quarta-feira, 12 de março de 2025

A LEI DAS AFINIDADES

Religião Afro-brasileira. Umbanda. Livro Código de Umbanda. Por Rubens Saraceni (1951-2015). A LEI DAS AFINIDADES. Algumas leis ou princípios divinos, já enunciados pelos mestres em todos os tempos, estão assentados nos meios espiritualistas como verdades. Temos: A lei do Carma. A lei do retorno. A lei de ação e reação. Portanto, aqui vamos comentar a "Lei das Afinidades", cujo enunciado mais conhecido é este: Os semelhantes se atraem e os opostos se repelem". Esse enunciado sintetiza todo um princípio de natureza divina que está no magnetismo dos muitos níveis onde as afinidades acontecem. Mas existem casos em que a atração só ocorre entre os "aparentemente" opostos. Um homem é do sexo oposto ao de uma mulher. Mas essa oposição é aparente, uma vez que, em verdade, são apenas "diferente". Quando se unem, fecham uma ampla afinidade, já acontecida em outros níveis conscienciais. As afinidades podem ter ocorrido no campo racional, área do intelecto. Ou no emocional, área dos sentimentos, assim como no visual, área das formas e aparências. A Lei das Afinidades abrange toda a tela magnética que permeia e flui pelo todo planetário: criação e criatura. Dessa forma, ela atua lado a lado com as Lei do Carma e com a Lei de Ação e Reação, também reguladas pela tela magnética que permeia toda a criação e todas as criaturas. Essa tela abrange os níveis conscienciais, todos os níveis espirituais, todos os níveis energéticos, magnéticos e vibratórios. Nada que ocorre deixa de ressoar nessa tela, invisível aos olhos humanos carnais ou espirituais, mas que pode ser vislumbrada pelos espíritos que, sublimando a "visão das coisas", adquirem uma visão divina. Os regentes da natureza, os Orixás, não nos observam com outra visão além dessa visão divina. Cor, beleza, altura etc ... aos olhos deles, estes atributos humanos são vistos de um ângulo tal que a cor é a tonalidade de nossas vibrações. A beleza é a quantidade de luz que irradiamos, e a altura ou tamanho é o alcance das irradiações coloridas que emitimos. Assim, na visão divina existe cor, beleza e tamanho. Mas, por nos observar de um ângulo divino, possui outros valores para mensurar-nos. Por isso, um ser de natureza não dá o menor valor aos nossos tão caros atributos físicos. Na escala visual, a partir de um nível ou grau, os valores são substituídos pelos atributos íntimos do ser visualizado - sentimento. Um espírito é visto unicamente pela sua cor, luz e irradiação. Mas ... voltando à Lei das Afinidades sem que dela tenhamos nos afastado, ela regula a aproximação ou a repulsão entre os seres, e estas coisas ocorrem em todos os níveis conscienciais e graus evolutivos. As afinidades energéticas acontecem naturalmente logo a primeira vista e ao primeiro contato. Mas, no nível mental, ela começa a acontecer somente após trocas de energias em níveis pessoais ou individuais. É muito comum vermos uma pessoa em uma festa, ou em uma palestra, e nos sentirmos atraídos pela irradiação, luz e cor que ela nos envia. Ainda que não tenhamos a visão dessas qualidades. Mas a afinidade natural acontece, independentemente de nossa vontade, tudo ocorre naturalmente. Também é comum que, após uma primeira reação de distanciamento - antipatia - ouvindo as ideias de um não afim visualmente, venhamos a sentir-nos atraídos pelo conteúdo oculto daquela pessoa. Aí a afinidade se processa na área do magnetismo, que escapa a cor, luz e irradiação. Magnetismo é o acúmulo energético que acontece no mental de um ser em função da intensa vivência íntima de sentimentos positivos ... ou negativos. Sendo que as atrações ocorrem em ambas as polaridades magnéticas. É comum sentirmos atraídos por um humorista chulo, uma atriz devassa, ou um personagem sanguinário, não? Sim, isso acontece. E isso ocorre porque nós possuímos em nosso magnetismo os dois polos. Uma pessoa, se colocada diante de um assassino armado, desmoronaria. Mas, assistindo a uma peça ou filme, torce para que matem o homicida cruel. Nesse caso específico, a afinidade está ocorrendo entre o negativo do assistente e sua reação a uma ação negativa. Na Lei de Ação e Reação, o mais correto seria a lei desarmar o assassino e interná-lo. Todavia a reação vai processar-se exatamente no polo negativo dessa lei que, quando acionado, anula o iniciador de uma ação negativa. Aí a afinidade não acontece em desacordo com a lei. Apenas processou-se em seu polo negativo, que nada mais é que a Lei de Talião ou do "olho por olho e dente por dente", quem matou tem de ser morto. Por isso, os defensores da pena de morte têm seus adeptos, e aqueles contrários a ela também os têm. Podemos encontrar as afinidades com o polo negativo da Lei de Ação e Reação nos executores da Lei nas Trevas. Já o polo positivo da lei, é encontrado nas esferas da luz, onde nenhum espírito deseja a anulação de um oposto seu nas Trevas. Apenas esforça-se para transformá-lo em um ser afim, magnética e emocionalmente falando. Essa Lei das Afinidades é responsável pelo direcionamento dos espíritos após o desencarne ou a separação com a matéria. A separação até pode ocorrer com o auxílio de espíritos socorristas, porém o direcionamento que conduzirá o desencarnante à esfera afim com seu magnetismo, espírito algum impedirá que ocorra. Em muitos casos, quando espíritos afins e vivendo nas esferas da luz tentam auxiliar um familiar magneticamente negativo. Sofrem muito ao devido negativismo mental do recém desencarnado. Já que ele mesmo, por uma reação da Lei das Afinidades, começa a deslocar-se para as regiões onde o magnetismo negativo afim o está atraindo. Se acontecer uma tentativa de rete-lo em uma esfera positiva, em um incômodo ele se tornará, causando muita desarmonia ao seu redor. Por essa razão, a Lei possui milhares de abrigos para receber os recém desencarnados, toso eles localizados em um plano em tudo afim com o magnetismo do plano material. Nesses abrigos, os espíritos permanecem até que sejam esclarecidos de seus estados pós desencarne e possam ser orientados para a evolução de acordo com as leis e os princípios da vida na luz. Mas, se a opção for por continuar em uma via negativa, aí o jeito é liberá-lo para que vá ao encontro de seus afins magneticamente negativos. Uma pedra não se sustenta no ar - luz - e um gás nobre não pode ser retido nas entranhas da terra. Tudo é uma questão de afinidade. Essa afinidade no nível da matéria também é responsável pela formação das substâncias no plano material. Assim, átomos afins se unem facilmente e permanecem unidos até que sofram uma ação forte que quebre a ligação estabelecida entre eles, os quais tendem a permanecer unidos desde que em repouso magnético. É c certo que a Física e a Química criaram muitas substâncias a partir da combinação dos átomos de elementos diferentes. Mas isso só é possível se houver afinidade entre eles, os quais, ao se unirem, completam-se e dão forma a novas substâncias. A Lei das Afinidades está presente em tudo. Nos variados tipos de solo e clima, tanto a flora quanto a fauna são completamente afins, e, se forem deslocados para outros ambientes não afins, tendem a perecer ou a ter suas populações reduzidas. Tudo se deve â Lei das Afinidades, a qual regula a natureza em todos os seus aspectos, níveis e formas. A Afinidade, enquanto lei auxiliara da criação, é um princípio imutável e atua também nos sentidos. Esses princípios são sete: Fé. Razão. Amor. Conhecimento. Lei. Sabedoria. Geração ou vida. Conhecemos pelo sentido da fé. A Lei das Afinidades atua com tanta intensidade no sentido da Fé que, se uma religião não nos é afim, dela nos afastamos, dando a impressão de que não cremos ou não amamos a Deus. Mas a verdade é bem outra, desde que encontremos uma religião ou ritual afim com nossas concepções acerca de Deus. Imediatamente nos identificamos com ela, e nossa religiosidade aflora novamente. Muitos, senão a maioria dos fiéis de uma religião, não observam esse aspecto na religiosidade das pessoas e vivem criticando os adeptos das outras formas e modos de se louvar a Deus. Contudo, se conhecessem a Lei das Afinidades, com certeza entenderiam que para Deus não importa como o cultuemos e louvemos. Desde que o façamos, pois Ele, o nosso Criador, não nos "fez" todos iguais, porém tão somente semelhantes. Cada ser é um indivíduo, um espírito e uma alma - natureza- única, gerado em uma inspiração única do único Criador. Então, como podem querer que rezemos pela mesma "Bíblia" se temos concepções parecidas, mas não iguais, sobre como devemos realizar nossa fé em Deus? Se existem tantas religiões, ritos e convicções, todas têm suas funções e seus graus de abrangência extensivo a um grande número de indivíduos mais ou menos afins. Ninguém põe em discussão a unicidade de Deus e muito menos as suas hierarquias auxiliares na regência da criação e das criaturas. Se observarmos, veremos que por trás das aparências só existe uma hierarquia divina, um Único Deus e suas hierarquias celestiais: Anjos, Arcanjos, Querubins, Serafins, Tronos, Poderes etc. Mudam os nomes ou as concepções de como são essas hierarquias, no entanto, os fundamentos são os mesmos. Saindo das religiões mentais e adentrando nas religiões naturais, sempre encontramos um Deus supremo: Zeus, Olorum, Zambi, Tupã. Todavia cada um com suas hierarquias de divindades regentes dos múltiplos aspectos da natureza e da vida. Mas ... se usarmos da analogia e do bom senso, aos poucos iremos identificando qualidades, atributos e atribuições semelhantes em todos os aspectos entre todas as religiões. Isso se deve ao fato de Deus ser único, mas se adaptar facilmente as mais variadas concepções que dele tenhamos. Isso ocorre porque Ele é o Criador de tudo e de todos, e fala a todos o tempo todo, em todas as línguas, em todos os lugares e em todos os níveis de consciência. Hoje, já consciente para estas verdades, às vezes temos dificuldades em entender a razão de tantas discórdias, no plano material, com relação a coisas que não merecem ser discutidas. As diferenças de rituais e as formas e os modos de louvarmos a Deus! Embora hoje isso nos pareça de fácil compreensão, em um passado não muito distante nós também alimentávamos nossas diferenças. Vivendo num meio no qual as dúvidas eram tantas que nos sentíamos perdidos quanto as coisas da fé. Porém, por nossa imensa afinidade com a paz e a concórdia entre os povos, fomos atraídos para junto de irmãos afins. Vivendo em esferas afins com os nossos mais íntimos desejos. Como nos alongamos bastante ao comentarmos a Lei das Afinidades no sentido da Fé, cremos que bastará aos leitores transpor os conceitos aqui expostos aos outros seis sentidos capitais e tudo compreenderão. A Lei das Afinidades está presentes em nossas vidas, na natureza e em Deus. Quanto ao restante, bem, é só o restante! Abraço. Davi


