terça-feira, 17 de janeiro de 2023

II. A CRENÇA NA PESSOALIDADE DO DIABO

 

Continuamos o assunto da II. CRENÇA NA PESSOALIDADE DO DIABO. Como falei estou transcrevendo da obra de Helena P. Blavatsky (1831-1899) usando o livro Ísis Sem Véu, volume IV páginas 135-140. "Deus ordena a ela, (a serpente no jardim do Éden), arrastar-se eternamente sobre seu ventre, e comer a poeira do chão. "Uma sentença", observa Eliphas Levi (1810-1875), "que em nada se parece às tradicionais chamas do inferno". Não levaram em consideração os autores dessa alegoria que a serpente zoológica real, criada antes de Adão e Eva, arrastava-se sobre seu ventre e comia a poeira do chão, antes que existisse qualquer pecado original. Por outro lado, não foi Ophion, o Daimôn ou diabo, como Deus, chamado Dominus? A palavra Deus (deidade0 deriva da palavra sânscrita Deva, e diabo provém do persa daêva, palavra substancialmente semelhantes. Hércules, filho de Jove e de Alcmena, um dos deuses sóis mais elevados e também o Logos manifesto, e, não obstante. representado numa natureza dupla, como todos os outros. O Agathodimôn, o daêmon beneficente, o mesmo que encontramos posteriormente entre os ofitas com a denominação de Logos, ou sabedoria divina, era representado por uma serpente que se mantinha ereta sobre uma vara, nos mistérios das bacanais. A serpente com cabeça de falção está entre os emblemas egípcios mais antigos e representa a mente divina, diz Deane. Azâzel é Moloch e Samuel, diz Movers, e Aaron, o irmão do grande legislador Moisés, faz sacrifícios idênticos a Jeová e Azâzel. "E a Aarão deita sortes sobre os dois bodes, uma para o Senhor (Toth no original) e outra para o bode emissário (Azâzel). No Velho Testamento, Jeová exibe todos os atributos do velho saturno, apesar de suas metamorfoses de Aoni em Elói e em Deus dos deuses, Senhor dos senhores. Jesus é tentado na montanha pelo diabo, que lhe promete reino e glória se se prostrasse e o adorasse (Mateus 4: 8,9), Buda (563 AC 483) é tentado pelo demônio Wasawartti-Mâra, que lhe diz, no momento em que deixava o palácio de seu pai: "Fica, que possuíras as honras que estiverem ao teu alcance. Não vás, não vás". E com a recusa de Gautama em aceitar suas oferendas, rangeu seus dentes com raiva e prometeu vingar´se. Como Cristo, buda triunfa sobre o diabo. Nos mistérios báquicos, um cálice consagrado, chamado cálice de Agathodaimôn, passava de mão em mão entre os fiéis após o jantar. O rito ofita de mesma descrição foi evidentemente tomado desses mistérios. A comunhão, que consistia de pão e vinho, foi usada na adoração de quase todas as divindades importantes. Em relação com o sacramento semi mítrico adotado pelos marcosianos, uma outra seita gnóstica, totalmente cabalística e teúrgica, há uma estranha história oferecida por Epifânio como uma ilustração das artimanhas do diabo. Na celebração da sua Eucaristia, os  marcosianos traziam traziam três grandes vasos do cristal mais fino e mais claro para o meio da congregação e os enchiam de vinho branco. No transcorrer da cerimônia, à vista de todos, esse vinho era instantaneamente mudado para vermelho sangue, para púrpura e depois para azul celeste. "Então o Mago", diz Epifânio, "entrega um desses vasos para uma mulher da congregação e lhe pede que o abençoe. Feito isso, o mago despeja o seu conteúdo num vaso de maior capacidade, formulando o seguinte pedido: "Possa a graça de Deus, que está acima de tudo, é inconcebível e inexplicável, preencher o teu interior e aumentar o conhecimento daquele que está dentro de ti semeando o grão de mostarda em terreno fértil, Depois disso o licor do vaso maior aumenta e aumenta até chegar à borda. Em relação com muitas divindades pagâs que, após a morte, e antes de sua ressurreição, descem ao inferno, seria útil comparar as narrativas pré cristãs com as pós cristãs. Orfeu fez a sua viagem, e Cristo foi o último desses viajantes subterrâneos. No Credo dos Apóstolos, que está dividido em doze frases ou artigos, que foram inseridos cada um por um apóstolo em particular, segundo Santo Agostinho (354-430), a frase "Desceu ao inferno, no terceiro dia ressurgiu dos mortos" é atribuída a Tomé, talvez como uma expiação da sua incredulidade. Seja como for, diz-se que a frase é uma falsificação e não há evidencia "De que esse Credo tenha sido modelado pelos apóstolos, ou pelo menos que existisse como credo em sua época. Trata-se da adição mais importante que foi efetuada no Credo dos Apóstolos e data do ano 600. Esse artigo não era conhecido na época de Eusébio. O bispo J. Pearson diz que ele não fazia parte dos credos antigos ou das regras de fé. Irineu de Lyon (130-202), Orígenes de Alexandria (182-254) e Tertuliano (160-220) não parecem conhecê-lo. Não é mencionado em nenhum dos Concílios realizados antes do século VII. Theodoreto (393-457), Epifânio (310-403) e Sócrates (469-399) silenciam-se a seu respeito. Difere do credo de Santo Agostinho. Rufino afirma que, em sua época, ele não constava nem dos credos romanos nem dos orientais. Mas o problema se resolve quando lemos que séculos atrás Hermes falou da seguinte maneira a Prometeu, acorrentado no rochedo árido do Cáucaso. "Teu tormento não cessará até que Deus o substitua em tua aflição e desça ao lúgubre hades e às profundezas sombrias do tártaro. Esse deus era Hérculaes, o "Unigênito", e o salvador. E é ele que foi escolhido como modelo pelos padres engenhosos. Hércules, chamado Alexikakos porque converteu os malvados à virtude, Soter, ou Salvador, também chamado Neulos Eumélos, o Bom Pastor, astrochitón, o vestido de estrelas, e o senhor do fogo. "Ele não sujeitou as nações pela força, mas pela sabedoria divina e pela persuasão", diz Luciano. "Hércules disseminou cultura e uma religião suave e destruiu a doutrina da punição eterna expulsando Cérbero (demônio do poço - era um monstruoso cão de múltiplas cabeças e pescoço, que guardava a entrada do inferno - mundo inferior. O reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem). E, como vemos, foi também Hércules quem libertou Prometeu (o Adão dos pagãos), pondo um fim à tortuta infligida a ele por suas transgressões, descendo ao hades e ao tártaro. Como cristo, ele apareceu como um substituto para as aflições da humanidade, oferecendo-se