sexta-feira, 8 de outubro de 2021

O CONSUMISMO E SEUS MALES

 

Islamismo. www.mesquitadobras.org.br. Por Armed Ismail. O CONSUMISMO E SEUS MALES. O estilo de vida que se tornou predominante nas sociedades modernas, marcado pelo consumismo, tem sido objeto do estudo e da preocupação dos cientistas sociais e filósofos nas últimas décadas. O estilo de vida que se tornou predominante nas sociedades modernas, marcado pelo consumismo, tem sido objeto do estudo e da preocupação dos cientistas sociais e filósofos nas últimas décadas. Especialmente agora que se verifica a sua expansão por todos os continentes, formando algo que seus adeptos e propagandistas afirmam ser a nova cultura global que reflete, segundo eles, a marca da vida moderna. Há uma forte tendência entre os intelectuais críticos da cultura de massa a concordar em torno de certas características deletérias presentes nos padrões comportamentais típicos da sociedade de consumo. Padrões que parecem sugerir uma “nova religião” que substitui os templos pelos shopping centers e que, mais do que isso: “transforma os templos e a própria experiência místico-religiosa numa reprodução do mercado submetida à mesma lógica do capital e da competição. Ao mesmo tempo, seus efeitos têm contribuído de modo considerável para a desestruturação dos valores éticos e a identidade cultural dos povos, para o agravamento das desigualdades e de quase todos os males sociais. A estreita relação entre consumismo e violência torna-se um tema desconcertante para uma sociedade que venera o dinheiro e que assume o consumismo como um ritual dessa veneração; e que por outro lado, se vê submersa numa condição crônica de sintomas ameaçadores, tais como a violência e a criminalidade. Se na década de 60 do século passado, filósofos e cientistas sociais se dedicaram a entender os mecanismos sociais, econômicos e políticos que produziram a cultura de massa e o consumismo, na atualidade, os mesmos se encontram voltados para as consequências a médio e a longo prazo de uma progressiva e global onda de consumismo. A adoção, numa escala jamais vista, do que se pode denominar de um estilo predatório de vida, o qual demanda um consumo incessante de recursos naturais, maior do que o planeta pode suportar, torna-se agora um novo e mais ameaçador sintoma. Estudiosos do meio ambiente sustentam que no caso de um país como a China, o mais populoso da terra, integrar-se a onda consumista de maneira a que todos os seus cidadãos alcancem o mesmo poder de consumo do cidadão médio americano, será uma catástrofe planetária. Uma Percepção Distorcida da Realidade. Tais evidências nos parecem suficientes para demonstrar que esse estilo de vida é essencialmente pecaminoso e contrário às diretrizes divinas. Sua origem reside numa distorcida percepção da realidade e da condição espiritual do ser humano. A perspectiva do comportamento consumista é a do acúmulo e do estabelecimento do valor da vida nos bens materiais. Essa perspectiva só se torna possível com a ausência dos valores espirituais superiores; e isso explica o processo de degeneração dos valores éticos que acompanha uma sociedade submetida à lógica do consumo. O Alcorão Sagrado aborda esse tema a partir de uma descrição de um conjunto de características que definem esse estado de concepção materialista da vida, e que se tornam predominantes nos indivíduos quando reduzem suas expectativas a vida neste mundo. O Livro de Allah, orientação por excelência para nossa felicidade neste mundo e no além, descreve a vida neste mundo para despertar nossa consciência e nos libertar das falsas expectativas e diz: “Sabei que a vida terrena é tão-somente jogo e diversão, veleidades, mútua vanglória e rivalidade, com respeito à multiplicação de bens e filhos; é como a chuva, que compraz aos cultivadores, por vivificar a plantação; logo, completa-se o seu crescimento e a verás amarelada e transformada em feno. Na outra vida haverá castigos severos, indulgência e complacência de Deus. Que é vida terrena, senão um prazer ilusório?”. (C.57 – V.20). Com toda clareza o versículo sagrado define em poucas palavras, o resumo do que é o esforço humano em alcançar metas que satisfaçam seu ego neste mundo e o quão inúteis são suas pretensões, desde que não esteja atento para o significado maior de sua vida. Vemos, pois, que a tendência materialista que produziu o consumismo no mundo moderno se baseia numa total inconsciência quanto ao verdadeiro propósito da vida, e isso leva o indivíduo a tomar a si próprio como medida para todas as coisas. Esta visão hedonista o incapacita de perceber o profundo engano que o move. É interessante notar que o Islam, diferentemente da maioria dos filósofos modernos, aborda o problema de uma ótica focada no indivíduo e no âmago de seu ser. Isto é, não se limita aos sintomas (dos quais o consumismo é apenas um exemplo) ou às manifestações que terminam por surgir no tecido social. Ao contrário, diagnostica o problema essencial que habita o coração do homem e que o arrasta a um estado de miséria existencial e mais do que isso, oferece os meios de saná-lo. A abordagem sociológica e filosófica tende a situar o problema nos fenômenos históricos e econômicos que produziram o que se denomina “cultura de massa”. Não há dúvida sobre a importância dos mecanismos cada vez mais eficientes dessa cultura global do consumo, que em menos de um século tornou-se um poder que desafia culturas e tradições milenares impondo seus valores. Contudo, o Islam identifica o processo dessa degeneração cultural e social dentro dos indivíduos, ressaltando que a solução disso se encontra na vontade e na natureza do homem. Entender o padrão psicológico que define esse estado de distorção da realidade espiritual, nos parece fundamental para que percebamos o que é essencialmente esta tendência materialista que se manifesta na forma do consumismo. Esse padrão psicológico possui um conjunto de características, das quais as principais são: • O condicionamento ao desperdício. • O culto ao supérfluo e o gosto pela frivolidade. • A ostentação e a vaidade. • A inclinação ao que é falso. • A busca incessante do lazer. • O limitado entendimento da realidade da vida. Estas seis características resumem a essência do comportamento humano condicionado e submetido ao que chamamos hoje de “cultura de massa”. Essa incessante máquina de produzir “o Novo” e transformar desejos em “necessidades” num processo de sedução das mentes e dos corações no qual os indivíduos se tornam também “mercadoria”. Sem o sentirem se tornam desprovidos de um senso crítico ao ponto que seus valores e aspirações não são senão os valores e as aspirações da “massa” definidos pela máquina de produção e propaganda. Na realidade, essas características tornaram-se predominantes a medida que as sociedades sofreram um processo de decadência em seus valores tradicionais e os laços comunitários foram substituídos pela competição individualista. Como resultado, o que temos verificado é um irônico estado de infelicidade, frustração e solidão instalado na sociedade moderna, a despeito de tanto consumo de bens materiais e das inovações e comodidades ao alcance de tantas pessoas. A diretriz divina do Islam foi proporcionada pela misericórdia de Allah para libertar o gênero humano de todas as formas de escravidão. E esse padrão psicológico acima descrito é sem dúvida, uma prisão produzida na mente e no coração. Agora que abordamos o processo desse padrão psicológico que escraviza o homem a uma visão materialista, vejamos como o Islam nos orienta para que nos libertemos dele. O Condicionamento ao Desperdício. A desconexão com a sabedoria tradicional que se fundamentava numa relação direta com a natureza produziu o condicionamento ao desperdício. O Islam nos ensina que tudo o que a natureza nos proporciona é um bem, uma dádiva divina em relação a qual estamos comprometidos em fazer uso sábio. A inclinação ao desperdício surge a partir de uma incorreta noção da natureza e do valor dos benefícios que nos cercam. Diz o Sagrado Alcorão: “Deus foi Quem criou os céus e a terra e é Quem envia a água do céu, com a qual produz os frutos para o vosso sustento! Submeteu, para vós, os navios que, com a Sua anuência, singram os mares, e submeteu, para vós, os rios. (C.14 – V.32). E diz ainda: “Ó filhos de Adão, revesti-vos de vosso melhor atavio quando fordes às mesquitas; comei e bebei; porém, não vos excedais, porque Ele não aprecia os perdulários.” (C.7 – V.31). Assim, somos lembrados de que os benefícios e dádivas provém de Allah e não são produtos do acaso. Não podemos viver dirigidos por um sentido destrutivo de esbanjar tudo o que está a nosso alcance. Não detemos a posse absoluta de nenhuma das dádivas que provém de Deus, e portanto, devemos lembrar que as mesmas foram criadas para todas as criaturas, o que naturalmente não nos dá o direito de agirmos como “donos exclusivos”. É lamentável que tenha se tornado comum, por exemplo, o desperdício de água, pela simples razão de que “se possa pagar por ela”. O Islam nos ensina que tal atitude é uma forma de desrespeitar os direitos dos outros, não importa o pretexto que se use para tal. O remédio para esse condicionamento ao desperdício é adquirir a consciência de que todos os benefícios e recursos materiais que nos são dados provém da bondade de Allah e que a moderação no usufruto deles é um meio de adquirir felicidade neste mundo e no além. O Culto ao Supérfluo e o gosto pela Frivolidade. Trata-se de uma extensão natural do condicionamento ao desperdício. É um elemento importante do consumismo um apelo a eleger o supérfluo como uma necessidade vital. O Islam nos ensina a buscar a paz de espírito no cultivo da reflexão e na prática da bondade. Reflexão é o melhor antídoto para não fazermos de nossa própria mente o nosso pior inimigo. Isto é, considerar corretamente os nossos desejos e inclinações, descobrir qual o propósito que nos move, e então buscar o que for melhor e não o que seja conveniente aos nossos caprichos. Saibamos que não alcançaremos paz de espírito e felicidade segundo o número de peças de roupa que tenhamos em nosso guarda-roupa ou a quantidade de objetos que consigamos comprar e acumular em nossas casas. E é exatamente nisso que consiste o culto ao supérfluo e o gosto pela frivolidade: depositar expectativas de que essas coisas nos farão felizes e satisfeitos quando, na verdade, isso é impossível. Tal escolha e modo de pensar não leva senão a frustração, a angústia e ao medo da vida. Não por acaso, os que não crêem no que Deus revelou e que vivem segundo suas próprias