quarta-feira, 24 de novembro de 2021

O MUNDO DOS ORIXÁS - IANSÃ

 

Religião Afrodescendente. Candomble. www.ocandomble.com. O MUNDO DOS ORIXÁS – IANSÃ. A missão divina da Mãe Terra (Edan – Onile). Quando a divina e poderosa mãe Edán (Onile Ogboduora) fez sua aparição nesta Terra, ela fez isso com um propósito específico e sagrado. Sua manifestação nesta Terra sinalizou uma nova oportunidade para a humanidade se renovar, progredir e ter uma vida equilibrada. Sua aparição marcou um novo começo para toda a humanidade e não apenas o povo privilegiado dos yorùbá. Seu objetivo e propósito era, e é, de alcance universal. Èdán veio para trazer cura, ordem, harmonia, abrigando preceitos divinos e equilíbrio para as comunidades da Terra em geral e cada ser humano em particular. Você deve se lembrar e ter em mente que Èdán não é um ser humano. Èdán não é yorùbá, chinês, americano, oriental ou ocidental. Èdán é uma personagem divina de habilidades extraordinárias e poderes supra-humanos. Èdán não é deste mundo. Ela vem de um reino glorioso e inconcebível de santidade, beleza e poder. A inteligência, compreensão, força, atratividade e carisma da mãe divina Èdán é extraordinária, penetrante e excepcional. Èdán pode ver a profundidade e a realidade das coisas. Ela não pode ser enganada, manipulada ou subornada, ela não comete erros na administração de sua dispensação (ato de dividir). Ela está além do alcance da influência humana. Ela nunca cairá ou balançará à mesquinhez e a inconstância, que é comum entre a humanidade. Sua visão divina nunca é obstruída e sua atividade não pode ser prejudicada. Sua virtude, caráter, personalidade e carisma são sem igual. Mesmo Ọrúnmìlà reconheceu sua grandeza, eficiência, capacidade e singularidade. Foi, afinal, Ọrúnmìlà quem invocou Èdán, sua amiga e sócia divina para apoio, soluções e alívio! Quando Èdán desceu do reino dos Irunmọlẹ a esta Terra, ela apareceu com a plenitude da autoridade divina, poder e comando. Todos Ajogùn interno, externo e Elénìní fugiram diante dela. Com o poder de sua majestosa personalidade, divinamente atraente, beleza, carisma e àşé ela foi capaz de libertar e entregar os corações e as mentes dos pensamentos negativos, atitudes e energias prejudiciais que oprimiam e dominavam os seres humanos. Èdán foi capaz de desarmar as pessoas de suas preocupações, medos e inseguranças. Para aqueles que faziam, que se deliciavam em fazer o errado, o engano, a opressão e a corrupção ela colocava medo nos seus corações para que talvez eles pudessem mudar suas maneiras sob sua administração do perdão, da ordem, da capacitação e da renovação. Tais era, e é, o poder e a influência da mãe divina Èdán. Juntamente com o inseparável, a importação do ase aos membros sensíveis da humanidade, ela deu preceitos e injunções divinas para seus alunos-discípulos para praticar e implementarem em todos os níveis da sociedade e da vida pessoal. Estes seguidores obedientes e confiáveis ​​de Èdán são os Ogboni porque só existe sabedoria, saúde e longa vida com Èdán se as pessoas obedecerem e praticarem seus preceitos. Do lado de fora uma pessoa constituiria um Ogberi (ignorante) porque aparentemente tinha conhecimento e não praticava a verdade, o que é isso, se não o maior ignorância, infelicidade e loucura. Os princípios divinos de Èdán tornaram-se os veículos de sua divina presença, carisma, poder, apoio e influência-retificando a cura. Ter vivido na época do aparecimento de Èdán sobre esta Terra sagrada foi a experiência mais extraordinária, gratificante e maravilhosa. Isto é, a forma divinamente sancionada, a vida que ela estava revelando à humanidade e continua revelando à humanidade. O teimoso, obstinado e beligerante que não fizer, não vai durar muito tempo sob a administração de Èdán. Èdán é naturalmente amável, justa e compreensiva, como a Sagrada Mãe preciosa e amável que ela é, ela proporcionou a todos o perdão, um novo começo sem referência a erros do passado, uma oportunidade para mudar e a bênção para fazer uso de seu apoio pessoal, garantia, inspiração e poder. Èdán está ciente de nossas fragilidades e fraquezas como seres humanos. Ninguém precisa ter medo por causa de suas fraquezas ou falhas. Èdán não pareceu para fazer-nos ricos e famosos. Èdán apareceu para nos fazer participantes da verdadeira vida, saúde, paz, segurança e prosperidade através da prática de seus ensinamentos claros. Èdán apareceu para nos permitir descobrir a nossa nobre e bela natureza divina. Ela veio para restaurar a dignidade, clareza, transparência, saúde moral e limpeza moral de nossas vidas. Èdán inculca a verdade divina para seus seguidores inteligentes e humildes, quando estamos individual e coletivamente para a direita e para dentro, em seguida, nesta ordem interna, a saúde e a retidão serão reveladas e expressas no mundo. As instruções de Èdán não foram e não são sugestões, mas comandos divinamente concedidos e leis. Eles são vinculativos e obrigatórios para toda a humanidade e especialmente para aqueles que se dedicam a Èdán. Para ser Ogboni significa ser o melhor dos melhores. Significa ser um modelo de impecabilidade, idoneidade e confiabilidade. Para ser Ogboni significa estar pessoalmente convencido a perseguir e fazer o que é certo, correto e adequado independentemente de tempos, lugares e / ou circunstâncias. Para ser Ogboni significa ter auto iniciativa, ser responsável e fazer o que é certo para o bem do amor da verdade e não ser visto, elogiado e aplaudido por outros. Iniciação formal sozinha não faz de você um seguidor de Èdán. O que é importante não é que outras pessoas te chamem de Ogboni, mas que Èdán te reconhece e o aceita como um dos seus verdadeiros, leais e obedientes filhos. O que é importante é que você seja Ogboni 24 horas por dia em seus pensamentos, atitudes, ações e relacionamentos. Ogboni é uma forma global e abrangente de viver. Uma delas é ser Ogboni o tempo todo para que Èdán, ela mesma, possa garantir que você é um Ogboni genuíno, verdadeiro, com honra, humildade, alegria e realização digna. Os ritos de iniciação Ogboni foram desenvolvidos mais tarde por Èdán e seus seguidores, mas, inicialmente, a verdadeira iniciação era uma mudança espiritual de coração, mente e vida como um resultado do encontro com Èdán, sua personalidade, seu caráter, seu carisma, encantamento, inspiração, autoridade e poder, tudo foi expresso e manifestado através de tudo que Èdán fez. Tudo que Èdán fez foi cheio de graciosidade, dignidade e poder. Não foi através de ritos e rituais que Èdán mudou o mundo, mas pela graça divina, pelas maneiras, inteligência e conduta. Èdán por suas maneiras, caráter, personalidade e conduta comandou o respeito, reverência, confiança e obediência de todos aqueles com coração sincero e bom. O verdadeiro símbolo de honra e título de um Ogboni autêntica o caráter, a virtude, a bondade e a imparcialidade que ele pratica. Conformidade exterior e aderência superficial com o protocolo Ogboni para o bem das pessoas não faz de você um Ogboni, não importa o seu título ou o quanto você está velho. Èdán deu seu amor, vida e foco total e dedicação à humanidade. Para ser Ogboni você tem que dar o seu tudo para a missão divina de Èdán e você deve procurar com sua força, habilidade, atividade e meios transferir o conhecimento de Èdán a todos os povos do mundo. Isto é o que é significa ser Ogboni. Ogboni não é uma instituição humana. Ogboni não é um negócio. Ogboni não é um clube. Ogboni é uma vocação divina e sagrada. Èdán era uma revolucionária espiritual, divina, missionária, diplomática e embaixadora da boa vontade e da esperança. Nós também devemos ser isso. Devemos buscar a propagação do Ogbonismo. Não os chamados clubes Ogboni e instituições formais, devemos propagar a verdade e a realidade que Èdán promoveu e instituiu para toda a humanidade. A humildade e o serviço vêm antes da honra, do orgulho, da presunção. Èdán diz que a indiferença precede a queda. Ancestral Pride Temple. Templo Orgulho Ancestral. ORIXÁ IANSÃ. Os orixás são deuses africanos que correspondem a pontos de força da Natureza e os seus arquétipos estão relacionados às manifestações dessas forças. As características de cada Orixá, aproxima-os dos seres humanos, pois eles manifestam-se através de emoções como nós. Sentem raiva, ciúmes, amam em excesso, são passionais. Cada orixá tem ainda o seu sistema simbólico particular, composto de cores, comidas, cantigas, rezas, ambientes, espaços físicos e até horários. Como resultado do sincretismo que se deu durante o período da escravatura, cada orixá foi também associado a um santo católico, devido à imposição do catolicismo aos negros. Para manterem os seus deuses vivos, viram-se obrigados a disfarçá-los na roupagem dos santos católicos, aos quais cultuavam apenas aparentemente. Estes deuses da Natureza são divididos em 4 elementos – Água, Terra, Fogo e Ar. Alguns estudiosos ainda vão mais longe e afirmam que são 400 o número de Orixás básicos divididos em 100 do Fogo, 100 da Terra, 100 do Ar e 100 da Água, enquanto que, na Astrologia, são 3 do Fogo, 3 da Terra, 3 do Ar e 3 da Água. Porém os tipos mais conhecidos entre nós formam um grupo de 16 deuses. Eles também estão associados à corrente energética de alguma força da natureza. Assim, Iansã é a dona dos ventos, Oxum é a mãe da água doce, Xangô domina raios e trovões, e outras analogias. No Candomblé cultuam-se muitos outros orixás, desconhecidos por leigos, por serem menos populares do que Xangô, Iansã, Oxossi e outros, mas com um significado muito forte para os adeptos dos cultos afro-brasileiros. Alguns são necessariamente cultuados, devido à ligação com trabalhos específicos que regem, para a saúde, morte, prosperidade e diversos assuntos que afligem o dia-a-dia das pessoas. Estes deuses africanos são considerados intermediários entre os homens e Deus, e por possuírem emoções tão próximas dos seres humanos, conseguem reconhecer os nossos caprichos, os nossos amores, os nossos desejos. É muito frequente dizer-se que as personalidades dos seus filhos são consequência dos orixás que regem as suas cabeças, desenvolvendo características iguais às destes deuses africanos. Apresento a seguir as descrições dos 16 Orixás mais cultuados. Recordo, no entanto, que existem diversas correntes no Candomblé e por essa razão as informações poderão ser diferentes de acordo com a tradição ou região. ORIXÁ IANSÃ. Dia: Quarta-feira. Cores: Marrom, Vermelho e Rosa. Símbolos: Espada e Eruexin. Elementos: Ar em movimento,qualquer tipo de vento, Fogo. Domínios: Tempestades, Ventanias, Raios, Morte. Saudação: Epahei! O maior e mais importante rio da Nigéria chama-se Níger, é imponente e atravessa todo o país. Rasgado, espalha-se pelas principais cidades através de seus afluentes por esse motivo tornou-se conhecido com o nome Odò Oya, já que ya, em iorubá, significa rasgar, espalhar. Esse rio é a morada da mulher mais poderosa da África negra, a mãe dos nove orum, dos nove filhos, do rio de nove braços, a mãe do nove, Ìyá Mésàn, Iansã (Yánsàn). Embora seja saudada como a deusa do rio Níger, está relacionada com o elemento fogo. Na realidade, indica a união de elementos contraditórios, pois nasce da água e do fogo, da tempestade, de um raio que corta o céu no meio de uma chuva, é a filha do fogo-Omo Iná. A tempestade é o poder manifesto de Iansã, rainha dos raios, das ventanias, do tempo que se fecha sem chover. Iansã é uma guerreira por vocação, sabe ir à luta e defender o que é seu, a batalha do dia-a-dia é a sua felicidade. Ela sabe conquistar, seja no fervor das guerras, seja na arte do amor. Mostra o seu amor e a sua alegria contagiantes, na mesma proporção que exterioriza a sua raiva, o seu ódio. Dessa forma, passou a identificar-se muito mais com todas as atividades relacionadas com o homem, que são desenvolvidas fora do lar; portanto não aprecia os afazeres domésticos, rejeitando o papel feminino tradicional. Iansã é a mulher que acorda de manhã, beija os filhos e sai em busca do sustento. O fato de estar relacionada com funções tipicamente masculinas não afasta Iansã das características próprias de uma mulher sensual, fogosa, ardente; ela é extremamente feminina e o seu número de paixões mostra a forte atracção que sente pelo sexo oposto. Iansã (Oyá) teve muitos homens e verdadeiramente amou todos. Graças aos seus amores, conquistou grandes poderes e tornou-se orixá. Assim, Iansã tornou-se mulher de quase todos os orixás. Ela é arrebatadora, sensual e provocante, mas quando ama um homem só se interessa por ele, portanto é extremamente fiel e possessiva. Todavia, a fidelidade de Iansã não está necessariamente relacionada a um homem, mas às suas convicções e aos seus sentimentos. Algumas passagens da história de Iansã relacionam-na com antigos cultos agrários africanos ligados à fecundidade, e é por isso que a menção aos chifres de novilho ou búfalo, símbolos de virilidade, surgem sempre nas suas histórias. Iansã é a única que pode segurar os chifres de um búfalo, pois essa mulher cheia de encantos foi capaz de transforma-se em búfalo e tornar-se mulher da guerra e da caça. Oyá é a mulher que sai em busca do sustento; ela quer um homem para amá-la e não para sustentá-la. Desperta pronta para a guerra, para a sua lida do dia-a-dia, não tem medo do batente: luta e vence. Características dos filhos de Iansã / Oyá. Para os filhos de Oyá, viver é uma grande aventura. Enfrentar os riscos e desafios da vida são os prazeres dessas pessoas, tudo para elas é festa. Escolhem os seus caminhos mais por paixão do que por reflexão. Em vez de ficar em casa, vão à luta e conquistam o que desejam. São pessoas atiradas, extrovertidas e diretas, que jamais escondem os seus sentimentos, seja de felicidade, seja de tristeza. Entregam-se a súbitas paixões e de repente esquecem, partem para outra, e o antigo parceiro é como se nunca tivesse existido. Isso não é prova de promiscuidade, pelo contrário, são extremamente fiéis à pessoa que amam, mas só enquanto amam. Estas pessoas tendem a ser autoritárias e possessivas; o seu génio muda repentinamente sem que ninguém esteja preparado para essas guinadas. Os relacionamentos longos só acontecem quando controlam os seus impulsos, aí, são capazes de viver para o resto da vida ao lado da mesma pessoa, que deve permitir que se tornem os senhores da situação. Os filhos de Oyá, na condição de amigos, revelam-se pessoas confiáveis, mas cuidado, os mais prudentes, no entanto, não ousariam confiar-lhe um segredo, pois, se mais tarde acontecer uma desavença, um filho de Oyá não pensará antes de usar tudo que lhe foi contado como arma. O seu comportamento pode ser explosivo, como uma tempestade, ou calmo, como uma brisa de fim de tarde. Só uma coisa o tira do sério: mexer com um filho seu é o mesmo que comprar uma briga de morte: batem em qualquer um, crescem no corpo e na raiva, matam se for preciso. Orikí de Oyá. Eèpàrìpàà! Odò ìyá! “ORI O! ORI OYA, MO GBE DE. OYA MESAN, MESAN, MESAN. OYA ORIRI, O, O, O. OYA MESAN, A JI LODA ORISA. ORI O. ORI OL’ OYA, MO GBE DE. ORI MI! ORI OYA , MO GBE DE.” “O ORI do iniciado, O ORI daquele que é iniciado em OYA está aqui. OYA , que se desdobra em nove partes. OYA , a grande mulher, charmosa e elegante. OYA , que se desdobra em nove partes. ORISA que usa a espada ao acordar. O ORI do iniciado, O ORI daquele que é iniciado em OYA está aqui. Meu ORI. O ORI daquele que é iniciado em OYA está aqui”. www.ocandomble.com. Abraço. Davi