em sacríficio numa pira funerária. "Sua imolação voluntária", diz Bart, "augurou o novo nascimento etêreo dos homens, ( ... ). Com a libertação de Prometeu, e a ereção de altares, vemos nele um mediador entre os credos antigos e os novos, ( ... ). Ele aboliu o sacrifício humano onde quer que fosse praticado. Desceu ao reino sombrio de Plutão, como uma sombra ( ... ) ascendeu como espírito a seu pai, Zeus, no Olimpo. A antiguidade estava tão marcada pela lenda de Hércules, que até mesmo os judeus monteístas daquela época, para não serem ultrapassados pelos seus contemporâneos, utilizaram-na na manufatura das fábulas originais. Hércules é acusado, em sua mito biografia, de uma tentativa de roubo do oráculo de Delfos. No Sepher Toledoth Yeshu, os rabinos acusam Jesus de roubar do seu santuário o Nome Inefável! Portanto, nada há de estranho em suas numerosas aventuras, mundanas e religiosas, tão fielmente espelhadas na Descida do Inferno. Por uma extraordinária ousadia de embuste e um plágio despudorado, o Evangelho de Nicodemo, só agora proclamado apócrifo, ultrapassa tudo que já lemos. Que o leitor julgue. No começo do capítulo XVI, Satã e o "Príncipe do Inferno" são apresentados conversando, amigavelmente. De repente, ambos são colhidos por "uma voz como de trovão" e pelo assalto dos ventos, que lhes ordenam abrir as portas para que "O Rei da Glória possa entrar". Logo após o Príncipe do Inferno ter ouvido esta ordem, "começa a discutir com Satã por não ter sido prevenido para tomar as precauções necessárias contra essa visita". A discussão termina como o príncipe lançando Satã "para fora de seu inferno", ordenando ao mesmo tempo que seus oficiais impiedosos "cerrassem as portas brônzeas da crueldade e as aferrolhassem com barras de ferro e lutassem corajosamente para não sermos tomados como prisioneiro". Mas "quando toda a companhia de santos( no inferno?) ouviu isto, todos eles disseram com voz encolerizada ao príncipe do inferno "Abre as portas, deixa O Rei da Glória entrar", provando que o príncipe precisava de arautos. "E o profeta Davi gritou: "Acaso não profetizei em verdade quando estava na terra?" Após isso, outro profeta, chamado Isaías, falou da mesma: "Não profetizei eu em verdade?", etc. Então, a companhia dos santos e profetas, deposi de se jactar por um capítulo inteiro e de comparar as notas de suas profecias, iniciou um tumulto, o que fez o príncipe do inferno, observar que "os mortos nunca se comportaram tão insolentemente, fingindo ignorar sobre quem estava pedindo admissão". Paramos por aqui quanto a transcrição do livro Ísis Sem Véu. Lembrando aos leitores que devem fazer seus juízos particulares dentro de suas perspectivas religiosas e espirituais. Não tenho a pretensão de formar opiniões com meus argumentos e nem influenciar nenhum de vocês. Considero-os corajosos por lerem alguns artigos do Mosaico, como esse, que desmistifica alguns dogmas milenares impostos pela Igreja para em muitos casos oficializar e fundamentar doutrinas baseadas em superstições e crendices. Aos amigos de outros países, no Brasil temos enormes problemas com esse tema específico, pois vemos em Igrejas Cristãs Protestante, shows com a invocação de espírito dos mundos inferiores. Onde eles se manifestam e criam um ambiente de engano e subordinação de todos os participantes, desde os líderes (pastores) que supostamente praticam o exorcismo, até os simples do povo que vão em busca de curas, alívio para suas dores, benção materiais e felicidade eterna. Assim, podemos tristemente assistir esses espetáculos na TV, nos cultos presenciais, e, campanhas missionárias organizadas por Igrejas Neo Pentecostais que usam mais esse tipo de artifício para atrair multidões necessitadas de refrigério para seus sofrimentos. O que é dito no texto com outras palavras "o diabo toma o lugar de Deus" é verdadeiro quando observamos os rituais de expulsão de demônios nesses ambientes carregados de emocionalismos e sensacionalismos exacerbados. Outro aspecto da demonização é culpar o demônio por todas as coisas negativas que nos acontecem, e creditar a Deus os sucessos que obtivemos em nossas convivências sociais, profissionais e espirituais. Isso representa nossa covardia e pulsilanimidade, pois não querendo assumir nossas escolhas certas ou erradas e nossas decisões em igual valor, jogamos a culpa no demônio que não tem nada haver com nossa maneira desidiosa de expressar nosso comportamento estereotipado. Assim descumprimos as Escrituras quando dizem: "O reino de Deus não é comida e nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo". Essas coisa são sutil e precisamos da intuição vinda dO Inefável para abarcarmos seu sentido completo. Não tendo medo de encarar de frente a questão e dando um basta nesse codinome, disfarçado de santo, com a essência e substância de demônio dos mundos inferiores. A pessoalidade desses seres (vulgarmente chamados de demônios) que habitam os mundos inferiores, divididos em hierarquias são representações de nosso inconsciente, vindas das correntes dos mundos das ideias e pensamentos. Tomo esse argumento da filosofia de Platão (428 AC 347) que baseia-se no mundo ideal e real. O real é esse mundo físico, material, grosseiro, enquanto que o mundo ideal é justamente o mundo dos pensamentos, das ideias, das coisas abstratas. Para Platão o corpo é o cárcere da alma que precisa se libertar para alcançar seu "eu" ideal, de modo a possuir seu verdadeiro conhecimento. Então, enquanto estivermos presos ao corpo (mundo real, físico) veremos demônios agindo por todos os lados e supostamente influenciando nossa vida, pois em uma condição corrupta seremos tendentes a negociar nossa culpa e ressentimento, como os demônios ou outros seres que nos iludam com suas dissimulações. Precisamos transcender  para o mundo ideal, dos pensamentos com nossa alma migrando das coisas fúteis e ilusórias da vida para uma dimensão de fraternidade e amor ao próximo.  Assim seremos nós mesmos no mundo, evoluindo com o que temos e somos. As vezes involuindo devido aos vícios e deméritos, mas conscientes que o processo de desenvolvimento da divindade em nosso ser é nossa total responsabilidade e somos o auto fiador desse sistema de completude cósmica. Abraço. Davi.

