terça-feira, 6 de junho de 2017

II. O PODER LATENTE DA ALMA.

Cristianismo. Texto de Watchman Nee (1903-1972). II. O PODER LATENTE DA ALMA. VISTO SOB O ASPECTO RELIGIOSO. TODAVIA ISTO não acontece apenas no cristianismo. Os babilônios, os árabes, os budistas, os taoístas e os hindus, todos tentam, por seus próprios modos, liberar o poder que Adão legou à nossa alma. Em qualquer religião, sejam quais forem os meios ou modos de instrução, jaz um princípio comum por trás de todas as aparentes diferenças. Este princípio comum visa subjugar a carne exterior, com a finalidade de libertar o poder da alma de todos os tipos de escravidão, para uma expressão mais livre. Algumas lições de instrução dadas nessas religiões visam destruir a obstrução do corpo, outras a união do corpo e da alma e outras mais o fortalecimento da alma por meio de treinamento, capacitando-a assim, a vencer o corpo. Sejam quais forem os meios, o princípio por trás de todos eles é o mesmo. É importante que saibamos isso, caso contrário seremos enganados. Eu não sei como as pessoas são informadas a respeito desse maravilhoso poder latente na alma do homem, cuja liberação, atualmente limitada pela carne, resultará na demonstração de poder miraculoso, alcançando até mesmo a posição de um "mágico" ou "Budha". Provavelmente elas são informadas pelo diabo, o espírito maligno. Suas explicações podem variar, mas o princípio básico é o mesmo, a saber, o uso de meios especiais para liberar o poder da alma. Elas podem não usar como nós o termo poder da alma, porém, o fato é evidente. Por exemplo: no budismo e no taoísmo, e igualmente em algumas seitas do cristianismo, poder especial sobrenatural está disponível a todos eles, para efetuar milagres na cura de doenças e na predição do futuro. Tome como exemplo as práticas ascéticas e os exercícios do taoísmo, ou até mesmo a forma mais simples de meditação abstrata: tudo isso é executado segundo o princípio de subjugação do corpo sob a alma, visando à liberação do seu poder. Não é de se admirar que muitas coisas miraculosas têm acontecido, as quais não podemos rejeitar como superstições. Gautama (Budha) Sidharta foi um ateísta. Este é um consenso de muitos eruditos e críticos com respeito aos ensinamentos do budismo. Ele cria na transmigração da alma, bem como no nirvana (esse estado, segundo o Dicionário Herança Americana da Língua Inglesa, é "de absoluta ventura, caracterizando pela liberação do ciclo de reencarnações e conquistas, através da extinção do ego-Tradutor). Não tenho a mínima intenção de dissertar sobre o budismo; só quero explicar porque e como muitas maravilhas têm sido realizadas nessa religião. Existe, no budismo, um ensinamento sobre a fuga do mundo. Aqueles que aceitam o voto budista devem se abster do casamento e da comida. Não devem matar nenhuma coisa vivente. Devido às práticas ascéticas, iludem, eventualmente, alcançar a eliminação de todo alimento. Alguns monges de alto grau podem até mesmo penetrar o passado desconhecido e predizer o futuro. Eles realizam muitas maravilhas por meio da mágica budista. São capazes de profetizar coisas vindouras quando o que eles chamam de "coração de sangue" jorra. O empenho em todos estes tipos de abstinência e práticas ascéticas flui de um único princípio dominante: o budista está tentando quebrar todos os laços físicos e materiais, com o fim de liberar o poder da sua alma. Conheço algumas pessoas mais idosas do que eu, que se ligaram ao Clube da Unidade. Elas e seus colegas membros do clube praticam a meditação abstrata e assim por diante. Eles me contam que cada degrau que penetram tem sua própria dimensão de luz. A luz que eles percebem segue a verdade que penetram. Creio no que dizem, pois são capazes de serem liberados da repressão do corpo e assim, libertam o poder que Adão possuía antes da sua queda. Não há nada de extraordinário nisso. A moderna Igreja da Ciência Cristã foi fundada pela senhora Mary Baker Eddy (1821-1910). Ela negou a existência das doenças, do sofrimento, do pecado e da morte (embora ela já tenha morrido). Visto que, segundo seus ensinamentos, não existe tal coisa como doença, sempre que alguém estiver doente ele só precisa exercitar sua mente contra qualquer reconhecimento de dor e estará curado. Isto significa então, que se alguém crê que não existe nenhuma doença, ele não ficará doente. Do mesmo modo, se alguém não crê no pecado ele não pecará. Pelo treinamento da mente, emoção e vontade do homem, ao ponto da negação absoluta da existência destas coisas, considerando-as falsas e ilusórias, descobrir-se-á que elas realmente não existem. Quando este ensinamento foi a princípio publicado, muitas pessoas se opuseram a ele. Os médicos, em especial, fizeram oposição, pois se isso fosse verdade, não haveria mais nenhuma necessidade deles. Todavia, ao prosseguirem seus exames nas pessoas que haviam sido curadas pela Ciência Cristã, aqueles médicos não puderam repudiá-la como falsa. Por conseguinte, mais e mais pessoas creem e mais médicos e cientistas famosos abraçam este ensino. Isto não é de tudo surpreendente, porque existe um reservatório de tremendo poder na alma, esperando apenas ser libertado do confinamento da carne. VISTO CIENTIFICAMENTE. VEJAMOS AGORA este assunto cientificamente. O campo da psicologia tem empreendido pesquisas sem precedentes na era moderna. O que é psicologia? A própria palavra em si é uma combinação de duas palavras gregas: "psiquê", que significa alma, e "logia" que significa discurso. Portanto, psicologia é a "ciência da alma". A pesquisa utilizada pelos cientistas modernos é apenas uma sondagem na parte da alma do nosso ser. Ela se limita a esta parte, não chegando a tocar no espírito. A parapsicologia moderna começou com Franz Anton Mesmer (1734-1815). Sua primeira descoberta, feita em 1778, é agora conhecida como Mesmerismo (hipnotismo conforme praticado pelo próprio Mesmer). Seus discípulos superaram-no através de suas próprias descobertas, assim como o verde é derivado do azul, mas supera o azul. Alguns dos seus experimentos são quase incríveis em seus resultados. O método deles, não de modo imprevisto, visa descarregar aquele poder oculto dentro da alma humana. Na clarividência, por exemplo, (que é o poder de perceber coisas que estão fora do alcance natural dos sentidos), ou na telepatia (comunicação pelo cientificamente desconhecido ou meios inexplicáveis, como pelo exercício do poder místico), pessoas são capazes de ver, ouvir ou sentir o cheiro de coisas que estão há milhares de quilômetros. Tem se afirmado que o Mesmerismo "é a rocha da qual todas as ciências mentais foram cortadas" (J. Penn Lewis). Antes da época de Mesmer, a pesquisa psíquica não era uma ramificação independente da ciência; ela ocupava um lugar insignificante na ciência natural. Mas, devido a estas surpreendentes descobertas, ela veio a ser um sistema em si mesma. Desejo atrair sua atenção não ao estudo da psicologia, mas ao fato de que todos aqueles fenômenos miraculosos são obtidos através da liberação do poder latente da alma do homem, aquela capacidade que ficou oculta no homem após a queda. Por que isto é chamado de poder "latente"? Porque na queda de Adão, Deus não havia removido aquele poder "sobrenatural" que certa vez ele possuíra. Em vez disso, este poder caiu com ele e ficou aprisionado em seu corpo. O poder estava lá, só que não podia ser manifestado. Daí o termo poder latente. Os fenômenos da nossa vida humana tais como falar e pensar, são habilidades bastante notáveis; porém, o poder latente que está oculto no homem é também impressionante. Se este poder fosse ativado, muitos outros fenômenos notáveis seriam manifestados em nossas vidas. As muitas ocorrências miraculosas que a parapsicologia moderna descobre, de modo algum atestam seu caráter sobrenatural. Elas simplesmente provam que o poder latente da alma pode ser liberado pelos meios apropriados. Uma das 'descobertas' que seguiram após Mesmer ter obtido o conhecimento básico das forças misteriosas latentes na constituição humana, mostrou como o movimento avançou de modo surpreendente, uma vez que a chave foi obtida. Em 1784, um aluno de Mesmer descobriu a clarividência como resultado do sono Mesmérico e acidentalmente tropeçou na Leitura do Pensamento: Jesse Penn Lewis(1861-1927) “A telepatia é a comunicação entre mente e mente de forma diferente e não pelos conhecidos canais dos sentidos. Ela capacita uma pessoa a usar sua própria força psíquica para determinar o pensamento dos outros, sem a necessidade de ser informada. O Hipnotismo, a Neurologia e a Psicometria... e outras inumeráveis ‘descobertas’ se seguiram à medida que os anos passaram". A Hipnose é uma condição de sono artificialmente induzida, na qual um indivíduo fica extremamente responsivo às sugestões feitas pelo hipnotizador. E a Neurologia e Psicometria é a descoberta de que a mente pode agir do lado de fora do corpo humano e de que a Psicometria sensitiva' pode ler o passado como um livro aberto. Depois veio uma descoberta chamada patetismo, significando uma condição peculiar produzida pela vontade, em que o sujeito pode 'lançar sua mente' a algum lugar distante e ver, ouvir, sentir, cheirar e provar o que está acontecendo lá. Depois ...veio uma descoberta ...chamada Patetismo pela qual a mente poderia retirar de si mesma a consciência de sofrimento e curar doenças. No início os homens de ciência apenas seguiram estas 'descobertas' como ramificações da Ciência Natural" (J. Penn Lewis). Mas, devido à multiplicação desses fenômenos miraculosos, a parapsicologia logo se tornou uma ciência própria. Para os praticantes dessa ciência, estes fenômenos são bastante naturais. Para nós são ainda mais naturais, por sabermos que são simplesmente as consequências da liberação do poder latente. Os psicólogos afirmam que no interior do homem existe uma tremenda ordem de poder: o poder do autocontrole, o poder criativo, o poder reconstrutivo, o poder da fé, o poder de estimular e o poder de revivificar. Tudo isso pode ser libertado pelos homens. Um livro de psicologia vai tão longe a ponto de proclamar que todos os homens são deuses, só que este deus está aprisionado dentro de nós. Sendo ele libertado dentro de nós, nos tornamos todos deuses. Quão semelhantes são estas palavras àquelas de Satanás! A REGRA COMUM. SEJA NA China ou nos países ocidentais, todas estas práticas de respiração, exercício ascético, hipnotismo, predições, reações e comunicações, são apenas a liberação e manifestação do poder interior. Imagino que todos já ouvimos algo dos atos miraculosos do hipnotismo. Na China existem adivinhos cujos atos de predição são bem conhecidos. Todo dia eles entrevistam apenas uns poucos clientes. Devotaram muito tempo e energia no aperfeiçoamento de sua arte, e suas predições são maravilhosamente exatas. Os budistas e taoístas têm suas proezas miraculosas. Embora não faltem evidências de engano, as manifestações sobrenaturais são aparentemente inegáveis. A explicação para estes fenômenos é simples: eles, por acaso ou dirigidos pelo espírito maligno, descobrem algum método ou métodos de práticas ascéticas que os capacitam a executar proezas extraordinárias. Pessoas comuns não sabem que possuem este poder nelas. Outras, com algum conhecimento científico, sabem que este poder está oculto nelas, embora não possam dizer como é isso. Nós que temos sido ensinados por Deus sabemos que esta capacidade é o poder latente da alma do homem, o qual está agora confinado pela carne, através da queda de Adão. Este poder caiu com o homem de tal modo que, de acordo com a vontade de Deus, não deveria ser mais usado. Mas é o desejo de Satanás desenvolver esta capacidade latente, a fim de fazer o homem sentir-se tão rico quanto Deus, segundo o que havia prometido. Assim o homem adorará a si mesmo, embora indiretamente seja uma adoração a Satanás. Por isso, Satanás está por trás de todas estas pesquisas para psíquicas. Ele está fazendo o melhor que pode para usar a energia latente da alma, para alcançar seu alvo. Por esta razão, todos os que desenvolvem seu poder da alma, não podem evitar a comunicação com o espírito maligno e de serem usados por ele. George Hawkins Pember (1836-1910), em seu livro "As Eras Mais Primitivas da Terra"; mencionou este assunto de outro ângulo: "Dois métodos parecem existir, através dos quais os homens podem alcançar conhecimento e poder proibidos e obter acesso a uma relação proibida. Aquele que seguir o primeiro (...) deve colocar seu corpo sob o controle de sua própria alma, a fim de poder projetá-la (...) o desenvolvimento dessas faculdades é, sem dúvida, possível somente a poucos, e até mesmo no caso deles, só podem ser alcançados por meio de um longo e severo curso de treinamento, cujo propósito é quebrar o corpo levando-o a uma completa sujeição e produzir uma perfeita apatia com respeito a todos os prazeres, dores e emoções desta vida, a fim de que nenhum elemento perturbador possa desordenar a tranquilidade da mente do aspirante e impedir seu progresso (...) o segundo método é por meio de uma submissão passiva ao controle de inteligências exteriores (...)" Devemos prestar atenção aqui principalmente no primeiro método, isto é, a ativação do poder latente da alma de alguém. Seu ponto de vista coincide com o nosso completamente. As práticas ascéticas dos budistas, a respiração abstrata do taoísmo, a meditação e concentração mental e a meditação dos hipnotizadores, a sessão silenciosa dos pertencentes ao Clube da Unidade e todas as variedades de meditações, contemplações, os pensamentos concentrados em não pensar em absolutamente nada, e centenas de atos semelhantes que as pessoas praticam, seguem a mesma regra, não importando quão variados sejam seus conhecimentos e fé. Todas estas coisas fazem nada mais do que levar os pensamentos externos e confusos, as emoções instáveis e a vontade fraca do homem a um lugar de tranquilidade, com sua carne totalmente subjugada, tornando assim possível a liberação do poder latente da alma. A razão porque tal coisa não se manifesta em todos, é porque nem todas as pessoas podem romper a barreira da carne e levar todas as expressões físicas comuns à perfeita tranquilidade. ALGUNS FATOS. HÁ MUITOS anos passados eu travei conhecimento com um indiano. Ele me falou sobre um amigo no hinduísmo que podia revelar, com precisão, os segredos das pessoas. Certa vez ele desejou testar a capacidade do seu amigo hindu. Convidou-o então, à sua casa e com toda certeza o hindu pode revelar tudo o que tinha sido colocado dentro de uma gaveta na casa. Mais tarde, meu conhecido indiano solicitou a seu amigo hindu para ficar do lado de fora e aguardar, enquanto ele embrulhava um valioso objeto em pano e papel antes de colocá-lo dentro de uma caixa e pô-lo numa gaveta trancada. Seu amigo retornou ao interior da casa e disse qual era o objeto valioso sem errar. Isto era inquestionavelmente devido ao exercício do poder da alma, que podia penetrar através de todas as barreiras físicas. A senhora Jessie Penn-Lewis (1861-1927), a quem citamos atrás, certa vez escreveu o seguinte: "Uma vez encontrei, no norte da índia, um homem que tinha acesso aos mais altos círculos da sociedade em Simla, a residência de verão do governo da índia, o qual me contou certa noite sobre sua conexão com os Mahatmas da índia e em outros países da Ásia. Ele disse que conhecia os grandes eventos políticos semanas e meses antes deles ocorrerem. ‘Eu não dependo de notícias em telegramas e jornais. Eles registram acontecimentos passados, mas nós os conhecemos antes de ocorrerem' disse ele. Como pode um homem em Londres saber o que acontece na Índia e vice-versa? Explicaram-me que era devido à ‘força da alma' sendo projetada