quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

BEM AVENTURADOS OS OBREIROS DA PAZ

 

Catolicismo. www.w2.vatican.va. Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Celebração do Dia Mundial da Paz. 01 de janeiro de 2013. BEM AVENTURADOS OS OBREIROS DA PAZ. 1. Cada ano novo traz consigo a expectativa de um mundo melhor. Nesta perspectiva, peço a Deus, Pai da humanidade, que nos conceda a concórdia e a paz a fim de que possam tornar-se realidade, para todos, as aspirações duma vida feliz e próspera. À distância de 50 anos do início do Concílio Vaticano II, que permitiu dar mais força à missão da Igreja no mundo, anima constatar como os cristãos, Povo de Deus em comunhão com Ele e caminhando entre os homens, se comprometem na história compartilhando alegrias e esperanças, tristezas e angústias,[1] anunciando a salvação de Cristo e promovendo a paz para todos. Na realidade o nosso tempo, caracterizado pela globalização, com seus aspectos positivos e negativos, e também por sangrentos conflitos ainda em curso e por ameaças de guerra, requer um renovado e concorde empenho na busca do bem comum, do desenvolvimento de todo o homem e do homem todo. Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado. Além de variadas formas de terrorismo e criminalidade internacional, põem em perigo a paz aqueles fundamentalismos e fanatismos que distorcem a verdadeira natureza da religião, chamada a favorecer a comunhão e a reconciliação entre os homens. No entanto, as inúmeras obras de paz, de que é rico o mundo, testemunham a vocação natural da humanidade à paz. Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem-sucedida. Por outras palavras, o desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e isto faz parte dos desígnios que Deus tem para o homem. Na verdade, o homem é feito para a paz, que é dom de Deus. Tudo isso me sugeriu buscar inspiração, para esta Mensagem, às palavras de Jesus Cristo: «Bem-aventurados os obreiros da paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mateus 5, 9). A bem-aventurança evangélica. 2. As bem-aventuranças proclamadas por Jesus (cf. Mateus 5, 3-12; Lucas 6, 20-23) são promessas. Com efeito, na tradição bíblica, a bem-aventurança é um género literário que traz sempre consigo uma boa nova, ou seja, um evangelho, que culmina numa promessa. Assim, as bem-aventuranças não são meras recomendações morais, cuja observância prevê no tempo devido – um tempo localizado geralmente na outra vida – uma recompensa, ou seja, uma situação de felicidade futura; mas consistem sobretudo no cumprimento duma promessa feita a quantos se deixam guiar pelas exigências da verdade, da justiça e do amor. Frequentemente, aos olhos do mundo, aqueles que confiam em Deus e nas suas promessas aparecem como ingénuos ou fora da realidade; ao passo que Jesus lhes declara que já nesta vida – e não só na outra – se darão conta de serem filhos de Deus e que, desde o início e para sempre, Deus está totalmente solidário com eles. Compreenderão que não se encontram sozinhos, porque Deus está do lado daqueles que se comprometem com a verdade, a justiça e o amor. Jesus, revelação do amor do Pai, não hesita em oferecer-Se a Si mesmo em sacrifício. Quando se acolhe Jesus Cristo, Homem-Deus, vive-se a jubilosa experiência de um dom imenso: a participação na própria vida de Deus, isto é, a vida da graça, penhor duma vida plenamente feliz. De modo particular, Jesus Cristo dá-nos a paz verdadeira, que nasce do encontro confiante do homem com Deus. A bem-aventurança de Jesus diz que a paz é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana. Na verdade, a paz pressupõe um humanismo aberto à transcendência; é fruto do dom recíproco, de um mútuo enriquecimento, graças ao dom que provém de Deus e nos permite viver com os outros e para os outros. A ética da paz é uma ética de comunhão e partilha. Por isso, é indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e éticas fundadas sobre motivos teórico práticos meramente subjetivistas e pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins, e vice-versa, a cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na eficiência. Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do relativismo e da apologia duma moral totalmente autónoma, que impede o reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por Deus na consciência de cada homem. A paz é construção em termos racionais e morais da convivência, fundando-a sobre um alicerce cuja medida não é criada pelo homem, mas por Deus. Como lembra o Salmo 29, « o Senhor dá força ao seu povo; o Senhor abençoará o seu povo com a paz » (v. 11). A paz: dom de Deus e obra do homem. 3. A paz envolve o ser humano na sua integridade e supõe o empenhamento da pessoa inteira: é paz com Deus, vivendo conforme à sua vontade; é paz interior consigo mesmo, e paz exterior com o próximo e com toda a criação. Como escreveu o Beato João XXIII na Encíclica Pacem in terris – cujo cinquentenário terá lugar dentro de poucos meses –, a paz implica principalmente a construção duma convivência humana baseada na verdade, na liberdade, no amor e na justiça.[2] A negação daquilo que constitui a verdadeira natureza do ser humano, nas suas dimensões essenciais, na sua capacidade intrínseca de conhecer a verdade e o bem e, em última análise, o próprio Deus, põe em perigo a construção da paz. Sem a verdade sobre o homem, inscrita pelo Criador no seu coração, a liberdade e o amor depreciam-se, a justiça perde a base para o seu exercício. Para nos tornarmos autênticos obreiros da paz, são fundamentais a atenção à dimensão transcendente e o diálogo constante com Deus, Pai misericordioso, pelo qual se implora a redenção que nos foi conquistada pelo seu Filho Unigénito. Assim o homem pode vencer aquele germe de obscurecimento e negação da paz que é o pecado em todas as suas formas: egoísmo e violência, avidez e desejo de poder e domínio, intolerância, ódio e estruturas injustas. A realização da paz depende sobretudo do reconhecimento de que somos, em Deus, uma úni­ca família humana. Esta, como ensina a Encíclica Pacem in terris, está estruturada mediante relações interpessoais e instituições sustentadas e anima­das por um «nós» comunitário, que implica uma ordem moral, interna e externa, na qual se reconheçam sinceramente, com verdade e justiça, os próprios direitos, e os próprios deveres para com os demais. A paz é uma ordem de tal modo vivificada e integrada pelo amor, que se sentem como próprias as necessidades e exigências alheias, que se fazem os outros comparticipantes dos próprios bens e que se estende sempre mais no mundo a comunhão dos valores espirituais. É uma ordem realizada na liberdade, isto é, segundo o modo que corresponde à dignidade de pessoas que, por sua própria natureza racional, assumem a responsabilidade do próprio agir.[3] A paz não é um sonho, nem uma utopia; a paz é possível. Os nossos olhos devem ver em profundidade, sob a superfície das aparências e dos fenómenos, para vislumbrar uma realidade positiva que existe nos corações, pois cada homem é criado à imagem de Deus e chamado a crescer contribuindo para a edificação dum mundo novo. Na realidade, através da encarnação do Filho e da redenção por Ele operada, o próprio Deus entrou na história e fez surgir uma nova criação e uma nova aliança entre Deus e o homem (cf. Jeremias 31, 31-34), oferecendo-nos a possibilidade de ter « um coração novo e um espírito novo » (cf. Ezequiel 36, 26). Por isso mesmo, a Igreja está convencida de que urge um novo anúncio de Jesus Cristo, primeiro e principal fator do desenvolvimento integral dos povos e também da paz. Na realidade, Jesus é a nossa paz, a nossa justiça, a nossa reconciliação (cf. Efésios 2, 14; 2 Coríntios 5, 18). O obreiro da paz, segundo a bem-aventurança de Jesus, é aquele que procura o bem do outro, o bem pleno da alma e do corpo, no tempo presente e na eternidade. A partir deste ensinamento, pode-se deduzir que cada pessoa e cada comunidade – religiosa, civil, educativa e cultural – é chamada a trabalhar pela paz. Esta consiste, principalmente, na realização do bem comum das várias sociedades, primárias e intermédias, nacionais, internacionais e a mundial. Por isso mesmo, pode-se supor que os caminhos para a implementação do bem comum sejam também os caminhos que temos de seguir para se obter a paz. Obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida na sua integridade. 4. Caminho para a consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o respeito pela vida humana, considerada na multiplicidade dos seus aspectos, a começar da concepção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural. Assim, os verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. A vida em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida. Aqueles que não apreciam suficientemente o valor da vida humana, chegando a defender, por exemplo, a liberalização do aborto, talvez não se deem conta de que assim estão a propor a prossecução duma paz ilusória. A fuga das responsabilidades, que deprecia a pessoa humana, e mais ainda o assassinato de um ser humano indefeso e inocente nunca poderão gerar felicidade nem a paz. Na verdade, como se pode pensar em realizar a paz, o desenvolvimento integral dos povos ou a própria salvaguarda do ambiente, sem estar tutelado o direito à vida dos mais frágeis, a começar pelos nascituros? Qualquer lesão à vida, de modo especial na sua origem, provoca inevitavelmente danos irreparáveis ao desenvolvimento, à paz, ao ambiente. Tão pouco é justo codificar ardilosamente falsos direitos ou opções que, baseados numa visão redutiva e relativista do ser humano e com o hábil recurso a expressões ambíguas tendentes a favorecer um suposto direito ao aborto e à eutanásia, ameaçam o direito fundamental à vida. Também a estrutura natural do matrimónio, como união entre um homem e uma mulher, deve ser reconhecida e promovida contra as tentativas de a tornar, juridicamente, equivalente a formas radicalmente diversas de união que, na realidade, a prejudicam e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o seu carácter peculiar e a sua insubstituível função social. Estes princípios não são verdades de fé, nem uma mera derivação do direito à liberdade religiosa; mas estão inscritos na própria natureza humana – sendo reconhecíveis pela razão – e consequentemente comuns a toda a humanidade. Por conseguinte, a acção da Igreja para os promover não tem carácter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, independentemente da sua filiação religiosa. Tal ação é ainda mais necessária quando estes princípios são negados ou mal entendidos, porque isso constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana, uma ferida grave infligida à justiça e à paz. Por isso, uma importante colaboração para a paz é dada também pelos ordenamentos jurídicos e a administração da justiça quando reconhecem o direito ao uso do princípio da objecção de consciência face a leis e medidas governamentais que atentem contra a dignidade humana, como o aborto e a eutanásia. Entre os direitos humanos basilares mesmo para a vida pacífica dos povos, conta-se o direito dos indivíduos e comunidades à liberdade religiosa. Neste momento histórico, torna-se cada vez mais importante que este direito seja promovido não só negativamente, como liberdade de – por exemplo, de obrigações e coações quanto à liberdade de escolher a própria religião –, mas também positivamente, nas suas várias articulações, como liberdade para: por exemplo, para testemunhar a própria religião, anunciar e comunicar a sua doutrina; para realizar atividades educativas, de beneficência e de assistência que permitem aplicar os preceitos religiosos; para existir e atuar como organismos sociais, estruturados de acordo com os princípios doutrinais e as finalidades institucionais que lhe são próprias. Infelizmente vão-se multiplicando, mesmo em países de antiga tradição cristã, os episódios de intolerância religiosa, especialmente contra o cristianismo e aqueles que se limitam a usar os sinais identificadores da própria religião. O obreiro da paz deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Ora, há que considerar que estes direitos e deveres são fundamentais para a plena realização de outros, a começar pelos direitos civis e políticos. E, entre os direitos e deveres sociais actualmente mais ameaçados, conta-se o direito ao trabalho. Isto é devido ao facto, que se verifica cada vez mais, de o trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não serem adequadamente valorizados, porque o crescimento económico dependeria sobretudo da liberdade total dos mercados. Assim o trabalho é considerado uma variável dependente dos mecanismos económicos e financeiros. A propósito disto, volto a afirmar que não só a dignidade do homem mas também razões económicas, sociais e políticas exigem que se continue « a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manutenção ».[4] Para se realizar este ambicioso objetivo, é condição preliminar uma renovada apreciação do trabalho, fundada em princípios éticos e valores espirituais, que revigore a sua concepção como bem fundamental para a pessoa, a família, a sociedade. A um tal bem corresponde um dever e um direito, que exigem novas e ousadas políticas de trabalho para todos. Construir o bem da paz através de um novo modelo de desenvolvimento e de economia. 5. De vários lados se reconhece que, hoje, é necessário um novo modelo de desenvolvimento e também uma nova visão da economia. Quer um desenvolvimento integral, solidário e sustentável, quer o bem comum exigem uma justa escala de bens-valores, que é possível estruturar tendo Deus como referência suprema. Não basta ter à nossa disposição muitos meios e muitas oportunidades de escolha, mesmo apreciáveis; é que tanto os inúmeros bens em função do desenvolvimento como as oportunidades de escolha devem ser empregues de acordo com a perspectiva duma vida boa, duma conduta reta, que reconheça o primado da dimensão espiritual e o apelo à realização do bem comum. Caso contrário, perdem a sua justa valência, acabando por erguer novos ídolos. Para sair da crise financeira e económica atual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico. O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa óptica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspectiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom. [5] Concretamente na atividade económica, o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes e os usuários. Ele exerce a atividade económica para o bem comum, vive o seu compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as gerações presentes e futuras. Deste modo sente-se a trabalhar não só para si mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos. No âmbito económico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de modo que não causem dano aos mais pobres. A solicitude dos diversos obreiros da paz deve ainda concentrar-se – com mais determinação do que tem sido feito até agora – na consideração da crise alimentar, muito mais grave do que a financeira. O tema da segurança das provisões alimentares voltou a ser central na agenda política internacional, por causa de crises relacionadas, para além do mais, com as bruscas oscilações do preço das matérias-primas agrícolas, com comportamentos irresponsáveis por parte de certos agentes económicos e com um controle insuficiente por parte dos Governos e da comunidade internacional. Para enfrentar semelhante crise, os obreiros da paz são chamados a trabalhar juntos em espírito de solidariedade, desde o nível local até ao internacional, com o objetivo de colocar os agricultores, especialmente nas pequenas realidades rurais, em condições de poderem realizar a sua atividade de modo digno e sustentável dos pontos de vista social, ambiental e económico. Educação para uma cultura da paz: o papel da família e das instituições.  6. Desejo veementemente reafirmar que os diversos obreiros da paz são chamados a cultivar a paixão pelo bem comum da família e pela justiça social, bem como o empenho por uma válida educação social. Ninguém pode ignorar ou subestimar o papel decisivo da família, célula básica da sociedade, dos pontos de vista demográfico, ético, pedagógico, económico e político. Ela possui uma vocação natural para promover a vida: acompanha as pessoas no seu crescimento e estimula-as a enriquecerem-se entre si através do cuidado recíproco. De modo especial, a família cristã guarda em si o primordial projecto da educação das pessoas segundo a medida do amor divino. A família é um dos sujeitos sociais indispensáveis para a realização duma cultura da paz. É preciso tutelar o direito dos pais e o seu papel primário na educação dos filhos, nomeadamente nos âmbitos moral e religioso. Na família, nascem e crescem os obreiros da paz, os futuros promotores duma cultura da vida e do amor. [6] Nesta tarefa imensa de educar para a paz, estão envolvidas de modo particular as comunidades dos crentes. A Igreja toma parte nesta grande responsabilidade através da nova evangelização, que tem como pontos de apoio a conversão à verdade e ao amor de Cristo e, consequentemente, o renascimento espiritual e moral das pessoas e das sociedades. O encontro com Jesus Cristo plasma os obreiros da paz, comprometendo-os na comunhão e na superação da injustiça. Uma missão especial em prol da paz é desempenhada pelas instituições culturais, escolásticas e universitárias. Delas se requer uma notável contribuição não só para a formação de novas gerações de líderes, mas também para a renovação das instituições públicas, nacionais e internacionais. Podem também contribuir para uma reflexão científica que radique as atividades económicas e financeiras numa sólida base antropológica e ética. O mundo atual, particularmente o mundo da política, necessita do apoio dum novo pensamento, duma nova síntese cultural, para superar tecnicismos e harmonizar as várias tendências políticas em ordem ao bem comum. Este, visto como conjunto de relações interpessoais e instituições positivas ao serviço do crescimento integral dos indivíduos e dos grupos, está na base de toda a verdadeira educação para a paz. Uma pedagogia do obreiro da paz. 7. Concluindo, há necessidade de propor e promover uma pedagogia da paz. Esta requer uma vida interior rica, referências morais claras e válidas, atitudes e estilos de vida adequados. Com efeito, as obras de paz concorrem para realizar o bem co­mum e criam o interesse pela paz, educando para ela. Pensamentos, palavras e gestos de paz criam uma mentalidade e uma cultura da paz, uma atmos­fera de respeito, honestidade e cordialidade. Por isso, é necessário ensinar os homens a amarem-se e educarem-se para a paz, a viverem mais de benevolência que de mera tolerância. Incentivo fundamental será « dizer não à vingança, reconhecer os próprios erros, aceitar as desculpas sem as buscar e, finalmente, perdoar »,[7] de modo que os erros e as ofensas possam ser verdadeiramente reconhecidos a fim de caminhar juntos para a reconciliação. Isto requer a difusão duma pedagogia do perdão. Na realidade, o mal vence-se com o bem, e a justiça deve ser procurada imitando a Deus Pai que ama todos os seus filhos (cf. Mt 5, 21-48). É um trabalho lento, porque supõe uma evolução espiritual, uma educação para os valores mais altos, uma visão nova da história humana. É preciso renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança. Jesus encarna o conjunto destas atitudes na sua vida até ao dom total de Si mesmo, até «perder a vida» (cf. Mateus 10, 39; Lucas 17, 33; João 12, 25). E promete aos seus discípulos que chegarão, mais cedo ou mais tarde, a fazer a descoberta extraordinária de que falamos no início: no mundo, está presente Deus, o Deus de Jesus Cristo, plenamente solidário com os homens. Neste contexto, apraz-me lembrar a oração com que se pede a Deus para fazer de nós instrumentos da sua paz, a fim de levar o seu amor onde há ódio, o seu perdão onde há ofensa, a verdadeira fé onde há dúvida. Por nossa vez pedimos a Deus, juntamente com o Beato João XXIII, que ilumine os responsáveis dos povos para que, junto com a solicitude pelo justo bem-estar dos próprios concidadãos, garantam e defendam o dom precioso da paz; inflame a vontade de todos para superarem as barreiras que dividem, reforçarem os vínculos da caridade mútua, compreenderem os outros e perdoarem aos que lhes tiverem feito injúrias, de tal modo que, em virtude da sua acção, todos os povos da terra se tornem irmãos e floresça neles e reine para sempre a tão suspirada paz.[8] Com esta invocação, faço votos de que todos possam ser autênticos obreiros e construtores da paz, para que a cidade do homem cresça em concórdia fraterna, na prosperidade e na paz. Vaticano, 8 de dezembro de 2012. www.w2.vatican.va. Abraço. Davi

