sexta-feira, 3 de julho de 2020

CONHECENDO O MELHOR MODO DE VIVER SOZINHO


Budismo Tibetano. www.nossacasa.net/shunya. Fala do Mestre Thich Nhat Hanh (1926-  ). Traduzido no português por Claudio Miklo. CONHECENDO O MELHOR MODO DE VIVER SOZINHO. Querida Sangha, (comunidade budista) hoje é o quinto dia de abril, 1998. Nós estamos em Upper Hamlet, Thenac – França, no Retiro da Primavera. Agora nós iremos à liturgia para a manhã de quinta-feira. Ela inclui o Sutra do Conhecimento do Melhor Modo de Viver Sozinho, e o Sutra nos Quarenta Versos ou Ratnagunasamcaya. O Sutra do Conhecimento do Melhor Modo de Viver Sozinho é chamado o Bhaddekaratta Sutta em Pali. Pertence ao Majjhima Nikaya, 131. Saber como viver sozinho não pretende aqui significar viver em solidão, separado de outras pessoas, numa caverna na montanha. "Viver só" significa aqui viver para atingir o domínio de você mesmo, ter liberdade, e não ser arrastado pelo passado, não ter medo do futuro, não ser tragado pelas circunstâncias do presente. Nós sempre somos mestres de nós mesmos, podemos lidar com a situação como ela é, somos donos da situação e de nós mesmos. Há muitos pontos no Sutra onde o Buddha diz que "estar só" não significa ficar separado de outras pessoas. Nós podemos estar sentados em uma caverna, mas não estaremos necessariamente sozinhos, porque nos perderemos em nossos pensamentos, e assim não estaremos sós. No Majjhima Nikaya há pelo menos quatro sutras que falam sobre a questão de saber viver só, e no Madhyama Agama há também sutras que falam sobre a questão de viver só. Portanto, sabemos que a questão de viver sozinho é um assunto muito importante nos ensinamentos do Buddha. Nós temos de saber como fazer isto, como viver em liberdade, não sermos aprisionados pelo futuro e não sermos arrebatados pelas coisas no presente. O Sutra do Conhecimento do Melhor Modo de Viver Sozinho nos ensina como viver cada momento de nossa vida diária muito profundamente. Quando nós podemos viver nossa vida diária profundamente, começamos a adquirir concentração e sabedoria; nós podemos ver a verdadeira natureza da vida, chegamos a uma grande liberdade, e liberdade é a essência da felicidade. Se nós estamos sofrendo, é porque não somos livres, e então praticar é recuperar nossa liberdade. Quando nós temos liberdade, ficamos sólidos. Liberdade e solidez são as duas características do Nirvana, assim precisamos de um programa de liberdade e solidez. Se alguém está sofrendo, sabemos que esta pessoa não está livre; e porque não são livres, as pessoas estão sofrendo, elas estão aprisionadas pelo passado, ou elas estão sendo oprimidas pelo presente, ou elas estão sendo arrebatadas pelo futuro, e é por isso que elas estão sofrendo. A prática é restabelecer nossa liberdade, e então nós não sofreremos, e nossa felicidade aumentará. Os mais velhos comentários sobre o modo melhor de se viver só, ou de como viver profundamente no momento presente, são achados neste Sutra. Por exemplo, alguém ouve o médico dizer, "Você tem câncer, você viverá durante mais seis meses”. Aquela pessoa se sentirá completamente arrasada. O medo, a ideia de que vamos nos extinguir em seis meses afasta toda nossa paz e alegria. Antes que o médico nos falasse que estávamos com câncer, tínhamos a capacidade de nos divertir com nossos amigos. Porém, uma vez que o médico nos diz aquilo, perdemos toda nossa capacidade para se sentar e desfrutar de nosso chá, ou desfrutar nossa comida, ou contemplar a lua, porque estamos com tanto medo do momento em que morreremos. Isso nos tira toda nossa liberdade. Se você sabe que a morte é algo que acontece a todo o mundo, não sofrerá tanto. O médico diz que nos resta seis meses para viver, mas o médico também morrerá. Talvez o médico saiba que nós temos seis meses, mas o médico não sabe quantos meses ele mesmo tem para viver. Talvez o médico morra antes de nós. Talvez dirigindo para casa depois das consultas ele venha a sofrer um acidente, portanto o conhecimento do médico não é tão grande. Ele fala que só nos resta seis meses. Nós podemos talvez ser afortunados por viver mais seis meses, pois o médico poderia morrer antes de nós. Assim se olharmos profundamente nós veremos coisas que, se não olhássemos profundamente, não veríamos. Olhando profundamente nós podemos resgatar nossa liberdade do medo, e com esta liberdade, com nosso não-medo, podemos viver felizes esses seis meses. Todos nós somos iguais no que diz respeito à vida e morte: estamos todos morrendo. Assim ela é igual,  acontecerá a todo o mundo. Todo o mundo tem de morrer, mas antes de nós morrermos, vamos viver corretamente. Eu estou empenhado em viver corretamente até morrer. Esta é uma coisa muito consciente de se dizer. Se nós vamos morrer, então temos que viver o melhor possível, e se nós podemos viver seis meses do melhor modo, então a qualidade destes seis meses será tal como se estivéssemos vivendo durante seis anos, ou sessenta anos. Se nossa vida está envolvida nas correntes do sofrimento, então nossa vida não tem o mesmo sentido de como se vivêssemos em liberdade. Assim, sabendo que nós temos de morrer, eu estou empenhado em viver minha vida corretamente, profundamente. Todos nós temos que morrer, mas se nós não podemos viver em paz, alegria, e liberdade antes que nós morramos, então nós vivemos como se já estivéssemos mortos, até mesmo antes disto acontecer. Em primeiro lugar, o Buddha nos ensina que temos de lutar para resgatar nossa liberdade, para poder viver os momentos de nossa vida diária profundamente. Nestes momentos de nossa vida diária nós podemos ter paz, podemos ter alegria, e podemos curar o sofrimento que temos em nossos corpos e em nossas mentes. Vivendo profundamente em cada momento de nossa vida nos ajuda a estar em contato com as maravilhosas coisas da vida, nos ajuda a nutrir nosso corpo e nossa mente com estes elementos maravilhosos, e ao mesmo tempo nos ajuda a envolver e transformar o sofrimento que sentimos. Assim viver profundamente no momento presente de nossa vida diária é viver uma vida de maravilhas, nutrição, e cura. Vivendo assim podemos resgatar nossa liberdade, e viver profundamente: nós fazemos surgir a verdade, despertamos o entendimento, e nossos medos, nossas ansiedades, nossos sofrimentos e nossas tristezas evaporarão, e nos tornaremos uma fonte de alegria e de vida para nós mesmos e para aqueles ao nosso redor. De acordo com Budismo, este é o método de vivenciar com felicidade o momento presente. Observando cuidadosamente, nós veremos que estes comentários do Conhecimento do Melhor Modo de Viver Sozinho são os mais antigos textos humanos sobre como viver o momento presente, assim este é um Sutra muito importante. Nós deveríamos estudá-lo cuidadosamente, e então aplicá-lo em nossas vidas e na nossa prática. Sabemos que todos os ensinamentos relacionados com o ensino sobre viver no momento presente deveriam ser estudados da mesma maneira. Havia um monge cujo nome era Thera. Seus amigos provavelmente lhe deram o nome Thera, que quer dizer "o ancião." Aquele monge gostava de viver sozinho. Ele sempre saia para o pedido de esmolas sozinho. Ele gostava de fazer a meditação andante sozinho. Ele gostava de comer sozinho, ele gostava de lavar suas roupas sozinho. Ele realmente gostava de fazer tudo sozinho. Ele parecia gostar de evitar seus companheiros de prática tanto quanto possível. Todos os monges tinham ouvido o Buddha louvar o modo melhor de se viver sozinho, mas o modo como o Buddha usava o significado de "viver só," queria dizer não ser aprisionado pelo passado, não ser pressionado pelo futuro, e não ser arrebatado pelo que estava acontecendo no presente. O Buddha não quis dizer que viver só significa se distanciar e se separar de seus companheiros de prática. Não obstante, este monge gostava de fazer as coisas sozinho, comendo sozinho, indo para a cidade sozinho, e evitando outras pessoas. Os outros monges sabiam que ele gostava de fazer as coisas sozinho, mas eles sentiam que havia algo não muito certo sobre tal modo de vida. Sentiam que ele realmente não estava praticando de acordo com o espírito dos ensinamentos de Buddha. Assim os outros monges foram ao Buddha e disseram, "Senhor Buddha, um de nossos companheiros praticantes chamado Thera, o ancião, gosta de fazer tudo sozinho: caminhada meditativa, refeição meditativa, trabalhando sempre sozinho, e nós não sabemos se viver assim realmente seja viver verdadeiramente só." E Buddha disse, "Onde este monge está? Peçam-lhe para vir aqui e tomar uma xícara de chá conosco." Assim os monges foram e convidaram Thera a unir-se a eles, e o Buddha disse, "Eu ouvi que gostas de viver só. Como tu vives por conta própria? Por favor dizei-me." E Thera disse, "Senhor Buddha, eu me sento em meditação só, eu como sozinho, eu lavo minhas roupas sozinho, eu vou à aldeia para pedir esmolas sozinho ". E o Buddha disse, "Oh, sendo esta a verdade, então tu realmente vives só. Mas talvez o modo em que vivas só não seja o melhor modo para viver sozinho, há um modo melhor para se viver só." E então o Buddha recitou um gatha: "Se tu vives sem ser aprisionado pelo passado, não sendo pressionado pelo futuro, não sendo arrebatado pelas formas e imagens do momento presente, vivendo cada momento de sua vida profundamente, este será o verdadeiro modo de viver sozinho." Quando Thera ouviu isto, soube que tinha estado vivendo só apenas de forma externa, e que havia um modo mais profundo para se viver só. O Sutra onde esta história é contada é chamado o Theranama Sutra, está no Samyutta Nikaya, e também há um Sutra equivalente no Samyukta Agama, é o de Número 71 no Samyukta Agama. A essência do Sutra é um poema. O Buddha escrevia poemas, mas os poemas do Buddha eram idealizados mais para nos mostrar como praticar. O gatha que fala sobre a arte de viver sozinho é chamado o gatha de Bhaddekaratta. Bhaddekaratta quer dizer "o melhor modo para viver só." Muitas pessoas traduziram mal este título: Um mestre traduziu isto como "praticando durante uma noite." Também há outro mestre que traduziu este título como "estando presente." A tradução correta é "O melhor modo de praticar a vida solitária." Este poema diz:
Não persiga o passado.
Não se perca no futuro.
O passado já não existe.
O futuro ainda não veio.
Olhando a vida profundamente como ela é
exatamente no aqui e agora,
o praticante vive
em estabilidade e liberdade.