pelo homem que conhecia o segredo dos Mahatmas" (Revista O Vencedor de 1921-23, citado em "Alma e Espírito" por J.P. Lewis). Citando o livro "Dinâmicas Espirituais" de Wild, G. H. Pember (1836-1910) registrou que um perito "pode conscientemente ver as mentes dos outros, agir através da sua força da alma sobre espíritos externos, acelerar o crescimento de plantas, apagar o fogo e, como Daniel, subjugar animais selvagens e ferozes. Pode também enviar sua alma a uma distância e de lá, não apenas ler os pensamentos dos outros, mas falar e tocar naqueles objetos distantes; não apenas isso, pode manifestar a seus amigos distantes seu corpo espiritual na semelhança exata daquela da carne. O perito pode, além do mais, criar, da múltipla atmosfera circunstancial, a semelhança de qualquer objeto físico ou ordenar a eles que nenhuma à sua presença": (Pember op cit. pag. 252). A ATITUDE DO CRISTÃO. ESTES FENÔMENOS miraculosos na religião e na ciência são apenas a manifestação do poder latente do homem, o qual, por sua vez, é usado pelo espírito maligno. Todos eles seguem uma regra comum: romper o cativeiro da carne e liberar o poder da alma. A diferença entre nós (os cristãos) e eles, encontra-se no fato de que todos os nossos milagres são realizados por Deus através do Espírito Santo. Satanás usa a força da alma do homem para manifestar sua força. O poder da alma do homem é o instrumento de operação de Satanás, através do qual ele realiza seus fins malignos. Deus, entretanto, nunca opera com o poder da alma, pois é sem utilidade para Ele. Quando nascemos de novo, nós nascemos do Espírito Santo. Deus opera pelo Espírito Santo em nosso espírito renovado. Ele não tem nenhum desejo de usar o poder da alma. Desde a queda Deus proibiu o homem de usar novamente seu poder original da alma. Por essa razão é que o Senhor Jesus frequentemente declara como precisamos perder nossa vida da alma, isto é, nosso poder da alma. Deus deseja que nós, hoje, não usemos este poder de modo algum. Não podemos dizer que todas as maravilhas realizadas no mundo são falsas; temos que admitir que muitas delas são reais. Porém, todos estes fenômenos são produzidos pelo poder latente da alma após a queda de Adão. Como cristãos, devemos ser cautelosos nesta última era, para não despertarmos a energia latente da alma, seja proposital ou involuntariamente. Voltemo-nos novamente para as Escrituras lidas no começo. Notamos que no fim da era a obra particular de Satanás e dos espíritos malignos sob sua direção será comerciar com o poder da alma do homem. A intenção é simplesmente encher este mundo com o poder latente da alma. Um correspondente de uma revista fez a seguinte comparação "as forças da psique (alma), dispostas contra as forças do pneuma (espírito)". Todos os que têm discernimento espiritual e sensibilidade, conhecem a realidade dessa declaração. O poder da alma lança-se sobre nós como uma torrente. Fazendo uso da ciência (psicologia e parapsicologia), religião e até mesmo de uma igreja ignorante (em sua busca exagerada de manifestações sobrenaturais e na ausência de controle quanto a dons sobrenaturais segundo a direção da Bíblia), Satanás está levando este mundo a se encher do poder das trevas. Todavia este é apenas o preparo último e final de Satanás para a manifestação do anticristo. Aqueles que são realmente espirituais (isto é, aqueles que rejeitam o poder da alma), percebem tudo ao redor deles, a aceleração da oposição dos espíritos malignos. A atmosfera inteira está tão escurecida que eles acham difícil avançar. Porém, esta é também a preparação de Deus para o arrebatamento dos vencedores. Precisamos entender o que é poder da alma e o que esta força da alma pode fazer. Deixe-me dizer que, antes da volta do Senhor, coisas semelhantes a estas serão grandemente aumentadas, talvez mais do que cem vezes. Satanás realizará muitas proezas surpreendentes através do uso do poder da alma, a fim de enganar os eleitos de Deus. Estamos aproximando agora do tempo da grande apostasia. "O mover está aumentando rapidamente", observou a Sra. Penn Lewis. “A mão do arque inimigo de Deus e do homem está no leme e o mundo se apressa para a hora negra, quando, por um breve período, Satanás será então o deus desta era', governando através de um super-homem cuja ‘parousia'(aparecimento) não poderá demorar". O que é o poder da alma? Indo às Escrituras e sob a iluminação do Espírito Santo, os crentes devem reconhecer que este poder é tão infernal, ao ponto de se espalhar sobre todas as nações sobre a terra e transformar o mundo inteiro num caos. Satanás está utilizando agora este poder da alma para servir como um substituto para o evangelho de Deus e seu poder. Ele tenta cegar os corações das pessoas por meio dos prodígios do poder da alma para aceitar uma religião Sem sangue. Ele usa também as descobertas da ciência psíquica para lançar dúvidas sobre o valor de ocorrências sobrenaturais no cristianismo, levando pessoas a considerá-las como sendo de igual modo, nada mais do que o poder latente da alma. Ele visa substituir a salvação de Cristo pela força psíquica. O esforço moderno de mudar maus hábitos e temperamentos pela hipnose é um precursor a este objetivo. Os filhos de Deus só podem ser protegidos pelo conhecimento da diferença entre espírito e alma. Se a obra profunda da cruz não for aplicada à nossa vida adâmica, e se pelo Espírito Santo uma união de vida real não for realizada com o Senhor ressurreto, podemos inconscientemente desenvolver nosso poder na alma. Aqui pode ser útil citar novamente a Sra. Penn Lewis: "O Campo de batalha hoje é 'a força da alma' versus 'a força do espírito'. O Corpo de Cristo está, pela energia do Espírito Santo nele, avançando para o céu. A atmosfera do mundo está obscurecendo-se com as correntes psíquicas, atrás das quais estão concentrados os inimigos dos ares. A única segurança para o filho de Deus é um conhecimento experimental da vida de união com Cristo, onde ele habita com Cristo em Deus, acima dos ares envenenados, nos quais o príncipe das potestades do ar realiza seu trabalho. Somente o Sangue de Cristo para purificação, a Cruz de Cristo para identificação na morte e o poder do Senhor Ressurreto e Assunto pelo Espírito Santo, continuamente declarado, revestido e exercido, conduzirá os membros do corpo em vitória para se unirem ao Cabeça que ascendeu ao céu." Minha esperança para hoje é que você possa ser ajudado a conhecer a fonte e as operações do poder latente da alma. Que Deus possa nos impressionar com o fato de que onde a força da alma está, aí está também o espírito maligno. Não devemos usar o poder que provém de nós, devemos antes, usar o poder que procede do Espírito Santo. Que nós possamos recusar principalmente o poder da alma, a fim de que não venhamos a cair nas mãos de Satanás, pois, o poder da alma devido ao pecado de Adão, já caiu sob o domínio de Satanás e se tornou seu último instrumento de trabalho. Nós, por essa razão, precisamos exercer grande cuidado contra o engano de Satanás. Livro O Poder Latente da Alma. Abraço. Davi.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

I. O PODER LATENTE DA ALMA.

Cristianismo. Texto de Watchman Nee (1903-1972). O PODER LATENTE DA ALMA. Comentários dos Editores (Edição brasileira - Editora dos Clássicos). Muito se fala hoje sobre guerra espiritual. Há, no entanto, uma ênfase desequilibrada no assunto, pois nada é dito sobre o poder inato da alma do homem. Nesta preciosa obra, veremos que uma das grandes estratégias do adversário é levar os homens a liberar o poder latente da alma. Esse é um dos seus mais fortes e eficazes instrumentos para falsificar a obra de Deus, enganar os homens, iludir os cristãos e preparar o mundo para o recebimento do anticristo. O resultado é que não apenas no mundo, mas também entre os filhos de Deus, vêm-se muitas manifestações da alma sendo consideradas como obra de Deus. De fato, como alerta o autor, “a situação hoje é perigosa”. Por essa razão, esta mensagem é uma poderosa advertência profética sobre os sutis perigos com respeito ao especial relacionamento, nos últimos dias, entre a alma do homem e Satanás. Ao iniciar a Série Alimento Sólido, a qual visa atender à necessidade de suprir os santos com alimento espiritual mais profundo, consideramos um grande privilégio publicar esta obra singular. Tendo sido publicado pela primeira vez em 1988 por Edições Parousia, O Poder Latente da Alma é uma das obras mais sérias sobre a batalha espiritual dos últimos dias e uma das mais procuradas pelo público cristão brasileiro. Agora, em sua versão revisada e enriquecida com notas de rodapé e apêndices de A. W. Tozer (1897-1963) –  como Provar os Espíritos) e D. M. Panton (1870-1955) – Testes Para o Sobrenatural, artigo este acrescido de uma carta de Margaret Barber (1866-1929), é, com certeza, uma indispensável ferramenta para pastores, líderes e cristãos que buscam uma vida séria com Deus. Uma vez que “o alimento sólido é para os maduros” Hebreus 5.14, provavelmente somente aqueles que têm avançado da superfície da vida espiritual para o estágio da vida cristã mais profunda poderão tocar na realidade espiritual dessa mensagem. Diante desse desafio, somos encorajados a ir ao Senhor e humildemente pedir Sua iluminação enquanto meditamos no que o autor nos apresenta. Com temor e tremor Daquele que está no trono, Os editores Alfenas – MG, Brasil, outubro de 2000. TRADUZIDO DA VERSÃO ORIGINAL EM CHINÊS “O Poder Oculto da Mente” (1933) O PODER LATENTE DA ALMA. Nesta obra o autor chama a atenção para uma pequena frase que se encontra no Livro de Apocalipse 18, onde se diz que a Babilônia comercializa com escravos e até almas de homens. “Depois destas coisas vi descer do céu outro anjo que tinha grande autoridade, e a terra foi iluminada com a sua glória. E ele clamou com voz forte, dizendo: Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e guarida de todo espírito imundo, e guarida de toda ave Imunda e detestável. Porque todas as nações têm bebido do vinho da ira da sua prostituição, e os reis da terra se prostituíram com ela; e os mercadores da terra se enriqueceram com a abundância de suas delícias. Ouvi outra voz do céu dizer: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos sete pecados, e para que não incorras nas suas pragas. Porque os seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das iniquidades dela. Tornai a dar-lhe como também ela vos tem dado, e retribuí-lhe em dobro conforme as suas obras; no cálice em que vos deu de beber dai-lhe a ela em dobro. Quanto ela se glorificou, e em delícias esteve, tanto lhe dai de tormento e de pranto; pois que ela diz em seu coração: Estou assentada como rainha, e não sou viúva, e de modo algum verei o pranto. Por isso, num mesmo dia virão as suas pragas, a morte, e o pranto, e a fome; e será consumida no fogo; porque forte é o Senhor Deus que a julga. E os reis da terra, que com ela se prostituíram e viveram em delícias, sobre ela chorarão e prantearão, quando virem a fumaça do seu incêndio; e, estando de longe por medo do tormento dela, dirão: Ai! Ai da grande cidade, Babilônia, a cidade forte! Pois numa só hora veio o teu julgamento. E sobre ela choram e lamentam os mercadores da terra; porque ninguém compra mais as suas mercadorias: mercadorias de ouro, de prata, de pedras preciosas, de pérolas, de linho fino, de púrpura, de seda e de escarlata; e toda espécie de madeira odorífera, e todo objeto de marfim, de madeira preciosíssima, de bronze, de ferro e de mármore; e canela, especiarias, perfume, mirra e incenso; e vinho, azeite, flor de farinha e trigo; e gado, ovelhas, cavalos e carros; e escravos, e até almas de homens.” Apocalipse 18: 1-13. Após ser criado por Deus, Adão foi dotado com grandes poderes em sua alma, porem ao cair em desobediência, seus poderes não foram perdidos; eles apenas passaram a um estado de “sono” ou “latente” dentro do homem. Desde então, Deus tem rejeitado usar tais habilidades da alma em sua obra. Satanás ao contrario tem procurado despertar estes poderes adormecidos no homem. Seu alvo é falsificar as operações do Espírito Santo, levando o homem a crer que tudo provém da alma humana. Nisso temos também a explicação para os fenômenos da parapsicologia. O autor adverte seriamente os filhos de Deus com respeito ao perigo do uso dos poderes da alma na obra de Deus. O contato com o inimigo, será inevitável. Exemplos são dados com vistas à identificação das obras que procedem do poder latente da alma e das que são realizadas pelo poder do Espírito Santo: Sem dúvida, esta é uma mensagem atual para a igreja de Jesus Cristo. PREFÁCIO. Em 1924, quando eu chamei pela primeira vez a atenção dos filhos de Deus para a divisão do espírito e alma, vários irmãos bem relacionados pensaram que era apenas um jogo de palavras sem grande significado. Eles não puderam ver que o nosso conflito não está relacionado com a palavra, mas sim com o que está por detrás dela. O espírito e a alma são dois órgãos totalmente diferentes: um pertence a Deus e o outro ao homem. Sejam quais forem os nomes que dermos a eles, a distinção dos mesmos em substância é completa. O perigo do crente está no confundir o espírito com a alma e a alma com o espírito e ser consequentemente enganado, aceitando as falsificações dos espíritos malignos, alterando a obra de Deus. Originalmente, a intenção era escrever esta série de artigos imediatamente após a conclusão em 1928 de "O Homem Espiritual", mas por motivo de fraqueza física e o pesado encargo de outros serviços, só fui capaz de publicá-los na última edição da revista Revival (Reavivamento). Em resposta aos pedidos dos seus leitores público agora está pequena obra. A maior vantagem em conhecer a diferença entre alma e espírito está na percepção do poder latente da alma e no entendimento da sua falsificação do poder do Espírito Santo. Tal conhecimento não é teórico, mas prático, ajudando as pessoas a andarem no caminho de Deus. Na noite passada eu estava lendo o que E. B. Meyer disse certa vez em uma reunião, logo antes de sua partida da terra. Aqui está uma parte do que ele disse: "Este é um fato sublime, que nunca houve tanto espiritualismo fora da Igreja de Cristo como vemos hoje. Não é um fato que nas áreas inferiores da nossa natureza humana o estímulo à alma é bastante predominante? Hoje em dia a atmosfera está tão carregada com a comoção de todos os tipos de imitação, que o Senhor parece estar chamando a Igreja para um nível mais alto". (Visto que a citação original não pôde ser encontrada, esta porção tem sido traduzida livremente do chinês - N.T.). A situação hoje é perigosa. Que nós possamos “provar todas as coisas e reter o que é bom” (1 Tessalonicenses. 5:21). Amém. Watchman Nee - 8 de março de 1933. O PODER LATENTE DA ALMA "E sobre ela choram e lamentam os mercadores da terra; porque ninguém mais compra as suas mercadorias (...) e mercadorias de cavalos, de carros, de corpos e de almas de homens" (Apocalipse 18:11-13). Por favor, observe que aqui nesta passagem, a lista de mercadorias começa com ouro e prata, cavalos e carros e todos os artigos naturais que podem ser comerciados, Escravos sempre puderam ser comerciados ou trocados, porém, isto é um comércio com corpos humanos. Mas, além disso, existe um mercado de almas de homens como mercadoria. Assim também está escrito: "o primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão tornou-se espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual senão o animal (natural); depois o espiritual" (1 Coríntios. 15:45,46). E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente (Gênesis. 