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

APÓSTOLO PAULO O INICIADO

 

Fraternidade Rosa Cruz. www.fraternidaderosacruz.org. Livreto Introdutório aos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental. Por Antônio de Macedo. APÓSTOLO PAULO – O INICIADO. Esta mística inserção dum veio comum tradicional tem levado certos estudiosos a pensar que os Mistérios cristãos se inspiraram formalmente nos mistérios do mundo antigo: A acrescentar às tradições do Antigo Testamento e respectiva liturgia sinagogal, as tradições dos cultos mistéricos helenísticos também foram absorvidas e reinterpretadas segundo fórmulas cristãs. Assim, dentre as tradições tomadas das religiões mistéricas contam-se por exemplo: a disciplina arcana com a distinção entre os verdadeiros mystai (os iniciados nos segredos da fé cristã) a quem era permitido participar no serviço esotérico (isto é, a Eucaristia), e os catecúmenos; a introdução de hinos cantados cuja forma dependia do estilo melódico dos hinos mistéricos (além dos Salmos judeus); a manutenção do antigo gesto de mãos erguidas durante a epiclese sacramental que invoca a infusão do Espírito Santo no pão e no vinho no momento da consagração; e muitos outros. Chegado a este patamar peço licença para fazer uma pausa. Talvez não seja má ideia, depois de tantas vezes ter falado em «mistério» e «mistérios», determo-nos um pouco para tentar descobrir o que se esconde por trás de tais palavras, e digo bem, palavras, e não apenas uma palavra só usada umas vezes no plural, outras no singular. Mais do que um ideólogo do saudosismo e um filósofo da estética e da simbólica, Afonso Botelho (1919-1996) questiona-se com frequência, nos seus escritos, acerca das origens e dos arquétipos, e deixa-nos uma primeira observação, límpida e motivadora, sobre a distinção singular plural a que acabo de me referir: (…). O essencial do mistério cristão, para além da separação intransponível da natureza dos dois mundos, está na oferta cativante de uma via para a transpor. (…). Inversa é a configuração do mistério ou dos mistérios gregos. Verdadeiramente, só existem mistérios e não mistério na Grécia, só existem atos de um ritual secreto praticados pelos mystai. O mistério como caminho entre dois mundos naturalmente incomunicáveis só depois da Encarnação do Homem-Deus, só depois de Cristo, se completa. Recuando no tempo, e incorrendo embora no pecado de aqui repetir enxutamente o que vem em diversos livros e dicionários, começarei por esclarecer ao leitor menos lidado nestas porfias que a palavra mistério tem a sua origem primeira na raiz mu-, ou my- (em grego mu), donde derivam dois verbos: mueô , que significa iniciar, sagrar, instruir, e muô, que significa fechar a boca ou os olhos, guardar silêncio. Da mesma raiz deriva o latim mutus, mudo, e o grego muthos ou mythos, o que nos ensina que o silêncio se associa ao mito, tal como silenciosa deverá ser a Iniciação menor, muêsis, que se completa pela Iniciação maior, teletê, sendo que esta última deriva do verbo teleô, que significa simultaneamente «concluir» e «iniciar», ou seja, «iniciar nos mais altos Mistérios», ou nos Mistérios de plenitude ou de perfeição. O mais alto grau de Iniciação também se chamava epopteia, já notaremos adiante porquê. Avançando um pouco mais no mesmo terreno, observamos assim que os mistérios (ta mystêria) são por conseguinte a teoria de ritos (ta drômena, “actos”) que conduzem iniciaticamente do silêncio à perfeição, e isto tanto no Egito antigo como na Pérsia ou na Grécia. O iniciado tem acesso, por secretos cultos, a regiões — ou melhor: a níveis de ser — inexprimíveis ou inefáveis , o que em grego se dizia arrhêta, que por sua própria natureza indizível se tornam naturalmente incomunicáveis, não por qualquer imposição ou obrigação externa de «manter segredo, mas porque o iniciado ao atingir o cerne do sagrado atinge o «inefável», e faltam-lhe meios de expressão adequados para comunicar ao mundo profano o que, na linguagem e segundo a razão desse mundo, seria incompreensível, e sobretudo porque a Iniciação não é uma cerimónia externa, mas, nunca será demais repeti-lo, uma experiência interna. Em todos os mistérios da Antiguidade (Isíacos, Mitríacos, Órficos, Eleusinos, etc.) vigorava a lei dos três graus, que remonta aos tempos miticamente Atlantes e do seu símbolo sacerdotal, o enigmático Tabernáculo no Deserto, configurado no Templo de Salomão pela confraria de «construtores de Templos» regulada por Hiram, símbolo que se prolonga pelos Collegia Fabrorum romanos e medievais e teve o seu apogeu na Ordem de Construtores e Arquitetos (Ordem Maçónica), que foi a escola dos construtores de templos góticos contemporâneos dos Templários. Esses três graus eram, para os mistérios antigos: postulante (o exô, o de fora), neófito ou misto (mystês, plural mystai), e epopta (epoptês, plural epoptai). Ou seja, mediante o rito que lhe proporciona o arrebatamento ao mundo sensível (ekstasis), o postulante torna-se um neófito ou antes um misto, ou aquele que ainda tem os olhos fechados, para se converter finalmente em epopta — da raiz ops, «olho» —, ou aquele que vê as coisas tais quais são. Do mesmo modo se distinguem os graus dos Iniciadores: o dos mystai será o mystagogos, para a Iniciação menor (muêsis), enquanto o dos epoptai é o telestês, para a Iniciação maior (teletê, ou epopteia como dissemos acima). Desde relativamente cedo se começou a observar nas primitivas comunidades cristãs uma graduação igualmente tripartida, tanto nas fases eclesiais atinentes ao culto externo como na fase interna, mais elevada e menos visível. Na fase externa encontramos as seguintes gradações, se assim se po dem chamar: o catecúmeno (katêchoumenos), o batizado ou neófito (neophytos — 1 Timóteo 3, 6), e o presbítero (presbyteros) ou bispo (episkopos, equipolente a epoptês). Os presbíteros podiam transmitir dons espirituais (charismata) por imposição das mãos (meta epitheseôs tôn cheirôn), conforme lemos no epistolário do Novo Testamento (1 Timóteo 4, 14; 2 Timóteo 1, 6). O catecúmeno era o equivalente a postulante, recebia instrução religiosa durante três anos a fim de se preparar para o baptismo e podia assistir a certos ritos do culto. Por sua vez, o presbítero ou bispo (parece que inicialmente ambas as palavras designavam a mesma função) contava com um grau intermédio, o diácono, para o auxiliar sacerdotalmente no seu ministério —, se bem que a palavra diakonos, então, assumisse por vezes o sentido mais amplo de «servidor» (lat. minister) que se poderia aplicar aos sacerdotes, ou ao ministério sagrado, duma forma geral. Está, portanto, a fase formal — externa. Por sua vez os Mistérios cristãos constituem a fase oculta — mais elevada e interna. Dela trataremos, um pouco mais detalhadamente, na segunda e na terceira partes deste livro. Que sempre existiu um esoterismo cristão é indiscutível, embora a Igreja católica se esforce por desmenti-lo, sobrevalorizando o lado exotérico da catequese e da liturgia. Não há que negar a legitimidade do formalismo exotérico da religião cristã, pelo contrário: se bem que as bases iniciais sejam, tudo atesta, esotéricas, a formulação exotérica da doutrina torna-se indispensável para que a chama da respectiva linhagem tradicional não se extinga no mundo — paradoxo que, sendo impossível de se tornear, acarreta consigo um pesado ónus, pois essa formulação exotérica acaba por se constituir, praticamente, na sua única “verdade oficial”. Certas confusões são perniciosas e devemos a todo o custo areá-las e esclarece-las: sem dúvida que falar-se em Cristianismo esotérico, não sendo, em rigor, um erro, pode induzir em erro, porque o Cristianismo em si não é exclusivamente esotérico, é uma religião dada por Cristo para a salvação de todos e comunicável a todos. O que não significa, porém, que não exista um «esoterismo cristão», acessível apenas aos que queiram aprofundar os mistérios do Reino de Deus, como refere Orígenes de Alexandria (184-253) no seu livro Contra Celsum. O próprio Jesus fazia a distinção entre o que podia transmitir às multidões e o que reservava aos discípulos, a quem dizia: “A vós deu-vos a conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não lhes foi dado” (Mateus 13, 11). No passo paralelo do Evangelho de Marcos, Jesus define claramente quem são aqueles a quem tal não é dado: “Aos de fora [gr. tois exô] tudo se lhes dá em parábolas, a fim de que olhando, olhem e não vejam, e ouvindo, ouçam e não entendam, não suceda que se convertam e se libertem” (Marcos 4, 11-12). Os de fora (oi exô), são os profanos ou ainda só postulantes, isto é, os que ficam “fora do Templo” e a quem, portanto, apenas se lhes podem ministrar instruções exotéricas. Paulo dizia o mesmo por outras palavras: «E eu, irmãos, não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Leite vos dei a beber, não comida sólida, pois ainda não éreis capazes» (1 Coríntios 3, 1-2). Alguns mais radicais, como René Guénon (1886-1951), vão mais longe e pensam que as verdadeiras origens do Cristianismo — e sobre as quais o Novo Testamento, na forma como chegou até nós, é esclarecedor sem ser claro — teriam sido de facto esotéricas, mas não na linha de Annie Besant (1847-1933), cuidado!, e que a divulgação generalizada constituiria um fenómeno posterior: Será provavelmente impossível determinar o momento preciso em que o Cristianismo se transformou numa religião no sentido próprio do termo bem como numa forma tradicional destinada a toda a gente, sem distinção. Seja como for tratava-se dum fato consumado na época de Constantino e do Concílio de Niceia, de tal sorte que este não fez mais do que «sancioná-lo», por assim dizer, inaugurando a era das formulações «dogmáticas» destinadas a constituir uma apresentação puramente exotérica da doutrina. (…). É pois evidente que a natureza do Cristianismo original, sendo essencialmente esotérica e iniciática, devia permanecer completamente ignorada por parte daqueles que passaram a ser admitidos no Cristianismo agora exotérico; por conseguinte, tudo quanto pudesse evidenciar ou sequer sugerir o que tinha sido realmente o Cristianismo nas suas origens deveria ser recoberto, aos olhos daqueles, por um véu impenetrável. Sobre a existência de Mistérios cristãos testificam-nos alguns autores antigos, de forma mais ou menos translúcida dentro dos limites em que era possível falar-se de tais matérias. Costumam ser muito invocados, a este respeito, dois teólogos de inspiração platónica da Escola de Alexandria, dos séculos II e III, preocupados com os mistérios alegóricos contidos na essência do Cristianismo e que não excluem uma interpretação esotérica das Sagradas Escrituras. Refiro-me a Clemente de Alexandria (150-216) e ao seu discípulo Orígenes (185-253). Uma das obras mais conhecidas do primeiro, Stromateis (Miscelâneas), é particularmente importante pelo testemunho que nos oferece da existência de Mistérios associados ao Cristianismo primitivo, e a um ensinamento secreto; por exemplo: O Senhor não nos impediu de fazer o bem por causa das leis do sábado; Ele concordou que os que são capazes de compreender partilhassem dos mistérios de Deus e da sua santa luz. Além disso não revelou ao homem vulgar o que não era para ele; revelou-o, sim, a alguns poucos, a quem sabia que tal revelação lhes seria apropriada, e capazes de aceitar os mistérios e de se coadunar com eles. As coisas secretas, tal como o próprio Deus, não se devem confiar por escrito, mas sim exprimirem-se pelo Logos (ou: por palavra). E se alguém nos contrapõe citando a Escritura: «Nada há encoberto que se não descubra, nem nada escondido que se não dê a conhecer» (Mateus 10, 26), responder-lhe-emos que nesta frase (Jesus) predisse que os segredos ocultos serão revelados aos que escutam em segredo, e que tudo o que é velado, como a verdade, será descoberto aos que são capazes de receber as tradições sob um véu, e o que é incompreensível à maioria será claro para a minoria. (…) Os mistérios são transmitidos misteriosamente, de boca a ouvido, ou melhor, não nas vozes do que fala e do que escuta, mas nas suas mentes. Deus concedeu à Igreja que uns sejam «apóstolos, outros profetas, outros evangelistas, outros pastores e instrutores, para aperfeiçoamento dos santos na obra do seu ministério, e para edificação do corpo de Cristo (Efésios 4, 11-12). Estou bem consciente da pobreza desta minha compilação de notas comparada com a graça do Espírito que me considerou digno de o escutar. Mas ao menos será como que uma imagem, que lembrará o arquétipo original àquele que tiver sido tocado pelo tirso. “Dá ao sábio, e tornar-se-á mais sábio ainda”, diz a Escritura (Provérbios 9, 9), e “ao que tem, se dará e terá em abundância” (Mateus 13, 12). Há aqui uma promessa, não de dar uma plena interpretação dos segredos — longe disso —, mas de oferecer um vislumbre para quando nos esquecemos, ou para evitar que isso aconteça. Vejamos um outro elucidativo passo do mesmo livro de Clemente Alexandrino (150-215): Uma vez que a nossa tradição não é recebida em comum nem aberta a todos, e muito menos quando nos damos conta da magnificência do Logos, segue-se que temos de manter secreta “a sabedoria de Deus em mistério, a oculta”, ensinada pelo Filho de Deus. O próprio profeta Isaías precisou de ter a língua purificada pelo fogo para poder revelar a sua visão. Nós também precisamos de ser purificados tanto de ouvido como de língua, se nos propomos partilhar da verdade. Só de pensá-lo, tolhe-se a mão para o escrever, e, observando as palavras da Escritura, cuidarei de não lançar as pérolas aos porcos, não aconteça que as pisem aos pés e, acometendo-nos, nos despedacem. É difícil apresentar argumentos puros e lúcidos, a respeito da verdadeira luz, a pessoas que são como cevados na sua falta de educação. Quase nada há que pareça mais ridículo aos homens vulgares do que estes discursos, nem mais maravilhoso e divinamente inspirado para os que sejam de nobre natureza. “Mas o homem vivente não capta as coisas do Espírito de Deus, pois são loucura para Ele”; os sapientes não anunciam em público o que discutem em concílio. “O que vos digo às escuras, dizei -o à luz do dia, e o que escutais ao ouvido, proclamai-o de cima dos terraços”, diz o Senhor (Mateus 10, 27). Ele quer dizer que recebamos as tradições secretas do conhecimento revelado, interpretadas com a máxima elevação, e, uma vez que as ouvimos murmuradas aos nossos ouvidos, que as transmitamos a quem delas seja digno, e não que as espalhemos sem reserva a qualquer um, quando Ele, para estes, o fez em parábolas. Quanto a Orígenes, um dos maiores eruditos da Patrística grega e profundo conhecedor dos mistérios pagãos, é autor dalgumas obras