Toda a essência dos ensinos de Buddha está contida nestas palavras. Nós sabemos que estabilidade e liberdade são as duas características do nirvana, e esta é a meta de nossa prática. A meta de nossa prática é todo aquele momento de nossa vida diária em que podemos produzir estabilidade e liberdade: caminhando, se deitando, se sentando, ficando em pé, nós produzimos liberdade e estabilidade. Nirvana é algo que nós podemos tocar neste exato momento presente, não apenas com nossas mentes, mas também com nosso corpo. Quando nossos pés estão caminhando de um modo vagaroso, sólido e livre, então nossos pés estão tocando o nirvana. Tão logo nós atinjamos estabilidade e liberdade, o nirvana estará lá. O nível de liberdade e estabilidade nos indica se fomos capazes de tocar o nirvana profundamente. Não persiga o passado. Existem pessoas que estão cansadas do presente e pensam que o passado era mais bonito, e que a vida era antes mais bonita. Eles sempre pensam que o passado era mais bonito. Assim, eles não podem ver a felicidade no presente. Muitos de nós somos envolvidos neste modo de pensamento. O passado já não existe mais, e nós o comparamos com o presente, e dizemos que o passado era mais bonito que o presente; mas mesmo quando tivemos aqueles momentos no passado nós realmente não os estimávamos então, porque no passado nós não éramos capazes de viver no momento presente. Nós sempre estávamos correndo em busca do futuro, e se fôssemos levados agora de volta ao passado, faríamos o mesmo. Naquele tempo a vida era mais bonita, o sol era mais luminoso, a lua era mais luminosa -- essas são palavras de uma canção francesa. Existem pessoas que buscam o passado, não porque elas pensam que o passado fosse bonito, mas porque o passado lhes fez sofrer, o passado foi um trauma, uma profunda ferida para elas. Nós sofremos, nós fomos feridos, nós morremos no passado, e essas profundas feridas estão nos chamando de volta o passado, gritando "Volte aqui, volte ao passado. Eu sou o objetivo, você não pode me escapar!" Isso é o que o passado nos diz. Nós somos iguais a ovelhas que correm atrás do passado, para nos enclausurar, nos encarcerar, nos fazer sofrer. O passado é também uma prisão muito grande. Nós ouvimos as palavras do passado, e corremos atrás do passado, recusamos viver nossa vida no momento presente, sempre estamos regressando para o passado. Assim o Buddha diz, "não persiga o passado. "Estas são as palavras de nosso mestre: "Não persiga o passado." Nós deveríamos escrever um poema, como nós podemos escrever um poema de modo a podermos realizar isto? Às vezes nós estamos sentados com um amigo. Nosso amigo está sentado lá, mas nós nos sentimos abandonados por ele, porque nosso amigo está se afogando no passado. Nosso amigo está sentados junto a nós, mas nosso amigo não estão conosco, nosso amigo está aprisionado pelo passado. Nosso amigo está lá, mas nosso amigo realmente não está lá. Sabemos que nós estamos sentados lá, e sentimos que nosso amigo não está sentado lá conosco. Assim nós achamos um modo para tirar nosso amigo do passado, e dizemos a ele: "Um centavo por seus pensamentos. Em quê você está pensando? Me fale. Eu lhe darei dez centavos se você me disser." Aquela pessoa pode despertar, sobressaltar-se, sorrir e se livrar da prisão do passado. Se somos monges ou monjas, deveríamos saber fazer isto. Nós deveríamos ser capazes de saber o modo de libertar nosso amigo de prática que está aprisionado e se afogando no passado. Nós temos que usar nosso amor, nossa consciência, e nossa amizade, para ajudar a tirar aquela pessoa da prisão do passado. Se nós somos monges ou monjas, deveríamos saber como usar nossos irmãos e irmãs de prática para nos ajudar a sair de nossa prisão do passado. Portanto, viver em um Sangha tem estes tipos de benefícios! O Sanghakaya nos ajuda a cada passo. O Sanghakaya nos tira de nossa prisão do passado. O Sanghakaya nos segura pelas mãos e nos conduz passo a passo ao presente, para que possamos desenvolver a capacidade de viver pacificamente no presente. O momento quando raspamos nossa cabeça, o momento quando nosso mestre derrama a água da compaixão em nossa cabeça, este momento é o momento em que nós estamos renascidos, nascidos uma segunda vez. Todo o Sangha está presente ao redor de nós, com as mãos unidas, enquanto as gotas de água compassiva nos penetram. Com a água que é derramada no topo de nossas cabeças, nos tornamos uma pessoa nova naquele momento. Aquele momento é o momento quando nós morremos. Nós permitimos ao passado morrer, e permitimos ao presente nascer. Nosso mestre e o Sangha estão nos trazendo à vida, nos dando uma alma nova, um corpo novo, um corpo de preceitos, um corpo de Dharma, e este corpo de preceitos, este corpo de Dharma está protegido pelo Buddha, Dharma, Sangha e seus preceitos. Não há nenhuma razão para temermos, e não há nenhuma razão para sentirmo-nos isolados ou sós. Não há nenhuma razão para nós nos preocuparmos sobre qualquer coisa. Não há nenhuma necessidade de nos preocuparmos sobre todas as coisas que aconteceram no passado, toda a amargura do passado. Nós podemos nos ajoelhar, podemos fechar nossos olhos, unir nossas mãos, e visualizar este momento com a água da compaixão caindo em nossas cabeças, e podemos nos ver nascendo novamente. Nosso mestre e o Sangha estão transmitindo-nos o nosso corpo de preceitos, e nós temos o dever de permitir que nosso mestre e o Sangha nos conduzam passo a passo neste novo caminho. Nós percebemos que estamos protegidos, estamos seguros, com a segurança do Buddha, o Dharma e o Sangha e seus preceitos; e nunca antes em nossa vida nós nos sentimos como neste momento. Se permitimos que o Sangha nos desperte, se permitimos que nosso mestre nos desperte, veremos que estamos em um estado de segurança que nunca estivemos antes. Se vivermos assim diariamente, nossos sentimentos de ansiedade, de medo, desaparecerão. Nós poderemos viver felizes no momento presente, e cada passo nos levará para a felicidade do momento presente, para a liberdade. Isso é nossa prática diária. "Não procure o passado" é o que isto significa. Às vezes não queremos voltar ao passado, mas o passado coloca suas garras em nós e nos puxa para trás, portanto temos que organizar as coisas cuidadosamente, e temos que basear nossa organização no apoio do Buddha, Dharma e Sangha. Nós temos que olhar diretamente no passado e sorrir para ele, dizendo, "Você já não pode mais me oprimir. Eu estou livre de você." Só a energia de consciência, as Três Jóias de Buddha, Dharma, e Sangha, têm bastante poder e força para nos ajudar a ficarmos livres do passado. Nós percebemos que o passado é apenas um fantasma. Sabemos que o passado é um fantasma, mas permitimos que o fantasma nos aprisione. Então um praticante deve saber como ter domínio do presente com a ajuda do Buddha, o Dharma, o Sangha e os preceitos para que possa voltar ao presente, e não permitir que os fantasmas do passado nos puxe de volta. "Não persiga o passado", pode ouvir o Buddha dizer isto para você? Não imagine coisas e se perca no futuro. O que é o futuro? O futuro é o fantasma número dois? Por que temos tanto medo do futuro? O que é o medo? Seria o medo os nossos planos sobre as coisas que acontecerão amanhã? Ou seria nosso medo as projeções que nós temos do futuro, o amanhã? Talvez isto acontecerá, ou aquilo vai acontecer… nós projetamos as coisas assim. E isso é o que nos faz ter medo. O medo não ocorre naturalmente, o medo surge de nossos pensamentos. Nosso pensamento de que isto acontecerá amanhã, aquilo acontecerá amanhã. Perceba que o futuro é algo que não está ainda lá. Porque o futuro nunca está lá -- uma vez que "lá" é o presente. Mas o futuro é um fantasma. Um fantasma gigantesco, que nos suga, e nosso medo surge de nossas projeções de que amanhã isto acontecerá, ou amanhã eu serei assim. "O que será de mim amanhã?" Nosso medo está baseado nisso. E os fantasmas do passado e os fantasmas do futuro são dois fantasmas com a grande responsabilidade de tirar nossa liberdade. Nós somos os escravos destes dois fantasmas. O que é Mara? Quem é Mara? Mara é o passado, Mara é o futuro, esses dois Maras nos seguem e condicionam nossas vidas, nos comandam. Nós não deveríamos permitir que isto aconteça, não deveríamos sucumbir à influência destes dois fantasmas. Nós temos que ter uma maneira de lidar com estes dois fantasmas, e o método é o modo melhor de se viver só, o modo de viver cada momento no momento presente, não perseguir o passado e não ansiar o futuro. "O passado não mais existe. O futuro ainda não chegou." Isso é simples lógica. Todos nós sabemos que o passado é apenas um fantasma, por que deveríamos ficar tão apegados a ele? E o futuro é apenas um fantasma, por que temos de ter tanto medo dele? Existe uma coisa, e é o presente, mas nós não sabemos viver o momento presente, e nós permitimos que o passado e o futuro nos afogue, nos subjugue. "O passado não mais existe. O futuro ainda não chegou." Existem outras palavras no Sutra que sejam mais precisas, mais concisas? Na verdade nenhuma. Vocês deveriam viver seus momentos diários profundamente, à medida em que acontecem: vivam e saibam que estão vivendo. Como uma flor, vocês sabem que ela está viva, podem observá-la profundamente, podem viver profundamente com ela, e podem ver os níveis profundos da flor. Vocês vivem com um sorriso, vocês vivem com os raios de sol. Todas estas coisas se tornam os objetos de seu olhar aprofundado. Elas são seus amigos na prática. O praticante reside na estabilidade e liberdade, e "residir" significa viver pacificamente. O praticante significa alguém que possui sabedoria, não significa alguém que adquiriu um título, ou que tenha estado em uma universidade. Aqui significa alguém que possui sabedoria, quer dizer, alguém que não é carregado pelos fantasmas do passado, que não é agarrado pelos fantasmas do futuro, alguém que é capaz de viver de um modo pacífico e jovial, sempre no momento presente. Esta pessoa pode se sentar quieta, caminhar em paz, e esta pessoa tem a essência da paz e liberdade dentro de si, e é uma pessoa sábia. Outro modo de traduzir esta frase seria: "a pessoa sábia reside na paz com solidez e liberdade." Todos os ensinamentos do Buddha que tem sido oferecidos, o Dharma, e o Sangha, estão lá para nos ajudar a viver no momento presente. Quando um monge dá um passo, o monge deve praticar vivenciando-o pacificamente. Cada passo que o monge dá deve ser sólido e livre, e o monge está dando passos como o Buddha. Quando uma monja se senta, ela deveria sentar-se solidamente, como uma montanha, sentando-se em consciência . Nós sempre estamos sendo carregados pelo passado e pelo futuro, mas no Sangha, todo o mundo está treinando para praticar o viver no momento presente, assim quando nós vivemos em um Sangha temos a oportunidade para fazer isto, nos sentar solidamente. Quando nós comemos, realmente comemos. Nós temos quarenta e cinco minutos ou uma hora para comer, e estes são quarenta e cinco minutos ou uma hora de felicidade, porque nós realmente estamos lá. Nós estamos lavando nossas roupas, e isso é nossa prática. Varrer o chão é nossa prática, limpar o banheiro é nossa prática. A principal questão sobre a prática é que nós realmente estamos ali fazendo estas coisas, e temos o Sangha a nos apoiar nisso. "Nós devemos ser diligentes hoje, esperar até amanhã será muito tarde." Existe apenas o hoje, vamos fazer o melhor que podemos hoje. Pessoas nos deram todas as condições para praticar a consciência, e todavia nós não a praticamos, dizemos que faremos isto amanhã, que não precisamos fazer hoje. Mas amanhã é muito tarde, devido à impermanência. "A morte vem inesperadamente, como nós poderemos barganhar com ela?" Então você diz para a morte, "Oh, eu não tive tempo para praticar corretamente, me dê alguns dias." Porém, nós não podemos barganhar assim com a morte, não podemos fazer um acordo com ela. Então a morte se torna algo que nos estimula, nos motiva, nos ajuda a viver em solidez e liberdade. Assim quando o médico diz, " Você tem mais seis meses," nós podemos dizer, "Certo, então eu viverei estes seis meses corretamente." E o médico deveria dizer, "eu farei o mesmo," porque o médico também não sabe quanto tempo viverá. Assim o fato de ter que morrer ajuda o praticante a saber que os dias que lhe restam tem de ser vividos corretamente, solidamente, em liberdade, com felicidade. Isso é o melhor modo de preparar o futuro para seus descendentes. Quando o médico diz que você tem seis meses mais para viver, isso é como um sino de consciência para você. Todos nós temos mais seis meses para viver, ou sete meses, ou dez anos, e o Buddha diz, "Seja diligente hoje, esperar até amanhã é muito tarde. A morte vem inesperadamente." A pessoa que sabe como viver em consciência dia e noite o Buddha denomina "aquele que sabe o modo melhor de viver só." Aqui eles chamam o Buddha o grande muni. Assim o modo de viver só é viver residindo na consciência noite e dia. Nós ouvimos falar de histórias de fantasmas e temos medo, mas nós temos uma tendência a gostar de ouvir histórias de fantasmas. As pessoas dizem que de acordo com os cientistas não existem fantasmas, mas claramente existem fantasmas: fantasmas do passado, fantasmas do futuro, esses dois fantasmas que