2:7). No decorrer dos dois últimos anos eu tenho sentido intensamente a necessidade de dar uma mensagem conforme será dada agora. Ela é tanto complexa quanto profunda. Para aquele que fala não será fácil, nem para os que ouvem entender. Por esta razão não inseri esta mensagem na terceira parte de "o Homem Espiritual". Todavia, sempre tive o sentimento de entregá-la, especialmente após ter lido vários livros e revistas e ter tido contato até certo ponto com pessoas deste mundo. Eu sinto quão preciosa é a mensagem que tivemos o privilégio de conhecer. Em vista da situação e tendência atual da Igreja como também do mundo, somos constrangidos a compartilhar o que nos é dado. De outro modo estaremos escondendo a lâmpada debaixo do alqueire. O que vou mencionar na mensagem para nossa consideração hoje, tem relação com o conflito espiritual e o fim desta era. Por causa dos que não leram O Homem Espiritual, tocarei brevemente na trilogia do espírito, alma e corpo (O Homem Espiritual). A TRILOGIA DO ESPÍRITO, ALMA E CORPO. "Então formou o Senhor Deus o homem do pó da terra..." (Gênesis. 2:7). Esta passagem refere-se ao corpo do homem. "E lhe soprou nas narinas o fôlego de vida...". Isto descreve como Deus deu o espírito ao homem; era o espírito de Adão. Dessa forma o corpo do homem foi formado do pó da terra e o espírito lhe foi dado por Deus. “... e o homem passou a ser alma vivente: Após o fôlego de vida ter entrado em suas narinas, o homem tornou-se alma vivente. O espírito, a alma e o corpo são três entidades separadas.”... E vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros" (I Tessalonicenses. 5:23). O espírito é dado por Deus; a alma é uma alma vivente e o corpo é formado por Deus. Segundo o entendimento comum, a alma é a nossa personalidade. Quando o espírito e o corpo foram unidos, o homem tornou-se alma vivente. A característica dos anjos é espírito e a dos animais inferiores, tais como as feras, é a carne. Nós humanos, temos ambos: espírito e corpo. Mas nossa característica não é nem o espírito nem o corpo, mas a alma. Temos uma alma vivente. Por isso a Bíblia chama o homem de alma. Por exemplo: quando Jacó desceu ao Egito com sua família, as Escrituras dizem que "todas as almas da casa de Jacó que entraram no Egito eram trezentas e dez" (Gênesis. 46:27). Aqueles que receberam a palavra de Pedro no dia de Pentecostes foram batizados "e naquele dia agregaram-se quase três mil almas" (Atos 2:41). De modo que, a alma representa a nossa personalidade, pela qual faz de nós homens. Quais são as várias funções do espírito, alma e corpo? Tal explicação foi dada na primeira parte do “O HOMEM ESPIRITUAL”, porém, um dia fiquei sobremodo feliz ao encontrar na estante um volume dos escritos de Andrew Murray (1828-1917), o qual continha uma explanação para o espírito, alma e corpo nas notas suplementares, bastante semelhantes à nossa interpretação. O que se segue é uma citação de uma das notas: "Na história da criação do homem, lemos que o Senhor Deus formou o homem do pó da terra - desta maneira seu corpo foi formado; e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, ou, espírito de vida - assim seu espírito veio de Deus; e o homem tornou-se alma vivente. O Espírito, vivificando seu corpo, fez do homem uma alma vivente, uma pessoa consciente de si mesma. A alma era o ponto de encontro, o lugar de união entre o corpo e o espírito. Através do corpo, o homem (alma vivente), mantinha seu relacionamento com o mundo exterior dos sentidos e podia influenciá-lo, ou ser influenciada por ele. Através do espírito ele mantinha relacionamento com o mundo espiritual e com o Espírito de Deus, de onde tinha sua origem e podia ser recipiente e ministro de sua vida e poder. Permanecendo, portanto, o meio caminho entre dois mundos, e pertencendo a ambos, a alma tinha o poder de autodeterminação, de escolher ou recusar os objetos que a rodeavam e com os quais mantinha relacionamento. “Na constituição destas três partes da natureza do homem, o espírito era o mais elevado, por ligá-lo com o Divino; o corpo era o inferior pela ligação com o que é sensível e animal; entre eles permanecia a alma, participante da natureza dos outros, o elo que os ligava e através dos quais eles poderiam agir um sobre o outro. Seu trabalho, como poder central, era mantê-los em seu devido relacionamento; conservar o corpo, como inferior, sujeito ao espírito; a própria alma devia receber do Espírito Divino, através do espírito, o que lhe faltava para sua perfeição e transmitir assim, ao corpo, aquilo que poderia fazer deles um corpo espiritual, pela participação da perfeição do Espírito de Deus." O que é o espírito? Aquilo que nos dá consciência de Deus e nos relaciona com Ele. O que é a alma? Aquilo que nos relaciona conosco mesmos e nos dá a autoconsciência. O que é o corpo? Aquilo que nos leva a estar relacionados com o mundo. Cyros Ingerson Scofield (1843-1921), em sua Bíblia de referência; explica que o espírito dá a consciência de Deus, a alma a autoconsciência e o corpo a consciência do mundo. Um cavalo e um boi não têm consciência de Deus, porque não têm espírito. Eles só têm consciência dos seus próprios seres. O corpo nos leva a sentir o mundo, assim como ver as coisas do mundo, o sentimento do frio ou quente e assim por diante. O que foi mencionado acima se refere às funções do espírito, alma e corpo. Menciono agora um problema muito importante. Muitos consideram este assunto do espírito, alma e corpo, como tendo relação apenas com à vida espiritual; mas precisamos reconhecer sua relevância para nossa obra e batalha espiritual. Nossa tendência é comparar-nos como sendo quase iguais a Adão antes da queda. Supomos que, sendo seres humanos da mesma forma que Adão era, não existe muita diferença entre nós. Achamos que aquilo que não podemos fazer Adão também não podia. Mas não vemos que existem duas coisas aqui: (a) por um lado é verdade que não podemos fazer o que Adão podia; e também (b) que aquilo que não podemos fazer Adão podia. Infelizmente não reconhecemos quão capaz Adão era. Se estudarmos a Bíblia cuidadosamente, entenderemos que espécie de homem Adão era realmente, antes da sua queda. A AUTORIDADE E DESTREZA FÍSICA DE ADÃO. "Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra" (Gênesis 1:27,28). Tenham domínio sobre a terra, diz Deus. Amigos, vocês já pensaram na imensidão da terra? Suponhamos que um patrão solicite ao seu servo para administrar duas casas. Ele faz a designação baseado na habilidade do servo para cuidar delas. Servo algum é capaz de administrar todas as casas localizadas numa rua, pois não pode fazer além da sua habilidade. Um patrão duro pode exigir do seu servo mais do que sua obrigação requer, mas nunca exigirá que seu servo se comprometa a realizar algo acima da sua capacidade. Deus pediria então, que Adão fizesse algo fora da sua capacidade? Portanto podemos concluir que se Adão era capaz de governar a terra, suas habilidades certamente eram superiores às nossas hoje. Ele tinha poder, habilidade e perícia. Todas estas habilidades ele recebeu do Criador. Embora não possamos taxar o poder de Adão como sendo um bilhão de vezes acima do nosso, podemos, não obstante, e com segurança, supor ser um milhão de vezes acima do nosso. De outra forma ele não seria capaz de realizar a tarefa a ele designada por Deus. Quanto a nós hoje, entretanto, se nos fosse exigido varrer uma alameda três vezes por dia, depois não seríamos capazes de endireitar nossas costas. Como poderíamos então governar a terra? Todavia, Adão não somente governou a terra, como também teve domínio sobre os peixes do mar, os pássaros do ar e sobre todo ser vivente sobre a terra. Governar não é apenas assentar sem fazer nada. Exige-se chefia e trabalho. Vendo isso, devemos reconhecer o poder superior que Adão de fato possuía. Ele excede em muito a nossa situação atual. Mas você pensa que esta compreensão é algo novo? Na verdade este é o ensinamento da Bíblia. Antes da sua queda, Adão tinha tal força que nunca se sentia cansado depois de trabalhar. Só depois da queda foi que Deus lhe disse: "Do suor do teu rosto comerás o teu pão". O PODER INTELECTUAL E A MEMÓRIA DE ADÃO. "Da terra formou o Senhor Deus todos os animais do campo e todas as aves do céu, e os trouxe ao homem, para ver como lhes chamaria; e tudo o que o homem chamou a todo ser vivente, isso foi o seu nome" (Gênesis 2:19). Meus amigos, não é isto maravilhoso? Suponhamos que você pegasse um dicionário e lesse os nomes de todos os animais; você não confessaria não poder reconhecer nem memorizar todos eles? Entretanto Adão deu nomes a todos os pássaros e animais. Quão inteligente ele deve ter sido! Aqueles dentre nós que não são tão brilhantes, sem dúvida abandonariam rapidamente o estudo da zoologia, logo que vissem sua incapacidade para memorizar todos os detalhes. Mas Adão não foi alguém que memorizou estes nomes zoológicos; foi ele quem deu nomes a todos eles. Por isso sabemos quão rico e perfeito era o poder racional de Adão. O PODER ADMINISTRATIVO DE ADÃO. "Tomou, pois, o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden, para lavrá-lo e guardar" (Gênesis 2:15). Examinando como Adão governava a terra, vamos meditar um pouco nas coisas que Deus lhe encarregou de fazer. Deus ordenou que ele lavrasse o jardim do Éden. Isto precisava ser feito sistematicamente. De que tamanho era o jardim? Gênesis 2:10-14 menciona o nome de quatro rios, a saber: Pison, Gion, Tigre e Eufrates. Todos eles fluíam do Éden e se dividiam em quatro regiões pluviais. Você pode imaginar quão grande era o jardim? Quão grande devia ser a força de Adão, para ser encarregado de lavrar uma terra que era cercada por quatro rios! Ele não devia apenas lavrá-la, mas também guardá-la; guardar o jardim para não ser invadido pelo inimigo. Portanto, o poder que Adão tinha naquele tempo deve ter sido tremendo. Ele deve ter sido um homem com habilidades assombrosas. Todos os seus poderes estavam inerentes na sua alma vivente. Podemos considerar o poder de Adão como sendo sobrenatural e miraculoso, mas no tocante a Adão, estas habilidades não eram miraculosas e sim humanas; não sobrenaturais, mas naturais. Adão usou todos os seus poderes naquele tempo? Pelo que pode ser visto do nosso estudo de Gênesis, ele não esgotou seu poder. Pois logo depois de ser criado por Deus, e mais que pudesse manifestar todas as suas habilidades, ele caiu. Qual foi a isca que o inimigo usou para seduzir Eva? O que o inimigo prometeu a ela? Foi isto: "No dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal" (Gn.3:5) "Ser igual a Deus" foi a promessa do inimigo. Ele disse a Eva que, a despeito do poder que ela já possuía, ainda havia entre ela e Deus um grande abismo. Mas se comesse desse fruto, ela teria a autoridade, sabedoria e poder de Deus. E naquele dia Eva foi tentada e caiu. O PODER QUE DEUS DEU A ADÃO. Investigando desse modo, não estamos de modo algum sendo desordenadamente curiosos; só desejamos conhecer o que Deus deu a Adão. "E Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (Gênesis 1:26). As palavras "imagem" e "semelhança" podem parecer iguais no significado e daí repetitivas. Mas no Hebraico a palavra "imagem" não indica semelhança física, antes denota semelhança moral ou espiritual. Alguém expressou assim: "transformado na semelhança"; isto é, "ser conformado a uma semelhança". O propósito de Deus ao criar o homem é para que este seja transformado segundo Sua imagem. Deus queria que Adão fosse como Ele. O diabo disse: "Sereis como Deus:" Mas a intenção original de Deus era que Adão fosse transformado para se tornar como Ele. Disso concluímos que antes da queda, Adão tinha nele o poder de tornar-se como Deus. Ele possuía uma habilidade oculta que lhe tornava possível tornar-se como Deus. Ele já era como Ele na aparência externa, mas Deus lhe tinha ordenado que fosse como Ele moralmente (uso a palavra "moralmente" para indicar aquilo que está acima do material, e não aquilo que aponta para a boa conduta do homem). Assim nos é mostrado quanta perda sofreu a humanidade através da queda. A extensão do prejuízo está provavelmente além da nossa imaginação. A QUEDA DO HOMEM. Adão é uma alma. Seu espírito e corpo estão unidos em sua alma. Aquele poder extraordinário que mencionamos está presente na alma de Adão. Em outras palavras, a alma vivente, que é resultante da união do espírito e do corpo, possui um poder sobrenatural incalculável. Entretanto, na queda, o poder que diferenciava Adão de nós foi perdido. Agora, isto não significa que não haja mais tal poder; apenas indica que, embora esta habilidade ainda esteja no homem, ela está, contudo, "congelada" ou imobilizada. De acordo com Gênesis 6, após a queda o homem se torna carne. A carne engloba o ser total e o subjuga. Originalmente o homem era uma alma vivente. Agora; tendo caído, ele se torna carne. Sua alma fora destinada a se submeter ao controle do espírito; agora ela está sujeita ao domínio da carne. Por isso o Senhor disse: "Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem, porque ele também é carne" (Gênesis 6:3). Ao mencionar o homem aqui, Deus o chamou de carne; pois aos Seus olhos era isto que o homem era agora. Por conseguinte, está registrado na Bíblia que "toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra" (Gênesis 6:12); e também: "não se unirá com ele a carne do homem (o óleo santo da unção, representando em tipo o Santo Espírito - Êxodo 30:32), e mais: "pelas obras da lei não será justificada nenhuma carne em sua presença" (Romanos 3:20). Por que enfatizo isso de forma demorada? Em Apocalipse 18 são mencionadas coisas que deverão ocorrer nos últimos dias. Eu mostrei bem no início como a alma do homem se tornará uma mercadoria na Babilônia algo que pode ser vendido e comprado. Mas, por que a alma do homem é tratada como uma mercadoria? Porque Satanás. E seu fantoche, o anticristo, deseja usar a alma humana como um instrumento para suas atividades no fim dessa era. Quando Adão caiu no jardim do Éden, seu poder foi imobilizado. Ele não perdeu esse poder totalmente; ele estava apenas enterrado dentro dele. Geração sucedeu geração e o resultado foi que, está habilidade inicial de Adão tornou-se uma força "latente" em seus descendentes. Veio a ser um tipo de poder "oculto". Não está perdido para o homem, mas apenas confinado pela carne. Hoje, em toda e cada pessoa que vive na terra, repousa este poder adâmico, embora esteja confinado nela e não seja capaz de se expressar livremente. Entretanto, tal poder está na alma de todo homem, assim como estava na alma de Adão no princípio. Visto que a alma de hoje está sob o cerco da carne, este poder está do mesmo modo confinado pela carne. A obra do Diabo hoje em dia é despertar a alma do homem e liberar este poder latente em seu interior, como uma falsificação do poder espiritual. Menciono estas coisas porque precisamos ser advertidos com respeito ao relacionamento especial entre a alma do homem e Satanás nos últimos dias. Já vimos como Adão possuía habilidade especial e sobrenatural, todavia o que ele tinha realmente não era de todo especial ou sobrenatural, ainda que assim nos pareça hoje. Adão, antes da queda, podia exercitar com facilidade, de modo completo e natural, esta habilidade, visto que ela estava contida em sua alma. Mas, após sua queda este poder ficou confinado por seu corpo. Antes o corpo era uma ajuda para a alma poderosa de Adão; agora havia caído e seu poder foi limitado pela casca da carne. Satanás, entretanto, tenta romper esta casca carnal e liberar o poder latente na alma do homem, a fim de obter o controle sobre ele. Muitos não entendem esta estratégia e são enganados, aceitando-a como sendo de Deus. Livro O Poder Latente da Alma. Abraço. Davi.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

LIBERDADE E FÉ.