 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

FRASES DO PROFETA MUHAMMAD OU MAOMÉ

 

Islamismo. http://www.iqaraisham.com.br. FRASES DO PROFETA MUHAMMAD OU MAOMÉ. O Profeta Muhammad é uma inspiração para centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Aqui estão alguns ditos do Profeta Muhammad (Hadiths) que nos ajudam a entender o seu caráter inspirador. 1. Um muçulmano que planta uma árvore ou semeia um campo, a partir do qual homens, aves e animais podem comer, está praticando um ato de caridade. (Muslin). 2. Existe um tipo de polidez para tudo, que remove a ferrugem; e a polidez para o coração é a recordação de Deus, Alláh. (Bukhari). 3. Quais são as melhores ações? É alegrar o coração dos seres humanos, alimentar os famintos, ajudar os aflitos, aliviar a dor da tristeza, e remover os sofrimentos dos feridos. (Bukhari). 4. A mais excelente Jihad é a Jihad para a conquista de si mesmo. (Bukhari). 5. Se você colocar toda a sua confiança em Deus, Alláh, como você deve. Ele certamente irá satisfazer suas necessidades, assim como Eles satisfaz as das aves. Elas saem com fome de manhã, mas retornam satisfeitas para os seus ninhos. (Tirmidhi). 6. Deus, Alláh terá misericórdia com alguém a não ser que esse alguém tenha misericórdia com outras criaturas. (Abdullah b. Amr). 7. Diga o que é verdade, embora possa ser amargo e desagradável para as pessoas. (Balhaqi). 8. A gentileza é uma marca da fé, e quem não é gentil não tem fé. (Muslim). 9. Quando você vê uma pessoa que tenha sido dada mais do que você em dinheiro e beleza, olhe para aqueles a quem foi dada menos do que você. (Muslim). 10. Se você não sente vergonha de nada, então você pode fazer o que quiser. (Abu Masud). 11. É melhor sentar-se sozinho do que em companhia com o mau; e é melhor ainda sentar-se com o bom do que sozinho. É melhor falar com aquele que busca conhecimento do que permanecer em silêncio. Mas o silêncio é melhor do que palavras vãs. (Bukhari). 12. Em verdade, um homem ensinar bons modos à uma criança é melhor do que dar um alqueire de grãos em esmolas. (Muslim). 13. Quem quer que seja gentil, Deus, Aláh, vai ser gentil com ele; portanto, seja gentil com o homem sobre a terra. Ele que está no céu vai mostrar misericórdia sobre ti (Tirmidhi). 14. O melhor de vocês são aqueles que são os melhores para as mulheres. (Tirmidhi). 15. Quem ama ir ao encontro de Deus,Aláh, Deus, Alláh ama encontra-lo. (Bukhari). 16. Uma vez um homem, que estava passando por uma estrada, encontrou um galho de uma árvore com espinhos obstruindo-a. O homem tirou os espinhos do caminho. Alláh ficou grato e perdoou seus pecados. (Bukhari). 17. Quem são os com conhecimento? Aqueles que praticam o que sabem. (Bukhari). 18. Deus, Alláh revelou à mim, que vocês devem ser humildes. Ninguém deve se vangloriar sobre o outro, e ninguém deve oprimir outros. (Iyad b. Hinar). 19. Um verdadeiro muçulmano é grato à Deus,Alláh na prosperidade, e se submete à Sua vontade na adversidade. (Muslim). 20. Um muçulmano que reúne-se com os outros muçulmanos e compartilha seus fardos com eles é melhor do que aquele que vive uma vida de reclusão e contemplação. (Muslim). 21. Adorai a Deus, Alláh, como se você pudesse vê-lo; embora você não possa vê-lo, Ele pode ver você. (Umar). 22. Deus não olha para a sua aparência ou suas posses; mas Ele olha para o seu coração e suas obras. (Abu Huraira). 23. A melhor riqueza é a riqueza da alma. (Bukhari). 24. Mantenha-se longe da inveja, porque ela consome e tira boas ações, como um fogo consome e queima a madeira. (Abu Dawud). 25. Muito silêncio e uma boa disposição, não há duas coisas melhores do que estas. (Bukhari). 26. Em verdade, Deus, Alláh é suave e gosta de brandura, e Ele dá ao gentil o que Ele não dá ao áspero. (Muslim). 27. Uma vez o Profeta foi questionado: Diga-nos, qual a ação é mais apreciada por Alláh. Ele respondeu: Realizar a sua oração no seu devido tempo. Mais uma vez ele foi perguntado: O que vem a seguir. Muhammad, Maomé disse: Mostrar bondade com os pais. Então o que?, ele foi perguntado: Lutar pela causa de Deus, Alláh!. (Ibn Masad). 28. Quando duas pessoas estão juntas, duas delas não devem sussurrar entre si, não deixando que o terceiro ouça. Porque isso iria magoá-lo. (Bukhari e Muslim). 29. Na verdade, é um dos aspectos de respeito à Deus, Alláh, honrar um homem velho. (Bukhari). 30. Eu ordeno que tratem as mulheres amavelmente. (Bukhari). 31. Todos os muçulmanos são como uma fundação, cada um fortalecendo o outro; de tal maneira que eles apoiam uns aos outros. “Abu Musa). 32. Esforce-se sempre para a excelência na virtude e na verdade. (Bukhari). 33. Você não vai entrar no paraíso até que você tenha fé. E você não vai completar a sua fé até que vos ameis uns aos outros. (Muslim). 34. Ele, que deseja entrar no paraíso pelo melhor portão, deve agradar seu pai e sua mãe. (Bukhari). 35. Estou deixando duas coisas entre vocês, e se vocês se apegarem à elas firmemente vocês nunca vão errar; um é o Livro de Deus, Alláh(Alcorão), o outro é o meu modo de vida (Sunnah). O Último Sermão da Montanha. 36. Alláh, Deus é Um e gosta de Unidade. (Muslim). 37. A melhor das esmolas é a que, o que a mão direita dá, a mão esquerda não sabe. (Bukhari). 38. O muçulmano perfeito não é um muçulmano perfeito, se ele come até ficar cheio e deixa seus vizinhos com fome. (Ibn Abbas). 39. Ele não é um de nós, que não é carinhoso com os mais pequenos, e não respeita o velho. E ele não é um de nós, que não ordena o que é lícito, e proíbe o que é ilícito. (Ibn Abbas). 40. Nenhum homem é um verdadeiro crente, a menos que deseje para seu irmão o que ele deseja para si mesmo. (Abu Hamza Anas). 41. Lutar pela causa de Deus, Alláhdesde o amanhecer ao meio dia e por do sol é melhor do que os prazeres e diversão de toda a vida mundana. (Bukhari). 42. Não sejais como os hipócritas, que, quando ele fala, diz mentiras; quando ele faz uma promessa, ele rompe com ela. E quando ele é de confiança, ele prova ser desonesto. (Bukhari e Muslim). 43. A prova da sinceridade de um muçulmano é, que ele não presta atenção a algo, se isso não for da sua conta. (Abu Hureira). 44. Você sabe o que é melhor do que a caridade e jejum e oração? É manter a paz e as boas relações entre as pessoas, pois as brigas e sentimentos ruins destroem a humanidade. (Muslim e Bukhari). 45. Comporte-se neste mundo, como se você estivesse aqui para ficar para sempre. Prepare-se para a eternidade, como se você fosse morrer amanhã. (Bukhari). 46. O ser humano não enche vaso pior do que seu estômago. (Tirmidhi). 47. Os confortos mundanos não são para mim. Sou como um viajante, que toma um descanso sob uma árvore na sombra e, em seguida, segue o seu caminho. (Tirmidhi). 48. As mulheres são as metades gêmeas dos homens. (Tirmidhi). 49. Um pai dá à seu filho nada melhor do que uma boa educação. (Tirmidhi). 50. A pessoa forte não é aquela que pode na luta colocar alguém para baixo. A pessoa forte é aquela que pode controlar-se quando está com raiva. (Bukhari). 51. A busca do conhecimento é obrigatória para todos os muçulmanos. (Tirmidhi). Que a paz e a bênção estejam sobre o Profeta Muhammad. Todos os louvores sejam somente a Alláh, Deus. http://www.iqaraisham.com.br. Abraço. Davi.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