nós encontramos diariamente. Quando éramos crianças, os adultos diziam: "Quando você encontrar um fantasma faça o mudra da paz e diga Om mani padme hum!" e assim aprendemos isso de cor. E uma noite nós tivemos um sonho, e vimos um fantasma, fizemos o mudra de paz e dissemos, "Om mani padme hum!" mas o fantasma não parecia ter ficado com medo. O fantasma apenas ficou lá. Mas aquele tipo de fantasma que nós vimos em um sonho não era um fantasma ruim. Os fantasmas ruins são os fantasmas do passado e do futuro. Os fantasmas do passado e do futuro, embora sejam fantasmas ruins, se nós sabemos lidar com eles nunca cairemos sob sua influência, só temos que sorrir para eles, só precisamos respirar e retornar para nossa consciência, e a energia de consciência nos ajudará a sorrir e dizer "Oh, eu sei que você é um fantasma", e eles não podem fazer nada para nos ferir, porque naquele sorriso está o Buddha, o Dharma e o Sangha. A razão de sermos capturados pelos fantasmas do passado e do futuro é porque não sabemos que eles são fantasmas, e o sorriso que dados para eles é o sorriso do esclarecimento. Ele possui a consciência inserida nele, assim nós deveríamos praticar o ato de sorrir para o fantasma do passado, e dizer, "eu sei que você é o fantasma do passado, e isso é tudo que você é ". E então você está livre. O fantasma do futuro é o mesmo. Quando temos medo do futuro, sabemos que o fantasma do futuro está lá. Nós temos de olhar aquele medo, e temos que dizer, "eu sei que você é apenas um fantasma." Mara aparece muitas vezes em nossa vida diária. Toda vez que Mara aparece, nós temos que dizer, "eu sei que você é Mara." E o Buddha sorri e diz o mesmo quando vê Mara. Nos sutras, Mara sempre está aparecendo e tudo que o praticante precisa fazer é sorrir e dizer, "eu o reconheço, sei que você é Mara." Assim quem conhece a prática, sabe que o sorriso de consciência diante do Mara do passado ou do Mara do futuro é o único modo de lidar com eles, e quando nós sorrimos assim, isto mostra que temos amor por nós mesmos, e não fazemos do passado ou do futuro um inimigo. O passado e o futuro não são nossos inimigos.Agora nós vamos ler desde o princípio o Discurso do Conhecimento do Melhor Modo de Viver Sozinho: Eu ouvi estas palavras do Buddha certa vez quando o Senhor estava no monastério no Bosque de Jeta, na cidade de Sravasti. Ele chamou todos os monges e os instruiu, "Bhikkhus!" E os Bhikkhus responderam, "Nós estamos aqui." O Abençoado ensinou: " Eu vos ensinarei qual o significado do conhecimento do melhor modo de viver sozinho. Começarei com um esboço do ensinamento, e então darei uma explicação detalhada. Bhikkhus, por favor escutai cuidadosamente”. Abençoado, nós estamos escutando." O Buddha ensinou: Vemos claramente que o Buddha possui um poema aqui, e o Buddha tinha composto este poema, pedindo para os monges que viessem e escutassem-no recitar o poema que compôs, exatamente como o poema que ele deu ao monge, Thera. O Buddha respondeu muito amavelmente a Thera. Ele disse, "Viver só como tu vives, comer só, caminhar só, sentar-se só, estes verdadeiramente são modos de se viver sozinho, mas não são o melhor modo de viver só." Buddha pensou, "eu tenho que ensinar-vos corretamente." E então Buddha recitou este poema: "Bhikkhus, qual é significado de 'perseguir o passado?' Quando alguém pensa sobre o modo como seu corpo estava no passado, o modo como seus sentimentos estavam no passado, o modo como suas percepções estavam no passado, o modo como seus fatores mentais estavam no passado, o modo como sua consciência estava no passado; quando ele pensa nestas coisas, e sua mente é arrastada e fica apegada a estas coisas que pertencem ao passado, então esta pessoa está perseguindo o passado. "Quem é aquela pessoa? Aquela pessoa somos todos nós. Nós todos temos sido vítimas do passado. Nós fomos feridos no passado. Nosso corpo foi maltratado no passado, nossos sentimentos foram destruídos no passado, nossas percepções foram obscurecidas no passado, nossos fatores mentais estiveram envolvidos em tristeza e lamentações no passado, e nossa consciência tem sido coberta em ignorância no passado. Em resumo, no passado, uma pessoa que tem forma, sentimentos, percepções, formações mentais e consciência - nós mesmos no passado -, tem sofrido e estas experiências, estas impressões estão cuidadosamente escondidas nas profundidades de nosso inconsciente. E assim não queremos procurá-las, não queremos relembrá-las, porque toda vez que nos lembramos delas nós sofremos, nos sentimos triste, nos preocupamos. E pensamos que se o passado foi assim, como será o futuro? Assim, quando o fantasma do passado surge -- e ele é seguido de perto pelo fantasma do futuro --, temos medo do futuro porque nosso passado foi daquela forma. E porque nossas experiências do passado foram tão tristes, sabemos que se elas forem reavivadas sofreríamos e não poderíamos aguentar, assim nós rangemos os dentes para acabar com isso e fazemos o máximo para enterrar todas as nossas experiências passadas profundamente em nosso inconsciente. Às vezes quando estamos dormindo elas se agitam dentro de nós e ressurgem, e quanto mais tentamos reprimi-las, mais elas tentam ressurgir. Nós temos um mecanismo de defesa que faz o melhor possível para esconder nosso sofrimento de nós mesmos e criar algum tipo de paz e alegria de um modo superficial. Eis como nós conseguimos continuar vivendo. Sabemos que há uma bomba, explosivos, profundamente dentro de nossa consciência, mas que estão encobertos por muitas capas. Nós os enterramos, os empurramos para baixo, e em nossa vida diária, embora não queiramos pensar nestas coisas, elas se movem secretamente na periferia e nos dizem o que deveríamos fazer, nos forçam a fazer coisas. Quando nós falamos, queremos dizer algo suave, mas não dizemos algo suave porque alguma outra coisa está nos ordenando do fundo de nós que digamos algo grosseiro. Queremos abrir nossos corações às pessoas, mas nós não podemos fazer isto, porque estamos sendo comandados pelos sofrimentos que escondemos profundamente em nossa consciência. Assim, no passado nosso corpo era assim, nossos sentimentos eram assim, nossas percepções eram assim, nossas formações mentais eram assim, nossa consciência era assim. Quando pensamos nestas coisas, e nossa mente é arrastada e fica apegada a estas coisas que pertencem ao passado, então estamos perseguindo o passado. Se uma pessoa conscientemente ou inconscientemente regressa ao passado, esta pessoa ainda está perseguindo o passado. Em primeiro lugar, estamos feridos pelo passado, e secundariamente, sejam do passado experiências muito belas ou feridas, essas coisas nos puxam de volta ao passado. Então, devemos estar atentos de que se não praticarmos sempre seremos uma vítima do Mara do passado. Buddha não quer dizer que devamos esquecer o passado, ou enterrá-lo, ou fingir que o passado nunca aconteceu. Não é isso que Buddha dá a entender. Por que? Porque o passado se tornou o presente, e se nós podemos viver profundamente o presente podemos transformar o passado. No presente temos energias de hábito, energias de hábito muito evidentes no presente, e quando podemos reconhecer esses energias de hábito, e sorrir para essas energias de hábito, poderemos nos livrar dessas energias de hábito e as transformar. Deixem-me recordá-los novamente, podemos voltar ao passado de dois modos. Um modo é conscientemente, expressamente, e o outro é inconscientemente, com um fantasma puxando-nos de volta ao passado. Ao mesmo tempo, o método de prática que nós usamos, chamado "vivendo pacificamente no momento presente," não é para esconder o fato de que somos influenciados pelo passado, porque todo o sofrimento do passado, toda a ignorância e paixão do passado, estão presentes neste momento. Estão presentes na forma do presente, no modo como nós nos comportamos, no modo como falamos, no modo como caminhamos, essas coisas estão condicionadas pelo que aconteceu no passado. Portanto temos que viver o momento presente para que possamos ver claramente o que está acontecendo no presente, e quando nós vemos claramente, podemos sorrir para isso, e podemos transformá-lo. O Buddha afirma que a pessoa sábia vive pacificamente no momento presente, olhando a vida profundamente no momento presente. Há dois modos de viver: o primeiro é estar em contato com as coisas maravilhosas da vida, as coisas que têm a capacidade para nos nutrir; assim vivemos no momento presente de modo a estar em contato com os elementos maravilhosos que têm a capacidade de nutrir e curar. E o segundo modo é viver no momento presente de forma a olhar profundamente e poder ver os hábitos, as costumes que estão nos comandando, que estão nos ordenando que digamos coisas que não queremos dizer, que estão ordenando que pensemos coisas que não queremos pensar e ordenando que façamos coisas não queremos fazer, porque eles são destrutivos para nós e para nossa paz. Só quando vivemos pacificamente no momento presente podemos reconhecer e transformar tudo isto. E uma vez que nós o transformamos, então o Mara do passado não pode fazer nada para nos machucar. No passado nós sofremos, e devido ao nosso sofrimento no passado, temos medo. É por isso que no presente temos medo. Não há nada tão importante assim do qual devamos ter medo, contudo nós ainda temos medo. Este medo não está baseado em qualquer coisa - é apenas um hábito. E devido a este hábito temos padrões de comportamento que provoca humores que nos faz sentir mal, perdemos nosso bem estar, nosso sentimento de bem estar. Temos que olhar a vida profundamente como ela é no momento presente e ver a face destas coisas, estas energias de hábito, e dizermos, "Ah ,isto é uma energia de hábito; isso é algo que está me impedindo de abrir meu coração, me impedindo de ser capaz de amar." E quando estamos em contato e reconhecendo esta energia com um sorriso, esta energia de hábito desaparecerá e o Mara do passado também será transformado. Então, nesta seção, ensina o Buddha que se nós nos permitimos retornar ao passado, permitimos ao Mara do passado nos controlar, e então não temos a oportunidade de viver o presente, e não seremos nutridos e curados pelas coisas maravilhosas do presente." Bhikkhus, qual é significado de 'perseguir o passado?' Quando alguém pensa sobre o modo como seu corpo estava no passado, o modo como seus sentimentos estavam no passado, o modo como suas percepções estavam no passado, o modo como seus fatores mentais estavam no passado, o modo como sua consciência estava no passado… " isto significa que nós podemos pensar sobre o passado, mas não deveríamos permitir que o passado nos controlasse. O Buddha nunca disse que nós não podemos pensar no passado - nós temos o direito de pensar no passado, pensar que no passado isto me aconteceu, que meu corpo era assim, minha mente era assim, nós podemos pensar nisto, mas não deixem estas coisas os puxarem para todo o lado, ou os aprisionarem. "Se alguém pensa no modo que estas coisas estavam no passado, mas sua mente não fica escravizada nem apegada a estas coisas que pertencem ao passado, então esta pessoa não está perseguindo o passado." Algumas pessoas pensam que viver pacificamente no momento presente significa de que elas só podem pensar no presente, que não podem pensar no passado, mas isso não é verdade. Se nós podemos nos estabelecer solidamente no presente, podemos olhar o passado profundamente e podemos ficar livres do passado. Por exemplo, nós contamos uma estória de algo que nos aconteceu no passado. Há dois modos de contar a estória: um, contamos a estória de tal modo que somos completamente apanhados, ficamos presos por aquela história do passado, choramos como uma chuva torrencial e então não podemos mais encontrar meios de escapar disso. O outro modo é quando nos estabelecemos solidamente no momento presente com um irmão ou uma irmã [um amigo ou uma amiga] ao lado de nós, e contamos a estória de nosso passado para eles ouvirem, contamos o que aconteceu exatamente, mas falamos disto de um modo muito equilibrado, e o passado não nos puxa para fazer-nos chorar, lágrimas caindo. Nós vivemos solidamente no presente de modo a olhar profundamente para o passado. Não deveríamos dizer que a prática de consciência em Plum Village não lhes permitem olhar o passado. Uma vez que estamos vivendo solidamente no presente, podemos olhar o passado. Se somos fracos na prática, precisamos saber como produzir mais consciência , e temos os irmãos e irmãs que nos apóiam para que possamos olhar o passado sem sermos arrastados por ele. E é por isso que o Sangha é importante. Se você quer olhar profundamente no passado, deveria saber quem é mais forte, você ou o fantasma do passado. Se você sente que o fantasma do passado ainda é mais forte que você, deveria praticar mais a meditação andante e a meditação sentada para se fazer mais forte, e então tenha seus irmãos e irmãs sentados perto de você quando olhar profundamente o passado. Assim, este é o programa, poder encarar o passado. Se você vive em um Sangha, com pessoas praticando com você, você tem uma condição muito favorável para poder olhar profundamente no passado. "Bhikkhus, qual é o significado 'se perder no futuro? ' Quando alguém pensa no modo que seu corpo será no futuro, o modo que seus