segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A Serenidade Espiritual.



Mateus 11:25-30 “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Orígenes (182-254) de quem temos falado em alguns textos, concebia a interpretação bíblica em três níveis os quais ele nomeou de corpo, alma e espírito. O corpo era a interpretação literal, a alma a explicação intelectual e o espirito a decifração mais profunda, mística e transcendente comparada a um êxtase. Os séculos que se sucederam depois de Orígenes, foram marcados pelo abandono desse método investigativo de compreender as escrituras sagradas cristãs. O empobrecimento da doutrina superficial, aquilo que é dito em II Coríntios 3:6 “A letra mata (...)”. dominou a exegese bíblica. Orígenes não costumava personalizar e significar os eventos sagrados, ele procurava através de metáforas, alegorias e mitologias entrar no inconsciente dos fatos e personagens aludidos. Uma interpretação exotérica, interna dos fatos, restringindo assim as superstições, crendices e dogmas. Um exemplo está na crucificação de Cristo em João 19:17 “E, levando ele às costas a sua cruz, saiu para o lugar chamado Caveira, que em hebraico se chama Gólgota”. A palavra caveira significa calvário que entendemos como todo o vitupério da via dolorosa, culminando com o sacrifício do Cristo na cruz. A caveira é a cabeça contendo seus quatro orifícios relacionados a audição, visão, paladar e a moleira na horizontal. Esses aspectos distinguem os sete chakras ou coroa, em pali Sahasrara. Nessa perspectiva oculta a crucificação ocorreu no nível do inconsciente humano. Uma experiência mística que podemos acessar, caso tenhamos um êxtase conforme é falado por Orígenes. “O Centro da Consciência. A chakra da cabeça está localizada no centro do crânio, abrindo-se em forma de funil para o universo. Na arte sacra, esta chackra é normalmente representada como um anel ou halo no topo da cabeça dos santos e dos apóstolos. Este halo representa a ligação entre a pessoa e o divino ou a inteligência superior de Deus. O princípio fundamental que rege este chakra relaciona-se com o Ser, com a existência e com a compreensão profunda da missão do homem na Terra. Dai que as cores que lhe estão associadas sejam o violeta, o lilás ou o branco (que simbolizam a ligação entre o homem e o universo; também o homem e Deus), que tipificam ideais como a devoção religiosa e a meditação transcendental”. http://terapiasaromaticas.blogspot.com.br.  René Descartes (1595-1650) em seu reducionismo cartesiano destaca duas importantes glândulas conectadas a consciência cerebral intimamente ligada ao chackra da cabeça que são a pineal e o hipotálamo. Em seus estudos pondera que chegara um tempo em que os humanos desenvolverão esses órgãos, dando-lhes capacidades extra sensoriais acima do normal como telepatia, telecinesia, teletransporte e outros fenômenos parapsicológicos. Uma super consciência capaz de comunicação com seres inferiores da natureza como os neurotransmissores primitivos de minerais, vegetal,  até alcançando o nível da consciência dos animais e dos humanos. Esses fatos segundo a ciência oculta seriam realizados na próxima raça raiz, a sexta. Mas alguns Yogues, lamas budistas e místicos cabalistas já acessam essa hiper consciência que desenvolveram através de exercícios meditativos e controle da mente. Isso envolve uma vida de renúncia, santidade, pureza e austeridade extremas só alcançados por aqueles que se comprometem totalmente com o Logos Divino. Para desenvolvermos esses poderes latentes em nós o primeiro passo é praticarmos as virtudes elevadas, todas incorporadas na vida do mestre Jesus. As palavras da escritura acima em Mateus 11 reporta-nos a serenidade, que tem como produto a paz interior. Ocultastes estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. A serenidade é uma das virtudes (sem perturbação ou irritação) que podemos desenvolver praticando a meditação; ela trará como resultado o tranquilo repousar de nossa mente. A frase naquele tempo no início do texto, podemos transportá-la para nossos dias como o aqui e agora, um conceito advindo do Zen budista que diz: “O milagre é que o Zen não se interessa pelo passado nem pelo futuro. O Zen vive o presente. Todo o seu ensinamento é baseado e está enraizado, concentrado no que (...) é”. Temos muita dificuldade em viver o