sexta-feira, 13 de março de 2026

SANTA CATARINA DE SIENA

Cristianismo. Pt.wikipedia.org. Caterina di Jacopo di Benincasa (Siena, 25 de março de 1347 – Roma, 29 de abril de 1380), conhecida como SANTA CATARINA DE SIENA ou Catarina de Sena,[1] foi uma terceira da Ordem dos Pregadores (dominicanos), filósofa escolástica e teóloga do século XIV (1301-1400). Lutou arduamente para trazer o papado de Gregório XI de volta para Roma durante o chamado "Cisma do Ocidente", um período de quase quarenta anos no qual se estabeleceu o papado de Avinhão, e também foi fundamental para a restauração da paz entre as cidades-estado italianas. Nascida em Siena, ela cresceu lá e queria muito cedo se consagrar a Deus, contra a vontade de seus pais. Ela se juntou às irmãs da Penitência de São Domingos e fez seus votos lá. Muito rapidamente marcada por fenômenos místicos, como estigma e casamento místico, ela se deu a conhecer. Ela acompanhou o capelão dominicano ao papa em Avignon, como embaixadora de Florença, uma cidade em guerra com o papa. Sua influência no papa Gregório XI desempenha um papel comprovado em sua decisão de deixar Avignon para Roma. Ela é então enviada por ele para negociar a paz com Florença. Gregório XI morto e com a paz concluída, ela voltou a Siena. Ela dita aos secretários seu conjunto de tratados espirituais O Diálogo. Santa Catarina de Siena é uma das figuras mais destacadas do catolicismo medieval, pela forte influência que teve na história do papado. Ela está por trás do retorno do papa de Avignon a Roma e, em seguida, realizou inúmeras missões confiadas pelo papa, algo bastante raro para uma simples freira na Idade Média. Ela também influenciou fortemente Santa Rosa de Lima. O grande cisma do Ocidente levou Santa Catarina de Siena a ir a Roma com o papa. Ela enviou numerosas cartas aos príncipes e cardeais, para promover a obediência ao Papa Urbano VI (1568-1644) e defender o que ela chamou de "vaso da Igreja". Ela morre 29 de abril de 1380, exausta por suas penitências. Urbano VI celebra seu funeral e enterro na Basílica de Santa Maria sopra Minerva, em Roma. Desde 18 de junho de 1866, ela é padroeira da Itália juntamente com São Francisco de Assis (1181-1226).[2] Em 3 de outubro de 1970, Catarina foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa Paulo VI (1897-1978) [3] e, em 1 de outubro de 1999, João Paulo II (1920-2005) nomeou-a uma das seis padroeiras da Europa, juntamente com São Bento, Santos Cirilo & Metódio, Santa Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein).[4][5] Biografia. Caterina Benincasa nasceu em 25 de março de 1347 na cidade de Siena devastada pela peste negra, filha de Jacopo Benincasa, um tintureiro que tocava seus negócios com a ajuda de seus filhos, e Lapa Piacenti, que pode ser a filha de um poeta local,[6] numa casa que ainda existe na cidade. Lapa tinha aproximadamente quarenta anos quando prematuramente deu à luz as gêmeas Catarina (Caterina) e Joana (Giovanna) depois de já ter tido outros 22 filhos, mas metade deles já mortos na época. Joana foi entregue aos cuidados de uma ama-de-leite e morreu logo ao passo que Catarina, amamentada pela mãe, cresceu bastante saudável. Ela tinha dois anos quando Lapa teve seu vigésimo quinto filho, uma outra menina chamada Joana (Giovanna).[7] Uma criança muito feliz, Catarina recebeu da família o apelido carinhoso de "Eufrosina", que deriva da palavra grega para "alegria" e era também o nome de uma das santas cristãs mais antigas, Santa Eufrosina.[8] Segundo o confessor e, posteriormente, biógrafo de Catarina, Raimundo de Cápua, O.P., Catarina teve a primeira de suas visões de Jesus Cristo quando tinha apenas cinco ou seis anos de idade. Ela estava voltando para casa com o irmão de uma visita à casa de uma de suas irmãs casadas e viu Cristo entronado em majestade com os apóstolos Pedro, Paulo e João. Raimundo conta ainda que, ao sete, Catarina jurou dedicar sua vida a Deus.[8][9]. Ainda atormentada pelo luto da morte de sua irmã mais velha, Boaventura, a jovem Catarina, com apenas dezesseis anos, foi pressionada pelos pais a se casar com o viúvo dela. Absolutamente contrária à ideia, iniciou um duríssimo jejum, prática que havia aprendido com a irmã recém falecida e cujo marido não apreciava, pois mais de uma vez Boaventura havia conseguido mudar suas atitudes recusando-se a comer. Mais adiante, Catarina desapontou a mãe ao cortar os longos cabelos para protestar contra a constante pressão para que melhorasse sua aparência para conseguir atrair um bom marido.[10]. Muito depois, Catarina recomendaria que Raimundo de Cápua, quando tivesse que enfrentar um problema, seguisse uma prática que criara em sua adolescência: "Construa uma cela em sua mente da qual você jamais possa escapar". Nesta cela mental, ela transformou seu pai numa representação de Cristo, sua mãe, na Virgem Maria, e seus irmãos, nos apóstolos. Servi-los com humildade tornou-se uma oportunidade de crescimento espiritual para ela e, desta forma, Catarina conseguiu resistir ao costume do casamento e da maternidade por um lado e, por outro, a tornar-se uma freira, escolhendo viver uma vida ativa e piedosa fora do claustro dos conventos, mas seguindo o modelo dos dominicanos.[11] No fim, o pai de Catarina desistiu e permitiu que a filha vivesse como bem entendesse. Uma visão de São Domingos deu-lhe ainda mais forças, mas seu desejo de juntar-se à sua ordem incomodava Lapa, que levou a filha consigo até as termas em Bagno Vignoni numa tentativa de melhorar sua saúde. Ao contrário do esperado, Catarina ficou muito doente, acometida de uma violenta coceira, febre e dores no corpo, o que, convenientemente, serviu como pretexto para que sua mãe aceitasse tentar conseguir a sua admissão no "Mantellato", a associação local dos terceiros dominicanos.[12] Lapa foi então às irmãs da ordem e as convenceu a aceitarem sua filha, o que deu algum trabalho, pois a ordem até então só aceitava viúvas. Em questão de dias, Catarina se recuperou completamente, saindo da cama para receber o hábito preto e branco da Ordem Terceira de São Domingos das mãos de um frade terceiro. No Mantellato, Catarina aprendeu a ler e, ali, ela passou a viver solitariamente em silêncio total.[12]. Por volta de 1368, aos vinte e um anos, Catarina experimentou o que ela própria descreveu em suas cartas como um "casamento místico" com Jesus,[13] um tema que se tornaria extremamente popular na arte cristã com o nome de "Casamento Místico de Santa Catarina" (igualmente como Santa Catarina de Alexandria). "Sublinhando o tanto que este casamento era uma fusão física com Cristo [...] Catarina recebeu não um anel de ouro e joias que seu biógrafo relata em sua versão atenuada, mas o anel do prepúcio de Cristo".[14][15] Raimundo também relata que Cristo teria lhe pedido que deixasse a vida reclusa e se dedicasse à vida pública no mundo.[16] Assim, Catarina voltou para casa e passou a ajudar os pobres e doentes, em casa e nos hospitais. Suas atividades piedosas em Siena logo atraíram um grupo de seguidores, homens e mulheres, que se juntaram a ela em sua missão.[6] Catarina tinha por hábito distribuir roupas e comida aos pobres sem pedir permissão à família, o que tinha um considerável custo; porém, em contrapartida, nada pedia para si própria. Ao permanecer no seio de sua família, sentia a rejeição ao seu modo de vida mais fortemente, principalmente por que ela não aceitava a comida deles citando a mesa que havia sido posta para ela no céu por sua verdadeira família.[17] Conforme as tensões políticas e sociais se aprofundavam em Siena, Catarina se viu tentada a intervir na arena política. Ela viajou pela primeira vez para Florença em 1374, provavelmente para ser entrevistada pelas autoridades dominicanas no capítulo geral que se realizou em maio de 1374, embora o tema seja ainda debatido: se ela foi de fato entrevistada, a ausência de evidências sugere que ela foi considerada suficientemente ortodoxa.[10] Aparentemente, foi também nesta época que Raimundo de Cápua tornou-se seu confessor e diretor espiritual.[18]. Depois desta viagem, Catarina passou a viajar com seus seguidores pelas regiões norte e central da Itália defendendo a reforma do clero e aconselhando o povo que o arrependimento e a renovação poderiam ser alcançados através "do amor total a Deus".[19] Em Pisa, em 1375, Catarina utilizou de toda sua influência para evitar que a cidade e também Lucca se aliassem às forças contrárias ao papa, que na época vinham se fortalecendo e ganhando momento. Ela também ajudou com seu entusiasmo na formação de uma nova cruzada. Segundo Raimundo, foi em Pisa, em 1375, que ela recebeu seus estigmas (visíveis, depois de um pedido dela, somente para ela).[18]. Suas viagens não eram a única forma que Catarina utilizava para fazer conhecer suas opiniões. A partir de 1375,[18] ela começou a ditar cartas para diversos assistentes[12] endereçadas inicialmente a homens e mulheres de seu círculo de amigos e, gradativamente, a uma audiência mais ampla, incluindo figuras políticas a quem ela pedia paz e o retorno do papado de Avinhão para Roma. Ela manteve ainda uma duradoura correspondência com o papa Gregório XI, na qual pedia-lhe que reformasse o clero e a administração dos Estados Papais. No final de 1375, Catarina retornou para Siena para ajudar um jovem prisioneiro político, Niccolò di Tuldo, em sua execução.[18][20] Em junho do ano seguinte, foi para Avinhão pessoalmente como embaixadora de Florença para tratar da paz com os Estados Papais (em 31 de março de 1376, Gregório XI interditou Florença). Sem sucesso, acabou sendo desautorizada pelos líderes florentinos, que enviaram embaixadores para negociar seus próprios termos continuando o caminho já iniciado por Catarina;[18] ela, por sua vez, enviou uma calorosa carta a Florença.[21] Ainda em Avinhão, Catarina tentou convencer Gregório a voltar para Roma,[22] o que ele de fato fez em janeiro de 1377. Porém, o peso real da influência de Catarina é tema de acalorado debate moderno.[23]. Catarina voltou para Siena e passou os primeiros meses de 1377 fundando um mosteiro de estrita observância para mulheres fora da cidade, na antiga fortaleza de Belcaro.[24] O resto do ano passou em Rocca d'Orcia, por volta de 35 quilômetros de Siena, numa missão de paz e pregação. Durante o período, no outono de 1377, ela teve uma nova experiência que a levou a escrever seu "Diálogo" e a passar a escrever por conta própria, apesar de continuar utilizando assistentes em suas correspondências.