OS ANJOS

 

Espiritismo. Texto de Allan Kardec (1804-1869). Livro O Céu e o Inferno. Capítulo IX. OS ANJOS. Os anjos segundo a Igreja • Refutação • Os anjos segundo o Espiritismo.  OS ANJOS SEGUNDO A IGREJA. Todas as religiões, sob diversos nomes, tiveram anjos, quer dizer, seres superiores à humanidade, intermediários entre Deus e os homens. O materialismo, negando qualquer existência espiritual fora da vida orgânica, naturalmente colocou os anjos entre as ficções e as alegorias. A crença nos anjos faz parte essencial dos dogmas da Igreja; é assim que ela os defi ne. Nós cremos firmemente, diz um concílio geral e ecumênico, que só há um verdadeiro Deus, eterno e infinito, que no começo dos tempos, tirou conjuntamente do nada uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, a angélica e a mundana, e em seguida formou, como intermediária entre as duas, a natureza humana composta de corpo e espírito. Tal é, segundo a fé, o plano divino na obra da criação: plano majestoso e completo, como convinha à sabedoria eterna. Assim concebido, ele oferece aos nossos pensamentos o ser em todos os graus e em todas as condições. Na esfera mais elevada aparecem a existência e a vida puramente espirituais; na última classe, a existência e a vida puramente materiais; e no meio que as separa, uma maravilhosa união de duas substâncias, uma vida comum ao mesmo tempo ao espírito inteligente e ao corpo organizado. Nossa alma é de uma natureza simples e indivisível, porém é limitada em suas faculdades. A ideia que temos da perfeição nos faz compreender que pode haver outros seres simples iguais a ela, e superiores por suas qualidades e seus privilégios. A alma é grande e nobre, mas está associada à matéria, servida por órgãos frágeis, limitada na sua ação e no seu poder. Por que não haveria outras naturezas mais nobres ainda, libertas dessa escravidão e desses entraves, dotadas de uma força maior e de uma atividade incomparável? Antes que Deus houvesse colocado o homem na Terra para conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, não deveria já ter chamado outras criaturas para compor sua corte celeste e para adorá-lo na morada da sua glória? Deus, enfim, recebe das mãos do homem o tributo de honra e a homenagem deste universo; é de admirar que ele receba das mãos do anjo o incenso e a prece do homem? Portanto, se os anjos não existissem, a grande obra do Criador não teria o remate e a perfeição da qual ela era suscetível; este mundo, que atesta sua onipotência, não seria mais a obra-prima da sua sabedoria; nossa própria razão, ainda que fraca e débil, poderia facilmente concebê-lo mais completo e mais aperfeiçoado. A cada página dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento, faz-se menção dessas sublimes inteligências, nas invocações piedosas e nos episódios históricos. Sua intervenção aparece manifestamente na vida dos patriarcas e dos profetas. Deus serve-se de seu ministério, ora para declarar suas vontades, ora para anunciar os acontecimentos futuros; Deus quase sempre faz dos anjos os intermediários da sua justiça ou da sua misericórdia. Sua presença está unida às diversas circunstâncias do nascimento, da vida e da paixão do Salvador; sua lembrança é inseparável da dos grandes homens e dos fatos mais importantes da antiguidade religiosa, encontra-se mesmo no meio do politeísmo e nas fábulas da mitologia, porque a crença de que falamos é tão antiga e tão universal quanto o mundo; o culto que os pagãos rendiam aos bons e aos maus gênios era apenas uma falsa aplicação da verdade, um resto degenerado do dogma primitivo. As palavras do santo concílio de Latrão, ano 1123, continham uma distinção fundamental entre os anjos e os homens. Elas nos ensinam que os primeiros são espíritos puros, enquanto que os segundos são compostos de um corpo e de uma alma; isto é, que a natureza angélica se sustém por si mesma, não somente sem mistura, mas ainda sem associação real possível com a matéria, por mais leve e sutil que a imaginemos; enquanto que nossa alma, igualmente espiritual, está associada ao corpo de maneira a não formar com ele senão uma só e mesma pessoa, e que este é essencialmente seu destino. Enquanto durar essa união tão íntima da alma com o corpo, estas duas substâncias têm uma vida comum e exercem influência recíproca uma sobre a outra; a alma não pode se livrar inteiramente da condição imperfeita que esse fato lhe acarreta: suas ideias lhe chegam pelos sentidos, pela comparação dos objetos exteriores, e sempre sob imagens mais ou menos aparentes. Daí porque ela não pode contemplar a si mesma, e não pode representar Deus e os anjos sem lhes admitir alguma forma visível e palpável. Eis por que os anjos, para se fazerem visíveis aos santos e aos profetas, devem ter recorrido a formas corporais; mas essas formas não eram mais que corpos imateriais que eles faziam mover sem se identificarem com eles, ou atributos simbólicos em relação com a missão da qual estavam encarregados. Seu ser e seus movimentos não estão localizados e circunscritos em um ponto fixo e delimitado do Espaço. Não estando ligados a nenhum corpo, não podem ser retidos e limitados por outros corpos, como nós o somos; eles não ocupam nenhum lugar e não preenchem nenhum espaço vazio; porém, assim como nossa alma está toda inteira em nosso corpo e em cada uma das suas partes, eles também estão inteiramente, e quase que simultaneamente, sobre todos os pontos e em todas as partes do mundo; mais rápidos que o pensamento, eles podem estar por toda a parte no abrir e fechar de olhos e ali atuarem por si mesmos, sem outros obstáculos às suas intenções senão a vontade de Deus e a resistência da liberdade humana. Enquanto temos que nos conformar em ver apenas pouco a pouco, e em uma certa medida, as coisas que estão fora de nós, e as verdades de ordem sobrenatural nos aparecem como em enigma e em um espelho, segundo as palavras do Apóstolo São Paulo, eles vêm sem esforço o que lhes interessa saber, e estão em relação imediata com o objetivo do seu pensamento. Seus conhecimentos não são o resultado da indução e do raciocínio, mas dessa intuição clara e profunda que abrange simultaneamente o gênero e as espécies que deles derivam, os princípios e as consequências que deles decorrem. A distância das épocas, a diferença dos lugares, a multiplicidade dos objetos não podem produzir nenhuma confusão em seus espíritos. A essência divina, sendo infinita, é incompreensível; ela tem mistérios e profundezas que eles não podem penetrar. Os desígnios particulares da Providência não lhes são mostrados; ela, porém, os revela quando, em certas circunstâncias, os encarrega de anunciá-los aos homens. As comunicações de Deus aos anjos, e dos anjos entre si, não se fazem, como entre nós, por meio de sons articulados e de outros sinais sensíveis. As puras inteligências não têm necessidade nem de olhos para ver, nem de ouvidos para ouvir; elas não têm mais o órgão da voz para manifestar seus pensamentos, esse intermediário habitual de nossas conversas não lhes é necessário; elas, porém, comunicam seus sentimentos de uma maneira que lhes é própria e que é toda espiritual. Para serem compreendidas é sufi ciente que o desejem. Somente Deus conhece o número de anjos. Este número, certamente, não poderia ser infinito, e não o é; mas, de acordo com os autores sacros e os santos doutores, ele é bastante considerável e verdadeiramente prodigioso. Se é natural proporcionar o número de habitantes de uma cidade à sua grandeza e à sua extensão, sendo a Terra apenas um átomo em comparação com o firmamento e as imensas regiões do Espaço, temos que chegar à conclusão de que o número de habitantes do céu e do ar é muito maior que o dos homens. Visto que a majestade dos reis deve seu brilho ao número de seus súditos, seus oficiais e seus servidores, o que existe de mais próprio para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos reis do que essa multidão inumerável de anjos que povoam o céu, a Terra, o mar e os abismos, e a dignidade daqueles que se mantêm, incessantemente, prosternados ou de pé diante do seu trono? Os padres, a Igreja e os teólogos geralmente ensinam que os anjos estão distribuídos em três grandes hierarquias, ou principados, e cada hierarquia em três companhias ou coros. Os da primeira e da mais alta hierarquia são designados em consequência das funções que desempenham no céu. Uns são chamados Serafins, porque estão como abrasados diante de Deus pelos ardores da caridade; outros, Querubins, porque são um reflexo luminoso da sua sabedoria; e outros, de Tronos, porque proclamam sua grandeza e fazem resplandecer seu brilho. Os da segunda hierarquia recebem seus nomes das operações que lhes são atribuídas no governo geral do Universo, e são: as Dominações, que determinam aos anjos de ordens inferiores suas missões e seus encargos; as Virtudes, que realizam os prodígios reclamados pelos grandes interesses da Igreja e do gênero humano, e as Potências, que protegem, pela sua força e sua vigilância, as leis que regem o mundo físico e moral. Os da terceira hierarquia têm em partilha a direção das sociedades e das pessoas, e são: os Principados, prepostos aos reinos, às províncias e às dioceses; os Arcanjos, que transmitem as mensagens de alta importância; os Anjos Guardiães, aqueles que acompanham cada um de nós para velarem pela nossa segurança e a nossa santifi cação.” REFUTAÇÃO. O princípio geral que resulta dessa doutrina é que os anjos são seres puramente espirituais, anteriores e superiores à humanidade, criaturas privilegiadas consagradas à felicidade suprema e eterna desde a sua formação; dotadas, pela sua própria natureza, de todas as virtudes e de todos os conhecimentos, sem haverem feito nada para adquiri-los. Eles estão em primeiro lugar na obra da criação; em último, a vida puramente material, e, entre os dois, a humanidade formada de almas, seres espirituais inferiores aos anjos, unidos a corpos materiais. Muitas dificuldades capitais resultam desse sistema. Inicialmente, qual é essa vida puramente material? Trata-se da matéria bruta? Mas a matéria bruta é inanimada e não tem vida por si mesma. Quer se falar das plantas e dos animais? Isso, então, seria uma quarta ordem na criação, porque não se pode negar que haja no animal inteligente algo mais que em uma planta e nesta, mais que em uma pedra. Quanto à alma humana, que é a transição, ela está unida diretamente a um corpo que é apenas matéria bruta, visto que, sem alma, ele não tem mais vida do que um torrão de terra. A esta divisão, evidentemente, falta clareza, e ela não está de acordo com a observação; assemelha-se à teoria dos quatro elementos anulada diante dos progressos da Ciência. Admitamos, portanto, esses três termos: a criatura espiritual, a criatura humana e a criatura corporal; tal é, dizem, o plano divino, plano majestoso e completo como convém à sabedoria eterna. Notemos primeiro que entre esses três termos não há nenhuma ligação necessária, são três criações distintas, formadas sucessivamente; de uma à outra existe solução de continuidade, enquanto que, na natureza, tudo se encadeia, tudo nos mostra uma admirável lei de unidade, da qual todos os elementos, que são apenas transformações uns dos outros, têm seu traço de união. Essa teoria é verdadeira quanto a esses três termos que, evidentemente, existem; apenas é incompleta: faltam-lhe os pontos de contato, como é fácil demonstrar. 4. Esses três pontos culminantes da criação são, diz a Igreja, necessários à harmonia do conjunto; que haja apenas um de menos e a obra está incompleta, não está mais segundo a sabedoria eterna. Entretanto, um dos dogmas fundamentais da religião diz que a Terra, os animais, as plantas, o Sol, as estrelas, a própria luz foram criados e tirados do nada, há seis mil anos. Antes dessa época, portanto, não havia nem criatura humana, nem criatura corporal; durante a eternidade decorrida, a obra divina ficara, então, imperfeita. A criação do Universo remontando a seis mil anos é um artigo de fé de tal forma capital que ainda há poucos anos a Ciência era anatematizada porque vinha destruir a cronologia bíblica ao provar a antiguidade maior da Terra e de seus habitantes. Entretanto o concílio de Latrão, concílio ecumênico que faz lei em matéria de ortodoxia, diz: “Nós cremos firmemente que há apenas um único e verdadeiro Deus, eterno e infinito, o qual, no começo dos tempos, tirou conjuntamente do nada uma e outra criatura, a espiritual e a corporal.” O começo dos tempos pode-se entender apenas como a eternidade decorrida, porque o tempo é infinito, como o Espaço: não há nem começo nem fim. Esta expressão: o começo dos tempos é uma figura que implica a ideia de uma anterioridade ilimitada. O concílio de Latrão, portanto, crê firmemente que as criaturas espirituais e as criaturas corporais foram formadas simultaneamente, e tiradas conjuntamente do nada em uma época indeterminada no passado. O que vem a ser, pois, o texto bíblico, que fixa essa criação em seis mil anos dos nossos dias? Admitindo-se que esteja aí o começo do Universo visível, esse não é, seguramente, o do tempo. Em que acreditar, no concílio ou na Bíblia? 