concepções, são os que fazem dessas coisas a meta de suas vidas. Despendem grandes esforços e recursos para buscar satisfação naquilo que é supérfluo ou em preocupações com o que é leviano, até que a morte lhes chegue e reduza tudo isso a nada. Alguém que deseje escapar dessa armadilha da mente, deve preencher seu coração com a lembrança de Deus, examinar seu próprio coração à luz da orientação divina e se o fizer sinceramente, encontrará satisfação e clareza de entendimento. Substituir maus hábitos por bons embora nos pareça difícil, é uma tarefa que é facilitada quando substituímos nossos conceitos sobre a importância das coisas, e isso é possível quando adotamos o conhecimento correto proveniente do Livro de Allah, dos ensinamentos do Profeta (saas) e dos Imames de sua Casa (as). A Ostentação e a Vaidade. Como consequência lógica da anterior, esta característica se faz presente e se fundamenta na mesma visão incorreta sobre a condição humana no mundo. A busca de afirmação e segurança nos leva de maneira equivocada a acreditar que o nosso valor como pessoa é o resultado do quanto possamos incrementar nossa aparência e ostentar perante os demais os bens materiais que adquirimos. A palavra “sofisticação” ganhou uma posição de prestígio e distinção no mundo moderno; sintetiza a medida predominante que distingue o valor das coisas, ou ao menos a medida consagrada pela máquina de consumo. O grande equívoco neste caso se encontra na própria palavra “sofisticação” que significa apenas “falsidade, falácia, aparência enganosa”. Similar equívoco nos induz a supor que seremos mais felizes do que hoje somos se amanhã possuirmos mais e melhores bens de consumo, e, no entanto, esta é uma competição perdida; o culto ao “novo” decreta que tal esforço está fadado a frustração na medida que jamais há um fim para a “necessidade” de adquirir e ostentar. Então o que vemos é uma constante insatisfação e infelicidade instalada nas pessoas que, ironicamente possuem muito e do melhor e que não podem dizer-se de modo algum mais felizes do que aquelas que pouco ou nada tem. Esta constatação deveria por si só servir as pessoas para despertarem desse estado de autoengano. Não há qualquer possibilidade de libertar-se desse jugo senão reconhecer que toda Grandeza e Majestade pertence a Deus . O islã nos alerta para o fato de que a ostentação e a vaidade em qualquer maneira que se manifeste estão condenadas a encontrarem a ruína neste mundo ainda , desde que o tempo desfaz a boa aparência e o acúmulo de bens não nos livra do envelhecimento , da doença ou da morte. A Inclinação ao Que é Falso. Esta inclinação tem como principal fundamento a inconsciente tendência a negar aquilo que não “corresponde aos nossos desejos”. Enquanto uma pessoa elege seus próprios caprichos e desejos como “medida para a verdade” estará submetido a influência de tudo o que é falso e enganoso; porque a natureza da falsidade é conformar-se aos desejos humanos para atrair e dominar os incautos. Assim, vemos que a essência da propaganda e da publicidade é manipular nossos medos, nossos complexos e problemas pessoais. E atualmente essas técnicas tem sido empregadas mesmo em nome da “religião”; seitas e organizações religiosas com cuidadosas “encenações” prometem a “solução fácil” para os problemas e a satisfação dos desejos utilizando os mesmos métodos da publicidade. O Islam nos ensina que “soluções fáceis” e satisfação dos desejos são as principais armas que Xaitan utiliza para iludir os humanos e arrastá-los para a perdição neste mundo e no além. Ninguém pode livrar-se dessas armadilhas a menos que busque a compreensão da Verdade Revelada, não segundo seus caprichos pessoais tampouco com o intuito de conformar a Orientação Divina a seus desejos. Ou seja, somente renegando a adoração a nossos desejos e caprichos e buscando a adoração sincera a Deus alguém pode ser liberto dessa prisão da mente e do coração que o submete a falsidade. Ao contrário das características anteriores, esta não é um hábito a ser substituído, é, antes, uma má inclinação que sugere um desvio de caráter. Requer uma reforma pessoal a partir de uma atenta autocrítica, que possibilite a pessoa abandonar a visão egocêntrica que a leva a rejeitar o que não esteja de acordo com seus desejos. A Busca Incessante do Lazer. Esta característica, que tem sido explorada pela máquina de consumo, se apoia na reconhecida necessidade humana de um tempo para o lazer no qual a mente se refaça das atividades e tarefas da vida. Contudo, o que se constata em nossa época é uma obsessiva busca de lazer e entretenimento que reflete uma inconsciente e constante “fuga” da realidade. Como resultado, podemos dizer a visão da vida e do mundo que essas pessoas possuem é mais o produto de uma mescla de sonhos, projeções, sensações induzidas artificialmente e desejos inconscientes do que percepção da realidade. O Islam nos orienta a não negligenciarmos nem a necessidade do lazer e da distração tampouco renunciarmos a nossa obrigação de raciocinar sobre as questões essenciais da vida. Nos orienta a buscarmos o conhecimento da realidade espiritual e pautarmos nossas ações e escolhas segundo a diretriz divina, e não vivermos como se a nossa existência se passasse num imenso playground. Não há outro remédio para libertar o humano desse engodo para o qual sua própria mente o induz senão o reconhecimento da efemeridade da vida terrena e de seu objetivo real, tal como os profetas e mensageiros (as) predicaram. Ninguém, pois, que seja sensato tratará sua própria vida com semelhante descaso se tornar-se consciente de seu verdadeiro propósito. O Limitado Entendimento da Realidade da Vida.  Sendo a fonte de todas as características anteriores, esta é, na verdade, a que se puder ser eliminada, todas as outras o serão. O Sagrado Alcorão exemplifica a essência dessa mentalidade tacanha dizendo: “Distinguem tão-somente o aparente da vida terrena; porém, estão alheios quanto à outra vida. Porventura não refletem em si mesmos? Deus não criou os céus, a terra e o que existe entre ambos, senão com prudência e por um término prefixado. Porém, certamente muitos dos humanos negam o comparecimento ante o seu Senhor (quando da Ressurreição). (C.30 V.7 e 8). Os versículos sagrados descrevem a condição dessas pessoas definindo sua limitação de entendimento quer sobre a vida, sobre si próprios e sobre o mundo que os cerca; o que os leva a não acreditar na promessa divina do acerto de contas no dia do juízo. Em razão disso vivem de modo similar aos animais irracionais: para comer, beber, acumular, acasalar e satisfazer suas paixões, sem jamais considerar seriamente a razão de sua estada no mundo. É precisamente essa alienação da realidade espiritual que produziu inúmeras falsas concepções sobre o significado da existência; todas elas em harmonia com as conveniências e as inclinações pessoais. Quer os sistemas filosóficos ateístas ou a pura amoralidade, preconizam algo que pode se definir como “a ideologia do viver bem”. Segundo os que a seguem desde que “não há outra vida senão esta, o ser humano deve gozar o máximo dos prazeres do mundo”. O Sagrado Alcorão menciona a estes dizendo: “Não tens reparado, naquele que idolatrou a sua concupiscência! Deus extraviou-o com conhecimento, sigilando os seus ouvidos e o seu coração, e cobriu a sua visão. Quem o iluminará, depois de Deus (tê-lo desencaminhado)? Não meditais, pois? E dizem: Não há vida, além da terrena. Vivemos e morremos, e não nos aniquilará senão o tempo! Porém, com respeito a isso, carecem de conhecimento e não fazem mais do que conjecturar”. (C.45 - 23 e 24). Embora tal mentalidade não seja algo novo na história humana, podemos dizer que nessa como em nenhuma outra época tornou-se predominante. Alguns dos filósofos e cientistas sociais defendem a tese de que em razão da decadência do pensamento religioso e da ética revolucionária no ocidente, a chamada ideologia do “viver bem” efetivada pela lógica do consumo tornou-se algo como uma “nova religião” que prega a “felicidade possível nesse mundo”. Costumes e modas como o consumismo, a troca de casais, a gastronomia, o culto ao entretenimento, os esportes de alto risco, o consumo de drogas ou os jogos de azar são alguns exemplos da manifestação dessa mentalidade. Chega a ser impressionante que mesmo pessoas que se dizem religiosas quando perguntadas sobre suas concepções sobre a vida após a morte e um possível julgamento de Deus ou a existência do paraíso e do inferno, respondem que não acreditam senão na vida neste mundo. O Sagrado Alcorão resume a condição e o destino dessas pessoas dizendo: “Aqueles que não esperam o Nosso encontro, comprazem-se com a vida terrena, conformando-se com ela, e negligenciam os Nossos versículos.” (C.10 – V.7) “Quanto àqueles que preferem a vida terrena e seus encantos, far-lhes-emos desfrutar de suas obras, durante ela, e sem diminuição. Serão aqueles que não obterão não vida futura senão o fogo infernal; e tudo quanto tiverem feito aqui tornar-se-á sem efeito e será vão tudo quanto fizerem.”(C.11 – V.15 e 16). Assim, receberão no além na medida da consequência de sua descrença e suas obras más perdurarão enquanto suas eventuais boas obras se desvanecerão. Diante de tudo o que foi exposto aqui, percebemos que a oportunidade que nos é dada neste mundo deve ser aproveitada antes que a morte nos surpreenda. Não resta outra solução senão despertarmos para a realidade espiritual, e esse despertar significa libertar-se de todas as visões limitadas e falsas que pretendem escravizar nossa mente e nosso coração. Sanar a alma, tal como sanar o corpo significa adotar o tratamento adequado. Um homem fisicamente doente se apressa e se preocupa em buscar a cura, e, no entanto, prevalece no ser humano uma incompreensível tendência a negligenciar a doença de sua própria alma. Ao olhar ao nosso redor, vemos a todo instante os efeitos maléficos da mentalidade materialista e irreligiosa, vemos uma infelicidade que se aprofunda a despeito de tanta “alegria e prazer artificiais que o sistema proporciona”. Julgamos que a paz e a segurança possam ser garantidas pelo poder do cartão de crédito e, no entanto, não podemos explicar a depressão, a angústia e mesmo o suicídio de tantos “bem sucedidos”. Imam Asssadeq (as) disse: “aquele que devota seu coração a este mundo estará sujeito a três condições: preocupação sem fim, insaciáveis desejos e fútil esperança.” Possa Allah nos conceder a compreensão correta das coisas tal como são e nos guiar para o melhor neste mundo e no além. www.mesquitadobras.org.br. Abraço. Davi

