segunda-feira, 2 de março de 2026

A ANIQUILAÇÃO

Budismo. Livro O Evangelho de Buda. Vida e Doutrina de Sidarta Gautama. Por Yogi Kharishnanda. A ANIQUILAÇÃO. Numa ocasião, muitos cidadãos ilustres se reuniam na Casa do Povo e elogiavam o Buda, o Dharma e o Sangha. Entre eles se encontrava Simha, general dos exércitos reais, que pertencia a seita dos Nirgranthas, que dizia consigo: "Verdadeiramente o Bhagavad deve ser o Buda, o Santo. Quero vê-lo". Simha aproximou-se de Iryaraputra, o chefe da seita e disse-lhe: "Senhor, desejo ir ver o asceta Gautama". Iryataputra respondeu-lhe: Por que você, Simha, sabe que as ações dão seus resultados. Que ver o asceta que ensina aos seus discípulos a doutrina da inação e nega as consequências das ações? Por isso não teve Simha mais tanto desejo de ir ver o Gautama. Porém, como Simha ouvisse novamente enaltecerem o Buda, o Dharma e o Shanga, seu desejo de ir ver o Bem-aventurado foi reavivado. Contudo também dessa vez Iryataputra o dissuadiu. Todavia, pela terceira vez Simha ouviu elogios a grandeza do Buda, do Dharma e do Sangha ficou pensando. Certamente o asceta Gautama deve ser o Santo Buda. Irei vê-lo mesmo sem o consentimento dos Nirgranthas. Simha foi ver o Bhagavad e disse-lhe: Senhor, ouvi dizer que o asceta Gautama nega as consequências das ações ensinando a doutrina da inação. Dizendo que as ações dos homens não recebem recompensas, porque proclama a aniquilação. Responda-me, senhor: É certo que que ensinas que a alma do homem morre e se aniquila? Peço-lhe que me esclareça se os que dizem tal coisa enganam-se ou levantam ou levantam falso testemunho? O Bem-aventurado respondeu-lhe: Em parte, ó Simha, dizem a verdade os que assim falam de mim, mas em outra erram. Ouça-me: eu ensino que não devemos pensar, falar ou agir mal. Ensino que não devemos consentir com os estados de ânimo ou com as sinistras disposições. Ensino que nossos pensamentos, palavras e ações devem ser justas e que devemos estabelecer disposição de ânimo harmônicas. Ensino, ó Simha que se tem que aniquilar os maus pensamentos, palavras e ações. E quem os anula e se livra deles de sorte que jamais rebrotem, aniquila a personalidade. Prego o aniquilamento do egoísmo, da luxúria, do ódio e do erro. Mas não prego o aniquilamento da bondade, da compaixão, do amor e da verdade. Digo que os maus pensamentos, palavras e ações são abomináveis, e que a virtude e a verdade merecem louvor. Se alguns ensinam que o nirvana é a aniquilação da alma, diga-lhes que mentem. Se alguns ensinam que o nirvana é vida separada, diga-lhes que se enganam. Porque ignoram a Verdade, não veem a luz que brilha através de suas lâmpadas partidas. Não sabem que a felicidade está fora da existência do tempo e do espaço. Simha respondeu: Resta ainda uma dúvida na minha mente. O senhor quer dissipá-la de modo que eu possa compreender o Dharma que ensina? O Senhor Buda consentiu e Simha prosseguiu: O Bhagavad, sou soldado e por ordem do rei cumpre-me o dever de respeitar a lei e de combater por ele. Se o Tathágata prega a bondade sem limites, o amor ao inimigo e a compaixão por todos que sofrem, permitirá castigo para os criminosos? Acreditarão que não é lícita a guerra para defender nossos lares, nossas mulheres, nossos filhos e nossas terras? A doutrina da renúncia prescreve que devemos deixar o malfeitor agir a seu bel prazer. Não resistir e deixar que nos roubem o que nos pertence? Acredita o Tathágata que a guerra é ilícita quando promovida por uma causa justa? Ao que Buda respondeu: O Tathagata (O Buda usa esta palavra referindo-se a si mesmo) ensina que o culpado merece o castigo, e o digno de favor deve ser favorecido. No entanto, também ensina que não se deva fazer sofrer nenhum ser vivente, mas ter o coração cheio de amor e compaixão. Esses dois ensinamentos não são contraditórios, porque quem recebe castigo pelos seus crimes não sofre por maldade do juiz. Mas sim, em