domingo, 15 de janeiro de 2023

I. A CRENÇA NA PESSOALIDADE DO DIABO

 

Teosofia. Transcrevo aqui nesse artigo I. A CRENÇA NA PESSOALIDADE DO DIABO as palavras de Helena P. Blavatsy (1831-1899), no livro Ísis sem Véu volume IV, páginas 135-140. "Parece impossível, e todavia esta é a triste realidade, que, entre todas as várias nações da Antiguidade, não houve uma só que acreditasse num diabo pessoal mais do que os cristãos liberais do século XIX (1801-1900). Nem os egípcios, que Porfírio chama de "a mais erudita nação do mundo", nem os gregos, seus fiéis imitadores, caíram em absurdo tão grande. Podemos acrescentar que nenhum deles, nem mesmo os judeus antigos, acreditou no inferno ou numa condenação eterna mais do que no diabo, embora nossas igrejas cristãs atribuem ao demônio tudo quanto se relacione com os gentios. Em todo lugar em que a palavra "inferno" ocorre nas traduções dos textos sagrados hebraicos, ela está distorcida. Os hebreus ignoravam essa ideia, mas os Evangelhos contêm exemplos frequentes de compreensões erradas. Assim, quando Jesus diz em Mateus 16:18 "( ... ) e as portas do hades não prevalecerão contra ela", o texto original apresenta "as portas da morte". Em nenhum lugar aparece a palavra "inferno", aplicada com o significado de condenação, seja temporária ou eterna, utilizada no Velho Testamento com o sentido que lhe deram os forjadores desse dogma."Tophet" ou o "Vale do Hinon" não tem esse significado. O termo grego "Gehenna" tem um sentido bastante diferente e equivalente, na opinião de escritores competentes, ao Tártaro homérico. O próprio Pedro nos dá prova desse fato. Em sua segunda Epístola 2:4 o apóstolo no texto original, diz, sobre os anjos pecadores, que Deus "os lançou ao Tártaro". Essa expressão, que lembra muito inconveniente a guerra entre Júpiter e os Titãs, foi alterada e agora, na versão bíblica  King James, apresenta "os lançou no inferno". No Velho Testamento as expressões "portas da morte" e "câmaras da morte" aludem simplesmente às "portas do túmulo", mencionadas especificamente nos Salmos e nos Provérbios. O inferno e seu soberano são ambos invenções do Cristianismo, contemporâneo do seu poder e do recurso à tirania. São alucinações nascidas dos pesadelos dos Antônios do deserto. Antes da nossa era, os sábios antigos conheciam o "Pai do Mal" e não o tratavam senão como asno, o símbolo escolhido de Typhon, "o diabo". Triste degeneração de cérebros humanos! Assim como Typhon era a sombra escura de seu irmão Osíris, Python é o lado mau de Apolo, o brilhante deus das visões, o vidente e adivinho. É morto por Python, mas mata-o por sua vez, redimindo a humanidade do pecado. Foi em memória dessa façanha que as sacerdotisas do deus Sol se vestiam com peles de serpente, típicas do fabuloso monstro. Sob sua poderosa influência, a pele da serpente era considerada magnética, as sacerdotisas caíam em transe magnéticos e "recebiam de Apolo as suas vozes", tornavam-se proféticas e proferiam oráculos. Além disso, Apolo e Python são apenas um, e moralmente andróginos (aquele que possui concomitantemente os dois sexos masculino e feminino). As ideias do deus Sol são todas duais, sem exceção. O calor benéfico do Sol traz o germe à existência, mas o calor excessivo mata a planta. Quando toca a lira planetária de sete cordas, Apolo produz a harmonia, mas, como outros deuses sóis, sob seu aspecto sombrio ele se torna o destruidor Python. Sabe-se que São João viajou pela Ásia, uma região governada pelos magos e imbuída de ideias zoroastrianas e, naqueles dias, repleta de missionários budistas. Se ele não tivesse visitado esses lugares e entrado em contato com os budistas, seria duvidoso acreditar que o Apocalipse pudesse ter sido escrito. Além das suas ideias do dragão, dá narrativas proféticas inteiramente desconhecidas dos outros apóstolos e que, relativas ao segundo advento, fazem de Cristo uma cópia fiel de Vishnu. Assim, Ophios e Ophiomorphos, Apolo e Python, Osíris e Typhon e Christos e a serpente são termos equivalentes. Todos eles são Logos e um é ininteligível sem o outro, como não se poderia saber o que é dia, se não se conhecesse a noite. Todos são regerneradores e salvadores, um num sentido espiritual, o outro num sentido físico. Um assegura a imortalidade para o Espírito Divino, o outro a concede através da regeneração da semente. O Salvador da Humanidade tem de morrer, porque ele oculta à Humanidade o grande segredo do ego imortal, a serpente do Gênesis é amaldiçoada porque disse à matéria "não morrerás". No mundo do Paganismo, a contrapartida da "serpente" é o segundo Hermes, a reencarnação de Hermes Trimegisto. Hermes é o companheiro constante e o instrutor de Osíris e Ísis. É a sabedoria personificada, como Caim, o filho do "senhor". Ambos construíram cidades, civilizaram e instruíram a Humanidade