presente. Fisicamente estamos no aqui, mas mentalmente não no agora. Nossa mente está distante, maquinando situações que faremos logo depois, ou pensamos no passado, aquilo que não foi resolvido e consideramos maneiras de voltarmos naquele assunto para darmos um fim que imaginamos correto. Aspectos perigosos quando exemplificamos com eventos práticos. Imagina um motorista num trânsito intenso, cogitando no desentendimento que teve com sua esposa, as palavras de ofensa e as vezes os tapas desferidos por um ou outro. Um cirurgião médico em pleno procedimento, receoso de ter seu veículo roubado pelo cuidador da garagem pública. Um psicólogo totalmente desatento a seu paciente, na sessão de terapia, preocupado com seu filho que foi levado ao hospital pelo marido com suspeita de fratura. Situações que mostram o quanto devemos concentrar nosso pensamento no agora. Isso requer treino; a meditação e a Yoga ajudam muito nesse particular de fazermos com que nos conectemos, não deixando que as circunstâncias externas influenciem negativamente nossas decisões cotidianas. O Mestre tinha a serenidade de tratar com todos os tipos de temperamentos mostrado pelos seus discípulos. Tiago e João as vezes agiam sem ponderar, Lucas 9:54 “ E os seus discípulos Tiago e João, vendo isso disseram: Senhor queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez”. Imaginar que os discípulos se iraram contra os samaritanos, querendo queimá-los, porque não foram recebidos por eles em sua cidade? Esse fato, no fundo, mostra a discriminação dos seguidores de Cristo, pois a lei judaico considerava os samaritanos gentios, consequentemente apartados da aliança com D”us. Mas a serenidade do Mestre estampava palavras de sabedoria divina ao responder os discípulos disse: “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. Pedro agia intempestivamente em algumas ocorrências como na relatada em João 18:10 “Então Simão Pedro, que tinha a espada, desembainhou-a, e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando sua orelha direta. E o nome do servo era Malco”. Num momento de descontrole emocional, tentando defender seu Mestre, o discípulo caiu na tentação de ofender fisicamente o próximo. Na lei uma tentativa de homicídio. Mas Jesus lhe diz: “Poe a tua espada na bainha, não beberei o cálice que o Pai me deu? Os dois eventos abordados mostram que o âmbito das ocorrências estão em nossa mente. Assim potencialmente todos podemos praticar atos viciosos desse vulto ou maiores se não atentarmos a chama divina acessa pela divindade em nosso ser. O princípio crístico, bhúdico é nossa consciência clarificada pela serenidade vinda da comunhão mística e transcendente com o divino. Os discípulos mesmo junto com o Mestre tinham suas mentes cauterizadas pelo pecado e cobiça da vida. Romanos 12:19-21 “Não vos vingueis a vós mesmos amados, mas dai lugar a ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor. Antes, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede dá-lhe de beber. Porque fazendo isso, amontoarás brasas vivas sobre a tua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem”.  A brasa viva acesa em nossas cabeças não deixará sermos arrastados pela ira, maldade, inveja, orgulho e apegos mundanos. Reconhecerem, assim como o Mestre, que beberemos o cálice que o Pai nos deu. A vingança do Senhor, tipifica o carma como a justa medida daquilo que fazemos de bem ou mal. É como um bumerangue que jogado retorna ao seu arremessador infalivelmente. Dessa maneira devemos plantar o bem em pensamento, palavras e atitudes à todos os seres humanos e não humanos. Budha disse: É difícil ser sereno e simples de coração em todas as relações com os outros. É difícil para os pobres praticar a caridade. É difícil não expressar uma opinião sobre os outros. É difícil não sentir desprezo em relação ao iletrado”. Contudo o Budha não disse ser impossível. Com iletrado não queria dizer necessariamente aquele que não sabe ler ou escrever, nem resolver questões fundamentais de matemática, mas os ignorantes quanto a sabedoria divina, não percebendo que a Suprema Divindade está dentro de todos os seres, apenas esperando ser acessada para evoluir nosso espírito rumo ao nirvana (samadhy) ou iluminação. Que nosso Budha interior ajude-nos em nossas fraquezas. Abraço. Davi.       

sábado, 24 de outubro de 2015

Um Príncipe Encontra a Perfeição.