segunda-feira, 10 de março de 2025

A RELIGIÃO DO ISLÃ. Parte X

Islamismo. Manual para o Novo Muçulmano. Por Jamaal Zarabozo (1951 - ). A RELIGIÃO DO ISLÃ. Parte X. Assim, por exemplo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) aboliu todos os contratos em que se cobravam juros, em um discurso em Makkah, onde havia um grande número de recém-convertidos. Portanto, se tais contratos foram fechados antes de se adotar o Islam, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) deixou claro o aspecto proibido do contrato. Definitivamente, uma vez que a pessoa adota o Islam, a partir deste momento, não deve aceitar nenhuma riqueza que seja obtida através de meios proibidos, não se importando se o contrato tiver sido firmado antes ou depois de sua conversão. A pessoa deve crer que este dinheiro é proibido e, portanto, não deve desejar recebê-lo, nem se beneficiar dele. Dada a natureza atual dos contratos, pode ser que não seja possível anulá-lo. Caso a pessoa se veja obrigada a receber o dinheiro, deve se desfazer dele. (Muitas mesquitas têm contas bancárias para receber o dinheiro obtido por meios ilícitos, mas que a pessoa se viu obrigada a receber. Como, por exemplo, juros sobre depósitos. Então, esse dinheiro pode ser utilizado de formas específicas tal como recomendação dos sábios.) Matrimônios prévios ao Islam Não há dúvidas de que o Islam confirma os casamentos realizados fora do Islam ou antes da pessoa abraçar a religião. Há diversas evidências desse fato. Por exemplo, na Surah al Masad, Allah se refere à esposa de Abu Lahab, o tio do Profeta que se opôs a ele com veemência, igual à esposa do Faraó. Vários companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nasceram antes da chegada do Islam e eram considerados filhos legítimos de seus pais. Certamente, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nunca ordenou aos companheiros casados que voltassem a casar sob as condições que o Islam impõe. De fato, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nem sequer perguntava quais eram os detalhes de seus contratos matrimoniais, como por exemplo, se houve ou não testemunhas. Obviamente, as relações consideradas ilegítimas para as religiões anteriores ou a lei sob a qual vivia o convertido, também são consideradas ilegítimas no Islam. Por exemplo, o filho ilegítimo antes de se adotar o Islam continua a sê-lo após a conversão. Por outro lado, todos os filhos nascidos através de um matrimônio legítimo, prévio ao Islam, serão considerados legítimos e os filhos continuarão sendo filhos legítimos do convertido. Uma exceção a este princípio geral de afirmação dos matrimônios prévios ao Islam é quando os esposos estão dentro dos graus proibidos de parentesco. Por exemplo, na antiga Pérsia, os irmãos podiam se casar. Esse matrimônio seria considerado nulo se qualquer um dos cônjuges se convertesse ao Islam. Afora isso, em uma situação em poligamia, se um homem tem mais de quatro esposas, ao abraçar o Islam, deve separar-se de algumas delas para não extrapolar ao limite máximo permitido. Também cabe mencionar outros temas importantes relacionados com a conversão ao Islam. Se um homem e sua esposa adotam o Islam aproximadamente na mesma época, então, seu matrimônio permanece intacto e não haverá necessidade de fazer mais nada. Se um homem casado com uma mulher judia ou cristã adota o Islam, o matrimônio também permanece intacto e não é necessário nada além. Esses casos são claros e não envolvem maiores problemas. Os casos problemáticos são os seguintes: (1) Um homem convertido casado com uma mulher que não é cristã ou judia e não aceita o Islam; (2) uma mulher convertida casada com um homem não muçulmano. Os versículos do Qur’an relativos a estes temas são os seguintes: “Ó fiéis, quando se vos apresentarem as fugitivas fiéis, examinai-as, muito embora Deus conheça a sua fé melhor do que ninguém; porém, se as julgardes fiéis, não as restituais aos incrédulos, porquanto elas não lhes cabem por direito, nem eles a elas; porém, restituí o que eles gastaram (com os seus dotes). Não sereis recriminados se as desposardes, contanto que as doteis; porém, não vos apegueis à tutela das incrédulas, mas exigi a restituição do que gastastes no seu dote; e que (os incrédulos), por sua vez, exijam o que gastaram. Tal é o Juízo de Deus, com que vos julga, porque Deus é Sapiente, Prudentíssimo.” (60:10). “Não desposareis as idólatras até que elas se convertam, porque uma escrava fiel é preferível a uma idólatra, ainda que esta vos apraza. Tampouco consintais no matrimônio das vossas filhas com os idólatras, até que estes se tenham convertido, porque um escravo fiel é preferível a um livre idólatra, ainda que este vos apraza. Eles arrastam-vos para o fogo infernal; em troca, Deus, com Sua benevolência, convoca-vos ao Paraíso e ao perdão e elucida os Seus versículos aos humanos, para que Dele recordem.” (2:221). Trocar o nome ao se converter muçulmano É uma prática bastante comum que os convertidos mudem seus nomes ao abraçarem o Islam. Às vezes isso é feito para que o convertido se sinta mais próximo e apegado à comunidade islâmica. A pergunta lógica que surge é: Essa mudança de nome é um requisito, é algo recomendado ou é simplesmente permitido? Sobre este ponto, Abdul Aziz Ibn Baaz respondeu o seguinte: “Informo-lhes que não existe evidência na Lei Islâmica que exija àquele que se converte ao Islam mude seu nome para um nome islâmico. [A exceção é quando] Existe uma razão islâmica que assim requeira a mudança. Por exemplo, se uma pessoa tem um nome que indica adoração a outra coisa que não Allah, como “servo de Jesus”; ou se a pessoa tem um nome que não é bom e existam outros nomes melhores, como o nome “Áspero”, que poderia ser modificado para “Amável”. O caso é similar com qualquer outro nome que não seja considerado apropriado. Sem dúvidas, é obrigatório mudar o nome se este indica adoração a qualquer coisa que não Allah. Em respeito a outros nomes [desagradáveis], é preferível e recomendado mudá-los. Na segunda categoria, encontram-se aqueles nomes reconhecidos como cristãos e que ao serem mencionados dão a impressão que a pessoa é cristã. Nesses casos, a mudança do nome é boa.” Bilal Philips acrescenta um pouco mais sobre este mesmo tema: “Os novos convertidos, que não conhecem o sistema islâmico de nomes, algumas vezes adotam nomes árabes com o caótico estilo europeu... De fato, os de ascendência africana, às vezes, apagam o sobrenome, pois afirmam que estes nomes são remanescentes da escravidão. Quer dizer, seus ancestrais que foram escravos normalmente adotavam o sobrenome de seus senhores e assim, transmitia-se de geração para geração. Portanto, uma pessoa chamada, por exemplo, Clive Baron Williams e que o nome de seu pai era George Herbert Williams, ao converter-se ao Islam, muda seu nome para, por exemplo, Faisal Umar Nkruma Mahdi. Sem dúvidas, seu nome, segundo o sistema islâmico de nomes, deveria ser Faisal George Williams. Se “Williams” era ou não o sobrenome do antigo dono da plantação onde seus antepassados trabalhavam, não tem importância alguma. Como o nome de seu pai era George Williams, segundo o sistema islâmico de nomes, ele é filho de George Williams... esta prática de novos muçulmanos: apagar o sobrenome, cria muitos ressentimentos entre seus familiares não muçulmanos, o que poderia ser evitado muito facilmente se o sistema islâmico de nomes tivesse sido adotado. Na verdade, o novo muçulmano não tem obrigação de mudar seu “nome cristão” a menos que contenha algum significado não islâmico. Assim, o nome Clive, que em inglês significa “habitante da montanha”, não precisa ser mudado. Ao contrário, o nome Dennis, variante de “Dionísio” (deus grego do vinho e da fertilidade, lembrado e cultuado em orgias ritualísticas), deveria ser mudado por outro... Sem dúvidas, é totalmente aceitável que um muçulmano, recém-convertido ou não, mude seu primeiro nome. Era habitual que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mudasse os nomes das pessoas se estes eram negativos ou não islâmicos. Uma das esposas do profeta se chamava, originalmente, Barrah (piedosa) e ele mudou para Zainab, pois Allah revelou no Qur’an: “Não vos ensoberbeceis, pois Allah conhece bem os piedosos” (53:32). Certamente, o Mensageiro de Allah nunca mudaria o nome de família, por menos islâmicos que fossem... Portanto, pode-se concluir que mudar o sobrenome é contra a lei e o espírito da Lei Islâmica. Devem manter o nome e o sobrenome do pai e, se o pai é desconhecido, o nome e sobrenome da mãe devem seguir o primeiro nome do muçulmano convertido.” Os Frutos da Conversão ao Islam Já foram mencionadas muitas das características mais importantes do Islam. Antes de finalizar este capítulo, quero ressaltar alguns dos frutos importantes que a pessoa recebe ao se converter ao Islam. É importante afirmar que todos os benefícios do Islam correspondem ao ser humano. Allah enviou Sua orientação apenas para o benefício das pessoas. Allah, por Si mesmo, não necessita da adoração dos seres humanos. Ele está isento de qualquer necessidade, mas em Sua Misericórdia, mostrou à humanidade o modo correto de se comportar para assim ter Sua aprovação. Por isso, Allah diz: “Quem se encaminha, o faz em seu benefício; quem se desvia, o faz em seu prejuízo, e nenhum pecador arcará com a culpa alheia...” (17:15). Além disso: os que resistem ao Islam não fazem mais que prejudicar a si mesmos. Allah disse: “Deus em nada defrauda os homens; porém, os homens se condenam a si mesmos.” (10:44). Conhecer a Allah, o Deus, Senhor e Criador. O maior benefício de se converter muçulmano e crescer no Islam é que a pessoa pode conhecer verdadeiramente a Allah. O crente conhece a Allah, não em um sentido impreciso, vazio e filosófico, senão que O conhece em detalhes através de Seus Nomes e Atributos, cujo conhecimento Allah, com Sua graça, explicou no Qur’an e na Sunnah. Cada um dos Seus nomes deveria aumentar o amor do crente por Allah, assim como o temor, acompanhando de uma maior proximidade a Ele através desses sublimes atributos, mediante a realização dos atos de retidão. Ibn Taimiyah disse: “todo aquele que conheça os nomes de Allah e seus significados e creia neles, terá uma fé mais completa que aquele que não os conhece e simplesmente crê neles de uma forma geral.” Ibn Saadi disse também: “Cada vez que aumenta o conhecimento que uma pessoa tem dos belos nomes e atributos de Allah, também aumenta sua fé e a sua certeza se fortalece.” Se a pessoa tem um bom conhecimento dos nomes e atributos de Allah, abre-se para ela a porta da compreensão do que sucede na criação. Isto foi expresso maravilhosamente por Ibn Qaiim quando disse: “Todo aquele que conheça a Allah, conhece todo o resto. Todo aquele que é ignorante de seu Senhor é ainda mais ignorante de tudo que não é Ele.” O efeito deste conhecimento deveria ser tão grande que uma verdadeira compreensão desses nomes e uma vida de acordo com suas implicações deveriam guiar diretamente à complacência de Allah e Seu Paraíso. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse claramente ao povo muçulmano: “Allah tem noventa e nove nomes, cem menos um, aquele que os aprenda e memorize entrará no Paraíso.” (Bukhari e Muslim). O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu o tipo de transformação que acontece quando a pessoa realmente conhece a Allah e, portanto, prova do doce sabor da fé. O Profeta disse: “[Existem] Três características que se uma pessoa possui terá provado o doce sabor da fé: quando Allah e Seu Mensageiro são mais amados para ele que qualquer outra coisa; quando ama a alguém e só o ama por Allah; e quando detesta retornar à incredulidade da mesma maneira que odiaria ser lançado no Fogo.” (Bukhari e Muslim). Há, além disso, outro aspecto muito importante e fascinante. Trata-se de um aspecto ignorado por alguns ainda que Allah o tenha mencionado em diversos pontos do Qur’an. O Islam gera no ser humano um tipo de relação especial com seu Deus e Criador. É uma relação que, tal como é descrita por Allah, leva a pessoa a estar satisfeita com seu Senhor. Em outras palavras, a pessoa desenvolve um apreço por Allah. Allah se aproxima dela. Ela fica satisfeita com Allah porque começa a entender a beleza, excelência e perfeição do Criador e tudo o que Ele quer. Deixa de ser meramente submissão. Àquele que merece tal submissão e obediência e se transforma em apreciação a quem é Allah, o que Ele tem decretado e ordenado e o que Ele fará com os seres humanos. A pessoa se conscientiza que somente com Allah alcançará a complacência absoluta. Assim, o Islam permite à pessoa entender e apreciar seu Senhor e Criador, de tal maneira que se torna muito feliz com seu Senhor, o que, por sua vez, o leva a querer agradar a Ele. Allah disse: “Quanto aos primeiros (muçulmanos), dentre os migrantes e os socorredores (Ansar) do Mensageiro, que imitaram o glorioso exemplo daqueles, Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele; e lhes destinou jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Tal é o magnífico benefício.” (9:100). “Deus dirá: Este é o dia em que a lealdade dos verazes ser-lhes-á profícua. Terão jardins, abaixo dos quais correm rios, onde morarão eternamente. Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele. Tal será o magnífico benefício!” (5:119). Ver também 58:22 e 98:8. A verdadeira felicidade “...Quando vos chegar de Mim a orientação, aqueles que seguirem a Minha orientação não serão presas do temor, nem se atribularão.” (2:38). “Disse: Descei ambos do Paraíso! Sereis inimigos uns dos outros. Porém, logo vos chegará a Minha orientação e quem seguir a Minha orientação, jamais se desviará, nem será desventurado. Em troca, quem desdenhar a Minha Mensagem, levará uma mísera vida, e, cego, congregá-lo-emos no Dia da Ressurreição. Dirá: Ó Senhor meu, por que me congregastes cego, quando eu tinha antes uma boa visão? E (Deus lhe) dirá: Isto é porque te chegaram os Nossos versículos e tu os esqueceste; a mesma maneira, serás hoje esquecido!” (20:123-126). Deus é o criador do ser humano. Afora isso, o que a alma busca é conhecê-Lo e ter uma relação com Ele. Assim, sem esta relação, sua vida estará cheia de penas e pesares. Por outro lado, conhecer Allah e estabelecer com Ele uma relação apropriada lhe proporcionará a verdadeira felicidade. Ao longo da história, os sábios e homens piedosos tentam expressar a alegria e felicidade que entram no coração ao conhecer a seu Senhor. Um famoso sábio do Islam, Ibn Taimiyah, tentou expressar o contentamento que sentiu a partir de sua fé em Allah e boas obras. Disse uma vez: “Neste mundo existe um Paraíso e os que entram nele não poderão entrar no Paraíso da próxima vida.” Também disse: “Que podem me causar meus inimigos? Certamente, meu paraíso e meu jardim estão aqui em meu peito.” Ibn Qaiim, o aluno mais próximo de Ibn Taimiyah e que o visitava freqüentemente na prisão, disse: “Allah sabe que nunca conheci alguém que tivesse uma vida melhor que a dele. [Era assim] Apesar de que se encontrava em circunstâncias sufocantes e não tinha luxos nem comodidades. Ao contrário, ele se encontrava no extremo oposto. Ainda encarcerado, torturado e ameaçado tinha uma vida das mais prazerosas dentre todos os demais; possuía sentimentos leves, força em seu coração e era o mais feliz de todos. Podia-se notar em seu rosto a felicidade na qual vivia. Cada vez que tínhamos medo, más expectativas ou sentíamos que o mundo nos pressionava, recorríamos a ele e bastava vê-lo e ouvir suas palavras para que todos esses maus sentimentos se afastassem. Saíamos cheios de tranqüilidade, força, certeza e paz. Louvado seja Aquele que permite a Seu servo ser testemunha de Seu Paraíso antes de se encontrar com Ele.” Então, este sentimento tão belo, que parte da fé, não era exclusividade de Ibn Taimiyah. Ibn al Qaiim cita outro devoto muçulmano dizendo o seguinte: “Se os reis e os filhos dos reis soubessem a felicidade que vivemos, lutariam por ela com suas espadas... Os devotos deste mundo são desdenhados. Ser vão deste mundo sem haver provado o aspecto maravilhoso que há nele.” Quando lhe perguntaram qual era, respondeu: “O amor por Allah, conhecê-Lo e recordá-Lo... Há ocasiões em que digo: ‘se a gente do Paraíso vive desta maneira, então têm uma boa vida’.” Outro autor afirmou: “[Os frutos da purificação da alma] São os frutos perpétuos para todo o momento. O servo encontra seu sabor, vive sua doçura e se move entre seus prazeres. Cada vez que a pessoa sobe na escala da purificação, esses frutos aumentam de igual maneira.” Ibn Qaiim acrescentou: “Não pensem que as palavras de Allah: ‘Sabei que os piedosos estarão em deleite; Por outra, os ignóbeis, irão para a fogueira’ (82:13-14), limitam-se somente aos prazeres e os inferno da próxima vida. Na realidade, aplicam-se às três etapas [dos seres humanos], quer dizer, a vida neste mundo, a vida no al barzaq [depois da morte e antes da ressurreição, ou seja, no túmulo] e a vida na morada eterna. As almas purificadas vivem com prazer, enquanto as outras estão num inferno. Acaso o prazer não é o prazer do coração e o castigo, o castigo do coração? Que castigo pode ser mais duro que o medo, a preocupação, a ansiedade e a intranqüilidade que sofrem aqueles cujas almas não estão purificadas? [Que pode ser mais duro] Que afastar-se de Allah e da morada da próxima vida, aferrar-se a algo que não é Allah e estar desconectado d’Ele?” Ser justo consigo mesmo Associar companheiros a Allah é uma forma grave de pecado. Em particular, danifica a alma e a dignidade ao se submeter e adorar seres que não merecem, em absoluto, ser adorados. Allah disse no Qur, an, citando Luqman: “Recorda-te de quando Luqman disse ao seu filho, exortando-o : Ó filho meu, não atribuas parceiros a Deus, porque a idolatria é grave iniquidade.” (31:13). Também disse: “Ó fiéis, em verdade os idólatras são impuros...” (9:28). Trata-se de uma impureza espiritual que ilustra que a pessoa está denegrindo sua alma. Uma vez que se entende o conceito de monoteísmo puro e o mesmo é praticado pelo indivíduo, surge um tipo de nobreza (pela falta de um termo melhor) e um sentimento proposital que o acompanha em sua alma. A pessoa se dá conta que não deve se submeter, prostrar nem reverenciar nada, nem ninguém que não seja Allah. Não pode oferecer suas orações a ninguém, exceto Allah, nem tampouco pode pedir perdão a ninguém afora Allah. Não recorre a pessoas mortas que, na realidade, não eram mais do que simples seres humanos. Não se senta ao pé de figuras metálicas ou de madeira que outros seres humanos criaram. Não teme a nenhuma forma de espírito que deve ser acalmado através de sacrifícios. Essa pessoa baseará sua vida na crença de que há apenas um Deus. Todas essas práticas estão proibidas segundo o conceito do monoteísmo. Mas, vai além de uma mera proibição. O indivíduo entende plenamente que todos esses atos não são próprios de um ser humano, quem Allah criou com um fim nobre e especial. Todos esses atos são inferiores ao ser humano e é inconcebível que uma pessoa, em seu juízo perfeito, possa participar deles. Por que uma pessoa haveria de se prostrar e rezar para outro ser humano como ele, que necessita comer e beber para sobreviver? Como pode alguém afirmar que outro ser humano compartilha, nem que seja uma pequena porção, da divindade de Allah r portanto merece que todos os seres humanos se prostem para ele? Ser resgatado de o castigo de Allah Allah disse no Qur’an: “Toda a alma provará o sabor da morte e, no Dia da Ressurreição, sereis recompensado integralmente pelos vossos atos; quem for afastado do fogo infernal e introduzido no Paraíso, triunfará. Que é a vida terrena, senão um prazer ilusório?” (3:185). Certamente, todo ser humano enfrentará a realidade da morte. Depois da morte, cada pessoa terá que se apresentar, frente a seu Senhor e deverá prestar contas de todos os seus atos. Para muitos, suas crenças, atitudes e ações os levarão a apenas a um destino: o castigo e a ira de Allah. Salvar-se desse destino é um dos maiores objetivos que uma pessoa pode alcançar. No Dia da Ressurreição a diferença entre os que creram e os que deixaram de crer será enorme. Veja como Allah descreve o que acontecerá neste dia. Allah disse: “Ó humanos, temei a vosso Senhor, porque a convulsão da Hora será logo terrível. No dia em que a presenciardes, casa nutriente esquecerá o filho que amamenta; toda a gestante abortará; tu verás os homens como ébrios, embora não o estejam, porque o castigo de Deus será severíssimo.” (22: 1-2). “Pois, quando for tocada a trombeta, Esse dia será um dia nefasto, Insuportável para os incrédulos.” (74: 8-10). Os incrédulos, devido às suas atitudes nesta vida e suas intenções de se comportarem sempre segundo a forma de vida que levam, privar-se-ão de tudo de bom que haverá nesse Dia. Allah não os beneficiará de forma alguma e nem sequer os olhará com complacência e aprovação. Como disse Allah, em mais de uma ocasião, sobre os incrédulos. Página 103. Abraço. Davi