monumentais — e essenciais — de que se destacam os Hexapla, por exemplo, primeiro intento de se estabelecer um texto crítico do Antigo Testamento a partir de seis versões correntes gregas e hebraicas, que cotejou em seis colunas paralelas e cuja organização lhe consumiu praticamente a vida inteira, além do denso tratado Peri archôn (Acerca dos princípios), que a Igreja considera discutível e que o ascético Rufino de Aquileia (345- 410) traduziu com o título De principiis adulterando-o e eliminando intencionalmente as passagens e as fórmulas mais «suspeitas». Entretanto, e para o que ora nos importa, basta que nos abeiremos do seu elucidativo tratado Contra Celsum, escrito provavelmente no ano 248 em refutação do livro Discurso verídico, ataque demolidor que o filósofo Celso, igualmente neoplatónico como Orígenes mas ferozmente anticristão, desfere contra o Cristianismo. Naquele, Orígenes revela algumas coisas: E nada digo por ora do estudo cuidadoso de tudo quanto está escrito no Evangelho. Cada ponto contém muitas razões difíceis de entender, não só para o vulgo, mas incluso para algumas pessoas inteligentes. Tal, a densa exposição das parábolas que Jesus fazia aos de fora, guardando a explicação delas para os que tinham ultrapassado a audição exotérica e se aproximavam privadamente d’Ele, em casa. Celso admirar-se-ia se conseguisse compreender o motivo que há para se chamar a uns “de fora”, e a outros «de casa». E quem, sendo capaz de contemplar os vários passos de Jesus, não se maravilhará de vê-lo ora subir à montanha para proferir este discurso ou para realizar aquelas outras ações ou transfigurar-se, ora para, em baixo, curar os enfermos, incapazes de subir aonde o seguiam os seus discípulos? Não é porém este o momento de explicar quanto de verdadeiramente venerável e divino contêm os Evangelhos ou o sentido que Paulo tem de Cristo, isto é, da Sabedoria e do Logos de Deus. Baste o que se disse, para contrapor a essa galhofa, indigna dum filósofo, de Celso, que ousa comparar os íntimos mistérios da Igreja de Deus «com os gatos, macacos, crocodilos, bodes e cães dos egípcios. Realcemos, de passagem, a antiga e clássica distinção esotérica que Orígenes faz entre «subir à montanha» (o caminho da Iniciação!), e o que se pode claramente fazer “na planície” aos “enfermos”, isto é, aos incapazes de atingir, enquanto não «curados e purificados, a sublimação dos Mistérios. Noutro passo do mesmo livro, Orígenes aponta sem ambiguidades algumas chaves dos Mistérios com que podemos deparar nas Escrituras judaico-cristãs: Se alguém deseja iniciar-se numa ciência misteriosa sobre o acesso das almas ao divino, não pelo que nos oferece a mais obscura seita citada por Celso, mas por livros originariamente judeus, lidos nas sinagogas, e que são aceites pelos cristãos, e por outros exclusivamente cristãos, leia as visões do profeta Ezequiel no final da sua profecia; ou leia também, no Apocalipse de João, a descrição da Cidade de Deus, a Jerusalém Celeste, bem como a descrição dos seus fundamentos e das suas portas. E se é capaz de entender por símbolos a senda assinalada aos que se hão de encaminhar para o divino, leia o livro de Moisés que tem por título Números e procure quem o introduza nos mistérios que se encontram ocultos nos acampamentos dos filhos de Israel; averigue de que natureza eram os acampamentos ordenados às bandas do Oriente, que são os primeiros; de que natureza eram os orientados para Sul e Sudoeste, os que estavam junto ao mar e os que, por fim, se ordenavam a Norte. Nestas passagens achará decerto ideias não despiciendas, e não, como imagina Celso, ideias que pedem ouvintes néscios e escravos. Compreenderá de quem nelas se fala bem como a natureza dos números aí indicados e que convêm a cada tribo. Expor aqui cada um destes pontos parece-nos inoportuno. Finalmente, Orígenes não pode ser mais límpido quando afirma: E de mais, que haja pontos além do exotérico que não chegam aos ouvidos do vulgo não é coisa exclusiva do Cristianismo, mas também corrente entre os filósofos, que tinham doutrinas exotéricas, e também outras esotéricas. Assim, de Pitágoras havia quem apenas ouvisse dizer: «Ele disse-o»; outros porém eram secretamente iniciados em doutrinas que não deviam chegar aos ouvidos profanos e não purificados. E quanto aos mistérios que se praticam em toda a Grécia e nas terras bárbaras, embora sejam ocultos, não os ataca Celso; por isso em vão tenta desacreditar o que há de oculto no Cristianismo e que não pode entender. A necessidade da reformulação exotérica que vimos acima levou a Igreja a proceder a uma espécie de movimento translacional quanto ao sentido da palavra mistério, e aqui voltamos à tal distinção a que aludimos entre «mistério» e “mistérios” que a Igreja oficialmente adoptou e ensina: por um lado os mistérios enquanto grandes acontecimentos históricos da vida de Jesus ou da Virgem Maria, por exemplo os mistérios da Cruz ou os mistérios do Rosário; por outro, no mistério singularizado como por exemplo o mistério da Encarnação de Cristo, o mistério da Santíssima Trindade, o mistério da Eucaristia ou da Transubstanciação, o mistério Pascal, o mistério da Ressurreição. A palavra “mistério” ocorre 28 vezes no Novo Testamento, 21 das quais nos textos paulinos, e em nenhum caso para exprimir o que acabámos de enumerar e que a Igreja oficializou: com o decorrer do tempo, o duplo significado de verdade divina e de rito sacro que o termo «mistério» abrangia acabou por se repartir por duas palavras, mysterium e sacramentum, ficando a primeira a designar as verdades ocultas do Cristianismo e a segunda os ritos ou as realidades sagradas. O que não exclui o poder que a Igreja detém para estabelecer, pelo mysterium, uma ponte real com o divino, poder que Cristo transmitiu aos apóstolos e que, por sucessão apostólica, é transmitido por sua vez ao longo dos séculos a todo o sacerdote regularmente ordenado. É tempo entretanto de regressarmos a Paulo, que, confirmando quanto mais acima se disse sobre o originário esoterismo cristão, mui lisamente declara: “Se o nosso Evangelho está porém velado, está velado para os que se encontram no caminho da destruição, para aqueles incrédulos cujos pensamentos o deus deste século [gr. aiônos] cegou, para que neles não brilhasse a iluminação do Evangelho da glória de Cristo, o qual é imagem [gr. eikôn] de Deus” (2 Coríntios 4, 3-4). É importante pôr em relevo que foi o mesmo Paulo quem formulou, na sua primeira carta aos Coríntios e em duas frases fundamentais, que as Escrituras cristãs nos dão dois Evangelhos, um exotérico e relacionado com a personalidade mundana: “Resolvi não saber coisa alguma, entre vós, senão Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Cor 2, 2), e outro esotérico e relacionado com a individualidade espiritual: “Não sabeis que sois templo de Deus?” (1 Coríntios 3, 16). Destes “dois Evangelhos” foi o primeiro, como já fizemos notar, que a Igreja católica trouxe à luz da ribalta, e manteve, com o carácter que conhecemos e que tem sido a permanente tónica da sua doutrina cristã. Inácio, bispo de Antioquia (35-108) martirizado em Roma no ano 107 ou 108, foi Padre Apostólico (vir apostolicus), isto é, conheceu e conviveu pessoalmente com alguns apóstolos, afirma-o João Crisóstomo (347-407): Inácio, em primeiro lugar, conviveu nobremente com os Apóstolos e das presenças deles se gozava como fontes do Espírito. Ora pois, que muito é que quem com eles convivia e com eles a todas as horas lidava, e participava dos seus públicos e secretos pensamentos, fosse finalmente tido por digno de tão alta dignidade?»[33]. Inácio, na sua juventude, decerto teria conhecido Paulo (além de João, e talvez outros), sendo Antioquia a sua pátria, e tendo sido de Antioquia que irradiou para o mundo mediterrânico a mensagem de Paulo, os seus caminhos, com toda a probabilidade, ter-se-iam cruzado. O testemunho de Inácio, portanto, convém considerar-se com especial atenção, nomeadamente — e para o caso que nos importa — o seguinte passo duma carta que endereçou à comunidade cristã de Éfeso, onde a recordação de Paulo permanecia muito vívida: «Sois passagem para os que se elevam a Deus, iniciados com Paulo nos mesmos mistérios [gr. Paulou summusai]» (Carta aos Efésios XII, 2). Aquelas palavras gregas, Paulou symmysai, também se podem traduzir por companheiros de iniciação de Paulo. Ou seja, os Mistérios cristãos eram um facto, e uma das provas mais evidentes dá-nos o próprio Paulo, quando auto afirma: Sei de um homem, em Cristo, que há catorze anos — ignoro se no corpo, ou fora dele, Deus o sabe — foi arrebatado até ao Terceiro Céu. E sei desse homem — se no corpo ou fora dele, não sei, Deus o sabe — que foi arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras inexprimíveis [gr. arrhêta rhêmata, lat. arcana verba] que não é permitido a um homem divulgar. — 2 Coríntios 12, 2-4. Este texto surpreendente de Paulo revela um facto em que muitos cristãos certamente nunca pensaram, e dá sobretudo conta, com muita força, do que é o segredo iniciático, as tais «palavras inexprimíveis que o Iniciado recebe e não pode repetir no mundo profano. Recordemos que a expressão que Paulo usa para o inexprimível e incomunicável — arrhêta —, é a mesma que é utilizada nos mistérios antigos exatamente com o mesmo significado. Não deixa de ser sintomático que São Jerônimo (347-420), conhecedor dos primitivos Mistérios cristãos, tenha traduzido, na sua Vulgata Latina, aqueles dois vocábulos gregos, arrhêta rhêmata (palavras impronunciáveis ou inefáveis), por arcana verba, expressão muito mais forte, pois significa «palavras ocultas ou secretas». A crítica positivista, ignorando o alcance iniciático deste texto, assume perante ele uma de duas atitudes: ou opina que se trata apenas dum ancestral tema mítico (as esferas do céu!) que permaneceu no Novo Testamento a par doutros como por exemplo a batalha celestial entre anjos e demónios (Apocalipse 12, 7-9); ou limita-se a constatar que Paulo mentiu, porquanto, a fazer fé no Evangelho de João, «ninguém subiu ao Céu a não ser Aquele que desceu do Céu, o Filho do homem» (João 3, 13). Pois nem uma coisa nem outra: por esta revelação ficamos a saber que Paulo era um Iniciado com o grau equivalente à 5.ª Iniciação menor da Ordem Rosacruz: esta é a Iniciação que dá acesso ao Mundo do Pensamento Abstrato, ou Terceiro Céu, na terminologia iniciática cristã e Rosacruciana. E tal como nas doutrinas Rosacruzes, Paulo admite deidades ou Hierarquias a que chama «deuses», inferiores ao Deus único e a Ele submetidos: «Porque, se há aqueles que são chamados deuses, tanto no céu como na terra, havendo assim muitos deuses e muitos senhores, para nós porém não há senão um Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas» (1 Coríntios 8, 5-6). Muito exemplos se poderiam colher dos textos de Paulo; remato com o seguinte passo da primeira carta aos Coríntios, que bem merece leitura atenta e profundada, e que já vimos, atrás, ter sido objeto de misterioso exame tanto de Clemente de Alexandria como de Orígenes: Entre os perfeitos [gr. en tois teleiois] porém, falamos sabedoria; não a sabedoria deste século nem a dos chefes deste século condenados a perecer; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, a oculta, que Deus predestinou antes dos séculos para glória nossa; que nenhum dos chefes deste século conheceu; pois se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória. Mas como está escrito: O que olho não viu nem ouvido ouviu, Nem subiu ao coração do homem, Essas coisas preparou Deus aos que o amam (Isaías 64, 3). A nós revelou Deus por meio do Espírito; porque o Espírito tudo penetra, mesmo as profundezas de Deus. Quem pois conhece dos homens as coisas próprias do homem, a não ser o espírito do homem que nele se encontra? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece a não ser o Espírito de Deus. Nós, porém não captamos o espírito do mundo mas o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos as coisas que Deus graciosamente nos deu, as quais falamos não com aprendidas palavras de sabedoria humana, mas com aprendidas do Espírito, agregando o espiritual ao espiritual. Mas o homem vivente [gr. psychikos anthrôpos, lat. animalis homo] não capta as coisas do Espírito de Deus, pois são loucura para ele, nem é capaz de entendê-las pois só espiritualmente é possível examiná-las. Em contrapartida o homem espiritual [gr. pneumatikos, lat. spiritalis] ajuíza todas as coisas, mas ninguém é capaz de ajuíza-lo. Quem pois conheceu o pensamento do Senhor, para que o instrua? Nós, porém temos o pensamento [gr. noûn, lat. sensum] de Cristo. — 1 Coríntios 2, 6-16. Os «perfeitos» a que se refere Paulo são os Iniciados (teleioi) dos Mistérios Maiores, os mesmos “perfeitos” que Orígenes invoca num outro texto seu que também a este se reporta e que só o entenderá quem disso for capaz, como ele próprio adverte: (…) Platão (428 AC 347) põe em terceiro lugar a imagem; nós porém, aplicando o nome de imagem a outra coisa, diremos mais claramente que a impressão das chagas que depois do Logos se dá na alma, é o Cristo que mora em cada um, e vem do Cristo Logos. Ora bem, a sabedoria, que é Cristo e mora nos perfeitos [gr. en tois teleiois] de entre nós, corresponde ao quarto elemento platónico, que é a ciência, entenda -o quem disso for capaz. Nos livros canónicos do Novo Testamento não se dá conta de como Paulo terminou os seus dias. O que se sabe, ou julga saber, é-nos transmitido pelos apócrifos, nomeadamente os Acta Pauli, que incluem o Martyrium Pauli, e os fragmentos que nos restam dos Atos de Pedro e Paulo: teria sido levado para Roma e decapitado no ano 67 nas Aquae Salviae, na localidade que hoje se chama Tre Fontane. A descrição da sua morte no Martyrium Pauli inspirou, ao longo dos tempos, tanto a arte como a liturgia: Paulo então pôs-se de pé e olhou para leste, ergueu as mãos ao céu e orou demoradamente. Nas suas orações falava em hebraico com os Padres; depois, sem proferir palavra, ofereceu o pescoço ao verdugo. E quando este lhe cortou a cabeça, salpicou leite sobre a túnica do soldado. Os poetas, no entanto, têm uma visão diferente. Tal como Elias, tal como Enoch, o trespasse de Paulo, o Iniciado, não podia acrisolar-se em cadinho de terrestre cruz, mas apenas em luminoso raio de celestial mistério: “Paulo não podia morrer, como Pedro. Desapareceu nas alturas donde recebera a inspiração. O seu amor a Jesus Cristo alcançou a Eternidade e todos os atributos de Deus. Paulo é imortal em Jesus Cristo. Não morreu, desapareceu. Aparecer é ganhar forma no espaço, e duração no tempo. Desaparecer é ficar invisível, simplesmente”. www.fraternidaderosacruz.org. Abraço. Davi