[6][25]. No final de 1377 ou início do ano seguinte, Catarina foi novamente para Florença por ordem de Gregório XI para tentar negociar a paz entre florentinos e romanos. Depois da morte do papa em março de 1378, revoltas irromperam em Florença a partir de 18 de junho e, na violência que se seguiu, Catarina quase foi morta. Finalmente, em julho, a paz foi negociada entre as duas cidades e ela pôde voltar para casa. No final de novembro de 1378, depois do cisma, o novo papa, Urbano VI, convocou-a à Roma e ela permaneceu na corte papal tentando convencer nobres e cardeais da legitimidade do novo papa romano, pessoalmente ou através de suas cartas.[24] Passou a viver numa residência na Piazza di Santa Chiara conhecida ainda hoje como Casa di Santa Caterina. Por muitos anos, Catarina se acostumou a períodos de rigorosa abstinência.[26] A comunhão diária era, muitas vezes, sua única "refeição". Esta forma extrema de jejum já parecia pouco saudável aos olhos do clero, de suas irmãs e de seu confessor, que tentavam fazê-la comer adequadamente. Mas Catarina alegava que era incapaz e descrevia sua incapacidade como uma infermità (doença). A partir do início de 1380, Catarina já não conseguia nem comer e nem beber água. Em 26 de fevereiro, não podia mais andar.[24] Catarina morreu em Roma em 29 de abril de 1380 aos trinta e três anos de idade, depois de ter sofrido um derrame oito dias antes.[27]. Espiritualidade. A vida espiritual de Santa Catarina de Siena consistia em uma união com Deus. Ela descreve essa união com Deus como um "caminho da verdade". A paixão de Cristo é central para quem considera que a morte de Cristo na cruz é um sacrifício, permitindo o conhecimento de Deus através da presença de "sangue redentor".[28]. Em seus escritos, ela apresenta três estágios da vida espiritual. O primeiro consiste no amor à paixão; indica até que a paixão de Cristo é o melhor guia para a vida espiritual: "é melhor que todos os livros". O segundo passo é a consequência do primeiro: esse amor leva Santa Catarina de Siena à imitação de Cristo, através de uma vida de ascetismo, sacrifícios, penitência, oração e serviço aos outros, a fim de ser como Cristo e ao seu sacrifício na cruz.[29] Assim, a imitação leva a querer se tornar um "Alter Christus" ("Outro Cristo"). O terceiro estágio consiste em desejar a cruz, ou seja, superar o sofrimento e as dificuldades diárias, e se apegar a ela, não mais para si mesma, mas para os outros. Em seus escritos, ela desenvolve o que a teologia chama de "habitação de Deus na alma" , ou "habitação da Trindade": a crença de que Deus está presente na alma. Essa descoberta é feita muito cedo em Catarina. Privada pelos pais do acesso ao quarto onde costumava orar, Catarina descobre que pode viver com Deus que está presente dentro de si mesma, em sua alma. Catarina descreve esse lugar como sua "célula interna".[30] Nos escritos e nos conselhos espirituais que ela dá, ela menciona em várias ocasiões a existência dessa célula interior, como na carta 223 a Alessia, onde afirma: "Faça você mesmo, minha filha, duas habitações: uma em sua cela, para não falar de todos os lados e deixá-lo apenas por necessidade, por obediência à prioresa ou por caridade. Faça de você outra habitação espiritual que você sempre carregará consigo: é a célula do verdadeiro autoconhecimento. Você encontrará lá o conhecimento da bondade de Deus para com você; estas são duas células em uma; e, estando em um, um não deve deixar o outro, pois a alma cairia em problemas e presunção". Afirma a necessidade de entrar em si mesmo para "viver pelo hábito", a fim de agir em união com Deus. Esta habitação de Deus na alma é central para Santa Catarina de Siena, na medida em que leva a "possuir Deus". O caminho desse conhecimento de si mesmo não é fácil para Santa Catarina de Siena, porque esse sentimento de amor e misericórdia de Deus pode desaparecer. Ela, portanto, convida a uma vida de virtude, paciência e humildade, a fim de fugir do pecado e se unir mais a Deus. No entanto, essa busca pela virtude é difícil e requer seguir o caminho da cruz. A existência de tentações está presente, o que ela chama de "descida ao inferno". A maneira de resistir a isso é voltar a esse conhecimento de si mesmo. A vida interior é para Santa Catarina de Siena um contínuo movimento de vaivém entre o conhecimento de si mesmo que leva ao conhecimento de Deus. Esse conhecimento de Deus leva a um melhor conhecimento de si mesmo e a uma maior perseverança que se abre à caridade do próximo pela humildade. No entanto, conhecer a si mesmo e a Deus não é um fim em si para Santa Catarina de Siena. Isso deve levar não à retirada, mas ao amor do próximo que é amado da mesma maneira. Catarina afirma assim: "Contemplando em si o efeito do amor infinito e vendo a imagem que é a criatura, ela encontra Deus à sua imagem. Esse amor que Deus traz para ela, ela o vê se espalhando para todas as criaturas, e que imediatamente a força a amar o próximo como a si mesmo, já que Deus a ama soberanamente. O autoconhecimento torna-se para Catarina a fonte do apostolado e de abertura ao outro. Reforma da Igreja. A vida desta santa é profundamente marcada pelo seu desejo de renovar a Igreja. Sua eclesiologia, isto é, sua concepção da Igreja, não é estritamente revolucionária: não desafia as estruturas hierárquicas tradicionais da Igreja, como fez o Conselho de Constança em 1417, e também não põe em causa seu sistema jurídico. Da mesma forma, não põe em causa a possibilidade do papa ter e administrar bens temporais. No entanto, ela considera que a Igreja está em crise devido à falta de interesse na dimensão espiritual, porque os membros da Igreja estão preocupados demais com considerações temporais de poder e riqueza. Catarina não nega as considerações temporais, mas considera que essas sempre devem ser a segunda, a conversão e a vida dos crentes, com Deus sendo sua principal missão. Ela pede desejos e muitas vezes para uma renovação. Santa Catarina de Siena considerava que a Igreja é a noiva de Cristo. Para ela, o papa, mas também todos os batizados, são responsáveis pelos bens do “Sangue do Cordeiro”. A Igreja é para ela o guardião, aquele que comunica os dons de Deus, é a Igreja que transmite a divina "vida". Para Catarina, os frutos da Igreja são necessariamente bons na medida em que dependem da caridade e do “Sangue do Cordeiro”, mas também por causa de sua origem espiritual: a Igreja é "Fundado no amor, é apenas amor". Ela usa a metáfora do jardim para falar da Igreja, um jardim onde todos têm um lugar e onde cada pessoa batizada é uma planta. Ela considera os sacerdotes como plantas que devem ser perfumadas e os que ainda não são cristãos como possíveis plantas no jardim. Ela quer que a Igreja seja o jardim onde se possa "ver o próximo, os cristãos, os infiéis e todas as criaturas razoáveis que se alimentam".[31]. A Igreja permanece profundamente unida por Santa Catarina de Siena: cada pessoa tem não apenas o seu lugar, mas também o seu papel. A união de todo o povo da Igreja é feita por sua relação com Deus, com o "Sangue do Cordeiro". A razão da autoridade da Igreja segue para Santa Catarina de Siena a partir desta união com Deus, que gera uma união entre todos os membros. Para ela, a Igreja é um lugar onde cada pessoa tem um lugar, uma responsabilidade específica, que leva a uma relação de interdependência. É essa interdependência que leva à necessidade um do outro, abertura aos outros e respeito pelas diferentes vocações. Essa abertura leva ao nascimento da caridade entre seus membros, caridade que só é possível através do amor ao próximo. Tentações. Santa Catarina de Siena alerta muitas vezes sobre a divisão que pode existir no amor. Ela afirma que no homem existem dois tipos de amor, um direcionado a Deus e o outro egocêntrico, amor próprio. Ela considera esses dois tipos de amor irreconciliáveis. Para Catarina, o amor próprio é o centro de todos os vícios e pecados e leva à separação de Deus . É necessário separar-se da autoestima e de suas consequências, ou seja, sensualidade ou busca de prazer ou reconhecimento, na medida em que essa autoestima se opõe à amor de Deus: "Enquanto o vaso do coração estiver cheio de amor próprio espiritual ou temporal, ele não poderá ser preenchido com amor divino".[32] Santa Catarina de Siena, portanto, convida seus discípulos a uma guerra contra a sensualidade por meio da razão: "Quero que cada um de vocês separe a sensualidade da razão dentro dele e os torne inimigos irreconciliáveis". É por meio da consciência que conseguimos dominar a sensualidade, como ela escreve em uma de suas cartas: “Aqui está o caminho a seguir. No alto da sua consciência, você se senta para se julgar. Não deixe o menor pensamento passar fora de Deus sem corrigi-lo com grande severidade. O homem deve formar duas partes de si mesmo, que são sensualidade e razão. Essa razão deve extrair da bainha a espada de dois gumes: ódio ao vício e amor à virtude. Armado com esta espada, reduzirá a sensualidade para agradecer".[33] Esse combate não é isento de dificuldades, e ela afirma, a esse respeito, que "as virtudes são adquiridas com dificuldade, fazendo violência à sua fraqueza" , ou mesmo "é pela violência que adquirimos o virtudes verdadeiras e sólidas”. Essa busca pela virtude é importante, mas deve sempre procurar conhecer a fonte da autoestima. Ela convida você a sempre cortar a sensualidade na fonte, buscando a origem de sua autoestima. "Visite o jardim de sua alma todos os dias, à luz da fé, para arrancar os espinhos que sufocariam a boa semente e agitar a semente. terra, isto é, para despir seu coração”. Ela, portanto, adverte contra a virtude que não seria refletida pela busca pela origem da sensualidade: "A penitência não faz nada além de ameixa, mas, assim, você arranca a raiz apropriada para dar novo crescimento".