nas artes. Já foi repetidamente afirmado pelos missionários cristãos do Ceilão (atual Sri Lanka) e da Índia que as pessoas estão saturadas de idolatria, que são adoradoras do diabo, no sentido amplo da palavra. Sem qualquer, exagero, dizemos que elas não o são mais do que as massas de cristãos incultos. Mas eram adoradores do (o que é mais do que crentes no) diabo, embora haja uma grande diferença entre os ensinamentos do seu clero sobre o tema de um diabo pessoal. E os dogmas dos pregadores cristãos, e de muitos ministros protestante, também. Os sacerdotes cristãos estão presos, e se limitam a impô-la às mentes de seu rebanho, à existência do diabo, e as páginas inaugurais desse capítulo mostram a ração desse procedimento. Mas os Upassampanna cingaleses, que pertencem a um sacerdócio superior, não só não confessam acreditar num demônio pessoal, como também os Sâmanera, candidatos e noviços, ririam dessa ideia. Tudo na adoração externa dos budistas é alegórico e, por conseguinte, não é aceito, nem ensinado pelos punghis (pânditas) cultos. Tem um certo fundamento a acusação de que eles permitem e concordam permitem tacitamente em deixar o povo imerso nas mais degradantes supertições, mas negamos veementemente que eles reforcem essas superstições. E, nesse particular, eles parecem levar vantagem em relação ao nosso clero cristão, que (pelo menos aqueles que não permitem que seu fanatismo interfira em seus cérebros), sem acreditar numa só palavra disso, ainda prega a existência do diabo, como inimigo pessoal de um Deus pessoal e o gênio mau da Humanidade. O dragão de São Jorge, que figura com tanta evidência nas maiores catedrais dos cristãos, não excede em beleza o rei das serpentes, o Nammadâ Nârada budista, o grande dragão. Se a superstição popular dos cingales acredita que o demônio zodiacal Râhu destrói a lua devorando-a e se o povo da China e da Tartária sai às ruas batendo bombos, pratos e discos, com que fazem estrépito para afugentar o monstro durante os eclipses, por que o clero da França Meridional, ocasionalmente, no aparecimento de cometas, na ocorrência de eclipses ou outros fenômenos celestiais? Em 1456, quando o cometa de Halley fez sua aparição, "tão tremenda foi sua aparição", escreve Draper, "que o próprio Papa teve de interferir. ele o exorcizou e o afugentou dos céus. Foi lançado nos abismos do espaço, aterrorizado pelas maldições de Calixto III (1378-1458) e não se atreveu a voltar antes de setenta e cinco anos. Nunca ouvimos falar que um clérigo cristão ou o Papa houvessem tentado convencer as mentes ignorantes de que a crença no diabo tivesse algo a ver com eclipse e cometas, mas vemos um prelado budista dizendo a um oficial que lhe atirava na cara essa superstição: "Nossos livros religiosos cingaleses ensinam que os eclipses do sol e da lua denotam um ataque de Râhu, não de um diabo. A origem do mito do "dragão", que ocupa um lugar importante no Apocalipse e na lenda dourada, e da fábula sobre Simão Estilita convertendo o dragão e inegavelmente budista e até mesmo pré budista. Foram as doutrinas puras de Sidarta Gautama, Buda  (563 AC 483) que atraíram para o budismo os cachemirianos (Caxemira - um sub continente disputado pela Índia e o Paquistão desde o fim da colonização britânica) cuja adoração primitiva era a ofita, ou a adoração da serpente. O olíbano e as flores substituíam os sacrifícios humanos e a crença em demônios pessoais. O Cristianismo herdou a degradante superstição de diabos investidos de poderes pestilentos e assassinos. O Mahavansa, o mais antigo dos livros cingaleses, relata a história do rei Covercapal (cibra de capelo), o deus serpente, que foi convertido para o budismo por um santo Rahat.e desta lenda derivou seguramente a de Simão Eslita e seu dragão, que faz parte da Lenda dourada. O Logos triunfa uma vez mais sobre o grande  dragão, Miguel o arcanjo luminoso, chefe dos Aeóns, vence Satã. É digno de menção o fato de que, enquanto o iniciado mantiver em segredo "o que sabe", ele estará perfeitamente seguro. Isso acontecia nos tempos antigos e acontece agora. tão logo o Deus dos cristãos, emanando do Silêncio, se manifestava como a Palavra ou Logos, este último se tornava a causa de sua morte. A serpente é o símbolo da sabedoria e da eloquência, mas é também o símbolo da destruição. "Ousar, conhecer, querer e calar" são os axiomas cardeais dos cabalistas. Como Apolo e outros deuses, Jesus é morto por seu Logos, ele se ergue novamente, mata-o por sua vez e se torna seu senhor. Será que esse velho símbolo tem, como as outras concepções filosóficas antigas, mais de um sentido alegórico e insuspeitado? As coincidências são estranhas demais para resultarem do mero acaso. E agora que mostramos essa identidade entre Miguel e Satã e os salvadores e dragões de outros povos, o que pode ser mais claro