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

OS TRÊS REINOS

 

Espiritismo. www.febnet.org.br. O Livro dos Espíritos. Texto de Alan Kardec (1804-1869). Parte II. Capítulo XI. DOS TRÊS REINOS.  I. OS MINERAIS E AS PLANTAS. II. OS ANIMAIS E O HOMEM. III. METEMPSICOSE. OS MINERAIS E AS PLANTAS. Que pensais da divisão da Natureza em três reinos, ou melhor, em duas classes: a dos seres orgânicos e a dos inorgânicos? Segundo alguns, a espécie humana forma uma quarta classe. Qual destas divisões é preferível? “Todas são boas, conforme o ponto de vista. Do ponto de vista material, apenas há seres orgânicos e inorgânicos. Do ponto de vista moral, há evidentemente quatro graus.” Esses quatro graus apresentam, com efeito, caracteres determinados, muito embora pareçam confundir-se nos seus limites extremos. A matéria inerte, que constitui o reino mineral, só tem em si uma força mecânica. As plantas, ainda que compostas de matéria inerte, são dotadas de vitalidade. Os animais, também compostos de matéria inerte e igualmente dotados de vitalidade, possuem, além disso, uma espécie de inteligência instintiva, limitada, e a consciência de sua existência e de suas individualidades. O homem, tendo tudo o que há nas plantas e nos animais, domina todas as outras classes por uma inteligência especial, indefinida, que lhe dá a consciência do seu futuro, a percepção das coisas extra materiais e o conhecimento de Deus. Têm as plantas consciência de que existem? “Não, pois que não pensam; só têm vida orgânica.”  Experimentam sensações? Sofrem quando as mutilam? “Recebem impressões físicas que atuam sobre a matéria, mas não têm percepções. Conseguintemente, não têm a sensação da dor.” Independe da vontade delas a força que as atrai umas para as outras? “Certo, porquanto não pensam. É uma força mecânica da matéria, que atua sobre a matéria, sem que elas possam a isso opor-se.” Algumas plantas, como a sensitiva e a dionéia, por exemplo, executam movimentos que denotam grande sensibilidade e, em certos casos, uma espécie de vontade, conforme se observa na segunda, cujos lóbulos apanham a mosca que sobre ela pousa para sugá-la, parecendo que urde uma armadilha com o fim de capturar e matar aquele inseto. São dotadas essas plantas da faculdade de pensar? Têm vontade e formam uma classe intermediária entre a Natureza vegetal e a Natureza animal? Constituem a transição de uma para outra? Tudo na Natureza é transição, por isso mesmo que uma coisa não se assemelha a outra e, no entanto, todas se prendem umas às outras. As plantas não pensam; por conseguinte carecem de vontade. Nem a ostra que se abre, nem os zoófitos pensam: têm apenas um instinto cego e natural.” O organismo humano nos proporciona exemplo de movimentos análogos, sem participação da vontade, nas funções digestivas e circulatórias. O piloro se contrai, ao contato de certos corpos, para lhes negar passagem. O mesmo provavelmente se dá na sensitiva, cujos movimentos de nenhum modo implicam a necessidade de percepção e, ainda menos, da vontade. Não haverá nas plantas, como nos animais, um instinto de conservação, que as induza a procurar o que lhes possa ser útil e a evitar o que lhes possa ser nocivo? “Há, se quiserdes, uma espécie de instinto, dependendo isso da extensão que se dê ao significado desta palavra. É, porém, um instinto puramente mecânico. Quando, nas operações químicas, observais que dois corpos se reúnem, é que um ao outro convém; quer dizer: é que há entre eles afinidade. Ora, a isto não dais o nome de instinto.” Nos mundos superiores, as plantas são de natureza mais perfeita, como os outros seres? “Tudo é mais perfeito. As plantas, porém, são sempre plantas, como os animais sempre animais e os homens sempre homens.” OS ANIMAIS E O HOMEM. Se, pelo que toca à inteligência, comparamos o homem e os animais, parece difícil estabelecer-se uma linha de demarcação entre aquele e estes, porquanto alguns animais mostram, sob esse aspecto, notória superioridade sobre certos homens. Pode essa linha de demarcação ser estabelecida de modo preciso? “A este respeito é completo o desacordo entre os vossos filósofos. Querem uns que o homem seja um animal e outros que o animal seja um homem. Estão todos em erro. O homem é um ser à parte, que desce muito baixo algumas vezes e que pode também elevar-se muito alto. Pelo físico, é como os animais e menos bem dotado do que muitos destes. A Natureza lhes deu tudo o que o homem é obrigado a inventar com a sua inteligência, para satisfação de suas necessidades e para sua conservação. Seu corpo se destrói, como o dos animais, é certo, mas ao seu Espírito está assinado um destino que só ele pode compreender, porque só ele é inteiramente livre. Pobres homens, que vos rebaixais mais do que os brutos! não sabeis distinguir-vos deles? Reconhecei o homem pela faculdade de pensar em Deus.” Poder-se-á dizer que os animais só obram por instinto? “Ainda aí há um sistema. É verdade que na maioria dos animais domina o instinto. Mas, não vês que muitos obram denotando acentuada vontade? É que têm inteligência, porém limitada.” Não se poderia negar que, além de possuírem o instinto, alguns animais praticam atos combinados, que denunciam vontade de operar em determinado sentido e de acordo com as circunstâncias. Há, pois, neles, uma espécie de inteligência, mas cujo exercício quase que se circunscreve à utilização dos meios de satisfazerem às suas necessidades físicas e de proverem à conservação própria. Nada, porém, criam, nem melhora alguma realizam. Qualquer que seja a arte com que executem seus trabalhos, fazem hoje o que faziam outrora e o fazem, nem melhor, nem pior, segundo formas e proporções constantes e invariáveis. A cria, separada dos de sua espécie, não deixa por isso de construir o seu ninho de perfeita conformidade com os seus maiores, sem que tenha recebido nenhum ensino. O desenvolvimento intelectual de alguns, que se mostram suscetíveis de certa educação, desenvolvimento, aliás, que não pode ultrapassar acanhados limites, é devido à ação do homem sobre uma natureza maleável, porquanto não há aí progresso que lhe seja próprio. Mesmo o progresso que realizam pela ação do homem é efêmero e puramente individual, visto que, entregue a si mesmo, não tarda que o animal volte a encerrar-se nos limites que lhe traçou a Natureza. Têm os animais alguma linguagem? “Se vos referis a uma linguagem formada de sílabas e palavras, não. Meio, porém, de se comunicarem entre si, têm. Dizem uns aos outros muito mais coisas do que imaginais. Mas, essa mesma linguagem de que dispõem é restrita às necessidades, como restritas também são as ideias que podem ter.” Há, entretanto, animais que carecem de voz. Esses parece que nenhuma linguagem usam, não? “Compreendem-se por outros meios. Para vos comunicardes reciprocamente, vós outros, homens, só dispondes da palavra? E os mudos? Facultada lhes sendo a vida de relação, os animais possuem meios de se prevenirem e de exprimirem as sensações que experimentam. Pensais que os peixes não se entendem entre si? O homem não goza do privilégio exclusivo da linguagem. Porém, a dos animais é instintiva e circunscrita pelas suas necessidades e ideias, ao passo que a do homem é perfectível e se presta a todas as concepções da sua inteligência.” Efetivamente, os peixes que, como as andorinhas, emigram em cardumes, obedientes ao guia que os conduz, devem ter meios de se advertirem, de se entenderem e combinarem. É possível que disponham de uma vista mais penetrante e está lhes permita perceber os sinais que mutuamente façam. Pode ser também que tenham na água um veículo próprio para a transmissão de certas vibrações. Como quer que seja, o que é incontestável é que lhes não falecem meios de se entenderem, do mesmo modo que a todos os animais carentes de voz e que, não obstante, trabalham em comum. Diante disso, que admiração pode causar que os Espíritos entre si se comuniquem sem o auxílio da palavra articulada? Gozam de livre-arbítrio os animais, para a prática dos seus atos? “Os animais não são simples máquinas, como supondes. Contudo, a liberdade de ação, de que desfrutam, é limitada pelas suas necessidades e não se pode comparar à do homem. Sendo muitíssimo inferiores a este, não têm os mesmos deveres que ele. A liberdade, possuem-na restrita aos atos da vida material.” Donde procede a aptidão que certos animais denotam para imitar a linguagem do homem e por que essa aptidão se revela mais nas aves do que no macaco, por exemplo, cuja conformação apresenta mais analogia com a humana? “Origina-se de uma particular conformação dos órgãos vocais, reforçada pelo instinto de imitação. O macaco imita os gestos; algumas aves imitam a voz.” Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente da matéria? “Há e que sobrevive ao corpo.” Será esse princípio uma alma semelhante à do homem? “É também uma alma, se quiserdes, dependendo isto do sentido que se der a esta palavra. É, porém, inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus.” Após a morte, conserva a alma dos animais a sua individualidade e a consciência de si mesma? “Conserva sua individualidade; quanto à consciência do seu eu, não. A vida inteligente lhe permanece em estado latente.” À alma dos animais é dado escolher a espécie de animal em que encarne? “Não, pois que lhe falta livre-arbítrio.” Sobrevivendo ao corpo em que habitou, a alma do animal vem a achar-se, depois da morte, num estado de erraticidade, como a do homem? “Fica numa espécie de erraticidade, pois que não mais se acha unida ao corpo, mas não é um Espírito errante. O Espírito errante é um ser que pensa e obra por sua livre vontade. De idêntica faculdade não dispõe o dos animais. A consciência de si mesmo é o que constitui o principal atributo do Espírito. O do animal, depois da morte, é classificado pelos Espíritos a quem incumbe essa tarefa e utilizado quase imediatamente. Não lhe é dado tempo de entrar em relação com outras criaturas.” Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva? “Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem e se lhe acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes.” Nada há nisso de extraordinário. Tomemos os nossos mais inteligentes animais, o cão, o elefante, o cavalo, e imaginemo-los dotados de uma conformação apropriada a trabalhos manuais. Que não fariam sob a direção do homem? Os animais progridem, como o homem, por ato da própria vontade, ou pela força das coisas? “Pela força das coisas, razão por que não estão sujeitos à expiação.” Nos mundos superiores, os animais conhecem a Deus? “Não. Para eles o homem é um deus, como outrora os Espíritos eram deuses para o homem.” Pois que os animais, mesmo os aperfeiçoados, existentes nos mundos superiores, são sempre inferiores ao homem, segue-se que Deus criou seres intelectuais perpetuamente destinados à inferioridade, o que parece em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que todas as suas obras revelam. “Tudo na Natureza se encadeia por elos que ainda não podeis apreender. Assim, as coisas aparentemente mais díspares têm pontos de contato que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a compreender. Por um esforço da inteligência poderá entrevê-los; mas, somente quando essa inteligência estiver no máximo grau de desenvolvimento e liberta dos preconceitos do orgulho e da ignorância, logrará ver claro na obra de Deus. Até lá, suas muito restritas ideias lhe farão observar as coisas por um mesquinho e acanhado prisma. Sabei não ser possível que Deus se contradiga e que, na Natureza, tudo se harmoniza mediante leis gerais, que por nenhum de seus pontos deixam de corresponder à sublime sabedoria do Criador.” A inteligência é então uma propriedade comum, um