[34] A luta que Catarina defende leva a esvaziar o próprio ser de todo amor próprio, com essa ausência tornando possível substituir o amor próprio pelo amor de Deus: "Assim que esvaziamos coisas perecíveis, o ar enche, isto é, o amor divino e celestial e divino com o qual a alma alcança a água da graça”. A fonte da luta e o ódio à sensualidade não é outro senão o amor de Deus, que rapidamente se torna mais fácil. Ela diz: “O caminho da penitência e dos meus mandamentos parece inicialmente difícil e difícil, mas quanto mais avançamos por lá, mais suave e fácil. O caminho do vício, pelo contrário, parece em princípio muito agradável; mas quanto mais caminhamos por lá, mais encontramos amargura e ruínas”. O dom das lágrimas. O presente das lágrimas, ou doutrina das lágrimas, é um ensinamento desenvolvido no livro do Diálogo de Santa Catarina de Siena (nos capítulos 88 a 97). Ela afirma que, a seu pedido, foi ensinada sobre o que a teologia chama de "presente das lágrimas" . Ou seja, o valor espiritual das lágrimas e seus respectivos frutos. A importância que Santa Catarina de Siena dá às lágrimas vai além da perspectiva teológica clássica, na medida em que o corpo se torna um instrumento privilegiado de comunicação com Deus.[35] Catarina desenvolve em O Diálogo cinco fontes de lágrimas, que não têm o mesmo valor espiritual. Essas lágrimas de que ela fala são lágrimas que vêm do coração. As lágrimas mais valiosas para eles são aquelas devidas ao amor e à virtude; eles podem ter um valor "infinito". Os primeiros são aqueles que surgem do amor sensual, do apego às coisas e prazeres materiais. Eles não têm valor espiritual para Catarina porque vêm do amor próprio. O segundo tipo de lágrimas são aquelas que são fruto do medo do pecado e do inferno. Mesmo que sejam descritos como imperfeitos, por estarem muito pouco ligados ao amor, têm um valor espiritual. A terceira fonte de lágrimas vem de pessoas que choram enquanto começam a amar "a doce primeira verdade de Deus", mas que continuam a ter autoestima. O quarto tipo de lágrimas, são as que provêm da caridade para com o próximo, as que choram, amando a Deus sem consideração por elas, têm um grande valor espiritual, pois têm apenas como fonte amor e compaixão do próximo. A quinta fonte de lágrimas, chamada "lágrimas de doçura, fruto da união e conhecimento de Deus" . Essas lágrimas são o fruto da união com Deus, na medida em que a união entre a alma e Deus é tal que leva a deixar de ser capaz de se comunicar com as palavras. As lágrimas se tornam a linguagem suprema; ela então faz Deus falar para descrever o valor do sentimento do qual essas lágrimas vêm: "Então o sentimento que segue a inteligência se une a um amor tão perfeito e muito ardente, e se alguém perguntou-me quem é essa alma, eu diria: outro eu, é feito para uma união de amor. Que linguagem poderia descrever a excelência desse último estado unitivo". Ordem Dominicana. Santa Catarina de Siena, embora não seja fundadora da Ordem dos Pregadores, é, no entanto, uma das principais figuras dominicanas. Ela se tornou a figura feminina da ordem dominicana, como Clara de Assis é para os franciscanos. É ainda mais importante porque, com Alberto Magno e Tomás de Aquino, uma das três personalidades dominicanas foi declarada doutora da Igreja por causa da importância de seus escritos espirituais e teológicos.[36]. Catarina e Raimundo de Cápua desempenharam um papel importante no processo de renovação da ordem dos pregadores. De fato, no período conturbado que viu a Igreja Católica no século XIV. Catarina pede um retorno à vocação Dominicana. Ela costuma usar São Domingos como modelo e, em seu trabalho principal, The Dialogue, ela cita repetidamente o carisma original dado por Domingos, alertando contra aqueles que desobedecem à regra que ele deu. Esse desejo de retornar às fontes da Ordem dos Pregadores, feito com Raimundo de Cápua, que se tornou mestre geral da Ordem dos Pregadores, levou a torná-la uma figura importante dentro dos dominicanos. Além disso, a espiritualidade e a vida de Santa Catarina de Siena correspondem em muitos aspectos à espiritualidade de São Domingos: o importante lugar da pregação e da busca da salvação, mas também a importância da contemplação e da transmissão de conhecimento de Deus, específico da espiritualidade dominicana. Essa correspondência entre a vida e os escritos de Santa Catarina de Siena e do fundador da ordem, Domingos de Gusmão, leva a torná-la uma das principais figuras femininas da ordem, em particular através de obras de arte, que representam Domingos com Santa Catarina de Siena. Essas representações são anacrônicas na medida em que Domingos morreu em 1221, mais de um século antes do nascimento de Santa Catarina de Siena. Fontes para a vida de Catarina. Há diversas evidências sobre a personalidade, seus ensinamentos e suas obras nas quase quatrocentas cartas de Catarina, em seu "Diálogo" e nas suas orações. Muitos detalhes aparecem também nas várias fontes escritas logo depois de sua morte e que tinham por objetivo promover o seu culto e sua canonização. Embora a maior parte deste material seja fortemente hagiográfico, estas obras têm sido um recurso importante para os historiadores que tentam reconstruir a vida de Santa Catarina. Várias são particularmente importantes, especialmente a "Vita" escrita por Raimundo de Cápua, que foi diretor espiritual e amigo pessoal de Catarina de 1374 até sua morte e que viria a tornar-se Mestre Geral da Ordem dos Pregadores em 1380. Ele começou a obra, que viria a ser conhecida como "Legenda Major", em 1384 e completou-a em 1395. Outra importante obra escrita depois da morte de Catarina foi a "Libellus de Supplemento" ("Pequeno Livro Suplementar"), escrita entre 1412 e 1418 por Tommaso d'Antonio Nacci da Seine (conhecido geralmente como "Tomás de Siena" ou "Tomás Caffarini"), uma expansão da Legenda Major que incorpora as notas do primeiro confessor de Catarina, Tommaso della Fonte (e que se perderam). Caffarini posteriormente publicou um relato mais breve da vida da santa que ficou conhecido como "Legenda Minor". De 1411 em diante, Caffarini também coordenou a compilação do "Processus de Veneza", o conjunto de documentos submetidos para a canonização, que traz o testemunho de praticamente todos os discípulos de Catarina. Há ainda uma obra anônima chamada "Miracoli della Beata Caterina", escrita por um florentino anônimo, e umas poucas outras obras de menor relevância.[38] Obras. Três tipos diferentes de obras de Santa Catarina de Siena chegaram aos nossos dias: Seu principal tratado é o "O Diálogo da Providência Divina", iniciado provavelmente em outubro de 1377 e certamente terminado em novembro do ano seguinte. Contemporâneos de Catarina afirmam unanimemente que a maior parte da obra foi ditada enquanto Catarina experimentava seus êxtases, embora seja possível também que a própria Catarina possa, depois, ter reeditado muitas passagens no livro.[39] Trata-se de um diálogo entre uma alma que ascende a Deus e o próprio Deus. As cartas de Catarina são consideradas uma das grandes obras da literatura toscana primitiva. Muitas delas foram ditadas, embora a própria Catarina tenha aprendido a escrever em 1377. Quase quatrocentas sobreviveram. Em suas cartas ao Papa, ela geralmente se refere a ele afetuosamente simplesmente como "papa" ("papai") ao invés do pronome de tratamento formal "Sua Santidade". Outros correspondentes incluem seus vários confessores, entre eles Raimundo de Cápua, os reis da França e da Hungria, o infame mercenário John Hawkwood, o rei de Nápoles, membros da família Visconti de Milão e numerosas figuras religiosas. Aproximadamente um terço delas era endereçada a mulheres. 26 orações de Santa Catarina de Siena também sobreviveram, a maioria composta nos últimos dezoito meses de sua vida. Veneração. Catarina foi enterrada no cemitério de Santa Maria sopra Minerva, uma basílica perto do Panteão, em Roma. Depois que milagres passaram a ser relatados perto do túmulo, Raimundo moveu-o para dentro da basílica,[40] onde está até hoje e é visitado por milhares de peregrinos anualmente. Sua cabeça, porém, foi separada de seu corpo e colocada no interior de um busto de bronze que, posteriormente, foi levado para Siena para ser carregado pela cidade durante as procissões dominicanas. Nas primeiras, caminhava atrás dele Lapa, a mãe de Catarina, que viveu até os 89 anos e já havia presenciado o fim da riqueza e da felicidade de sua família. Tendo sobrevivido a todos os seus filhos e a diversos netos, Lapa ajudou Raimundo a escrever a biografia de Catarina e afirmou: "Acredito que Deus tenha colocado minha alma de través no meu corpo para que ela não consiga sair".[41] A cabeça e o polegar incorruptos estão preservados na Basílica de São Domingos, em Siena.[40]. O papa Pio II (1405-1464), nascido em Siena, canonizou Santa Catarina em 29 de junho de 1461.[42] Em 3 de outubro de 1970, Paulo VI proclamou-a Doutora da Igreja,[3] título recebido apenas alguns dias antes por Santa Teresa de Ávila (27 de setembro), o que faz delas as primeiras mulheres a receberam a honraria.[42]. Inicialmente, porém, sua festa não foi incluída no calendário romano. Quando foi, em 1597, a data escolhida foi a de sua morte, 29 de abril; porém, como a data já estava ocupada pela festa de São Pedro de Verona, a de Catarina foi movida, em 1628, para o dia 30 de abril.[43] Em 1969, durante a revisão do Calendário de Santos da Igreja Católica Romana, decidiu-se deixar a festa de Pedro para os calendários locais - pois ele não era conhecido mundialmente - e Santa Catarina passou a ser novamente celebrada em 29 de abril.[44] Padroeira. Num decreto em 13 de abril de 1866, Pio IX declarou Santa Catarina copadroeira de Roma. Em 18 de junho de 1939, Pio XII declarou-a padroeira da Itália juntamente com São Francisco de Assis. Em 1 de outubro de 1999, São João Paulo II tornou-a também padroeira da Europa. Iconografia. O povo de Siena desejava ter em sua cidade uma parte do corpo de Santa Catarina. Conta-se uma história de um milagre pelo qual o desejo foi parcialmente realizado: sabendo que não seria possível retirar o corpo todo de Roma, a população decidiu tomar apenas sua cabeça, que colocaram numa sacola. Quando foram parados pela guarda romana, oraram a Santa Catarina para que os ajudassem, confiantes que ela desejaria ter seu corpo (ou parte dele) em Siena. Quando a sacola foi aberta pelos guardas, a cabeça não estava ali e ela pareceu estar repleta de pétalas de rosas. Quando chegaram em Siena, a cabeça reapareceu e, por conta desta lenda, Santa Catarina é geralmente representada na arte segurando uma rosa. Legado. Catarina é uma das importantes místicas e escritoras da Igreja[10] e é ainda hoje muito respeitada por suas obras espirituais e sua audacidade política, alguém que teve coragem de "dizer a verdade ao poder"— um feito excepcional para uma mulher de seu tempo, capaz de influenciar a política e a história de sua época. Abraço. Davi.