Judaísmo. Texto de Rabbi Yanki Tauber e Rabbi Lazer Gurkow. LIBERDADE E FÉ. A festa de Pessach ((a pascoa) comemora a transição do Povo Judeu da escravidão para a liberdade. Ano após ano, contamos no Seder de Pessach a história relatada pela Hagadá: Os egípcios escravizaram nossos antepassados, D’us interveio golpeando o Egito com as Dez Pragas e isso forçou o Faraó a libertar todos os judeus. Isso resume a história do nascimento do Povo Judeu, de forma bem sucinta. Uma pergunta óbvia levantada pela história de Pessach é por que foi necessário que D’us punisse o Egito com dez pragas se certamente bastaria um único golpe vigoroso. Se as pragas serviram de castigo pela escravidão, a crueldade e o genocídio perpetrado pelos egípcios, por que razão D’us não acabou com o Egito com uma única praga, duradoura e mortal? Uma interpretação mais fiel do relato da Torá sobre a história de Pessach revela que as Dez Pragas serviram a uma função mais básica: desacreditar os deuses egípcios de modo que “vocês saibam que Eu sou D’us”. Em outras palavras, o verdadeiro propósito das Dez Pragas não foi punir o Egito e libertar os judeus – já que uma única praga poderia dar conta disso –, mas ensinar uma lição fundamental aos Filhos de Israel, que estavam em vias de se tornar uma nação. Sabemos que os egípcios adoravam a Natureza, e praticamente não há dúvidas de que os judeus também sofriam a influência dessas crenças. Uma das divindades mais reverenciadas no Egito era o Rio Nilo, pois era a fonte de subsistência do país. Os egípcios eram um povo culto e sofisticado e alguns deles eram poderosos feiticeiros – mas eram todos pagãos, não transcendentalistas. E, como pagãos, acreditavam que as coisas eram como deviam ser: no mundo apenas havia causa e efeito, sem lugar para anomalias. Reverenciavam a Natureza. Seus feiticeiros podiam manipulá-la, de alguma forma: a própria Torá relata que eles conseguiam fazer as águas virarem sangue. Mas eram politeístas que atribuíam poderes divinos aos fenômenos naturais, aos animais e aos seres humanos. O Faraó recusava-se a aceitar o monoteísmo (doutrina religiosa que defende a existência de uma única divindade) e o conceito de um D’us que transcende o mundo físico. Em contraste aos pagãos, os transcendentalistas apenas cultuam D’us. O judaísmo ensina que somente há um D’us Único, e que não há nada, absolutamente, além d’Ele. D’us é a única Realidade; a existência de cada um de nós e de cada coisa que existe é completamente dependente d’Ele. Assim sendo, de acordo com o judaísmo, as leis da Natureza são simples ferramentas nas mãos de D’us. Ele criou a Natureza e suas leis de modo a que seu funcionamento seja ordenado. Em uma analogia simplista: D’us emprega as leis da Natureza como um escritor se utiliza das leis da gramática. Elas são necessárias para manter a ordem, mas às vezes podem ser quebradas, particularmente quando o autor deseja chamar a atenção do leitor. D’us age de maneira semelhante: Ele geralmente governa o Seu mundo segundo as leis da Natureza, mas quando deseja acordar os seres humanos, propositalmente as quebra. Isso é o que o judaísmo define como milagre. O judaísmo ensina que o propósito dos milagres é nos fazer lembrar que há Alguém além do mundo físico e de seus fenômenos naturais. A Cabalá (sistema filosófico religioso judaico de origem medieval, séculos XII-XIII, integrando elementos que remontam o início da era cristã. Compreende preceitos práticos, especulações de natureza mística, esotérica e taumatúrgicas. Afirma que o Universo é uma emanação divina, tendo grande importância a interpretação e decifração dos textos bíblicos) nos ensina que D’us tem diferentes Nomes. Cada um deles representa uma diferente manifestação Divina no mundo. Dois de Seus Nomes aparecem com frequência na Torá. Um deles é Elo-him. O outro é o Tetragrama (constituído de quatro consoantes, é o teônimo hebraico comumente transliterado das letras latinas YHWY – o nome do D”us nacional dos Israelitas usado na Tanakh Bíblia Hebarica). Nossos Sábios comentam que o Nome Elo-him tem o mesmo valor numérico que a palavra hebraica HaTeva – a Natureza. Quando D’us Se manifesta por meio das leis da Natureza – pôr do Sol, nascer do Sol, por exemplo – Ele Se manifesta como Elo-him. Quando Ele viola as leis da Natureza – quando ocorre um milagre – Ele está agindo como o Tetragrama. Os egípcios eram pagãos, mas não eram descrentes: acreditavam em inúmeras divindades e também em Elo-him – um D’us iminente, mas não transcendente. Eles não acreditavam em um D’us transcendental, infinitamente além da Natureza. Considerando o acima exposto, podemos entender a necessidade das Dez Pragas. Se D’us tivesse pretendido arrebentar o Egito, Ele, o Onipotente, teria aniquilado instantaneamente todos os egípcios. Se fosse sua intenção puni-los, Ele poderia tê-lo feito com uma única praga terrível e duradoura. A razão para as Dez Pragas foi que, enquanto escravos, os judeus tinham sido muito influenciados pelo Egito e seu povo; e, portanto, precisavam aprender que a Natureza é um mero pincel nas mãos do Artista Supremo. D’us virou as leis da Natureza de cabeça para baixo para mostrar aos judeus – e para ensinar à humanidade – que Ele não está limitado pelas próprias leis por Ele criadas. O judaísmo admite que D’us geralmente age segundo as leis da Natureza. De outra forma, o mundo seria caótico. Imaginem se a lei da gravidade parasse de existir ou fosse aplicada apenas de forma intermitente. Imaginem um mundo onde a órbita do sol fosse randômica e irregular. Mas o judaísmo também ensina que as leis da Natureza não são absolutas e imutáveis, pois são meras ferramentas Divinas, sempre sujeitas à vontade de D’us. Não é coincidência o fato de as Dez Pragas terem visado àquilo que os egípcios endeusavam. O Nilo (rio mais extenso do mundo com 6.853 km, situado no nordeste do continente africano; sua nascente está a sul da linha do Equador, ocorrendo sua foz no Mar Mediterrâneo) – divindade preferencial – vira sangue. O solo se reveste de animais peçonhentos. Dos céus cai um dilúvio de granizo que contém fogo. A luz do dia se transforma em total escuridão. À medida que as pragas se abatem sobre o Egito, seu povo percebe que a Natureza é subitamente transformada de uma divindade confiável em vilã caprichosa, imprevisível e perigosa. De repente, a Natureza, que eles adoravam, se virava contra eles, e, mais estranho ainda, não contra os judeus. Compreender que a Natureza nada mais é do que uma ferramenta Divina foi de crucial importância para o Povo Judeu. Tirar os judeus do Egito não significaria a verdadeira liberdade se eles tivessem levado o Egito com eles. Eles teriam sido escravos em fuga, doutrinados por seus senhores e por uma cultura pagã. Remover os judeus do Egito não teria sido a verdadeira liberdade. Foi necessário também remover o Egito que havia dentro dos judeus. E para fazê-lo, os judeus tiveram que testemunhar a destruição dos deuses egípcios: tiveram que ver que o paganismo egípcio era um blefe e que a verdadeira Divindade no mundo não está limitada nem pela Natureza nem por nada mais. Somente quando o paganismo do Egito foi realmente arrancado de seu coração, os Filhos de Israel puderam seguir para o Monte Sinai e ouvir a Voz de D’us e receber a Torá (a lei mosaica compreendendo os cinco primeiros livros da Bíblica: Gênesis, Êxodo, Levíticos, Números e Deuteronômio. Também chamado de Pentateuco pelos cristãos). E somente então eles entenderam – e puderam ensinar ao mundo – que a Natureza não deve ser cultuada, e que aquele que o faz está trocando os meios pelos fins. Os judeus tiveram que entender que o mundo e tudo que ele contém – mesmo as mais confiáveis leis da Natureza – são apenas a tela, a tinta e o pincel nas mãos de um Artista Infinito, Onipotente e Onipresente. Uma das lições fundamentais das Dez Pragas é a que diz que quem adora as leis da Natureza – e não importa, realmente, se for um egípcio pagão ou cientista ateu – não é uma pessoa realmente livre, pois não deixa espaço para o inesperado – para uma intervenção Divina que viole as leis da Natureza. Como mencionamos acima, e isso deve ser repetido tantas vezes quantas necessário for: o judaísmo não rejeita as leis da Natureza nem recomenda uma solução celestial para cada problema. Rejeita, sim, qualquer forma de panteísmo, inclusive a crença de que D’us é a Natureza e a Natureza é D’us. O judaísmo ensina que é D’us e não a Natureza quem dita de que maneira o mundo funciona. A Torá ensina que D’us é tanto iminente quanto transcendental: Ele é encontrando na Natureza, que Ele criou e constantemente mantém, mas Ele também Se encontra infinitamente além da mesma. A festa de Pessach celebra a passagem da escravidão para a liberdade. A formidável história que lemos durante o Seder nos ensina que o primeiro passo para a liberdade é uma visão e um entendimento mais precisos do funcionamento do mundo. Todos os que rejeitam o transcendental – que apenas creem no material e não no espiritual, e que não podem ou não querem reconhecer a falibilidade das leis da Natureza – ainda não alcançaram a verdadeira liberdade interna. Independentemente de que religião organizada a pessoa siga, essa pessoa apenas se torna verdadeiramente livre quando ela descobre que sua vida – e o mundo, em geral – não é ditada pelas inflexíveis e imperdoáveis leis da Natureza, mas por um D’us Infinito e transcendental, que, em Sua Infinita Sabedoria, dobra e flexiona as leis da Natureza segundo a Sua Vontade. A DIVISÃO DO MAR. Lemos na Hagadá (texto utilizado para o serviço da noite do Pessach, contendo a leitura da história da libertação do povo de Israel do Egito, conforme descrição no livro do Êxodo) de Pessach que, apesar das Dez Pragas enviadas sobre o Egito, nosso povo não ficou livre ao sair desse país. Conta-nos a Torá, no Livro Êxodo, que após a décima e última praga, o Faraó permitiu que os judeus deixassem aquele país, mas ele mudou de ideia e ordenou a seu exército que fosse atrás deles e os trouxesse de volta. Os judeus adquiriram a liberdade física do Egito uma semana após o Êxodo, no episódio do Mar de Juncos, quando as águas dividiram-se, por milagre – permitindo que os judeus cruzassem o mar em terra seca, para depois retornar a seu estado anterior, afogando os egípcios. São claras as diferenças entre as Dez Pragas que se abateram sobre o Egito e a divisão do Mar. Quando os Filhos de Israel estavam no Egito, Moshé e seu irmão Aaron, emissários de D’us, confrontaram o Faraó e seus feiticeiros e soltaram as pragas contra os egípcios, enquanto o restante dos judeus olhava passivamente o desenrolar dos milagres. No entanto, no episódio da divisão do Mar, todos os judeus foram colocados diante de um grande teste de fé. Eles tinham fugido do Egito, mas o exército desse país os tinha alcançado. Eles tinham sido pegos numa emboscada: diante deles estava o Mar de Juncos, profundo e intransponível, e atrás dele estavam poderosas forças armadas, prontas para capturá-los e matá-los. A Torá nos conta que Moshé, diante de uma situação aparentemente impossível, clamou a D’us por ajuda. Mas em vez de responder com um milagre, como fizera no Egito, D’us o censura: “Por que clamas a Mim? Diz aos Filhos de Israel que sigam adiante!”. Mas como poderiam avançar quando havia aquele mar colossal diante deles? Note-se que Moshé (Profeta Moises – o libertador do povo de Israel da escravidão no Egito, de aproximadamente 430 anos - conforme Êxodo 12,40) não faz essa pergunta e D’us tampouco lhe dá instruções. D’us apenas lhe diz para seguirem adiante, e assim eles o fizeram. Aqui segue o próximo passo para a verdadeira liberdade: esta é adquirida não apenas abraçando-se o transcendental, mas também quando se consegue seguir em frente, apesar dos contratempos aparentemente impossíveis de serem vencidos.  A liberdade é a crença de que se D’us dá uma ordem, Ele dará ao homem os meios para cumpri-la. Quando D’us diz a Moshé para ordenar que os judeus sigam em frente, o profeta levanta seu cajado – o mesmo que ele usara no Egito para desencadear as pragas – mas nada acontece: o mar continuou como estava, assim como o exército egípcio. Não se viu salvação nem milagre algum. Finalmente, um homem de nome Nachshon ben Aminadav, líder da Tribo de Judá, se atira no mar. Foi avançando com dificuldade pela maré alta até que as águas chegaram à sua cintura, depois ao seu peito e aos seus ombros. Finalmente, quando as águas chegaram às suas narinas, o Mar de Juncos se dividiu e os Filhos de Israel o seguiram. O Midrash cita várias razões pelas quais o Povo Judeu mereceu que o Mar se dividisse. Segundo alguns de nossos Sábios, isso ocorreu pelo mérito da profunda fé e confiança inabalável de nossos antepassados em que D’us os protegeria. Em outras palavras, o Mar se dividiu porque os judeus tinham fé. Qual a conexão entre fé em D’us e a divisão do Mar? O que foi discutido sobre a Natureza esclarece esse assunto. A Natureza – como os egípcios descobriram depois de muito sofrimento – está sujeita a mudanças radicais. É muito mais imprevisível do que pensa a maioria das pessoas. De fato, todas as coisas criadas, que vivem dentro dos limites do tempo, estão sujeitas à mudança. Até mesmo as rochas estão sujeitas ao desgaste. O homem, também, está sujeito a constantes mudanças. Como ensinou o Maharal de Praga (Seu nome é Judá Loew bem Betzalel (1512-1609). Foi uma importante referência no estudo do Talmud, Cabalá e filosofia, servindo como Rabino-Chefe em Praga – atual República Tcheca, a maior parte da sua vida) a única constante em nosso mundo em constante transformação é D’us. O homem, no entanto, tem a oportunidade de copiar D’us. Nossa fé e confiança n’Ele, quando são reais e não meras palavras vazias, manifestam uma medida de Seu caráter imutável. Em outras palavras, quando verdadeiramente temos fé em D’us, de certa forma personificamos o Divino. Quando o Povo Judeu se aproximou das águas com fé em D’us, as águas perceberam neles uma medida do Divino. Como um ser criado – no caso, o Mar de Juncos – não pode opor-se ao Criador, esse ser instintiva e espontaneamente recua perante o povo que personifica o Divino. Ao compor o Salmo 114, o Rei David referia-se a isso. Vejamos: “Viu-os o Mar e fugiu (...)”