sábado, 8 de março de 2025

XI. O EVANGELHO DO BUDA

Budismo. Texto do yogi Kharishnanda Sarawasti (1922-2001). XI. O EVANGELHO DO BUDA. Capítulo oito. A pregação do Buda. O Grão de Mostarda. Um abastado comerciante ficou profundamente aflito ao verificar, um dia, que todas as suas moedas e barras de ouro haviam se transformado em carvão, da noite para o dia; então, recolheu-se ao leito sem mais querer alimentar-se, pois preferia a morte a indigência. Um amigo seu, informado do acontecido, foi visitá-lo e ao ouvir dele a causa do seu sofrimento, ponderou-lhe: O seu ouro se transformou em carvão porque você não aplicou bem a sua riqueza. O ouro avaramente acumulado não vale mais do que o carvão. Mas ouça um conselho. Estenda os seus tapetes no bazar, ponha em cima deles o carvão e venda-o. O mercador seguiu o conselho de seu amigo, e quando os vizinhos lhe perguntavam por que estava vendendo carvão, respondia: É a única coisa que possuo. Algum tempo depois, uma jovem órfã e pobre, chamada Krisha Gotami, passou pelo bazar do mercador e lhe perguntou: Meu senhor, está vendendo também estes montões de ouro? O mercador respondeu-lhe: De que ouro você está falando? Onde está? Krishna Gotami pegou uns pedaços de carvão, que na vista do mercador se transformaram em ouro. O mercador supôs que Krisha possuísse clarividência mental, e a casou com seu filho, pensando consigo mesmo: Para muitas pessoas o ouro não vale mais que o carvão, mas Krisha Gotami transmuta o carvão em ouro. Krisha Gotami teve um filho e este morreu. Esmagada pela dor, ia com o filho morto de casa em casa, pedindo um remédio, mas as pessoas diziam: Está doida; a criança está morta. Finalmente, Krisna Gotami  encontrou um camponês que respondeu à sua súplica dizendo: Não posso dar um remédio para a criança, porém sei de um médico que poderá dá-lo. E Krishna Gotami respondeu: Suplico que o senhor me diga quem é. Vá ver o Budha. Krishna Gotami foi ver o Senhor Budha e exclamou chorando: Meu Senhor e Mestre, meu filho estava brincando entre as flores e tropeçou numa serpente que se enroscou no seu braço. Ficou logo pálido e silencioso. Não posso aceitar que ele deixe de brincar ou que deixe o meu colo. Meu Senhor e Mestre, dê-me um remédio que cure o meu filho. O Senhor Budha respondeu-lhe: Sim, irmãzinha, há uma coisa que pode curar tanto o seu filho como a você se puder consegui-la, porque os que consultam os médicos tomam o que lhes é receitado. Procure um simples grão de mostarda preta; porém, só a deve receber de uma casa onde nunca tenha entrado a morte, onde não tenha ainda morrido pai, mãe, filho nem filha, nem irmão nem irmã, nem escravo nem parente. Aflita, Krisha Gotami foi de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas se compadeciam dela e lhe davam: porém, quando ela perguntava se já tinha morrido alguém naquela casa, lhe respondiam: Ah, poucos são os vivos e muitos os mortos! Não desperte a nossa dor. Agradecida, ela lhes devolvia a mostarda e dirigia-se a outros que lhe diziam: Aqui está a semente, porém já morreu nosso escravo. Aqui está a semente, porém o semeador morreu entre a estação chuvosa e a colheita. E ela não encontrou nenhuma casa onde não tivesse morrido ninguém. Krisha Gotami voltou chorosa para o Sehor Budha, dizendo-lhe: Ah, Senhor, não pude encontrar mostarda em casa onde não tivesse havido morte. Então, entre as flores silvestres, na margem do rio, deixei meu filho que  não queria mamar nem sorrir, e volta para ver o seu rosto e beijar os seus pés, suplicando-lhe que me diga onde encontrar essa semente sem deparar ao mesmo tempo com a morte, pois apesar de tudo não posso crer na morte de meu filho, como todos me disseram e temo tenha acontecido. O Mestre respondeu-lhe: Minha irmã, procurando o que não pode ser encontrado, você achou o amargo bálsamo que eu a queria dar. Sobre o seu seio dormiu hoje o sono da morte o ser que você ama. Agora já sabe que todo mundo chora uma dor semelhante à sua. O sofrimento que aflige todos os corações pesa menos do que se estivesse concentrado num só. Ouça, eu derramaria o meu sangue se ao derramá-lo pudesse deter as suas lágrimas e descobrir o segredo de o amor causar angústia e através de prados floridos nos conduzir ao sacrifício, qual animais mudos conduzidos por seus donos. Nenhum nascido pode evitar a morte. Assim como os frutos maduros caem da árvore, assim os mortais estão expostos à morte desde que nascem. A vida corporal do homem acaba partindo-se como a vasilha de barro do oleiro. Jovens e adultos, tolos e sábios, todos estão sujeitos à morte. Porém o sábio que conhece a lei não se perturba, porque nem pelo pranto nem pelo desânimo obtém a paz, mas pelo contrário, avivam as dores e os sofrimentos do corpo. A morte não faz caso de lamentações. Morre o homem, e seu destino está determinado por suas ações. Embora viva dez ou cem anos, acaba o home por separar-se de seus parentes ao sair deste mundo. Quem deseja a paz da alma deve arrancar da sua ferida a flecha do desgosto, da queixa e da lamentação. Bendito será quem vencer a dor. Sepulte você mesma o seu filho. Extenuada pela dor, Krisha Gotami sentou-se à beira do caminho, pôs-se a meditar no silêncio do entardecer, e disse consigo: Que egoísta sou em minha dor! A morte é o destino comum de tudo quanto vive. Porém, neste vale desolado há um caminho que conduz à imortalidade aquele que elimina de si todo egoísmo. E sufocando o amor egoísta que sentia por seu filho, enterrou-o no bosque. E foi logo refugiar-se no Senhor Budha, e encontrou consolo no Dharma que alivia o coração dilacerado pela dor. Capítulo nove. A FÉ DE SARIPUTRA. O Senhor Budha voltou de Nalanda com inúmeros discípulos e deteve-se num bosque de mangueiras. Aproximou-se dele o venerável Sariputra, que lhe disse, depois de saudá-lo respeitosamente: Mestre, a fé que eu tenho no senhor é tão firme que, no meu entender, não há nem haverá outro maior, no concernente â suprema sabedoria. O Senhor Budha respondeu0lhe: As palavras de sua boca são audaciosas, ó Sariputra. Sem dúvida elas irromperam num momento de êxtase. Conhece por acaso todos os que em épocas passadas também foram Budhas? Não, Senhor, respondeu Sariputra. Você vislumbrou os que num futuro longínquo hão de ser Budhas? Não, senhor. Porém, aos menos, ó Sariputra, conhecerá a mim como Budha vivente, e terá penetrado em meu espírito. Tampouco, senhor. Então você vê, Sariputra, que não conheceu os Budhas do passado, nem vislumbrou os do futuro. Por que, então, uma afirmação tão temerária? Por que um elogio tão desmesurado? Oh, Senhor! Não conheço o coração dos Budhas passados e futuros, nem o seu que agora é. Só conheço os fundamentos de fé. Um rei poderia ter edificado na fronteira do seu reino uma fortaleza, com sólidos muros cimentados, com sentinelas de atalaia para deter os estrangeiros e não deixar entrar mais ninguém além de seus amigos. Mas assim como poderiam existir no muro algumas pequenas rachaduras por onde entrasse um gato e observasse a fortaleza, do mesmo modo eu conheço os fundamentos da fé. Sei que os Budhas passados foram sempre avessos à luxúria, à preguiça, ao orgulho, à dúvida, a todos os vícios e fraquezas que debilitam o homem; que eles exercitaram as cinco modalidades de atividade mental e alcançaram a iluminação. E sei que o mesmo fará os Budhas futuros, e o mesmo o senhor faz. Grande é a sua fé; não a quebre. Capítulo dez. O SERMÃO FINAL. O Senhor Budha assim falou a Ananda, como representante de toda a Ordem: Que espera a Ordem de mim? Preguei a Verdade sem distinção entre a doutrina esotérica (oculta = interna) e a exotérica (externa = pública), pois no tocante à verdade. O Tathágata não tem nada semelhante ao punho cerrado de um instrutor que oculta alguma coisa. Certamente, Ananda, se alguém desejar ser o guia da Ordem e acreditar que é o fundamento da Ordem, deveria dar instruções pertinentes ao governo da Ordem. Por que haveria o Tathágata de dar instruções para o governo da Ordem? Já sou velho, Ananda: tenho 80 anos e término meus dias; e assim como um carro velho roda com dificuldade, do mesmo modo o meu corpo se sustenta com muito cuidado. Meu corpo só está bem quando me abstraio em prece fervorosa, meditando, fora do mundo material. Assim, pois, Ananda, sejam suas próprias lâmpadas. Apoiem-se em vocês mesmos e não em algum sustentáculo externo. Mantendo-se firmes à luz de suas lamparinas, busquem a libertação na Verdade, e não peçam auxílio a ninguém mais do que a vocês mesmos. Porque, como, Ananda, pode um irmão ser lamparina para si mesmo se não se apoia em si, mas em algo externo; se não mantém firme a Verdade e na Verdade não busca a salvação, sem outro auxílio que o seu próprio? Assim, pois, Ananda, já que o irmão mora num corpo, procure vencer as dores que fluem dos desejos do corpo. Que enquanto esteja exposto às sensações, considere-as tal maneira que vença neste mundo a dor resultante das sensações. E aqueles que agora ou depois de minha morte forem lamparinas de si mesmos e buscarem a libertação na Verdade sem pedir auxílio externo, alcançarão a iluminação. Entre no Caminho! Não há dor mais amarga do que o ódio, nem sofrimento como o da paixão, nem engano maior do que o da luxúria e da torpe sensualidade. Entre no Caminho! Muito adiantado já está quem espezinha o vício dominante. Entre no Caminho! Dali fluem as salutares fontes que saciam toda sede. Ali florescem as flores que não murcham e que alegremente acarpetam todos os caminhos. Ali se apressam as horas mais velozes e felizes. Mais valioso que as joias é o tesouro da lei. Sua doçura excede a do favo de mel. Suas delícias excedem a todo deleite. Não matem. Sejam compassivos e não detenham em seu ascendente caminho nem o mais ínfimo ser. Deem e receberão generosamente, porém, não arrebatem de ninguém, cobiçosos, seus bens com violência ou fraude. Não deem falsos testemunhos. Não caluniem. Não mintam. A Verdade é manifestação da pureza interior. Abstenham-se de drogas e bebidas que perturbam a mente. Iluminem a mente. As mentes puras e os corpos puros necessitam do néctar do Soma (planta sagrada da Índia). Não toquem na mulher do próximo nem cometam pecados carnais contra a natureza. Aqueles que não podem quebrar desde já as opressoras cadeias dos sentidos e cujos pés são demasiado débeis para trilhar a estrada pedregosa, devem disciplinar sua conduta de tal modo que todos os dias terrenos transcorram irrepreensíveis, praticando obras caridosas. Devem dar, embora vacilantes, os primeiros passos no caminho óctuplo, vivendo puros, humildes, pacientes, compassivos, e amando todos os seres como a si mesmos, porque o mal é consequente do passado maus e o bem procede de um passado bom. Agindo deste modo, o homem livra-se de sua personalidade, ajuda o mundo, aumenta a sua felicidade na vida futura e aproxima-se da perfeição. Há tempos, na hora do alvorecer, quando eu passeava por um bosque de bambus próximo de Rajagriha, vi o chefe de uma família cingalesa (atual habitante do Sri Lanka) que, ao sair do banho e com a cabeça descoberta, saudava a Terra, o céu e os quatro pontos cardeais, espalhando arroz branco e vermelho com as duas mãos. Por que está saudando assim, meu irmão?, perguntei-lhe. É a regra, respondeu. Nossos pais nos ensinaram que pela manhã, antes de iniciar as tarefas cotidianas, se deve conjurar o mal que vem do céu que nos cobre, da Terra que está sob nossos pés e dos quatro pontos cardeais. Respondi-lhe: Não espalhe arroz, mas antes ofereça a todas as criaturas pensamentos e ações de amor. A seus pais, olhando para o Oriente, de onde brota a luz. A seus mestres, olhando para o Sul, de onde provêm valiosos dons. Á sua mulher e seus filhos, olhando para o Ocidente de onde fulgem suaves e delicadas cores e onde morrem os dias. A seus amigos, parentes e a todos os seres, olhando para o Norte. Aos humildes, inclinando-se para o solo. Aos santos, aos anjos e aos mortos bem-aventurados, contemplando o céu. Procedam, vocês também assim, que conjuração todo mal e saudarão o mundo em suas seis direções cardeais. Capítulo onze. O ANÚNCIO DE SUA MORTE. O Senhor Budha disse a Ananda: Vai agora. Ananda, e reúna na sala capitular os irmãos residentes nos arredores de Vaisali. O Senhor Budha entrou na sala, sentou-se num almofadão já ali colocado para ele, e disse: Ó irmãos, já que vocês receberam e aceitaram a Verdade, e estão compenetrados dela, meditem nela e difundam-na por toda parte, para que a religião se perpetue e subsista para o bem e felicidade dos povos e proveito de todos os seres. Aquele que deixar o seu coração sem freio algum, não alcançará o nirvana. Por isso, vocês devem fugir das excitações mundanas e buscar a paz da alma. Comam para saciar a fome e bebam para apagar a sede. Satisfaçam as necessidades da vida corpórea como a abelha que sorve o néctar da flor, mas sem lhe roubar o perfume. Ó irmãos! É preciso aprender a assimilar as quatro nobres verdades. Reconheçam que já temos perdido muito tempo e peregrinado demais pelo penoso caminho da reencarnação em busca da Verdade. Pratiquem a meditação profunda a que eu habituei vocês. Persistam na firme luta contra o pecado. Mantenham-se constantes no caminho da santidade. Que os seus sentidos espirituais estejam limpos. E se as sete luzes da sabedoria iluminarem a mente de vocês, entrarão no caminho óctuplo que conduz ao nirvana. Saibam, ó irmãos, que não tardará em extinguir-se a personalidade do Tathágata. Assim eu os encorajo e digo: Tudo quanto é composto e complexo tem de envelhecer e morrer. Busquem o eterno e esforcem-se ardorosamente pela sua salvação. A entrada no Nirvana. Por essa ocasião os discípulos foram ao bosque de Upavartana, onde estava o Senhor Budha, e com eles muitas pessoas desejosas de participar da felicidade da presença do Bem-aventurado, que lhes disse: Busquem ansiosamente a Verdade. Não basta que tenham me visto. Libertem-se do pungente aguilhão da dor. Sigam resolutamente o caminho. Um enfermo pode ser curado pela virtude do medicamento, sem ver o médico. Quem não me obedece, me verá inutilmente, ao passo que quem vive retamente, e embora more muito longe, estará junto de mim. Mas quem obedecer ao Dharma (ensinamento), gozará sempre da felicidade do Tathágata. O mendicante Subadra foi ao bosque de Upavartana e disse ao venerável Ananda: Mendicantes de minha Ordem, carregados de anos e de experiências, me disseram que muito raramente aparece na Terra um Budha. Diz-se que esta noite o asceta Gautama vai sair para sempre deste mundo, e embora minha mente esteja conturbada pela dúvida, tenho fé no asceta Gautama e creio que ele será capaz de declarar-me a Verdade e dissipar minhas dúvidas. Terei permissão para ver o asceta Gautama? O venerável Ananda respondeu: Basta, amigo Subadra! Não importune o Tathágata. Ele está muito fatigado. Porém, o Senhor Budha ouviu a conversa de seu discípulo com o mendicante, e disse a Ananda: Não impeça a entrada de Subadra. Deixe que me interrogue porque veio desejoso de aprender e não como o propósito de me molestar. Compreenderá rapidamente. Então, o venerável Ananda disse ao mendicante Subadra: Entre, amigo Subadra, pois o Bem-aventurado o permite. E o Senhor Budha instruiu a Subadra, que, feliz, lhe disse: Glorioso Senhor! Senhor gloriosíssimo! Excelentes são as palavras de sua boca, porque reordenam o subvertido, revelam o oculto, mostram o caminho reto ao viajante perdido e acendem uma luz nas trevas para que todos possam ver, todos os que tiverem olhos. Assim, o senhor me deu a conhecer a Verdade, e refugio-me no senhor, no Dharma e na Ordem. Digne-se a aceitar-me por discípulo até o fim de meus dias. E o mendicante Subadra disse ao venerável Ananda: Grande é o seu proveito, amigo Ananda, e muito boa foi a sua fortuna, por ter recebido durante tantos anos os ensinamentos dos próprios lábios do Mestre. O Senhor Budha disse então ao venerável Ananda: Talvez alguns de vocês pensem que se a palavra do Mestre desapareceu, não terão mais Mestre. Mas não devem pensar assim. Certamente que já não voltarei a tomar corpo, porque venci a dor; porém, se Gautama Sidarta morre, resta o Budha. Que a Verdade e as regras da Ordem sejam o Mestre de vocês quando eu partir, e que a Ordem anule, se convier, os preceitos de pouca importância. Depois, dirigindo-se aos Irmãos, o Senhor Budha prosseguiu: Se algum de vocês tem ainda alguma dúvida, que a exponha livremente, para que mais tarde não se arrependam de não me haver perguntado enquanto eu estava entre vocês. Os irmãos permaneceram silenciosos. O venerável Ananda disse ao Senhor Budha: Certamente creio que entre todos os que aqui se encontram não existe quem tenha dúvida ou receio algum acerca do Budha, da Verdade e do caminho. E o Bem-aventurado respondeu-lhe: Pela fé que você tem. Ananda, asseguro e sei que em toda esta assembleia ninguém duvida acerca do Budha, da Verdade e do caminho, porque todos estes irmãos têm a libertação final assegurada. Ó discípulos! Se conhecem a causa do sofrimento, se obedecem ao Dharma e seguem o caminho da salvação, talvez digam que o fazem em respeito ao Mestre. Os irmãos responderam-lhe: Senhor, não o diremos. E o Bem-aventurado prosseguiu: Dos seres que vivem encerrados na ignorância como num ovo, eu sou o primeiro que lhe rompeu a casca e alcançou a iluminação. Assim, discípulos, sou a primícia desta humanidade. Assim é, Senhor. E o Bem-aventurado acrescentou: A destruição é inerente a todo composto; porém a Verdade durará para sempre. Trabalhem com afinco pela libertação de vocês! Essas foram as últimas palavras do Senhor Budha. Caiu em meditação e expirou tranquilamente. Livro O Evangelho de Budha. Vida e Doutrina de Sidarta Gautama – O Inspirador do Budismo. Abraço. Davi.