quarta-feira, 11 de março de 2026

XINTOISMO. Parte V

Xintoísmo.Bushidor.Br. Mitologia e influência na formação da cultura e o caráter do povo japonês. XINTOÍSMO. Parte V. A Natureza e o senso estético no Xintoísmo.  Se observarmos as fases de desenvolvimento porque passaram as religiões, é de indubitável conclusão o primitivismo do Xintô, a fase ainda "das ideias infantis" dessa religião como afirma Griffis (GRIFFIS, op. cit., p. 69). "Estagnado" nessa fase de desenvolvimento, a Natureza - por força da crença de que os homens, a Natureza e os deuses, provêm de um único ancestral - é objeto de profunda apreciação, respeito e inúmeros festivais por todo o país. A comunhão com o divino e com a própria Natureza se funde num único sentimento, assim descrito emocionadamente por Rochedieu: [...] o Japão sabe conservar certos lugares unicamente pela beleza. É muitas vezes surpreendente e comovedor para o Ocidental ver nos parques grandes templos, ou simplesmente presenciar num jardim público. Um pai acompanhado do filho parar em silêncio ao pé de um lago, de uma pequena ponte, de uma cascata ou das flores. Tendo uma atitude de recolhimento porque, para o japonês, a comunhão com o divino obtém-se das mais das vezes através da união de todo o seu ser com as belezas naturais. Com obras de arte selecionadas, com a harmonia  que  emana de  um  monumento. Não é o valor ou  a grandeza da matéria  utilizada   que  cria  a  beleza,  mas  o amor com  que  o artista se debruça  sobre  a  sua obra,  nela  trabalhando por vezes durante anos, mas incutindo desse modo, no objeto que cinzela ou no quadro que pinta. Algo da sua alma, algo de si próprio, e esse algo que procura transmitir através da obra de arte é sempre aquilo que de melhor há em si (ROCHEDIEU, op. cit., p.37). A beleza natural é fundamental para a veneração dos kami nos santuários, independentemente do kami aí cultuado. Segundo Ono, é esse refinado senso estético da beleza que enleva o homem, conduzindo-o do mundo profano ao sagrado, que o faz experienciar o viver em comunhão com "o alto e profundo mundo do divino" (ONO, op. cit., p. 97). As leis xintoístas não provêm de um deus único, dado aos homens por revelação como nas grandes religiões do Ocidente. São descobertas dentro da Natureza onipresente, encantadora e ao mesmo tempo mística que se lhe mostra. A Natureza não é hostil como na mitologia judaico-cristã que expulsa o homem do Paraíso. Pelo contrário, ela existe abençoada pelos deuses e se desenvolve com harmonia e cooperação (ibidem p. 103). É portanto, dádiva divina, presente dos deuses para os homens. A vida econômica. A vida conectada ao kami - propósito natural do Xintô - fornece também o perfil ideológico das atividades comerciais e industriais do país. O Xintô considera que não apenas as atividades da cultura, mas a produção de "alimentos, roupas, bens e tudo que proporcione felicidade ao mundo, está conectado diretamente ao kami" (ONO, op. cit., p. 84). Fazendo jus a um forte senso da preponderância do coletivo, para o Xintô, "todo aquele que promove sua própria felicidade, deveria promover também a felicidade da sociedade. [...] Nós somos mais felizes quando fazemos outros felizes" (idem). Uma atividade que não tenha essa ligação, pode estar fadada ao fracasso (idem). Mas o Xintô não é ideário que despreza a matéria, falando apenas de "bens espirituais e divinos". É natural desejar um bem e adquiri-lo; não é necessariamente um mal, assim como não ter bens não é motivo de admiração. É natural que uma vida correta, de caminhante da Via dos deuses, seja por estes abençoada (idem). Os desejos de bens formulados para o bem estar público serão abençoados pelos kami, ao contrário, "a riqueza utilizada com fins egoístas ou que fira outros, não está de acordo com a Via dos deuses" (idem). O Matsuri. Nas suas origens o matsuri, que vem do verbo matsuru – adorar, venerar -, era uma cerimônia simples realizada no alto de uma colina ou na orla de um bosque. O que explica a maciça presença dos santuários xintoístas junto a entrada de bosques e florestas (ROCHEDIEU, op. cit., p. 112-113). A princípio o matsuri era uma cerimônia em que os homens do clã pediam aos deuses por boas colheitas. Era realizada à noite, iluminada por alguns archotes, em torno de uma árvore onde acreditava-se desciam os deuses (ibidem p.113). O matsuri era o centro espiritual da sociedade, o que determinava as relações entre os que adoravam seu kami (ONO, op. cit., p. 106). O momento mais solene era a dança do xamã vestido de mulher que em transe pronunciava palavras, como no ritual da dança mitológica da deusa Ame-no-Uzume que atraiu a atenção da deusa Amaterasu (idem). Com o tempo o matsuri estendeu-se por todo o povo da aldeia e após as cerimônias rituais de  preces, passava-se aos festejos de rua, alegres e enérgicos, que hoje adquiriram características populares e folclóricas. São xintoístas várias formas de entretenimento como "a dança (kagura), a música acompanhada de danças clássicas (bugaku), competição de arco-e-flecha (kyudo), arqueria montada (yabusame), turfe e a luta japonesa sumô" que são executadas alegremente como oferenda aos deuses (ibidem p. 71). Em tempos antigos era ato importante a prática de ritos ao kami pelo Imperador e pela alta corte, para assegurar a paz e a tranquilidade da nação (ibidem p. 76). De fato, matsuri compõe também a palavra matsuri-goto que significa governo, mas que transcendentalmente significa para o japonês “administrar, dentro de um espírito de matsuri, os assuntos deste mundo” (HERBERT, 1964, p. 269) Conceito de uma época em que os assuntos de governo e da religião não eram separados, ou seja, os atos de governo eram também religiosos (HARADA, op. cit., p.33). O chefe de uma comunidade (uji) era seu representante espiritual e temporal, e ao Imperador, pela sua ascendência divina, cabia-lhe a função de zelar como "alto sacerdote" pelo bem estar de todo o povo (Shunzo Sakamaki in MOORE, 1975, p. 152).  Compreendem o rito do matsuri a seguinte sequência da cerimônia (HERBERT, 1964, p. 270-271): a) Kiyome - purificação interior e exterior dos participantes; b) Shubatsu - purificação dos homens e das coisas no local onde se irá celebrar o matsuri; c) Kôshin - petição ao kami para que “faça descer o seu espírito sobre o local do matsuri”. Para isso são necessárias três coisas: 1. tocar um tambor ou campainhas. 2. abrir a porta interior do santuário; entoar o chamamento do kami, que por vezes é acompanhado de certas palavras místicas. d) Kensen - apresentação de oferendas ao kami; e) Norito-sôjo - salmodiar os norito (invocações); f) Tamagushi-hôten - oferenda de um ramo de sakaki; g) Bugaku - oferenda ao kami de cantos e danças; h) Ura-goto - adivinhação; i) Tessen - retirar as oferendas apresentadas ao kami; j) Shôshin - convidar o kami a retirar-se; k) Naorai ou nahorahi - refeição feita em comunhão. Os pedidos de boa colheita nos campos e proteção e prosperidade para os aldeões, são precedidos de oferendas várias, geralmente alimentos. Ao final, a saudação e demonstração da alegria por estarem na presença da divindade é feita com um banquete. O matsuri é bastante apreciado com maciça participação do povo, desfiles com andores portando santuários em miniatura (mikoshi) e carros alegóricos acompanhado de dança e música típicas da região ou da ocasião. Alguns desfiles lembram feitos históricos da comunidade. Os matsuri assemelham-se ao nosso carnaval brasileiro no que têm de alegria e descontração. No sumô , tradicional luta japonesa, sobre o dohyô (ringue onde se realizam as lutas) figura construção típica representando o teto de um santuário xintoísta. No início de cada torneio um monge xintoísta procede ao ritual de purificação do