sentimentos serão no futuro, o modo que suas percepções serão no futuro, o modo que seus fatores mentais serão no futuro, o modo que sua consciência será no futuro; quando se pensa nisto e a mente é arrastada e fica devaneando sobre as coisas que pertencem ao futuro, então esta pessoa está se perdendo no futuro." E assim temos um tipo de medo. Todas estas coisas são Mara, e se o Mara do passado ou o Mara do futuro lhes controla, vocês não mais serão realmente capazes de viver o momento presente. Vocês deveriam saber que a Terra Pura, o Sukhavati, o Paraíso, só está no momento presente, e perdemos a Terra Pura ou Paraíso porque os fantasmas do passado e do futuro nos puxam para longe do presente. Um Arhat é alguém que pode destruir o Mara do passado e do futuro. Tristeza e medo são os nomes de Mara, de dois fantasmas, dois imensos fantasmas. Nós deveríamos voltar à história da pessoa que é avisada pelo médico que só lhe resta seis meses para viver. Ele diz, "Certo, sei que morrerei em seis meses." Mas ele não deveria estar tão seguro que o médico tem razão, porque os médicos freqüentemente erram em suas previsões. Algumas pessoas são avisadas que têm só seis meses para viver mas vivem por muitos anos. Isto depende do modo que nós vivemos. Como sempre, nós dizemos, "Muito bem, de agora até minha morte vou viver corretamente, com paz, liberdade e solidez, e vou fazer da minha qualidade de vida o melhor possível." E uma vez que esta pessoa fique livre, não é presa pelo passado ou pelo futuro, não tem medo do futuro e pode viver solidamente, livre no momento presente, e vê profundamente que o que a vida significa, então esta pessoa perceberá que seu tempo de vida é ilimitado. Nós lemos outros sutras. Sabemos que sutras como o Sutra do Lótus e o Vajracchedika Sutra falam sobre o tempo de vida do Buddha como sendo ilimitado. A idéia de um tempo de vida - de que nascemos num momento em particular, e que morreremos em outro momento em particular, e que a vida entre esses dois momentos vem a ser nosso tempo de vida -- existe porque não sabemos viver solidamente e livremente no momento presente. Se nós vivemos solidamente e livremente no momento presente e olhamos a vida profundamente, descobriremos que nosso tempo de vida é ilimitado, como o tempo de vida do Buddha. E a coisa que é chamada "nascimento" não pode tocar nossas vidas, e a morte não pode tocar nosso tempo de vida. Percebemos que não há nenhuma vida, nascimento e morte -- há manifestação e latência. Podemos estar em contato com o não-nascimento e a não-morte, e depois de seis meses ou sessenta anos, não faz nenhuma diferença. Quando podemos estar em contato com a natureza inata e imortal, nascimento e morte não nos pode oprimir mais. É isso que Tue Trung Thuong Si disse: "A idéia de nascimento e morte nos oprimia, mas agora ela não nos pode tocar mais." E quando o médico nos diz que temos apenas seis meses para viver, ou se ele diz que temos um mês ou trinta anos, não faz nenhuma diferença, porque nós vamos viver nosso tempo com paz, solidez e liberdade. E se podemos fazer isso, podemos viver muito mais tempo que o médico. O médico pode até morrer antes de nós, porque o médico vive sem consciência , sem paz, sem alegria, sem um Sangha, mas nós fomos despertados pelo som deste sino, e decidimos viver nossa vida com paz, com alegria e esta vida de paz e alegria pode nos ajudar a viver muito mais tempo que o médico. "Bhikkhus, qual o significado de 'não se perder no futuro?' Quando alguém pensa no modo que seu corpo será no futuro, no modo que seus sentimentos serão no futuro, no modo que suas percepções serão no futuro, no modo que seus fatores mentais serão no futuro, no modo que sua consciência será no futuro; quando se pensa desta forma mas a mente não é arrastada ou fica devaneando sobre as coisas que pertencem ao futuro, então esta pessoa não está se perdendo no futuro." Vivendo pacificamente no futuro, não temos medo. Pensamos que tudo o que nos acontecerá no futuro não nos causará medo. Não temos medo da morte, porque vivemos profundamente, olhamos profundamente, e estamos em contato com o mundo do não-nascimento e não-morte, e assim naquele momento sabemos que este cadáver não é nós, não nos identificamos com o corpo, assim não temos nenhum medo. Existem pessoas que pensam no momento em que morrerão, e elas sofrem, elas sofrem pensando em deixar seus entes queridos. E há outras que pensam sobre a morte, e eles podem até sorrir. Por que isso? Qual é a diferença? A diferença é que esta pessoa pode viver o momento presente profundamente, e então vê a natureza de não-nascimento e não-morte da vida, enquanto que aquela outra pessoa não faz assim. Assim, é por deliberadamente não querermos pensar na morte que a tememos. Nós [aqui] realmente pensamos na morte, e fazemos isto para olhá-la profundamente. É dito aos praticantes que diariamente eles devem repetir as Cinco Lembranças: "Eu pertenço à natureza do envelhecimento; não há nenhum modo de escapar do envelhecimento. "Eu pertenço à natureza das doenças; não há nenhum modo de escapar de sofrer alguma doença. "Eu pertenço à natureza da morte; não há nenhum modo de escapar da morte. "Tudo aquilo que me é querido e todos que amo pertencem à natureza da mudança. Não há nenhum modo de evitar me separar deles." O Buddha nos disse para praticar assim diariamente. Buddha é nosso médico. Buddha nos faz lembrar isto para nos ajudar a retornar ao momento presente e viver profundamente o momento presente. E se nós podemos viver profundamente o momento presente, iremos além das idéias de envelhecimento, morte e doenças. Nós podemos sorrir, e se quaisquer destas coisas acontecer conosco estaremos felizes, porque esta será uma oportunidade para um recomeço. A Quinta Lembrança é "Minhas ações são meus únicos verdadeiros pertences. Eu não posso escapar às consequências de minhas ações. Minhas ações são o solo sobre o qual eu piso." No Sutra vemos claramente que viver no momento presente não impede nosso pensamento sobre o passado ou o futuro, mas nós temos que viver no momento presente de forma a toda vez que olharmos profundamente o passado ou o futuro, nos libertamos e podemos superar nossos medos e nossa tristeza no que concerne a estas coisas. Porque nos ensinamentos da integração do ser, interpenetração, o passado faz o futuro, e o futuro é feito do passado. Portanto, estando em contato com o presente já estamos em contato com o passado e o futuro, mas não estamos sendo arrastados pelos Maras do passado e do futuro. Vamos ler mais: "Bhikkhus, qual o significado de 'ser afastado do presente'? Quando alguém não estuda, ou não aprende qualquer coisa sobre o Desperto, ou sobre os ensinamentos de amor e compreensão, ou sobre a comunidade que vive em harmonia e consciência; quando esta pessoa não sabe nada sobre os nobres mestres e seus ensinamentos, e pensa, 'Este corpo sou eu mesmo; eu sou este corpo. Estes sentimentos são eu mesmo; eu sou estes sentimentos. Esta percepção sou eu mesmo; eu sou esta percepção. Este fator mental sou eu mesmo; eu sou este fator mental. Esta consciência sou eu mesmo; eu sou esta consciência.' Então esta pessoa está sendo afastada do presente ". Esta seção é muito clara, seu significado pode ser explicado muito claramente pelas duas linhas: "Olhando a vida profundamente como ela é exatamente no aqui e agora”. Quando olhamos a vida profundamente como ela é, nós não pensamos "este corpo é meu", ou dizemos "este corpo sou eu". Nós não dizemos "quando este corpo não existir mais, eu não existirei mais", porque pensando assim teremos medo. E pensar desta forma é o que permite ao Mara do passado e do futuro controlar-nos. Viver então profundamente o momento presente é descobrir a natureza do ser integrado, a natureza de interpenetração de todas as coisas, de forma que não somos conduzidos à toa pela idéia ignorante do ego. Nós não pensamos, "eu sou este corpo, eu sou apenas este corpo; eu sou este sentimento, eu sou apenas este sentimento; eu sou este fator mental, este fator mental sou eu." Quando não nos identificamos com o corpo, os sentimentos, etc., então não ficamos presos à idéia de um ego, e neste momento não há nenhum fantasma que possa nos influenciar, seja do passado ou do futuro, porque quando podemos viver assim já estamos no mundo do não-nascimento e da não-morte. Quando estamos em contato com este mundo do não-nascimento e não morte, não podemos ser aprisionados pelo passado, e o futuro não pode produzir nenhum medo em nós. Esta é a essência, a nata dos ensinamentos de Buddha. "Bhikkhus, qual o significado de "não ser afastado do presente' Quando alguém estuda, ou aprende qualquer coisa sobre o Desperto, ou sobre os ensinamentos de amor e compreensão, ou sobre a comunidade que vive em harmonia e consciência; quando esta pessoa sabe sobre os nobres mestres e seus ensinamentos e os pratica, e não pensa, 'Este corpo sou eu mesmo; eu sou este corpo. Estes sentimentos são eu mesmo; eu sou estes sentimentos. Esta percepção sou eu mesmo; eu sou esta percepção. Este fator mental sou eu mesmo; eu sou este fator mental. Esta consciência sou eu mesmo; eu sou esta consciência.' Então esta pessoa não está sendo afastada do presente." Poucas palavras, mas nós podemos usá-las toda nossa vida - a quê pertence nossos corpos, a quê pertence nossos sentimentos, nossas formações mentais? -- nós as vivenciamos diariamente, e percebemos as causas e condições que provocaram estas coisas. Percebemos que o corpo é só um corpo, originado e condicionado, os sentimentos são sentimentos, originados e condicionados, e nós já não estamos presos a estas coisas, e assim o passado, o futuro e o presente não podem nos oprimir, não podem nos conduzir a esmo. "Bhikkhus, eu vos apresentei o esboço e uma explicação detalhada do conhecimento sobre o modo melhor de viver sozinho."Assim o Buddha ensinou, e os Bhikkhus ficaram encantados de pôr seus ensinamentos em prática”. (Sons de Thay escrevendo) eka significa um, vihari significa viver, e viver sozinho… quando vivemos com um fantasma nós não estamos vivendo sozinhos, estamos vivendo com outro. Você está sentado lá, está comendo sua comida, mas possui o fantasma sentado junto a você, e portanto não está vivendo só. Quando vemos um irmão ou uma irmã sentados com um fantasma, temos que dizer, "Quem está sentado com você?" e então nosso irmão ou a irmã despertará. Assim, não permitam que aquele fantasma os oprima. Nós temos que destruir os fantasmas, destruam Mara. No presente temos paixões, apegos, tristezas, projetos, e quando vivemos com estas coisas não estamos vivendo a sós, estamos vivendo com os fantasmas, e um praticante não deveria morar com fantasmas, nós deveríamos viver sozinhos. http://www.nossacasa.net.shunya/ Abraço. Davi.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

PROCURA-SE POR JESUS CRISTO.


Cristianismo. www.super.abril.com.br. Por Ricardo Arnt. PROCURA-SE POR JESUS CRISTO. Conta o evangelho de João que, quando Jesus ressuscitou e apareceu aos apóstolos, um deles, São Tomé, duvidou. Quis verificar de perto as chagas do mestre para, só então, dar crédito ao milagre. Atualmente, em matéria de fé, a cautela de São Tomé vem ganhando mais e mais adeptos. Não que os crentes duvidem, mas já não basta mais acreditar nos ensinamentos de Cristo: é preciso pisar o chão que ele pisou, respirar o ar que ele respirou. Em 1993, 12.808 brasileiros visitaram Jerusalém. Em 1995, o número dobrou: 26 357. Agora, 1996 deve bater um novo recorde. O turismo brasileiro para Israel é o que mais cresce naquele país, em termos proporcionais, segundo o Ministério do Turismo, em Tel Aviv. É viajar para crer. Para quem não viaja, é ter para crer. Em três meses, a marca de televendas Home shopping vendeu 15.000 “Cruzes da Natividade”, um crucifixo com uma minúscula redoma de vidro que, segundo os vendedores, contém um fragmento da gruta de Belém (onde, supõe-se, Jesus teria nascido). O comprador recebe um certificado do Museu de Israel garantindo a autenticidade da pedrinha. Na busca pelo Jesus histórico vale o aval da ciência. Bem ao estilo da prova empírica exigida por São Tomé. O problema é que, em matéria de ciência, sabe-se muito pouco sobre o personagem, infelizmente. A névoa mística que encobre a biografia de Jesus é tão espessa que muitos desaconselham qualquer pesquisa. Além disso, as comprovações históricas não são imprescindíveis pois, com ou sem elas, os valores humanitários deixados pelo cristianismo são indiscutíveis e constituem a própria base da nossa civilização. Jesus Cristo não inaugura a nossa era por acaso. Mesmo assim, um número impressionante (e crescente) de pesquisadores se dedica ao assunto. As pistas são precárias e controversas, mas apresentam novas respostas (às vezes, novas perguntas) sobre Jesus Cristo. Você vai ver tudo nesta reportagem. Para começar, uma certeza: na Judeia, em torno do ano zero, aconteceu algo crucial. COMO RASTREAR A VERDADE SOB O MITO. Cristo nasceu antes de Cristo, no ano 7 AC. Nosso calendário romano-cristão está errado, já devíamos estar no ano 2001. Tampouco há evidência de que o Natal seja em 25 de dezembro, porque não se sabe em que mês Jesus nasceu. A data de dezembro foi fixada pela Igreja no ano 525 para coincidir com festas pagãs do Oriente e de Roma. E, de