consequência de sua culpa. Suas más ações lhe acarretaram o mal que lhe impõe o executor da lei. Quando um magistrado castiga, deve estar livre de todo ódio. E o criminoso condenado à morte deve considerar que o seu suplício é consequente do seu crime. Se ele compreender que o castigo lhe purificará a alma, alegrar-se-á da morte. O Tathagata ensina que é deplorável toda guerra entre os homens. Porém não condena os que guerreiam por uma causa justa. Depois de haver esgotado todos os meios para manter a paz. O causador da guerra merece execração - aversão, desprezo. O Tathagata ensina a total renúncia à personalidade, contudo não ensina que a pessoa se entregue as potestades sinistras. Deve haver luta entre a individualidade e a personalidade, pois a luta é a vida terrena. No entanto, o combatente deve abster-se lutar contra a verdade e a justiça, no interesse de sua personalidade. Aquele que luta pelo interesse egoísta de celebridade, grandeza, poder ou riqueza, não receberá recompensa. Mas o que combate pela justiça e a verdade, receberá o galardão, porque será vitorioso, mesmo que sofra alguma derrota transitória antes do triunfo final. O egoísmo não é o recipiente adequado para o êxito, porque a personalidade é frágil e pequena. Pelo contrário, a individualidade é capaz de conter as aspirações nobres de suas personalidade sucessivas. Quando uma personalidade se rompe como uma bolha de sabão. O seu conteúdo harmônico se identifica com a individualidade universal. Quem vai a guerra, ó Simha, mesmo por uma causa justa, está exposto a morrer nas mãos do inimigo, porque esse é o destino dos guerreiros. Porém, o vencedor deve pensar na relatividade das coisas humanas. Brilhante pode ser sua vitória, no entanto, a roda da fortuna pode girar e transformar a vitória em derrota. Todavia, alcançará eterna vitória se extinto o ódio em seu coração se aproximar do vencido e dizer-lhe: Vem agora, façamos as pazes e sejamos irmãos. Grande é um general vitorioso, ó Simha, porém maior é quem vence a sua personalidade. A lei da vitória sobre a personalidade não é pregada para aniquilar a alma dos homens e sim para preservá-la. O que venceu a sua personalidade está mais apto para alcançar o triunfo eterno. Do que quem continua escravo da personalidade. Lute, pois, com coragem, ó Simha. Combatendo com esforço marcial nas batalhas, todavia seja um soldado da verdade e o Tathagata o abençoará. Simha tornou: Glorioso Senhor, Senhor Gloriosíssimo. O Senhor nos revela a Verdade. Magna é a doutrina do Bendito. Certamente o Senhor é o Buda. O bem-aventurado, o Santo. É o Instrutor da humanidade, que nos ensina o caminho da libertação. Quem o seguir, terá luz no caminho. Encontrará paz e santidade. Senhor, eu me refúgio no Bhagavad, na Lei e na Ordem. Digne-se a aceitar-me por teu discípulo, até o fim de meus dias, me refugindo no Senhor. E o Bem-aventurado lhe disse: Considere antes ó Simha, o que você vai fazer. Convêm que as pessoas de sua categoria não façam nada sem uma reflexão madura. A fé de Simha aumentou, dizendo ao Bem-aventurado: Senhor, se outros Mestres conseguissem tornar-me discípulo deles. Levariam em procissão seu estandarte pela cidade de Vaisali, gritando: Sinha, o general dos exércitos do rei, já é nosso discípulo. Pela segundo vez, eu digo, ó Senhor, que me refúgio no Buda, no Dharma e na Sangha. Digne-se a receber-me por discípulo, a partir de hoje e até o fim de meus dias. Porque me refugio no Senhor. E o Buda lhe respondeu: Durante muito os Nirgranthas receberam oferendas em suas casas. É justo que doravante você não negue sua esmola a eles. Alegre e feliz, Simha replicou: Senhor, eu ouvira dizer: O asceta Gautama ensina que só a ele e aos seus discípulos deve ser dada esmola. Todavia, o Senhor me exorta a que também a dê aos Nirgranthas. Por mais esse motivo me refúgio no Buda, na Lei e na Ordem. Abraço. Davi.

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