do que todas essas fábulas filosóficas originadas na Índia, que viveiro universal do misticismo metafísico? "O mundo", diz Rmatsariar em seus comentários sobre os Vedas, "começou com uma luta entre o Espírito de Deus e o Espírito do Mal, e em luta há de acabar. Após a destruição da matéria, o mal não mais existirá, deverá voltar ao nada". Na sua Apologia, Tertuliano (160-220) falsifica evidentemente toda doutrina e toda crença dos pagãos relativas aos oráculos e aos deuses. Chama-os, indiferentemente de domônios e de diabos, acusando estes últimos de possuírem até mesmo as aves do ar! Que cristão ousaria duvidar de tal autoridade? Não afirmou o salmista que "Todos os deuses das nações são ídolos" e não explicou o anjo das Escolas, Tomás de Aquino (1225-1274), com sua autoridade cabalística, a palavra ídolos por diabos? "Eles vêm até os homens", diz ele, "e os incitam a adorá-los, valendo-se de certas obras que parecem milagrosas". Os padres foram tão prudentes, quanto sábios em suas invenções. Para ser imparciais, após terem criado um diabo, começaram a criar santos apócrifos. Nomeamos vários eles em capítulos precedentes, mas não devemos nos esquecer de Caesar Baronius (1538-1607), que, ao ler uma obra de João Crisóstomo (347-407) sobre o santo Xynoris, palavra que significa par, casal, tomou-a pelo nome de um santo e criou com ela um mártir da Antioquia e chegou a dar uma biografia detalhada e autêntica do "mártir ferido". Outros teólogos fizeram de Apollyon, ou antes Apolouôn, o Anticristo. Apolouôn é o "banhador" de Platão (428 AC 348), o deus que purifica, que lava e nos livra do pecado, porém que foi transformado naquele "cujo nome na língua hebraica é Abadon, mas na língua grega tem o nomo de Apollyon, diabo! Apocalipse 9: 11. Max Muller (1849-1874) diz que a serpente do paraíso é uma concepção que deve ter brotada entre os judeus e "dificilmente parece convidar a uma comparação com as concepções mais grandiosas do poder terrível de Vritra e de Ahriman no Veda e no Avesta". Para os cabalistas, o diabo foi sempre um mito, o aspecto invertido de Deus ou do bem. O mago moderno Eliphas Lévi (1810-1875), chama o diabo de "livresse astrale" (uma palavra francesa que traduzido em português significa a intoxicação astral). É uma força cega como a eletricidade, diz ele; e, falando alegoricamente, como sempre fez. Jesus observou que ele "considerava Satã com se fosse um raio caído do céu". O clero insiste que Deus enviou o diabo para tentar a humanidade, o que seria antes uma maneira singular de mostrar seu amor infinito para com o gênero humano! Se o Supremo foi realmente culpado dessa traição incompatível com sua augusta paternidade, ele é digno, certamente, de adoração por parte de uma Igreja que canta o Te Deum depois do massacre de São Bartolomeu (morte de aproximadamente 25.000 protestantes por católicos franceses em Paris nos dias 23 e 24 de agosto de 1574) e de abençoar as espadas maometanas feitas para exterminar os cristãos gregos! Isto soa ao mesmo tempo lógico e legal, não diz uma máxima da jurisprudência que "Qui facit per alium, facit per se"? A grande dessemelhança que existe entre as várias concepções do diabo é verdadeiramente ridícula. Enquanto os beatos o enfeitam invariavelmente com chifres e rabos e o concebem numa figura repulsiva que inclui um cheiro humano pestilento, John Milton (1608-1674), Lord Byron (1788-1824), Johann Goethe (1749-1832). Mikhail Lermontov (1814-1841) e um exército de romancistas franceses ergueram seu louvor em poesia graciosa e em prosa emocionante. O Satã de Milton e até mesmo o Mefistóles (personagem do romance Fausto) de Goethe possuem um relevo mais vigoroso do que alguns dos anjos representados na prosa de beatos estáticos. Comparemos duas descrições. Premiemos em primeiro lugar o incomparavelmente sensacional des Mousseaux. Ele nos dá uma narrativa emocionante de um íncubo, nas palavras da própria penitente: "Certa vez, ela conta, "durante  todo o espaço de meia hora, ela viu claramente perto dela um indivíduo com um corpo preto, espantoso, horrível, cujas mãos, de um tamanho enorme, exibiam dedos agatanhados estranhamente encurvados. Os sentidos da visão, do tato e do olfato foram corroborados pelo da audição"! E, pelo espaço de muitos anos, a donzela foi arrastada por tal herói! Quão distante desse galante odorífero está a majestosa figura do Satã miltoniano! Que o leitor então imagine, se puder, essa quimera soberba, esse ideal do anjo rebelde tornado o Orgulho encarnado, e encerrado na pele do mais repulsivo dos animais? Muito embora o catecismo cristão nos ensine que Satã in própria persona tentou nossa primeira mãe, Eva, num paraíso real, e na forma de uma serpente, que de todos os animais era o mais insinuante e o mais fascinante!. Continuamos na parte II. Abraços. Davi.      

