homem, temos apenas que acreditar no auto sacrifício de Jesus para a salvação da humanidade, e Seu sangue lavará todas as máculas. A misericórdia divina é infinita e insondável. É impossível conceber um pecado humano tão abominável que o preço pago em adiantado para a redenção do pecado não o elimine, sendo ainda mil vezes pior. E, além disso, nunca é tarde demais para se arrepender. Mesmo que o pecador espere até o último da hora extrema, do último dia de sua vida mortal, depois de seus descoloridos lábios pronunciarem a confissão da fé, ele estará pronto para ir ao Paraíso. O bom ladrão assim o fez, e assim poderão fazê-lo outros da mesma espécie", tais são os pontos de vista da Igreja. Mas se transpusermos o estrito círculo do credo e considerarmos o universo como um todo equilibrado pelo primoroso ajustamento das partes, como se revoltará a lógica sensata, o mais fraco senso de justiça contra essa Vicária Expiação! Se o criminoso pecou apenas contra si mesmo, e causou mal apenas a si mesmo, se pelo arrependimento sincero ele puder apagar os eventos passados, não apenas da memória do homem, mas também desse registro imperecível, que nenhuma divindade, nem mesmo a Suprema das Suprema, pode fazer desaparecer, então esse dogma não seria incompreensível. Mas afirmar que alguém pode fazer mal a seu companheiro, matar, perturbar o equilíbrio da sociedade, e a ordem natural das coisas, e então, pela covardia, esperança, ou compulsão, não importa, ser esquecido por acreditar que o sangue derramado de alguém lave o outro sangue derramado, isso é ilógico e absurdo! Podem os resultados de um crime ser esquecidos ainda que o crime seja perdoado? Os efeitos de uma causa nunca se limitam ao âmbito da causa, nem podem os resultados de um crime ser confinados ao ofensor e à sua vítima. Toda boa ação, assim como a má, tem seus efeitos, que são tão palpáveis como a pedra que cai num lago de águas claras. A comparação é trivial, mas é a melhor que podemos imaginar, e portanto a empregamos. Os círculos de redemoinhos são maiores e mais rápidos, conforme seja o objeto perturbador maior ou menor, mas o menor pedregulho, ou melhor, a partícula mais fina, provoca suas ondas. E essa perturbação não é visível apenas na superfície. Abaixo, em todas as direções, para fora e para baixo, de modo invisível, gota puxa gota, até que os lados e o fundo sejam tocados pela força. Mais o ar acima da água é agitado, e essa perturbação passa, como nos dizem os físicos, de estrato a estrato no espaço para todo o sempre, um impulso é dado à matéria, e esse nunca se perde, e não pode ser retomado! Ocorre o mesmo com o crime, e com o seu oposto. A ação pode ser instantânea, os efeitos são eternos. Quando, depois de a pedra ter caído no lago, pudermos chamá-la de volta à mão, recolher as ondas, obliterar a força expandida, restaurar as ondas etéreas ao seu estado anterior de não - ser, e apagar todos os traços do ato de atirar a pedra, de modo que o registro do Tempo não possa mostrar o que aconteceu, então, então, poderemos ouvir pacientemente os cristãos defenderem a eficácia dessa Expiação. O times de Chicago - USA, publicou recentemente a lista de  algozes da primeira metade do presente ano (1877), uma longa e chocante lista de assassinos e enforcamentos. Quase todos esses assassinos receberam a consolação religiosa, e muitos anunciaram que haviam recebido o perdão de Deus através do sangue de Jesus, e que estavam indo para o Céu! Sua conversão foi efetuada na prisão. Observai quão ligeira é a balança da Justiça Cristã. Esses sanguinolentos assassinos, incitados pelos demônios da luxúria, da vingança, da cupidez, do fanatismo, ou pela mera sede brutal de sangue, mataram suas vítimas, em muitos casos, sem lhes dar o tempo para se arrependerem, ou chamarem a Jesus para lhes lavar o sangue. Morreram, talvez, em pecado, e, naturalmente, de acordo com a lógica teológica, encontraram a recompensa para as suas ofensas maiores ou menores. Mas o assassino, agarrado pela justiça humana, é aprisionado, chorado pelo sentimentalistas, confessa, pronuncia as encantadas palavras de conversão, e vai ao cadafalso uma redimida criança de Jesus! Se não fosse pelo assassinato, ele não teria sido confessado, redimido, perdoado. Então, esse homem fez bem em matar, pois assim ganhou a felicidade eterna! E quanto à vítima, e sua família, seus parentes, dependentes, e amigos, não tem a Justiça nenhuma recompensa para eles? Devem eles sofrer neste mundo e no próximo, enquanto aquele que lhes fez mal se senta ao lado do "bom ladrão" do e é para sempre abençoado? Sobre essa questão, o clero também mantém um prudente silêncio. Redator do Mosaico. Agora é minha fala. Como viram o texto é enfático, pois a senhora Blavatsky precisou salientar o ensino exotérico do Budismo em relação a expiação da alma humana. Também há todo um contexto histórico de dominação inglesa (séculos XVII a XIX) na Índia que não tenho tempo de abordar, produzindo esse tom incisivo da autora em relação ao cristianismo. Enquanto os budistas imprimem sua própria expiação pessoal baseada na justíssima recompensa das virtudes e punições pelos pecados. Um processo sistemático envolvendo ajustes e reparações carmicas (para cada ação há uma reação) que tem como resultado a redenção completa do discípulo ao longo de futuras encarnações. O cristianismo concebe outro pressuposto para a redenção, basta crer no sacrifício efetuado por Jesus na cruz do calvário e terás todos os pecados e vícios imediatamente cancelados. A filosofia oriental tem tradição espiritualista de compreender os conceitos religiosos baseados na lógica e racionalidade, assim não entendem argumentos dogmáticos que ressaltam a autoridade das doutrinas como imposição de uma fé cega que não suporta ser questionada ou colocada a prova. Isso era o que os missionários jesuítas católicos e posteriormente os protestantes (século XVII e XIX) faziam ao tentar converter os hindus sem argumentos plausível. Evidentemente eles resistiam a essas investidas do colonizador europeu, não vendo razão para trocarem sua maneira lógica de redenção por uma duvidosa, segundo eles, que os jesuítas e protestantes não conseguiam explicar coerentemente, simplesmente diziam que basta crer e ter fé pra ser salvo.  Abraço. Davi.