 

sábado, 20 de novembro de 2021

II. O CAMINHO DO BODHISSATVA

 

Budismo. Livro A Vida de Compaixão. Texto de Tenzin Gyatso (1935-  ), o Décimo Quarto Dalai Lama. II. O CAMINHO DO BODHISSATVA. SUPERANDO A RAIVA E O ÓDIO. Falamos sobre a natureza enganadora e destrutiva das ilusões. O ódio e a raiva são os maiores obstáculos para um praticante do Bodhichita, o desejo altruísta de iluminação. Bodhisattvas nunca deveriam gerar ódio, mas, em vez disso, deveriam se opor a ele. Para isso, a prática da paciência, da tolerância, é crucial. Shantideva começa o sexto capítulo de seu texto, intitulado “A paciência”, explicando a seriedade do dano e do estrago causado pela raiva e pelo ódio: eles nos prejudicam agora e no futuro, e também nos prejudicam destruindo nossa coleção de méritos passado. Já que o praticante da paciência deve se opor ao ódio e derrota-lo, Shantideva insiste na importância de primeiro identificar os fatores que causam a raiva e o ódio. Suas principais causas são a insatisfação e a infelicidade. Quando estamos infelizes e insatisfeitos, ficamos frustrados com facilidade e isso leva a sentimentos de ódio e raiva. Shantideva explica que é muito importante para aqueles dentre nós que treinam a paciência evitar o surgimento da infelicidade mental – o que é provável acontecer quando você sente que as pessoas de quem gosta estão ameaçadas, quando é acometido pela má sorte ou quanto outros impedem que você atinja seu objetivo. Seus sentimentos de insatisfação e infelicidade nessas horas são o combustível que alimenta o ódio e a raiva. Assim, desde o começo, é importante não permitir que essas circunstâncias perturbem sua paz de espírito. Ele assinala, usando todos os meios à nossa disposição, que deveríamos nos opor e eliminar a instalação do ódio, já que sua única função é nos prejudicar os outros. Esse é um conselho muito profundo. “Tendo encontrado seu combustível de insatisfação; em evitar aquilo que desejo, e em fazer aquilo que não quero. O ódio aumenta e depois me destrói”. Se a manutenção de um estado de espírito equilibrado e feliz mesmo diante da adversidade é um fator chave para prevenir o surgimento do ódio, ainda podemos nos perguntar como conseguir isso. Shantideva diz que, quando se está diante de circunstâncias adversas, sentir-se infeliz não tem utilidade para superar a situação indesejada. Isso não é apenas fútil, na verdade, servirá apenas para aumentar sua ansiedade e causar um estado de espírito desconfortável e insatisfeito. Você perde toda noção de calma e felicidade. A ansiedade e a infelicidade gradualmente o corroem por dentro e afetam seu sono, seu apetite e sua saúde também. Na verdade, se o dano inicial que você sofreu foi infligido por um inimigo, sua infelicidade mental pode até se tornar um motivo de deleite para essa pessoa. Portanto, é inútil se sentir infeliz e insatisfeito quando confrontado à circunstâncias adversas, bem como revidar contra quem lhe tenha feito mal. Em geral, existem dois tipos de ódio ou raiva resultantes da infelicidade e da insatisfação. Um primeiro tipo é quando alguém o prejudica, e como resultado disso você se sente infeliz e gera raiva. O outro é quando, embora ninguém o esteja prejudicando diretamente, ver o sucesso e a prosperidade de seus inimigos o faz sentir-se infeliz e gera raiva por causa disso. Da mesma maneira, geralmente existem dois tipos de danos causados por outras pessoas. Um primeiro tipo é o dano físico direto infligido por outras pessoas e experimentado conscientemente por você. O outro é o dano causado a seus bens materiais, à sua reputação, à sua amizade e assim por diante. Embora não sejam dirigidos a seu corpo, esses atos também são um tipo de dano. Digamos que alguém bata em você com uma vara e você sinta dor e fique com raiva. Você não fica com raiva da vara, fica? Qual é exatamente o alvo da sua raiva? Se a atitude apropriada fosse sentir raiva do fator que causou o ato de bater, então você não deveria ficar com raiva dessa pessoa, mas sim das emoções negativas que levaram essa pessoa a agir. Normalmente, no entanto, não fazemos essas distinções. Pelo contrário, consideramos a pessoa – o agente intermediário entre as emoções negativas e o ato – a única responsável e guardamos rancor em relação a ela, não em relação às dificuldades ou às ilusões. Também deveríamos ter consciência de que, já que possuímos um corpo físico que está sujeito a sentir dor quando atingido por uma vara, nosso próprio corpo contribui em parte para nossa experiência da dor. Por causa de nosso corpo e de sua natureza, algumas vezes experimentamos a dor física mesmo que nenhuma causa externa de dor esteja presente. Está claro que a experiência da dor ou do sofrimento ocorre como resultado de uma interação entre nosso corpo e vários fatores externos. Você também pode refletir sobre como, se a natureza essencial da pessoa que o está machucando é prejudicar os outros, é inútil ficar com raiva, já que não haveria nada que você ou essa pessoa pudessem fazer para mudar sua natureza essencial. Se a verdadeira natureza dessa pessoa fosse realmente causar danos, ela simplesmente seria incapaz de agir de outra maneira. Como afirmou Shantideva: “Mesmo que a natureza destes insensatos, consistisse em fazer mal aos outros. Ainda seria incorreto irritar-se com eles. Pois seria como culpar o fogo, cuja natureza é queimar”. Por outro lado, se prejudicar os outros não for a natureza essencial da pessoa, mas em vez disso seu caráter aparentemente prejudicial for meramente incidental e circunstancial, então ainda não há necessidade de sentir raiva dessa pessoa, já que o problema se deve inteiramente a determinadas condições e circunstâncias imediatas. Por exemplo, ela pode ter perdido a paciência e agido mal, mesmo que não tivesse realmente a intenção de machucar você. Também é possível pensa dessa maneira. Quando você sente raiva de outras pessoas que não lhe estão causando danos diretos, físicos, mas que percebe estarem impedindo que você alcance fama, posição, ganhos materiais e assim por diante, você deveria pensar da seguinte maneira: por que ficaria especialmente irritado ou zangado com relação a esse problema específico? Analise a natureza daquilo que não está conseguindo obter – e examine com cuidado seu benefício para você. Eles são realmente tão importantes? Você descobrirá que não. Já que é esse o caso, por que ficar com tanta raiva dessa pessoa? Pensar dessa maneira também é útil. Quando você ficar com raiva como resultado da infelicidade que sente ao ver o sucesso e a prosperidade de seus inimigo, deveria lembrar que o simples fato de sentir ódio, raiva ou infelicidade não vai afetar os bens materiais ou o sucesso dessa pessoa na vida. Portanto, mesmo desse ponto de vista, é bastante inútil. Além da prática da paciência, os praticantes que se inspiram no texto de Shantideva também buscam desenvolver o bodhichita – o desejo de alcançar a iluminação (nirvana) para o benefício de todos os seres sencientes – bem como a compaixão e o treinamento da mente. Se, apesar de sua prática, eles ainda se sentirem infelizes por causa do sucesso de seus inimigos na vida, deveriam lembrar que essa atitude é deveras inapropriada para um praticante da compaixão. Se essa atitude negativa persistir, o pensamento “Sou um praticante da compaixão; sou uma pessoa que vive segundo os preceitos do treinamento da mente” torna-se meras palavras desprovidas de significado. Em vez disso, um verdadeiro praticante do bodhichita deveira se regozijar pelo fato de outras pessoas terem conseguido alguma coisa sozinhas sem a ajuda de ninguém. Em vez de ficar infelizes e cheios de ódio, deveríamos nos regozijar com o sucesso dos outros. Se investigarmos a questão em um nível ainda mais profundo, descobriremos que, quando os inimigos nos prejudicam, podemos na verdade ser-lhes gratos. Tais situações são oportunidades raras de testar nossa própria prática da paciência. Trata-se de uma ocasião preciosa para praticar não apenas a paciência, mas também os outros ideais do Bodhisattva. O resultado é que temos a oportunidade de acumular mérito nessas situações e receber seus benefícios. O pobre inimigo, por sua vez, por causa da ação negativa de infligir dano a alguém em razão da raiva e do ódio, vai acabar tendo que  encarar as consequências negativas de suas próprias ações. É quase como se aqueles que nos prejudicaram se sacrificassem em prol do nosso benefício. Já que o mérito acumulado graças à pratica da paciência só foi possível por causa da oportunidade que nosso inimigo nos proporcionou, estritamente falando deveríamos dedicar nosso mérito ao benefício desse inimigo. É por isso que o Guia Para o Modo de Vida do Bodhisattva fala em gentileza do inimigo. Embora possamos por um lado reconhecer a gentileza do inimigo, podemos, por outro, sentir que o inimigo não teve intenção de ser gentil conosco. Portanto, pensamos, não é necessário que lembremos de sua gentileza de modo algum. Se, para que respeitemos ou valorizemos alguma coisa, é preciso haver intenção consciente da parte do objeto, então esse argumento deveria se aplicar também a outros assuntos. Por exemplo, por si só, a verdadeira cessação do sofrimento e o verdadeiro caminho que leva à