acordo com as pesquisas, Jesus não nasceu em Belém, na Judeia, mas em Nazaré, na Galileia, norte de Israel (veja os detalhes na página 54). Para a maioria dos pesquisadores os reis magos, o presépio e a estrela de Belém são invenções dos evangelistas para identificar o nascimento de Jesus com a vinda do Messias, que já era anunciado no Velho Testamento. A expressão é profana mas vale: há muito marketing político nos evangelhos. Os estudiosos (muitos deles, homens de fé cristã) sabem que os evangelhos oficiais da Igreja, de Marcos, Mateus, Lucas e João, dão mais testemunhos de fé do que da verdade histórica. Mais ainda: apresentam discrepâncias e contradições inconciliáveis. Para resolvê-las e ajustar o foco da ciência sobre o chamado Jesus histórico, as próprias instituições religiosas financiam estudos e mais estudos. Parece um paradoxo, mas o fato é que na era do fundamentalismo religioso, a fé precisa se basear em evidências científicas. Há 4 800 scholars pesquisando as Escrituras, só nos Estados Unidos. Há 80 000 livros sobre Jesus e 1 000 cursos universitários sobre ciência e religião, no mundo. EM BUSCA DE NOVAS FONTES. Nos últimos 50 anos, descobertas arqueológicas reviraram o rumo das pesquisas várias vezes. Mas valeu a pena. Como resultado, a linguística e a filologia se aprimoraram, admiravelmente. Hoje, os cientistas podem comparar textos antigos, analisar estilo, forma, mensagem e estabelecer pressupostos sobre a cultura da época, seu ambiente e sua idade. O mistério, entretanto, continua. O problema, incontornável, é que faltam fontes. Do nascimento de Jesus até seu batismo, na fase adulta, não há nada, nem nos Evangelhos. Não há nenhuma descoberta arqueológica associada diretamente à vida de Jesus. As historiografias grega e judaica, tão copiosas sobre outros vultos da Antiguidade, simplesmente ignoram Jesus Cristo. As fontes romanas são posteriores à sua morte. E muitas foram adulteradas pela propaganda religiosa (veja na página 50). É notável o contraste entre a importância de Jesus para a posteridade e sua insignificância nos registros da época. A CULTURA DO CRISTIANISMO. As maiores esperanças estão nas escavações arqueológicas. Em 1945, nas cavernas de Nag Hammadi, no Egito, encontrou-se uma biblioteca cristã do século IV, em língua copta, com vários Evangelhos Apócrifos, aqueles não incluídos no Novo Testamento. Dois anos mais tarde, nas cavernas de Qumran, em Israel, foram achados os Manuscritos do Mar Morto, a biblioteca de um convento da seita judaica dos essênios, com textos de 152 AC 68, cuja decifração até hoje não foi concluída (veja na página 56). Os Manuscritos do Mar Morto também ignoram Jesus, mas revelam a cultura sobre a qual o cristianismo se erigiu. Agora, em janeiro de 1996, mais quatro cavernas funerárias, dos séculos II e I AC, foram descobertas, em Qumran, sem documentos. Mas quem sabe não surgirão outras? Uma das maiores autoridades na história do cristianismo, o padre filólogo Emile Puech, da Escola Bíblica Arqueológica Francesa de Jerusalém, encarregada de decifrar os Manuscritos, admitiu à SUPER seu pessimismo: “Nosso conhecimento sobre Jesus provavelmente não vai mudar. Mas poderão surgir novas indicações filológicas, linguísticas e históricas importantes sobre a Palestina e a jovem comunidade cristã do século I. Isso, sim, ajudará a conhecer melhor o Cristo real”. COMO PROTEGER O MITO DA VERDADE. A tese é polêmica, mas a maioria dos pesquisadores está convencida de que os quatro evangelhos oficiais da Igreja do Novo Testamento – Marcos, Mateus, Lucas e João – não foram escritos por seus autores. São, muito provavelmente, compilações de mensagens anônimas ou atribuídas aos apóstolos, orais ou escritas, dos séculos I e II. Os nomes dos quatro evangelistas apenas identificam conjuntos de ensinamentos (creditados a cada um deles) escritos e reescritos pelas comunidades, sucessivamente. O evangelho de Marcos é o mais antigo dos quatro, escrito por volta do ano 70 DC. O de Mateus é do ano 70 ou 80, o de Lucas do ano 80 ou 90 e o de João foi escrito depois dos 90. Os quatro contêm “material suficiente para levar fé ao coração das pessoas abertas, mas não para escrever uma biografia de Jesus”, segundo o teólogo Luke Johnson (1962-  ), autor de The Real Jesus. A grande quantidade de textos era um problema para a Igreja que estava nascendo. Havia muitas comunidades, ritos e evangelhos diluindo a doutrina e favorecendo o aparecimento de dissidências e heresias. Por isso, aos poucos, tornou-se necessário escolher alguns e canonizá-los, tornando-os santos. Muitos ficaram de fora. Há mais de sessenta Evangelhos Apócrifos, como o de Tomé, de Pedro, Felipe, Tiago, dos Hebreus, dos Nazarenos, dos Doze, dos Setenta etc, que não entraram no Novo Testamento. Têm enorme valor para a ciência. O PRIMEIRO CONCÍLIO. A canonização dos textos se confunde com a consolidação da Igreja. No ano 311, o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo e a Igreja, antes perseguida, ganhou o apoio do Estado. O próprio Constantino organizou o primeiro concílio ecumênico, na cidade bizantina de Nicéia (hoje, território turco), no ano 325, pagando as despesas de viagem de 318 bispos. Em meio a discussões acaloradas, várias vezes apartadas pelo imperador e seus soldados, foram estabelecidos o primado da Igreja Romana sobre a cristandade, o dia da Páscoa e importantes dogmas doutrinários. A partir daquele concílio, as Escrituras cristãs começaram a ser oficializadas. Foi o bispo de Alexandria, Atanásio (296-373), ainda no século IV, quem escolheu os 27 textos do Novo Testamento: os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, os Atos dos Apóstolos, o Livro das Revelações e mais 21 Cartas. Tudo isso foi escrito em grego, que era língua culta do Oriente Próximo desde a expansão helenizante de Alexandre Magno (356 AC 323.). A propósito, Cristo é uma palavra grega (quer dizer “o ungido”) e a primeira capital mundial da cristandade não foi Roma, mas a grega Constantinopla. Até o século IV, a missa, em Roma, era celebrada em grego. Os textos do Novo Testamento popularizam-se com a tradução para o latim feita por São Jerônimo (347-420), na Palestina, no século V. Durante séculos, os monges copistas reproduziram esses textos a mão, às vezes reelaborando-os segundo as conveniências da doutrina. Alteraram não só o Novo, como também o Velho Testamento. Partes do Gênesis teriam sido criadas por teólogos, entre eles Santo Agostinho (354-430). “O conceito de Pecado Original, derivado da desobediência de Adão e Eva como princípio da história pecaminosa da raça humana, não existe no Velho Testamento judaico”, observa o teólogo Paulo Augusto de Souza Nogueira, professor do Instituto Metodista de Ensino Superior. O assunto é controverso, é claro. O historiador e ex padre, Augustin Wernt, do Departamento de História da USP, está entre os que não aceitam “a consistência científica dessa hipótese”. A HISTÓRIA FALSIFICADA. Outros textos clássicos também foram adulterados. No importante Antiguidades Judaicas, que fornece informações importantes sobre Jesus e o cristianismo, o historiador Flávio Josefo (37-100), lá pelas tantas, afirma que Jesus “fazia milagres” e que “apareceu, três dias depois da sua morte, de novo vivo”, afirmação pouco crível para um ex judeu feito cidadão romano. “Claro que esse trecho foi distorcido”, explica Maria Luiza Corassim, professora de História Antiga na Universidade de São Paulo. “Josefo não podia acreditar que Jesus fosse o Messias. Isso é coisa dos monges copistas. Do século II ao século XV as únicas cópias existentes dos livros estavam nos conventos. Eles agregavam o que queriam”. Agora, boa parte do trabalho dos pesquisadores é separar o que é verdade de fato, sobre Jesus e sua época, e o que era propaganda. A JUDEIA ANTES E DEPOIS DE CRISTO. Israel conquistou a independência no ano 129 AC. vencendo os monarcas selêucidas, que reinavam na Palestina. Os judeus macabeus, que lideraram a revolta, fundaram a dinastia Asmoneu. Mas a rivalidade entre as seitas judaicas acabou provocando uma guerra civil (103-76 AC) que opôs saduceus – a classa alta, influenciada pelo helenismo, aliada aos asmoneus e aos sacerdotes do Templo de Jerusalém – aos fariseus anti helenizantes, adeptos de uma interpretação das Escrituras que reconhecia a nova classe de escribas religiosos – os rabinos. Mais tarde, no ano 63 AC., Roma invadiu a Palestina conflagrada pelo sectarismo religioso. O general Pompeu ocupou o Templo e transformou a Judéia em província romana. Em 48 AC, os romanos nomearam Antipater governador da Judéia e, em 31 AC, depois de debelarem uma tentativa da dinastia Asmoneu de voltar ao poder, coroaram governador Herodes Antipas (20 AC 39 DC) filho de Antipater. Herodes era um monarca detestado. Casou-se com uma princesa asmonéia, mas a permanente paranoia de uma restauração real judaica induziu-o a assassiná-la. Além dela, Herodes matou também quatro filhos, a sogra e o cunhado. Também insultou a religiosidade dos judeus construindo templos pagãos e um hipódromo para lutas de gladiadores em plena Jerusalém. Mas deixou obras importantes, como o porto de Cesaréia, a fortaleza de Massada e a restauração do Templo, cujo muro ocidental, o Muro das Lamentações, continua de pé até hoje. Jesus nasceu sob o governo de Herodes (Veja na página 54), ano em que houve 2.000 crucificações na Judéia. Na época, os judeus estavam divididos em quatro seitas. Os saduceus, fortemente influenciados pela cultura helenista, cujos sacerdotes dominavam o Templo, eram a elite. Os fariseus eram populistas: propunham o judaísmo orientado pelos rabinos do povo. Os austeros essênios, renunciantes e eremitas, preferiam o isolamento. Por fim, os radicais zelotes, pregavam a violência e a revolta contra Roma. Com Cristo, surgiria mais uma seita, a dos nazarenos. O FIM DO MUNDO. Havia um grande anseio apocalíptico, na Judéia, no século I. Esperava-se ardentemente a vinda do Messias, aquele destinado a libertar Israel dos romanos. Com o Messias, viria o fim do mundo, o reinado de Deus na Terra e uma nova era para o povo escolhido. Profetas maltrapilhos anunciando o fim dos tempos e pregando a salvação era o que não faltava. As seitas se confrontavam no Templo e, fora dele, os zelotes organizavam atentados contra os romanos, brigavam entre si e com as outras seitas, e planejavam a revolta liderada pelo Rei Messias. O plano dos zelotes demoraria a se consumar. No ano 6, os romanos assumiram o governo direto da província através de prefeitos como Pôncio Pilatos (falecimento em 38 DC), que mandou crucificar Cristo no ano 30. Em 37, houve uma nova provocação: o imperador Calígula mandou levantar sua estátua no Templo (que não chegou a ser concluída). Só em 64, os zelotes deflagraram a rebelião. O general Vespasiano veio da Bretanha e acabou com o levante. Na véspera do ataque a Jerusalém, voltou para Roma para assumir o trono e passou a tarefa ao filho, Tito. Em 28 de agosto de 70, a cidade foi arrasada, o Templo, destruído e milhares de judeus, escravizados. Mesmo assim, a agitação religiosa não parou. Em 73, 960 judeus suicidaram-se na fortaleza de Massada para não caírem prisioneiros dos romanos. Em 114, as comunidades judias de Chipre, Alexandria e Cirene revoltaram-se e foram destruídas. Em 132, um novo autoproclamado messias, Shimon Bar Kosib (falecido em 135), que mudou o nome para Bar Kochva, Filho da Estrela, liderou outra revolta, de três anos. Os romanos mandaram o general Júlio Severo, arrasaram 1.000 povoados e mataram centenas de milhares. Em 135, o imperador Adriano mandou passar o rastelo em Jerusalém. O desastre da segunda revolta acabou com a influência dos zelotes e consagrou a autoridade dos rabinos fariseus. Em 138, com o abrandamento da dominação pelo imperador Antônio Pio, o judaísmo rabínico expandiu-se. Mas, a essa altura, a popularidade do cristianismo era muito maior. A PAIXÃO SEM PAIXÃO. Cristo só nasceu no dia 25 de dezembro por obra do papa João I (470-526), que decretou a data do Natal no ano de 525. Mudava ali o calendário cristão. O monge Dionísio Exiguus (470-544), incumbido de determinar o ano zero, errou nos cálculos. Segundo Lucas e Mateus, Jesus nasceu “perto do fim do reino de Herodes”. Problema: Herodes morreu em 4 AC. Hoje, a tese mais aceita é a de que Jesus tenha nascido no ano 7 AC, um pouco antes da morte de Herodes. Isso mesmo: Cristo nasceu antes de Cristo. O outro senão é o local. Em Mateus e em Lucas, é a gruta de Belém. Para Mateus, a família de José foge, depois, para o Egito, escapando ao massacre das crianças promovido por Herodes, e vai para Nazaré. Para Lucas, a anunciação do nascimento, pelo anjo à Virgem, é feita em Nazaré e, de lá, a família vai para Belém, obrigada pelo “censo ordenado pelo imperador César Augusto (63 AC 14 DC) quando Quirino era governador da Síria”. Entretanto, os registros romanos mostram que Quirino governou a Síria no ano 6 DC. Os censos tampouco exigiam deslocamento para o local de origem familiar (José era de Belém), já que seu propósito era cobrar impostos. “É um pouco triste ter de dizer isso, porque o nascimento na gruta é uma história cativante, mas a viagem de ida e volta a Nazaré para o censo é pura ficção, criação da imaginação de Lucas”, escreveu o padre John Dominic Crossan (1934-  ), professor de Estudos Bíblicos na Universidade de De Paul, de Chicago, em seu livro O Jesus Histórico. Belém aparece como a terra natal porque era a cidade do rei Davi. “Conforme as profecias das Escrituras Hebraicas, o messias deveria nascer em Belém”. Hoje é consenso: Jesus nasceu em Nazaré. UM CAMPONÊS RÚSTICO. Comprovadamente, ele falava aramaico, língua corrente na Palestina, e um pouco de hebreu, aprendido na sinagoga e na Torá, a bíblia judaica. Era um camponês rústico das montanhas, que usava metáforas ligadas à agricultura, como o a “beleza dos lírios do campo” e a separação “do joio do trigo”, e evitava pregar em cidades grandes. Em sua aldeia de 1.600 habitantes o analfabetismo era regra, não exceção. Jesus era mesmo solteiro, o que é extraordinário, num cultura judaico-camponesa que valoriza o casamento e a família. “O celibato como estilo de vida para o judeu religioso comum, e em especial para um mestre ou rabino, seria algo impensável no tempo de Jesus”, esclarece o padre John Meier, professor de Novo Testamento na Universidade Católica da América, em Washington, em Um Judeu Marginal. “Ele deve tê-lo interpretado como o resultado de sua exaustiva missão profética para reunir o dividido e pecador povo de Deus”. O CURADOR DOS AFLITOS. Durante dois anos, o celibatário pregou na Galileia, na Judéia e em Jerusalém. Proclamava-se o messias. Aos olhos das seitas judaicas, blasfemava. Ao todo, no Novo Testamento, fez 31 milagres, dos quais 17 curas e 6 exorcismos. Na tradição judaica, os homens ficavam doentes porque pecavam e a cura era um monopólio divino. O que é praticamente consenso entre os pesquisadores é que Cristo atuava em curas por conta própria, indiferente aos poderes religiosos constituídos no Templo de Jerusalém. Sempre desafiando. Os desafios se agravaram na festa da Páscoa do ano 30 quando, invocando deliberadamente a profecia do Livro de Zacarias sobre a chegada do Rei Messias – “Aí vem o teu Rei, justo e salvador, montado num burrinho”. –, Jesus entrou em Jerusalém montado num jumento. “Estava realizando a profecia de Zacarias, sugerindo que o reinado messiânico estava prestes a ser revelado ao povo”, explica outro especialista, o escritor A. N. Wilson (1950-  ), autor de Jesus, uma Biografia. Saudado pelo povo que abanava ramos, invadiu o Templo e expulsou fariseus e saduceus. A ofensa final. Caifás, o Sumo Sacerdote, ordenou a prisão. Na quinta-feira à noite, já sentindo o cerco, os apóstolos celebraram a Última Ceia. A captura aconteceu no jardim de Getsêmane. Levado para o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo, o prisioneiro reafirmou sua missão divina. Na manhã de sexta-feira, no pretório, a residência do procurador Pôncio Pilatos, na presença de Caifás, foi condenado. A Sexta-Feira da Paixão surgiu no dia 7 de abril de 30. Jesus foi crucificado no monte Gólgota. Tinha 36 anos. AS ORÍGENS LINGUÍSTICAS DA FÉ. Falta pouco para terminar a tradução dos Manuscritos do Mar Morto. A maior parte dos 800 documentos encontrados entre 1947 e 1956, em 11 cavernas perto das ruínas do convento essênio de Qumran, já foram publicados. Faltam alguns papiros da gruta 11 e a maioria da gruta 4, que constituem 15.000 fragmentos, alguns menores que uma unha. Tudo deve ser recomposto e montado. Por isso a tradução demora. O trabalho é de ourives. Os manuscritos são as mais antigas cópias do Velho Testamento que existem. Temendo um ataque romano, os essênios esconderam os textos nas cavernas, envoltos em panos de linho e enterrados dentro de vasos. O mais antigo, data de 152 AC, o mais recente, do ano 68. São uma preciosidade. Décadas de tradução lenta e sigilosa provocaram uma crise acadêmica. Temeu-se que o trabalho estivesse sendo protelada por motivos religiosos. Em 1991, a biblioteca americana Huntington, que fora autorizada pelo Estado de Israel a fotografar os manuscritos para prevenir a eventual destruição dos originais, decidiu, unilateralmente, abrir acesso às fotos para os pesquisadores credenciados. Toda interdição, mesmo sobre os fragmentos não traduzidos, foi então levantada. A CULTURA RELIGIOSA DA JUDÉIA. Debelada a paranoia, formou-se uma equipe para concluir a tarefa: os cientistas Emmanuel Tov, da Universidade de Tel Aviv, Eugène Ulrich, da Universidade de Notre Dame (Estados Unidos), e pelo padre-filólogo Emile Puech, da Escola Bíblica Arqueológica Francesa, a instituição encarregada de coordenar a pesquisa. Hoje, eles sabem que os essênios pregavam ideias e práticas que os cristãos incorporaram, como o batismo na água, a idealização do Messias e a oposição à aristocracia sacerdotal do Templo. Mas é tudo. Não há nada sobre Jesus. Jesus nunca foi essênio. “Jesus é um pouco a imagem do mundo onde nasceu” – diz Puech. “Mas um pouco, apenas. Porque o mundo essênio é um mundo fechado e o de Jesus é aberto. Em Qumran, as leis são exclusivas, não se pode falar com um estrangeiro ou com judeu impuro. Mas Jesus dirige-se a todo mundo”. Para o cientista, a descoberta foi fundamental: “Com os Manuscritos reaprendemos a ler o Antigo e o Novo Testamento. Jesus, ele mesmo, e suas opiniões sobre temas como pureza, monogamia e divórcio, ficou mais compreensível. Os textos evangélicos encontram um fundo histórico, um país, um território”. Há 80.000 livros sobre Jesus e 1.000 cursos sobre religião e ciência no mundo. “O fundamentalismo religioso precisa da ciência. Seu apelo moral não será persuasivo se parecer incoerente. Para convencer, nos dias de hoje, a religião precisa ao menos ser compatível com a ciência”. Robert Russel, diretor do Centro de Teologia e Ciências Naturais, de Berkeley, Califórnia. Até hoje, não se descobriu nenhum vestígio arqueológico diretamente associado a Jesus. “Há várias reconstruções de Jesus: o Jesus revolucionário, o Jesus poeta, o Jesus filósofo etc. A mesma informação pode ser combinada duplamente. O problema é que a figura que emerge de Jesus tende a ser o reflexo ideal do investigador”. Luke Johnson, The Real Jesus (Harper, NY, 1996). No ano em que Jesus nasceu, 2 000 foram crucificados na Palestina. OS QUATRO EVANGELHOS MÍSTICOSO teólogo Paulo Augusto de Souza Nogueira, professor de Literatura Bíblica do Instituto Metodista de Ensino Superior, de São Bernardo do Campo, explica as características dos evangelhos. SÃO MATEUS. Escrito na Síria, em Antióquia, nos anos 70 e 80, em grego. Seu público é o das comunidades cristãs e judaicas. Testemunha o afastamento dos cristãos das sinagogas. A discussão da interpretação da nova lei de Jesus indica que cristãos e judeus estão se diferenciando. SÃO MARCOS. Escrito na Galileia, por volta do ano 70, em grego, revela tradições orais fixadas recentemente, em relação ao tempo em que foi escrito. Reinterpreta a saga de Jesus e sua pregação para comunidades cristãs em crise com a guerra judaica contra Roma. Esfria a expectativa do fim do mundo e reacende a esperança no reino de Deus. SÃO LUCAS. Escrito em Éfeso, nos anos 80 e 90, em grego, o melhor grego dos quatro evangelhos. É a primeira parte de uma obra mais ampla que inclui os Atos dos Apóstolos. Mostra o cristianismo como um movimento da Galileia para Jerusalém, Antióquia, Asia Menor, Grécia e Roma. Triunfa sobre a dispersão provocada pelo fim do mundo que não veio e afirma o futuro das comunidades cristãs. SÃO JOÃO. Escrito na Síria, depois da década de 90, em grego. Apresenta um Jesus esotérico, místico e enigmático, que realça sua presença na comunidade na forma de Espírito Santo. Os discursos são longos e as narrativas amplas. Os monólogos mostram uma religiosidade mística, gnóstica e esotérica, quase oriental. OS TESTEMUNHOS NÃO CRISTÃOS. Historiadores gregos e judaicos, como Filão, o Judeu (20 AC 50 DC), ignoram Jesus e discorrem longamente sobre Pôncio Pilatos. Mas o personagem foi notado por escritores romanos. Flávio Josefo (37-100) (texto provavelmente adulterado). “Nessa época viveu Jesus, um homem sábio. Se é que se pode dizer que era humano. Ele fazia milagres. Era o Cristo. Quando nossos cidadãos o denunciaram e Pilatos condenou-o à crucificação, ele apareceu, três dias depois da sua morte, de novo vivo. Os profetas anunciaram suas maravilhas e milhares o adoraram” (Antiguidades Judaicas, cap. XVIII, p. 63). Tácito (55-120) (escrevendo sobre o incêndio de Roma). “O imperador Nero (37-68) acusa aqueles detestáveis por suas abominações que a multidão chama de cristãos. Esse nome vem de Cristo, que sob o principado de Tibério, foi mandado para o suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida momentaneamente, essa superstição horrível rebrotou novamente, não apenas na Judeia mas agora dentro de Roma” (Anais, capítulo XV, p. 54). Suetônio (70-128) (falando da vida do imperador Cláudio) “O Imperador expulsou de Roma os judeus que viraram causa permanente de desordem pela pregação de Cristo” (Vida de Cláudio, cap 25, p. 4). Plínio, o Jovem (61-114) (escrevendo para o imperador Trajano). “Os cristãos têm o hábito de se reunir em um dia fixo para rezar ao Cristo, que consideram Deus, para cantar e jurar não cometer qualquer crime, abstendo-se de roubo, assassinato, adultério e infidelidade”. (Carta a Trajano, cap. X, p. 96). A TERRA DOS REBELDES RELIGIOSOS. No século I, a Palestina tinha 1 milhão de habitantes. Em 63 a.C., os romanos converteram a Judéia em província romana. Para os judeus, a religião era uma ideologia nacional. No ano em que Jesus nasceu, 2.000 condenados foram crucificados. 1 – A Galileia. Nessas montanhas, em Nazaré, região da Galiléia, norte de Israel, Jesus nasceu e viveu até depois dos 30 anos. Os camponeses da Galileia eram conservadores e nacionalistas. 2 – Os Ascetas. Na beira do Mar Morto, a seita judaica dos essênios construiu o convento de Qumran, cujo cemitério tinha 1.200 túmulos. Em 1947, arqueólogos encontraram aí, escondidos em cavernas, os Manuscritos do Mar Morto. 3 – A Capital. O Templo de Jerusalém era o centro político e religioso da Judéia. Reconstruído em 520 a.C. sobre as ruínas do Templo destruído pelos babilônios, abrigava o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo. 4 – Os Suicidas.  As ruínas da fortaleza de Massada onde, no ano 73, 960 judeus preferiram o suicídio a caírem prisioneiros romanos. APOTEOSE MÍSTICA. O Pintor holandês Hans Memling (1430-1494) fixou no quadro “A Paixão de Jesus” todos os últimos episódios do mistério de Cristo. Veja o que ele imaginou: 1 – Jesus entra em triunfo em Jerusalém, no Domingo de Ramos. 2 – Expulsão dos fariseus do Templo. 3 – A última ceia. 4 – A meditação no Jardim de Getsêmane. 5 – O beijo de Judas. 6 – A sentença de Pilatos. 7 – A flagelação. 8 – A coroa de espinhos. 9 – O início da Via Crucis 10 – Queda de Jesus. 11 – A crucificação, no monte Gólgota. 12 – Os apóstolos retiram o corpo da cruz. 13 – O enterro no Santo Sepulcro. 14 – A ressurreição. O ARQUITETO DA EXPANSÃO DO CRISTIANISMO. A expansão do cristianismo deve muito ao judeu grego Saulo de Tarso (5 AC 64 DC.), um cidadão romano culto e cosmopolita que depois de perseguir muitos cristãos teve uma revelação e virou missionário incansável: São Paulo. Esse é um personagem concreto, que deixou textos próprios, conhecidos pelos historiadores. Além disso, teve um papel decisivo. À revelia de Tiago, o irmão de Jesus, chefe dos judeus cristãos de Jerusalém – para quem o cristianismo era uma reforma religiosa do “povo eleito” –, Paulo batizava judeus e gentios dispostos a adotar a nova religião, indistintamente. Durante 16 anos, percorreu 20.000 quilômetros a pé, em quatro grandes viagens, pregando e fundando igrejas na Síria, na Ásia, na Grécia e em Roma. Escreveu quatorze Epístolas, as cartas que enviava às suas igrejas, treze das quais foram anexadas aos Evangelhos. Foi o primeiro autor cristão e o arquiteto da expansão mundial do cristianismo. No ano 56, Paulo viajou a Jerusalém para enfrentar Tiago. Polemizou com os judeus cristãos e foi acusado de introduzir gentios no Templo. Preso pelos romanos, ficou dois anos na fortaleza de Cesaréia. Em 60, foi levado para Roma, onde pregava o apóstolo Pedro, a quem Jesus confiara a edificação da Igreja. Apesar de viver sob prisão domiciliar, sua casa em Roma transformou-se em centro missionário. Em 64, um violento incêndio iniciado nos bairros pobres, dos cristãos, queimou Roma. Houve boatos de que teria sido encomendado por Nero, para reconstruir a cidade por completo. A exótica seita dos cristãos foi acusada e transformada em bode expiatório. Em meio a perseguições, torturas e suplícios, Pedro e Paulo foram presos. O primeiro foi crucificado. Paulo, como cidadão romano, teve o “privilégio” de ser decapitado. Àquela altura, já havia mais cristãos fora da Palestina do que dentro. O culto do messias pacífico, cujo reino não era desse mundo e que oferecia salvação à humanidade toda, inclusive aos romanos, expandiu-se. Frente à ortodoxia judaica, o cristianismo “despolitizou-se”, diluindo sua identidade para ampliar o diálogo com as culturas. Em compensação, conquistou o mundo. O JESUS CATÓLICO, JUDEU E PROTESTANTE. Judaísmo, catolicismo e protestantismo provêm de um mesmo tronco e têm o Velho Testamento em comum. Apesar disso, suas divergências estimularam guerras e perseguições. Líderes dessas três comunidades religiosas do Brasil reavaliaram, para a SUPER, a figura de Jesus Cristo à luz da ciência e da religião. 