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

FILME SANTO AGOSTINHO

 

Cinema. Editor do Mosaico. Filme Santo Agostinho. Disponível no YouTube e NetFlix. Santo Agostinho de Hipona (354-430), juntamente com São Clemente de Roma (35-99), Inácio de Antióquia, Policarpo de Esmirna (69-155) e Orígenes de Alexandria (185-254) dentre outros, são considerado Pais da Igreja. O filme começa com o bispo Agostinho num alto forte, observando a revoada de cegonhas à emigração. Se aproxima uma jovem, e, os dois conversam sobre os inimigos – vândalos – que no mar cercam a cidade de Hipona, na atual Argélia, norte da África. Isso no ano  de 430. Um destacamento legionário romano foi encarregado de proteger a cidade, aproximadamente 6 mil homens. Agostinho teve uma criação difícil em relação ao lado paterno. Seu pai não tinha compromisso familiar. Vivia em festas profanas e constantemente traia sua esposa. Pouco senso moral e nada de espiritual. Já sua mãe foi exemplo para ele. Cristã piedosa e obediente, se esforçava por viver o evangelho de Cristo em sua vida. Mesmo na situação extrema do casal preservava sua identidade de esposa fiel. Encorajou Agostinho, desde cedo, a seguir uma vida voltada à contemplação e devoção. Mas o jovem tinha um gênio afeiçoado ao mundanismo. Isso não a desencorajava a colocá-lo diante do altar de Deus em suas preces e orações. Andando pela cidade, o jovem, viu um professor dando aulas de oratória – arte de bem argumentar, eloquência na palavra. Falou com sua mãe da possibilidade de ser aluno. Ao que ela prontamente aceitou. Só que havia requisitos à admissão. Passou no teste tornando-se discípulo do orador. Esse caminho levo-o a conhecer uma “seita” religiosa os maniqueístas. Fundada por Manes ou Maniqueu filósofo do século III. Essa doutrina dividia o mundo em dois reinos. O reino da luz – bem. E o reino do mal – sombras. Manes dizia que Deus e o diabo estariam eternamente em combate. Falava que a natureza material era perversa e má. Porém, a bondade presente no espírito e mundo espiritual é boa e generosa. Tinha ideias sincretistas misturando elementos do hinduísmo, budismo, zoroastrismo e cristianismo. Nesse período das aulas de oratória, conheceu Valério, um romano com quem conviveu até sua conversão. Era um jovem ambicioso e prepotente. Levando seus intentos as últimas consequência. Desde que fosse o favorecido, usada até de trapaça. Um péssimo exemplo que subliminarmente o influenciou. Nesse intervalo foi exposto o lado libidinoso do jovem Agostinho. Morando numa residência romana com um centurião. Esse lhe ofereceu uma escrava para que o cuidasse. Um pouco de suas paixões carnais, foram expostas nesse relacionamento. Contudo seu lado devoto e solícito, reverteu o quadro. Pelo bom senso e início de caridade espiritual casou-se com ela tendo um filho. Todavia, para atingir seu objetivo na formação acadêmica. Partiu em direção a Europa, deixando sua mulher e seu filho na casa de sua mãe. Após os trâmites acadêmicos tornou-se advogado. Agostinho defendeu um cliente acusado de crime ante o direito romano. Sua excelente argumentação livrou o acusado da dura pena no tribunal. Contudo, em liberdade, o tal, assassinou o pai de um conhecido seu. Que esperando-o nas escadarias do palácio da justiça, onde funcionava o tribunal. Responsabilizou-o por ter liberto tal indivíduo. Agostinho considerou profundamente este evento, que tornou uma avaliação pessoal no percurso da vida. Cristãos e Maniqueus consideravam-se os detentores da verdade. Nenhum dos grupos abriam mão de suas crenças absolutas. Nem estavam dispostos à abertura de um espírito conciliador. A contenda foi instalada. Resolveram levar o embate ao “parlamento”. Onde cada facção apresentaria sua versão embasada em fatos do conceito de “verdade”. Coube ao orador Agostinho por sua retórica e hermenêutica, agora reconhecido publicamente, o veredito do conflito. Ele concluiu que os cristãos foram os vencedores, pois os argumentos de “verdade” se conformavam com os fatos no universo dos acontecimentos. O pai de Agostinho, acometido de uma doença grave, vendo-se a beira da morte, resolveu se converter ao cristianismo. No leito, antes de receber a extrema unção. Sua mãe avisou a Agostinho do ocorrido, que prontamente chega à casa da família. O famoso orador, ainda com um coração endurecido, desacredita que o pai havia se arrependido. Pensa que ele morrerá se auto enganando. Apesar de sua mãe mostrar-lhe o poder transformador da vida em ressurreição dada por Jesus. Segue incrédulo, não obstante o enterro do pai. Agostinho