5. O mesmo concílio formula, além disso, uma estranha proposição: “Nossa alma, diz ele, igualmente espiritual, está associada ao corpo de maneira a formar com ele uma só e mesma pessoa, e tal é, essencialmente, sua destinação.” Se o destino essencial da alma é estar unida ao corpo, esta união constitui seu estado normal, seu objetivo, seu fim, pois que essa é sua destinação. Entretanto, a alma é imortal e o corpo é mortal; sua união com o corpo tem lugar apenas uma vez, segundo a Igreja, e mesmo que essa união dure um século, o que é esse tempo comparado a eternidade? Porém, para um grande número, essa união é de apenas algumas horas; que utilidade pode ter para a alma essa união de tão pouca duração? Quando, junto à eternidade, a mais longa duração dessa união é um tempo imperceptível, é exato dizer que o seu destino é estar essencialmente ligada ao corpo? Essa união na realidade é apenas um incidente, um momento na vida da alma, e não o seu estado essencial. Se o destino essencial da alma é estar unida a um corpo material; se, por sua natureza, e segundo o objetivo providencial da sua criação, essa união é necessária para as manifestações de suas faculdades, somos obrigados a concluir que, sem o corpo, a alma humana é um ser incompleto; ora, para que, por sua destinação, a alma continue o que é, faz-se necessário que após ter deixado um corpo ela tome um outro, o que nos conduz à pluralidade forçada das existências ou, dito de outro modo, à reencarnação para sempre. É verdadeiramente estranho que um concílio, considerado como uma das luzes da Igreja, haja identificado a esse ponto o ser espiritual e o ser material, que eles não possam de qualquer forma existir um sem o outro, visto que a condição essencial da sua criação é estarem unidos. 6. O Espiritismo professa, com relação à união da alma e do corpo, uma doutrina infinitamente mais espiritualista, para não dizer menos materialista, e que tem ainda a seu favor estar mais conforme com a observação e o destino da alma. Segundo o que ele nos ensina, a alma é independente do corpo, sendo este apenas um envoltório temporário; sua essência é a espiritualidade, sua vida normal é a vida espiritual. O corpo não é mais que um instrumento para o exercício das suas faculdades nas suas relações com o mundo material, porém, separada desse corpo, ela desfruta das suas faculdades com mais liberdade e amplidão. 7. A união da alma com o corpo, necessária aos seus primeiros progressos, acontece somente no período que se pode chamar de sua infância e sua adolescência; quando a alma atinge um certo grau de perfeição e de desmaterialização, essa união não é mais necessária, e ela progride apenas pela vida do espírito. Além disso, por mais numerosas que sejam as existências corporais, elas estão necessariamente limitadas pela vida do corpo, e sua soma total não abrange, em todos os casos, mais que uma imperceptível parte da vida espiritual, que é ilimitada. 8. O quadro hierárquico dos anjos nos demonstra que várias ordens têm, em suas atribuições, o governo do mundo físico e da humanidade, que eles foram criados para esse fi m. Porém, segundo o Gênesis, o mundo físico e a humanidade só existem há seis mil anos, portanto, o que faziam esses anjos antes desse período, durante a eternidade, já que não existiam os objetos das suas ocupações. Os anjos foram criados de toda a eternidade? Assim deve ser, visto que servem para a glorificação do Altíssimo. Se Deus os houvesse criado em uma época determinada qualquer teria ficado, até essa época, isto é, durante uma eternidade, sem adoradores. 9. Mais adiante, diz o concílio: “Enquanto dure essa união tão íntima da alma com o corpo”. Então, chega um momento em que essa união não existe mais? Esta proposição contradiz a que faz dessa união a destinação essencial da alma. Ele disse ainda: “As ideias lhes chegam pelos sentidos, pela comparação dos objetos exteriores.” Essa é uma doutrina fi losófica em parte verdadeira, porém não no sentido absoluto. Segundo eminente teólogo, é uma condição inerente à natureza da alma receber as ideias somente pelos sentidos; ele esquece as ideias inatas, as faculdades, às vezes tão transcendentes, a intuição das coisas que a criança traz ao nascer e que ela não deve a nenhum ensinamento. Por qual sentido jovens pastores, calculadores naturais que causaram admiração aos sábios, adquiriram as ideias necessárias para a solução quase instantânea dos mais complicados problemas? Pode-se dizer o mesmo de certos músicos, pintores e linguistas precoces. “Os conhecimentos que os anjos possuem não resultam da indução e do raciocínio”, eles os têm porque são anjos, sem precisarem aprender. Deus os criou tais como são; a alma, ao contrário, deve aprender. Se a alma recebe as ideias apenas pelos órgãos corporais, quais são as ideias que a alma de uma criança, morta após alguns dias de vida, pode ter, admitindo-se, como o faz a Igreja, que a alma não renasce? 10. Aqui apresenta-se uma questão vital: a alma adquire ideias e conhecimentos após a morte do corpo? Se, uma vez desligada do corpo, ela não pode adquirir nenhum conhecimento, a alma da criança, do selvagem, do cretino, do idiota ou do ignorante permanecerá sempre como era no momento da morte; ela está condenada à nulidade, por todo o sempre. Se a alma adquire novos conhecimentos após a vida atual, é porque ela pode progredir. Sem o progresso ulterior da alma, chega-se a consequências absurdas; com o progresso, chega-se à negação de todos os dogmas fundamentados sobre seu estado estacionário: o destino irrevogável, as penas eternas, etc. Se a alma progride, onde o progresso se detém? Não existe nenhuma razão para que ela não atinja o grau dos anjos ou puros espíritos. Se a alma pode chegar a esse ponto, não havia nenhuma necessidade de serem criados seres especiais e privilegiados, livres de todo trabalho e desfrutando da felicidade eterna sem haverem feito nada para conquistá-la, enquanto que outros seres, menos favorecidos, não obtêm a suprema felicidade senão à custa de longos e cruéis sofrimentos e das mais rudes provas. Deus poderia tê-lo feito, sem dúvida alguma, mas se admitimos o infinito das suas perfeições, sem as quais não seria Deus, também é preciso admitir que ele não faz nada de inútil, nada que desminta a soberana justiça e a soberana bondade. 11. “Visto que a majestade dos reis deve seu brilho ao número de seus súditos, seus ofi ciais e seus servidores, o que existe de mais próprio para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos reis do que essa multidão inumerável de anjos que povoam o céu, a Terra, o mar e os abismos, e a dignidade daqueles que se mantêm, continuamente prosternados ou de pé diante do seu trono?” Não é rebaixar a Divindade, assemelhar sua glória ao fausto dos soberanos da Terra? Essa ideia, incutida no espírito das massas ignorantes, falseia a opinião que se faz da sua verdadeira grandeza; é sempre Deus reduzido às mesquinhas proporções da humanidade; supor que ele tenha necessidade de milhões de adoradores incessantemente prosternados ou de pé diante dele, é atribuir-lhe as fraquezas dos monarcas déspotas e orgulhosos do Oriente. O que faz um soberano verdadeiramente grande? É o número e o brilho dos seus cortesãos? Não; é a sua bondade e a sua justiça, é o título merecido de pai dos seus súditos. Pergunta-se se existe alguma coisa mais própria para nos dar uma ideia da majestade de Deus do que a multidão dos anjos que compõem sua corte. Sim, certamente, existe algo melhor do que isso: é o fato de Deus apresentar-se para todas as suas criaturas soberanamente bom, justo e misericordioso, e não colérico, invejoso, vingativo, inexorável, exterminador, parcial, criando para sua própria glória esses seres privilegiados, favorecidos com todos os dons, nascidos para a eterna felicidade, enquanto que, a outros, faz com que conquistem, penosamente a felicidade, punindo um momento de erro com uma eternidade de suplícios. OS ANJOS SEGUNDO O ESPIRITISMO. 12. Que haja seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos, disso não se poderia duvidar. Sobre esse ponto, a revelação espírita confirma a crença de todos os povos, porém, ao mesmo tempo, ela nos faz conhecer a natureza e a origem desses seres. As almas, ou espíritos, são criadas simples e ignorantes, isto é, sem conhecimentos e sem consciência do bem e do mal, mas aptas a adquirir tudo o que lhes falta e que é obtido pelo trabalho. O objetivo, que é o mesmo para todas, é a perfeição. Elas a alcançam mais ou menos rapidamente em virtude do seu livre arbítrio e em razão dos seus esforços; todas têm os mesmos graus para percorrer, o mesmo trabalho para realizar; Deus não concede um quinhão nem maior nem mais fácil a umas que a outras, porque todas são suas filhas e, sendo justo, não tem preferência por nenhuma. Ele lhes diz: “Eis a lei que deve ser a vossa regra de conduta; somente ela pode vos levar ao objetivo; tudo o que está de acordo com esta lei é o bem, tudo o que é contrário a ela é o mal. Sois livres para obedecê-la ou para infringi-la, e sereis, assim, os árbitros do vosso próprio destino.” Deus, portanto, não criou o mal; todas as suas leis são para o bem. Foi o homem, o próprio homem quem criou o mal, desrespeitando as leis de Deus, se ele as observasse escrupulosamente jamais se afastaria do bom caminho. 13. A alma, porém, nas primeiras fases de sua existência, assim como a criança, não tem experiência, razão por que está sujeita a cometer faltas. Deus não lhe dá a experiência, mas dá os meios de adquiri-la. Cada passo em falso no caminho do mal é para a alma um atraso, do qual ela sofre as consequências, aprendendo, à sua custa, o que deve evitar. É assim que, pouco a pouco, ela se desenvolve, se aperfeiçoa e avança na hierarquia espiritual, até que chegue ao estado de puro espírito ou de anjo. Os anjos são, portanto, as almas dos homens que chegaram ao grau de perfeição que a criatura comporta, e desfrutam da plenitude da felicidade prometida. Antes de atingirem o grau supremo, desfrutam de uma felicidade relativa ao seu adiantamento, mas essa felicidade não se encontra na ociosidade, ela está nas funções que Deus lhes confia e que elas ficam felizes em realizar, porque essas ocupações são um meio de progredirem. (Ver o cap. III, “O Céu.”) 14. A humanidade não está limitada à Terra; ela ocupa os inumeráveis mundos que circulam no Espaço; ocupou aqueles que desapareceram, e ocupará aqueles que se formarão. Deus criou por toda a eternidade e cria sem cessar. Portanto, muito tempo antes de a Terra existir, por mais antiga que a imaginemos, havia, em outros mundos, espíritos encarnados que percorreram as mesmas etapas que nós, espíritos de formação mais recente, percorremos neste momento, e que chegaram ao objetivo antes mesmo que tivéssemos saído das mãos do Criador. De toda a eternidade, portanto, existiram anjos ou puros espíritos; mas, com a sua existência humana perdendo-se no infinito do passado, para nós é como se eles sempre tivessem sido anjos. 15. Assim se acha realizada a grande lei da unidade da criação; Deus jamais foi inativo, sempre teve puros espíritos, experimentados e esclarecidos, para a transmissão de suas ordens e para a direção de todas as partes do Universo, desde o governo dos mundos até os mais pequenos detalhes. Não há, pois, necessidade de crer em seres privilegiados, isentos de encargos; todos, antigos e novos, conquistaram suas posições na luta e por seu próprio mérito; todos, enfi m, são os filhos das suas obras. Assim se realiza igualmente a soberana justiça de Deus. Livro O Céu e o Inferno. Abraço. Davi