1 – Quem foi Jesus Cristo? 2 – Por que houve cisma entre judeus e cristãos? 3 – Por que o cristianismo virou uma religião de massas? 4 – Por que Jesus foi crucificado?5 – Como explicar as contradições entre os quatro evangelhos? SINAL DE CONTRADIÇÃO. Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), foi cardeal arcebispo de São Paulo Brasil. 1 – Jesus foi um judeu de sua época, instruído na Torá e observante de tudo o que era fundamental para o povo de Israel. Como outros, ele também possuía uma consciência crítica do seu tempo e não deixou de mostrar o que lhe parecia contraditório na vivência religiosa e social da época. Ele foi um sinal de contradição. Já na primeira pregação pública, na Sinagoga de Nazaré, forma-se o grupo de opositores que tentam matá-lo, mas forma-se, também, o grupo de discípulos que levarão adiante sua obra. 2 – O ponto crucial foi a aceitação crescente, por parte dos cristãos, da divindade do messias Jesus de Nazaré. As outras divergências nunca foram um problema muito sério. Os judeus sempre conviveram com a adversidade e a diversidade. Mas a alta cristologia que foi se desenvolvendo entre os chamados nazarenos e que terminou por identificar Jesus de Nazaré como o próprio Deus-Pai-Yavé era inaceitável. 3 – Abrindo para o mundo o tesouro da revelação contida na tradição judaica o cristianismo só podia conquistar corações. Como não se voltar para “um Deus de compaixão e piedade, lento para cólera e cheio de amor e fidelidade, que guarda seu amor a milhares e tolera a falta, a transgressão e o pecado”? (Êxodo, 34, 6-7). A lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus. 4 – João explicita a causa da condenação no diálogo de Pilatos com os judeus, quando esses afirmam: “Nós temos uma lei e que, conforme essa lei, ele deve morrer porque se fez filho de Deus” (João 19,7). De fato, no momento na condenação, a concepção de Jesus Deus ainda não é clara para os seus discípulos. Para os judeus é apenas uma blasfêmia. 5 – Não há contradições no sentido de ensinamentos que se opõem e se negam mutuamente, como se um texto dissesse que Deus existe e outro dissesse que não. Há leituras diversificadas da realidade, pela própria natureza do escrito (gênero literário). Há pormenores redacionais que não coincidem mas que se explicam conhecendo-se a história das fontes utilizadas, a história da redação e o objetivo do autor diante de seus destinatários. À ESPERA DO MESSIAS.  O rabino Henry Sobel (1944- ), é presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, atualmente não exerce mais essa função. 1 – Jesus foi um judeu, um grande mestre que pregou ideias universais da fé judaica. Nós não o aceitamos como messias porque o Reino de Deus que aguardamos com tanta ansiedade ainda não se manifestou. Não rejeitamos os conceitos de Jesus sobre Deus. A questão crítica é a doutrina cristã de que Deus tornou-se homem e permitiu que seu filho único sacrificasse a vida para expiar os pecados da humanidade. 2 – O judaísmo não reconhece um “filho de Deus” que se destaca e se eleva acima dos outros seres humanos. Todos somos “filhos de Deus”. Na teoria judaica, Deus não pode materializar-se em nenhuma forma. A crença num messias divino que é encarnação de Deus contraria a convicção judaica da absoluta soberania e unicidade de Deus. 3 – O judaísmo é uma religião que se caracteriza por um grande número de leis rituais e se baseia num sistema de prescrições e proibições. O cristianismo se apresentava como uma religião “anti legalista”. Com isso, não só afirmou sua independência em relação ao judaísmo como também conquistou adeptos em todo o império romano, tornando-se uma religião de massas. 4 – É importante ressaltar o caráter opressivo do governo romano na Judéia. Pôncio Pilatos (faleceu em 38 aproximadamente) foi especialmente cruel no exercício de suas funções. Antes de Jesus, centenas de outros judeus já haviam sido crucificados. Jesus foi crucificado pelos soldados romanos como criminoso político, “Rei dos Judeus”. A acusação de deicídio, que pesou sobre o povo judeu e foi uma das principais causas do antissemitismo é totalmente infundada. Acusar os judeus da morte de Jesus foi a forma mais convincente de fazer a verdadeira acusação, a de que nem todos os judeus se tornaram cristãos. Há trinta anos, o Concílio Vaticano II repudiou a acusação de deicídio contra os judeus. 5 – Existem quatro evangelhos, não um. É preciso lembrar que não foram escritos como relatos históricos, no sentido moderno, isto é, como uma transcrição factual de eventos, e sim como narrativas de caráter religioso. Os eventos foram vistos sob quatro óticas teológicas diferentes. FLORES DA DIVERSIDADE. Milton Schwantes (1946-2012), foi pastor luterano de Guarulhos, estado de São Paulo – Brasil, e coordenador do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião. 1 – Jesus foi um sábio em meio à vida da gente. Na Galileia, era pouco percebido entre os grandes. Suas críticas aos romanos imperialistas e às elites locais por certo eram severas, duras. Mas não promoviam a luta armada. O amor radical como caminho da justiça decidida era sua vida. Jesus foi revolucionário, sem armas. 2 – Ao invés de fazer-se comunitária, a experiência pode fazer-se violenta, excludente, exclusiva. Eis a estufa do fundamentalismo. Somos hóspedes na casa de Israel. Não donos. Os que estão “em Cristo”, que são cristãos, assumem a fragilidade de não serem auto suficientes. Sem Israel e suas sinagogas viramos galho sem tronco. Mas nem sempre suportamos esta fragilidade. Antes fizemo-nos donos. Quisemos adorna-nos de Israel. Expropriamos os de Tupã, escravizamos os de Olodum. Ao deixarmos de ser hóspedes de Israel fizemo-nos também exterminadores de muitos povos. 3 – Pelo que me consta, os cristãos não passavam de uns 10% da população, quando Constantino incorporou essa religião ao império romano. Nesse sentido, o cristianismo se tornou religião de massas através do poder de Estado. Aliás, o que aí teve início perpassou a história da Europa e das Américas. O poder foi o maior pregador. Ainda estamos nestes tempos. Ora, as igrejas se sentem muitos sós sem os palácios. Ora, o senhorio do palácio se torna devoto, porque sem religião não se ganha eleição. 4 – Os colonizadores romanos mandavam matar na cruz. E quem estava com eles, fazia o jogo do império. À cruz era levado quem ameaçasse a ordem dos senhores em Roma e em Jerusalém. Por isso Jesus foi sentenciado. Aliás, continua sendo sentenciado, hoje, dia a dia. Basta querer ver. 5 – Tradições bíblicas investem na diferença. Jardim bonito é o que floresce em muitas cores. A Bíblia leva mais o jeito de jardim do que de verdade em si, acabada, na linha. Até seria de estranhar se não houvesse “contradições”. Os quatro evangelhos não fogem à regra da diversidade, cada qual dando o melhor de si para embelezar sua flor. O mundo é maior e mais lindo que o que cabe na mente ocidental, que pensa em linha, em fila, alinhada. www.super.abril.com.br. Abraço. Davi

segunda-feira, 29 de junho de 2020

BHAGAVAD GITA - INTRODUÇÃO


Bhagavad Gita – A Mensagem do Mestre. INTRODUÇÃO. O Bhagavad Gita (1), isto é, A Sublime Canção, também designada como a Canção do Senhor ou a Mensagem do Mestre, é uma das obras mais importantes que existem no mundo. Este livro é altamente prezado pelos budistas e venerado como Escritura Sagrada pelos brâmanes, que, frequentemente, o citam como autoridade no que se refere à religião hindu. A filosofia nele exposta é um conjunto harmonioso das doutrinas de Patanjali, Kapila e dos Vedas. O Bhavagad Gita é um episódio da grande e antiga epopeia hindu, intitulada Mahabharata (2), que contém 250.000 versos, descrevendo a grande guerra entre os Kurus e os Pandavas, que tinha por objetivo a posse de Hastinapura, um dos centros mais importantes da civilização ariana. Em sua forma literal, apresenta o Bhagavad Gita um interessante entre Krishna (3) e Arjuna (4), tratando de um fato histórico. Mas os Mestres hindus dizem que este livro maravilhoso tem sete sentidos, e aconselham ao leitor esforçar-se por penetrar no seu mais profundo sentido interior ou espiritual. A leitura desta sublime canção é útil para todos: cada um, porém, poderá assimilar e compreender só aquilo que estiver em harmonia com o desenvolvimento de suas faculdades psíquicas e espirituais. A nossa tradução, baseando-se na edição inglesa do Yogi (5) Ramacháraca, comparada com a edição em sânscrito e latim, publicada por Aug. Guilh, von Schlegel (1767-1845), e com a edição do doutor Franz Hartmann (1838-1912), tem por fim auxiliar os leitores nesse desenvolvimento, a que todo o ser pensante deve dedicar a sua vida. Não podemos desvendar totalmente o sentido esotérico deste precioso livro, porque – conforme as leis da natureza superior – cada um há de descobri-lo por si mesmo. Acrescentamos, entretanto, notas e observações que serão úteis para aqueles que aspiram à Iniciação. A cena da ação histórica do Bhagavad Gita transporta-nos à planície da Índia, entre os rios Jumma e Jheed. Na capital do país, chamada Hastinapura (6), reinava, em tempos remotos, o rei Vichitraviria (7). Casou-se com duas irmãs, mas faleceu sem deixar filhos. Conforme o costume dos antigos povos orientais, Vyasa (8), irmão do falecido, tomou essas viúvas por esposas e teve delas dois filhos: Dhritarasshtra (9) e Pandu (10). Dhritarasshtra, o mais velho, gerou cem filhos (simbólicos) dos quais o primogênito chamava-se Duryodhana (11). O mais moço, Pandu, teve cinco filhos, todos grandes guerreiros, conhecidos como os cinco principais Pandavas. Dhritarashtra perdeu a vista, e continuou a ser rei só nominalmente, entregando o poder real a seu filho Duryodhana. Este, com o consentimento do pai, baniu do país os cinco filhos de Pandu, seus primos, os quais, porém, depois de muitas vicissitudes, viagens e aventuras, voltaram à sua terra natal. Acompanhados de muitos amigos e partidários, e formaram um poderoso exército aproveitando os guerreiros que lhes forneceram os reis vizinhos. Com as suas forças, marcharam para o campo dos Kurus, empreendendo uma campanha contra o ramo mais velho da família, os partidários de Dhritarashtra, os quais se reuniram sob o comando de Duryodhana, que substituía o seu pai cego. E, em nome da família dos Kurus , começou o ramo mais velho a opor resistência à invasão e aos ataques dos Pandavas. O Bhagav Gita apresenta-nos esses dois exércitos, preparados para o combate. O comando ativo dos Kurus, cujo chefe é Duryodhana, está nas mãos do velho general Bhishma (12), ao passo que o supremo comando dos Pandavas é o famoso guerreiro Bhima (13). Arjuna, um dos cinco príncipes Pandavas e um dos principais caracteres desta história, estava presente, ao lado de seus irmãos e acompanhado em seu carro de guerra por Krishna, reputado pelos hindus como encarnação humana do Espírito Supemo. Krishna, amigo e companheiro de Arjuna, a quem amava por causa de sua nobre alma e a resignação, com que esse suportava as perseguições. A batalha começou, quando Bhishma, o comandante dos Kurus, deu o sinal, tocando a sua corneta ou concha, sendo seu toque imitado pelos seus partidários, e respondido pelos Pandavas. Arjuna pediu a Krishna, ao princípio da batalha, que deixasse parar o carro no meio do espaço entre os dois exércitos inimigos, para ver de perto as principais pessoas que tomavam parte na luta. Vendo, então, seus parentes e amigos, tanto de um como do outro lado, ficou horrorizado por constatar que se tratava de uma guerra fraticida, e declarou à Krishna que antes queria morrer inerme e sem se defender, do que matar seus parentes. Krishna respondeu-lhe com um notável discurso filosófico que a maior parte do Bhagavad Gita, fazendo Arjuna reconhecer a necessidade dessa luta, em que ele e os seus partidários, finalmente, alcançariam completa vitória sobre os Kurus. O autor põe a narração de tudo isso na boca de Sanjaya (14), fiel servidor do rei cego, Dhritarashtra. Como já dissemos, além do sentido histórico, material ou literal, tem o Bhagavad Gita (como toda Escritura Sagrada: a Bíblia, os Vedas, o Alcorão, etc). Ainda vários graus do sentido espiritual ou esotérico. E para que os nossos leitores possam, com facilidade, descobri-lo, lhes diremos que a luta aqui descrita é a que se trava no interior de cada homem, entre o “Bem” e o “Mal”. Arjuna, o homem, acha-se colocado no campo de suas ações, entre dois exércitos inimigos, dos quais os Pandavas representam as forças superiores, e os Kurus, as forças inferiores da alma. Ali está ARjuna, o filho de Kunti (isto é, da alma) contra os seus parentes, os filhos de Dhritarashtra (vida material) ameaçado pelo egoísmo, pelos seus prazeres e pelas suas paixões. Que formam um poderoso exército de ilusões: a sua tarefa é vencê-las, para chegar ao conhecimento de sua verdadeira essência divina. Mas, como muitas dessas ilusões se lhe tornaram agradáveis, acha difícil combate-las. A seu lado, entretanto, tem valentes guerreiros: a sua Consciência, o Amor do Bem e da Verdade, a Obediência à Lei Suprema, a Fé, a Convicção, etc. Krishna, que lhe explica a verdadeira natureza humana e a sua relação com Deus, é o Verbo de Deus, Logos ou Cristo em nós, o nosso Superior, Imortal Ego Divino. Livro Bhagavad Gita – A Mensagem do Mestre.