conhece o bispo Ambrósio (? -397) em Milão – Itália. Esse questionava as “heresias” do maniqueísmo. Professor de filosofia, retórica e teologia, Agostinho vai completar seus estudos das disciplinas com o famoso bispo. Mesmo perdedor da questão sobre a “verdade”. Os maniqueístas resolvem arregimentar uma luta armada contra os cristãos em Milão. Agostinho tentou acalmar os ânimos. Todavia, entraram em confronto. Mortos de ambos os lados chocaram a população. O bispo Ambrósio foi salvo guardado do conflito. Entre os que perderam a vida muitos eram conhecidos de Agostinho. Isso o consternou bastante, levando-o a sentir-se parte daquele desfecho tão violento. Ele cai por terra, arrependido, chorou, invoca o nome de Deus em espírito. Entregando sua vida nas mãos do Cristo Filho de Deus. Iniciou estudos de filosofia, retórica e línguas – latim, grego e hebraico com o bispo Ambrósio. Agora convertido a Cristo, vivia na comunidade cristã dedicando-se aos estudos religiosos e leitura das Sagradas Escrituras. Foi nessa época que escreveu suas mais importantes obras: Confissões e A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. O primeiro conta detalhes de sua vida, desordem e divergências humana e espiritual. Mostra a intensa tristeza por seus pecados sexuais e a importância da moralidade, ética e espiritualidade nos relacionamentos. O segundo “divide a cidade em dois partidos opostos. A Cidade de Deus e a Cidade terrena. Ambas entre laçam-se e fundem-se no século até que o juízo final as separe. Na Cidade de Deus encontramos uma ordem de fé, para entendermos o mundo e a história do homem. Tudo o que aparece no mundo e na história é pertencente a fé como também pertencente a Providência Divina”. Essas duas obras são de enorme importância em qualquer biblioteca de cristão, leigo ou clérigo. Agostinho, agora bispo de Hipona. Conclama o povo a uma rendição aos Vândalos. Seriam uma maneira de salvar milhares de vidas e poupar a destruição da cidade. A legião pretoriana enviada por Roma para proteger e enfrentar os inimigos, se opõem a esse plano. Achavam que tinham homens habilidosos e corajosos que juntamente com os que seriam convocados dentre o povo, poderiam derrotar e expulsar os invasores pagãos. Agostinho foi pessoalmente falar como o líder Gizerico (389-477) comandante do exército opressor. Ficou acordado um salvo conduto nas negociações. Um navio aportaria em Hipona para levar o maior número de pessoas, que desejassem sair da cidade. Já que o acordo à rendição não teve unanimidade entre os habitantes. Em maio de 430 a cidade foi cercada e caiu. Os exércitos inimigos entraram, mataram milhares de pessoas. Incendiaram e destruíram edifícios e casas. Santo Agostinho preferiu permanecer entre os que resistiram a ocupação, sendo também morto. Os que sobreviveram tornaram-se cativos do império Vândalo. Do alto mar, os que resolveram ir embora, viram a cidade em chamas. Inclusive, fica implícito que, sua mulher e filho aceitaram a oferta de abandonar a cidade com os demais. O filme passa a ideia da transformação pela qual o jovem Agostinho atravessou. Nosso coração estará sempre disposto a seguir pelo caminho da espiritualidade e devoção. Interesses outros, nesse percurso, poderão mudar, obstruir ou adiar esta entrega. Porém, de acordo com a Providência Divina, percorreremos essa estrada no tempo determinado. Romanos 8,28 diz: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam. Dos que foram chamados de acordo com seu propósito”. Assim, aconteceu com Agostinho. Sua resistência ao chamado divino e foco apenas na dimensão humana. Foram obstáculos, que vencidos, tornaram-se experiências úteis ao aprendizado da humanidade. Sua obra Confissões expõe claramente esse aspecto. Nossos dois lados, luz e sombra, não são perfeitamente discernidos em nossa experiência. Isso não omite nossa culpa. Somos responsáveis pelos atos que praticamos. Sendo penalizados naquilo que ofende a nós mesmos e nosso próximo. Contudo, quando a luz divina nos alcança. Temos abertura a compreender, discernindo, o certo do errado, o bem do mal, o claro do escuro. Assim, podemos desenvolver nossa espiritualidade baseada numa humanidade fundada na moral, ética e bons costumes. Tendo na devoção, oração e meditação nas Sagradas Escrituras, companheiros inseparáveis a desenvolver nosso homem interior. Esse se manifesta em nossa alma – emoções e sentimentos. E espírito – consciência, intuição e comunhão com Deus. Partes que estarão conosco quando passarmos da morte para a vida. O renascer da nova vida em ressurreição. Abraços. Davi