Budha percorria certa vez um caminho quando um homem, percebendo que estava diante de um ser incomum, perguntou-lhe: Você é um deus? E o Budha respondeu: Não. É um demônio? E o Budha respondeu: Não. É um homem? E o Budha respondeu: Não. Quem é você, então? E o Budha respondeu: Eu estou acordado. Esta pequena lenda talvez resuma todo o sentido da vida de Sidarta Gautama, o Budha, título que significa justamente O desperto ou O iluminado. Entender o que esse despertar ou essa iluminação querem dizer, porém, é algo que, segundo seus seguidores, está além das palavras. Também chamado Sakyamuni, que quer dizer O santo do clã dos Sakya, ele nasceu provavelmente no século VI a.C. no principado indiano de Kapilavastu, (na cidade de Lumbini) na região da cordilheira do Himalaia, no sul do atual Nepal. Mais ainda do que a de Cristo, sua biografia está de tal forma amalgamada com o mito que se torna praticamente impossível separar vida e lenda. Até porque, de acordo com os budistas, isso nem seria desejável, pois o mito é considerado uma forma perfeitamente válida de conhecimento. O próprio Budha empregou largamente o discurso mitológico em suas falas destinadas a um público mais amplo, enquanto em comunicações mais restritas empregava uma requintada linguagem filosófica. Seu pai, Sudohodana, era o rajá de Kapilavastu, o que significa que Sidarta nasceu príncipe. Sua casta de origem, a dos guerreiros, não ocupava, entretanto, o topo da rígida hierarquia indiana. O poder pertencia aos brâmanes, os sacerdotes. Quando Sidarta nasceu, a casta dos guerreiros contestava a estrutura social dominada pelos brâmanes. O nome da localidade natal de Sidarta, Kapilavastu, significa Morada de Kapila. Fundador do Sankhyan, sistema filosófico que influenciou fortemente o budismo e também o Yoga clássico, Kapila dizia que uma das mais perniciosas servidões humanas é a daqueles que tem de dar presentes aos sacerdotes. Os ecos do pensamento desse antecessor estão claramente presentes na doutrina do Budha, que condenou o sistema de castas da Índia. Por uma série de complexas razões históricas, a principal delas, a invasão muçulmana ocorrida no século XII, o budismo não se enraizou na Índia, embora tivesse conquistado espiritualmente quase todo o Extremo Oriente. Destino de certa forma semelhante ao do cristianismo, que não foi aceito pelos judeus, mas espalhou-se pelo mundo. Também como na biografia mítica de Cristo, a concepção e o nascimento de Budha estão cercados de condições sobrenaturais. Sua mãe, Maya, na mitologia, o mesmo nome da força mágica que cria o universo ilusório, sonhou que entrava em seu flanco, lado, um elefante branco com a cabeça cor de rubi e seis presas. Desse encontro Sidarta foi concebido. A imagem tem evidentes conotações simbólicas. O elefante, na Índia, representa a mansidão; seis, o número de presas, simboliza os sentidos do Universo norte, sul, leste, oeste, para cima e para baixo. No corpo de sua mãe, o futuro Budha, o Bodhisatva, espera rezando a hora de seu nascimento, que se dará pelo flanco direito de Maya, sem entretanto lhe causar mal. Quando nasce, uma série de marcas evidenciam nele o incomparável, conforme proclama o vidente Asita: tem cor dourada, altura igual à extensão dos braços abertos, uma coroa orgânica no alto do crânio, pestanas de boi, quarenta dentes alvíssimos e unidos, membranas interdigitais e centenas de formas desenhadas nas plantas dos pés. A narrativa tradicional descreve o Budha como belíssimo. A imagem popular que se tem dele no Ocidente, que o apresenta como um homem obeso, se deve a uma confusão entre a sua figura e a de uma divindade mitológica chinesa. Maya morreu sete dias depois do parto e Sidarta foi criado por uma tia, Mahaprajapati, que se tornaria a primeira monja budista. Sabendo que estava destinado a seu filho um futuro excepcional, diz ainda a lenda, Sudohodana fez construir para ele três palácios, dos quais excluiu tudo o que pudesse lembrar os males do mundo. A narrativa indiana, que se caracteriza por exagerar os fatos, sem maiores preocupações com o que no Ocidente se chama verdade objetiva, se excede em exuberância ao descrever o fausto da juventude do futuro Budha. Seu harém tinha 84 mil mulheres e ele era o primeiro em todas as competições, que incluíam modalidades tão diversas como caligrafia e natação, gramática e corrida, botânica e luta. Aos 19 anos, Sidarta se casa com sua prima Yasodhara e vive mais dez anos nesse mundo de idílica (fantasia, sonho ou imaginação) felicidade e requintada satisfação dos sentidos. Da união com Yasodhara, nasce seu filho Rahula. Mas essa vida privilegiada seria bruscamente sacudida, segundo a tradição, em