local e dos lutadores. Estes, no seu traje de apresentação, trazem penduradas as tiras de papel shide- utilizadas nas cerimônias de purificação xintoísta - atadas à cintura com uma corda trançada que lembra o mitológico shimenawa. Ao iniciar a luta, os lutadores se purificam passando água na boca e jogando sal no dohyô. A ética xintoísta Nascido em meio à Natureza, seu credo e suas divindades daí derivam. Onipresente e provedora, seus recursos - orgânicos, inorgânicos, animais, a flora e a fauna - são uma dádiva dos kami para o bem-estar do mundo (ONO, op. cit., p. 103). O primitivo japonês desenvolveu uma relação orgânica de amor e respeito à Natureza, que o dotou "das virtudes de reverência para com os Deuses, os soberanos e os pais, a bondade para com nossas esposas e nossas crianças..." (HERBERT, 1964, p. 121). A ausência do espírito de retribuição (castigo/recompensa) ligado ao proceder individual é substituído pela subordinação ao grupo. Relata Michiko Yusa: "noções como "ir para o céu" ou respeitantes a méritos religiosos não são motivos para se praticar o bem: se os japoneses praticam boas obras é porque sabem que tais atos vão contribuir para o bem-estar geral da sociedade" (YUSA, op. cit., p. 18). Xintoísmo não considera a existência de uma verdade absoluta como no monoteísmo, onde a coexistência entre os fiéis se dá pelo compartilhamento das mesmas crenças e valores. Os xintoístas consideram a harmonia (和- wa) a base para a coexistência, o que implica aceitação e respeito às diferenças. O homem não foi criado por deuses como no monoteísmo, isto é, não é produto do trabalho de uma divindade, mas produzido pela união do "espírito de dois deuses criadores", isto é, "um terrestre e outro divino" (HERBERT, 1964, p. 120, 103). Então, para o Xintô o homem é biologicamente descendente em linha direta de deuses, o que lhe faz parecer natural modelar sua vida pela de seus ancestrais divinos (ibidem p. 119). Não há um ancestral divino único. Criador e criatura dentro da obra da criação exercem uma função ativa e passiva. Comentando Masao Yamane, Herbert aduz: "sob uma óptica puramente prática, se um homem segue o modo de vida que lhe foi legado pelos seus ancestrais divinos, qual a necessidade que ele tem de codificar regras sobre a conduta que ele deverá observar em tais ou quais ocasiões?" (ibidem p. 120). No xintoísmo as destruições, a desgraça, o infortúnio, têm origem no Yomi, mundo  das trevas e origem do mal (HERBERT, 1964, p. 114). Mas mesmo os oni (demônios, entidades do mal), podem ser circunstancialmente reverenciados como entidades do bem, a despeito de seu comportamento ou característica. São seres invisíveis, assumindo por vezes forma animal cuja expulsão pelo exorcismo deve ser feita pelo monge (LITTLETON, 2003, P. 150). Entre os animais, a raposa adquiriu grande popularidade na cultura. Figurando em inúmeras lendas como animal inteligente que assombra e engana e tem o poder de se transformar em mulher. No Xintô, seu culto é associado ao kami Inari, deus da prosperidade e do arroz, que zela por sua boa colheita (idem). "O mal causado por esses seres é visto apenas como interrupção temporária do caminho natural" (idem). Mesmo o que pratica o mal pode a qualquer momento voltar para o mundo da luz e da bondade. Para o Xintô, a vida do homem é abençoada e "é uma só, ligada linearmente a de seus ancestrais" por isso, o culto não deve ser negligenciado (ONO, op, cit., p. 104). O   nascimento é produto do desejo do espírito divino e tem como missão, "por um lado, a responsabilidade de realizar as esperanças e ideais de seus ancestrais. De outro, ele tem o inescapável dever de tratar seus descendentes com grande amor e carinho. Então eles também poderão realizar as esperanças e ideais do espírito de seus ancestrais" (idem). Não existe no Xintô a noção de pecado como o oposto da virtude. O homem já é originariamente virtuoso, o pecado é apenas "algo extrínseco" ao homem, "um erro que não afeta a verdadeira natureza do homem" (HERBERT, 1964, p. 133). O erro não se liga à noção de pecado, mas a um inato senso de vergonha pela perda da honra. Para cuja recuperação, mesmo a vida era considerada um preço justo a se pagar (NITOBE, 2005, p. 60).  O japonês tem a convicção íntima de poder vencer e suplantar qualquer adversidade porque crê haver herdado de seus antepassados, divinos dons e faculdades especiais. Bastando-lhe apenas deixá-los manifestar e então, as virtudes dos kami surgirão espontaneamente. Hirata dizia que o homem japonês "foi trazido à existência pelos espíritos criadores dos sagrados kami ancestrais", razão porque possuem já a Via dos Deuses (HERBERT, 1964, p. 121).  Na ausência do Bem e do Mal como entidades absolutas, a moral e a ética baseiam-se na honra. Estendendo-se para além da própria, abarcando também a da família, revela-se satisfatório instrumento de controle social. A honra é o que liga o japonês ao senso ético, afirmava Nitobe. ( Inazo Nitobe apud in ibidem p. 130). O japonês não é dado à especulação filosófica, mas tem forte intuição calcada no sentimento, que se manifesta desde a abnegação até o sacrifício pessoal. O que geralmente permanece reprimido pela disciplina social, se manifesta por vezes de forma surpreendente (BRILLANT et alii, op. cit., p. 167). O Ocidente, de racionalismo cartesiano e positivismo científico, certamente estranhará a desnecessidade do burilar técnica das palavras e de definições precisas dessa cultura. Influenciada fortemente pelo xintoísmo, palavras são insuficientes para se narrar o Todo, que é inenarrável. E o Todo prescinde de palavras para ser apreendido. Para Sokyo Ono, é o que explica a longevidade de dois milênios da fé nipônica: é sentida, não pensada, isto é, apreendida com o coração e não com a razão; e assim também é transmitida na vida quotidiana: de coração para coração, sem necessidade de palavras (ONO, op. cit., p. 92). Embora com ênfase no sentimento, o Xintô não tem "os impulsos da paixão das grandes religiões; são de uma piedade serena e polidos, tanto para com os deuses como para tudo que é superior" (BRILLANT et alii, op. cit., p. 167). Ao estrangeiro, dificultoso se torna entender o Xintô, mesmo com explicações, o que não o impede de compreender o Caminho do Xintô, sem que realmente o tenha entendido racionalmente (ONO, op. cit., p. 94). Talvez porque, como relata Fujisawa, "não há no Xintô espaço entre fé e razão, porque jamais foi perdido seu primitivo contato com a dimensão da profundidade da vida, Do qual devem ter emersos no passado toda crença especial" (FUJISAWA, 1959, p. 16). O japonês não se interessa pelo que o faz crer, mas pelo que o faz fazer, constata Inazo Nitobe (HERBERT, 1964, p. 24). Para o xintoísmo é fundamentalmente essencial a pureza interior do coração do homem. (Engelbert Kaempfer apud in ibidem p. 122-123). No coração (sentimento) estão as regras morais e éticas necessárias ao homem, aí já incutidas pelos deuses, sendo desnecessário especificá-las. Basta que se trilhe o Michi, caminho dos deuses. Explica Edmond Rochedieu a doutrina do teólogo japonês Motoori (1730-1801): Os japoneses, que obedecem à direção necessária dos deuses, nunca sentiram    a necessidade de um sistema ético. O homem, gerado pelas duas divindades     criadoras, Izanagi e Izanami, possui naturalmente o conhecimento do que     deve fazer ou evitar. Todas as ideias morais indispensáveis à sua felicidade     foram inscritas na sua mente pelos deuses. Os desejos humanos, que fazem     parte da nossa natureza, estão ligados à harmonia geral do mundo [...] a     única moral válida é a do coração, que está de acordo com a natureza     humana, refletindo esta própria a harmonia geral (ROCHEDIEU, op. cit., p 126. Abraço. Davi