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

DOUTRINA DAS EMANAÇÕES

 

Teosofia. DOUTRINA DAS EMANAÇÕES. Esse texto é uma reflexão baseada na Ciência Esotérica sobre a doutrina da Trindade Divina e a Origem do Mundo em Gênesis. O livro Ísis Sem Véu, volume III, de Helena P. Blavatsky (1831-1899) será nosso roteiro para adentrarmos nessa abordagem. A partir daqui transcrição do livro citado. "Poderíamos acreditar que os eventos dos primeiros séculos do Cristianismo foram apenas os reflexos das imagens lançadas pelo espelho do futuro, ao tempo do Êxodo bíblico. Durante a tempestuosa época de Irineu de Lyon (130-202), a Filosofia Platônica, com a sua mística  submersão na Divindade, não era tão odiosa à nova doutrina ao ponto de impedir os cristãos de se apoiarem nela para a sua abstrusa metafísica de todos os modos e maneiras. Aliando-se com os terapeutas ascéticos, precursores e modelos dos monges e eremitas cristãos, foi em Alexandria, não nos esqueçamos, que eles fincaram as primeiras fundações da doutrina puramente platônica da Trindade. Esta se tornou mais tarde a doutrina Platônico Filônica, tal como a encontramos hoje. (Filon de Alexandria (25 AC 50 DC). Platão (428-347) considerava a natureza divina sob uma tríplice modificação da Causa Primeira, a razão ou o Logos, e a alma ou espírito do universo. "Os três princípios árquicos ou originais", diz Edward E. Gibbon (1737-1794). Eram representados no sistema platônico como três deuses, unidos entre si por uma misteriosa e inefável geração. Unindo essa ideia transcendental com a figura  mais hipostática (teologia que forma uma só pessoa; união hipostática do Verbo Divino com a natureza humana) do Logos de Filon, cuja doutrina era a da antiga Cabala. Ela considerava o Rei Messias como o Metatron, ou o Anjo do Senhor, o Legatus descido à carne, mas não o próprio Ancião dos Dias. Os cristãos vestiram, com essa representação mística do Mediador para a raça decaída de Adão, a Jesus, o filho de Maria. Sob essa inesperada veste, sua personalidade se perdeu por completo. No moderno Jesus da Igreja Cristã, encontramos o ideal do imaginativo Irineu, não o adepto dos Essênios, o obscuro reformador da Galiléia. Nós o vemos sob a desfigurada máscara Platônica Filônica. Não como os discípulos o ouviram sobre a montanha. Assim veio a Filosofia Pagã em socorro da edificação do dogma principal. Mas quando os Teurgistas da terceira Escola Neo Platônica, privados de seus antigos mistérios, se esforçaram por unir as doutrinas de Platão com as de Aristóteles (384 AC 322), e, combinando as duas Filosofias, acrescentaram à sua Teosofia as doutrinas da Cabala Oriental, então os cristãos transformaram-se de rivais em perseguidores. Assim que as alegorias metafísicas de Platão fossem discutidas em público sob a forma de dialética grega, todo o elaborado sistema da Trindade Cristã seria desvelado, e o seu prestígio divino ficaria completamente transtornado. A Escola Eclética, alterando a ordem, adotou o método indutivo; e esse método se tornou o seu dobre de finados. De todas as coisas do mundo, as explicações lógicas e racionais tornaram-se as mais odiosas à nova religião de mistério; pois elas ameaçavam revelar todo o pano de fundo da concepção Trinitária, divulgar à multidão a Doutrina das Emanações, e assim destruir a unidade do todo. Isto não podia ser permitido, e não o foi. A história nos lembra dos meios cristãos a que se recorreu para tanto. A Doutrina Universal das Emanações, adotada desde tempos imemoriais pelas maiores Escolas em que ensinaram os filósofos cabalistas alexandrinos e orientais, explica o pânico que instalou-se entre os padres cristãos. Esse espírito de astúcia jesuítica e clerical, que induziu Parkhust, muitos séculos depois, a suprimir, em seu Dicionário Hebraico Inglês, o verdadeiro significado das primeiras palavras do Gênesis, tem sua origem nesses dias de guerra contra a agonizante Escola Neo Platônica. Os padres tinham decidido adulterar o sentido da palavra  "Daimôn" e temeram, acima de tudo, que o verdadeiro sentido esotérico da palavra Reshith fosse revelado às multidões, pois se o seu verdadeiro, assim como o da palavra hebraica Ashdoth (traduzida na Septuagínta por "anjos", quando significa emanações), fosse corretamente compreendido, o mistério da Trindade Cristã se teria esfacelado, levando em sua ruína a nova religião, juntamente com os escombros dos antigos mistérios. Essa é a verdadeira razão pela qual os dialéticos, assim como o próprio Aristóteles, o filósofo indagador, sempre foram odiosos à Teologia Cristã. Mesmo Lutero (1483-1586), enquanto preparava sua obra de reforma, sentindo o chão inseguro sob seus pés, não obstante tenha reduzido os dogmas à sua mais simples expressão, deu plena vazão ao seu medo e ódio por Aristóteles. A quantidade de ofensas que ela acumulou contra a memória  do grande lógico só pode ser igualada, jamais ultrapassada, aos anátemas e calúnias papais contra os liberais do governo italiano. Compilando-as, elas encheriam todo um volume de uma nova enciclopédia de modelos para as diatribes (crítica severa ou mordaz; escrito ou discurso agressivo ou injurioso) monacais (que se relaciona com o gênero de vida dos monges). É natural que o clero cristão jamais se tenha reconciliado com uma doutrina baseada na aplicação da lógica estrita ao raciocínio discursivo. O número daqueles que abandonaram a Teologia por essa razão jamais se fez conhecer. Eles fizeram perguntas e foram proibidos de fazê-las; como resultado, separação, ódio, e amiúde um mergulho desesperado nos abismos do Ateísmo. A concepção órfica do éter como o principal meio entre Deus e a matéria criada foi igualmente denunciada. O éter (na filosofia antiga foi considerado após terra, água, fogo e ar, o quinto elemento da substância primordial. Parmênides 540 AC 479 falou desse misterioso elemento em seus aforismos) órfico lembrava por demais vivamente o Archaeus, a alma do mundo, estando o segundo estreitamente relacionado em seu sentido metafísico com as emanações, por ser a primeira manifestação, Sephirah, ou luz divina. Quando então poderia ele inspirar maior medo, a não ser nesse momento crítico? Orígenes (182-254), Clemente de Alexandria (150-215), Calcídio, Metódio (825-885) e o Cabalista Maimônides (1138-1204), com base na autoridade do Targum de Jerusalém, a maior autoridade ortodoxa dos judeus, afirmavam que as duas primeiras palavras do Gênesis: BE - RESHITH, significam Sabedoria, ou Princípio, e que a ideia de que tais palavra significam "no princípio" jamais foi partilhada fora dos meios profanos, que não tinham permissão para penetrar mais profundamente no sentido esotérico da sentença. Isaac de Beausobre (1659-1738), e depois dele Godfrey Higgins (1772-1833), demonstraram o fato. "Todas as Coisas", diz a Cabala, derivam, por emanação, de um princípio; e esse princípio é o Deus (Desconhecido e Invisível). DEle emana imediatamente um poder substancial que é a imagem de Deus, e a fonte de todas as subsequentes emanações. Esse segundo princípio produz, pela energia (ou vontade e força) da emanação, outras naturezas, que são mais ou menos perfeitas, de acordo com seus diferentes graus de distância, na escala da emanação, da Fonte Primeira de Existência, e que constitui diferentes mundos, ou ordens de seres, todos unidos ao poder eterno de que emanam. A matéria não é senão o efeito mais remoto da energia emanativa da Divindade. O mundo material recebe  sua forma da ação imediata dos poderes bem abaixo da Fonte Primeira do Ser. Beausobre afirma ter Santo Agostinho (354-430), o maniqueu, dito o seguinte: "E se por Reshith entendemos o Princípio Ativo da Criação, e não o seu início, nesse caso perceberemos claramente que Moisés jamais pretendeu dizer que o céu e a Terra por meio do Princípio, que é Seu Filho. Não é ao tempo que ele se refere, mas ao autor imediato da criação, os Anjos, segundo Agostinho, foram criados antes do firmamento, e, de acordo com a interpretação esotérica, o céu e a Terra foram criados depois deles, emanando  do segundo Princípio, adotando assim o sentido exotérico da palavra conferido às multidões. A Cabala, tanto a Oriental, quanto a Judia, mostra que inúmeras emanações (as Sephiroth Judias) originaram-se do Primeiro Princípio, o principal dos quais era a Sabedoria. Essa Sabedoria é o Logos de Filon e Miguel, o chefe dos Aeons gnósticos; é o Ormasde dos Persas; Minerva, deusa da sabedoria, dos gregos, que emanou da cabeça de Júpiter; e a Segunda Pessoa da Trindade Cristã. Os primeiros padres da Igreja não tiveram de quebrar a cabeça em demasia; eles encontraram uma doutrina preparada que existia em todas as Teogonias (genealogia e filiação dos deuses. Conjunto de divindades de um povo Politeísta) milhares de anos antes da Era Cristã. Sua Trindade não é senão o Trio das Teogonias milhares de anos antes da Era Cristã. Sua Trindade não é senão o Trio das Sephiroth, as primeiras três luzes cabalísticas que, segundo Moisés Ben Nachman (1194-1270), "jamais foram vistas por alguém, não havendo nenhum defeito nelas, nem qualquer desunião". O primeiro número eterno é o Pai, ou o Caos Primitivo, invisível e incompreensível dos Caldeus, do qual emana o Inteligível. O Phtah (uma das pessoas da Trindade) egípcio, ou o Princípio de Luz, não a luz em si, e o Princípio de Vida, embora não tenha em si nenhuma vida. A Sabedoria pela qual o Pai criou os céus é o Filho, ou o andrógino cabalista Adão Cadmo. O Filho é ao mesmo tempo o Râ Masculino, ou Luz da Sabedoria. Prudência ou Inteligência, Sephirath, a sua parte feminina, e desse ser dual procede a terceira emanação, Binah ou Razão, a segunda Inteligência, o Espírito Santo dos cristãos. Por conseguinte, trata-se, estritamente falando de uma TETRAKTYS ou quaternidade, consistindo da Primeira Mônada Ininteligível, e de sua tríplice emanação, que constitui propriamente a nossa Trindade. Como então não constatar de imediato que, se os cristãos não tivessem propositadamente desfigurado em sua interpretação e tradução o texto do Gênesis Mosaico, para adaptá-lo às suas próprias concepções, teria sido impossível sua religião com seus dogmas atuais. Uma vez compreendida a palavra Reshith em seu novo sentido de Princípio e não de Início, e aceita a doutrina anatematizada das emanações, a posição da Segunda Pessoa da Trindade torna-se insustentável. Pois, se os anjos são as primeiras emanações divinas oriundas da Substância Divina, que existiam antes do Segundo Princípio, então o Filho antropomórfico (personalidade humana) é, na melhor das hipóteses, uma emanação como aqueles, e pode tanto ser o Deus hipostáticamente quanto nossas obras visíveis são nós mesmos. Que essas sutilezas metafísicas jamais entraram na cabeça do honesto e sincero Apóstolo Paulo é evidente; e tanto mais o é porque, como todos os judeus eruditos, ele estava bem familiarizado com a doutrina das Emanações e jamais pensou em deturpá-la. Como pode alguém imaginar que Paulo identificava o Filho como o Pai, quando ele nos diz que Deus criou Jesus Hebreus 9:11 "um pouco menor do que os anjos", e um pouco maior do que Moisés!  Hebreus 3:3 "Pois  esse Homem foi considerado de maior glória do que Moisés". Ignoramos quais ou quantas falsidades foram interpoladas posteriormente nos Atos dos Apóstolos pelos padres da Igreja; mas é evidente que Paulo sempre considerou a Cristo como um homem "cheio do Espírito de Deus", eis um ponto que não admite discussão: "No Arche era o Logos, e o Logos estava com Theos". João 1:1 "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava Deus, e o Verbo era Deus". A Sabedoria, a primeira emanação de Ain Soph; o Protogonos, a Hipostasis; o Adão Cadmo dos Cabalistas, o Brahma dos hindus; o Logos de Platão (428-347), e o Início de São João, são o Reshith, do livro do Gênesis. Se corretamente interpretado, ele subverte, como assinalamos, o elaborado sistema da Teologia Cristã, pois prova que atrás da Divindade Criadora há um deus Superior; um planejador e arquiteto; e que o primeiro é apenas o Seu agente executor, uma simples Força. Eles perseguiram os gnósticos, assassinaram os filósofos e queimaram os Cabalistas e os Maçons; e quando o dia do grande acerto chegar, e a luz Brilhar na escuridão, o que terão eles para oferecer no lugar da fenecida religião? O que responderão, esses pretensos monoteístas (Monoteísmo: crença em um só Deus. As três grandes religiões monoteístas são o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, embora este último negue a referida designação ao Cristianismo, por sua doutrina da Trindade. Algumas seitas cristãs são exclusivamente monoteístas e negam o dogma da Trindade, como os Monarquianos). O Monarquianismo era a doutrina cristã do século III que negava a Trindade das Pessoas, para afirmar que a Única Verdade era a Unidade Divina, na Pessoa do Pai; o chamado Patripassionismo. Esses adoradores e pseudo servos do único Deus vivo, ao seu Criador? Como  justificarão a longa perseguição daqueles que eram os verdadeiros seguidores do grande Megalistor, o supremo grande mestre dos Rosa Cruzes, o primeiro dos Maçons? Pois ele é o Construtor e Arquiteto do Templo do universo; Ele é o Verbum Sapienti. Todos sabem, escreveu Fausto, o grande líder da seita dos Maniqueu no século IV, "que os Evangelhos não foram escritos por Jesus Cristo, nem por seus apóstolos, mas muito tempo depois por algumas pessoas desconhecidas, que, julgando com razão que não lhes dariam crédito quando contassem coisas que não haviam testemunhado, encabeçaram suas narrativas com os nomes dos apóstolos ou dos discípulos contemporâneos". Ao comentar o assunto, A. Franck, o sábio erudito judeu do Instituto e tradutor da Cabala, expressa a mesma ideia, "Não temos razão", pergunta ele, "em considerar a Cabala como um precioso vestígio da filosofia religiosa do Oriente, que, transportado para Alexandria, se misturou à doutrina de Platão, e sob o nome usurpado de Dionísio, o Areopagita (Pseudo Dionísio é o nome pelo qual é conhecido o autor de um conjunto de textos, Corpus Areopagiticum, que exerceram, segundo os historiadores da filosofia e da arte, uma forte influência em toda a mística cristã ocidental da Idade Média. Esses textos foram muito lidos e admirados pelo Abade Suger (1081-1151) de Saint Denis - França, construtor do primeiro grande exemplar de arquitetura gótica: A Basílica de Saint Denis em Paris). O autor se apresenta como Dionísio, o ateniense membro do Areópago, o único convertido por São Paulo em Atos 17:34 "Todavia, chegando alguns homens a ele, creram; entre os quais Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Dâmaris, e com ele outros", no