ponto de contato entre a alma dos animais e a do homem? “É, porém os animais só possuem a inteligência da vida material. No homem, a inteligência proporciona a vida moral.” Considerando-se todos os pontos de contato que existem entre o homem e os animais, não seria lícito pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita e que, se esta última não existisse, só como o bruto poderia ele viver? Por outra: que o animal é um ser semelhante ao homem, tendo de menos a alma espírita? Dessa maneira de ver resultaria serem os bons e os maus instintos do homem efeito da predominância de uma ou outra dessas almas? “Não, o homem não tem duas almas. O corpo, porém, tem seus instintos, resultantes da sensação peculiar aos órgãos. Dupla, no homem, só é a natureza. Há nele a natureza animal e a natureza espiritual. Participa, pelo seu corpo, da natureza dos animais e de seus instintos. Por sua alma, participa da dos Espíritos.” De modo que, além de suas próprias imperfeições de que cumpre ao Espírito despojar-se, tem ainda o homem que lutar contra a influência da matéria? “Quanto mais inferior é o Espírito, tanto mais apertados são os laços que o ligam à matéria. Não o vedes? O homem não tem duas almas; a alma é sempre única em cada ser. São distintas uma da outra a alma do animal e a do homem, a tal ponto que a de um, não pode animar o corpo criado para o outro. Mas, conquanto não tenha alma animal, que, por suas paixões, o nivele aos animais, o homem tem o corpo que, às vezes, o rebaixa até ao nível deles, por isso que o corpo é um ser dotado de vitalidade e de instintos, porém ininteligentes estes e restritos ao cuidado que a sua conservação requer.” Encarnando no corpo do homem, o Espírito lhe traz o princípio intelectual e moral, que o torna superior aos animais. As duas naturezas nele existentes dão às suas paixões duas origens diferentes: umas provêm dos instintos da natureza animal, provindo as outras das impurezas do Espírito, de cuja encarnação é ele a imagem e que mais ou menos simpatiza com a grosseria dos apetites animais. Purificando-se, o Espírito se liberta pouco a pouco da influência da matéria. Sob essa influência, aproxima-se do bruto. Isento dela, eleva-se à sua verdadeira destinação. 606. Donde tiram os animais o princípio inteligente que constitui a alma de natureza especial de que são dotados? “Do elemento inteligente universal.” Então, emanam de um único princípio a inteligência do homem e a dos animais? “Sem dúvida alguma, porém, no homem, passou por uma elaboração que a coloca acima da que existe no animal.” Dissestes que o estado da alma do homem, na sua origem, corresponde ao estado da infância na vida corporal, que sua inteligência apenas desabrocha e se ensaia para a vida. Onde passa o Espírito essa primeira fase do seu desenvolvimento? “Numa série de existências que precedem o período a que chamais Humanidade.” Parece que, assim, se pode considerar a alma como tendo sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação, não? “Já não dissemos que tudo em a Natureza se encadeia e tende para a unidade? Nesses seres, cuja totalidade estais longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de dizer. É, de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. Entra então no período da humanização, começando a ter consciência do seu futuro, capacidade de distinguir o bem do mal e a responsabilidade dos seus atos. Assim, à fase da infância se segue a da adolescência, vindo depois a da juventude e da madureza. Nessa origem, coisa alguma há de humilhante para o homem. Sentir-se-ão humilhados os grandes gênios por terem sido fetos informes nas entranhas que os geraram? Se alguma coisa há que lhe seja humilhante, é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência para lhe sondar a profundeza dos desígnios e para apreciar a sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo. Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia, mediante a qual tudo é solidário na Natureza. Acreditar que Deus haja feito, seja o que for, sem um fim, e criado seres inteligentes sem futuro, fora blasfemar da sua bondade, que se estende por sobre todas as suas criaturas.” Esse período de humanização principia na Terra? “A Terra não é o ponto de partida da primeira encarna- ção humana. O período da humanização começa, geralmente, em mundos ainda inferiores à Terra. Isto, entretanto, não constitui regra absoluta, pois pode suceder que um Espírito, desde o seu início humano, esteja apto a viver na Terra. Não é freqüente o caso; constitui antes uma exceção.” O Espírito do homem tem, após a morte, consciência de suas existências anteriores ao período de humanidade? “Não, pois não é desse período que começa a sua vida de Espírito. Difícil é mesmo que se lembre de suas primeiras existências humanas, como difícil é que o homem se lembre dos primeiros tempos de sua infância e ainda menos do tempo que passou no seio materno. Essa a razão por que os Espíritos dizem que não sabem como começaram.” Uma vez no período da humanidade, conserva o Espírito traços do que era precedentemente, quer dizer: do estado em que se achava no período a que se poderia chamar ante humano? “Conforme a distância que medeie entre os dois períodos e o progresso realizado. Durante algumas gerações, pode ele conservar vestígios mais ou menos pronunciados do estado primitivo, porquanto nada se opera na Natureza por brusca transição. Há sempre anéis que ligam as extremidades da cadeia dos seres e dos acontecimentos. Aqueles vestígios, porém, se apagam com o desenvolvimento do livre arbítrio. Os primeiros progressos só muito lentamente se efetuam, porque ainda não têm a envolvê-los a vontade. Vão em progressão mais rápida, à medida que o Espírito adquire mais perfeita consciência de si mesmo.” Ter-se-ão enganado os Espíritos que disseram constituir o homem um ser à parte na ordem da criação? “Não, mas a questão não fora desenvolvida. Demais, há coisas que só a seu tempo podem ser esclarecidas. O homem é, com efeito, um ser à parte, visto possuir faculdades que o distinguem de todos os outros e ter outro destino. A espécie humana é a que Deus escolheu para a encarnação dos seres que podem conhecê-lo.” III. METEMPSICOSE. O terem os seres vivos uma origem comum no princípio inteligente não é a consagração da doutrina da metempsicose? “Duas coisas podem ter a mesma origem e absolutamente não se assemelharem mais tarde. Quem reconheceria a árvore, com suas folhas, flores e frutos, no gérmen informe que se contém na semente donde ela surge? Desde que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período da humanização, já não guarda relação com o seu estado primitivo e já não é a alma dos animais, como a árvore já não é a semente. De animal só há no homem o corpo e as paixões que nascem da influência do corpo e do instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode, pois, dizer que tal homem é a encarnação do Espírito de tal animal. Conseguintemente, a metempsicose, como a entendem, não é verdadeira.” Poderia encarnar num animal o Espírito que animou o corpo de um homem? “Isso seria retroceder (involuir) e o Espírito não retrocede. O rio não remonta à sua nascente.” Embora de todo errônea, a ideia ligada à metempsicose não terá resultado do sentimento intuitivo que o homem possui de suas diferentes existências? “Nessa, como em muitas outras crenças, se depara esse sentimento intuitivo. O homem, porém, o desnaturou, como costuma fazer com a maioria de suas ideias intuitivas.” Seria verdadeira a metempsicose, se indicasse a progressão da alma, passando de um estado inferior a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza. É, porém, falsa no sentido de transmigração direta da alma do animal para o homem e reciprocamente, o que implicaria a ideia de uma retrocesso, ou de fusão. Ora, o fato de não poder semelhante fusão operar-se, entre os seres corporais das duas espécies, mostra que estas são de graus não assimiláveis, devendo dar-se o mesmo com relação aos Espíritos que as animam. Se um mesmo Espírito as pudesse animar alternativamente, haveria, como consequência, uma identidade de natureza, traduzindo-se pela possibilidade da reprodução material. A reencarnação, como os Espíritos a ensinam, se funda, ao contrário, na marcha ascendente da Natureza e na progressão do homem, dentro da sua própria espécie, o que em nada lhe diminui a dignidade. O que o rebaixa é o mau uso que ele faz das faculdades que Deus lhe outorgou para que progrida. Seja como for, a ancianidade (velhice) e a universalidade da doutrina da metempsicose e, bem assim, a circunstância de a terem professado homens eminentes provam que o princípio da reencarnação se radica na própria Natureza. Antes, pois, constituem argumentos a seu favor, que contrários a esse princípio. O ponto inicial do Espírito é uma dessas questões que se prendem à origem das coisas e de que Deus guarda o segredo. Dado não é ao homem conhecê-las de modo absoluto, nada mais lhe sendo possível a tal respeito do que fazer suposições, criar sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas. É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animais. Segundo uns, o Espírito não chega ao período humano senão depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação. Segundo outros, o Espírito do homem teria pertencido sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas apresenta a vantagem de assinar um alvo ao futuro dos animais, que formariam então os primeiros elos da cadeia dos seres pensantes. O segundo é mais conforme à dignidade do homem e pode resumir-se da maneira seguinte: As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente umas das outras, mediante progressão. Assim, o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe, do pássaro, do quadrúpede e do quadrúmano. Cada espécie constitui, física e moralmente, um tipo absoluto, cada um de cujos indivíduos haure na fonte universal a quantidade do princípio inteligente que lhe seja necessário, de acordo com a perfeição de seus órgãos e com o trabalho que tenha de executar nos fenômenos da Natureza, quantidade que ele, por sua morte, restitui ao reservatório donde a tirou. Os dos mundos mais adiantados que o nosso constituem igualmente raças distintas, apropriadas às necessidades desses mundos e ao grau de adiantamento dos homens, cujos auxiliares eles são, mas de modo nenhum procedem da Terra, espiritualmente falando. Outro tanto não se dá com o homem. Do ponto de vista físico, este forma evidentemente um elo da cadeia dos seres vivos; porém, do ponto de vista moral, há, entre o animal e o homem, solução de continuidade. O homem possui, como propriedade sua, a alma ou Espírito, centelha divina que lhe confere o senso moral e um alcance intelectual de que carecem os animais e que é nele o ser principal, que preexiste e sobrevive ao corpo, conservando sua individualidade. Qual a origem do Espírito? Onde o seu ponto inicial? Forma-se do princípio inteligente individualizado? Tudo isso são mistérios que fora inútil querer devassar e sobre os quais, como dissemos, nada mais se pode fazer do que construir sistemas. O que é constante, o que ressalta do raciocínio e da experiência é a sobrevivência do Espírito, a conservação de sua individualidade após a morte, a progressividade de suas faculdades, seu estado feliz ou desgraçado de acordo com o seu adiantamento na Senda do bem e todas as verdades morais decorrentes deste princípio. Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus, como muitas outras coisas, cujo conhecimento atual nada importa ao nosso progresso e sobre as quais seria inútil determo-nos. www.febnet.org.br. Abraço. Davi.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