cessação – a terceira e a quarta nobres verdades – não têm intenção consciente de serem benéficos. No  entanto, como budistas, ainda assim as respeitamos e as reverenciamos. Por que? Nos trazem benefícios. Se os benefícios recebidos por nós justificam nossa reverência e respeito por essas duas verdades, apesar de elas não terem nenhuma intenção consciente, então esse mesmo raciocínio também deveria se aplicar ao inimigo. No entanto, você pode sentir que há uma diferença importante entre o inimigo e essas duas verdades da verdadeira cessação e do verdadeiro caminho. Ao contrário das duas verdades, o inimigo tem um propósito consciente de prejudica-lo. Mas essa diferença também não é uma razão válida para não respeitar o inimigo. Na verdade, se ela tem algum efeito, é o de representar mais motivos para reverenciar e ser grato a seu inimigo. De fato, é esse fator especial que torna seu inimigo único. Se infligir dor física fosse suficiente para tornar alguém um inimigo, você deveria ter que considerar seu médico um inimigo, pois ele muitas vezes causa dor durante o tratamento. Agora, como praticante genuíno do Bodhichita, você deve desenvolver a paciência. E de modo a praticar com sinceridade e a desenvolver a paciência, precisa de alguém que o machuque intencionalmente. Assim, essas pessoas nos dão verdadeiras oportunidades de praticar essas coisas. Elas estão testando nossa força interior de uma maneira que nosso guru é incapaz de fazer. Nem mesmo o Budha tem tal potencial. Portanto, o inimigo é o único que nos dá essa oportunidade de ouro. Essa é uma conclusão notável, não? Pensando dessa maneira e usando essas razões, você acabará desenvolvendo um tipo de respeito extraordinário por seus inimigos. Essa é a principal mensagem de Shantideva no sexto capítulo. Quando tiver gerado respeito genuíno por seu inimigo, você poderá então remover com facilidade a maioria dos principais obstáculos para desenvolver o altruísmo infinito. Shantideva menciona que, assim como muitos Budhas nos ajudam a alcançar a iluminação, também existe uma contribuição equivalente dos seres senciente comuns. A iluminação só pode ser alcançado se nos apoiarmos em ambas: a gentileza dos seres senciente e a gentileza dos Budhas. Para aqueles dentre nós que alegam ser seguidores do Budha Sakyamuni e que reverenciam e respeitam os ideais do Bodisattva, Shantideva afirma que é incorreto ter rancor ou ódio em relação a nossos inimigos, quando todos os Budhas e Bodhisattvas levam todos os seres sencientes em seus corações. É claro que nossos inimigos estão incluídos no grupo de todos os seres senciente. Se sentirmos rancor para com aqueles que os Budhas e Budhisattvas levam junto ao coração, contradiremos os ideais e a experiência desses Budhas e Bodhissatvas, justamente os seres que estamos tentando imitar. Até mesmo em termos mundanos, quanto mais respeito e afeição sentirmos pelas pessoas, mais consideração terremos por elas. Tentamos evitar agir de maneiras que elas possam desaprovar, pensando que poderíamos ofendê-las. Tentamos levar em consideração as maneiras de pensar de nossos amigos, seus princípios e assim por diante. Se fizermos isso até mesmo para nossos amigos comuns, então, como praticantes dos ideais do Bodhisattva, deveremos demonstrar o mesmo apreço, senão um apreço ainda maior, pelos Budhas e Bodhissatvas, tentando não ter rancor ou sentimentos de ódio em relação a nossos inimigos. Shantideva conclui esse capítulo sobre paciência explicando os benefícios de sua prática. Em resumo, por meio de prática da paciência, você não apenas irá alcançar um estado de onisciência, mas experimentará seus benefícios práticos até mesmo em sua vida cotidiana. Será capaz de manter sua paz de espírito e de viver uma vida de alegria. Quando praticamos a paciência para superar o ódio e a raiva, é importante estar equipado com a força do esforço entusiasta. Deveríamos ter a habilidade de cultivar esse esforço. Shantideva explica que, assim como devemos prestar atenção ao executar uma tarefa mundana, como travar uma guerra, para infligir a maior destruição possível ao inimigo, ao mesmo tempo em que nos protegemos de seus danos, da mesma maneira, quando praticamos o esforça entusiasta, é importante alcançar o mais alto nível de sucesso ao mesmo tempo em que nos asseguramos de que essa ação não prejudica ou obstrui nossas outras práticas. EU E OS OUTROS: TROCANDO DE LUGAR. No capítulo sobre meditação no Guia Para o Modo de Vida do Bodhissatva, encontramos uma explicação da meditação específica para cultivar a compaixão e o Bodhichita. A explicação segue um método chamado equalizar e trocar o si pelos outros. O equalizar e o trocar o si pelos outros significam desenvolver a atitude que entende que: “Assim como eu desejo a felicidade e desejo evitar o sofrimento; o mesmo se aplica a todos os outros seres vivos, que são infinitos como o espaço; eles também desejam não só a felicidade, como desejam evitar o sofrimento”. Assim como trabalhamos para nosso próprio benefício de modo a alcançar a felicidade e nos proteger do sofrimento, também deveríamos trabalhar pelo benefício dos outros, para ajuda-los a alcançar a felicidade e a libertação do sofrimento. Embora nosso corpo tenha diferentes partes, como a cabeça, os membros e assim por diante, no que diz respeito à necessidade de protege-las não há diferença entre elas, pois são igualmente parte do mesmo corpo. Da mesma maneira, todos os seres sencientes têm essa tendência natural – desejam alcançar a felicidade e se libertar do sofrimento – e, no que diz respeito a essa inclinação natural, não há nenhuma diferença entre os seres sencientes. Consequentemente, não deveríamos fazer distinção entre nós mesmos e os outros quando  trabalhamos para alcançar a felicidade e superar o sofrimento. Deveríamos refletir e nos esforçar seriamente para eliminar nossa noção de que nós e os outros somos separados e distintos. Vimos que, até agora, no que diz respeito ao desejo de alcançar a felicidade e de evitar o sofrimento, não há nenhuma diferença. O mesmo se aplica também ao nosso direito natural de sermos felizes; assim como temos o direito de gozar a felicidade e a liberdade sem sofrimento, todos os outros seres vivos têm o mesmo direito natural. Então, onde está a diferença? A diferença está no número de seres sencientes envolvidos. Quando falamos do nosso próprio bem-estar, estamos falando apenas do bem-estar do indivíduo, enquanto o bem-estar dos outros inclui o bem-estar de um número infinito de seres. Desse ponto de vista, podemos entender que o bem-estar dos outros é muito mais importante do que o nosso. Se o nosso próprio bem-estar e o dos outros não tivessem relação nenhuma e fossem independentes um do outro, poderíamos defender o fato de negligenciar o bem-estar dos outros. Mas esse não é o caso. Sempre estou relacionado aos outros e dependo muito deles, não importa qual seja o meu nível de desenvolvimento espiritual: enquanto eu não estiver iluminado, enquanto estiver no caminho e também uma vez que houver alcançado a iluminação. Se refletirmos dessa maneira, a importância de trabalhar em benefício dos outros se torna naturalmente aparente. Você também deveria examinar se, ao permanecer egoísta e autorreferente apesar dos pontos citados acima, ainda pode alcançar a felicidade e realizar seus desejos. Se for esse o caso, então a continuação de seus hábitos egoístas e autorreferente seria um procedimento razoável. Mas não é. A natureza de nossa existência é tal que devemos depender da cooperação e da gentileza dos outros para nossa sobrevivência. É possível observar o fato de que, quanto mais nos preocupamos sinceramente com o bem-estar dos outros e trabalhamos para o seu  benefício, mais benefícios obtemos. Você pode ver esse fato por si mesmo. Por outro lado, quanto mais egoísta e autorreferente continuar a ser, mais sozinho e triste se tornará. Você também pode observar esse fato por si mesmo. Portanto, se realmente quiser trabalhar para seu próprio benefício e bem-estar, então é melhor levar em conta o bem-estar dos outros e considerar o bem-estar deles mais importante do que o seu próprio. Ao refletir sobre esses pontos, você sem dúvida será capaz de fortalecer cada vez mais sua atitude de valorização do bem-estar dos outros. Além disso, podemos complementar nossa prática da compaixão e do Bodhichita com meditações sobre os diversos valores da sabedoria. Por exemplo, podemos refletir sobre a natureza do Budha: o potencial de realizar a Bhudeidade  que existe dentro de nós e de todos os seres sencientes. Também podemos refletir sobre a natureza fundamental dos fenômenos, sobre sua natureza vazia, usando o raciocínio lógico para determinar o valor da realidade. Podemos imaginar que a cessação do sofrimento é possível porque a ignorância, que é sua principal causa, é por natureza fortuita e, assim, pode ser separada da natureza essencialmente pura de nossa mente. Ao pensar e meditar sobre os fatores da sabedoria e ao praticar a compaixão e o altruísmo de forma constante, com esforços deliberados, durante um longo período, você verá uma verdadeira mudança em sua mente. Livro A Vida de Compaixão. Abraço. Davi.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