três passeios que Sidarta fez fora dos limites de seus palácios. Na primeira, viu um homem de aparência decrépita, moribundo, que precisava apoiar-se num bastão para caminhar. O cocheiro de Sidarta explica que se trata de um velho e que o destino de todos os homens é se tornar um dia como ele. Na segunda, vê um homem com o corpo corroído pela lepra; o cocheiro explica que é um doente e que qualquer pessoa está sujeita a esse mal. Na terceira, vê um defunto transportado em cortejo fúnebre; o cocheiro explica que é um morto e que a morte é o fim para o qual caminham todos os seres vivos. O impacto dessas três visões tumultua enormemente os pensamentos de Sidharta e ele decide partir em busca do esclarecimento. Deixa para trás os palácios, as mulheres, o filho e cavalga rumo ao Oriente. Como São Francisco de Assis (1182-1226) na Itália do século XIII, se desfaz das roupas. Entrega seu cavalo ao criado que o acompanhara e corta os cabelos. Sozinho, decide iniciar uma nova vida. Tem 29 anos de idade. Um asceta, ou, segundo a lenda, um anjo que assumiu a forma de asceta, lhe entrega os únicos pertences pessoais a que futuramente terão direito os monges mendicantes budistas: o traje amarelo, o cinto, a navalha para raspar os cabelos, a agulha, a tigela para esmolas e a peneira para filtrar a água. Sidarta parte em busca dos grandes mestres espirituais da época, homens como Alara Kalama e Uddaka Ramaputta, mas estes não conseguem satisfazer suas dúvidas. A tradição procurará apresentar todos os elementos essenciais da doutrina budista como uma descoberta pessoal do Budha, decorrente de sua iluminação. Mas. se há elementos que realmente lhe são próprios e inconfundíveis, há também a influência da filosofia Sankhyan e do hinduísmo, expresso nos Vedas, a antiquíssima coleção de textos religiosos da Índia. Desta influência e também de outras sínteses posteriores se formaram a cosmologia e a mitologia budista. Abandonando seus mestres, Sidarta refugiou-se por seis anos no bosque de Sena, território de Magadha. É uma região escolhida pelos eremitas para afastar-se dos apelos do mundo. Ali, junto a cinco companheiros, Sidarta se dedica à auto mortificação. Faz jejuns prolongados; quando come, sua alimentação se resume a frutos; permanece dias seguidos imóvel em posição de meditação, castigado pela chuva ou pelo sol. Enfraquecido física e mentalmente, percebe que essas práticas não o aproximam do que mais procura, as respostas para os sofrimentos do mundo. Deixando os companheiros, banha-se no rio Nairanjana e se fortalece com o alimento oferecido por uma aldeã. Depois, senta-se à sombra de uma figueira sagrada para meditar. Ali vive a experiência da iluminação que lhe teria dado consciência plena da verdade absoluta. Segundo o relato tradicional, ele vê simultaneamente os infinitos mundos do Universo, suas infinitas encarnações anteriores e as de todos os outros seres, a concatenação de todas as causas e efeitos. Ao amanhecer, intui as Quatro Verdades Nobres, as colunas mestras do budismo: 1. O sofrimento é inerente a toda forma de existência. 2. A ignorância é a origem do sofrimento. 3. Pela extinção da ignorância é possível extinguir o sofrimento. 4. O caminho que leva a isso é equidistante da entrega aos prazeres e apelos do mundo e dos rigores do ascetismo e da auto mortificação. Budha vai referir-se a esse caminho médio com a metáfora de um alaúde, cujas cordas não podem estar nem muito frouxas nem muito tensas para que se produza o som adequado. Ela se expressa na Nobre Senda Óctuplo: compreensão correta, pensamento correto, palavra correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção correta, concentração correta. São oito atitudes de meditação cujo entendimento pleno não pode ser dado por meio de palavras. Por essa senda se chega à extinção da ignorância, que não é associada no budismo à prosaica falta de informações, mas ao desconhecimento do sentido profundo da existência. Depois da iluminação, Sidarta se tornou o Budha e também adotou o título de Tatághata, aquele que veio da verdade. Procurou seus cinco antigos companheiros de ascetismo e os converteu numa única pregação. Em seguida converteu os irmãos Kassapa, adoradores do fogo, e os brâmanes Sariputra e Moggollana, que serão seus mais importantes discípulos. É o início da Sangha, a comunidade budista, que justamente com o Budha e o Dharma, a doutrina, formam as Três Joias do budismo. Diz a lenda que o Budha comunicou sua doutrina também aos Nagas, serpentes com face humana que habitam o mundo subterrâneo, e aos deuses dos vários céus, que, apesar de suas vidas imensamente longas, ou talvez exatamente por causa delas, são incapazes