Xintoísmo. Livro Coleção o que é Xintoísmo. Por Rafael Shoji. INTRODUÇÃO - Caminho dos Kami. Shintô (Caminho dos Kami (deuses). Xinto ou Xintoísmo, na grafia alternativa brasileira é considerada a religião primordial nativa do Japão. Ao contrário do Budismo, outra religião bastante importante no contexto japonês, o Xintoísmo não tem um fundador. Em muitos contextos combinado com o Budismo, mas absorvendo elementos taoístas, confucionistas e até hindus. O Xintoísmo tem forte influência no cotidiano dos japoneses e pode ser observado em diversas expressões culturais e celebrações. O Xintoísmo é especialmente importante nos rituais de limpeza, no relacionamento om a natureza, chegando aos dias atuais com uma peculiar influência animista na interação com máquinas e robôs. Elementos esses muitas vezes disseminados através da cultura do anime. Apesar de não ter um código moral bem definido, a espiritualidade xintoísta está bastante presente na ética e nas artes japonesas, em especial através da valorização da pureza, da sinceridade e de elementos naturais. Uma das formas iniciais de se entender o Xintoísmo é através da transliteração de seu nome em japonês Shintõ ... O primeiro caractere ... também pode ser lido como Kami, que nesse contexto significa deus ou deuses (ou espírito, em uma tradução mais alternativa). Um conceito que será melhor explorado em um item próprio a seguir. O caractere ... significa "caminho" e também é o caractere usado para designar o Tao ou Dao referenciado em diversas religiões, em especial o Taoísmo. Esse caractere também pode ser lido como "dô" e nessa leitura compõe nomes diversos como as artes marciais, judô, aikidô e kendô. Dessa forma Shintô representa o caminho através dos kami, o caminho espiritual a partir das divindades, que aqui são os espíritos primordiais e nativos do Japão. Não há no Xintoísmo uma doutrina ou teologia bem definida, algo que é intencional e faz parte da religião. Talvez esse ponto possa ser ilustrado por uma anedota contada pelo mitólogo Joseph Campbell (1904-1987). Em um congresso de religiões, um sociólogo comenta com um sacerdote xintoísta que não conseguia entender a doutrina ou teologia do Xintoísmo. Apesar de todas as leituras e visitas que fazia aos santuários. O sacerdote xintoísta respondeu que "nós não temos ideologia. Não temos teologia e nós dançamos". As práticas e rituais, são consideradas mais importantes do que o que foi pensado ou sistematizado racionalmente e o sacerdote xintoísta indica uma energia vital. Que é base do Xintoísmo e que não pode ser domada pela racionalização intelectual. Mas que pode ser sentida pelos seres humanos em atividades como a dança e as artes. Apesar dessa característica ser pouco doutrinária, o Xintoísmo se revela em linhas mais gerais como um culto a uma natureza japonesa, em seus aspectos geográficos e étnicos. A ambiguidade do termo natureza em "culto a uma natureza japonesa" é igual intencional. Por um lado, o objeto do Xintoísmo são os deuses ou kami, alguns deles fenômenos naturais específicos da geografia japonesa. Por outro lado, o Xintoísmo se desenvolveu como uma religião etnicamente orientada. A tradicional dicotomia entre natureza e cultura é difícil de ser tratada quando se estuda o Xintoísmo, visto que um de seus principais impulsos é a sacralização de uma natureza local interpretada do ponto de vista étnico. Breve História do Xintoísmo. As raízes do início do Xintoísmo se estendem ao período da pré-história do Japão. Supõe-se que seu começo tenha ocorrido na chamada cultura Jomon (cerca de 14.000 a.C. até 300 a.C. ou até 1.000 a.C.) Segundo algumas correntes da historiografia japonesa. Durante esse extenso período Jomon, o período pré-histórico mais antigo do Japão, desenvolveu-se uma das formas mais antigas de cerâmica. Produzida por um povo sedentário com foco no matriarcado e com uma espiritualidade baseada no xamanismo e no animismo. A cultura do período Yayoi (300 a.C. até 300 d.C.) relembra alguns aspectos posteriormente adotados na formalização do Xintoísmo. Em especial a crença nos kami e a arquitetura dos santuários dedicados a deuses do arroz e do Sol em Ise, que tornou um dos principais santuários xintoístas do Japão por ser o centro do culto ao imperador. As crenças do Xintoísmo antigo foram se formando e se desenvolvendo especialmente a partir do início do período kofun (300-550 d.C.). O sistema de