I. O CAMINHO DO BODHISSATVA

 

Budismo. Livro A Vida de Compaixão. Texto de Tenzin Gyatso (1935-   ) o Décimo Quarto Dalai Lama. I. O CAMINHO DO BODHISATTVA. O GUIA PARA O MODO DE VIDA DO BODHISATTVA, escrito pelo mestre indiano do século VIII, Shantideva, é a fonte primária da maioria dos escritos sobre a atitude altruísta de colocar a felicidade dos outros antes da sua própria. Recebi a transmissão oral desse texto pelo falecido Khunu Rinpoche (1895-1977), um notável professor da cidade de Kinnaur, no norte da Índia. Eu próprio tento aplicar esses ensinamentos o máximo possível e também, quando surge a oportunidade, explica-los aos outros. Usando o texto de Shantideva como guia, gostaria de explorar alguns dos principais pontos dessa prática compassiva. PARA RECONHECER O INIMIGO INTERIOR. De modo a priorizar o bem-estar dos outros, em primeiro lugar é preciso reconhecer o que nos mantém presos à atitude autorreferente. No quarto capítulo, intitulado “A consciência”, Shantideva explica que as ilusões dentro de nossas mentes, como o ódio, a raiva, o apego e a inveja, são nossos verdadeiros inimigos. Como ele afirma nos dois versos abaixo, esses inimigos não têm corpo físicos com pernas e braços, nem tampouco têm armas nas mãos, pelo contrário, residem em nossas mentes e nos atormentam. Controlam-nos e nos prendem como seus escravos. Normalmente, no entanto, não percebemos essa ilusões como nossas inimigas, e assim nunca as confrontamos nem as desafiamos. Já que não as desafiamos, elas vivem sem correr perigo dentro de nossas mentes e continuam a nos prejudicar à vontade. “Inimigos como o ódio e a cobiça não têm mãos nem pés, e não são corajosos nem inteligentes. Como é possível que me tenha tornado escravo deles? Emboscados na minha mente, Atacam-me a seu bel-prazer; e, no entanto, eu os suporto com paciência e sem raiva. Mas este é um momento inadequado e vergonhoso para a paciência”. Pensamentos e emoções negativos com frequência são enganadores. Eles brincam conosco. O desejo, por exemplo, nos parece ser um amigo digno de confiança, algo belo e querido para nós. Do mesmo, a raiva e o ódio parecem ser nossos protetores ou guarda-costas confiáveis. Algumas vezes, quando alguém está prestes a prejudica-lo, a raiva aumenta dentro de você como um protetor e lhe dá uma espécie de força. Mesmo que você possa ser fisicamente mais fraco do que seu agressor, a raiva o faz sentir-se forte. Ela lhe dá um falso sentimento de poder e energia, e o resultado, nesse caso, é que você pode levar uma surra. Já que a raiva e outras emoções destrutivas aparecem assim disfarçadas, raramente as desafiamos de verdade. Existem muitas maneiras semelhantes pelas quais os pensamentos e emoções negativos nos iludem. De modo a perceber completamente a traição desses pensamentos e emoções negativos, devemos primeiro alcançar alguma estabilidade mental. Só então começaremos a ver sua natureza traiçoeira. Apesar de ser um monge e suposto praticante do Guia Para O Modo de Vida do Bodhisattva, eu próprio às vezes ainda me irrito e sinto raiva. Como resultado disso, uso palavras ásperas com os outros. Então, poucos instantes depois, quando a raiva se dissipou, sinto-me envergonhado; as palavras negativas já estão ditas e realmente não há como trazê-las de volta. Embora as palavras em si já estejam pronunciadas e o som da voz tenha deixado de existir, seu impacto permanece. Assim, a única coisa que posso fazer é me aproximar da pessoa e me desculpar. Enquanto não tomo essa atitude, sinto-me bastante tímido e envergonhado. Isso mostra que mesmo um pequeno rompante (atitude irrefletida) de raiva e irritação cria uma grande quantidade de desconforto e perturbação para aquele que fica com raiva, sem falar no dano causado à pessoa alvo dessa raiva. Portanto, na realidade, esses estados de espírito negativos obscurecem nossa inteligência e nosso bom julgamento, causando assim grandes danos. Uma das melhores qualidades humanas é nossa inteligência, que nos permite julgar o que é saudável e o que não é, o que é benéfico e prejudicial. Pensamentos negativos, como a raiva e o apego excessivos, destroem essa qualidade humana especial, isso é realmente muito triste. Quando a raiva ou o apego dominam a mente, a pessoa fica quase louca e tenho certeza de que ninguém quer ficar louco. Sob o domínio da raiva ou do apego, cometemos todo tipo de atos prejudiciais – geralmente com consequências extensas e destrutivas. Uma pessoa dominada por tais estados de espírito e de emoção é como uma pessoa cega, incapaz de ver onde está indo. No entanto, não ousamos desafiar esses pensamentos e emoções negativos que quase nos levam à insanidade. Pelo contrário, muitas vezes os nutrimos e reforçamos! Ao fazer isso, na verdade, estamos nos tornando presas de seu poder destrutivo. Quando você refletir dessa maneira, perceberá que nosso verdadeiro inimigo não está fora de nós mesmos. Deixe-me dar-lhe outro exemplo. Quando sua mente está treinada para a autodisciplina, mesmo que você esteja cercado por forças hostis, sua paz de espírito quase não será perturbada. Por outro lado, se sua mente for indisciplinada, sua paz  e calma mental poderão facilmente ser interrompidas por seus próprios pensamentos e emoções negativos. Então repito, o verdadeiro inimigo está dentro de nós, não fora. Geralmente definimos nosso inimigo como uma pessoa, um agente externo que, acreditamos, está nos prejudicando ou prejudicando alguém querido. Mas um inimigo assim depende de muitas condições e é inpermanente. Num momento, a pessoa pode agir como inimiga; no entanto, no momento seguinte, ele ou ela pode se tornar seu melhor amigo. Isso é uma verdade que muitas vezes experimentamos em nossas próprias vidas. Mas os pensamentos e emoções negativos, o inimigo interior, sempre serão inimigos. São seus inimigos hoje, foram seus inimigos e continuarão a ser seus inimigos enquanto estiverem morando dentro de sua mente. Esse inimigo interior é extremamente perigoso. O potencial destrutivo de um inimigo exterior é limitado quando comparado ao de seu equivalente interior. Além disso, muitas vezes é possível criar uma defesa física contra um inimigo exterior. No passado, por exemplo, muito embora tivessem recursos materiais e capacidades tecnológicas limitadas, as pessoas se defendiam construindo fortalezas e castelos com muitas muralhas. Com as armas poderosamente destruidoras de hoje em dia, tais defesas estão, é claro, obsoletas. Numa época em que qualquer país é alvo potencial das armas nucleares dos outros, os seres humanos ainda continuam a desenvolver sistemas de defesa cada vez mais sofisticados. O sistema antimísseis proposto pelos Estados Unidos é um exemplo típico de tal iniciativa. Por trás de seu desenvolvimento ainda está a antiga crença de que podemos acabar criando um sistema que nos dará proteção “total”. Não sei se um dia será possível criar um sistema de defesa capaz de garantir proteção mundial contra todas as forças externas de destruição. No entanto, uma coisa é certa, enquanto esses inimigos interiores destrutivos da raiva e do ódio forem deixados em paz e não forem desafiados, a ameaça da aniquilação física sempre vai pairar sobre nós. Na verdade, no final das constas, o poder destrutivo de um inimigo exterior deriva do poder dessas forças internas. O inimigo interior é o gatilho que libera o poder destrutivo do inimigo exterior. Shantideva nos diz que, enquanto esses inimigos interiores permanecerem em segurança dentro de nós, há grande perigo. Shantideva prossegue dizendo que, mesmo se todas as pessoas do mundo se opusessem a você como seus inimigos e o prejudicassem, contanto que sua própria mente estivesse disciplinada e calma, não seriam capazes de perturbar sua paz. No entanto, um só caso de ilusão que surgir em sua mente terá o poder de perturbar essa paz e estabilidade interiores. “Mesmo que tivesse como inimigos, todos os deuses e todos os semideuses; juntos não seriam capazes de me arrastar para o inferno. Mas as emoções negativas, esses poderosos inimigos, lançam-me, num piscar de olhos, num fogo tal que até a rainha das montanhas derreteria sem a menor cinza”. Shantideva também afirma que uma diferença crucial entre o inimigo comum e as ilusões é que, se você se comportar de forma amigável e compreensiva com o inimigo comum, estão poderá ser capaz de transformar esse inimigo em amigo, mas não pode se relacionar com as ilusões de modo semelhante. “Quanto mais você tentar se associar a elas com o objetivo de ser seu amigo, mais prejudiciais e desastrosas se tornarão. Se eu honrar e confiar nos outros agradavelmente, eles me trarão benefícios e felicidade. Mas se eu confiar nessas concepções perturbadoras, no futuro elas só me trarão tristeza e danos”. Enquanto você continuar a ser dominado pelas ilusões e pelos estados de ignorância que as sustentam, não terá nenhuma possibilidade de alcançar uma felicidade genuína e duradoura. Isso, penso, é um fato natural. Se você se sentir profundamente perturbado por essa verdade, sua resposta deverá ser a busca de um estado de liberdade em relação a isso, ou seja, o estado do Nirvana. Aqueles que se tornam monges e monjas fazem do alcance do Nirvana, ou da verdadeira liberação, o foco de suas vidas. Assim, se você puder se permitir dedicar-se inteiramente à prática do Dharma, então deverá implementar em sua vida os métodos espirituais que levam ao alcance desse estado de liberdade. Se, como no meu caso, você não tiver tempo suficiente, isso é bem difícil, não é? Sei que um dos fatores que me impedem de me dedicar totalmente a um modo de vida com tal compromisso é minha própria preguiça. Sou um Dalai Lama bem preguiçoso, o preguiçoso Tenzin Gyatso! Mesmo que você não possa levar uma vida na qual o único objetivo seja a prática do Dharma, é muito benéfico refletir o máximo possível sobre esses ensinamentos e esforçar-se para reconhecer a transitoriedade de todas as circunstâncias adversas. Como ondulações na água de uma piscina, elas ocorrem e logo desaparecem. Na medida em que nossas vidas são condicionadas por nossas ações iludidas do passado, elas são caracterizadas por ciclos de problemas permanentes, que crescem e em seguida diminuem. Um problema aparece e passa, e logo outro problema começa. Eles vêm e vão em uma sequência incessante. No entanto, a continuidade de cada uma de nossas consciências – por exemplo, da consciência de Tenzin Gyatso – não tem começo. Embora seja um estado de fluxo constante, um processo dinâmico e em constante mudança, a natureza básica da consciência nunca muda. Tal é a natureza de nossa existência condicionada, e a percepção dessa verdade faz com que seja fácil para mim me relacionar com a realidade. Essa visão realista me ajuda a manter minha paz e minha calma. Esse é o modo de pensar do monge Tenzin Gyatso. Por meio de minha própria experiência, sei que a mente pode ser treinada, e graças ao treinamento podemos causar uma mudança profunda em nós mesmo. Isso, eu sei, é bastante incontestável. Apesar de sua influência penetrante e de seu potencial destrutivo, existe um aspecto específico sob o qual o inimigo interior é mais fraco do que o inimigo exterior. No Guia Para O Modo de Vida do Bodhisattva, Shantideva explica que para  derrotar inimigos comuns são necessárias força física e armas. Você pode até precisar gastar bilhões de dólares em armas para enfrenta-los. Mas para combater o inimigo interior, as ideias perturbadoras, você só precisa desenvolver os fatores que dão origem à sabedoria que permite compreender a natureza fundamental dos fenômenos. Não precisa de nenhuma arma material nem de força física. Isso é uma grande verdade. “Emoções perturbadoras iludidas! Se abandonadas pelo olho da sabedoria, e expulsas da minha mente, para onde iriam? Qual seria sua morada para serem capazes de me fazer mal novamente? Mas, com a mente fraca, fui reduzido a não fazer nenhum esforço”. Na verdade, quando estava recebendo os ensinamentos orais sobre esse texto do falecido Khunu Rinpoche, observei que o Guia Par o Modo de Vida do Bodhisattva afirma que as ilusões são humildes e fracas, o que não é verdade. Ele imediatamente respondeu dizendo que não é preciso uma bomba atômica para destruir as ilusões! Então é isso que Shantideva quer dizer aqui. Você não precisa de armas caras e sofisticadas para destruir o inimigo interior. Precisa simplesmente desenvolver uma determinação firme para derrota-lo, gerando sabedoria: um entendimento da verdadeira natureza da mente. Você também deve compreender genuinamente tanto a natureza relativa dos pensamentos e emoções negativos quanto a natureza fundamental de todos os fenômenos. Na terminologia técnica budista, essa compreensão é conhecida como verdadeira compreensão da natureza do vazio. Shantideva menciona ainda outro aspecto sob o qual o inimigo interior é mais fraco. Ao contrário de um inimigo exterior, o inimigo interior não pode se reorganizar e conduzir uma revanche depois de ter sido destruído de dentro. Livro A Vida de Compaixão. Ótimo fim de semana. Abraço. Davi.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