século I. Mas provavelmente os textos foram escritos por um teólogo bizantino sírio do fim do século V ou início do século VI, originalmente em grego, depois traduzidos para o latim por João Escoto Erígena (815-877). Dionísio o Areopagita, foi bispo de Atenas, convertido e consagrado por São Paulo, foi assim capaz de penetrar no misticismo da Idade Média. Diz Louis Jacolliot (1837-1890): "O que é então essa filosofia religiosa do Oriente, que penetrou no simbolismo místico da cristandade? Respondemos: Essa filosofia, traços da qual encontramos entre os magos, os caldeus, os egípcios, os cabalistas hebreus e os cristãos, não é outra senão a dos brâmanes hindus, discípulo dos pitris, ou espíritos residentes nos mundos invisíveis que nos cercam. Mas se os gnósticos foram destruídos pelas perseguições, a Gnose, baseada na secreta ciência, ainda vive. Ela é a terra que ajuda a mulher e está destinada a abrir sua boca para engolir o Cristianismo medieval, o usurpador e assassino da doutrina do Grande Mestre. A Cabala Antiga, a Gnose, ou o conhecimento tradicional secreto, jamais ficou sem os seus representantes, em qualquer época ou país. As Trindades dos iniciados, reveladas à história ou ocultadas sob o véu impenetrável do mistério, foram preservadas e fixadas através das idades. Elas foram conhecidas como Moisés, Aholiab e Bezaleel, o filho de Uri, o filho de Hur, como Platão, Filon e Pitágoras, etc. Na transfiguração, vemo-las como Jesus, Moisés e Elias, os três Trismegisti; e os três cabalistas Pedro, Tiago e João, cuja revelação é a chave de toda a Sabedoria. Descobrimo-las no crepúsculo da história judia como Zoroastro (630 AC 553), Abraão e Terah, e depois como Henoc, Ezequiel e Daniel. Quem, dentre aqueles que sempre estudaram as filosofias antigas, que compreende intuitivamente a grandeza de suas concepções, a infinita sublimidade de seus conceitos sobre a Divindade Desconhecida, pode hesitar, por um instante, de dar preferência às suas doutrinas sobre a Teologia incompreensível, dogmática e contraditória das centenas de seitas cristãs? Quem, tendo uma vez lido Platão (428 AC 347) e penetrado o seu Demiurgo "a quem ninguém jamais viu, exceto o Filho", pode duvidar de que Jesus foi um discípulo da mesma doutrina secreta que instruiu o grande filósofo? Pois, como já mostramos antes, Platão nunca afirmou ser o criador de tudo que escreveu, mas deu todo o crédito a Pitágoras (571 AC 495), que, por sua vez, assinalava o remoto Oriente como a fonte de que derivaram sua informação e sua filosofia. Henry Thomas Colebrooke (1765-1835) mostra que Platão o confessa em suas epístolas, e diz que ele extraiu seus ensinamentos das doutrinas antigas e sagradas. Além disso, é inegável que as Teologias de todas as grandes nações concordam em si e mostram que cada uma é parte de um todo estupendo. Como os demais iniciados, vemos Platão em grandes dificuldades para ocultar o verdadeiro significado de suas alegorias. Toda vez que o assunto toca os maiores segredos da Cabala Oriental, segredo da verdadeira, cosmogonia do universo e do mundo ideal preexistente, Platão esconde sua filosofia na mais profunda escuridão. Seu Dialogo Timeu é tão confuso que só um iniciado pode compreender-lhe o sentido secreto. E Johann Lorenz von Mosheim (1693-1755) pensa que Filon de Alexandria (25 AC 50 DC) encheu suas obras com passagens diretamente contraditórias com o único propósito de ocultar a verdadeira doutrina. Pelo menos uma vez, vemos um crítico na pista certa. E essa própria ideia da Trindade, assim como a doutrina tão amargamente condenada das emanações, qual é a sua mais remota origem? A resposta é fácil, e as provas estão agora às mãos. Na mais sublime e profunda de todas as filosofias, a da universal Religião da Sabedoria, os primeiros traços da qual a pesquisa histórica agora encontra na antiga religião pré Védica da Índia. Como assinala o muito caluniado Jacolliot, "Não é nas obras religiosas da Antiguidade, tais como os Vedas, o Zend Avesta, a Bíblia, que temos de procurar a exata expressão das dignas e sublimes crenças daquelas épocas". A sagrada sílaba primitiva, composta das três letra A U M, na qual está contida a Trimurti (Trindade) Védica, deve ser mantida em segredo, como outro triplo Veda, diz Manu no livro Sagrado Hindu. Svayambhú é a Divindade não revelada; é o Ser que existe por si e de si; é o germe central e imortal de tudo que existe no universo. Três Trindades emanam e nele se confundem, formando uma unidade Suprema. Essas Trindades, ou a tríplice Trimúrti, são: Nara, Nári e Viraj, a Tríada incial; Agni, Vayu e Surya, a Tríada manifesta: Brahma, Vishnu e Shiva, a Tríada Criadora. Cada uma dessas Tríadas torna-se menos metafísica e mais adaptada à inteligência vulgar à medida em que desce. A última torna-se assim apenas o símbolo em sua expressão concreta; conclusão necessária de uma concepção puramente metafísica. (A Metafísica é uma das disciplinas fundamentais da filosofia. Os sistemas metafísicos, em sua forma clássica, tratam de problemas centrais da filosofia teórica. São tentativas de descrever os fundamentos, as condições, as leis, a estrutura básica, as causas ou princípios; bem como o sentido e a finalidade da realidade como um todo ou dos seres em geral. Um ramo central da metafísica é a ontologia, a investigação sobre as categorias básicas do ser e como elas se relacionam umas com as outras. outro ramo central da metafísica é a cosmologia, o estudo da totalidade de todos os fenômenos no universo. Concretamente, isso significa que a Metafísica Clássica ocupa-se das questões últimas da filosofia, tais como: há um sentido último para a existência do mundo? A organização do mundo é necessariamente essa com que deparamos, ou seriam possíveis outros mundos? Existe um Deus? Se existe, como podemos conhecê-lo? Existe algo como um espírito? Há uma diferença fundamental entre mente e matéria? Os seres humanos são dotados de almas imortais? São dotados de livre arbítrio? Tudo está em permanente mudança, ou há coisas e relações que, a despeito de todas as mudanças aparente, permanecem sempre idênticas? O que diferencia a metafísica das ciências particulares é que a metafísica considera o inteiro do ser enquanto as ciência particulares estudam apenas partes específicas do ser). Ao lado do Svayambhu, há as dez Sephiroth dos Cabalistas hebreus, os Prajapatis hindus, o Ain Soph dos primeiros, que corresponde ao Grande Desconhecido, expresso pelo A U M místico dos últimos. Diz A. Franck, o tradutor da Cabala: Os dez Sephiroth ( ... ) dividem-se em três classes, cada uma das quais nos apresenta a divindade sob um aspecto diferente, embora o todo permaneça uma Trindade Indivisível. Os primeiros três Sephiroth são puramente intelectuais no que concerne à Metafísica; expressam a identidade absoluta da existência e do pensamento, e formam o que os modernos cabalistas chamam de mundo inteligível, que é a primeira manifestação de Deus. Os três seguintes ( ... ) fazem-nos conceber. Deus em um de seus aspectos, como a identidade entre bondade e sabedoria, noutro aspecto, eles nos mostram, no Bem Supremo, a origem da beleza e da magnificência (na criação). Por isso, eles se chamam virtudes, ou constituem o mundo sensível. Finalmente, sabemos, pelo último desses atributos, que a Providência Universal, o Artista Supremo, é também Força Absoluta, a causa todo poderosa, e que, ao mesmo tempo, essa causa é o elemento gerador de tudo que existe. São estes últimos Sephirot que constituem o mundo natural, ou a natureza em sua essência e em seu princípio ativo, natura naturans. Essa concepção cabalística revela-se assim idêntica à da filosofia hindu. Todo aquele que ler Platão e seu Diálogo Timeu encontrará essas ideias fielmente reproduzidas pelo filósofo grego. Timeu é um dos diálogos de Platão, principalmente na forma de um longo monólogo do personagem título, escrito por volta de 360 AC. O trabalho apresenta a especulação sobre a natureza do mundo físico e os seres humanos. É seguido pelo Diálogo Críticas. Falantes do diálogo são: Sócrates, Timeu de Locros, Hermócrates e Crítias. Alguns estudiosos acreditam que Crítias que aparece no diálogo não é o mesmo Crítias da Tirania dos Trinta, mas seu avô, que também era chamado Crítias. O diálogo ocorre um dia após Sócrates descrever seu estado ideal. Nas obras de Platão tal discussão ocorre em sua obra A República. Sócrates sente que sua descrição do estado ideal não foi suficiente para fins de entretenimento e que "eu ficaria feliz em ouvir um relato sobre a realização de operações com outros estados". Hermócrates quer obrigar Sócrates e menciona que Crítias sabe exatamente sobre isso para então fazê-lo. Crítias começa a história da viagem de Sólon ao Egito, onde ouve a história de Atlântida e como Atenas costumava ser um estado ideal que, posteriormente, travou uma guerra contra Atlântida. Crítias acredita que se adiantando em suas explicações e menciona que Timeu dirá parte da história da origem do Universo para o homem. A história de Atlântida é adiada e escrita então por Crítias. O conteúdo principal do diálogo segue-se pela exposição de Timeu.  Timeu começa com uma distinção entre o mundo físico e o mundo eterno. O mundo físico é o mundo que muda e perece; é o objeto de parecer e de sensação irracional. O mundo eterno não muda nunca; por isso é apreendido pela razão. Os discursos sobre os dois mundos são condicionados pela natureza distinta de seus objetos. De fato, uma descrição do que é imutável, fixo e claramente inteligível será imutável e fixo, enquanto uma descrição do que muda, provavelmente, também vai mudar e ser apenas provável. Timeu sugere que nada se torna ou muda sem causa, então a causa do universo deve ser um Demiurgo ou um deus, uma figura que Timeu refere-se a como  o pai e criador do universo. E já que o universo é justo, o Demiurgo deve ter olhado para o modelo eterno para transformá-lo e não à um modelo perecível. Assim, usando o mundo eterno e perfeito de "formas" ou ideais como um modelo, ele começou a criar o nosso mundo, que anteriormente só existia em um estado de desordem. No Diálogo Timeu, Platão utiliza a noção de Demiurgo  como inteligência ordenadora do Universo, noção esta que Platão recebeu de Anaxágoras (500 AC 428). Todavia, diferentemente deste Nous de Anaxágoras, o Demiurgo em Platão não seria apenas inteligência, uma vez que haveria nele um caráter artesanal, que constitui, ao lado da persuasão e da ação ordenadora, a atividade prática desse artífice. O Demiurgo contempla e produz, existindo nele atividades teóricas e prática inseparáveis. Ele não seria um simples artesão, mas aquele que produz transferindo para as cópias as virtudes de um modelo. No diálogo, há uma série de analogias ligadas ao trabalho manual do artesão. De fato, o Demiurgo produz a Alma do Mundo, a Alma Humana e a Alma Vegetativa, utilizando técnicas de metalurgia. Constitui o corpo do mundo como uma construção semelhante a de um edifício; na produção da esfericidade do corpo do mundo, na fabricação dos ossos e do esqueleto, utilizando técnicas de cerâmica. Além disso, é qualificado de modelador de cera e conhecedor da arte de entrançar. Além disso, no Timeu encontra-se a teoria das formas inteligíveis, que explicaria a natureza do mundo sensível. Pelas ideias poder-se-ia explicar a natureza do universo ou da totalidade das coisas sensíveis. Estas estão sujeitas a geração e foram criadas de acordo com um modelo (paradigma eterno). Assim, causas imutáveis seriam aplicadas ao que é  instável por natureza e as coisas sensíveis teriam nas formas inteligíveis a própria possibilidade de existência. Além disso, a imposição do segredo era tão escrita para os cabalistas, como o era para os iniciados de Adyta e os Yogues hindus. "Fecha tua boca, para que não fales disso (os mistérios), e teu coração, para que não penses em voz alta; e se teu coração escapar, trá-lo de volta, pois tal é o objetivo de nossa aliança. Esse é o segredo que dá morte; fecha tua boca para não revelá-lo ao vulgo; comprime teu cérebro para que nada escape dele e caia noutra parte". Agrushada Parikshai.  Na verdade, o destino de muitas gerações futuras esteve suspenso por um frágil fio, nos dias do terceiro e quarto século. Não tivesse o Imperador enviado, em 389, a Alexandria (Egito), um edito, a que obrigaram os cristãos, para a destruição de todos os ídolos, nosso próprio século jamais teria tido um panteão mitológico de sua própria lavra. A Escola Neo Platônica jamais atingiria tal profundidade filosófica como quando próxima de seu fim. Unindo a Teosofia mística do velho Egito com a filosofia refinada dos gregos; mais próximos dos antigos mistérios de Tebas e Mênfis como nunca o haviam sido; versados na ciência da predição e da adivinhação, assim como na arte dos terapeutas; amigos dos homens mais agudos da nação judia, que estavam profundamente imbuídos das ideias zoroastrianas, os Neo Platônicos visavam amalgamar a antiga sabedoria da Cabala Oriental com as concepções mais refinadas dos Teósofos Ocidentais. Não obstante a tradição dos cristãos, que, por razões políticas, houveram por bem repudiar, após os dias de Constantino II (316-340), os seus tutores, a influência da nova filosofia platônica é visível na adoção subsequente dos dogmas, cuja origem pode ser remontada com muita facilidade a essa notável Escola. Embora mutilados e desfigurados, eles ainda preservam uma forte semelhança familiar, que nada pode obliterar. Mas, se o conhecimento dos poderes ocultos da Natureza abre a percepção espiritual do homem, alarga-lhe as faculdades intelectuais, e o leva infalivelmente a uma veneração mais profunda do Criador, por outro lado a ignorância, a estreiteza dogmática e um medo infantil de contemplar o fundo das coisas levam invariavelmente ao fetichismo e à superstição. Quando Cirilo (378-444), o Bispo de Alexandria abraçou abertamente a causa de Ísis, a deusa egípcia, e a antropomorfizou em Maria, a mãe de Deus, e a controvérsia Trinitária instalou-se, desde esse momento, a doutrina egípcia da emanação do Deus criador oriundo de Emepht começou a ser torturada de mil maneiras, até que o Concílio concordou com a sua adoção na forma atual, que vem a ser o Ternário desfigurado dos cabalistas Salomão e Filon! Mas como sua origem era ainda por demais evidente, deram o nome de Cristo ao leste, ao Adão Cadmo, ao Verbo, ao Logos, identificando-o em essência e existência com o Pai ou Ancião dos Dias. A Sabedora Oculta, segundo o dogma cristão, tornou-se idêntica e coeterna com a sua emanação, o Pensamento Divino". Abraço. Davi.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