de chegar sozinhos à iluminação. Durante 45 anos, o Budha caminhou ensinando. A região nordeste da Índia, que acolheu em primeiro lugar os seus ensinamentos, vivia então uma época de crise. Não havia centralização política: a antiga unidade tribal fora rompida pelo surgimento e expansão de vários pequenos reinos. A religião predominante, o bramanismo, que cultuava um deus criador, Brahma. era contestada por numerosos movimentos organizados em torno de mestres carismáticos. Mais do que tudo, os unia uma oposição ao sistema de castas que dividia a sociedade indiana e assegurava os privilégios da elite sacerdotal. O terreno era propício à aceitação do budismo. No rastro da pregação de Budha formou-se uma numerosa comunidade de monges e monjas que renunciaram aos bens materiais e às atividades profissionais para viver de esmolas, meditar e pregar a doutrina. Formou-se também uma vastíssima comunidade de fiéis leigos de ambos os sexos. Entre os convertidos pelo Budha estava seu próprio filho, Rahula. Três marcas são características do budismo; consideradas em conjunto, o distinguem de todas as outras religiões. 1. As noções de impermanência, ou seja, todos os fenômenos são efêmeros, sujeitos à contínua transformação. 2. Insubstancialidade, isto é, os seres não possuem qualquer núcleo estável que determine sua natureza, mas são uma complexa e sempre cambiante, variável teia de relações. 3. Nirvana, o estado de extinção dos sofrimentos que se manifesta quando o homem compreende profundamente a impermanência e a insubstancialidade, e se libera de sua ilusão de Eu e dos apegos egoístas que ela engendra. Budha superou o Samsara, o mundo das aparências, e encontrou o Nirvana em sua Iluminação sob a figueira. Segundo a doutrina, ele atingiu o Para Nirvana, ou Nirvana pleno, após sua morte, ocorrida quando tinha mais de 80 anos. Ela foi apressada pela ingestão, supostamente voluntária, de alimentos deteriorados, que lhe teriam sido oferecidos pelo ferreiro Cunda, na aldeia de Pava. Ele se preparou para morrer banhando-se pela última vez e esperou a consumação deitado sobre o lado direito, com a cabeça voltada para o norte e o rosto virado para o poente. Conforme a tradição, seu corpo foi cremado pelo discípulo Aranda e coberto com mel para que nenhuma partícula se perdesse. Uma terça parte foi entregue aos Nagas, outra aos deuses e a terceira aos homens. Como ocorreu com praticamente todas as grandes religiões, o budismo sofreu metamorfoses e divisões após a morte de seu fundador. O principal cisma, que tomou forma apenas 140 anos depois, foi entre a corrente Hinayana, Pequeno Veículo e a Mahayana, Grande Veículo. Essas denominações vêm de uma pergunta metafórica: no caso de um incêndio, como um homem deveria se salvar? Num pequeno carro puxado por uma cabra, que asseguraria a salvação individual, ou num grande carro de bois, que permitiria levar muitos outros juntos? A corrente Mahayana respondeu com a segunda alternativa e se tornou amplamente predominante. Dela resultaram, através da fusão com numerosas tradições religiosas orientais, Escolas tão diversas quanto o austero e filosófico zen japonês, derivado do Chan chinês, e o exuberante e mitológico lamaísmo tibetano. O budismo tem expressão muito reduzida na Índia contemporânea, alcançando apenas 2 % da população, mas tornou-se a principal religião do Extremo Oriente, com mais de 250 milhões de adeptos espalhados por países como o Nepal, Tibete, Butão, Sikkim (o menor estado da Índia), China, Mongólia, Birmânia, Tailândia. Laos, Kampuchea (Cambodja), Vietnã, Sri Lanka, Coréia e Japão; além de provocar interesse cada vez maior no Ocidente. Ao contrário do cristianismo, o budismo não acredita num deus criador. Os infinitos universos de sua cosmologia passariam por um processo também infinito de destruição e criação, sem começo nem fim, regido por uma lei eterna. Os seres que povoam cada um desses universos, e que podem assumir a forma de animais, homens, deuses, demônios etc., estariam sujeitos a sucessivos nascimentos e mortes. Não há propriamente uma alma imortal: são as ações, palavras e pensamentos de uma existência que tecem a trama (kármica) que determina a existência futura. Esse processo é considerado extremamente doloroso, e escapar dele deve ser o fim visado por todos os seres. Eles têm a oportunidade rara de consegui-lo apenas quando renascem na forma humana e conseguem desapegar-se totalmente do mundo ilusório. Libertar-se é atingir o Nirvana, a cessação de todos os desejos, a suprema e eterna paz. http://www.budanaweb.com.br. Abraço. Davi.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Relato de Experiência. Por Pippo Delbono.