crenças estava estreitamente associado com o sistema de clã que se desenvolveu regionalmente. Os deuses em geral representavam características do ambiente natural, como o mar, pedras em formatos especiais, rios e florestas. Também antepassados comuns do clã faziam parte dos deuses cultivados. Um clã que teve influência crescente no panteão xintoísta foi o clã Yamato, incluindo a deusa do sol Amaterasu, que parece ter sido uma das principais bases para o culto ao imperador. Durante a idade média japonesa, o Xintoísmo foi se institucionalizando como um culto aos kami com pouco independência. Tendo estado por muito tempo em simbiose com o Budismo, como será detalhado posteriormente. A devoção ao imperador foi somente simbólica durante a regência dos generais denominados xogum. Militares que governaram e buscaram unificar o Japão, a partir do século XII até o século XIX. Nos tempos modernos, o Xintoísmo de Estado baseado no imperador teve um papel fundamental. O ano de 1868 pode ser considerado o ano de início do Xintoísmo de Estado. Após mais de 250 anos do xogunato Tokugawa, em 1868 foi promulgada a restauração Meiji e a doutrina do imperador como um ser divino regente do Japão. Tendo como base os rituais xintoístas e a concepção de uma origem comum de todos os japoneses, descendentes da deusa Sol, Amaterasu. Em conjunto com o desenvolvimento do exército e da marinha japonesa, desenvolveu-se a lealdade incondicional ao imperador. Algo propagado pelo sistema educacional e pelos diversos santuários xintoístas, que eram supervisionados pelo governo imperial em Tóquio. Em paralelo, diversos movimentos xintoístas sectários e novas religiões se desenvolveram. Após a Segunda Guerra Mundial, o Xintoísmo de Estado foi oficialmente extinto. O imperador publicamente abdicou de ser uma divindade e a separação entre religião e estado japonês se tornou uma exigência das forças americanas de ocupação do Japão. Com isso o Xintoísmo retornou ao seu antigo papel de ser um eixo estrutural de santuários bastante heterogêneos espalhados pelo Japão. Nos quais os inumeráveis kami são cultuados e festivais são organizados pela comunidade local. A maioria dos santuários são independentes e liderados por sacerdotes atuando em tempo parcial. A força da comunidade e a crença nos kami ressurgem especialmente em épocas determinadas pelo calendário, trazendo para a vida social uma ritualização e celebração dos eventos naturais e das estações. Recentemente, muitos pesquisadores têm considerado que o Xintoísmo teve seu estabelecimento como um culto ao kami mais consistente só depois do contato com o Budismo. Tendo se tornado uma religião independente somente após a restauração Meiji, em 1868. O Xintoísmo evoluiu como uma forma de se estruturar, de se diferenciar e também de se mesclar ao Budismo, que ainda é entendida como uma religião estrangeira ao Japão Se para alguns o Xintoísmo vem desde a pré-história, sendo base para uma orientação nacionalista na política japonesa e dando um sentido mítico para a identidade étnica. Para outros o Xintoísmo como conhecemos hoje, é uma tradição que foi criada somente depois de 1868. Os estudiosos que defendem essa última linha apontam em especial que o nome Shintô era usado de forma bastante diferente antes da época Meiji, não caracterizando uma tradição religiosa independente. Mas sim como um termo chinês, tomado de empréstimo com o objetivo de designar práticas bem mais específicas e localizadas de um culto aos kami. Em tempos mais recentes, o Xintoísmo tem buscado um processo de internacionalização de sua divulgação e uma busca de renovação de sua imagem. Baseada na observação da natureza e na reverência para com ela. Essa recente evolução se dá a partir de muitas vias, mas as principais são uma busca de divulgação no exterior dos santuários xintoístas japoneses e florestas associadas, defendendo uma perspectiva de harmonia. O Xintoísmo é, na época contemporânea, também uma presença bastante frequente nos desenhos (anime) japoneses. Isso se dá em muitos casos por uma reinterpretação e adaptação de conteúdos mitológicos, algo que atrai jovens de todo o mundo, que absorvem conceitos xintoístas sem associá-los à religião. Outra fonte importante de influência do Xintoísmo se dá a partir das novas religiões japonesas, como Seichô no Ie e Igreja Messiânica, que tem uma presença bastante destacada no Brasil. Abraço. Davi