. O Midrash (termo hebraico referente: a história, investigação e estudo. É um método homilético – pregação ou formação textual da exegese – interpretação crítica bíblica. O termo também se refere à compilação integral dos ensinamentos da Tanakh – Bíblia hebraica) pergunta: O que viu o Mar e de quem fugiu? E responde: Viu divindade refletida no braço estendido de Moshé, e fugiu de sua posição como um obstáculo no caminho de D’us. Mas isso levanta uma pergunta óbvia: Por que o Mar esperou que Nachshon ben Aminadav se atirasse n’água, até que esta chegasse às suas narinas, para retroceder? A resposta é que o Mar estava esperando que o Povo Judeu expressasse sua fé por meio da ação. Acreditar em D’us – mesmo com fé e confiança genuínas – não era suficiente. O Mar exigia uma demonstração externa de sua fé. Era necessário que alguém a pusesse em prática. A fé é uma qualidade da alma. Nós, judeus, somos chamados de “pessoas de fé, filhos de pessoas de fé”. A fé em D’us sempre existe dentro de nós, mesmo dentro daqueles que a neguem e tentem lutar contra ela. Mesmo quando alguém tenta negar sua fé, sua alma continua a crer. Mas D’us não se satisfaz com a fé interior oculta. A fé tem que ser exercida. Tem que levar à ação. Não basta crer: é preciso agir de acordo com suas crenças, especialmente quando estas estão dentro da essência da pessoa. D’us nos desafia a atiçar as chamas de nossa fé silenciosa para que ela possa desenvolver-se. A fé que permanece oculta no coração de alguém é silenciosa. Não tem como impactar o mundo físico a não ser que seja expressa na prática. Foi por esta razão que as águas do Mar de Juncos aguardaram – aguardaram até que os judeus dessem expressão física à sua fé. Nachshon ben Aminadav, líder da tribo de Judá, ancestral do Rei David e do Mashiach, personificou a liderança: adentrou nas águas do Mar sem esperar por um milagre, expressando, assim, a fé que o povo tinha dentro de seu coração. Ao assim fazer, mesmo arriscando a vida, as águas se dividiram. A fé está muito entrelaçada com a verdadeira liberdade. Chegam mesmo a ser sinônimos na medida em que dá ao homem a força e a determinação de agir apesar dos obstáculos – reais ou imaginários. Todo ser humano é capaz de atingir o nível de devoção expressa por Nachshon ben Aminadav, pois quando o homem decide realizar a Vontade de D’us – fazer o que é certo neste mundo – D’us lhe fornece a maneira de vencer os obstáculos. Pessach – festa da liberdade – nos ensina que se um judeu está seriamente comprometido a andar pelos caminhos de D’us, da Torá, da justiça e da honradez, o Altíssimo lhe dará a força e a possibilidade de assim o fazer. Como no Mar de Juncos, os obstáculos recuarão, cedo ou tarde, permitindo-lhe uma passagem livre e desimpedida. www.morasha.com.br. Abraço. Davi.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

VI. CHAMA ETERNA.

Espiritismo. Texto de Luiz Sérgio. Psicografado por Irene Pacheco Machado. Capítulo 21. AS LIÇÕES DO RENASCER E MORRER. Ouvindo aquela palestra sobre a mulher, recordei os últimos acontecimentos terráqueos, quando os Raiozinhos de Sol se defrontaram com fatos bem tristes da decadência do ser. Nunca se viu tanto desrespeito à figura feminina! Esta se expõe, como se fosse um artigo de baixa categoria, esquecendo que o que encanta e deixa extasiado é a beleza da alma, que se despe das imperfeições à medida que se depura. A mulher, na sua sensibilidade, deveria perceber o ridículo de seus gestos impensados. Estava tão absorvido em julgar, que quase perdi a exposição do mesmo médico que agora apresentava uma aula com slides. Vimos primeiramente a chegada dos encarregados do Departamento da Reencarnação em uma cidade, ou melhor, colônia. No centro, víamos edifícios de três andares onde operavam os setores do departamento reencarnacionista, todos repletos de irmãos trabalhadores. As casas, muito lindas, mais pareciam chalés todos floridos. Nem é preciso dizer que eu me encontrava quase sem fôlego, tal a minha curiosidade. Samita segurou-me a mão, carinhosamente; sorri-lhe, dizendo: - Obrigado por ter-me trazido. Sadu me sorriu. Continuamos vendo os slides. Um dos médicos foi até o Departamento de Pessoal e pediu a ficha 2.984. Nome: José Garibaldi de Aquino, 24 anos. Última encarnação: engenheiro. Voltou à terra como filho de fulano de tal. Aí apareceu um jovem casal que durante o sono era consultado pelos espíritos encarregados. No início, eles alegaram falta de dinheiro, mas logo concordaram em receber José. Quando consentiram foi feita a apresentação. A jovem não aceitou José de maneira alguma - ele lhe deixou uma sensação de desespero. Foi nos mostrada a outra encarnação de José: ele e Lilian haviam sido inimigos; sempre brigando com ela, não deixou que o seu atual marido a desposasse, chegando mesmo a conseguir a separação dos dois. Mais uma vez os encarregados tudo fizeram para que Lilian aceitasse José, mostrando-lhe a necessidade dessa união como mãe e filho. Todo esse trabalho foi realizado em dois anos, até o dia em que José foi ligado ao útero de Lilian. Esta, no início, passou muito mal; seu organismo rejeitava a vibração do antigo desafeto. Mas Leocádio, seu marido, mostrava-se radiante. Nesse mesmo filme, acompanhamos a luta de José, indo todos os dias ao Departamento para cuidar do seu períspirito que, pouco a pouco, ganhava a flexibilidade necessária para voltar à condição de criança. Durante os meses de namoro de José com seus pais, os encontros eram feitos nesses chalés, onde casais capacitados instruíam-nos. Assistimos não ao crescimento natural da criança, mas à sua regressão. Ali estava um homem adulto que gradualmente ia adormecendo a própria consciência, fato bastante delicado e principalmente digno do nosso respeito. Não é fácil para um espírito voltar à condição de feto; é algo muito belo, mas que exige também muita coragem. Finalmente chegamos ao parto. Vimos José chorando no colo de Lilian; e esta, que em dois anos aprendeu a querer-lhe, abraçava-o com amor, dizendo: - Meu filhinho querido! Os mensageiros foram-se retirando pouco a pouco. Mas José ainda pertencia à casa dezoito e notamos que um elo de vibração os colocaria sempre ligados. O chalé dezoito só cessaria de emitir vibração após José ter completado sete anos de idade. Até lá, ele receberia as orientações necessárias. Tivemos quinze minutos de intervalo. Como permaneci calado, Sadu estranhou. - 0 que aconteceu, Sérgio? Você não é de ficar quieto (...). E que estou a pensar: e com o bebê de proveta, como se faz? - Da mesma maneira os pais são consultados. O importante é quem vai ser o responsável pela hospedagem do viajante. - E esses pais, não há perigo de incorrerem no crime do aborto, não é mesmo? (...). - Estava demorando a dar uma das suas! Eu já me encontrava preocupado. Acendeu-se uma luz amarela e nos acomodamos nas respectivas cadeiras. O mesmo médico da palestra nos apresentou um filme, onde uma senhora de trinta anos estava sendo levada à Espiritualidade para conhecer o futuro filho e, triste, constatou que, apesar de ser um espírito muito seu amigo, teria deformação perispiritual. Essa senhora foi até o chalé quarenta e cinco e nele encontrou esse espírito cujo perispírito se encontrava bastante deformado. Chorou ao vê-lo: os dois se reconheceram. Voltando do sono, manteve-se mais vigilante: tinha horror de engravidar. Seu marido era indiferente, do tipo "tanto faz como tanto fez". Mas Iolanda vivia intrigada; era só dormir e lá ia ela para a Colônia Divina e, no chalé, encontrava-se com seu antigo amor. Sei que, mesmo tomando as devidas precauções, nossa amiga um dia se viu ligada a Henrique e se desesperou. Julgando-se doente, procurou um clínico e este lhe revelou a gravidez, que já atingia o terceiro mês. Iolanda não apresentara nenhuma alteração no ciclo menstrual e, sim, apenas algumas modificações no corpo. Quando voltou para casa, desejou morrer; algo a desesperava. 0 marido tentou convencê-la, todavia ela não queria mais filhos. Alegava: - Já tenho dois! Percebemos a dor não só de Iolanda, mais ainda do reencarnante que, já vivendo sem os fluidos da mãe, viu-se esmagado pelo desespero da mesma. Acompanhamos Iolanda sendo violentada por um profissional sem alma. No instante em que tentava matar o feto, este, alucinado, ia ficando sem ar; por mais que o chalé quarenta e cinco emitisse a energia do amor, o ódio o sufocava. Foram terríveis aqueles minutos da separação de dois seres que precisavam ficar juntos. Ao ser consumado o aborto, a entidade nos pareceu morta; ela jazia ao lado daquele material usado para o crime. Era como se as gazes e os algodões tivessem alma, pareciam chorar. Fixei os olhos e mais tranquilo fiquei quando percebi aquela forma fetal diminuta sendo recolhida em um aparelho apropriado e cercado do mais rigoroso cuidado. Só que o espírito não se conformava: gemia, em desespero. Se alguém olhasse aquela bola de sangue diria: "nem estava formado"; mas nós percebíamos ali um corpo humano já completo. Víamos o perispírito reduzido quase ao nada na esperança de ser tudo, através da oportunidade do reencarne. Era uma vida retardada, um trabalho jogado fora por uma mulher que prometera um dia ser útil a Deus e ao próximo. 0 filme continuou e acompanhamos o feto sendo levado para o chalé e ali esperar o retorno ao normal ou outro descuido da futura mãe, para reencarnar. Confesso que nesse instante me indaguei se ela o impediria novamente. "Não, seria castigo demais para ele", concluí. Voltamos a presenciar a luta dos encarregados a convencê-la a receber o filho. Novas conversas e o entrosamento de Iolanda com o espírito. Ela dizia: - Não quero um filho anormal! Mas, por fim, o aceitou de volta. Respiramos aliviados. Só que durou pouco: logo presenciamos mais uma vez o espírito ser impedido de nascer e desmoronar o trabalho de toda uma equipe que tem a responsabilidade de trazer um espírito à terra. Pensei comigo: se não fosse um filme, eu gostaria de acompanhar a gestação desse espírito na Espiritualidade. E foi com alegria que o médico nos presenteou com os fatos do seu crescimento. De volta ao chalé, a forma reduzida recebeu um tratamento especial. Ficou em uma encubadoura, onde paulatinamente foi voltando à forma antiga. Nesse processo, o que mais demora é o despertar da consciência. E muitos sofrem demais nesse período. O médico nos mostrou Iolanda no seu dia-a-dia: mulher de corpo escultura!, muito vaidosa, relutando em receber o filho simplesmente porque este vinha com um defeito físico. Era demais para ela! Só que o espírito que seria seu filho, no passado lhe fora muito querido e os dois erraram juntos, por isso a volta. Ele teria de sofrer ao seu lado. Decorrido algum tempo, lolanda foi vítima de um acidente e se tornou deficiente física. Os seus dias se tornaram muito tristes porque o marido e os filhos não encontravam tempo para ela. lolanda às vezes chorava, julgando-se castigada, não sabendo ela que, mesmo com o filho que rejeitara, passaria pelo que passou. Os dois, juntos, uniriam as dores e estas seriam mais brandas. Você irá me perguntar: como lolanda cuidaria do filho, ficando também deficiente? Torno a dizer: um ajudaria o outro e ela não pagaria suas dívidas sozinha. Voltou o filme a focalizar a Colônia, e Henrique, o filho rejeitado, era agora já adulto. Já se haviam passado quinze anos, mas continuava ali na Colônia e se preparava para ser o neto de lolanda. Queira Deus que ele o consiga. O médico nos esclareceu: - Temos aqui espíritos esperando há vários anos e muitos são obrigados a reencarnar em famílias estranhas, mas que com o tempo ficarão amigos dos escolhidos por Deus para reuni-los. Muitas vezes são até adorados, mesmo não sendo parentes. Pensei: é o caso de adoções; e quantos adotam excepcionais! O filme terminou e gentilmente fomos convidados a visitar a Colônia da Vida. Dei um salto na cadeira, de felicidade. São bons, muito bons, os slides, mas, pelo meu temperamento, gosto mais de assistir ao vivo. É mais gratificante. Só que tem um porém: será que o Sadu vai me levar? Eu não sou médico. . . Olhei os amigos suplicante. Eles se entreoIharam e me estenderam as mãos, dizendo: - Até outro dia, irmão Luiz Sérgio. Foi muito bom tê-lo conosco. Nós amamos você. Podem imaginar a minha cara de tristeza! Eu gostaria tanto de ir com eles (...). Mas, deixa prá lá, a gente só tem o que merece; talvez eu não seja digno de conhecer os mistérios divinos. Fui saindo devagar, olhando os meus passos e contando-os: - Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito (...). Da porta, alguém me chamou: - Luiz Sérgio, és esperado no Jardim da Prece. Ia perguntar onde ficava, mas logo me foi indicado o lugar. Saí sem ao menos agradecer, tão contente fiquei, voltando ligeiro ao me aperceber disso. Ele sorriu, sacudindo a cabeça. Falei: - Perdão, amigo, às vezes esqueço os pequenos gestos. Muito agradecido. Qual é mesmo o seu nome? Ele respondeu: - Najary. Como vocês devem calcular, meus primeiros passos eram bem ligeiros, mas logo me certifiquei de que não era necessário correr, e fui caminhando bem devagar até chegar ao local. O jardim era indescritível. Não encontro no vocabulário terrestre palavras para descrever tanta beleza. As flores só faltavam falar; as rosas eram de belíssimos e raros matizes; as folhagens divinas. Pensei: A Zildinha iria adorar algumas dessas mudas. E anotei no meu caderninho esta pergunta: por que não temos no mundo físico tanta beleza? Falando do jardim, esqueci-me até de ver quem estava me esperando e corri o olhar pelo pátio, onde um espelho d'água o circundava. Os miosótis pareciam mais ainda os olhos de Maria, de tão azuis. Eram belíssimos e compunham o círculo de água. Dentro dele, várias flores aquáticas. Nisso, ouvi