Relato de Experiência de Pippo Delbono. Pietra Ligure, Savona – Itália. Nasci faz quarenta anos em Varazze, um pequeno povoado da Ligúria. Segundo dizem um pequeno e encantador ângulo do mundo, mesmo não concordando muito. Tampouco concordava com minha mãe, que afirmava que ficando ali poderia realizar uma grande parte de minhas experiências de vida. Após uma dezena de anos transcorrida bancando o palhaço, o escoteiro e ir à escola por obrigação, comecei a fugir cada vez que podia. Eram os anos do colégio e me dedicava a todo tipo de manifestações de protesto e a fazer magníficas viagens de moto à Inglaterra, Marrocos, Turquia (...). Durante dez anos vivi esta dimensão de liberdade e descobrimento, compartilhando-a com um amigo, que rapidamente se converte em um grande amor. Foi uma história forte, passional, um pouco como aquela entre Verlaine e Rimbaud e todos aqueles “poetas malditos”, os que terminaram mal por causa de tanto viver. Também a mim, também a nós, nos tocou viver assim. Ele morre num acidente de moto e foi o primeiro momento de desespero em minha vida. Ou morro, ou devo realizar algo grande, diferente para poder viver, dizia-me. Pouco a pouco, fui conhecendo um ator sul-americano, Pepe Robledo. Nessa época, frequentava em Savona uma escola de teatro, começando assim a cultivar meu sonho de outrora. Decidi fugir novamente, esta vez seguindo-o com seu grupo, com destino à Dinamarca. Assim abandonei a carreira de Economia, quase no final. Durante três anos lutei duramente com um árduo trabalho de aprendizagem teatral, para poder continuar vivendo e fugindo daquela grande dor. Quase o tinha conseguido quando outra dor aparece: lesões num olho, de improviso, irreversíveis. Estava em Wuppertal, Alemanha. Desde então vejo as coisas de um modo diferente. Mas cada nova dor incluía um novo horizonte e desta vez encontrei aquela que seria minha mestra: a grande Pina Bausch (1940-2009), a coreógrafa de dança moderna. Trabalhar com ela foi uma experiência maravilhosa. Mudando de assunto: durante uma turnê pela América do Sul fui picado por um mosquito. Malária. Tendo que voltar a Genova para curar-me. Uma vez fora do hospital, me chamam: O Sr. é HIV positivo. Caí num turbilhão de angústia e desespero total. Meu sistema imunológico já estava bastante destruído. Carluccio, um amigo, já tinha me falado do Budismo, mas não tinha me convencido. Toda essa história de benefícios me parecia completamente improvável. Isso de obter transformações orando. Jamais poderia praticar uma religião assim. Mas o medo e o desespero começaram a fazer seu próprio trabalho. Experimenta pelo menos 15 dias, repetia minha amiga Anna. Estávamos em Módena, em dezembro de 1989. Foram 15 dias cheios de “coisas estranhas”, como por exemplo, chegar no Correio, quando já estava fechado e conseguir que abrissem. Um estado vital diferente, que me faz renovar por 15 dias, o pacto que tinha com Anna e o Budismo. E senti pela primeira vez recitando Daimoku, surgir dentro de mim uma pequena luz, uma força que me abria algo dentro. Depois, tudo tornava a fechar-se e recaía no desespero daquele que sente que pode morrer hoje ou amanhã. Mas continuava a recitar Daimoku. Passaram os primeiros anos em Módena, com prática intensa, atividades, orientações que me deram coragem para ter fé. Em 92, em Milano, encontro com o presidente Ikeda. Estava na primeira fila. Suas palavras tão cheias de sabedoria e simplicidade, seus olhos cheios de humanidade, penetraram na minha vida. Pratiquei com o pensamento constante de curar-me e de viver. Praticando surgiram também os outros sofrimentos da minha vida: um trabalho de teatro, ainda que de qualidade, mas não reconhecido na sociedade; um grande sofrimento de amor, que certamente era a verdadeira causa de minha doença. Era o ano 1993 e na Ligúria dava seminários de teatro para jovens de toda a Itália, muitos dos quais começaram a praticar mais tarde o Budismo. Mas a saúde não melhorava. As defesas imunológicas eram sempre muito baixas e o temor às infecções era constante. Porém nunca parei de praticar. Tenho seguido todas as terapias possíveis gastando todo o dinheiro que tinha, mas o único ponto que permanecia constante era a prática. Muito Daimoku, atividade e Chakubuku. Não obstante, a angústia progredia e sem perceber, me encontrei completamente à sua mercê. Angústia, constante medo de  morrer. Nessa época morre Marilena, querida amiga que trabalhava