ALCANÇAR A PAZ ATRAVÉZ DA PAZ INTERIOR

 

Budismo. Texto de Tenzin Gyatso (O 14º Dalai Lama). VALORES UNIVERSAIS. Os valores universais da bondade, afetuosidade, sinceridade e compaixão são apreciados por todas as pessoas. Eles são o segredo das amizades duradouras e da felicidade. Desconforto Físico e Mental. ALCANÇAR A PAZ ATRAVÉZ DA PAZ INTERIOR. A paz é uma preocupação de todos nós, no Oriente, no Ocidente, no Norte ou no Sul. Ricos ou pobres, todos nós deveríamos estar verdadeiramente preocupados com a paz. Todos nós somos seres humanos e por isso temos geralmente as mesmas preocupações: ser feliz, ter uma vida feliz. E todos merecemos uma vida feliz. Aqui, nós estamos falando a esse nível. Cada um de nós tem a sensação do "eu" ou do "self" sem entendermos por completo o que é esse "eu" ou "self". No entanto, apesar disso, temos um forte sentimento do "eu". Com esse sentimento vem o desejo de sermos felizes e não sofrermos. Este desejo surge ou aparece automaticamente. Com base nisto, todos nós temos o direito a ser feliz. No entanto, obstáculos e muitas coisas desagradáveis irão com certeza acontecer durante as nossas vidas. Existem duas categorias de sofrimento. Uma delas se deve a causas físicas, como por exemplo a doenças e ao envelhecimento. Assim como eu, que já tenho alguma experiência nesta área - já me é difícil ouvir, ver e andar. Estas coisas irão com certeza acontecer. A outra categoria é principalmente a nível mental. Se, a nível físico, tudo for confortável e luxuoso, e se apesar disso ainda tivermos stress e dúvidas interiores, nos sentiremos sós. Teremos ciúmes, medo e ódio, e por isso nos sentiremos infelizes. Assim, apesar de a nível físico tudo estar bem, a nível mental podemos estar com muito sofrimento. Para o conforto físico, então, sim, com dinheiro podemos reduzir um pouco o sofrimento e obter satisfação física. No entanto, esse [bem estar a] nível físico, que inclui o poder, nome e fama, não nos pode trazer a paz interior. A verdade é que às vezes ter muito dinheiro e riquezas só nos traz mais preocupações. Ficamos muito preocupados com o nosso nome e fama, e isso conduz a alguma hipocrisia, algum desconforto e algum estresse. Assim, a felicidade mental é menos dependente de recursos externos do que do nosso modo de pensar interior. Podemos ver que há pessoas que, embora pobres, são felizes e muito fortes a nível interior. De fato, se tivermos contentamento interior, podemos tolerar qualquer tipo de sofrimento físico e conseguimos transformá-lo por mais difícil que seja. Assim, entre a dor física e a mental, penso que a dor mental é mais severa porque enquanto o desconforto físico pode ser subjugado pelo conforto mental, o desconforto mental não pode ser eliminado pelo conforto físico. Os problemas mentais das pessoas são mais fortes e mais severos do que os dos animais. A nível físico talvez o sofrimento de ambos seja igual, mas em relação aos seres humanos, por causa da nossa inteligência, temos dúvidas, inseguranças e estresse. Estes levam à depressão e tudo isso surge por causa da nossa inteligência superior. Para contrariá-los devemos usar também a nossa inteligência humana. A nível emocional, algumas emoções, assim que surgem, fazem com que percamos a nossa paz de espírito. Certas emoções, por outro lado, ainda nos dão mais força. Estas são a base da confiança e força interior e nos levam a um estado de espírito mais calmo e tranquilo. Duas Categorias de Emoções. Temos, portanto, duas categorias de emoções. Uma delas é muito prejudicial à paz de espírito; são as emoções destrutivas, como a raiva e o ódio. Não só destroem a nossa paz de espírito aqui e agora, são também muito destrutivas para a nossa fala e os nossos corpos. Por outras palavras, elas afetam a nossa maneira de agir, levando-nos a agir de uma forma prejudicial, sendo portanto destrutivas. Outras emoções, porém, como a compaixão, trazem-nos paz e força interior. Trazem-nos por exemplo a força do perdão. Mesmo que em determinado momento possamos ter problemas com alguém, o perdão eventualmente nos levará à tranquilidade e à paz de espírito. A pessoa com quem estávamos tão incompatibilizados até poderá tornar-se o nosso melhor amigo. Paz Exterior. Quando falamos sobre a paz temos de falar sobre estas emoções e sobre a paz interior. Temos portanto de descobrir quais são as emoções que levam à paz interior. Mas primeiro quero falar um pouco sobre a paz exterior. A paz exterior não é apenas a mera ausência de violência. Durante a Guerra Fria aparentemente tivemos paz, mas essa paz era baseada no medo, medo de um holocausto nuclear. Ambos os lados estavam com medo que o outro lançasse as bombas, por isso essa paz não era genuína. A verdadeira paz tem de vir da paz interior. Sempre que houver um conflito, acho que devemos encontrar uma solução pacífica e com isto quero dizer através do diálogo. A paz tem muito a ver com a bondade e o respeito pela vida dos outros, com o resistir [à vontade de] fazer mal aos outros e com a atitude de que a vida dos outros é tão sagrada quanto a nossa. Temos que respeitar isso e, nessa base, se pudermos também ajudar os outros, então tentamos ajudar. Quando enfrentamos dificuldades e alguém nos vem ajudar, é claro que apreciamos a ajuda. Se alguém estiver sofrendo, mesmo que proporcionemos uma simples compreensão humana, essa pessoa irá apreciar e sentir-se muito feliz. Assim, da compaixão interior e paz mental, todas as ações se tornam pacíficas. Se conseguirmos estabelecer a paz interior, então conseguiremos também trazer a paz exterior. Como seres humanos, temos sempre pontos de vista diferentes nas nossas interações com os outros. Mas, com base em fortes conceitos de "eu" e "eles", então obtemos, além disso, conceitos de "meu interesse" e "seu interesse". Com base nisso, podemos até chegar à guerra. Pensamos que a destruição do nosso inimigo irá ser a causa da nossa vitória. Mas agora temos uma nova realidade. Somos muito interdependentes uns dos outros sob o ponto de vista económico e ecológico. Assim, os conceitos de "nós" e "eles" já não são relevantes. Aqueles que considerávamos "eles" se tornaram agora parte de "nós". Assim, o factor chave para o desenvolvimento da paz mental é a compaixão, baseada no reconhecimento de que somos seis bilhões de pessoas neste planeta e todos nós temos o mesmo direito à felicidade. Com base nisto, levamos todos a sério e assim devemos conseguir estabelecer a paz exterior. Começar em Pequeno Nível. Precisamos assim, para a paz, começar a desenvolver a paz em nós próprios, depois em nossas famílias e a seguir em nossas comunidades. No México, por exemplo, um amigo meu criou uma "Zona de Paz" na sua própria comunidade. Ele conseguiu isto fazendo com que todos na sua comunidade concordassem com o seguinte: tentarem deliberadamente evitar a violência dentro desta Zona de Paz. Se tivessem que lutar ou discordar, concordarem todos eles em fazê-lo fora dos limites dessa zona. Isso é muito bom. É difícil pedir a paz mundial, embora eventualmente, a nível mundial, isso seria melhor. Mas o que é mais realista é começar agora a um nível pequeno, conosco, com a família, comunidade, distrito e assim por diante, criando coisas como essas zonas de paz. A paz interior está, deste modo, muito ligada à compaixão. As coisas estão neste momento a mudar muito no mundo. Lembro-me de há alguns anos, um amigo alemão, o falecido Friedrich von Weizsäcker, que considero como meu professor, me ter dito que quando era jovem, do ponto de vista de cada alemão, os franceses eram considerados inimigos e, do ponto de vista dos franceses, os inimigos eram os alemães. Mas agora as coisas estão diferentes. Agora temos uma força unificada, a União Europeia. Isto é muito bom. Antes, cada Estado, do seu ponto de vista, considerava a sua própria soberania como algo muito precioso. Mas agora há uma nova realidade na Europa, há um interesse comum mais importante do que os interesses individuais. Se a economia melhorar, cada Estado-Membro beneficiará. Portanto, agora é importante propagar este pensamento aos seis bilhões de pessoas do planeta. Precisamos de pensar em todos como pertencendo à grande família humana. Compaixão como fator biológico. Agora, quanto à compaixão, todos os mamíferos que nascem de mães – seres humanos, mamíferos, aves, e assim por diante – dependem, para o seu desenvolvimento, do carinho e afeição. Este é o caso, com a exceção apenas de umas poucas espécies, como a tartaruga do mar, as borboletas, os salmões que depositam seus ovos e morrem – estes seres são a exceção. Vejam, por exemplo, as tartarugas marinhas. As mães colocam na praia os seus ovos e depois vão-se embora, por isso a sobrevivência das pequenas