alguém me chamar: - Sérgio! Virando, defrontei-me com Eliette, uma senhora de meia-idade, que me sorriu, dizendo: Seja bem-vindo. Pode acompanhar-me - dali saímos, ou melhor, buscamos um bangalô que se via mais além. Quando chegamos, já se encontrava lá uma turma de cinco pessoas. Comigo e Eliette, sete. Muito ternamente cumprimentei-os e fiquei mais feliz quando vi Sadu, Samita e Carlos. Apertei os lábios, porque estes tremeram de emoção. Sadu, aproximando-se, disse-me: - Não te convidei porque não tinha autoridade para fazê-lo. - Deixa prá lá, amigo, eu o compreendi. E quem foi que acreditou em mim? Respondeu Samita: - Jesus. - Ainda bem que Ele também meus grandes companheiros. é meu amigo, assim como vocês, - Continuas o mesmo, não, Sérgio? Ali ficamos ainda alguma horas, e quando nos retiramos percebi que um dos componentes do grupo ficava sempre isolado. Ele possuía um braço paralisado e isso me chamou a atenção. Busquei conversar com ele e gostei muito; era portador de uma educação aprimorada e rara inteligência. Foi um grande cientista e agora ali estava ao nosso lado. Seu nome: Sexton. Ele parece ter gostado de mim também, pois logo foi-me ofertando sábias lições. Disse-me como seremos felizes no dia em que o homem se tornar um homem verdadeiro: Até aqui estamos buscando ser gente. Quando purificar o seu corpo espiritual, por processos físicos e mentais, o homem não mais terá por companhia as suas formas-pensamento negativas. Ele não será dominado pelos prazeres de alguns dos seus corpos, porque o seu espírito irá reinar, como dono absoluto. Mesmo encarnado, o homem já vai dando trato novo ao seu próximo corpo, isto é, ao da próxima encarnação. Se um encarnado esta abusando da liberdade de viver, os seus corpos é que sofrerão as consequências. Ao aqui chegar nada podem exigir por terem sido os arquitetos de seus corpos e cada espírito possui o seu tesouro de lembranças. Sabemos que várias vidas já tivemos e se hoje ainda nos sentimos pesados, encontrando dificuldade para nos locomovermos, a culpa é nossa, somente nós podemos livrar-nos dos corpos pesados e defeituosos que a nossa capa mental foi confeccionando no decorrer de nossas reencarnações. Temos conhecimento de que ao sermos criados éramos inocentes; nossos corpos eram como uma placa branca, apenas com algumas tendências, trazidas dos reinos por onde passamos, mas a nossa inteligência aprimorou-se com a liberdade. Donos dela, inicia-se o trabalho errado da nossa casa mental; desequilibrada pelo orgulho, pela vaidade, pelo egoísmo, pela cólera, vai lentamente plasmando formas-pensamento, que se alojam em nosso corpo etéreo e este vai ficando coberto por sombras corporais; mas apenas sombras sem vida. São os chamados fantasmas do nosso espírito. Podemos perceber do quanto somos capazes e, infelizmente, usamos mal o nosso poder, motivo pelo qual até hoje nos encontramos mal vestidos, enquanto outros irmãos já ganharam a liberdade - estes permaneceram limpos, ou melhor, aos seus corpos, simples e inocentes, acrescentaram, em vez de orgulho, a bondade, o amor, a paciência, a verdade, o perdão, a humildade. Pouco a pouco foram-se aproximando de Deus. Outros, mesmo os falidos, puderam ficar livres desses corpos-pensamento, só foi preciso uma luta contínua pela purificação. O ideal seria ficarmos livres da tirania dos sentidos. Se hoje o meu corpo está mutilado, a culpa é minha, eu me concentrei por demais nele e o moldei de maneira errada. Minha inteligência foi usada para decompor corpos ainda latentes, ou melhor, óvulos fecundados. Enquanto os encarregados do Departamento da Reencarnação trabalhavam, o meu invento cooperava para o não nascimento. Tratava-se de um processo brando de matar. Não quero justificar os meus erros, mas diante de tantos crimes hoje praticados, vejo que o meu foi primário, já que se assassina fetos ou bebês, muitos com até seis meses de vida uterina. Quis perguntar ao meu novo amigo o porquê do braço seco. Ele me sorriu e continuou: - Quando plasmei o meu corpo etéreo para a próxima encarnação - que será breve - não consegui purificar o local de onde partiram vibrações contrárias às leis de Deus. E por mais que eu tentasse, através do meu saber, no momento exato a minha consciência ficava como anestesiada - penso eu que de vergonha. Apesar de estudar muito e procurar conhecer os segredos dos corpos, não tenho capacidade para dar movimento a esta parte do meu corpo, onde eu próprio dispersei os fluidos divinos e nele plasmei a dor e a morte. - Até quando o irmão ficará assim? - Retornando à terra, terei de, através de uma vida digna, ir preparando o meu próximo corpo, o que só é possível pela prática de nobres atos. Deus me ofertou nova oportunidade no campo médico, onde espero ajudar o homem a se tornar livre dele mesmo e, ainda encarnado, pretendo desintegrar esta forma escura e vergonhosa do meu corpo perispiritual. Por baixo deste braço imóvel encontra-se outro: o lindo e útil, que Deus me deu. - Então, quem tem um defeito físico está somente coberto por uma forma-pensamento que ele confeccionou através de atos indignos? - Sim, nós a fabricamos. E uma veste que teremos de vestir e, um dia, desvestir. - E quem. Desculpe mais uma pergunta: e se, no decorrer das nossas vidas, embora gravada na consciência a veste deformada, nós lutarmos para sermos bons, caridosos, amigos, enfim, humildes, esta veste não se desintegra? - Sim, Sérgio. Disse Jesus: Só o amor cobre a multidão de pecados. Nesses casos, nós já estamos preparando a nossa próxima veste e, se a velha estiver tomando espaço, ela se desintegrará. Portanto, amigo, precisamos, e muito, de nós mesmos. Não adianta desejarmos nos enganar. A vida é contínua e a morte é o remédio da própria vida; ela é que dá ao espírito o passaporte para novos mundos, onde encontramos oportunidades para desintegrar os nossos corpos defeituosos e os belos ficarem mais etéreos. Portanto morrer é viver em qualquer plano. - Espere aí, irmão, não ria da minha pergunta, mas eu me coloco sempre no lugar dos meus amigos leitores. Se nós não podemos impedir um nascimento, por que os médicos terráqueos podem impedir o espírito de voltar ao mundo espiritual, que também é um renascimento? Ele me sorriu, olhando-me fixamente - não sei se me achando ignorante - mas logo respondeu: - São situações diferentes. Um, precisa nascer para purificar-se; outro, precisa voltar para se preparar para nascer de novo e Deus colocou a Medicina para cuidar do corpo físico. Não nos esqueçamos de que ele é uma veste que precisa ser escovada, lavada e bem cuidada. Por ser desgastável, precisa de cuidados especiais. E sabes que mesmo sendo o corpo físico muito bem assistido por grandes médicos, na hora da morte tudo se torna inútil. E a lei do regresso. - Mais uma. Posso? Ele sorriu, permitindo-me. - E por que Deus não faz com que se torne impossível qualquer agressão ao ser que vai nascer? - Lembra-te, Sérgio, de que o corpo físico pertence ao plano físico, e ao homem foi dado o direito de conhecê-lo. Portanto, como pode Deus levar o homem de novo à era primitiva, quando a medicina era precária ou não existia? Se a mãe não desejar o filho, torna-se impossível atuar a vontade divina. E a lei democrática de Deus. O Pai é bom, disse Jesus, mesmo sofrendo Ele não nos maltrata.  Sadu, Carlos e Samita, ao meu lado, participavam da nossa bela conversa sobre renascer e morrer. Contemplei os meus amigos e me senti o ser mais feliz do Universo, porque Deus é meu Pai e eu jamais serei órfão. Baixei a cabeça, cerrei os olhos e orei: Pai, sois bondade infinita e graças ao Vosso perdão estou eu no caminho de mais um trabalho, onde tenho encontrado grandes almas. Eu Vos amo, Senhor. Capítulo 22. DE VOLTA AO MEU PASSADO. Com que carinho fitava os meus companheiros! Sadu, Samita e Carlos recordavam-me o início do meu trabalho junto aos Raiozinhos de Sol. Rimos muito das minhas ratas. E assim, chegamos ao local esperado: um prédio enorme, de dois pavimentos. Pensei que iríamos entrar, mas só recebi permissão para fazê-lo acompanhado do amigo Cinaro. Compreendi que os outros teriam aulas sobre medicina. Despedimo-nos, para nos reencontrarmos, mais tarde, na Casa da Vida. Cinaro, que até aqui não havíamos citado, endereçou-me um sorriso meio desconfiado. Foi o bastante para eu lhe querer bem. - Vamos primeiro à recepção, disse. E para lá nos dirigimos. Ninguém havia para nos recepcionar, só um pequeno aparelho, que lembra uma calculadora. Cinaro digitou os nossos nomes e logo a porta se abriu, surgindo à nossa frente um corredor bem longo, ladeado de portas numeradas. Diante de uma delas, ele apertou a campainha e nos atendeu uma bela senhora, que indicou um arquivo cujas fichas nos eram fornecidas através de botões. Cinaro perguntou-me se eu desejava saber como se efetuara a reencarnação de famílias conhecidas ou pessoas sem qualquer vínculo comigo. Pensei, pensei e respondi: - De pessoas estranhas - achei mais digno. Não me sinto com o direito de abrir cofres alheios. - Vamos, então, pedir este aqui: Homero Estrada. Quando a ficha nos foi entregue, Cinaro colocou-a em um computador, que foi, imediatamente, projetando o filme de Homero. Curioso (...). Sabe, amigo, sempre julguei que nossas vidas fossem cartas marcadas. - Explique-me. - Por exemplo: Luiz Sérgio, filho de Júlio e Zilda. Com tantos anos teve sarampo, com tantos dor de dente, com tantos encontrou a namorada e com tantos morreu. - Irmão, nós somos gente e não fantoches. O dia-a-dia a nós pertence; poucas horas de nossas vidas são de pagamento de dívidas. Se na Terra encontramos meios suaves de pagarmos, imaginemos junto a Deus. Todavia, poucos transformam a moeda pesada da culpa em atos nobres de renúncia. E assim, fomos vendo porque Homero teve de nascer na família escolhida. Assistimos a um desenrolar de fatos, todos catalogados, o que nos levou a compreender o valor de cada encarnação. Para Homero poder voltar à carne, levou vários espíritos a pesquisas constantes dos fatos de suas vidas. E um jogo de números onde se soma, divide, multiplica, e ainda se faz a prova dos nove para ver se tudo está certo. Homero, em uma encarnação antes de Cristo, esteve na Grécia e lá era pastor de ovelhas. Homem duro, aborreceu-se com seu vizinho e o matou. Duas encarnações adiante, opôs-se a reencontrar seu desafeto. Só muitos anos depois voltaram a se encontrar, mas relutaram em ser amigos. E a outrora vítima de Homero o feriu, matando-o, não para cumprir uma lei, que muitos chamam de karma. Se a vítima de Homero recebesse essa tarefa, Deus não seria Deus, Ele só ensina o amor e o perdão. O inimigo de Homero vingou-se, porque também não era bom. E Homero, mesmo tendo sido assassinado, não se viu livre do crime cometido. - Pára aí, Cinaro. Minha cabeça deu um nó, nem consigo mais saber onde me encontro! Ele sorriu gostoso e continuou projetando o filme. Vimos novamente Homero e Simplício lutando para usar o perdão. Os dois, mais uma vez, se reencontraram fora dos meios familiares e Homero buscou, através do casamento com a filha de Simplício, a aproximação do sogro. Simplício continuava odiando Homero, que também não via com bons olhos o feroz sogro. Acompanhando a vida de Homero, constatamos o quanto Deus é bom, pois a paciência é uma das leis de Sua doutrina de amor. E assim, em mais uma encarnação, os dois se defrontaram, agora como pai e filho. Como sempre, Simplício e Homero não se entendiam. Mas foi no meio familiar, ora como pai e filho, ora como irmão, sogro, tio, avô, que Homero e Simplício vieram a ser bons e inseparáveis amigos. Chorei ao presenciar aqueles dois homens, lutando um pelo outro. Não só aquelas vidas ficaram acertando as contas; outras, que a elas se juntaram, também foram peças marcantes e, nesses reajustes, novas faltas esses espíritos cometeram. O planejamento reencarnatório sempre procurava ajudá-los da maneira mais branda, entretanto, assim mesmo eles reclamavam das provas. Quando terminamos de estudar a vida de Simplício e Homero, examinamos outra ficha e sentimos a grandeza de Deus e dos operários que trabalham no difícil planejamento familiar. Ao sairmos daquele local, cujos computadores são as maravilhas do século XX, falei ao meu amigo: - Sempre imaginei que, se eu lhe mato, amanhã, você ou outro faz-me o mesmo. Somente hoje compreendi melhor. Não teria sentido vivermos em um círculo vicioso. Explique-me, se for possível: como então resgatamos a culpa de um crime ou de vários? Há pouco, o irmão conversou com um culpado e ele lhe mostrou a grandeza dos corpos sobrepostos. Se lesamos alguém, o ato em si é registrado em nossa casa mental e ela expele um fluido negro que se sobrepõe a nossos corpos, principalmente ao perispírito. Esse jugo pesado muito mal nos faz, principalmente quando nos encontramos na erraticidade - andamos com dificuldade, não conseguimos desprender-nos do mundo físico. Portanto, é um mal-estar constante. Aí pedimos para nos livrar desses fluidos pesados e escolhemos a prova. Para que tudo corra de maneira a não prejudicarmos inocentes, acercamo-nos de criaturas similares, com provas iguais ou piores que as nossas. Aqui o Departamento tem um trabalho de mestre: busca pessoas ligadas a nós que também desejam livrar-se da dor dos remorsos. - E quando alguém atropela uma pessoa ou a mata, quem está pagando? - O causador do acidente, quando culposo, está contraindo dívidas futuras, principalmente se o fez embriagado, em excesso de velocidade ou por negligência. - Agora, se eu pedi para ter uma desencarnação por acidente, não posso jamais me ver livre dos remorsos ou colocá-los em outra consciência, não é mesmo? - Claro. - Sempre, amigo, eu relutei em aceitar tudo como pagamento de dívidas. - A lei de causa e efeito existe, mas ela acontece de várias maneiras. Nem tudo podemos examinar como pagamento de dívidas pretéritas. Olhando-me firmemente, convidou-me a consultar outro computador. Quase caí: ali, um nome conhecido. Quis evitar de examiná-lo, porém, gentilmente, colocou-me