segunda-feira, 9 de março de 2026

KARMA YOGA - O RETO CUMPRIMENTO DA AÇÃO

Hinduísmo. Bhagavad Gita - A Mensagem do Mestre. KARMA YOGA - O RETO CUMPRIMENTO DA AÇÃO - Capítulo III. Tudo que o homem faz com motivos pessoais é sem valor para o Eterno. Para atingirmos a salvação e a união com Deus, havemos de agir sem motivos egoístas. Sem tomar em consideração o nosso próprio Eu pessoal. Entregando-nos a Verdade Eterna como um instrumento na mão de Deus. Assim cumprindo o nosso dever por ser dever, sem pedir recompensas. 


1. Falou Arjuna, o príncipe Pandava, a Krishna, o Senhor Bem-aventurado, dizendo: Oh Conferidor do saber! Disseste-me que o conhecimento é até mais importante do que a ação. Se assim é, por que me incitas a ação? Por que queres que eu entre nesta horrível batalha com meus parentes e amigos? 2. Tuas ambiguas palavras me trazem dúvidas e me confundem o entendimento. Dize-me, peço-te, em frases claras e certas, qual é o caminho que me conduzirá a Paz e a satisfação? 3. Respondeu Krishna, o Divino: Como já te disse, oh nobre príncipe, há dois caminhos que vão a Perfeição. O primeiro é do Conhecimento (3) Sanhya. E o segundo o da Ação (3) Yoga. Uns preferem o primeiro, e outros, o segundo desses dois caminhos. Sabe, porém, que considerados do alto, ambos são um só caminho Escuta! 4. Engana-se quem pensa que, esquivando-se das ações e persistindo na inatividade, escapa dos resultados da ação. Qume nada começa, não pode entrar no estado da Paz Etern. A inatividade não conduz a Perfeição. E, na realidade, nem há coisas que se possam designar pela palavra inatividade. Pois tudo, no Universo, está em atividade constante e nada pode subtrair-se a lei geral. 5. Ninguém pode ficar inativo nem um instante, pois as leis de sua natureza, o impelem constantemente a fazer alguma coisa, queira ele ou não. O seu corpo ou a sua mente, ou ambos, sempre estáo ocupados. 6. Se alguém se assenta pra reter a dominar os seus sentidos e os órgãos de atividade. Mas em sua mente, está apegado aos objetos dos sentidos. Ilude-se e merece o nome de hipócrita. 7. Porém, é digno de ser chamado sábio e sobre aquele que sujeitou os seus sentidos a Deus, pelo amor ao Altíssimo. Expressando o seu reto pensar em reta ação, ele cumpre o seu dever sem esperar recompensas. Ocupando-se de objetos dos sentidos, não se deixa dominar por ele. 8. Faze bem o que te compete fazer no mundo. Cumprindo bem as tuas tarefas, ocupando-te da obra que encontras para fazê-la o melhor possível. Assim será muito bom para ti. Atividade é melhor do que ociosidade, fortalecendo a mente e o corpo. Conduzindo a vida longa e normal. A ociosidade enfraquece tanto a corpo como a mente, e conduz a uma vida impotente e anormal, de duração incerta. 9. Os homens estão aferrados a este mundo, porque agem com o fim de obter recompensas e ganho. Estão apegados aos objetos de seus desejos. Por isso, cansam-se na escravidão dos sentidos. Para se libertarem, hão de agir com resignação, movidos pelo puro amor ao Bem. Fase, pois oh Arjuna a tua tarefa, para cumprires o dever que o Eu Real te impõe, e não por qualquer outro motivo. 10. Lembras-te das doutrinas antigas que narram a criação do mundo. As palavras que o criador disse aos homens que tinha criado. Ouve, as repetirei: Pela adoração e pelo sacrifício crescereis e vos multiplicareis. Pela resignação, obtereis a satisfação dos vossos desejos. 11. Lembrai-vos da Fonte de todas as coisas, do distribuidor dos objetos desejados. Pensai no que é Divino, para que o Divino pense em vós. 12. Se nutrirdes, com o sacrifício de vós mesmos, os deuses, eles vos darão o desejado alimento espiritual. Quem recebe os dons dos deuses e não lhes mostra a gratidão, é como um ladrão. 13. Os bons homens que retêm para si só aquilo que resta depois de erem oferecido à Divindade tudo o que é divino. São livre de todos os pecados. Todavia, os maus que querem agir só para si mesmos, vivem em pecado. 14. Todas as criaturas tanto as espirituais como os materiais, vivem, enquanto se alimentam. O alimento cresce com a chuva. A chuva é mandada pelos deuses em resposta aos desejos, as preces e as súplicas dos homens. Sendo essas formas de ações que procedem da Vida Una que tudo penetra. 15. Sabe que toda ação tem sua origem em Brahma que é a revelação da Indivisível Unidade. Por isso, Brahma, que tudo penetra, é sempre presente nas tuas ações. 16. É vã e vergonhosa a vida do que, vivendo neste mundo de ação, tente abater-se da ação. Quem gozando o fruto da ação do mundo ativo, não coopera, mas vive em ociosidade. Aquele que, aproveitando a volta da roda, em cada instante de sua vida, não quer por a mão à roda pra ajudar a movê-la. É um parasita e um ladrão que toma sem dar coisa alguma em troca. 17. Sábio é, porém, aquele que cumpre bem os seus deveres a executa as obras que são para fazer-se no mundo. Renunciando a seus frutos e concentrado na ciência do Eu Real. 18. Tal homem, elevado acima dos mundos, não se inquieta por saber se alguma coisa no mundo acontece ou não acontece. Achando em si mesmo tudo de que precisa, não tem necessidade de refugiar-se em nenhum ser criado. Para nele achar apoio. Participando de tudo e agindo em tudo, de acordo com os ditames do deve. De nada depende porque a sua fé, esperança e ciência se fixam no Imperecível que é o único apoio seguro. 19. Faze, pois, o que deve ser feito, porém, sem egoísmo e sem considerações pessoais. Quem age assim e cumpre o seu dever, livre de motivos egoístas, e sem depender de alguém. Caminha com passos firmes, diretamente à Consciência Superior, ao plano espiritual. 20. Janaka e muitos outros atingiram o estado de perfeição por meio de boas obras e reta ação. Trabalha, pois, também tu por amor a humanidade. 21. Quando um nobre homem faz alguma coisa, os outros o imitam. O exemplo que ele dá é seguido pelo povo. Segue, portanto, os melhores de tua raça. 22. Toma-me por exemplo, oh príncipe. Nada há, no Universo dos Universos, que eu deseje ou que seja necessário que  para mim não se faça. Nem há coisa alguma atingível que eu não tenha já atingido. E, contudo, estou em constante ação e movimento, agindo sempre e incessantemente. 23. Os homens, oh Arjuna, seguem sempre o meu exemplo. Por isso, se eu deixasse de ser ativo, estes Universos estariam em ruínas. 24. Se eu não agisse, começaria a reinar uma confusão universal. E minha inatividade seria a causa da destruição do gênero humano. 25. Como os que carecem ainda da Luz Espiritual fazem esforço para alcançar o que desejam. Sendo a esperança de recompensa e estímulo de suas ações. Assim deva o homem desenvolvido e iluminado agir abnegadamente pela causa do bem comum e conforme a Lei Universal. 26. Mas não deves confundir, com estas ideias, as cabeças dos homens inexperiente, cujo coração ainda está apegado as obras. Deixa-os fazer o melhor que podem. Mas tu e os outros sábios devem agir em harmonia comigo. Animando os outros a atividade, e dando-lhes o exemplo. 27. Toda atividade e todas as ações provêm dos movimentos das forças da Natureza. O insensato, que é iludido pela presunção e vaidade, pensa que ela é o ator e diz: Eu faço isto, eu fiz aquilo. 28. Mas quem conhece a verdade, sorri, porque detrás da personalidade, enxerga a fonte real da ação, a causa e o efeito. 29. Entretanto, os que conhecem a verdade inteira, devem acautelar-se para não ofuscarem com ela o fraco entendimento daqueles que ainda não estão preparados para conhecê-la. Porque as doutrinas prematuras poderiam confundir e desviar estes da sua atividade. 30. Tu porém, oh Arjuna, liberta-te de todos os cuidados, de todo medo e igualmente do egoísmo e das esperanças pessoais. Em meu nome (30) Isto é em nome de Deus - Krishna é a encarnação Divina. Faze tudo o que hás que fazer, concentrando todos os teus pensamentos no Altíssimo. 31. Os homens que, cheios de fé e confiança, seguirem estes meus ensinos e não tiverem dúvidas. Alcançarão a liberdade também pelas obras e ações. 32. Contudo, aqueles que rejeitam os ensinos da Verdade e agem contra eles, são insensatos e iludidos. Caindo em confusão e inquietações. 33. Cada ser age em conformidade com a sua natureza. Também o sábio procura o que se harmoniza com a sua própria natureza, de acorda com aquilo que é o mais alto no seu caráter. 34. Ninguém pode escapar às leis naturais. Os objetos sensuais são os senhores dos sentidos. Atraindo ou repelindo o coração do homem, enchendo de afeição ou de aversão. Não te deixes dominar por nenhuma destas duas forças, porque ambas são obstáculos no caminho e o sábio as subjugas ambas. 35. Finalmente, lembra-te que é melhor cumprir a própria tarefa, ainda que seja humilde e insignificante. Do que querer fazer a tarefa de um outro, por meais nobre e excelente que seja. É melhor morrer no cumprimento do seu dever do que viver negligenciando-o e querendo fazer o que a outros compete fazer. 36. Pergunta Arjuna: Mas dize-me, ó Senhor, que força misteriosa é essa que, muitas vezes, parece obrigar o homem a praticar um mal. Até contra a própria vontade? 37. Explica Krishna: Esta tentação, ó príncipe, é a essência dos desejos que o homem em si acumulou (37) Em sânscrito, idioma hindu, dá-se o nome de kama, não confundir com karma. Ela é o seu maior inimigo, chamando-se paixão. Nasce da natureza carnal, cheia de pecado e de erro, atacando o homem para o consumir.  38. Como a fumaça envolve a chama, a ferrugem o metal, o útero a criança que nasce, ataca o homem - paixão - para o consumir. 39. O desejo impede o verdadeiro saber. Ele é como um fogo devorador, difícil de extinguir-se. 40. Os sentidos e a mente são a sua sede. Por meio deles, confunde o discernimento e obscurece o conhecimento da Verdade. 41. Antes de tudo, deves, portanto, vencer esse inimigo de tua alma. Domina os teus sentidos e os seus órgãos, afugentando de ti esse gerador do mal. 42. Os sentidos são grandes e poderosos, porém, maior e mais poderosa é a mente. Maior do que esta é a Razão, e o mais forte é o Eu Real, a Luz da Divindade (42) Os sentidos que são a sede do desejos, designam em sânscrito pelo termo kama, a morte chama-se Mamas. A Razão Iluminada, Budhi. O Eu Real, a Consciência da Divindade, Atma. 43. Reconhecendo pois o Eu Real como o Senhor mais poderoso, Domina pelo seu poder o eu pessoal, subjugando do monstro de desejo. Esta tarefa é difícil, mas não impossível. Combate o desejo, domina-o pela força da Luz Divina do Eu Real. Não deixes ser teu Senhor, mas reduze-o a ser teu escravo! Abraço. Davi. 