tartarugas depende unicamente do seu próprio esforço. Elas não precisam do carinho da mãe e no entanto sobrevivem. Por isso digo a algumas audiências que seria uma experiência científica muito interessante colocar juntos a mãe com a tartaruga bebê quando este sai do ovo, e ver se têm carinho um pelo outro. Eu acho que não teriam. A natureza as criou assim, por isso não há necessidade de afeto. Mas quanto aos mamíferos, e especialmente aos seres humanos, sem o cuidado maternal todos nós morreríamos. Cuidar de um bebê recém-nascido exige algumas emoções, como a compaixão, afeição, o sentimento de dedicação e cuidado pelos outros. Os cientistas dizem que durante as primeiras semanas após o nascimento, o toque da mãe é essencial para o desenvolvimento do cérebro do bebê. Notamos que as crianças que vêm de famílias meigas, carinhosas e afetuosas tendem a ser mais felizes. Elas são até mais saudáveis a nível físico. Mas as crianças sem afeto, especialmente quando são pequenas, tendem a ter muitas dificuldades. Alguns cientistas fizeram experiências, separando macaquinhos das suas mães e observaram que andavam sempre brigando e de mau humor. Não brincavam bem com os outros. Mas aqueles que permaneceram sempre próximos de suas mães eram felizes e brincavam bem com os outros. E especialmente as crianças humanas que não recebem afeto enquanto bebês – elas tendem a se tornar frias. Têm dificuldade de demonstrar afeto aos outros e em alguns casos se tornam violentas com os outros. Por isso o afeto é um fator biológico, um fator com base biológica. Além disso, acho que, como a compaixão e as emoções estão relacionadas a este nível biológico e/ou físico, então, de acordo com alguns cientistas, se andarmos constantemente irritados, cheios de ódio e medo, isso irá corroer o nosso sistema imunitário tornando-o mais fraco. Mas a mente compassiva ajuda e fortalece o sistema imunitário. Vejamos outro exemplo. Na área da medicina, se houver confiança entre as enfermeiras e os médicos por um lado, e os pacientes por outro, isso é importante para a recuperação dos pacientes. E qual será o fundamento da confiança? Se do lado do médico e dos enfermeiros forem demonstradas dedicação e cuidados genuínos pela recuperação dos pacientes, a confiança surgirá. Mas por outro lado, mesmo sendo o médico um especialista, se tratar o paciente como uma máquina, então haverá muito pouca confiança. Bem, se o médico tiver muita experiência pode ser que haja alguma confiança, mas se o médico for mais compassivo, então haverá ainda mais confiança. Os pacientes dormirão melhor e sentir-se-ão menos perturbados. Se estiverem perturbados a um nível mais profundo, tornam-se então muito agitados, o que afeta a sua recuperação. Mas na vida os problemas são, naturalmente, inevitáveis. Shantideva, o grande mestre budista indiano, aconselhou que ao enfrentarmos problemas precisamos de analisá-los. Se eles puderem ser superados através de qualquer método, então não se preocupem, basta aplicar o método. Mas se eles não puderem ser resolvidos, não há necessidade de se preocuparem, pois isso não irá beneficiar ninguém. Pensar assim é de uma grande ajuda. Mesmo que tenhamos um grande problema, podemos minimizá-lo se pensarmos desta maneira. Sentimos carinho e compaixão enquanto precisamos que outros cuidem de nós, quando por exemplo somos bebês. Mas com mais independência à medida que vamos crescendo, tendemos, na tentativa de obter o que queremos, a achar que a agressão é mais importante do que a compaixão. Mas todos os seis bilhões de pessoas vêm das mães. Todos nós experienciamos felicidade e satisfação com os cuidados do amor materno ou do afeto de alguém quando somos bebês. Aos poucos, porém, à medida que vamos crescendo, essas qualidades se tornam mais frágeis e depois tendemos a nos tornar agressivos, com mais bullying, e criamos mais problemas. A Necessidade de Ver a Realidade. Um cientista da Suécia disse-me que quando a mente se torna irritadiça e o cérebro dominado pela ira, é uma projeção mental 90% da aparência horrível da pessoa sobre quem estamos cheios de raiva. Por outras palavras, 90% da negatividade são projetados mentalmente. Isso é também semelhante a quando temos apego e um forte desejo por alguém: vemos essa pessoa como 100% bonita e boa. Mas uma grande percentagem disso também é projeção mental; não vemos a realidade. Portanto, é muito importante ver a realidade. Há um outro ponto importante: se ninguém quer problemas, porque é que os problemas surgem? Devido à nossa ingenuidade, à nossa ignorância, à nossa abordagem: nós não vemos a realidade. Do nosso ponto de vista limitado, não conseguimos ver a realidade no seu todo. Vemos apenas duas dimensões, e isso não é suficiente. Precisamos de ser capazes de ver as coisas em três, quatro, seis dimensões. A fim de investigarmos objetivamente, primeiro precisamos de acalmar as nossas mentes. Aqui também é importante a diferença entre emoções construtivas e destrutivas a fim de compreendermos todos estes pontos. Quando crescemos, o fator biológico da compaixão vai diminuindo pouco a pouco. Por isso precisamos da educação e formação sobre a compaixão para fortalecê-la uma vez mais. O tipo biológico da compaixão é, no entanto, parcial: é baseado no receber do carinho dos outros. Mas usando isso como uma base e adicionando-lhe depois a razão e os factores científicos da nossa investigação, seremos capazes não só de manter este nível biológico da compaixão como também de aumentá-la. Assim, com treinamento e educação, a compaixão parcial e limitada se pode transformar numa compaixão infinita e imparcial, abrangendo seis ou mais bilhões de pessoas. A Importância da Educação. A chave para tudo isto é a educação. A educação moderna presta atenção ao desenvolvimento do cérebro e do intelecto, mas isso não é suficiente. Nos nossos sistemas educacionais também precisamos de ser capazes de desenvolver a bondade. Precisamos disso desde o jardim de infância à universidade. Na América, alguns cientistas têm desenvolvido programas de educação para treinar crianças a desenvolverem mais compaixão e plena atenção. E isso não é feito com o propósito de ajudar essas crianças a melhorar suas vidas futuras e atingir o nirvana mas sim em benefício desta vida. Até em algumas universidades já existem alguns programas de educação para o desenvolvimento da bondade e compaixão. Esse tipo de compaixão imparcial não está focalizado nas atitudes dos outros, mas simplesmente por eles serem humanos. Todos nós fazemos parte da população de seis bilhões de pessoas neste planeta, por isso, com base neste fator de igualdade, todos merecem a nossa compaixão. Desarmamento Interior e Exterior.  Assim, para a paz interior e a paz mundial, precisamos do desarmamento interior e do desarmamento exterior. Isto significa que, a nível interior, desenvolvemos a compaixão e, eventualmente, com base nela, seremos capazes de desarmar tudo, todos os países, a nível exterior. É como se tivéssemos a força unificada franco-alemã do Exército Europeu, isso seria ótimo. Se houvesse uma força unificada para toda a União Europeia, então não haveria luta armada entre os seus membros. Uma vez, em Bruxelas, houve uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros e eu disse que seria muito útil no futuro se a sede da União Europeia fosse transferida mais para o leste, para um dos países do Leste Europeu, por exemplo, a Polónia. Depois, seria eventualmente bom expandir e incluir também a Rússia, e depois mudar a sede da OTAN para Moscovo. Se isso viesse a acontecer, então não haveria perigo de guerra e teríamos realmente paz aqui na Europa. Agora e por enquanto, existem algumas dificuldades entre a Rússia e a Geórgia, mas precisamos manter nossa esperança. Com base nesta maior extensão de paz, então por exemplo a indústria de armamento aqui em França, poderia eventualmente ser encerrada e poderíamos mudar a economia para coisas mais produtivas. Em vez de tanques, as fábricas poderiam ser convertidas para por exemplo a produção de bulldozers! As nações africanas também precisam muito da nossa ajuda. O fosso entre os ricos e pobres é um grande problema, não só globalmente como também a nível nacional, e este fosso entre ricos e pobres é horrível. Na França, por exemplo, há uma grande discrepância entre os ricos e os pobres. Algumas pessoas estão até passando fome. Mas somos todos seres humanos e todos temos as mesmas esperanças, necessidades e problemas. Temos que considerar todos estes pontos para o desenvolvimento da paz através da paz interior. Sua Santidade o XIV Dalai Lama - Nantes, França, 15 de Agosto de 2008. Transcrito e ligeiramente revisado por Alexander Berzin. www.studybuddhism.com.br. Abraço. Davi.