à vontade. Orei a Deus e apertei o botão: surgiu à minha frente a minha vida! Que eu não vou lhes contar..., somente alguns fatos já narrados em outro livro meu. Uma sensação estranha foi-se apoderando do meu espírito. Meu companheiro procurava ignorar minha ansiedade. E fui pouco a pouco vivendo cada momento das minhas vidas passadas. Numa coisa fiquei feliz: sempre fui homem! Meus amigos, espírito não tem sexo, pois é uma chama, mas nem por isso deve ficar trocando de veste de uma para outra encarnação. É um assunto a ser estudado. Eu, o papai aqui, sempre fui homem; não que eu tenha algo contra as mulheres, adoro várias: minha avó, minha mãe e muitas outras mulheres são amadas demais por mim. Sempre fui muito imperfeito, mas o que marcou pro fundamente o meu perispírito foi tirar a oportunidade de uma vida física. O pior dos crimes é matar. E se hoje eu me encontro estudando a lei do renascimento, vejo-me diante da minha vida e pergunto: que teria sido de mim se minha mãe me tivesse negado o direito de pagar minhas dívidas? E se ela me tivesse abortado por seu bel prazer? Meu Deus, como eu seria infeliz! Hoje, graças lhe dou, Zildinha, por ter-me dado um lar onde cresci, vivi e encontrei o direito de viver eternamente livre de um remorso cruel. Grato sou a todos aqueles que me deram as mãos amigas. Mas o interessante de tudo isso é que todos nós desejamos conhecer o passado, mas, diante dele, ficamos petrificados, envergonhados de sermos ainda muito imperfeitos. Minhas vidas pregressas foram-se descortinando diante de mim. E a certo ponto eu paro. Apareço em uma abadia onde alguns frades trabalham, ou estão tentando fugir deles mesmos. Prestava-me a um serviço humilde, por não possuir instrução suficiente para galgar outros trabalhos. Procedia de família modesta e a abadia era um refúgio e uma oportunidade. Nela encontrei Pedro que logo me dispensou atenções, mas ainda que me tratasse bem, abusava da posição que ocupava. Pedro, muito inteligente e dinâmico, fazia tudo pela abadia. Eu senti por ele muita admiração, mas também muita inveja. Eu o amava e o odiava ao mesmo tempo, ainda mais quando ele me fazia de criado. Alguns abusavam igualmente da posição ocupada, más Pedro, por ser, às vezes, meu amigo, ia mais longe. Um dia, como contei no livro Novas Mensagens, eu lhe roubei o direito de viver. Quero frisar aqui, que com isso contraí uma grande dívida, principalmente porque ninguém chegou a descobrir. No dia em que eu soube de tudo isto, faltou-me coragem para ir adiante. Ao rever a cena ainda me entristeço, ficando desolado quando me defronto com a nossa seguinte encarnação: somos irmãos e Pedro não me aceita, ou melhor, procede da mesma maneira. É um homem de grande inteligência, mas revoltado consigo mesmo. E nós dois, vivendo como irmãos consanguíneos, deveríamos nos amar. Contudo, Pedro sofria de ciúme doentio da minha ligação com nossa mãe, preparando uma jogada para me tirar a vida. Foi pouco a pouco me envenenando, chegando antes a levar-me a uma cadeira de rodas. Como irmãos, teríamos o ensejo de pagar uma grande dívida mas, ao contrário, Pedro se comprometeu e eu, mesmo sofrendo bastante, não quitei a minha. Mais uma vez não conseguimos ser bons. Minha mãe não perdoou Deus por me ver inválido e sua revolta era tanta, que Pedro não aguentou o remorso e se suicidou. Com esse gesto, ele plasmou um corpo deformado para outra encarnação. E não faltou, mais uma vez, outra oportunidade. Eu e Pedro, novamente juntos, nascemos longe um do outro, mas as circunstâncias fizeram com que nos reencontrássemos na Itália, ligados por um passado trágico, não nego, mas que mesmo assim nos aproximou. Tornamo-nos amigos. Seu nome agora: Romano. Éramos tão unidos que muitos nos julgavam irmãos, embora brigássemos muito; eu não aceitava a sua maneira de querer mandar e ele não aceitava as minhas brincadeiras. Um dia Romano salvou-me a vida, mas pereceu diante de mim. Desesperei-me, pois perdera um grande amigo. Nessa encarnação Pedro melhorou o corpo futuro, comprometido pelo assassinato e o suicídio; possuía o corpo perispiritual somente coberto por uma camada fluídica. Nascera com um defeito em uma perna e sofria de desmaios, chamados epiléticos. Quem estiver me acompanhando, vai indagar: e você, Luiz Sérgio, não o assassinou também? Sim, eu lhe tirei a vida física, mas ele também a tirou e ainda se suicidou. Voltamos posteriormente, nem amigos, nem irmãos; só bem mais tarde nos reencontramos. Minha mãe era a mesma de quando fui frade, e, por mais que eu quisesse apresentá-la para Roberto como sendo bacana demais, eles não chegaram a se relacionar. 0 meu amigo do passado era um ótimo companheiro, mas ainda carregava consigo as neuroses pretéritas e muitas vezes chegamos a discutir sobre elas. Chegou o momento dramático das nossas vidas: a grande operação que veio para nos desligar de uma culpa longínqua. 0 carro corria velozmente, mas não tanto que me projetasse para fora no momento fatal. Os outros nada sofreram, mas o meu grande amigo e eu sentimos a força da reencarnação. Ele, que no passado deformara o seu corpo porque, por maldade, me levara a uma cadeira de rodas, hoje, com o choque do acidente, projetou em sua casa mental o corpo coberto de remorsos. Ele, que no ontem causou dores terríveis em alguém, hoje vive horas bem amargas. O meu corpo ficou estirado no asfalto, mas meu espírito se viu liberto de um violento remorso. Eu e Roberto pagamos a última prestação. Às vezes me desespero por não conseguir ajudá-lo. Ele se sente culpado do meu desencarne, por mais que eu tente dizer-lhe que o culpado sou eu, pois fui o primeiro a lhe causar dor. Gostaria que Roberto procurasse se ver livre do remorso e se pusesse de pé. Ele tem força e coragem para ganhar a liberdade. Não existe incapacidade física quando a nossa mente está perfeita, e Roberto é um dos homens mais inteligentes que conheci. Briguento, mas digno e bom. Portanto, amigo, peço perdão se hoje abri o nosso túmulo e dele retirei as últimas reminiscências. Foi preciso. Você tem necessidade de redescobrir Deus. Ele é justo, nós é que nos distanciamos d'Ele. Remorsos são bengalas que só servem aos fracos, principalmente quando não devemos possuí-las. As lágrimas corriam pelo meu rosto e o meu companheiro Cinaro, carinhosamente, apertou-me o ombro, dizendo: - Por hoje, basta. Você, Luiz, e o seu amigo, tiveram muitas oportunidades. Se na última encarnação, vocês dois, desde pequenos, tivessem sido orientados para o trabalho da caridade, tudo teria sido diferente, pois só a Caridade cobre a multidão dos pecados. Você e seu amigo devem dar graças a Deus por tudo ter terminado bem. Recordei-me de vovó e vi que tudo foi muito bem preparado. De fato, eu teria duas saídas: desde criança ter-me dedicado aos pobres, vivendo uma vida missionária; ou o desencarne, ainda jovem, e de maneira violenta. Decidi-me pela segunda, não só eu, mas Roberto também. Foi o caminho mais árduo, todavia o escolhido. Capítulo 23. A TAREFA DA DIVULGAÇÃO EDUCAÇÃO SEXUAL NA INFÂNCIA. Muitos sonham em conhecer o pretérito, mas Deus é tão sábio que nos oferece o esquecimento. Ali, diante do meu passado, compreendi a importância da Doutrina Espírita: só ela dá ao homem conhecimento do valor do seu espírito; só a Doutrina nos oferece explicações precisas sobre todas as nossas dúvidas; só a consciência da vida espiritual dá ao homem a vontade de ser bom. O estudo sério leva-nos ao desprendimento das coisas terrenas e só convivendo com Jesus despertaremos para a caridade. Não adianta batermos no peito, rotulando o templo que frequentamos, o necessário, sim, é ter mais fé e amor no coração. Despido diante de Deus, dei-Lhe graças por me ter ofertado inúmeras oportunidades. - Cinaro, não é fácil a gente se deparar com o passado. Sinto-me até sem fôlego. Parece que o relógio da vida só marcou para mim as horas em que eu fiz mal ao meu próximo e, por mais que eu peça perdão, vejo-me corroído de remorsos. - Sérgio, recorde que você só veio até aqui porque já está apto para saber o passado. - E, mas é muita verdade para ser suportada! Ele me convidou a nos retirarmos. Olhei as máquinas do tempo e as saudei: - Obrigado, amigas, espero voltar logo, quero saber mais sobre minhas vidas. Cinaro sorriu, dizendo-me: - Você não disse há pouco que é muito difícil suportar a verdade? - E assim mesmo: a gente sofre, mas quer saber. Detive-me e voltei para perto das máquinas. Cinaro nada fez para me impedir; somente percebi preocupação no seu olhar. Apertei um certo botão e, com espanto, me vi na época dos primeiros cristãos. Munido de boa cultura, tinha facilidade no trato com o público, era portador de um grande carisma. Inteligente, abusava disso; crescia em mim a vaidade e está, pouco a pouco, tomava conta do meu espírito. Aproveitando-me da fé do humilde povo de Éfeso, vivia eu pregando uma doutrina diferente, nada de cristã. Não aceitava a caridade nem a humildade como lema. Meu nome: Alexandre. Mesmo dizendo o nome de Deus, pregava uma doutrina contrária à dos apóstolos de Jesus. Habitava casa confortável, usufruindo dos bens materiais. Ali no vídeo a minha imagem e, ao meu lado, um fiel amigo: Himeneu. Não aceitávamos os cristãos que, através da pobreza, davam ao mundo grandes exemplos. Tudo fizemos por uma doutrina segundo a qual os cultos eram servidos pelos pobres ignorantes. Quando fomos descobertos pelos verdadeiros filhos de Deus, vimo-nos desmoralizados. Furiosos ficamos, tudo fazendo para que a Doutrina do amor não fosse seguida. Se descobríamos alguma coisa escrita, tentávamos destruí-la, dificultando a vida dos cristãos de Éfeso. Revoltados, decidimos ir para outra cidade, mas em todos os lugares as palavras de Deus eram levadas pelos Seus verdadeiros apóstolos. Assim vivemos o resto da nossa vida, tentando contradizer os apóstolos de Jesus. Só bem velhinhos desistimos. Falei a Cinaro: - Agora compreendo porque tenho hoje a tarefa de apresentar Jesus aos espíritas ou não espíritas e porque me foi ofertado o trabalho dos livros espíritas. Só agora eu compreendo! Ontem eu atrapalhei a divulgação da Doutrina do Cristo. Hoje aqui estou para trazer à terra o remédio da paz. Fui saindo bem devagar. Meus olhos não lacrimejavam, mas meu coração doía. Cinaro me abraçou, dizendo: - Graças a Deus nós hoje trabalhamos mais cientes do valor do Pai. No passado erramos, porque a vida terrena era mais palpável para nós. No presente conhecemos o tesouro da verdade. Rendi homenagem a Deus por tanta bondade. - Cinaro, quando eu vivi naquela encarnação, possuía uma outra crença. Esse o motivo de não aceitar os cristãos. - Sim, Luiz, você e seu grande amigo agiam julgando certa a religião que professavam. E ela existe até hoje? - Sim, meu amigo, mas graças a Deus a verdade e Jesus estão brilhando muito mais. - Cinaro, eu adoro a Doutrina do Cristo. Ela é para mim um universo de amor. Nós estamos no Seu caminho, que não é fácil, dado os inúmeros trabalhos que nos surgem a cada passo. Ganhando a rua, despedi-me do meu novo amigo e procurei meu grupo. Meditando caminhei por um jardim repleto de hortênsias. Admirando seus diferentes matizes, o roxo bem forte de uma delas chamou-me a atenção e me senti reconfortado para chegar até meus companheiros. Samita me viu e veio abraçar-me: - Tudo bem, Sérgio? Penso que nos meus olhos as lágrimas teimavam em aflorar. - Querido, o que importa é o presente e tu estás aproveitando os ensinamentos de Deus. Nisso, uma luz acendeu e fui convidado a entrar, juntamente com a equipe, numa sala em penumbra, o palco semi iluminado. Todos se alojaram em suas cadeiras, em silêncio. Confesso que a curiosidade era imensa, mas fiz uma prece e me aquietei. A luz do palco se acendeu e um senhor, bem simpático, iniciou a preleção, não sem antes ter sido feita uma prece, que ressoou em todo o ambiente. Era quase um hino de tão bela. "Irmãos, nós, que estamos acompanhando o crescimento da Chama eterna, não podemos esquecer que o sopro da vida precisou de um estágio em vários reinos e, quando da passagem por eles, adquiriu tendências. Portanto, não devemos julgar os outros, porque ainda desconhecemos o nosso interior. Nos dias atuais a Humanidade está por demais envolvida sexualmente; nunca se viu tantos apelos sexuais e os espíritos que estão reencarnando amedrontados se encontram, pois bem sabemos que poucos já possuem evolução para uma renúncia sexual. O homem, ainda animalizado, dificilmente terá condição de viver sem sexo, ainda mais se ele saiu recentemente da sua condição animal. Mas isto não justifica a sua animalidade; ele precisa burilar as suas energias e isso só se consegue com o tempo. E condenável certas religiões aprisionarem os seus adeptos através do medo de serem castigados, ou por levar o jovem a uma abstinência do sexo, através de exercícios mentais, dizendo que eles libertam o espírito. Em consequência, o jovem bloqueia os seus canais energéticos e estes, bloqueados, o levam ao desequilíbrio. Isto está acontecendo muito até na Doutrina Espírita. Dizem alguns pregadores que o missionário não pode constituir família, quando bem sabemos que não é a família que atrapalha o trabalho do missionário e sim a sua própria fraqueza. Não podemos levar a Doutrina ao descrédito científico e desde o momento em que, desejando satisfazer o homem, nos propusermos a lhe tirar a liberdade, o medo pode gerar no jovem uma depressão difícil de ser tratada. Ele lutará contra o seu corpo que, possuidor de forte energia, não encontrará meios de liberá-la; esta mesma energia leva ao desequilíbrios e desajustes emocionais. Portanto, há tantos conhecimentos para se transmitir ao próximo, por que oferecer o que se conhece tão pouco? O que vem ocorrendo é uma carência de elucidação sobre sexo. De um lado, a liberação; de outro, a proibição. O certo é obtermos, pouco a pouco, o conhecimento da vida e encontrarmos o Seu criador: Deus. Conhecendo o Pai, buscar a Sua verdade que jamais nos criará neuroses. No momento em que Deus entrar