Referência: 1. Bhagavad, variação do bhagavant, em sânscrito significa sublime: Gita, pronuncie-se guitá – canção. Nota-se que, nas palavras sânscritas, g tem sempre o som gutural. H é aspirado, sh lê-se como o ch ou x chiante (em chá, xarope). Â, i, û têm o som prolongado, y é um i brevíssimo, ch soa tch. 2. Moha – grande; Bhârata – Índia. 3. Krishna (sh lê-se x) representa o Homem-Deus, o nosso Ego (ou Eu) Superior. 4. Arjuna representa o homem no estado evolutivo. 5. Yoga significa união; yogi é aquele que realizou a sua união consciente com a Alma Divina. 6. Cidade (pura) do Elefante (hastina). 7. Vichitra – multicor, de muitas espécies; virya – poder. 8. Agrado, prazer. 9. Representante da vida material; instinto. 10. Representante do elemento espiritual; intelecto. A palavra pandu significa claro, pálido. 11. Dificilmente vencível; obstinação. 12. Terror; egoísmo. 13. Terrível; a vontade espiritual. 14. Sanjaya – vitorioso. Livro Bhagavad Gita – A Mensagem do Mestre. Abraço. Davi

domingo, 28 de junho de 2020

A QUEDA


Fraternidade Rosa Cruz. www.fraternidaderosacruz.net. Ensinamento Bíblico da Sabedoria Ocidental. "A Bíblia foi dada ao Mundo Ocidental pelos Anjos do Destino, que dão a cada um e a todos exatamente aquilo que necessitam para o seu desenvolvimento.” MAX HEINDEL (1865-1919). LIÇÃO. Nº 13. A QUEDA. Referência: Gênesis 3. Ao analisarmos o Gênesis, é necessário acrescentar algumas palavras a respeito da “QUEDA”, que é a pedra angular do Cristianismo popular. Se não tivesse havido a “QUEDA”, não haveria necessidade do “Plano de Salvação”. Quando a Terra saiu do caos, passou primeiramente pela fase vermelho-escura, conhecida pelo nome de Época Polar. A humanidade evoluiu então num corpo denso muito diferente do atual. Na fase ígnea - Época Hiperbórea - o corpo vital foi agregado ao denso e o Homem era então uma espécie de planta, isto é, possuía veículos e consciência semelhantes aos das atuais plantas. Ou melhor, uma consciência parecida com a que temos atualmente num sono sem sonhos, quando os corpos denso e vital se encontram abandonados no leito. Na Época Hiperbórea, o corpo denso tinha a aparência de um enorme saco de gás que flutuava por cima da Terra ígnea. O dito corpo emitia esporos que se desenvolviam e eram logo utilizados por outras entidades que os habitavam. Naquele tempo, o Homem possuía os dois sexos, sendo hermafrodita como as plantas. Na Época Lemúrica, quando a Terra gradativamente se solidificava, formaram-se grandes crostas semelhantes a ilhas no meio dos mares em ebulição. E o corpo do Homem também se solidificou, adquirindo certa semelhança com o que possui hoje. Tinha então a aparência de um macaco: o tronco era curto, os membros enormes, os calcanhares projetados para trás, faltando, quase por completo, a parte superior da cabeça. O Homem vivia numa atmosfera de vapor a que os ocultistas chamaram névoa ígnea. Não tinha pulmões e respirava por meio de guelras. Possuía interiormente um órgão parecido com uma bexiga que enchia, aspirando ar quente a fim de o ajudar a transpor as enormes aberturas da terra produzidas pelas erupções vulcânicas. Por trás da cabeça, projetava-se um órgão que se encontra agora no interior e que os anatomistas chamam de glândula pineal. Ou terceiro olho, se bem que nunca tenha sido um olho, mas um órgão de sensação. O próprio corpo não possuía, nesse tempo, sensação alguma, mas, quando se aproximava muito de uma cratera vulcânica, o calor percebido por esse órgão obrigava-o a afastar-se antes de o corpo ser destruído. O corpo denso tinha então se solidificado a tal ponto que era já impossível ao Homem continuar a sua reprodução por meio de esporos. E foi necessário que desenvolvesse um órgão do pensamento, o cérebro. A força criadora de que nos valemos agora para construir estradas de ferro, navios, aviões, etc., etc. No mundo exterior foi utilizada, então, na construção de órgãos. Como todas as demais forças, era bipolar, positiva e negativa. Um dos polos dirigiu-se para cima, construindo o cérebro, deixando o outro disponível para a propagação. O Homem deixou de ser uma unidade criadora completa. Cada ser humano só possuía metade da força criadora, sendo-lhe necessário buscar o complemento fora de si próprio. O Homem não era então o ser consciente que é agora. Tinha mais consciência do Mundo Espiritual que do Mundo Físico; mal podia ver o seu corpo físico e não era consciente do ato gerador. A afirmação bíblica de que Jeová adormecia o Homem quando este devia reproduzir-se é, pois, correta. Não havia dor nem dificuldades no parto e, por causa da consciência extremamente incipiente do seu ambiente físico, o Homem não percebia a perda do seu corpo denso pela morte, nem da sua entrada em um novo veículo físico em cada renascimento. Naquela época, “os seus olhos não estavam abertos” e os seres humanos não tinham consciência uns dos outros no Mundo Físico, ainda que despertos no Mundo Espiritual. Também, sob a direção dos Anjos, particularmente aptos para ajudá-los no mister relativo à propagação, eram reunidos em grandes templos, em certas épocas do ano, quando as linhas de força planetária eram propícias. Ali, o ato da geração era cumprido como um sacrifício religioso. Quando o Homem primitivo - ADÃO - teve contato com a mulher, o espírito durante um momento penetrou a carne, e “ADÃO conheceu a mulher”, quer dizer, tornou-se consciente da sua presença física. É assim que a Bíblia emprega em todas as suas páginas essa expressão casta como quando se diz que “Elcana conheceu a sua mulher Ana e ela teve por fruto a Samuel”, I Samuel 1,19. Igualmente, no Novo Testamento, quando o Anjo disse a Maria que seria a mãe do Salvador, ela respondeu: “Como pode ser isso, pois que não conheço varão?, Lucas 1,34.” O pecado é um ato contrário à Lei. Enquanto a humanidade se propagava sob a direção dos Anjos, que possuíam conhecimento das linhas de forças cósmicas, o parto não era doloroso, tal como sucede atualmente com animais selvagens, que se acasalam somente em épocas determinadas do ano, sob a direção dos seus espíritos-grupo. Mas quando o Homem deixou-se guiar pelos conselhos de certos espíritos (os Lucíferes) colocados a meio caminho entre a humanidade e os Anjos. Começou a procriar em qualquer época do ano, descuidando-se em observar as linhas cósmicas. O pecado de “comer da árvore do conhecimento” foi a causa do parto com dor que Deus anunciou a Eva. Ele não a amaldiçoou; somente declarou o que resultaria do uso ignorante da função criadora. Recordemos que os Espíritos Lucíferes formavam parte da humanidade do Período Lunar, que são os atrasados da onda de vida dos Anjos e que eram demasiado avançados para tomar um corpo denso. Mas necessitavam de um “órgão interior” para poder adquirir conhecimento. Além disso, podiam trabalhar por intermédio de um cérebro físico, coisa que Jeová ou os Anjos não podiam fazer. Esses Espíritos penetraram na medula espinhal e no cérebro da mulher, cuja imaginação tinha sido despertada pela educação peculiar à raça Lemúrica, e falaram-lhe. Como a sua faculdade de percepção era sobretudo interior, ela recebeu deles a impressão de uma imagem e viu-os sob a forma de serpentes, pois haviam penetrado no seu cérebro pela medula espinhal que tem a forma de uma serpente. A educação da mulher compreendia a observação das perigosas proezas e combates dos homens que necessitavam desenvolver a vontade, resultando desses combates a morte e o desaparecimento de muitos corpos físicos. A consciência incipiente de que algo estranho acontecia levava a imaginação da mulher a interrogar-se a respeito da origem das coisas incomuns que percebia. Tinha consciência dos espíritos que haviam perdido os seus corpos físicos, mas a sua percepção imperfeita do Mundo Físico não lhe permitia revelar a seus amigos que tinham perdido os seus corpos densos nos combates. Os Espíritos Lucíferes resolveram-lhe o problema “abrindo os seus olhos”. Revelaram-lhe o seu próprio corpo e o do homem e ensinaram-na como ambos podiam vencer, conjuntamente, a morte, criando novos corpos. Assim, a morte já não podia afetá-los porque, à sua vontade, como Jeová, podiam criar novos corpos. Lúcifer abriu os olhos da mulher. Ela buscou a ajuda do homem e abriu-lhe os olhos. Assim, de um modo bastante real, ainda que imperfeito, eles se conheceram, tendo pela primeira vez consciência um do outro e também do Mundo Físico. Conheceram a morte e a dor, o que permitiu diferenciar o homem interior do corpo que o reveste e que renova cada vez que lhe é necessário para avançar no caminho da evolução. Deixaram de ser autômatos e converteram-se em seres livres e pensadores pelo preço da sua sujeição à dor, à enfermidade e à morte. Que a interpretação de “comer o fruto” é o símbolo do ato gerador prova-se pela declaração de Jeová que eles deveriam morrer e que a mulher teria seus filhos com dores. Jeová sabia que a atenção do Homem tinha sido chamada sobre o seu invólucro físico (o corpo) e de que se tornaria consciente da sua perda com a morte. Sabia também que o Homem não possuía ainda a sabedoria necessária para dominar as suas paixões e regular as suas relações sexuais, observando a posição dos planetas; por conseguinte, o parto com dor decorreria do abuso indiscriminado do ato. Para os comentadores da Bíblia, tem-se constituído num enigma a relação que poderia existir entre a ação de comer um fruto e o nascimento, mas o problema fica resolvido se compreendermos que o ato de comer o fruto é a expressão simbólica do ato da geração, por meio da qual o Homem se tornaria “semelhante a Deus”, pois conhece os seus semelhantes e é capaz de engendrar novos corpos. Na última parte da Época Lemúrica, quando o Homem se arrogou a prerrogativa de realizar o ato gerador a seu capricho, era então a sua vontade poderosa o que lhe permitia fazê-lo. “Comendo o fruto da Árvore do Conhecimento”, não importa em que momento, ele era capaz de criar um corpo novo cada vez que perdia o anterior. Nós estamos habituados a pensar que a morte é um acontecimento terrível. Se o Homem tivesse comido também da “Árvore da Vida”, e tivesse aprendido o segredo da vitalização perpétua do seu corpo, ter-se-ia encontrado em situação ainda pior. Nós sabemos que nossos corpos ainda não são perfeitos e que, em épocas anteriores, eram extremamente primitivos. Por conseguinte, a ansiedade causada às Hierarquias Criadoras pelo temor de que o Homem “comesse também da Árvore da Vida” e se tornasse capaz de renovar o seu corpo vital era bem fundada. Se ele tivesse feito isso, tornar-se-ia, em verdade, imortal, mas não teria sido capaz de progredir. A evolução do Ego depende de seus veículos e, se não fosse capaz de renová-los e melhorá-los por meio da morte e do renascimento, teria estacionado. Diz a máxima ocultista que quanto mais amiúde morremos, mais capazes somos de viver melhor, pois cada nascimento nos oferece uma nova oportunidade. Vimos que os conhecimentos adquiridos pelo Homem por meio do cérebro e do egoísmo dele resultante foram adquiridos às expensas do poder que possuía de criar por si mesmo. Conquistou o seu livre arbítrio pelo preço do sofrimento e da morte; mas quando aprender a utilizar seu intelecto para o bem da humanidade, obterá um poder espiritual sobre a vida e, além disso, será guiado por uma sabedoria inata tão superior à consciência atual do cérebro, como esta é superior à consciência dos animais. A queda na geração foi necessária para a construção do cérebro; mas isso não é, afinal, senão um meio indireto de obter conhecimento e que será suplantado por uma ligação direta com a sabedoria da Natureza de tal modo que o Homem, sem a ajuda de qualquer colaboração estranha, será capaz de utilizar para gerar novos corpos. A laringe pronunciará a “Palavra Perdida”, o “Fiat Criador”, que, sob a direção de grandes Instrutores, foi empregada na antiga Lemúria para a criação de plantas e animais. Então, o Homem será, em verdade, um Criador, não à maneira lenta e laboriosa de hoje, mas pelo uso da palavra própria ou fórmula mágica que o tornará capaz de criar um corpo.

Estude cuidadosamente esta lição e depois responda, de forma clara e concisa, às perguntas formuladas a seguir. Mande-nos suas respostas, não se esquecendo nunca de mencionar seu nome e endereço completos. Elas serão examinadas e devolvidas com a lição seguinte. 1 - Descreva a condição do Homem na Época Lemúrica. 2 - A quem foi confiada a propagação da espécie nessa Época? 3 - Quem foram os Lucíferes? 4 - Explique como esses espíritos se manifestaram à mulher e o que lhe revelaram. 5 - Cite a passagem da Bíblia onde Jeová menciona os resultados da ação de “comer do fruto da Árvore do Conhecimento”, dando o seu significado. 6 - Explique o temor das Hierarquias de que o Homem comesse também da “Árvore da Vida”. 7 - Que poder adquiriremos quando a força criadora for propriamente transmutada pelo Homem? Endereço: FRATERNIDADE ROSACRUZ IN LUSITANIA. Rua de Cedofeita, nº 455, 1º andar, sala 8. 4050-181. Porto – Portugal. www.frc.lusitania@gmail.com. www.fraternidaderosacruz.net. Abraço. Davi.