sexta-feira, 6 de março de 2026

OS ANALECTOS - LIVRO IV

Confucionismo. www.rl.art.br. OS ANALECTOS – LIVRO IV. Texto de Confúcio (551 AC 479). 1. O Mestre disse: “A benevolência constitui o mais belo aspecto de uma vizinhança. Como pode ser considerado sábio um homem, que quando tem a possibilidade, não se estabelece numa vizinhança benevolente?”. 2. O Mestre disse: “Quem não é benevolente não pode permanecer por muito tempo em uma situação difícil e tampouco pode permanecer durante muito tempo em circunstâncias favoráveis. “O homem benevolente é atraído pela benevolência porque ele se sente confortável com ela. O homem sábio é atraído pela benevolência porque percebe que ela lhe é favorável”. 3. O Mestre disse: “Apenas o homem benevolente é capaz de gostar ou de não gostar de outros homens”. 4. O Mestre disse: “Se um homem aplica o seu coração no caminho da benevolência, ele estará livre do mal”. 5. O Mestre disse: “Riqueza e posições altas são o que os homens desejam, mas a menos que eu as conseguisse do jeito certo, eu não as manteria. Pobreza e posições baixas são o que os homens não querem, mas mesmo se eu não as conseguisse do modo certo, eu não tentaria escapar delas. “Se o cavalheiro abandona a benevolência, de que modo pode ele construir um nome para si? Um cavalheiro nunca abandona a benevolência, nem mesmo pelo pouco tempo que demora para se comer uma refeição. Se ele se apressa e tropeça, pode-se ter certeza de que é na benevolência que ele o faz”. 6. O Mestre disse: “Nunca conheci um homem que amasse a benevolência ou um homem que odiasse a ausência dela*. Um homem que ama a benevolência não pode ser superado. Um homem que odeia a falta de benevolência pode, talvez, ser considerado benevolente, pois ele não permitiria que aquilo que não é benevolente contaminasse sua pessoa. “Existe um homem que, pelo período de um só dia, seja capaz de dedicar toda a sua força à benevolência? Nunca conheci um homem cuja força seja insuficiente para essa tarefa. Deve haver casos de força insuficiente, mas simplesmente não os encontrei”. 7. O Mestre disse: “Os erros de um homem são condizentes ao tipo de pessoa que ele é. Observe os erros e você conhecerá o homem”. 8. O Mestre disse: “Não viveu em vão aquele que morre no dia em que descobre o Caminho”. 9. O Mestre disse: “Não há razão de buscar as opiniões de um Cavalheiro que, apesar de aplicar seu coração no Caminho, tenha vergonha da comida simples e de suas roupas pobres”. 10. O Mestre disse: “Nas suas relações com o mundo, o cavalheiro não é rigidamente contra ou a favor de nada. Ele fica do lado daquilo que é justo”. 11. O Mestre disse: “Enquanto o cavalheiro acalenta o bom governo, o homem vulgar acalenta sua terra natal. Enquanto o cavalheiro acalenta respeito pela lei, o homem vulgar acalenta um tratamento generoso”. 12. O Mestre disse: “Se as ações de alguém são guiadas pelo lucro, esse alguém provocará muitos ressentimentos”. 13. O Mestre disse: “Se um homem é capaz de governar um reino por meio da observação dos ritos e do respeito, que dificuldades terá na vida pública? Se ele é incapaz de governar um reino por meio da observação dos ritos e do respeito, de que lhe servem os ritos?” 14. O Mestre disse: “Não se preocupe por não ter um cargo oficial. Preocupe-se com as suas qualificações. Não se preocupe porque ninguém aprecia as suas qualidades. Procure ser merecedor de apreço”. 15. O Mestre disse: “Ts’an! Uma única linha amarra todo o meu pensamento”. Tseng Tzu assentiu. Depois que o Mestre tinha saído, os discípulos perguntaram: “O que ele quis dizer?” Tseng Tzu disse: “O caminho do Mestre consiste em dar o melhor de si e usar a si próprio como medida para julgar os outros. Isso é tudo.” 16. O Mestre disse: “O cavalheiro entende o que é moral. O homem vulgar entende o que é lucrativo”. 17. O Mestre disse: “Quando conhecer alguém melhor do que você, dirija seus pensamentos para tornar-se igual a essa pessoa. Quando conhecer alguém tão bom quanto você, olhe para dentro e examine a si próprio”. 18. O Mestre disse: “Ao servir seu pai e sua mãe, você deve dissuadi-los das ações erradas do modo mais gentil. Se você vir seu conselho ser ignorado, não deve se tornar desobediente, mas permanecer reverente. Não reclame, mesmo que, com isso, você se canse”. 19. O Mestre disse: “Enquanto seus pais estiverem vivos, não viaje para muito longe. Se o fizer, seu paradeiro deve sempre ser conhecido por eles”. 20. O Mestre disse: “Se, por três anos, um homem não se desviar do caminho do seu pai, ele pode ser chamado de um bom filho”. 21. O Mestre disse: “Um homem não deve desconhecer a idade do seu pai e da sua mãe. É, por um lado, uma razão para alegrias e, por outro, para ansiedade”. 22. O Mestre disse: “Na Antiguidade, os homens relutavam em falar. Isso porque consideravam vergonhoso se não conseguissem ser fiéis às suas palavras”. 23. O Mestre disse: “É raro que um homem apegado às coisas essenciais perca o autocontrole”. 24. O Mestre disse: “O cavalheiro procura ser suave no falar, mas rápido no agir”. 25. O Mestre disse: “A virtude nunca está sozinha. Está destinada a ter vizinhos”. 26. Tzu-y u disse: “Ser inoportuno com seu senhor significará humilhação. Ser inoportuno com os amigos significará afastamento. www.rl.art.br. Abraço. Davi. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

CABALA - MITOS E VERDADES. Parte VI

 Judaísmo. Livro Um Guia para a Sabedoria Oculta da Cabala. Por Muchael Laitman (1946 - ). CABALA - MITOS E VERDADE. Parte VI. Baal HaSulam. O Ponto Principal. O objetivo da Cabala. BaalHaSulam e seus comentários sobre O Zohar e os escritos do Ari. A missão de Baal HaSulam. A urgência em revelar a Cabala. A Cabala nem sempre foi tão popular como é hoje. Quando começou, era o alvo de interesse de apenas um pequeno número de pessoas, que pesquisavam o sentido de suas vidas. Estes primeiros Cabalistas continuaram a desenvolvê-la através das gerações. Adaptando-a para os novos tempos. E assim, a Cabala tornou-se mais científica, como requer nossa geração. Este capítulo apresenta a forma como os textos cabalísticos funcionam e como tem se desenvolvido ao longo dos séculos para fazer sua sabedoria mais disponível e acessível a todos. Em particular, este capítulo aborda o trabalho do mais "universal" de todos os cabalistas: Rav Yehuda Ashlag (1884-1954). Rav Ashlag afirmou claramente que o estudo da Cabala está aberto para todos. E que a Cabala pode ser divulgada, distribuída e ensinada a todos, sem qualquer consideração de idade, raça, sexo ou religião. O Objetivo da Cabala. O objetivo da Cabala é criar um método para que as pessoas se tornem espiritualmente satisfeita. Como você já sabe, Cabala significa "recepção". A finalidade da vida neste mundo é que uma pessoa alcance o mais elevado nível de espiritualidade. Segundo a Cabala, às almas voltam repetidamente a este mundo até que esta meta seja atingida. O objetivo espiritual é diferente das aspirais criativas ou intelectuais. Como descrito no capítulo IV, a busca da espiritualidade é a fase final do desenvolvimento humano. A Cabala orienta e oferece um caminho para esta satisfação espiritual. O que os Livros de Cabala Podem fazer por você, e o que Não Podem. Escritores Cabalistas descrevem suas experiências e propõe recomendações para que outros possam seguir em seu caminho. Os livros de Cabala são relatos de suas viagens no Mundo Superior. Os livros de Cabala também têm desenhos que ilustram conceitos e eventos espirituais. É importante lembrar que as formas dos desenhos não são objetivos reais. Todavia imagens utilizadas para explicar estados espirituais no que se refere ao seu relacionamento com o Criador. Mas os livros de Cabala não lhe mostram o quadro completo. Para realmente saber o que são os mundos espirituais e senti-los, você tem que experimentá-los por si próprio. Cabalistas pensam em si próprios como guias turísticos cujo trabalho é leva-lo até um lugar e deixá-lo se admirar por si próprio. Por isso os textos que foram escritos para ensinar as descrições são parciais. Apenas o que é necessário saber para a espiritualidade, por você mesmo. Estes textos "didáticos" são O Livro do Zohar do Rashbi, A Árvore da Vida do Ari e o Estudo dos Dez Sefirot do Yehuda Aslag. Raiz - de Cima para Baixo. A Cabala explica que as raízes do nosso mundo são raízes espirituais, vindo de cima e não de baixo. As raízes vêm a partir da fonte, que está acimo deste mundo. Imagine raízes crescendo a partir do exterior de uma bolha. Porque você  está na bolha, a área de criação, as raízes vêm para você. Elas podem ser consideradas como cordões coloridos de festa pendurados a partir de cima. O principal objetivo desta sabedoria é possibilitar a revelação do Criador para suas criaturas, que somos nós. Cada raiz tem seu próprio ramo neste mundo, e tudo neste mundo é um ramo de alguma raiz na espiritualidade. Desta forma, os Cabalistas, "usam" neste mundo para se comunicar com a Criador. Para aprender seus caminhos, para que possam se tornar como Ele. Para evitar "uma comunicação errada" com o Criador, você precisará saber que ramo se relaciona com que raiz. A chegada do Ari e, em maior medida, a do Rav Aslag, marcou a mudança para uma nova e mais clara terminologia na Cabala. Os Cabalistas descrevem suas experiências internas e intelectuais usando metáforas e linguagem adequada para as almas de seu tempo. De tempos em tempos a linguagem torna-se não clara devido ao desenvolvimento das almas e requer novas explicações. Isto requer que sucessivos cabalistas escrevam interpretações para tornar esta viagem espiritual mais clara e mais acessível para nós. Por isso Rav Ashlag escreveu seu comentário sobre A Árvore da Vida, publicado em seu maior trabalho O Estudo dos Dez Sefirot. Os comentários do Rav Ashlag sobre A Arvore da Vida detalha os estágios, eventos e formas da criação da vida. Originalmente descritos pelo Ari. Ashlag fez uma coisa semelhante com O Livro do Zohar de Rashbi. Ele pegou o texto do Rashbi e o esclareceru em um comentário que ele chamou de HaSulam (A Escala). Por isso Rabbi Yehuda Aslag é também conhecido como Baal HaSlulam ( O Dono da Escada). O Maior Comentador. Nascido em 1884 em Varsóvia - Polônia, Baal HaSulam estudou Cabala com Rabbi Yehoshua de Porsov absolvendo a lei escrita e oral. Tornou-se um juíz e professor em Varsóvia quando tinha 19 anos. Em 1921 emigrou para Israel, então chamada Palestina, com sua família incluindo o seu primeiro filho, Baruch, que o sucederia mais tarde, esse, tornou-se o rabino de Givat Shaul em Jerusalém. Enquanto escrevia muitas outras importantes obras, tais como O Estudo das Dez Sefirot, ele também começou a escrever O Salum. Comentário sobre o Zohar em 1943. Ele terminou apenas 10 anos mais tarde, em 1953. Ele morreu no ano seguinte e foi enterrado em Jerusalém. Baal Hasulam é o único que conseguiu compor os  comentários do Zohar por completo e atualizado e dos escritos do Ari. Uma vez que foram escritos primeiros. Seus livros permitem que os Cabalistas estudem textos antigos, em linguagem moderna e são ferramentas indispensáveis pra aqueles que aspiram a alcançar espiritualidade. Em seu artigo: Tempo de Agir" Baal HaSulam conta que antes das impressões gráficas existirem. Quando escribas estavam em voga, ninguém se incomodava em dobrar suas costas pra copiar um livro com euforia já que não valeira pena. O tempo gasto, os custos e as velas de cera. Com o avanço da confecção de livros, teorias e conexões da Cabala foram reforçadas pelos autores, que começaram a publicar facilmente. Com muitas pessoas tentando defini-la, uma atmosfera de frivolidade desenvolveu-se em torno da Cabala. Portanto, o objetivo de Aslag em sua redação era a de revelar o que pudesse da verdadeira essência da Cabala. Na sua Introdução ao Livro do Zohar, Ashlag diz que ele deve escrever livros de Cabala, porque cada geração tem as suas próprias necessidades e, portanto, seus próprios livros. A nossa geração, também precisa de todos os livros que possamos compreender. Uma vez que os livros do Ari foram escritos centenas de anos atrás. O Livro do Zohar escrito quase 2000 atrás, ele tomou sobre si a interpretação deles para nós. Desta forma, podemos chegar a saber o que estes antigos Cabalistas sabiam, e experimentar os mundos espirituais por nó mesmos. A Chamada para o Tempo Certo. Mas a propagação da Cabala está acontecendo hoje não apenas como o resultado do aparecimento de livros incorretos e imprecisos. Ashlag explica na sua Introdução ao Livro do Zohar, e em muitos de seus escritos, que a propagação da Cabala é um dever hoje. Ele Explica que agora é o tempo em que o Profeta Jeremias se referia quando disse: "Porte eles todos deverão Me conhecer, do menor até o maior deles". Podemos tomar o nosso tempo e deixar que isso aconteça naturalmente. Mas Aslag afirma que essa decisão irá custar-nos muito, porque seremos compelidos a evoluir na espiritualidade pela própria natureza. Ele diz que a outra opção é a de estudar o que a natureza quer de nós e fazê-lo. Isto, de acordo com Ashlag, irá não só evitar o sofrimento do qual falava, mas vai nos mostrar como receber os prazeres que o Criador quer nos dar. Cabalistas antigos chamam estas duas opções de "em seu devido tempo" ou "acelerar o tempo". Hoje, de acordo com Ashlag, já não é simplesmente uma "boa ideia" a de compartilhar o conhecimento, é o apleo da hora. Por isso, sem mais delongas vamos mergulhar no coração da sabedoria e seus conceitos. Em Resumo: A Cabala fornece um método para atingir plenitude espiritual. Rav Yehuda Ashlag é creditado por tornar textos antigos e difíceis  de ler da Cabala em textos fáceis de interpretar. A Cabala evoluiu para um método de estudo sistemático e científico. A sabedoria da Cabala desaparece e reaparece quando o tempo fica maduro para a sua percepção, e agora chegou o momento. Abraço. Davi.