quinta-feira, 6 de março de 2025

PSICANÁLISE E RELIGIÃO

Psicanálise. Editor do Mosaico. Interessante esse artigo (Psicanálise e Religião) que você me enviou Samuel. Penso ser uma análise crítica de um tema contemporâneo inserido em nossa sociedade brasileira pós-moderna tão confusa, doentia e carente de reparações e ajustes em seu modelo cultural vigente. Sigmund Freud tem dois textos (1927) que embasaram seus estudos e pesquisas na formação teoria e clínica da psicanálise. (A). O Mal-estar da Civilização e (B). O Futuro de uma Ilusão, sendo o segundo objeto do tema que estamos abordando. O primeiro fala da formação do processo cultural e social humano em como ele se sedimentou ao longo do tempo. Que elementos foram agregados nesse desenvolvimento e que consequência tiveram nos grupos sociais que emergiram a partir deles. A cultura é vista por Freud como um sistema do inconsciente coletivo humano que desde os primórdios da coletividade é passado como um arquétipo de socialização para a preservação do indivíduo, contra os danos advindos de flagelos terrestres e celestes que fortuitamente acontecem em determinados períodos. A sociedade é o âmbito de práticas e ofícios que interligam as pessoas para o bem comum, mas o ponto de inflexão onde os problemas psíquicos: neuroses, histerias, pulsões, surtos psicóticos, traumas e outras patologias são manifestados expõem os desajustes e diferenças que o sistema cultural não consegue solucionar. Algumas ideias são claramente expostas no artigo e enumero algumas. 1. A tentativa da vulgarização da psicanálise. Se Sigmund Freud (1856-1939) de onde está tivesse acesso a este texto, penso, que pelo menos duas coisas ele sentiria: uma grande tristeza e uma extrema irritação. A princípio para entendermos de uma maneira global o assunto, a psicanálise freudiana até os nossos dias não é considerada uma ciência como é dito no artigo. Um dos discípulos de Freud chamado Jacques Lacan (1901-1981) empreendeu um enorme esforço intelectual em suas conferência psicanalíticas para que a psicanálise fosse reconhecida como ciência mas não logrou sucesso. Mesmo matematizando e colocando em linguagem lógica vários conceitos como: libido, id, ego, superego, complexo de Édipo, consciente, inconsciente e outros. Lacan dizia que o homem é um número racional de valor: 0,66 sendo impossível chegar a ser um inteiro devido a sua complexidade e incompletude. Postulou também a noção Aristotélica de Vazio e Nada no ser humano como maneira de mensurar os questionamentos inconscientes, usando para isso simbologias com algarismos significativos de números reais na base 10. Suas consistente abstrações não angariaram o tão almejado título de ciência para a psicanálise. Não discutiremos esse assunto específico porque foge de nosso propósito. Lacan tem uma famosa frase: "O ser do homem não pode ser compreendido sem sua loucura, assim como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite da liberdade". Nesse argumento Lacan expõe o que muitos filósofos ponderaram a séculos atrás que é o perigo da liberdade, sendo que racionalmente o homem não sabe usá-la para seu proveito e do próximo. Assim o impasse entre a loucura e a liberdade sendo um dos objetivos da investigação psicanalítica Lacaniana a tentativa de conciliar pela análise teórica esses dois extremos. Mas isso não impediu o sucesso da psicanálise como tratamento clínico de situações psíquicas e traumáticas pois a agenda dos (bons) analistas estão cheias com esperas para ser atendido por um deles. Sendo também o valor das análises compatíveis para poucos que dispõem de condições para tal. A psicanálise é uma "pseudo" ciência com tradição entre os principais países ocidentais e expandindo-se entre as nações orientais (China, Japão e Índia dentre outras) mais influentes. Assim essa massificação da psicanálise no Brasil como é relatada no texto é preocupante pois produz insegurança e desviou das ideias e objetivos que Freud postulou no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. 2. A suposta reconciliação entre psicanálise e religião. Os conceitos que Freud desenvolve em seu livro O Futuro de uma Ilusão mostram enfaticamente que a psicanálise e religião são duas linhas paralelas que nunca se encontrarão. Freud via a religião como um entorpecente (droga) que anestesiava as pessoas para que não vissem sua verdadeira situação. Ele diz: "quanto menos um homem conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro terá de mostrar-se seu juízo sobre o futuro". A religião encobre o passado e o presente embutindo um discurso futurista que leva o crente a esperar sempre por um futuro que nunca chega, pois ao morrer ele acha que todos os seus problemas de vícios e deméritos serão solucionados estando amparado pela promessa da esperança porvir. O presente é revelado pelo crente na saciedade do consumismo materialista e as futilidades de bem estar transitórios e descartáveis claro que guardando as devidas proporções. A psicanálise percebe o homem num mundo irreconciliável  e desarmônico tendo que aprender a sua maneira, como lidar com extremos contraditórios nesse plano da existência. O analista apenas tenta fazer com que o paciente tome consciência de suas próprias limitações e busque por si mesmo o melhor caminho para desfazer os nós e amarras que vão nos prendendo ao longo da vida. Outra citação do livro: "O homem que não vai além, mas humildemente concorda com o pequeno papel que os seres humanos desempenham no grande mundo, esse homem é, pelo contrário irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra". Bom falar que Freud conhecia a Torah e o Talmud judaicos pois como judeu aprendeu os principais conceitos do Judaísmo que ele discute em um outro livro famoso chamado Moisés e o Monoteísmo que não vem ao caso, mas Freud aqui nesse trecho insinua que a religião com sua visão distorcida quanto ao futuro distante e imaginário produz homem irreligiosos. Alienados no presente, subordinados em seu passado e manipulados no futuro sem voz ativa e com pouca condição de pensar e questionar o porque realmente está neste mundo e pra que veio a ele. Freud em nenhum momento do livro O Futuro de uma Ilusão que estamos ponderando concluiu pelo extermínio de toda religião, mas disse que ela é uma ilusão. E como tal sempre existirá (religião) pois a ilusão é produzida pelo nosso consciente como um instrumento de barganha para expiar a culpa, ressentimento e pecado que cometemos ao longo da vida. 3. A relação de algumas lideranças pastorais com a psicanálise. Meu argumento tem se desenvolvido na desaprovação do uso da psicanálise para fins de crença como remédio para cura ou resolução de problemas nos mais variados aspectos. Nessa perspectiva da promoção pessoal de quem a usa sem habilidade teórica ou clínica conotando favorecimento ou bônus institucional. Acho segundo a leitura do artigo essa relação promíscua e interesseira, inclusive duvido que esses tratamentos terapêuticos gerem algum resultado positivo. Um ponto que faltou no artigo foi alguns testemunhos de pessoas que foram alcançadas por esses procedimentos psicanalíticos e como elas estão atualmente. Sendo esse aspecto imprescindível para fazermos um juízo plausível sobre esse tema. Sem essa estatística ficamos sem comprovar o "milagre" que foi alardeado no artigo, duvidando inclusive que esse método tenha tido êxito. Sabemos que nas igrejas pentecostais e neo pentecostais as coisas precisam ser imediata e instantânea quando o assunto é cura e alívio do sofrimento. Sendo isso incompatível com a psicanálise. Assim parece trivial sem generalizar, esse suposto tratamento terapêutico. Grande parte desses líderes pousam com ares de pessoas perfeitamente comportáveis, saudáveis física e psiquicamente como se tivessem solucionado todos os seus problemas. Bem ao contrário do que viveu Freud que teve uma infância difícil com um pai judeu dominador e obsessivo que queria coercitivamente passar a religiosidade judaica a seus filhos. Em 1938 com ajuda de amigos do clube de Viena conseguiu fugir da Alemanha nazista que perseguia os judeus acusando-os de ser a maldição do mundo. Esforçou-se sobremaneira para adquirir salvo conduto para as suas 4 irmãs saírem com vida do território alemão naqueles terríveis dias, mas em vão. Elas foram executadas num dos campos de concentração na Polônia para desespero de Freud. Suas duas últimas décadas foram de muito sofrimento pois contraíra um câncer na boca que provocava intensas dores, mesmo assim continuava suas pesquisas vindo a falecer dessa doença. Uma palavra chamou a atenção no artigo "evocar". A evocação é um ritual onde é chamado um ser dos mundos superiores ou inferiores para que tome posse de algum objeto ou de indivíduos em transe ou êxtase.  Muito usado na antiguidade em cerimoniais de iniciação aos mistérios ocultos e hoje vulgarizado com propósito de propaganda e espetáculo de fé e demonização. Passando a ideia de poder e operador de milagre que o condutor da cena encarna como mágico e homem de Deus. "Freud considerava que essa questão sobrenatural entre deuses e demônios era resultado da ambivalência do filho para com seu pai. O pai da psicanálise entendia que as representações mentais do demônio maligno, constituíam exatamente a antítese de Deus, e que a entidade oposta estava muito perto do divino em sua natureza. Uma coisa não se pode negar é que a guerra entre deuses e demônios vem se travando nas mentes dos religiosos fundamentalistas desde épocas remotas. Com a descoberta do inconsciente ficou claro que esses deuses e demônios que os antigos percebiam nada mais são que produtos da psique humana, traduzidas por eles como forças externas personificadas no mal e bem". A psicanálise passa a ideia de que os demônios são instintivos a nosso inconsciente e estarão sempre conosco como representação do mal em oposição ao bem que precisa ser apreciado e experimentado. Assim devemos aprender a lidar com eles (demônios interiores) adestrando-os e domesticando-os, pois o expediente do exorcismo é inútil nesse contexto de pulsação onde mente e corpo devem estar interligados e trabalhando para o bem do organismo físico e psíquico. Freud quando postulava seus primeiros conceitos tem um texto chamado: A Análise Terminável e a Análise Interminável onde discorre sobre a singularidade que cada indivíduo tem no processo da análise clínica, sendo percebido que o universo do psiquismo humano é abissal e o inconsciente individual e coletivo dão forma a esse micro cosmo. Esses conceitos estão em outro livro seu chamado Totem e Tabu onde ele nos alerta com relação a obscura percepção interior do nosso eu, nossos pensamentos projetados no exterior visando o futuro. Elementos tais como imoralidade, castigo, vida após a morte são reflexos do interior profundo do nosso psiquismo sendo exteriorizados nos campos religiosos e relacionais da vida. Os homens reunidos em bandos obedecem pela força, a um pai violento, ciumento, que guarda para si, e expulsa seus filhos a medida que crescem. Prevalecendo a lei do mais forte não havendo laço afetivo. Esses filhos se revoltam e unidos exterminam o "dominador", ou seja, "o pai". Ele faz uma significativa contribuição a antropologia social remontando a origem das instituições sociais e culturais. Relata os ritos dos primitivos fazendo uma breve comparação com a neurose, que está relativamente ligado ao totemismo em relação ao desejo do seu significado original nos mitos e nos costumes dos povos. Diz Freud nesse livro: "A psicanálise dos seres humanos de per si, contudo, ensina-nos com insistência muito especial que o deus de cada um deles é formado a semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende da relação com o pai em carne e osso. Oscilando e modificando de acordo com essa relação e que, no fundo, Deus nada mais é que um Pai glorificado". Reconheceu a incongruência de juntar religião e psicanálise, sendo a mesma coisa que associar água e óleo e dizer que é uma mistura homogênea onde as duas "substâncias" são visivelmente reconhecidas como sendo heterogêneas. Assim a análise em muitos casos é infindável, pois os humanos são um abismo sem fim, vivendo num nada e num vazio repletos de conteúdos simbólicos, imaginários e intuitivos. Freud deve ter recordado do texto no Talmud Judaico correspondente a Eclesiastes "Ele fez tudo apropriado a seus tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade, mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez". Perceba que a psicanálise "vendida" pelos evangélicos está baseada nas crendices religiosas e barganhas espirituais, nas vitrines dos shopping center (templos) e prateleiras dos consultórios pastorais como mercadoria de consumo  para a saúde espiritual e psíquica do cristão. A meu ver um modismo que a elite evangélica está implantando para distrair os fieis com mais um artifício de dominação e repressão dos instintos conscientes de liberdade e opinião que individualizam o ser. Enquanto estas manobras "políticas" continuarem os crentes permanecem reféns de credos e dogmas que os torturam e impossibilitam de viveram suas realidades. Abraço. Davi.    