na minha companhia. Também ela tinha o mesmo problema que eu. Morreu de uma infecção, em poucos dias. Nesse momento estava fazendo um espetáculo, Henrique V, de Shakespeare (1564-1616). É a história de um homem que leva adiante um combate impossível. Em um momento diz: É verdade, estamos em perigo. Mas justamente por isso, maior ainda deve ser nossa coragem. Existe sempre algo de bem ainda nas piores coisas; pertence aos homens saber extraí-lo. Era minha história, minha luta, não era só Shakespeare. Em 1994 cheguei a emagrecer muitíssimo, era constantemente invadido pela febre, calores fortíssimos em todo o corpo, nas costas (...). Estava aterrorizado. Recitava horas de Daimoku por dia. Em meio de tanta dor física certas vezes aparecia uma alegria inacreditável. Esse ano montei a peça A raiva, dedicada a Pier Paolo Pasolini (1922-1975), um espetáculo desesperado, mas cheio de amor pela vida. Em um determinado momento, Pepe me dizia uma frase de Charles Chaplin (1889-1977): “Pensa na força que faz crescer as árvores, que faz tremer a terra, que faz girar o universo: essa mesma força está dentro de você”. E eu ria, forte, com toda minha vida. Ainda hoje, que tenho criado tantos outros espetáculos, quando fazemos A raiva, o público experimenta uma grande alegria. Quando estava em Roma fazendo esse espetáculo, a cidade de Pasolini, comecei a sentir um estranho formigamento nas mãos e nas pernas. Rapidamente transformou-se em ardores. À procura do novo mal, rejeitei todo tipo de terapia. Cada um tinha a sua, todos falavam coisas diferentes. Lembro-me uma vez em Milano, um certo doutor Lee. Me faz deitar sobre uma prancha, me dá um golpe seco nas costas e me apresenta uma conta de duzentas mil liras. Tempo da intervenção: 10 segundos. Ardores, Daimoku, peregrinação pelos hospitais, até que me fazem uma tomografia na França, que sem nenhuma dúvida colocava em evidência uma Mielites da medula espinal, uma infecção causada pela existência do HIV. Terrível, mas ao menos concreto. Me recuperaram em Gênova numa sala de neurologia. Decidi fazer entre sete e dez horas de Daimoku por dia, durante alguns meses. Foi o período mais inacreditável, louco e feliz da minha vida. Em certos momentos experimentava uma alegria tão grande que me faltava o incentivo, as palavras, os pensamentos. Mas depois voltava o medo da morte. Sentia indistintamente as pernas que ardiam, o corpo e a medula invadida com esse vírus, que me destruía fazia 10 anos. Foi como entrar no túnel mais profundo e escuro. Às vezes tinha uma grandíssima consciência de mim, da natureza profunda da vida, da morte, do universo. Jamais deixei de atuar, ainda que as dores nas pernas eram fortíssimas, mesmo assim continuava trabalhando. Dava ao público minha luta, minha dor, minha busca da alegria. Dava o que era. Após alguns meses de tanto Daimoku, passei por outra tomografia de controle. Sempre tive medo de entrar nesse cilindro que faz sentir claustrofobia. Curiosamente essa vez fui com alegria. Permaneci sereno, inclusive feliz. Sentia alegria e felicidade lá dentro. Foi para mim uma grande experiência de fé. Quando saí, os médicos me olhavam alucinados. Nos exames, via-se que na medula, lá onde antes avançava o vírus, só existia uma cicatriz. Tudo tinha retrocedido. Quase não podiam acreditar que tivesse existido uma Mielites. Estava tão sereno, tão pouco preocupado, que compreendi que também eu tinha vivido, na primeira pessoa, uma dessas histórias que às vezes se leem no Novo Renascimento. Aquelas que jamais podemos pensar que seremos capazes de viver. Poucos dias depois, enquanto contava numa reunião esta experiência, comecei a ter lapsos mentais e não lembrava nada. Eram os primeiros sintomas do que apareceria depois. Depressão total. Ruptura física e mental. Sentava-me num sofá, sem ter forças para fazer nada. Quando tocava o telefone sentia uma angústia enorme. Não podia sequer preparar um chá. Minha relação afetiva, o teatro, os amigos, a prática, tudo tinha se destruído, tudo tinha se derrubado. Durante a noite não podia dormir. Estava aterrorizado. No verão de 1996, em Porretta Terme, uma comuna italiana, falei com Mitsuhiro Kaneda (1974-  ), na época Diretor Geral da SGI - Itália. Me disse: Você se esforçou muito e durante muito tempo. Agora está destruído. Descanse durante um tempo. Diminua um pouco o Daimoku, e quando puder faça o Gongyo. E acima de tudo, durma, durma muitíssimo. E nesse Daimoku