ENSINAMENTOS JUDAICOS PARA SUPERAR OS DESAFIOS DA VIDA.

 

Judaísmo. www.morasha.com.br. Por Rabino Gabriel Aboutboul. ENSINAMENTOS JUDAICOS PARA SUPERAR OS DESAFIOS DA VIDA. O judaísmo acredita que o homem pode mudar a situação em que se encontre, bem como a tristeza e a depressão através de seus pensamentos, palavras e ações e, principalmente, tendo absoluta fé em que D'us é mais poderoso do que qualquer situação que se esteja vivendo. Para entendermos os caminhos que o judaísmo nos indica para conseguir modificar nossa vida, precisamos, antes de mais nada, analisar aqueles momentos em que nosso estado de espírito nos leva a ficar abatidos, sem força, incapazes de enfrentar dificuldades. Isso pode gerar tristeza, cujos principais sintomas são o desânimo, a falta de vontade de desempenhar tarefas rotineiras e até de conviver socialmente. A tristeza nos leva à passividade e a anestesiar nossas emoções. Nossos Sábios ensinam que a tristeza é a porta para todos os males, pois torna a pessoa vulnerável a todas as coisas negativas. Na realidade, a tristeza constitui um mecanismo de defesa diante das dificuldades, da dor e do sofrimento. Contudo, sofrer e sentir dor é um estado de espírito mais positivo que a tristeza, pois o próprio fato de sentirmos dor significa que ainda estamos sensíveis. A tristeza, por outro lado, nos anestesia, nos paralisa e nos torna apáticos e indiferentes, sem ânimo para mudar. A Chassidut – ensinamentos místicos revelados pelos Mestres Chassídicos – que nos ensina a substituir medo e temor por amor e júbilo, também ensina que, quando estamos tristes, o melhor a fazer é nos deitarmos e tentar dormir, porque nada de positivo pode resultar desse estado de espírito. A Chassidut aborda o tema da amargura – merirut, em hebraico. Diferentemente da tristeza, a amargura nos abala, mas não nos anestesia. Ao contrário da tristeza, a amargura nos dá um impulso para agir e conseguir tirar de dentro de nós o que nos aflige. Quando nosso estado de espírito nem sequer nos permite sentir amargura, isso significa que já estamos sem energia e vitalidade, sem a força necessária para conseguir sair da situação em que nos encontramos. Uma pessoa triste acaba se acomodando – acostumando-se à situação, mesmo que seja desconfortável ou nociva. O motivo disso é que ela não encontra a força necessária para quebrar o círculo vicioso que envolveu sua vida. Palavras de encorajamento muitas vezes não têm resultados positivos, pois quem está afundado na tristeza acredita que, apesar de outras pessoas terem conseguido superar a tristeza, seu caso é diferente, insuperável. Lutando contra a tristeza. Tristeza e depressão podem ser resultado de uma frustração de uma expectativa não realizada. Isso ocorre quando a realidade não corresponde ao esperado e, consequentemente, passa-se de um estado de euforia para um de profunda depressão. A euforia ocorre quando o ser humano tem grandes expectativas e acredita que conseguirá alcançá-las. Porém, se essas expectativas não se concretizam, ele entra em depressão. Tristeza e depressão não dependem apenas de fatores externos. Em muitos casos esses sentimentos advêm de problemas internos – de um descompasso que existe dentro de nós, de uma avaliação errônea de nós mesmos. Para encontrar o caminho que nos afasta da tristeza e da depressão e viver uma vida plena e feliz, precisamos, antes de mais nada, descobrir quem somos. Em muitos casos, há um distanciamento entre o que acreditamos ser, ou o que deveríamos ser, e o nosso verdadeiro eu. Descobrir quem somos, de verdade – descobrir a nossa essência - constitui o grande desafio. O autodescobrimento é um caminho longo e, quanto mais nos distanciamos daquilo que realmente somos, mais longo é o caminho para alcançar a verdadeira felicidade. O ser humano atinge a verdadeira felicidade quando ele é ele mesmo. Frustrações e sentimentos negativos são o fruto de querer ser quem não somos, quem não podemos ser ou quem não devemos ser. Esse conceito é ilustrado por meio de uma história do quinto Rebe de Lubavitch, Rabi Shalom Dov Ber Schneerson (1902-1994) – grande místico que estruturou os ensinamentos da Cabalá. Um dia, Rabi Shalom Dov (1948 - ), ainda criança, estava brincando com o irmão. Apesar de ser o mais jovem, ele era mais alto. Enquanto estavam brincando no quintal, seu irmão mais velho o jogou dentro de um poço. O pai ouviu o barulho e foi ver o que estava acontecendo. Ao perceber que o irmão mais velho havia jogado o mais novo no poço, ele perguntou: “Por que você fez isso com seu irmão?”. O filho mais velho respondeu, “Eu fiz o que eu deveria fazer. Sou o irmão mais velho então eu deveria ser o mais alto. Joguei meu irmão no poço para eu estar mais alto do que ele”. O pai respondeu: “Meu filho, vou lhe ensinar uma lição muito importante. Se você quer ser mais alto do que os outros, suba na cadeira ou na mesa em vez de jogar outras pessoas no buraco”. A lição dessa história é que o ser humano que deseja ser mais “alto” do que os outros – isto é, superá-los – deve agir para alcançar isso sem diminuir os demais. Há pessoas que tentam se sobressair diminuindo os outros. Isso não as levará a nada. Em vez disso, o ser humano deve procurar ele mesmo evoluir e crescer em vez de depreciar os demais. Dessa forma, seu crescimento será real e consistente. Em muitos casos, quando se avalia o valor de uma pessoa, o único critério é o de suas posses. Mas será que uma pessoa pode ser medida pelo que possui? Será que não somos nada além do que possuímos? É importante ressaltar que o Judaísmo, diferentemente de algumas religiões, não ensina que o ser humano deva abrir mão ou deixar de usufruir de bens materiais. O sustento e os elementos materiais da vida são importantes e significativos. Contudo, o que o Judaísmo ensina é que o físico e o material não constituem o mais importante. O dinheiro e as posses não devem ser o objetivo máximo da vida, mas um dos meios para se viver de forma significativa. Bens materiais são necessários; entre outros, são uma das formas de se poder ajudar muitas pessoas. Mas o valor do ser humano não pode ser medido por quanto ele possui. Quanto mais tempo passamos buscando o “ter” e não o “ser”, mais distantes ficamos do nosso objetivo: ser aquilo que realmente somos e cumprir a missão que nos é incumbida ao vir para este mundo material. Saber e conhecer o nosso valor é a verdadeira fonte de satisfação e felicidade. Se nossa felicidade depende do “ter”, em vez do “ser”, o “ter” nunca nos bastará. Por outro lado, quando o “ser” constitui a fonte da felicidade interna do ser humano, ele terá a força e a capacidade para enfrentar as adversidades da vida. Pensando Positivo. Nossos Sábios ensinam que o perigo que leva à depressão e à tristeza habita dentro de nós, e não fora de nós. Às vezes, podemos sentir-nos “sem chão” – sem uma estrutura sólida. Isso gera sentimentos negativos. Contudo, na maioria dos casos, o problema não reside onde vivemos e nem advém das ações de outras pessoas, mas se encontra em nós mesmos. O problema está na insatisfação que sentimos, na perda de significado de nossa vida. Como podemos transformar isso? Transformamos isso quando sabemos quem somos e por meio do otimismo. O verdadeiro segredo do poder da mente – o que chamamos de força do pensamento positivo – é o otimismo. Há pessoas que acreditam que o otimismo não é nada mais do que uma maneira de se “auto enganar”. Pois, acreditar que tudo vai dar certo, gera alívio e faz com que o ser humano fique mais feliz. Mas a importância do otimismo vai muito além disso. Os textos sagrados judaicos e nossos Sábios ensinam que existe um poder nos pensamentos, que estes possuem forças que devem ser utilizadas de maneira positiva. Pensamentos positivos por si só têm o poder de influenciar a vida do ser humano. Pensar positivo significa acreditar não só que é possível mudar a si próprio e sua situação, mas que podemos confiar no Criador, que é mais poderoso do que qualquer situação que se esteja vivendo. Pensar positivamente significa ter não somente fé, mas confiança absoluta que qualquer situação pode ser mudada. Pensamentos negativos. Assim como o pensamento positivo tem força, o pensamento negativo também o tem. É importante ressaltar que o Judaísmo ensina que há três domínios: o do pensamento, o da fala e o da ação. Uma força ainda maior que o pensamento positivo é o poder das palavras, pois tudo que é dito, tudo que é falado, produz efeito. O mundo da fala, da palavra, está muito próximo ao da ação. Isso significa que a fala é bem mais poderosa do que o pensamento: quando se verbaliza um pensamento negativo, este assume uma força maior do que se nunca tivesse sido enunciado pelos lábios. Forças negativas são evocadas por meio de palavras negativas. Portanto, devem ser evitadas, sempre. A própria Torá sempre usa linguagem positiva. Por exemplo, utiliza a expressão “aquilo que não é puro” em vez de “impuro”, “aquilo que não é certo” em vez de utilizar a palavra “errado”. Nossos Sábios também não mediram esforços para sempre se expressar de forma positiva. Por exemplo, quando o Talmud se refere ao cego, usa a expressão Sagui Nahor – alguém que tem muita luz; para falar do cemitério, usa a expressão Beit HaChaim – “a casa da vida”. Em várias oportunidades o Rebe de Lubavitch ensinou que não se deve chamar o hospital de Beit Cholim, a “casa dos doentes”, e sim, de Beit Refuá, a “casa da cura”. É fundamental que o ser