O MUNDO DOS ORIXAS - IBEJI

 

Religião Afrodescendente. Candomble. www.ocandomble.com. O MUNDO DOS ORIXÁS – IBEJI. A missão divina da Mãe Terra (Edan – Onile). Quando a divina e poderosa mãe Edán (Onile Ogboduora) fez sua aparição nesta Terra, ela fez isso com um propósito específico e sagrado. Sua manifestação nesta Terra sinalizou uma nova oportunidade para a humanidade se renovar, progredir e ter uma vida equilibrada. Sua aparição marcou um novo começo para toda a humanidade e não apenas o povo privilegiado dos yorùbá. Seu objetivo e propósito era, e é, de alcance universal. Èdán veio para trazer cura, ordem, harmonia, abrigando preceitos divinos e equilíbrio para as comunidades da Terra em geral e cada ser humano em particular. Você deve se lembrar e ter em mente que Èdán não é um ser humano. Èdán não é yorùbá, chinês, americano, oriental ou ocidental. Èdán é uma personagem divina de habilidades extraordinárias e poderes supra-humanos. Èdán não é deste mundo. Ela vem de um reino glorioso e inconcebível de santidade, beleza e poder. A inteligência, compreensão, força, atratividade e carisma da mãe divina Èdán é extraordinária, penetrante e excepcional. Èdán pode ver a profundidade e a realidade das coisas. Ela não pode ser enganada, manipulada ou subornada, ela não comete erros na administração de sua dispensação (ato de dividir). Ela está além do alcance da influência humana. Ela nunca cairá ou balançará à mesquinhez e a inconstância, que é comum entre a humanidade. Sua visão divina nunca é obstruída e sua atividade não pode ser prejudicada. Sua virtude, caráter, personalidade e carisma são sem igual. Mesmo Ọrúnmìlà reconheceu sua grandeza, eficiência, capacidade e singularidade. Foi, afinal, Ọrúnmìlà quem invocou Èdán, sua amiga e sócia divina para apoio, soluções e alívio! Quando Èdán desceu do reino dos Irunmọlẹ a esta Terra, ela apareceu com a plenitude da autoridade divina, poder e comando. Todos Ajogùn interno, externo e Elénìní fugiram diante dela. Com o poder de sua majestosa personalidade, divinamente atraente, beleza, carisma e àşé ela foi capaz de libertar e entregar os corações e as mentes dos pensamentos negativos, atitudes e energias prejudiciais que oprimiam e dominavam os seres humanos. Èdán foi capaz de desarmar as pessoas de suas preocupações, medos e inseguranças. Para aqueles que faziam, que se deliciavam em fazer o errado, o engano, a opressão e a corrupção ela colocava medo nos seus corações para que talvez eles pudessem mudar suas maneiras sob sua administração do perdão, da ordem, da capacitação e da renovação. Tais era, e é, o poder e a influência da mãe divina Èdán. Juntamente com o inseparável, a importação do ase aos membros sensíveis da humanidade, ela deu preceitos e injunções divinas para seus alunos-discípulos para praticar e implementarem em todos os níveis da sociedade e da vida pessoal. Estes seguidores obedientes e confiáveis ​​de Èdán são os Ogboni porque só existe sabedoria, saúde e longa vida com Èdán se as pessoas obedecerem e praticarem seus preceitos. Do lado de fora uma pessoa constituiria um Ogberi (ignorante) porque aparentemente tinha conhecimento e não praticava a verdade, o que é isso, se não o maior ignorância, infelicidade e loucura. Os princípios divinos de Èdán tornaram-se os veículos de sua divina presença, carisma, poder, apoio e influência-retificando a cura. Ter vivido na época do aparecimento de Èdán sobre esta Terra sagrada foi a experiência mais extraordinária, gratificante e maravilhosa. Isto é, a forma divinamente sancionada, a vida que ela estava revelando à humanidade e continua revelando à humanidade. O teimoso, obstinado e beligerante que não fizer, não vai durar muito tempo sob a administração de Èdán. Èdán é naturalmente amável, justa e compreensiva, como a Sagrada Mãe preciosa e amável que ela é, ela proporcionou a todos o perdão, um novo começo sem referência a erros do passado, uma oportunidade para mudar e a bênção para fazer uso de seu apoio pessoal, garantia, inspiração e poder. Èdán está ciente de nossas fragilidades e fraquezas como seres humanos. Ninguém precisa ter medo por causa de suas fraquezas ou falhas. Èdán não pareceu para fazer-nos ricos e famosos. Èdán apareceu para nos fazer participantes da verdadeira vida, saúde, paz, segurança e prosperidade através da prática de seus ensinamentos claros. Èdán apareceu para nos permitir descobrir a nossa nobre e bela natureza divina. Ela veio para restaurar a dignidade, clareza, transparência, saúde moral e limpeza moral de nossas vidas. Èdán inculca a verdade divina para seus seguidores inteligentes e humildes, quando estamos individual e coletivamente para a direita e para dentro, em seguida, nesta ordem interna, a saúde e a retidão serão reveladas e expressas no mundo. As instruções de Èdán não foram e não são sugestões, mas comandos divinamente concedidos e leis. Eles são vinculativos e obrigatórios para toda a humanidade e especialmente para aqueles que se dedicam a Èdán. Para ser Ogboni significa ser o melhor dos melhores. Significa ser um modelo de impecabilidade, idoneidade e confiabilidade. Para ser Ogboni significa estar pessoalmente convencido a perseguir e fazer o que é certo, correto e adequado independentemente de tempos, lugares e / ou circunstâncias. Para ser Ogboni significa ter auto iniciativa, ser responsável e fazer o que é certo para o bem do amor da verdade e não ser visto, elogiado e aplaudido por outros. Iniciação formal sozinha não faz de você um seguidor de Èdán. O que é importante não é que outras pessoas te chamem de Ogboni, mas que Èdán te reconhece e o aceita como um dos seus verdadeiros, leais e obedientes filhos. O que é importante é que você seja Ogboni 24 horas por dia em seus pensamentos, atitudes, ações e relacionamentos. Ogboni é uma forma global e abrangente de viver. Uma delas é ser Ogboni o tempo todo para que Èdán, ela mesma, possa garantir que você é um Ogboni genuíno, verdadeiro, com honra, humildade, alegria e realização digna. Os ritos de iniciação Ogboni foram desenvolvidos mais tarde por Èdán e seus seguidores, mas, inicialmente, a verdadeira iniciação era uma mudança espiritual de coração, mente e vida como um resultado do encontro com Èdán, sua personalidade, seu caráter, seu carisma, encantamento, inspiração, autoridade e poder, tudo foi expresso e manifestado através de tudo que Èdán fez. Tudo que Èdán fez foi cheio de graciosidade, dignidade e poder. Não foi através de ritos e rituais que Èdán mudou o mundo, mas pela graça divina, pelas maneiras, inteligência e conduta. Èdán por suas maneiras, caráter, personalidade e conduta comandou o respeito, reverência, confiança e obediência de todos aqueles com coração sincero e bom. O verdadeiro símbolo de honra e título de um Ogboni autêntica o caráter, a virtude, a bondade e a imparcialidade que ele pratica. Conformidade exterior e aderência superficial com o protocolo Ogboni para o bem das pessoas não faz de você um Ogboni, não importa o seu título ou o quanto você está velho. Èdán deu seu amor, vida e foco total e dedicação à humanidade. Para ser Ogboni você tem que dar o seu tudo para a missão divina de Èdán e você deve procurar com sua força, habilidade, atividade e meios transferir o conhecimento de Èdán a todos os povos do mundo. Isto é o que é significa ser Ogboni. Ogboni não é uma instituição humana. Ogboni não é um negócio. Ogboni não é um clube. Ogboni é uma vocação divina e sagrada. Èdán era uma revolucionária espiritual, divina, missionária, diplomática e embaixadora da boa vontade e da esperança. Nós também devemos ser isso. Devemos buscar a propagação do Ogbonismo. Não os chamados clubes Ogboni e instituições formais, devemos propagar a verdade e a realidade que Èdán promoveu e instituiu para toda a humanidade. A humildade e o serviço vêm antes da honra, do orgulho, da presunção. Èdán diz que a indiferença precede a queda. Ancestral Pride Temple. Templo Orgulho Ancestral. ORIXÁ IBEJI. Dia: Domingo. Cores: Azul, Rosa e Verde. Elemento: Ar. Domínios: Nascimento e Infância. Símbolos: 2 Bonecos Gémeos, 2 Cabacinhas. Saudação: Bejiróó! Ibeji é o Orixá-Criança, em realidade, duas divindades gémeas infantis, ligadas a todos os orixás e seres humanos. Por serem gémeos, são associados ao princípio da dualidade; por serem crianças, são ligados a tudo que se inicia e nasce: a nascente de um rio, o nascimento dos seres humanos, o germinar das plantas, etc. Ibeji na nação Ketu, ou Vunji nas nações Angola e Congo. É o Orixá Erê, ou seja, o Orixá criança. É a divindade da brincadeira, da alegria; a sua regência está ligada à infância. Ibeji está presente em todos os rituais do Candomblé pois, assim como Exú, se não for bem cuidado pode atrapalhar os trabalhos com as suas brincadeiras infantis, desvirtuando a concentração dos membros de uma Casa de Santo. É o Orixá que rege a alegria, a inocência, a ingenuidade da criança. A sua determinação é tomar conta do bebé até à adolescência, independentemente do Orixá que a criança carrega. Ibeji é tudo o que existe de bom, belo e puro; uma criança pode-nos mostrar o seu sorriso, a sua alegria, a sua felicidade, o seu falar, os seus olhos brilhantes. Na natureza, a beleza do canto dos pássaros, nas evoluções durante o voo das aves, na beleza e perfume das flores. A criança que temos dentro de nós, as recordações da infância. Feche os olhos e lembre-se de um momento feliz, de uma travessura, e você estará a viver ou revivendo uma lenda deste Orixá. Pois tudo aquilo de bom que nos aconteceu na nossa infância, foi regido, gerado e administrado por Ibeji. Portanto, Ibeji já viveu todas as felicidades e travessuras que todos nós, seres humanos, vivemos. A lenda e a história de Ibeji, acontece a cada momento feliz de uma criança. Ao menos para manter vivo este importante Orixá, procure dar felicidade a uma criança. Faça você mesmo o encantamento de Ibeji. É fácil: faça gerar dentro de si a felicidade de estar vivo. Transmita esta felicidade, contagie o seu próximo com ela. Encante Ibeji com a magia do sorriso, com o amor de uma criança. E seja Ibeji, feliz! ORIXA IBEJI. Características dos filhos de Ibeji. Os filhos de Ibeji são pessoas com temperamento infantil, jovialmente inconsequentes; nunca deixam de ter dentro de si a criança que já foram. Costumam ser brincalhões, sorridentes, irrequietos – tudo, enfim, o que se possa associar ao comportamento típico infantil. Muito dependentes nos relacionamentos amorosos e emocionais em geral, podem revelar-se teimosamente obstinados e possessivos. Ao mesmo tempo, a sua leveza perante a vida revela-se no seu eterno rosto de criança e no seu modo ágil de se movimentar, a sua dificuldade em permanecer muito tempo sentado, extravasando energia. Podem apresentar bruscas variações de temperamento, e uma certa tendência a simplificar as coisas, especialmente em termos emocionais, reduzindo, às vezes, o comportamento complexo das pessoas que estão em seu torno a princípios simplistas como “gosta de mim – não gosta de mim”. Isso pode fazer com que se magoem e se decepcionem com alguma facilidade. Ao mesmo tempo, as suas tristezas e sofrimentos tendem a desaparecer com facilidade, sem deixar grandes marcas. Como as crianças, em geral, gostam de estar no meio de muita gente, das atividades desportivas, sociais e das festas. www.ocandomble.com.br. Abraço. Davi

domingo, 14 de novembro de 2021

A ARTE DE APRENDER COM AS DIFICULDADES

 