segunda-feira, 2 de março de 2026

A ANIQUILAÇÃO

Budismo. Livro O Evangelho de Buda. Vida e Doutrina de Sidarta Gautama. Por Yogi Kharishnanda. A ANIQUILAÇÃO. Numa ocasião, muitos cidadãos ilustres se reuniam na Casa do Povo e elogiavam o Buda, o Dharma e o Sangha. Entre eles se encontrava Simha, general dos exércitos reais, que pertencia a seita dos Nirgranthas, que dizia consigo: "Verdadeiramente o Bhagavad deve ser o Buda, o Santo. Quero vê-lo". Simha aproximou-se de Iryaraputra, o chefe da seita e disse-lhe: "Senhor, desejo ir ver o asceta Gautama". Iryataputra respondeu-lhe: Por que você, Simha, sabe que as ações dão seus resultados. Que ver o asceta que ensina aos seus discípulos a doutrina da inação e nega as consequências das ações? Por isso não teve Simha mais tanto desejo de ir ver o Gautama. Porém, como Simha ouvisse novamente enaltecerem o Buda, o Dharma e o Shanga, seu desejo de ir ver o Bem-aventurado foi reavivado. Contudo também dessa vez Iryataputra o dissuadiu. Todavia, pela terceira vez Simha ouviu elogios a grandeza do Buda, do Dharma e do Sangha ficou pensando. Certamente o asceta Gautama deve ser o Santo Buda. Irei vê-lo mesmo sem o consentimento dos Nirgranthas. Simha foi ver o Bhagavad e disse-lhe: Senhor, ouvi dizer que o asceta Gautama nega as consequências das ações ensinando a doutrina da inação. Dizendo que as ações dos homens não recebem recompensas, porque proclama a aniquilação. Responda-me, senhor: É certo que que ensinas que a alma do homem morre e se aniquila? Peço-lhe que me esclareça se os que dizem tal coisa enganam-se ou levantam ou levantam falso testemunho? O Bem-aventurado respondeu-lhe: Em parte, ó Simha, dizem a verdade os que assim falam de mim, mas em outra erram. Ouça-me: eu ensino que não devemos pensar, falar ou agir mal. Ensino que não devemos consentir com os estados de ânimo ou com as sinistras disposições. Ensino que nossos pensamentos, palavras e ações devem ser justas e que devemos estabelecer disposição de ânimo harmônicas. Ensino, ó Simha que se tem que aniquilar os maus pensamentos, palavras e ações. E quem os anula e se livra deles de sorte que jamais rebrotem, aniquila a personalidade. Prego o aniquilamento do egoísmo, da luxúria, do ódio e do erro. Mas não prego o aniquilamento da bondade, da compaixão, do amor e da verdade. Digo que os maus pensamentos, palavras e ações são abomináveis, e que a virtude e a verdade merecem louvor. Se alguns ensinam que o nirvana é a aniquilação da alma, diga-lhes que mentem. Se alguns ensinam que o nirvana é vida separada, diga-lhes que se enganam. Porque ignoram a Verdade, não veem a luz que brilha através de suas lâmpadas partidas. Não sabem que a felicidade está fora da existência do tempo e do espaço. Simha respondeu: Resta ainda uma dúvida na minha mente. O senhor quer dissipá-la de modo que eu possa compreender o Dharma que ensina? O Senhor Buda consentiu e Simha prosseguiu: O Bhagavad, sou soldado e por ordem do rei cumpre-me o dever de respeitar a lei e de combater por ele. Se o Tathágata prega a bondade sem limites, o amor ao inimigo e a compaixão por todos que sofrem, permitirá castigo para os criminosos? Acreditarão que não é lícita a guerra para defender nossos lares, nossas mulheres, nossos filhos e nossas terras? A doutrina da renúncia prescreve que devemos deixar o malfeitor agir a seu bel prazer. Não resistir e deixar que nos roubem o que nos pertence? Acredita o Tathágata que a guerra é ilícita quando promovida por uma causa justa? Ao que Buda respondeu: O Tathagata (O Buda usa esta palavra referindo-se a si mesmo) ensina que o culpado merece o castigo, e o digno de favor deve ser favorecido. No entanto, também ensina que não se deva fazer sofrer nenhum ser vivente, mas ter o coração cheio de amor e compaixão. Esses dois ensinamentos não são contraditórios, porque quem recebe castigo pelos seus crimes não sofre por maldade do juiz. Mas sim, em consequência de sua culpa. Suas más ações lhe acarretaram o mal que lhe impõe o executor da lei. Quando um magistrado castiga, deve estar livre de todo ódio. E o criminoso condenado à morte deve considerar que o seu suplício é consequente do seu crime. Se ele compreender que o castigo lhe purificará a alma, alegrar-se-á da morte. O Tathagata ensina que é deplorável toda guerra entre os homens. Porém não condena os que guerreiam por uma causa justa. Depois de haver esgotado todos os meios para manter a paz. O causador da guerra merece execração - aversão, desprezo. O Tathagata ensina a total renúncia à personalidade, contudo não ensina que a pessoa se entregue as potestades sinistras. Deve haver luta entre a individualidade e a personalidade, pois a luta é a vida terrena. No entanto, o combatente deve abster-se lutar contra a verdade e a justiça, no interesse de sua personalidade. Aquele que luta pelo interesse egoísta de celebridade, grandeza, poder ou riqueza, não receberá recompensa. Mas o que combate pela justiça e a verdade, receberá o galardão, porque será vitorioso, mesmo que sofra alguma derrota transitória antes do triunfo final. O egoísmo não é o recipiente adequado para o êxito, porque a personalidade é frágil e pequena. Pelo contrário, a individualidade é capaz de conter as aspirações nobres de suas personalidade sucessivas. Quando uma personalidade se rompe como uma bolha de sabão. O seu conteúdo harmônico se identifica com a individualidade universal. Quem vai a guerra, ó Simha, mesmo por uma causa justa, está exposto a morrer nas mãos do inimigo, porque esse é o destino dos guerreiros. Porém, o vencedor deve pensar na relatividade das coisas humanas. Brilhante pode ser sua vitória, no entanto, a roda da fortuna pode girar e transformar a vitória em derrota. Todavia, alcançará eterna vitória se extinto o ódio em seu coração se aproximar do vencido e dizer-lhe: Vem agora, façamos as pazes e sejamos irmãos. Grande é um general vitorioso, ó Simha, porém maior é quem vence a sua personalidade. A lei da vitória sobre a personalidade não é pregada para aniquilar a alma dos homens e sim para preservá-la. O que venceu a sua personalidade está mais apto para alcançar o triunfo eterno. Do que quem continua escravo da personalidade. Lute, pois, com coragem, ó Simha. Combatendo com esforço marcial nas batalhas, todavia seja um soldado da verdade e o Tathagata o abençoará. Simha tornou: Glorioso Senhor, Senhor Gloriosíssimo. O Senhor nos revela a Verdade. Magna é a doutrina do Bendito. Certamente o Senhor é o Buda. O bem-aventurado, o Santo. É o Instrutor da humanidade, que nos ensina o caminho da libertação. Quem o seguir, terá luz no caminho. Encontrará paz e santidade. Senhor, eu me refúgio no Bhagavad, na Lei e na Ordem. Digne-se a aceitar-me por teu discípulo, até o fim de meus dias, me refugindo no Senhor. E o Bem-aventurado lhe disse: Considere antes ó Simha, o que você vai fazer. Convêm que as pessoas de sua categoria não façam nada sem uma reflexão madura. A fé de Simha aumentou, dizendo ao Bem-aventurado: Senhor, se outros Mestres conseguissem tornar-me discípulo deles. Levariam em procissão seu estandarte pela cidade de Vaisali, gritando: Sinha, o general dos exércitos do rei, já é nosso discípulo. Pela segundo vez, eu digo, ó Senhor, que me refúgio no Buda, no Dharma e na Sangha. Digne-se a receber-me por discípulo, a partir de hoje e até o fim de meus dias. Porque me refugio no Senhor. E o Buda lhe respondeu: Durante muito os Nirgranthas receberam oferendas em suas casas. É justo que doravante você não negue sua esmola a eles. Alegre e feliz, Simha replicou: Senhor, eu ouvira dizer: O asceta Gautama ensina que só a ele e aos seus discípulos deve ser dada esmola. Todavia, o Senhor me exorta a que também a dê aos Nirgranthas. Por mais esse motivo me refúgio no Buda, na Lei e na Ordem. Abraço. Davi.