humano se habitue a se expressar de forma sagrada, positiva e gentil. Por exemplo, não se deve dizer que as coisas “vão de mal a pior”, mas sim que “poderiam ser melhores”. Torna-se evidente, portanto, que é fundamental não verbalizar pensamentos negativos. Quando surge em nossa mente um pensamento negativo, a primeira coisa a fazer é evitar enunciá-lo, para em seguida, descartá-lo mentalmente procurando controlar a mente. O ser humano está acostumado a pensar negativamente – tanto a respeito de si quanto aos outros. Esse tipo de pensamentos cria círculos viciosos e nocivos e é imprescindível nos libertarmos deles. Pensar positivo, por outro lado, é um hábito adquirido que requer treino. Devemos aprender a ver as pessoas e acontecimentos de forma positiva. E é importante aprender a ver o mundo sob a perspectiva dos outros. O ser humano que consegue se libertar de um viés negativo e adota uma visão positiva em relação aos demais se beneficia imensamente. Isso porque as ideias contidas em nossa mente influenciam o nosso próprio ser. Nossos Sábios ensinam que é fundamental nos relacionarmos de forma positiva com outras pessoas. Eles ensinam, ainda, que ninguém tem o poder de se apropriar do que pertence a outrem. Isso significa que ninguém pode tirar de uma pessoa o que D’us determinou que seja dela. Esse ensinamento talmúdico não significa que o homem não precisa se esforçar para alcançar o que almeja. Significa que o homem pode trabalhar e viver com a tranquilidade de que ninguém o desproverá do que D’us lhe reservou. Afinal, D’us abençoa nossos esforços e atos. Há, porém, uma ressalva importante: por meio de ações negativas, a própria pessoa tem o poder de perder o que D’us destinou a ela. Esses ensinamentos requerem muito empenho para serem postos em prática, principalmente quando se enfrenta uma situação adversa. É necessário se esforçar muito para conseguir ver a vida, principalmente os obstáculos, de forma positiva. Mas esse esforço é necessário: o ser humano precisa enterrar seus medos, falhas e imperfeições. E, para viver uma vida feliz e produtiva, precisamos parar de culpar os outros por nossos problemas. É fácil ver os defeitos dos outros e apontar o que precisam mudar. É difícil ver os nossos próprios defeitos e mudar nossa própria vida. Devemos ser protagonistas e não vítimas de nossa vida. A Alma Divina. Quando buscamos ser positivos – quando buscamos o otimismo e a força – é necessário ver quem realmente somos. Não somos apenas um corpo, com tantos defeitos e falhas. Além do corpo finito e material, possuímos uma alma – uma neshamá elokit - uma alma Divina – que é uma partícula de D’us que habita dentro de nós. Quando o ser humano se foca apenas em sua existência material, ele inevitavelmente encontrará em si inúmeros defeitos e motivos para se aborrecer e se frustrar. Mas quando uma pessoa se vê como uma alma Divina, ela passa a ter consciência de seu verdadeiro potencial. E isso leva a uma enorme mudança de perspectiva. É preciso fazermos três perguntas fundamentais a nós mesmos: Quem sou? Quem posso me tornar? Qual é a verdade? Essas três indagações levam à conclusão de que a vida nos apresenta infinitas possibilidades de crescimento, pois a neshamá elokit é uma alma que está ligada a D’us Infinito. A alma de cada um de nós veio ao mundo para cumprir uma missão específica e singular que nenhuma outra pessoa pode cumprir. Toda alma veio ao mundo para viver uma vida significativa e produtiva, para elevar e contribuir ao mundo e para ajudar os outros. Esse é, fundamentalmente, o propósito da neshamá elokit que existe em cada um de nós. Treinando a nossa mente. O treinamento para se pensar positivo exige autocontrole. Devemos aprender a controlar nossa mente, pensamentos, palavras, emoções e ações. Ao obtermos esse autocontrole, torna-se possível resolver os problemas. Passamos a ser pessoas “bem resolvidas”, e uma pessoa “bem resolvida” não se foca em problemas, e sim, na busca por soluções. Existe um provérbio em iídiche que diz, Trach gut vet zain gut. “Pense bem e será bom”. Em outras palavras: “pense positivamente e o resultado será positivo”. Esse provérbio não se limita à teoria. Foi o conselho que o terceiro Rebe de Lubavitch – o Tzemach Tzedek – deu a um dos seus alunos que passava por um momento muito difícil. O Tzemach Tzedek conseguiu transmitir a ideia de que o pensamento positivo tem o poder de influenciar os eventos de nossa vida – e esse conselho funcionou, na prática, com seu aluno. Consta no Talmud um conceito denominado machshavá moelet (um pensamento que pode causar um efeito). Issosignifica que pensar fortemente em algo ou em alguém possui um poder imenso. Pensar positivo significa acreditar não só que o homem e a situação na qual ele se encontra podem mudar, mas que o Criador, que está acima de tudo, pode mudar as condições em que a pessoa está vivendo. A Torános ensina que o início da derrota é o medo; que se um soldado for à guerra e se tornar temeroso diante das forças bélicas do inimigo, ele deve sempre lembrar que D’us está com ele. Se ele se lembrar disso quando sentir medo, conseguirá superar esse sentimento e vencer a batalha. Contudo, também ensina a Torá: se o soldado é incapaz de superar o medo, é melhor que ele volte para casa. Caso contrário, poderá transmitir o medo aos seus companheiros de batalha e, assim, prejudicar os esforços de guerra. É importante ressaltar que o medo começa na mente, naquilo que não conseguimos controlar e acreditamos ser intransponível. Por outro lado, quando controlamos nosso pensamento e adotamos a atitude confiante de que tudo dará certo e que D’us nos ajudará, torna-se possível atrair a ajuda Divina. Nossos livros sagrados ensinam que quando D‘us vê que uma pessoa depositou sua confiança Nele, Ele diz: “Tal pessoa depositou todas as esperanças em Mim. Confiou tanto em Mim. Não posso desapontá-lo”. A confiança autêntica e verdadeira em D’us, acompanhada de esforço e trabalho, é algo tão poderoso e intenso que acaba atraindo a proteção Divina. Contudo, o inverso também é verdadeiro. Quando um ser humano pensa intensamente em coisas negativas, acaba por atraí-las sobre si. Sabemos que nossa mente nunca para. Podemos controlar nossa fala e nossas ações com maior facilidade do que controlamos um pensamento, pois é impossível parar de pensar. A Cabalá chama o pensamento de “vestimenta interna” da alma. É fundamental aprender a controlar a mente. O ser humano que não consegue controlar seus pensamentos vive de forma atordoada. Se alimentamos nossa mente com pensamentos de frustração, tristeza e pessimismo, atrairemos o negativo. É necessário, portanto, treinar a nossa mente a gerar pensamentos positivos. Tudo Passa. Está escrito que o professor do Rebe Anterior de Lubavitch, costumava lhe transmitir o seguinte ensinamento: toda noite, quando a criança ia dormir, o professor lhe dizia em iídiche: “Amanhã de manhã você tem que acordar completamente diferente do que você foi hoje, e o dia de amanhã tem de ser diferente do que foi o de hoje.” E isso o professor dizia todas as noites para essa criança que veio a tornar um grande Rebe: “Mesmo que eu já lhe tenha dito isso ontem, amanhã tem de ser diferente do que foi hoje. Tem de ser muito melhor do que foi hoje”. Ensinam também nossos Sábios: “Se hoje eu fizer o que fiz ontem e, amanhã, o que fiz hoje, eu não preciso nem de hoje nem de amanhã, pois já tive ontem. Se me foi dado hoje, o amanhã será para fazer algo que ainda não fiz. Se eu simplesmente repetir o que já fiz, então por que estou aqui?”. Evidentemente, todos os dias fazemos as mesmas coisas que nos dias anteriores. Contudo, todo dia precisa ser melhor que o anterior – mais perfeito, mais completo e mais significativo. E a forma de fazer com que todo dia seja melhor que o anterior é por meio de pensamentos, palavras e ações positivas. O otimismo nos ajuda a enfrentar os momentos difíceis da vida. Todo ser humano tem altos e baixos, mas é possível superar os momentos baixos por meio do otimismo e pela consciência de que são temporários. Um exemplo desse ensinamento se encontra na famosa história do anel que o Rei recebeu de presente. No anel estava gravada a palavra gazi, formada por três letras hebraicas: GimelZayin e Yud. Essas letras são as iniciais da frase Gam Ze Iaavor: “Isso também passará”. Toda vez que o Rei olhava para o anel, ele se lembrava de que tudo na vida é passageiro e temporário. Portanto, quando uma pessoa se encontra nas alturas, deve lembrar que “isso também passará”. Mas, o mesmo vale para os momentos difíceis da vida: também são temporários, pois tudo na vida é passageiro. Esse ensinamento tem o poder de nos fortalecer em todos os momentos da vida, pois nos ensina que todas as situações são momentâneas e passageiras. Para sermos felizes, para nossas vidas serem significativas, precisamos direcioná-las ao que é eterno e verdadeiro. Precisamos nos conscientizar de que nem sempre sabemos o que está reservado a cada um de nós. Não entendemos por que determinadas coisas acontecem conosco. Contudo, cabe a cada um de nós determinar como reagir a todas as situações. Mesmo nos momentos mais difíceis, podemos manter nossa mente alinhada com a essência da nossa alma Divina e isso nos proverá a força e o otimismo para superar todas as dificuldades e dores. Rabino Gabriel Aboutboul é rabino da Sinagoga de Ipanema no Rio de Janeiro – Brasil e palestrante. www.morasha.com.br. Abraço. Davi.