que fazia estava toda minha vida. Comecei inclusive uma terapia antidepressiva, com uma psiquiatra. Tinha medo de ter enlouquecido, de ter perdido o controle de minha mente. Aí cheguei ao fundo mais negro da tormenta. Lembro-me uma vez em Gênova, ao tentar descer umas escadas não consegui fazê-lo. Sentei e esperei, tinha a barba crescida, estava magérrimo. Nesse momento passou um rapaz, me viu e disse: Você me deu tanta coragem, quando contou sua experiência. Nesse momento pensei na boa sorte que tinha de possuir um grande grupo de amigos e a pessoa que tinha escolhido como mestre, graças aos quais tudo isso era possível. A partir daí algo acontece, não posso dizer o quê. Acontece tudo. Nos primeiros meses de 1997 devia dar um seminário para atores no manicômio da cidade de Aversa. Não queria ir, mas me acompanharam. Não só trabalhava no manicômio, como também dormia com os loucos. Lembro-me que tinham me dito: Ainda você pode não saber como, mas de alguma maneira o Gohonzon te protegerá, te ajudará a sair adiante. Um homenzinho microcéfalo, de sessenta anos, surdo-mudo, encerrado ali fazia 45 anos, vinha espionar quando dava os cursos. Perguntei-lhe se queria fazer algo conosco. Movimentava-se com uma graça belíssima. Não sei como acontece, mas comecei a esforçar-me para fazer algo por aquele fantástico homenzinho. E assim, pouco a pouco, comecei a pôr pra fora minha energia para poder fazê-lo sair de lá, do manicômio, imaginando-me que poderia vir a trabalhar comigo. Ele, cada manhã, esperava ansiosamente na frente da porta do manicômio, que o fossemos buscar para levá-lo a Nápoles para ver o novo trabalho que estava nascendo nesses dias. Uma nova criação na qual trabalhávamos juntos, atores e loucos. Não me interessava fazer um espetáculo bonito, tampouco me importava nada a crítica, o consenso. Somente me importava voltar a viver. Junto com meus companheiros, antigos e recentes fizemos uma viagem fantástica e é disso que quero lhes falar. O dinheiro para a produção era pouquíssimo, cada um devia dar um jeito como podia. Quanto Daimoku recitamos juntos. Assim nasce o espetáculo chamado Barboni (Mendigos). Dessa maneira, Bobo, o homenzinho, sai do manicômio.vQuando passei o portão, caminhando junto com ele, vi como observava encantado todas as coisas que nunca tinha visto, os cartazes publicitários, as pessoas (...). Tinha começado a viver aos sessenta anos, e eu com ele. A partir desse momento comecei a abrir-me cada vez mais às pessoas, às suas vidas e suas feridas. Esquecendo minha dor e meus problemas, pouco a pouco tenho começado a curar-me, a reencontrar o equilíbrio, a força. Meu corpo acreditou em mim e seguiu-me. O vírus tornou-se negativo, Bobo vive faz três anos na minha casa e se instalou na sala do Gohonzon. Muitas críticas têm dito que Barboni tem aberto uma nova maneira de fazer teatro. O espetáculo recebeu muitos agradecimentos de parte da crítica por uma busca conduzida entre arte e vida. Em todo caso, estamos dando a volta ao mundo. Assim, meu velho sonho de criança, de fugir do povoado em busca de espaço e liberdade tornou-se realidade. Depois de Barboni temos criado a peça Guerra, um espetáculo onde encontram-se alguns trechos do Rissho Ankoku Ron, se traduz do japonês como: o estabelecimento do ensino correto para a paz da nação. E depois Êxodo que atravessa o mundo das diferenças culturais. Na minha companhia há hoje tantas pessoas diferentes: Bobo, Armando, Puma, Gianluca, uma criança com síndrome de down, Nelson, um mendigo, Fadel, um fugitivo do Saara, e os companheiros de tudo e de sempre, Pepe, Gustavo, Simone, Elena, Lucia e Tomaso. No meu Butsudan, oratório, há uma foto do presidente Ikeda. Está dançando com um leque. Nestes anos de grande dor, olhava seus olhos, lia e relia suas palavras: Dentro de nós estamos construindo uma felicidade que não é influenciada pelas mutações externas. Rompendo os abismos da angústia, no centro de nosso ser existirá sempre esse tesouro indestrutível. Então podemos participar plenamente das alegrias e dos sofrimentos do mundo sem sermos dirigidos, com a força de superar a adversidade, sem ser esmagados e de gozar da prosperidade sem ser corruptos. Em suas palavras encontram-se energia e fé para continuar lutando, para não deixar-se morrer. E hoje posso dizer que agradeço aquele sofrimento. Me fez crescer, me permitiu abrir-me à vida. http://www.maisbelashistoriasbudistas.com.br. Abraço. Davi.