em nossas vidas, vamos compreender que sexo não é castigo, pois se assim fosse o Pai não o criaria em nós. O sexo é um meio; o mal é julgá-lo princípio e fim. Desde o instante em que o homem se liberta de si próprio, vai entendendo que o sexo precisa ser digno. Não se castra por imposição teórica, procura-se viver a plenitude do amor com o parceiro, ou parceira, escolhido dentro dos padrões divinos. Existem homens que colocam o sexo na mente e este se vê exposto a críticas e maledicências. Desde que levemos a vida equilibradamente, ela irá distanciando-se da procura das emoções mais fortes. O sexo a dois é o encontro de corpos físicos ou reencontro de almas apaixonadas. Quando isto se dá, o espírito se vê dono de si próprio e no companheiro ou companheira o prolongamento de si mesmo, aí não existe separação ou troca, são almas fundidas em uma vibração de amor. Mas como na Terra ainda o desencontro se dá, deparamos com homens e mulheres extremamente infelizes, porque buscam um no outro a satisfação da vida, julgando que ela se limita a uma relação sexual, quando essa mesma relação sexual traz outras responsabilidades que talvez serão amargas para parceiros invigilantes. Um ser é extremamente infeliz quando busca em alguém a sua felicidade, sem saber ele que o outro faz o mesmo. No dia em que se der a verdadeira permuta de energia, o homem vai compreender porque Deus criou o sexo. Até esse dia, nos depararemos com todo um desequilíbrio emocional. O sexo parece maldito, porque o homem ainda se encontra endurecido e ignorante e, pouco inteligente, quer usar e "Nunca devemos ser radicais, somente porque nos sentimos mais próximos de Jesus, ou estamos compreendendo o Mestre através do Seu Evangelho. Cada caso é um caso; não podemos englobá-los, sem uma análise criteriosa. Ditar regras torna-se perigoso; a própria vida se encarrega de apagar ou gravar as verdades de cada um. 0 dia-a-dia do homem, cedo ou tarde, irá levá-lo a uma compreensão maior. Deus foi quem criou o homem e a mulher, a fêmea e o macho; por que, com o fanatismo, desejamos separá-los? Enquanto queremos proibir, afastamos o homem de Deus, pois ele indagará sempre: "se o sexo é sujo, por que Deus o criou?" O que se deve fazer é orientar, mas quem está preparado para tão difícil tarefa? Difícil sim, em razão do homem ter adquirido o instinto sexual através de um aprendizado errado. Muitas vezes somos chamados para esclarecer os pais durante o sono, porque estes se vêm às voltas com as atitudes estranhas dos filhos, porém, muitas vezes, os pais é que levam as crianças ao desequilíbrio sexual. Muitos homens, desejando um filho varão, vivem dele exigindo masculinidade, o que acarreta na criança marcas profundas de desequilíbrio. Com o tempo procurará suplantar a mulher e com isso jamais terá uma companheira realizada, mas uma escrava para servi-lo. Alguns pais, bastante desinformados, levam os filhos a uma busca precoce do prazer, dizendo que o "homem tem de ser homem". E o garoto inicia a sua experiência sexual sem nenhum amor, o que o conduzirá a uma constante procura, porque será um eterno insatisfeito. Ele sofrerá de uma inibição inconsciente, um simples retraimento sem conhecer a origem do problema; a sua inibição será tanta que ele procurará no sexo a sua força; e um órgão é um órgão, não uma alma. Portanto, é antipsicológico pregarmos contra o sexo, principalmente se somos explanadores do Evangelho. Os que não creem no espírito não têm tanta culpa ao fazer tal pregação, mas os espíritas esclarecidos não podem esquecer que o espírito está evoluindo há milênios, possuindo tendências extremamente resistentes e que não podem ser violentadas de uma hora para outra, mas sim buriladas através de uma vida equilibrada. As crianças são muito reprimidas, porém, quem compreende a reencarnação sabe que em um corpo infantil habita um velho espírito, muitas vezes enfermo sexualmente. abusar de algo que ainda não conhece. Devemo-nos lembrar de que lares são arruinados por traição, existem crimes praticados, suicídios, roubos, tudo partindo de uma relação amorosa doentia. Isso se dá porque nós ainda não sabemos amar. Deus, pacientemente, espera que cada um conquiste a própria felicidade. Ele nos ama." Houve uma pausa. Olhei Sadu e apertei a mão de Samita. O irmão continuou: "Nunca devemos ser radicais, somente porque nos sentimos mais próximos de Jesus, ou estamos compreendendo o Mestre através do Seu Evangelho. Cada caso é um caso; não podemos englobá-los, sem uma análise criteriosa. Ditar regras torna-se perigoso; a própria vida se encarrega de apagar ou gravar as verdades de cada um. 0 dia-a-dia do homem, cedo ou tarde, irá levá-lo a uma compreensão maior. Deus foi quem criou o homem e a mulher, a fêmea e o macho; por que, com o fanatismo, desejamos separá-los? Enquanto queremos proibir, afastamos o homem de Deus, pois ele indagará sempre: "se o sexo é sujo, por que Deus o criou?" O que se deve fazer é orientar, mas quem está preparado para tão difícil tarefa? Difícil sim, em razão do homem ter adquirido o instinto sexual através de um aprendizado errado. Muitas vezes somos chamados para esclarecer os pais durante o sono, porque estes se vêm às voltas com as atitudes estranhas dos filhos, porém, muitas vezes, os pais é que levam as crianças ao desequilíbrio sexual. Muitos homens, desejando um filho varão, vivem dele exigindo masculinidade, o que acarreta na criança marcas profundas de desequilíbrio. Com o tempo procurará suplantar a mulher e com isso jamais terá uma companheira realizada, mas uma escrava para servi-lo. Alguns pais, bastante desinformados, levam os filhos a uma busca precoce do prazer, dizendo que o "homem tem de ser homem". E o garoto inicia a sua experiência sexual sem nenhum amor, o que o conduzirá a uma constante procura, porque será um eterno insatisfeito. Ele sofrerá de uma inibição inconsciente, um simples retraimento sem conhecer a origem do problema; a sua inibição será tanta que ele procurará no sexo a sua força; e um órgão é um órgão, não uma alma. Portanto, é anti-psicológico pregarmos contra o sexo, principalmente se somos explanadores do Evangelho. Os que não creem no espírito não têm tanta culpa ao fazer tal pregação, mas os espíritas esclarecidos não podem esquecer que o espírito está evoluindo há milênios, possuindo tendências extremamente resistentes e que não podem ser violentadas de uma hora para outra, mas sim buriladas através de uma vida equilibrada. As crianças são muito reprimidas, porém, quem compreende a reencarnação sabe que em um corpo infantil habita um velho espírito, muitas vezes enfermo sexualmente. Como devem agir os pais? Orientar o filho, desde pequeno, e fazê-lo liberar essas energias através dos esportes, desviando a atenção da criança. Quando percebermos que nela estão contidas lembranças desequilibradas, nada melhor do que despertar a sua atenção para algo mais nobre: leitura, esporte, música, teatro, etc. Não deixar essas crianças brincando sozinhas, elas precisam ter uma vida bem movimentada, sem lhes dar muito tempo para pensar. Os pensamentos nesses espíritos surgem das lembranças pretéritas e elas os conduzem às aberrações sexuais. Quem possui um filho assim, tem de ajudá-lo. Devemos recordar, torno a repetir, que em um corpo infantil encontra-se uma alma velha e nela se encontra alojado um aprendizado errôneo em relação ao sexo. Não importa se hoje estamos no século XX, mas que busquemos em nossas crianças as raízes das suas frustrações e, se somos reencarnacionistas, sabemos que essas raízes estão na velha alma que ora retorna à Terra. Como tratá-las? Com carinho e respeito, sem culpá-las, quando percebermos que algo estranho existe nas suas atitudes. É muito difícil para um espírito voltar a habitar um corpo infantil. Quando dizemos que a criança, desde pequena, possui instintos sexuais, é porque ela possui um espírito velho e este, mesmo semiadormecido, tem relances de lembranças. Reclamar das suas atitudes ou espancá-las não é correto. 0 certo é buscar curá-las através de uma disciplinada vida e para isso, nada melhor do que uma programação cultural aliada à presença digna e equilibrada dos pais. Calou-se e logo percebi que era a hora das perguntas. -Irmão, a criança deve ser criada livre, isto é, fazendo o que deseja? - indagou um dos assistentes. - É evidente que se criarmos a criança sem disciplina, ela se tornará uma selvagem, porque todos nós somos educados para viver em sociedade, onde nem tudo é permitido. As crianças, muitas vezes, não gostam de comer na hora certa, negligenciam o banho, enfim, preferem apenas brincar, e até o colégio não será por elas frequentado. Sendo espíritos velhos em corpos infantis e livres de qualquer repressão, será travada uma luta de vida e morte entre os instintos baixos e as lembranças dos valores que cada um aprende na faculdade da erraticidade. Esse duelo tornará o ser muito mais infeliz. A sociedade pro cura fazer com que os homens se tornem civilizados, polimento necessário para o convívio social. Recebem no lar, na escola, no trabalho, em cada circunstância da vida, as lições para aprenderem a viver. A criança retorna à terra com a grande oportunidade do esquecimento e os pais são os primeiros mestres. Infelizmente, muitos pensam que os filhos lhes pertencem e desejam moldá-los ao seu caráter que, não raro, deixa muito a desejar. A criança, gradativamente, vai formando a sociedade dentro dela; capta e grava no seu interior o que a rodeia. Portanto, devemos ter cuidado com as nossas atitudes, para assegurar à criança um belo futuro. Os espíritas sabem que já tivemos muitas vidas e várias vezes compelidos a criar dentro de nós um mundo digno. Em cada reencarnação precisamos de bons professores, seja qual for o nosso estágio. - Obrigado, irmão. Fiz uma pergunta: - Muitas das nossas neuroses foram adquiridas por uma educação por demais severa? - Uma criança de cinco anos, mesmo já sendo um espírito velho, não distingue o que é moral e imoral; ignora, ainda, as leis da sociedade, mas mesmo assim, a ela pertence. Pode tornar-se neurótica porque os pais lhe cobram um comportamento ou de adulto ou de neném. Os pais que vêm nos filhos companheiros, amigos, não os forçam a nada, mas também não os deixam inteiramente livres, porque a criança não é um animal. Porém, é muito difícil educar quando não se é educado. As pessoas que foram mal-educadas, transmitem aos filhos o que a vida lhes deu: "repressão". Cada ser obedece a uma sinalização chamada censura, pois nem tudo podemos fazer. Não nos é permitido nos deitar sobre o fogão ou fazer necessidades fisiológicas no chão da sala ou do quarto. A vida nos ensina a viver em sociedade. Repressão é uma coisa e educação outra. Reprimir é só dizer: não faça; educar é explicar porque não o devemos fazer. A criança, se reprimida, um dia vai fazer tudo o que os pais não lhe explicaram, só proibiram. Portanto, o certo não é reprimir - volto a dizer - é ensinar, e isto só se faz com amor e respeito à fragilidade da criança, sempre medindo, analisando as suas reações, para saber se ela está assimilando bem os ensinamentos. Caso contrário, uma sobrecarga de esclarecimentos sobre regras de comportamento pode levá-la a uma saturação. Quando os pais compartilham com os filhos o seu dia-a-dia, estes vão crescendo, ficando adultos e com poucas neuroses. - Poucas, irmão? - perguntei. Ele respondeu: Sim, poucas. Um mínimo de criaturas não carrega dentro de si fracassos e ansiedades. 0 cotidiano leva o homem para frente, mesmo não ficando inerte ele muitas vezes nada carrega de proveitoso consigo. Portanto, passa pela vida, mas dela nada aproveitou, é como um aluno que vai à escola apenas para passar de ano, sem aprender. No dia em que o homem dormir e acordar procurando a razão da vida e nas suas indagações sentir que é um ser muito bem preparado para se tornar deus, ele mesmo colocará para fora as suas frustrações; e estas, em geral, nos acompanham por milhares de anos. - Irmão, o que devemos fazer quando a criança possui tendência acentuada para o sexo? - Primeiro, observar o bebê. Se temos conhecimentos espíritas, devemos compreendê-lo e amá-lo, muito mais do que aqueles que ignoram a ida e vinda dos espíritos. Em um corpo infantil se encontra prisioneiro um espírito velho e muitas vezes experiente por demais e quando de volta ao corpo físico, embora adormecido, possui sensações. E mesmo ainda bebê, ele experimenta prazer ao ser tocado ou quando as suas roupinhas estão apertadas. Disto, não busquemos escandalizar-nos: ele não deixa de ser uma criança inocente, mas, por mais que a vida nos leve a uma condição de aprendiz, não esquecemos totalmente o passado. O homem se escandaliza, mas também viveu o que hoje estou narrando aqui: ele se via criança, mas muitas vezes sentindo-se adulto. Os pais devem ajudar os filhos no seu difícil estágio infantil, dar-lhes educação, levando-os à prática de esportes e diversões culturais. Do contrário, eles procurarão buscar nos seus próprios corpos o prazer e serão presas de um sentimento de culpa que carregarão pela vida afora. E se esses pequenos forem descobertos praticando atos que os adultos consideram imoral, não os condenem, procurem elucidá-los; eles precisam muito de forças para chegar ao fim da estrada. O homem é um animal cujo corpo já atingiu um melhoramento, mas ainda carrega consigo o instinto dos irracionais e só com a sua própria luta sairá vencedor." 0 amigo despediu-se e se retirou. A prece foi feita e nós fomos saindo vagarosamente. Eu pensei: Meu Deus, por que nós somos tão severos com o próximo? Ninguém pode dizer que conhece alguém sem lhe conhecer a alma. Fui chamado, era a bela irmã Corina. Cumprimentei-a, respeitosamente, e fui informado de que teria aula no teatro vivo da Faculdade, e me vi apressando os passos, mas logo parei, porque Corina não tinha pressa. Ela me sorriu e me senti feliz por possuir amigos, e não existe nada mais belo que um belo sorriso de carinho. Livro Chama Eterna. Abraço. Davi.