terça-feira, 4 de março de 2025

CRISTO E KRISHNA - A SEMELHANÇA ENTRE SEUS ENSINAMENTOS

Hare Krishna. www.pt.krishna.comCRISTO E KRISHNA – A SEMELHANÇA ENTRE SEUS ENSINAMENTOS. São muitas as semelhanças entre o Cristianismo em sua essência e a consciência de Krishna (Deus). A razão é bastante óbvia — eles são ambos caminhos para o mesmo objetivo — a consciência de Deus. É impraticável pensar que Deus se restringiria somente a um certo grupo de pessoas baseado na sua origem ou em divisões sectárias. Deus é universal, Ele não pode ser limitado por rituais ou convicções pessoais. Ele se manifesta de modos e formas mais receptivos às pessoas, baseado em: tempo, lugar e circunstância. Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada (1896-1977), o Acharya-Fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (ISKCON), foi perguntado uma vez por um grupo de ministros Cristãos em Melbourne pela posição dele com respeito a Jesus Cristo, Prabhupada respondeu: "Ele é nosso Guru, Ele está orando a Deus, assim ele é nosso mestre espiritual". Descrevendo Jesus Cristo como representante de Deus, Shrila Prabhupada disse: "Nós adoramos o Senhor Jesus Cristo e oferecemos nossas reverências a ele". Em consciência de Krishna o Senhor Jesus é considerado como o filho perfeito de Deus porque ele executa perfeitamente a vontade de seu Pai. Ele desceu como uma encarnação autorizada (shaktyavesha avatara), para ensinar através das palavras e através do exemplo o caminho para retornar ao lar, de volta ao Supremo. Ele exemplificou tolerância, compaixão e pregou rendição total a Deus. Essa também é a essência de todos os ensinamentos Védicos, assim não é surpreendente que há muitas semelhanças na sua filosofia básica. Com essa perspectiva, é interessante comparar alguns dos pontos chaves definidos, entre o Cristianismo e a consciência de Krishna ou bhakti-yoga. Rendição a Deus. Ambas as religiões enfatizam rendição da mente, corpo e alma a Deus como os únicos meios de liberação. Quando o Senhor Jesus Cristo era interrogado pelos Fariseus sobre qual era o maior de todos os mandamentos, Ele respondeu claramente: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o primeiro e o maior dos mandamentos" (Matheus 22,37–38). Semelhantemente todo o conteúdo do Bhagavad-gita é resumido no verso: "Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Eu te liberarei de todas as reações pecaminosas. Não temas" (18,66). Serviço devocional. O apóstolo Paulo disse: "Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Romanos 12,1). No Bhagavad-gita Sri Krishna diz: "Pense em mim e converte-te em Meu devoto. Adora-Me e oferece-Me tuas homenagens. Assim, virás a Mim impreterivelmente. Eu te prometo isso porque és meu amigo muito querido" (18,65). Cantando o santo nome.  Deus e o Seu nome não são diferentes. Na Bíblia é dito "Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para a Glória de Deus Pai" (Filipenses 2,10–11) e "Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Romanos 10,13). A principal oração ensinada por Jesus Cristo começa assim: "Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome" (Matheus 6:9). Podemos ver também: "No princípio era o verbo, o verbo estava com Deus e o verbo era Deus" (João 1,1), "E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Atos 2,21) e "Eu lhes fiz conhecer o Teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e Eu neles esteja" (João 17,26). O Srimad Bhagavatam diz: "Os seres vivos, emaranhados nas complicadas redes de nascimento e morte, podem libertar-se de imediato, cantando, mesmo inconscientemente, o santo nome de Krishna, que é temido pelo medo personificado" (Canto 1, 1-14). Vegetarianismo. Jesus Cristo disse: "Não matarás, mas qualquer que matar será réu de juízo" (Matheus 5,21). O verbo matar é aplicado a matança de pessoas e animais, não vegetais. Quando é só dirigido a pessoas, temos o verbo "assassinar". Portanto é claro que Jesus Cristo se referia aqui a matança de animais também. As escrituras Védicas deixam muito claro que a matança de animais é algo extremamente pecaminoso, que impede o nosso avanço espiritual. Sri Krishna diz: "Se uma pessoa Me oferecer com amor e devoção uma folha, uma flor, frutas ou água, Eu aceitarei." (Gita 9,26). Shri Krishna diz também: "Os devotos do Senhor se liberam de toda a classe de pecados porque comem alimentos que são primeiro oferecidos em sacrifício (oferecidos ao Senhor). Os demais, que preparam os alimentos para gozo pessoal dos sentidos, em verdade só comem pecado." (Gita 3,13). Na Bíblia encontramos várias outras referências ao vegetarianismo: "Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça" (Romanos 14,21). "E disse Deus: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra, e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento" (Gênesis 1,29). Passaram muitos anos e a humanidade decaiu, então foram escravizados, empreenderam guerras, comeram animais e cometeram vários outros atos violentos. Mas os profetas nos falam que um reino pacífico virá o qual será não violento e vegetariano. Onde, "O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leãozinho e o animal cevado andarão juntos e um menino os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; o leão comerá palha como o boi" (Isaías 11,6–7). Jesus é o Príncipe da Paz que introduz solenemente esta nova era de não-violência. Quando os cristãos rezam, "Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu" é uma oração dada a nós por Jesus, que nos obriga a mudar nossas vidas, fazer escolhas que são misericordiosas e amorosas quanto possível. Não haverá nenhuma fazenda de exploração animal nem matadouros no céu. Deus criou cada animal com a capacidade de sentir dor e sofrimento físico ou mental. Mas, nas fazendas de exploração, animais tem seus chifres arrancados, seus bicos queimados e são castrados sem anestesia. Visando a maximização de lucros eles são confinados em cubículos apertados e são alterados geneticamente, de forma que a maioria sofrem deficiências físicas e deformações ósseas porque suas pernas não podem sustentar os corpos cientificamente aumentados. Finalmente eles são transportados em caminhões sem comida e água, muitas vezes através de temperaturas extremas com destino a uma morte amedrontadora e infernal. Jesus Cristo diz: "Portanto, vós orareis assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha o teu reino, faça-se a Tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoados aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal, pois é o reino, o poder e a glória para sempre, Amém." (Matheus 6,9–13). Reações kármicas. O apóstolo Paulo disse: "Não vos enganeis; Deus não se deixa escarnecer; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (Gálatas 6,7). Moisés escrever: "Não te curvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam" (Êxodo 20,5) — "Mas se não fizerdes assim, estareis pecando contra o Senhor; e estais certos de que o vosso pecado vos há de atingir" (Números 23,32) — "Do suor do teu rosto comerás o teu pão, e ao pó tornarás" (Gênesis 3,19). O Bhagavad-gita está baseado na reencarnação e reação kármica, e declara que enquanto o corpo é provisório, a alma nunca morre (Gita, 2,12) e todo o mundo está sofrendo ou desfrutando os resultados das reações kármicas passadas e presentes. Sucessão discipular. O apóstolo João disse: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João 1,1) — "Prosseguiu, pois, Jesus: Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis que eu sou, e que nada faço de mim mesmo; mas como o Pai me ensinou, assim falo" (João 8,28) — "Disse-lhes, pois, Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo que o Filho de si mesmo nada pode fazer, senão o que vir o Pai fazer; porque tudo quanto Ele faz o Filho faz igualmente" (João 5,19). Semelhantemente, todas as escrituras Védicas declaram que a "sabda" ou "palavra de Deus", ouvida de um Guru ou mestre espiritual autêntico é o único modo para fazer avanços espirituais. No Bhagavad-gita, Sri Krishna ordena: "Tenta aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Faze-lhe perguntas com submissão e presta-lhe serviço. As almas autorrealizadas te podem transmitir conhecimento porque viram a verdade" (4:34). O Mukunda Upanishad (1,2-12) declara que um estudante sincero tem que chegar a um guru ideal para receber conhecimento transcendental e esclarecimento. Morada eterna. No livro do Apocalipse é dito: "E ali não haverá mais noite e não necessitarão de luz de lâmpada nem da luz do sol, porque o Senhor os alumiará; e reinarão pelos séculos dos séculos" (Apocalipse 22,5). Semelhantemente Sri Krishna diz: "Essa Minha morada suprema não é iluminada pelo sol ou pela lua, nem pelo fogo ou pela eletricidade. Aqueles que alcançam jamais retornam a este mundo material" (Bhagavad-gita, 15,6). Assim ambas as escrituras falam sobre a morada eterna, indestrutível morada do Senhor e iluminada pelo Seu esplendor. Encarnações do Senhor. O nome de Cristo revela alguma coisa sobre Seu caráter. A palavra Cristo ou "Christos" e a tradução grega do Hebraico "Messias" que quer dizer "o consagrado ou ungido". Nas escrituras Védicas alguém que foi consagrado deste modo ou foi autorizado é chamado um avatar (alguém que desce), mais especificamente um "shaktyavesa avatara" — um que foi autorizado diretamente por Deus para descer para uma missão particular. No Brahma Samhita (Versto 46), é dito "A luz de uma vela que é passada a outras velas, embora queimando separadamente delas, é a mesma em sua qualidade. Eu adoro o Senhor Govinda que se exibe igualmente da mesma maneira nas Suas várias manifestações". Missão. O nome Jesus é derivado do nome Hebraico Joshua ou Jahveh, significando salvação ou libertação. Jesus é chamado assim porque ele salva ou livra os Seus fiéis do pecado. "Ela dará a luz um filho, a quem chamarás Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados" (Matheus 1,21). Semelhantemente, Sri Krishna declara: "Sempre e onde haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e um aumento predominante da irreligião — neste momento Eu próprio desço". (B. Gita 4,7–8). Quando Krishna diz que Ele próprio desce as escrituras explicam que isso significa 1) Ele vem pessoalmente, como fez a 5.000 anos na Sua forma original de Krishna ou a 500 anos atrás como o Senhor Caitanya Mahaprabhu ou 2) Ele manda um representante Seu, como o Senhor Jesus Cristo, Muhammad, ou Srila Prabhupada. Dualidade de Deus e entidade viva. Jesus disse: "Ouvistes que eu vos disse: Vou, e voltarei a vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que vá para o Pai; porque o Pai é maior do que eu" (João 4,28). No Bhagavad-gita está escrito: "As entidades vivas neste mundo condicionado são minhas eternas partes fragmentárias. Por força da vida condicionada, elas empreendem árdua luta com os seis sentidos, entre os quais se inclui a mente" (Gita 15,7). Assim em ambas as filosofias há uma distinção clara feita entre Deus e a entidade viva. Igualdade de todas as entidades vidas. No Gênesis está escrito: "Deus, pois, fez os animais selvagens segundo as suas espécies, e os animais domésticos segundo as suas espécies, e todos os répteis da terra segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era Bom" (Gênesis 1,15). Sri Krishna diz: "Ó filho de Kunti, deve-se compreender que é com o nascimento nesta natureza material que todas as entidades vivas, em todas as espécies de vida, tornam-se possíveis, e que Eu sou o pai que dá a semente" (Gita 14,4). Deus é o Pai de todas as entidades vivas, não só os seres humanos. Portanto não temos o direito de matar ou maltratar outras entidades  vivas desnecessariamente. Perdão. Ambas as filosofias ordenam que aqueles que estão aguentando os resultados das suas atividades, boas ou ruins, mas se rendem imediatamente a Deus são perdoados de todos os pecados. Esta rendição deve ser genuína, pelo coração, não só pela língua. O significado de perdão é que uma vez perdoado, a atividade ofensiva é parada. Por exemplo o senhor Jesus perdoou uma adúltera com a proibição "E disse-lhes Jesus: Nem eu te conheço; Vai e não peques mais" (João 8,11). Vemos também: "Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados são como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã" (Isaías 1,18). Sri Krishna diz: "Mesmo que alguém cometa ações das mais abomináveis se tiver ocupado em serviço devocional deve ser considerado santo porque está devidamente situado em sua determinação. Ele logo se torna virtuoso e alcança paz duradoura. Ó filho,  de Kunti, declare ousadamente que Meu devoto jamais perece" (Gita 9,30–31). Conclusão. Assim nós vemos que há muitas semelhanças nas duas filosofias. Religião significa as leis de Deus. Pode haver diferença em práticas — na realidade haverá diferenças em práticas baseado em tempo, lugar e circunstâncias. Sri Krishna diz que de acordo com o modo da sua natureza a pessoa evolui um tipo particular de fé (Gita 17,3). O sábio que entende isso, procura os caminhos da consciência de Deus, conforme as Suas instruções originais, sem qualquer interpretação incentivada. Mas a essência de todas as religiões tem que ser a mesma — cultivar a constante consciência de Krishna, ou de Deus, e assim desenvolver amor puro por Ele. A vantagem das escrituras védicas, é que nelas nós encontramos descrições detalhadas e científicas desse processo, sem limitações geográficas, culturais ou temporais, que todos podem aplicar em suas vidas, independentemente de sua idade, raça, cor, sexo, nacionalidade, religião etc. www.pt.krishna.com. Abraço. Davi