 

domingo, 3 de outubro de 2021

A TRANQUILIDADE ATRAVÉS DA RECORDAÇÃO DE DEUS

 

Islamismo. www.mesquitadobras.org.br. Por Ayatullah Makarim Shirazi. Tradução de Ali Sivonaldo. A TRANQUILIDADE ATRAVÉS DA RECORDAÇÃO DE DEUS. Os estados de ansiedade e insegurança, sempre foram, e sempre serão as maiores fontes de tribulação na vida da humanidade, e o resultado desses traços na vida individual e social de uma pessoa são completamente observáveis. O estado de tranquilidade sempre foi um dos pedidos, e uma característica muito importante para a sociedade humana, a pessoa tem de bater em todas as portas até que ela seja capaz de encontrar essa característica tão importante. Se as lutas e os esforços da humanidade ao longo do tempo, fossem em busca dessa tranquilidade que eles têm procurado tudo isso poderia encher um grande livro! Há alguns estudiosos que afirmam que, "No início de um surto (de uma doença), alguns tinham uma doença contagiosa - de cada dez pessoas que tiveram esta doença e acabou morrendo devido a ela, observou-se que a maioria delas realmente morreu devido ao medo e ao desconforto que sentiam. Assim, na realidade, apenas um pequeno número dessas pessoas morreram devido à doença!”. Na verdade, os dois estados, o de tranquilidade e de apreensão, desempenharam um papel muito importante na saúde e na doença dessas pessoas e de toda a sociedade. E para o sucesso ou o fracasso do indivíduo não há uma única coisa que possa arrefecer este estado dentro da pessoa e é por esta razão que, até hoje, inúmeros livros foram escritos, cujo tema principal é sobre o medo e as formas de combatê-lo e a maneira de adquirir tranquilidade para o coração! A história da humanidade está cheia de cenas tristes em que, para alcançar a tranquilidade, as pessoas têm executado todos os tipos de coisas, elas adquiriram vários vícios (para ajudar a lidar com a sua tristeza). No entanto, o Alcorão, em uma curta, mas significativa frase, mostra-nos o caminho mais correto e mais próximo para isso, e nos fala: "Saiba que, através da recordação de Deus, os vossos corações e mentes serão colocados em repouso e tranquilidade". Para que esta realidade alcorânica fique clara, por favor, preste atenção á seguinte explicação: As oito causas de preocupação e da ansiedade. 1° Às vezes, a angústia e a ansiedade estão relacionadas a um futuro obscuro e incerto que está à frente de uma pessoa e que se manifesta a ela. A possibilidade de não alcançar suas bênçãos deixa a pessoa cair nas garras do inimigo, com a fraqueza, doença, incapacidade para o trabalho, o desespero e a necessidade (nos outros assuntos) e tudo isso resultará em uma pessoa que está sendo submetida a dificuldades. No entanto a fé, na verdade e em Deus o Todo poderoso, o altíssimo, o Misericordioso e Compassivo, que tomou para si, ser suficiente para Seus servos, é capaz de remover todas as formas de preocupação e ansiedade, e conceder uma tranquilidade para a pessoa, já que, em fase de eventos futuros a pessoa será impotente, porém Deus tem o poder, habilidade e Misericórdia para ajudar-nos. 2° Às vezes o passado sombrio da pessoa o torna um indivíduo preocupado com o que está dentro de si mesmo e isso irá causar-lhe angústia. Mostrando pesar sobre os pecados que foi cometido no passado, sentindo remorso de um passado de incapacidades e deslizamentos, o que causaria a uma pessoa muita preocupação. No entanto, através de Deus o Indulgente para com todos. O único que aceita o arrependimento e é misericordioso, a pessoa teria tranqüilidade. Na realidade, estes traços de Deus transmitiriam os pensamentos para que a pessoa, leve o seu recurso de culpabilidade para Ele, pedindo-lhe perdão por seus atos do passado e tentando reparar o que executou anteriormente uma vez que Ele é o Indulgente, o Único que fará aceitar e reparar seus erros. 3° As fraquezas e incapacidades da pessoa em fase de ocorrências naturais e, por muitas vezes, mesmo em fase das multidões e dos inimigos - tanto internos como externos torna a pessoa irritada e insegura de tal forma que ela venha a questionar a si mesma: "O que eu sou capaz de fazer na arena da guerra contra todos estes adversários poderosos? Ou em face de outros desafios e lutas, o que posso fazer?” No entanto, quando a pessoa se lembra de Deus e começa a confiar em Seu poder e misericórdia, o poder que é o maior de todos os poderes, de tal forma que não há uma única coisa que tenha potencial para enfrentá-lo, então o seu coração enche-se da facilidade e a pessoa diz para si mesmo: "Sim, eu não estou sozinho. Estou sob a sombra da Misericórdia e da Assistência de Deus - a fonte inesgotável de energia.” 4º Às vezes, a fonte de tristeza e insegurança, que causam as dores de uma pessoa é o seu sentido de uma vida inútil e uma sensação de insignificância nos objetivos que ela tem para si mesma. No entanto, a pessoa que tem a verdadeira fé em Deus e aceita percorrer o caminho da perfeição de sua vida como sendo o seu maior objetivo e sabe que todo o programa e todos os eventos que ocorrem em sua vida são orientados por este caminho de perfeição, não sente que sua vida não vale nada, nem que ela é uma pessoa sem objetivos na vida, e nem se sente como um andarilho incerto e cheio de angústia. 5° Outro motivo para tristeza e insegurança é que, às vezes, para que uma pessoa chegue a um objetivo, ela pode encontrar grandes dificuldades, e ela não vê uma única pessoa que a incentive e a valorize com seus problemas e dificuldades. Este sentimento de ingratidão que lhe causa grande estresse irá levá-la a afundar em um estado de angústia e insegurança. No entanto, quando ela percebe que outras pessoas estão conscientes de sua luta e esforço e dão valor ao seu trabalho e estão prontas para recompensá-la pelos seus esforços, não haverá qualquer espaço para a tristeza ou insegurança. 6.º Ter maus pensamentos sobre os outros é outra razão que leva à insegurança e o sofrimento, e esta é uma das coisas que um grande número de pessoas vê em sua vida. No entanto, como é possível para nós, negar o foco, da nossa atenção sobre Deus e Sua graça que nunca termina, se o seu mandamento para nós é dar manutenção aos bons pensamentos e boas suposições de outras pessoas. Essa é a responsabilidade de cada pessoa que alega possuir verdadeira fé, isso não iria remover este estado de tristeza e apreensão que está dentro de uma pessoa e levá-la a ter tranquilidade e segurança em sua vida? 7° A adoração deste mundo transitório é um sentimento de paixão como o ouro do mundo material, o que estamos vivendo é uma das maiores razões pelas quais uma pessoa não enfrentará as dificuldades e inseguranças em sua vida. Este ponto é evidente a tal extremo que, por vezes, se uma pessoa não é capaz de encontrar uma determinada cor de roupa ou uma cor de sapatos, ou alguma outra peça de roupa que ela está procurando no mercado ou milhares de outros itens que ela pode usar em sua vida diária, os pensamentos dessa pessoa que adora este mundo temporário podem se tornar tão extasiados que ela irá passar horas, dias ou mesmo semanas em um estado de insegurança e ansiedade. No entanto, a verdadeira fé em Deus e o foco constante sobre a liberdade espiritual que um verdadeiro crente possui não faz que esteja constantemente arrebatado na austeridade e devoção a Deus, sendo assim não está vinculado ou preso pelas garras do ouro que acompanham o mundo material. Isso põe fim a todos esses sentimentos de insegurança e ansiedade. Quando a alma de uma pessoa chega a esse nível de expansão espiritual, é exatamente como Ali (as) disse: "Certamente o mundo tem tanto valor para mim como a folha de uma árvore que está sendo mastigada na boca de um gafanhoto.” Como é possível ter dor ou medo, em relação ao mundo material ou achar que vai perdê-lo? Isso pode afetar a alma de uma pessoa e provocar uma sensação de tristeza e insegurança em seu coração e em seus pensamentos? 8° Outro fator importante que leva à tristeza e à insegurança, é o medo da morte que é algo que sempre causa problemas às pessoas. A morte não é algo que só é possível a uma pessoa quando ela fica mais velha, mas sim, é algo que pode atacar pessoas de qualquer idade, especialmente nos momentos de doença, guerras, insegurança no país e outras coisas como tais, assim, este sentimento de insegurança e sofrimento é uma característica geral e deve ser visto por todos os povos. No entanto, qualquer pessoa está sob a sombra da verdadeira fé em Deus, então, neste momento, ela irá considerar a morte como apenas uma ponte para um mundo mais largo, mais espaçoso, e um mundo espiritual mais elevado, e passar pela fase da "morte" será apenas como passar por corredores de uma cela de prisão rumo à sociedade livre e aberta. Neste ponto, não haveria sentido para a dor e ansiedade. Pelo contrário, tal morte vem quando se cumpriu o caminho e as responsabilidades da pessoa, então, neste momento, a morte é algo que é desejado e esperado. Naturalmente, temos de afirmar que os motivos da tristeza e ansiedade não estão limitados a apenas estas questões. Pelo contrário, estamos aptos a listar muitas razões para que as pessoas sintam esta dor e estresse em suas vidas, mas temos de aceitar o fato que a maioria das causas desta tristeza e ansiedade está relacionada a um dos oito motivos listados acima. Assim, vemos que os motivos para a ansiedade realmente estão se dissolvendo, e estão sendo removidos quando a fé verdadeira em Deus se aproxima, então, vamos definitivamente confirmar o fato de que a recordação de Deus é o que traz tranquilidade para os corações. www.mesquitadobras.org.br. Abraço. Davi

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

APRESENTAÇÃO II

 