Espiritualidade. www.emporioesoterico.com.br. Texto de Carlos Cardoso Aveline. A ARTE DE APRENDER COM AS DIFICULADES. Uma velha fábula indiana conta que, há milhares de anos, vivia em um templo abandonado uma grande cobra venenosa. Seu nome era Naga. Em geral, Naga tinha bons sentimentos, mas despertava terror nos habitantes da aldeia próxima porque –  quando incomodada –  atacava as pessoas. Certo dia, um sábio desconhecido apareceu misteriosamente no local.  Sentou-se junto ao templo e chamou Naga para uma conversa. Disse-lhe que a vida é, na verdade, uma grande  escola espiritual, e que aprendemos o tempo todo, mesmo quando não temos consciência disso. “Mas o aprendizado é muito mais rápido ― e muito mais difícil ― quando fazemos um esforço consciente por iniciativa própria”, acrescentou. A consciência de Naga se expandiu. O animal viu a luz da sabedoria, e disse que desejava trilhar o caminho do esforço consciente. O instrutor mencionou então duas condições básicas para esse tipo de aprendizado. “O primeiro passo é o autocontrole” , disse ele. “O processo sagrado começa à medida que o aprendiz deixa de obedecer aos instintos animais”. E acrescentou, antes de prosseguir viagem: “Ao mesmo tempo, há uma outra condição. É preciso ser fraterno e pacífico em relação a todos os seres”. Impressionada pela força das palavras do mestre, a cobra Naga deixou de lado as preocupações mundanas. Praticou meditação, aproximou-se da sua alma imortal e experimentou a paz do Universo infinito. Ela também tomou uma decisão: “De agora em diante, vou controlar os meus instintos e não morderei mais ninguém”. A lei da evolução estabelece que todo conhecimento deve ser testado na prática, e o caso de Naga não foi uma exceção. Seu novo comportamento chamou atenção das crianças da aldeia. Por que razão ela ficava o dia todo imóvel, em jejum, recitando mantras e meditando sob o calor do sol? Quando todos compreenderam que o animal não atacava, começaram os risos, o desprezo e as agressões à base de paus e pedras. Com o tempo, Naga emagreceu.  Adoeceu. Sua pele começou a cair. Mas ela perseverava. Um ano depois, o animal está sem forças e à beira da morte, quando o mestre desconhecido aparece outra vez e senta-se para conversar. A cobra conta ao sábio tudo o que aconteceu e fala – feliz – da sua lealdade ao caminho espiritual.  Surpreso, o mestre explica que tamanha dor não era necessária: “Amiga, eu disse para você não atacar. Não disse que não ameaçasse morder. Não disse que não preparasse o bote. Não deixe de impor respeito: não faça mal a ninguém, mas – quando necessário – defenda-se sem violência”. Qual foi, então, o erro de Naga?  Ela idealizou o caminho da sabedoria de maneira ingênua e  ignorou o fato de que conflitos e contradições fazem parte da vida. Os exemplos são muitos. A cada momento temos de tomar decisões, e antes de cada decisão há uma certa luta entre diferentes tendências em nosso interior. As pessoas vivem conflitos psicológicos dentro de si, e se isso é verdade, é também natural que haja discordâncias nas relações humanas e sociais. Contraste é vida, e vida é movimento. A uniformidade imobilista não é saudável. Quando as pessoas têm medo das discordâncias naturais, elas passam a reprimir as suas diferenças de opinião na esperança de preservar a paz. Assim, a sinceridade é substituída pela cortesia. Gradualmente, a confiança mútua desaparece, abrindo espaço para a má vontade, os sentimentos hipócritas e a deslealdade. Por isso a sinceridade é sempre melhor que a harmonia forçada. Naturalmente, é agradável estar rodeado de pessoas que concordam conosco em todos os aspectos.  Mas, se fosse possível viver desse modo o tempo todo, nossa evolução correria grave risco de ser interrompida. Assim como as pedras dos rios ficam redondas após longos anos de atrito, também os seres humanos necessitam de suas dificuldades e  contradições para aperfeiçoar-se. É certo que devemos evitar as desarmonias, mas em muitos casos elas são inevitáveis, e então o melhor que podemos fazer é aprender com elas. Para o pensador grego Plutarco (46-120) os inimigos são comparáveis às dificuldades naturais que a vida coloca diante de nós. Um velejador experiente não se desespera com o vento contrário, mas sabe usá-lo para avançar no rumo certo. Do mesmo modo, devemos aproveitar as inimizades e outros desafios para aumentar nosso autoconhecimento. “O fogo queima quem o toca, mas também fornece luz e calor e serve a uma infinidade de usos para aqueles que sabem utilizá-lo”, explica Plutarco. A situação é idêntica com os adversários ou invejosos: “O que é mais prejudicial na inimizade pode tornar-se o mais proveitoso”, diz ele. “É que teu inimigo, continuamente atento, espia tuas ações na expectativa da menor falha, e fica à espreita em torno da tua vida”. Na tarefa de identificar nossos erros, os inimigos são mais úteis que os amigos. Os adversários aumentam o perigo e, com isso, não nos deixam adormecer na rotina. Para Plutarco, necessitamos de amigos sinceros e inimigos ardentes: “uns nos afastam do mal por suas advertências, os outros, por sua censura”. Porém, os amigos geralmente evitam falar com franqueza. Além disso, o amor pode ser cego em relação a aquilo que ele ama.  Mas o rancor consegue revelar as manias e os fracassos de qualquer um. (1). Quando o invejoso mente em suas críticas, podemos lembrar que, seja como for, nós ainda estamos longe da perfeição. É verdade que ele vê erros em nós que não existem. Mas talvez haja erros em nós que ele não vê. Devemos aproveitar a oportunidade de uma crítica contra nós para exercer vigilância e aumentar nossa força interior. A confiança no bem e a autoconfiança nos darão tranquilidade para observar os erros do ponto de vista do nosso potencial divino. E, sobretudo, para valorizar nossos acertos. Segundo Plutarco, a melhor maneira de defender-nos dos inimigos é aumentar nossas virtudes. O taoísmo e a filosofia esotérica ensinam a mesma coisa. O escritor Carlos Castaneda (1925-1998) reforça esse ponto ao explicar que “o guerreiro deve ser impecável”. Como se pode, então, tirar proveito das injustiças que sofremos? Castaneda aprendeu com seu mestre Don Juan a técnica do pequeno tirano.  O método funciona melhor quando há alguém que não só está  situado em uma posição de poder ou de superioridade  em relação a nós, mas tem, também, a séria intenção de causar-nos profundo mal-estar. É claro que nenhum tirano externo tem real importância em si mesmo.  NOSSO ÚNICO VERDADEIRO INIMIGO É NOSSA PRÓPRIA IGNORÂNCIA DIANTE DA VIDA. Os adversários mais desagradáveis do mundo exterior são apenas projeções e materializações daquelas lições que ainda não aprendemos e, por isso, são todos de pequeno porte.  No sistema de ensino de Castaneda, há, portanto, três tipos básicos de pequenos tiranos: 1) Tirano Insignificante. Tem o poder de matar suas vítimas quando quiser.  Hoje é difícil de encontrar, mas era relativamente frequente durante a época colonial, quando os feiticeiros da América Central criaram essa técnica. 2) Pequeno Tirano Insignificante.  Persegue e inflige danos sem chegar a causar a morte das suas vítimas. 3) Pequeno Tirano Muito Insignificante.  Ocasiona incômodos e exasperação sem fim. (2). A função do pequeno tirano é testar a força e a coerência do aprendiz. A vida é como uma grande respiração, e, em todos os seus aspectos, a cada expansão corresponde uma retração igual e contrária. Assim, na mesma medida em que o guerreiro expande no plano subjetivo a sua visão de mundo e se une ao infinito, ele tem de fazer com que, no plano objetivo, as suas ações práticas sejam cada vez mais compactas, mais controladas e mais intensas.  Esse paradoxo é inevitável. Se não fizer isso, seu avanço será falso. Há pequenos tiranos insignificantes e muito insignificantes que usam de brutalidade e violência. Outros atormentam criando preocupação, tristeza ou fúria. Em todos os casos, eles são usados pelo guerreiro da sabedoria para identificar e eliminar sua própria vaidade, seu orgulho e  sua preocupação consigo mesmo. O aprendiz deve adquirir um controle estratégico da sua própria conduta, com o objetivo de eliminar o desperdício de energia vital e de obter um acesso cada vez maior à energia do Universo infinito. Os jogos do pequeno tirano insignificante só causam sofrimento enquanto houver ignorância, medo e falta de atenção no guerreiro. A estratégia do aprendizado pode ser resumida em seis pontos: 1. Controle. Enquanto o pequeno tirano atormenta o guerreiro, esse aprende a desmontar os seus esquemas de justificação da preguiça, vê destruída a sua ingenuidade infantil, e desperta para níveis superiores de alerta e atenção. Ele aprende a controlar os impulsos inferiores. Se não fizer isso, será derrotado. 2. Disciplina.  Como qualquer ser humano, o guerreiro sofre, mas ele sofre sem sentimento de auto piedade. Ele levanta informações objetivas sobre a situação em que está, identifica os perigos reais e define possíveis alternativas, sem perder tempo ou energia com emoções desnecessárias. 3. Paciência. O guerreiro não combate prematuramente. Ele aguarda com serenidade e antecipa com prazer a sua futura libertação. “O guerreiro sabe que espera, e sabe o que espera”, explica Victor Sánchez. 4. Sentido de Oportunidade.  No momento certo, o guerreiro aplica toda a energia acumulada em relação aos três pontos anteriores. Sánchez afirma : “É como abrir as comportas de uma represa”. 5. Vontade. Não é a vontade comum, mas um elemento imponderável, reservado para uma situação extrema. Esse é o único ponto da estratégia que pertence ao desconhecido. Não é apenas um resultado da acumulação dos itens anteriores. 6. O Tirano Insignificante. É o elemento externo que, ameaçando o guerreiro, dinamiza e acelera o seu processo de crescimento interior. (3). É muito provável que não haja ninguém situado em uma posição de poder que esteja pensando em atormentar-nos ou em destruir nosso bem-estar. Raramente alguém tem o privilégio espiritual de viver esse desafio. Ainda assim podemos usar essa técnica de Castaneda. Basta adaptar a estratégia acima substituindo o pequeno tirano pelo conjunto de obstáculos que nos rodeiam e dificultam a obtenção da nossa meta, a sabedoria.  Se não há um tirano, pode haver uma situação limitadora, uma pequena tirania exercida pela nossa própria ignorância, e que limita nosso processo de aprendizagem. E a estratégia permanecerá válida. Os três primeiros pontos – controle, disciplina e paciência – são estimulados pelo sexto elemento, o tirano, ou a “situação limitadora”. O quarto ponto – a escolha do momento de ação – serve para preparar o salto transformador e o instante criativo que fará toda a diferença. O quinto ponto, a vontade, significa que, tendo aumentado sua eficiência e sendo impecável nessa situação concreta, o guerreiro reúne uma energia ilimitada, a ser usada no momento certo. Desse modo, cada pessoa de má vontade ou que boicota nossos esforços tem algo a nos ensinar. Se formos aprendizes conscientes da arte de viver, estaremos sendo beneficiados pelas suas ações agressivas, ainda que isso possa ser frustrante para o agressor. Normalmente, o pequeno tirano é um pobre desorientado. Ele não só ignora que sua má vontade contra nós na verdade nos beneficia, mas sequer  suspeita o quanto é gravemente prejudicial para ele próprio querer prejudicar alguém. Para o aprendiz da sabedoria, há três coisas de suprema importância. A primeira é não aceitar o papel de pequeno tirano nem perder tempo ou energia com pensamentos e ações destrutivos em relação a outrem. A segunda é não cair na posição de vítima paralisada ou inconsciente, e não alimentar auto piedade. A terceira é saber atuar como um colaborador da sabedoria universal em todas as situações da vida. www.emporioesoterico.com.br. Abraço. Davi