segunda-feira, 3 de março de 2025

TOURO E ESCORPIÃO

Astrologia. Texto de Ricardo Lindemann. Capítulo Quatro. TOURO E ESCORPIÃO – A astrologia não é uma questão de crença, mas uma questão de Ciência, uma questão de verificação. Por isso, convido os leitores a observarem-se as pessoas de Touro (20 de abril – 20 de maio) e Escorpião (23 de outubro – 22 de novembro), que na sua esfera de relacionamentos, apresentam ou não as características aqui citadas. Agora, vejam bem, as pessoas podem ser de um signo pelo mês do nascimento, podem ser de um signo também pelo dia do nascimento, ou pela hora do nascimento. No primeiro caso, nós vamos dizer que a pessoa é do signo solar porque nasceu no mês de Touro, a partir de 20 de abril até 20 de maio, mas também o fato é que se ela tiver nascido em certo horário, ela terá o Ascendente no signo de Touro, porque existem duas horas por dia em que o signo de Touro estará se elevando no horizonte Oriental. Há também outra possibilidade, se a Lua estiver em certo dia apresentando-se no signo de Touro, o que ocorrerá em média num período de dois dias e um quarto, dois dias e seis horas, dado que nós dividiremos 27,32 dias por 12 signos. Os 27,32 dias correspondem ao mês sideral da Lua, e dividindo em 12 partes, nós vamos ter este resultado. Então, no geral se diz que o signo da Lua é o signo do dia, e o signo Ascendente é o signo da hora, mas na verdade, são maneiras de explicar que nós somos divididos em camadas. Nós podemos ter o signo de Touro no mental, signo solar ou signo do mês, no emocional, signo lunar, ou signo do dia, ou no Ascendente que dá a característica física, e ai sim, o signo da hora. Então, as pessoas não são também em geral um tipo puro de um signo, elas têm mesclas, e essa é a importância de nós fazermos um Mapa Astral, ou Natal, de cada pessoa individualmente, para ver que composições a pessoa apresenta em seu Mapa Astral. Voltemos agora a nossa atenção novamente para o mural da Última Ceia, onde o signo de Touro é representado no Cenáculo por Judas Tadeu, e Escorpião por Judas Iscariotes. É interessante lembrar ainda que a correspondência dos doze signos e dos doze Apóstolos foi descoberta e estabelecida por Emma Costest de Mascheville (1903-1980), em seu magnífico livro Luz e Sombra, da Editora Teosófica, que gostaríamos de recomendar. E, com ela, tivemos a oportunidade de estudar nos últimos sete anos da sua vida, e talvez, assim, captar algo da beleza do seu ensinamento, que era então o florescimento da experiência de toda uma vida dedicada a este estudo. O signo de Touro corresponde ao pescoço, e é representado por Judas Tadeu. O pescoço é justamente a parte mais saliente da sua figura, no mural, bem como no Homem Celeste o Escorpião corresponde aos órgãos sexuais, e estes dois signos ficam assim diametralmente opostos no zodíaco. Por extensão nós poderíamos dizer que há uma relação entre a garganta e os órgãos sexuais. É interessante notar que as crianças, portanto antes da adolescência, antes do corpo ter atividade, propriamente sexual pelo estímulo das glândulas correspondentes, frequentemente têm como ponto fraco do organismo a garganta, porque a polaridade oposta não está propriamente ativa. Então, às vezes, as amigdalites são muito frequentes na infância, etc., e de alguma forma a garganta, o pescoço, abrange a tireoide, a paratireoide. O Touro rege esta região no corpo que abrange a tireoide relacionada à capacidade de acumular os nutrientes no organismo, por isso tem a ver até com a obesidade quando há o mau funcionamento da tireoide, e assim, o armazenamento e a acumulação das condições de sobrevivência através do alimento excedente, que significaria a nossa reserva acumulada. A obesidade já é o excesso de reserva, mas enfim, essa capacidade de armazenar para o futuro, de acumular riqueza, é uma característica tradicionalmente relacionada com o signo de Touro, que é um signo de terra. O oposto, portanto, o Escorpião está associado aos órgãos sexuais e suas glândulas, seja o aspecto dos hormônios correspondestes ao hormônio masculino e feminino, como também todo o processo que está associado à geração de uma nova vida. Portanto o Escorpião está sempre associado, na tradição astrológica, à paixão, e está de uma certa forma caracterizando a sobrevivência do indivíduo. E há um equilíbrio novamente a ser encontrado entre essas duas forças. A posição do Cristo na forma de um triângulo equilátero, que é o símbolo da harmonia, na Astrologia, tem na mão esquerda o símbolo da doação, a mão esquerda está voltada assim para cima, enquanto a direita recolhe, pois está voltada para baixo. Então, nós temos o símbolo de um equilíbrio de duas forças da Natureza em que do lado direito do observador, as estações da primavera e do verão são aquelas nas quais o Sol se doa em luz e calor, e são o símbolo da atividade, enquanto o outono e o inverno, que são a outra face mais obscura que corresponde mais ao lado lunar que, na verdade, é quando o Sol, proporcionalmente, se recolhe, e a luz dele é menos presente naquelas estações. E esse equilíbrio entre esses dois polos é o que nós buscamos de alguma forma na Astrologia. O signo de Touro irá representar a sobrevivência do indivíduo e o acúmulo de matéria como reserva com essa finalidade, enquanto o Escorpião já representa a paixão sexual que vai gerar uma nova vida na sobrevivência da espécie; portanto, são forças polarizadas. E, assim, o Touro representa de alguma forma a fecundidade passiva, enquanto o Escorpião a força criadora, geradora mais ativa. De certa forma, Marte que é o regente clássico de Escorpião, é um planeta chamado masculino, ou ativo, enquanto Vênus, regente de Touro, é chamado de passivo ou feminino. O equilíbrio entre esses dois opostos é que nos conduzirá ao Cristo, que está no centro do mural, que é aquela posição, imparcial na qual nós meditamos, e gostaríamos de citar novamente, o Princípio básico da meditação no Yoga, segundo o Yoga Sutras de Patanjali: "Quando a mente é perturbada por pensamentos impróprios, a constante ponderação sobre os opostos é o remédio". Então, essa é a polaridade que nós temos que complementar meditando no signo oposto, se aplicarmos o aforismo II-33 do Yoga Sutra Citado à prática da Astrologia. Assim verificaremos que o signo de Touro representa a preservação e proteção da vida, o aspecto de uma fecundidade obediente e protetora da matéria, enquanto o Escorpião já representa uma autoridade mais passional dessa força criadora, que representa a transmutação da matéria, e muitas vezes é associado por isso à morte. Então, o signo de Touro é a Física, e o Escorpião é a Química, o signo de Touro é a realização e o Escorpião é a organização. O signo de Touro é aquela afetividade de uma ternura protetora, às vezes até super protetora, os problemas das mães de Touro são clássicos no apego aos seus filhos, enquanto que o Escorpião já tem mais aquela disposição de cortar o que for preciso, tem uma visão mais cirúrgica para enfrentar o perigo e a morte. Costuma-se dizer que ele gosta de viver perigosamente. O Escorpião, na verdade, é um animalzinho frágil. Segundo a tradição, se ele não injetar o veneno no adversário ele irá injetá-lo em si mesmo. Assim, nutrindo nos outros o medo daquele veneno que ele traz na cauda, ele impõe uma certa distância de segurança e por isso ele necessita executar certas punições exemplares. Não que ele possa enfrentar a todos, mas ninguém quer ser o primeiro a enfrentá-lo porque sabe que receberá a punição exemplar. Esse é o símbolo de um animal frágil, que a gente poderia até matar por acidente se pisasse em cima, por descuido, mas por outro lado, representa um animal que às vezes aterroriza as pessoas, porque elas sabem muito bem que ele tem veneno. Da mesma forma, o tipo do Escorpião é de uma fragilidade defendida por uma aparente agressividade, mas se a pessoa souber conquistá-lo, ele se transforma no nosso melhor protetor, no nosso melhor amigo, porque não temerá nem sequer a morte para nos defender. Por outro lado, não convém arranjar inimigos de Escorpião, pois o mesmo que vale para um lado vale também para o outro, e ele nos perseguirá implacavelmente se nós não soubermos conquistá-lo, ou principalmente se ferirmos os seus sentimentos. E, por isso, o Escorpião é considerado como um dos signos mais incompreendidos, assim também, no próprio mural de Leonardo da Vinci (1452-1519), ele é representado por Judas Iscariotes, que é tratado como o traidor do Cristo. Mas, se diz também, que não teria havido a ressurreição do Cristo se não tivesse existido a figura de Judas Iscariotes que produzisse a morte. Por isso, o próprio Escorpião, representado por Judas Iscariotes, é o único que apresenta metade do rosto na luz e metade do rosto na sombra, simbolizando que ele é capaz de transitar entre estes dois mundos, simbolizando que ele tanto representa a morte, quanto a ressurreição. Nesse aspecto da ressurreição, o símbolo usado pelos egípcios para o Escorpião é a Águia. É importante lembrar que no Zodíaco greco-romano, o Escorpião é caracterizado pelo simbolismo do lado sombrio da morte, mas o egípcio prefere o da Águia que é o símbolo da ressurreição e da faceta luminosa da libertação do espírito. E, também, os gregos tinham a outra representação do Escorpião, a Fênix, aquele animal que, segundo a mitologia, ressurgia das cinzas, também era um símbolo de ressurreição. Então, o Escorpião é representado por seu lado morte, na Última Ceia, por Judas Iscariotes, e ali deixou uma cadeira vazia, porque é sabido que Judas Iscariotes se suicida, na tradição bíblica. Dona Emy entendia que, mais tarde, essa cadeira seria ocupada