Religião Afrodescendente. Candomblé. Livro O Candomblé da Bahia – Rito Nagô. Tradução de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-2018). Capítulo I. APRESENTAÇÃO II. Universidade de São Paulo – USP. Em seguida, "a cabeça, os intestinos, as asas e as patas são cozidas no azeite de dendê, com camarões e cebolas, mas sem sal", e este prato é depositado, juntamente com outros alimentos, diante dos tambores, onde ficarão um dia inteiro para que tenham tempo suficiente para "comer". Compreende-se por que razão os instrumentos apresentam algo de divino, que impede sejam vendidos ou emprestados sem cerimônias especiais de dessacralização ou de consagração, interessando-nos saber que somente por meio da música fazem baixar os deuses na carne dos fiéis. Eis porque, uma vez terminado o padê de Exú, a cerimônia prossegue com o toque musical dos tambores que, sozinhos, sem acompanhamento de cânticos nem de danças, falam aos Orixá e pedem lhes que venham da África para o Brasil. Em geral, os etnógrafos não têm prestado muita atenção a este diálogo preliminar dos tambores e das divindades. Creio que seu estudo revelaria a existência, na Bahia, de fenômenos análogos aos que Fernando Ortiz tão bem analisou para Cuba, onde, como se sabe, a religião é igual, isto é, yoruba. Mas não são apenas os três tambores que têm o poder de evocar a vinda dos Orixá; os agidavi também, isto é, as varetas com as quais são batidos e que, antes de serem utilizados, dormiram "junto dos deuses", no santuário, para se impregnarem de força sagrada; ou, mais exatamente sem dúvida, para entrarem em correspondência com os Orixá. O agôgô (corruptela de akoko, que quer dizer tempo, hora, em língua yoruba), sino simples ou duplo, algumas vezes mero pedaço de metal batido por outro pedaço de metal, desempenha também papel importante no candomblé. Quando as possessões estão custando para se produzir, sacerdote ou sacerdotisas agitam o aja junto ao ouvido das filhas de santo que dançam e não é raro que, importunada por esse ruído agudo e alucinante, a divindade se decida a montar em seu cavalo. Infelizmente, não sabemos se este último instrumento de música sofre uma preparação religiosa análoga à dos tambores ou dos simples agidavi. As danças preliminares. Em seguida são chamados os deuses, numa certa ordem que varia de candomblé para candomblé, mas que, por ocasião das festas públicas, são muitas vezes a mesma em santuários determinados. Esta ordem é conhecida como xiré: começa obrigatoriamente por Exu para terminar por Oxalá, que é o Senhor do céu e o mais elevado dos Orixá. Mas com exceção do primeiro e do último termo do xiré, reina a maior variedade na ordem dos termos intermediários; quando muito poder-se-ia dizer que, nas manifestações, muitas vezes se começa pelas divindades mais jovens ou mais violentas, como Ogun, para ir progressivamente para as mais velhas ou as mais calmas. Cada divindade recebe um mínimo de três cânticos; e ainda me lembro do protesto dos fiéis, uma noite em que não sei por que razão um dos seus deuses só recebeu dois, em lugar dos três cânticos regulamentares. O número de três não é, porém, senão um mínimo; pode-se cantar quantidade maior de cânticos. Nos candomblés bantos, as palavras são geralmente portuguesas, mas nos candomblés yoruba ou dahomeanos, os cânticos são "na língua", isto é, em africano, o idioma variando naturalmente de acordo com a origem étnica da "nação" egba, fon, etc. Para empregar um termo wagneriano, constituem, juntamente com os ritmos sonoros dos tambores que os acompanham outros tantos, motivos destinados a atrair os Orixá. Os cânticos, todavia, não são apenas cantados, são também dançados", pois constituem a evocação de certos episódios da história dos deuses, são fragmentos de mitos, e o mito deve ser representado ao mesmo tempo que falado para adquirir todo o poder evocador. Ao gesto juntando-se à palavra, a força da imitação mimética auxiliando o encantamento da palavra, os Orixá não tardam a montar em seus cavalos à medida que vão sendo chamados. Pode acontecer, porém, que a cerimônia prossiga durante muito tempo sem que haja possessões. Neste caso, os tambores fazem soar o toque adarrum, que não é acompanhado de cânticos, pois trata-se de chamar desta vez, não apenas uma, mas todas as divindades ao mesmo tempo. Seu ritmo cada vez mais rápido, cada vez mais implorante, acaba por abrir os músculos, as vísceras, as cabeças à penetração do deus que se esperou durante tanto tempo. Produzida a “crise” de possessão, as ekedy encarregadas de velar os filhos e filhas de santo, retiram-lhe o casaco se se trata de um homem, ou, em se tratando de mulher, o xale que a poderia estrangular no caso de convulsões, e antes de mais nada, os sapatos. O gesto é altamente simbólico: trata-se de despojar o indivíduo de sua personalidade brasileira para que retome à condição de africano. Os sapatos tiveram importância capital na vida do negro americano. Foram o sinal da sua libertação; quando um escravo era alforriado, seu primeiro cuidado era comprar um par de sapatos para se igualar ao branco, embora muitas vezes não os calçasse, pois, seus pés habituados a andar nus não os suportavam. Trazia-os, porém, suspensos ao pescoço pelo amarrilho, ou levava-os na mão; em casa, colocava-os bem à vista sobre um móvel, em lugar de honra. Quando o Orixá baixa, o negro é recolocado na condição de africano, de participante da vida tribal de seus pais; então pisará com seus pés nus a terra, que é também uma deusa. A violência da “crise” varia segundo as circunstâncias, o temperamento do indivíduo, a natureza do deus que o possui. No caso de certas faltas, pode mesmo tomar a forma de castigo. Se é muito violenta, o sacerdote ou sacerdotisa que dirige o culto, babalorixá ou ialorixá, coloca a mão na nuca do cavalo para acalmá-lo, ou assopra-lhe no ouvido. As ekedy então auxiliam o indivíduo, que titubeia sob o abraço divino, a sair do salão de dança para ir ou para o pegi, onde estão as pedras dos Orixa, ou para um quarto vizinho; se caiu ao chão, carregam-no como um corpo morto, ainda agitado por movimentos convulsivos. O êxtase tomará ali forma mais calma, não desaparecendo, terminando somente com os últimos cânticos. O fiel é revestido com as roupas litúrgicas de sua divindade, colocam-lhe nas mãos os objetos simbólicos da nova posição, espada de Ogum, arco de Oxossi, xaxara (membro viril) de Omolú, abébé (leque) de Oxun, paxoro (vara de ferro) de Oxalá. Cada integrante da confraria só pode receber o deus ao qual está ligado pelos ritos de iniciação. Certo número de casos excepcionais, podem, todavia, suceder, e deles diremos algumas palavras. Há alguns Orixá que não "baixam", como por exemplo Xangô Dada em Porto Alegre, ou Orunmila, na Bahia; nesse caso, a pessoa que lhe foi consagrada recebe uma divindade da mesma família; é esta a ocasião única em que é permitida a possessão por divindade diferente daquela a que se pertence de direito. Pode também acontecer que um Orixá turbulento ou ciumento monte cavalo que não é o seu, embora o caso seja muito raro (nunca assisti a nenhum). O sacerdote deve então despachá-lo imediatamente, mandá-lo embora. Exú não se encarna nunca embora por vezes tenha filhos; conhecemos pelo menos uma filha de Exu e citaram-nos nomes de outros. Mas a possessão de Exú se diferencia da dos outros Orixá pelo seu frenesi, seu caráter patológico, anormal, sua violência destruidora.Se quisermos uma comparação, é um pouco a diferença que fazem os católicos entre o êxtase divino e a possessão demoníaca. Se Exú ataca um membro do candomblé, é preciso, pois, despachá-lo também, afugentá-lo imediatamente. Mas, com exceção destes casos aberrantes que, afirmamos outra vez, são extremamente raros, a função desta parte do ritual que descrevemos tem realmente por objetivo a possessão dos homens pelos seus deuses. Por outro lado, nem todos os iniciados são possuídos. Não falamos das mulheres menstruadas, que não devem nem mesmo assistir à festa pois as divindades têm horror ao sangue catamenial; se uma delas ousa desobedecer, imediatamente os tambores o reconhecem, pois, sua simples presença perturba o toque musical. Porém as que estão grávidas ou de luto, mesmo presentes, nunca são "montadas" pelo seu Orixá. Numerosos membros de outros terreiros ou de outras seitas comparecem como visitantes ou como curiosos às cerimônias tradicionais dos grandes candomblés. Não é de bom-tom e é mesmo muito mal visto para os de fora caírem então em transe. O êxtase só é permitido no enquadramento do santuário onde foi feita a iniciação. Acontece, no entanto, às filhas de santo em visita, sentirem o apelo insistente da divindade desabrochar no íntimo; bebem então grandes copos de água gelada, que têm o poder de impedir que se produza a possessão. Um último caso pode finalmente se dar: o de pessoa não iniciada, que veio assistir às danças somente pelo prazer do espetáculo, e que bruscamente se vê presa também da crise de possessão. Diz-se neste caso que a pessoa foi atacada por um santo bruto, o que significa simplesmente que a crise não foi controlada, orientada pela coletividade. É então conduzida para o interior do santuário, a fim de ser iniciada e de se tornar uma filha de santo. Com efeito, a iniciação não tem outro objetivo senão socializar a crise para que daí por diante se processe segundo os padrões africanos. A dança dos deuses. Depois de um intervalo, durante o qual às vezes é servido um lanche aos convidados importantes, filhas e filhos de santo retornam ao salão de dança. Mas não são mais, nesse momento, apenas filhos e filhas de santo, são os próprios deuses encarnados que vêm se misturar um momento aos adeptos brasileiros. O ritmo da cerimônia não se modifica; têm lugar as mesmas evocações dos Orixá em ordem determinada, sempre com o mesmo mínimo de três cânticos regulamentares, com os mesmos leit-motiv (estado de espírito) wagnerianos, diante de um público cheio de fervor e respeito. Os gestos, porém, adquirem maior beleza, os passos de dança alcançam estranha poesia. Não são mais costureirinhas, cozinheiras, lavadeiras que rodopiam ao som dos tambores nas noites baianas; eis Omolú recoberto de palha, Xangô vestido de vermelho e branco, Yemanjá penteando seus cabelos de algas. Os rostos se metamorfosearam em máscaras, perderam as rugas do trabalho cotidiano, desaparecidos os estigmas dessa vida de todos os dias, feita de preocupações e de miséria; Ogun guerreiro brilha no fogo da cólera, Oxun é roda feita de volúpia carnal. Por um momento, confundiram-se África e Brasil; aboliu-se o oceano, apagou-se o tempo da escravidão. Eis presentes aqui os Orixá, saudando os tambores, fazendo ika ou dobale diante dos sacerdotes supremos, dançando, muitas vezes revelando o futuro ou dando conselhos. Não existem mais fronteiras entre natural e sobrenatural; o êxtase realizou a comunhão desejada. 7. Ritos de saída e de comunhão. O êxtase só chega ao fim quando forem cantados os cânticos de unló, cujo objetivo é justamente mandar embora os Orixá. Estes são entoados na ordem inversa das invocações, começando pelas divindades chamadas em último lugar para terminar por aquelas que vieram primeiro; à medida que a litania de nomes vai se desenrolando, as pálpebras fechadas vão se abrindo, o rosto perde a máscara da divindade, a personalidade normal reaparece. O último cântico tem lugar no pegí, como se o desejo fosse de que a força mística, que tinha rompido as amarras, regresse às pedras banhadas de sangue, aos pedaços de ferro que estão "comendo" a oferenda alimentar. E este último cântico, ao contrário dos precedentes, segue a ordem do xiré: atáu ecúô é di bom jeú Exú vai unló é di bom jeô atáu ecúô é di bom jeô Ogum vai un Oxum Emanjá Xangô Orixalá. Todavia, antes que todos se separem, um repasto de comunhão permitirá unir divindades, membros da confraria e aqueles dos espectadores que ainda permaneceram no recinto. As filhas de santo trazem, em pratos da cor de seus Orixá, um pouco do alimento, parte do qual fora colocado no pegí: branco para Oxalá, azul para Yemanjá, violeta para Nanan (...). Sentam-se em torno de uma toalha posta no próprio chão, sobre a qual depositaram o alimento sagrado. Cada qual toma um bocado do prato de seu deus, com as duas mãos em forma de concha, e engole-o com um movimento da boca que vai do punho à ponta dos dedos. Depois, oferece um bocado do prato aos filhos dos outros Orixá, de modo a cimentar a solidariedade do grupo por meio da partilha de alimentos. O resto, sobre folhas de bananeira, é oferecido aos espectadores que estão de pé em torno das filhas de santo sentadas no chão, os diferentes alimentos dos múltiplos Orixá fraternalmente misturados nesta espécie de bandeja vegetal; é obrigat6rio comer com a mão. Não se deve confundir este repasto, que é uma comunhão, com a colação algumas vezes servida aos convidados importantes entre a dança de chamada e a dança dos deuses. Trata-se aqui de algo muito diferente, de uma tríplice solidariedade a realizar, antes do regresso ao mundo profano: primeiro, entre o divino e o humano; depois, entre os membros da confraria que pertencem a divindades diferentes; e às vezes rivais; finalmente, também, entre a confraria e os não-iniciados, para que um pouco da África, que se perdeu e tornou a encontrar, nestes penetre igualmente. O grupo dos fiéis ultrapassa a confraria dos filhos e filhas de santo. A entrada num candomblé se faz progressivamente e há graus de incorporação, o mais baixo dos quais é o simbolizado pela lavagem do colar. A. Cada membro da seita tem um colar que lhe é pr6prio, cujas contas são da cor da divindade à que pertence: brancas para Oxalá, alternadamente brancas e vermelhas para Xangô, verdes para Oxossi, amarelas para Oxun (...). Mas o colar não tem valor por si mesmo, deve sofrer previamente determinada preparação, deve ser "lavado". O indivíduo que deseje, pois, participar da vida de um candomblé, deve começar por consultar o babalaô ou adivinho, que interrogará por ele o colar de Ifa ou os búzios, a fim de descobrir o nome do Orixá que é o "dono de sua cabeça". Basta, em seguida, fabricar o colar correspondente ao seu Orixá, ou mesmo comprá-lo simplesmente no mercado municipal, levando-o ao babaloríxá ou à ialorixá do terreiro ao qual quer pertencer, e que o lavarão. Manuel Raimundo Querino (1851-1923) fornece descrição da cerimônia: imersão do colar em bacia cheia d'água, trituração de folhas ligadas à divindade em questão (como veremos, cada deus tem, com efeito, suas folhas especiais), lavagem das contas com "sabão da Costa", isto é, da costa africana (sabão negro e mole), transmissão do colar à pessoa que deve usá-lo, com as respectivas recomendações sobre as futuras obrigações, e finalmente festa íntima com cânticos e refeição. A descrição, porém, é incompleta e deixa mesmo escapar o essencial. Para que o colar tenha valor, é preciso: 1) que tenha ficado uma noite inteira sobre a peara do deus a que pertence e que o sangue de uma ave morta em sacrifício, juntamente com as ervas apropriadas, tenha lavado ao mesmo tempo pedra e colar. Mas não basta ainda: é preciso mais que 2) a esta primeira participação se junte uma segunda, entre pedra, colar e cabeça do indivíduo que celebra o ritual. Digo "cabeça" e não "indivíduo" porque a cabeça é considerada a moradia do Orixá. Lavar-se-á então a cabeça, e muitas vezes também o corpo inteiro, com a água e as ervas que serviram para a lavagem de colar e pedra. Assim entram em contato os membros do trinômio, deus, homem e colar, permitindo a passagem da corrente mística entre o primeiro e o último, por intermédio do segundo. Eis por que o colar só tem valor para o proprietário. Se este o perde e outro pessoa o usa, não terá nenhum poder para esta, pois não foi posto em participação, nem direta, nem indireta, com a cabeça dela. Continuar Página 35 segundo parágrafo. Livro O Candomblé da Bahia – Rito Nagô. Abraço. Davi