simbolicamente por Paulo que é uma transmutação de Saulo, ou seja, ele representaria o único Apóstolo que viu o Cristo em espírito sem tê-lo visto na forma de Jesus corporal, na forma material; ao contrário de Judas Iscariotes que parece ter convivido com Jesus em seu aspecto corporal, ou físico, mas pelo visto não o compreendeu muito bem, ou não teve a plena visão da natureza espiritual do Cristo. Creio que por isso ela entendia que a faceta escorpiônica da transmutação e da ressurreição estava melhor representada por São Paulo do que por São Matias. Escorpião simboliza, portanto, os extremos da natureza, a vida e a morte, o viver perigosamente, a busca da adrenalina, o sentir a paixão. Por outro lado, o Touro é representado por um animal ruminante, sombra e água fresca é o seu lema, que nada mude, que tudo fique como está, é um signo de terra e fixo. Mas, se observarem o animal que representa o signo de Touro, caracteriza muitas das qualidades de perseverança, porque é no pescoço do Touro que se ata o jugo, a canga, ali ele mostra a sua força carregando com perseverança o carro, puxando a carroça, enfim, todos estes aspectos que estão associados ao signo de Touro que tem por símbolo esse animal. Eu gostaria que observassem o aspecto ruminante do Touro. O ruminante mastiga, aquilo vai ao estômago de alguma forma e volta, aí é ruminado de novo, mascado mais uma vez, engolido de novo, vai ao estômago e volta, então se mastiga mais uma vez e aquilo é ruminado e engolido mais uma vez, não sei por quantas vezes, em algum momento já deve ter perdido o gosto (...). Mas o surpreendente é que o signo de Touro suporta isso com naturalidade, porque ele é por excelência a encarnação, e a manifestação da perseverança e da paciência. As qualidades associadas ao signo de Touro são o seu lado prático, digno de confiança e paciente, de certa forma persistente e hábil nos seus negócios, seu fino senso de valores. Costuma ser um conservador, em geral não gosta de mudanças. Mudanças representa insegurança, possibilidade de um perigo. Touro é essencialmente protetor da vida. Ele é o contrário de Escorpião que busca viver perigosamente para se sentir mais vivo, mais intenso, para sentir mais a adrenalina passional em si. Touro representa essa busca das artes, do amor ao luxo e à boa comida, de uma vida de certa forma confortável, agradável, mas com força de vontade e perseverança, com solidez e determinação na consecução dos seus objetivos, associada a uma afetividade, a uma bondade protetora. Essas são as qualidades tradicionais atribuídas ao signo de Touro, entre outras. Por outro lado, se nós quisermos saber qual é o defeito de um signo, que não é uma boa aplicação da palavra, pois do ponto de vista astrológico todo defeito representa apenas a falta temporária de uma virtude do signo oposto, como todo vício é uma virtude em formação que não teve ainda tempo de desabrochar, o mal não existe por si mesmo, senão como um bem adormecido, e as trevas não são trevas reais, elas são apenas ausência de luz, não existem por si mesmas, pois que na ausência da luz as trevas em luz se transformam, como afirma a Escritura. Vale focar as qualidades de cada signo: as qualidades do Escorpião vão resolver os problemas do Touro vão resolver os problemas do Escorpião, pois são signos opostos e complementares. As fraquezas  associadas ao signo de Touro, portanto, são a falta das virtudes de Escorpião. Muitas vezes o Touro é classificado como possessivo, apegado, pão-duro, preguiçoso ou acomodado, autoindulgente, e pode ser um chato em potencial, porque tendo medo do desafio da vida ele resiste ao processo da mudança que é inevitável no ciclo da vida e, portanto, ele pode acabar tolhendo a liberdade das outras pessoas. É estático nas suas opiniões, sem flexibilidade ou originalidade, às vezes ganancioso, obcecado com rotinas, ou rancoroso, no sentido de guardar mágoas, porque ele se deixa ferir, engole tudo, depois explode de certa forma que nem aquela figura da panela de pressão, que depois de muito engolir, sem válvula de escape acaba explodindo e jogando feijão no teto. É claro que o signo de touro pode superar essas tendências se ele aprender a meditar no signo oposto e desenvolver as suas virtudes. E as qualidades do Escorpião são as emoções e os sentimentos poderosos. A característica fundamental do Escorpião é a sua intensidade, o seu sentimento intenso e passional, sua imaginação e sentido de finalidade, sabendo qual o objetivo que deseja alcançar. O discernimento sutil se apresenta na sua capacidade de decisão e organização, persistente e determinado na consecução dos seus objetivos, ele vai à morte se necessário para atingir seu objetivo, ele não a teme, gosta do desafio, e o único desafio que o Escorpião tem dificuldade de superar é a ausência de desafios. A monotonia e a rotina, que o Touro suporta pacientemente, representa o ponto fraco do Escorpião, ele precisa de novos desafios para se sentir vivo. Há um equilíbrio, portanto, entre esses extremos. A falta das virtudes de Touro costuma gerar os problemas clássicos do signo de Escorpião, atribuídos à vingança, à sensualidade, ao ciúme, ao rancor. Pode ser também obstinado e intratável, ressentido, desconfiado e muito reativo. Se nós atingirmos o Escorpião com uma agulha, ele pode reagir da maneira como se sentir no momento e possivelmente nos jogará uma lança. Porém, em outro dia em que esteja bem, poderá ser atingido com uma lança e reagir apenas como se tivesse sido atingido por uma agulha. Essa desproporção relacionada ao estado emocional do Escorpião, a sua intensa subjetividade, é que o faz, muitas vezes, desconfiado, reticente, intratável e imprevisível. O Escorpião gosta de ter provas de amor, então ele se esconde numa torre de marfim e acha que se o outro de fato sabe amar, terá que conquista-lo e dar provas de amor por ele. Desta forma, ele se isola como uma princesa numa torre de marfim, naquele castelo com ponte levadiça e crocodilos no fosso, subindo a murada do castelo à unha, ainda tendo que matar sabe-se lá quantos cruzados lá no topo, e depois descer para encontrar a torre de marfim no centro do castelo, para tentar conquistar uma Rapunzel que não sabe se deixar-se-á conquistar ou não. Então, caracterizando-se por criar dificuldade, o Escorpião gosta da conquista e torna ela difícil, porque precisa do desafio para dar valor às coisas. Já o signo de Touro é mais de querer proteger, ele simboliza o amor que, às vezes, pode ficar até possessivo nas relações humanas, por outro lado o Escorpião simboliza a paixão que tem lá a sua intensidade, mas que pode se tornar destrutiva se não estiver dentro de um regime de equilíbrio. Como é que nós podemos equilibrar o amor e a paixão? Essa é a grande questão do eixo Touro-Escorpião. Quem não puder, assim, associar harmoniosamente estas características talvez tenha que reencarnar muitas vezes até descobrir o ponto de equilíbrio dessas forças, porque elas são a base de um casamento estável. Se um casamento tiver só o amor possessivo pode sufocar, se tiver só a paixão pode se tornar demasiado provocante e irreverente, demasiado sexuado, então nós temos ai o problema dos opostos e dos extremos. A busca do equilíbrio entre o amor e a paixão é justamente o caminho do equilíbrio entre o Touro e o Escorpião. Se nós meditarmos profundamente sobre isso, veremos que nesse eixo também existe o símbolo da possibilidade da sublimação, aí nós temos aquelas duas serpentes que se enroscam no caduceu (bastão, insígnia) de Mercúrio, simbolizando a sublimação de Marte e Vênus pela sabedoria de Mercúrio. Então, é preciso primeiro resolver essa equação do amor e da paixão para poder sublimar essa energia e libertar o espírito aprisionado na carne, resolvendo assim a problema da morte. O Escorpião simboliza também a morte. Como dizem os chineses: "A criança nasce chorando quando os parentes a recebem sorrindo, enquanto o velho morre sorrindo quando os parentes se despedem chorando". Similarmente é o que dizia Pitágoras (570 AC 495), soma sema, que o corpo é o sepulcro da alma. Assim, quando a alma nasce no corpo ela fica aprisionada, ela chora na criança enquanto os outros a recebem aplaudindo, alegres porque um novo ser nasceu na família, mas quando o corpo morre, o velhinho sorri quando a sua alma se liberta, e são os outros que choram a sua perda porque ele foi para outra dimensão. Mas para que nós possamos ter a percepção direta dessa verdade, da transcendência do corpo, necessitamos primeiramente da transmutação das duas energias equilibradas, referidas no Oriente  pelos canais laterais Ida e Píngala, comparadas na tradição grega, no caduceu de Mercúrio, por duas serpentes, branca e negra, simbolizando com isso o necessário equilíbrio do masculino e do feminino, do Sol e da Lua, que deixa assim equilibrado o canal central chamado Sushumna, o Tao, o equilíbrio, o sattwa, por onde essa Kundalini (energia) sob e dá as asas ao caduceu de Mercúrio, como o Ketchari hindu que é capaz de voar em outras dimensões. Este símbolo se encontra no diagrama do capítulo Júpiter e Saturno. Então, todo o poder criativo está associado assim ao eixo de Touro e Escorpião, e se nós pudermos realizar o equilíbrio entre o amor e a paixão, as energias sexuais assim liberadas nos darão o caminho da transcendência da condição humana e da possibilidade de conhecer diretamente o lado oculto das coisas e a outra face do que está além da morte, que é uma outra dimensão de esplendor de vida, e a Astrologia simboliza, para nós, o equilíbrio dessas forças no eixo de Touro e Escorpião. Livro A Ciência da Astrologia e as Escolas de Mistérios. Abraço. Davi.