 

 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

MILAGRE E FÉ

 

Judaísmo. www.morasha.com.br. MILAGRE E FÉ. Pessach é a festa da fé. É conhecida pela Matzá que comemos, chamada de “pão da fé”, e pelos milagres que comemora, como são contados no Livro Êxodo e na Hagadá que recitamos durante o Seder. A fé e os milagres são temas que fazem parte de qualquer religião – e certamente da nossa. Mas qual o significado da fé e dos milagres segundo o Judaísmo? A fé não se relaciona apenas a crenças religiosas, mas, na mesma intensidade, senão mais, a uma infinidade de pequenas coisas que são parte de nossa vida diária. Certas pessoas são crédulas enquanto outras são céticas, mas todos somos crentes, em algum grau. Há muita fé mesmo em pessoas que se julgam ateus. Muitos de nós se orgulham de sua racionalidade, acreditando basear seus atos e crenças em conhecimentos precisos, fatos comprovados e uma apurada triagem de nossas opiniões. A verdade, contudo, é que ninguém é totalmente descrente. Todos nós aceitamos quase tudo de boa-fé. A fé está entranhada em nossa vida e é impossível viver sem ela. Quando crianças, acreditamos em tudo o que nos ensinam no colégio e raramente questionamos algo. A maior parte de nosso conhecimento, mesmo já adultos, não é verificada e, quase sempre, impossível de sê-lo – e nós acreditamos, de bom grado, que seja verdadeiro e correto. E o fazemos por ser praticamente impossível tentar comprovar até mesmo as coisas mais básicas. Não temos tempo nem recursos nem o conhecimento que nos permita pesquisar e tentar comprovar a maioria das coisas que julgamos saber. Por exemplo, qual o estudante que tem tempo, recursos e conhecimentos necessários para verificar se cada uma das informações em seus livros didáticos de Geografia e Biologia estão corretas? Em História, também; quase tudo o que aprendemos não pode ser verificado: baseamos nosso conhecimento em fontes históricas que são muito subjetivas e, em certos casos, imprecisas. Contudo, as aceitamos e aceitamos os fatos como verdadeiros. E não apenas as crianças acreditam no que lhes é ensinado. Mesmo os adultos têm de dar, com frequência, muitos votos de confiança, acreditando no que lhes dizem. Por exemplo, damos um voto de confiança sempre que compramos um medicamento em uma farmácia: quem tem tempo e recursos para enviar o medicamento para um laboratório verificar se está tudo certo? E ainda que o mandássemos ao laboratório, teríamos que confiar que eles o verificariam corretamente. Da mesma maneira, sempre que entramos em um avião, damos um voto de confiança ao piloto, confiando que ele tenha capacidade de o pilotar, mesmo sem o conhecermos pessoalmente, e também confiamos que a aeronave esteja perfeitamente apta a voar, apesar de a maioria de nós não saber coisa alguma sobre aviação e pilotagem. Praticamente tudo o que alegamos saber se baseia em fé, em maior ou menor grau, pois é impossível ter certeza absoluta de algo, qualquer coisa que seja. De tempos em tempos, somos lembrados disso: os jornais admitem ter apresentado de maneira errônea os fatos; descobrem-se erros factuais em livros didáticos; uma empresa farmacêutica é processada por conter informações errôneas nas bulas acerca dos ingredientes, dosagens e instruções. Contudo, apesar de todas as informações erradas e os percalços, temos confiança nos professores, nos pilotos e nas empresas que produzem e manuseiam os alimentos que ingerimos e os medicamentos que tomamos. Quando alguém alega ser cético, esse alguém não está fazendo uma afirmação precisa. Um verdadeiro cético despido de qualquer fé não aceita nada sem que ele próprio o possa verificar. Mas isso é impossível de ser feito. Mesmo o mais cético dos cientistas precisa fundamentar suas pesquisas e resultados em várias premissas, e mesmo aquele que é paranoico e obcecado por teorias da conspiração tem de aceitar que certas coisas são verdadeiras. Mesmo o ser humano menos crédulo tem de ter fé a cada instante de sua vida, desde acreditar que o Sol irá nascer no dia seguinte até crer que um gigantesco meteoro não colidirá com a Terra, fazendo-a desaparecer. Se as pessoas não tivessem fé alguma, elas não investiriam no futuro – nem em seus estudos nem em sua carreira, que dirá em poupar para sua aposentadoria – porque ao fazê-lo precisam ter fé de que estarão vivas para colher o que plantaram. A fé é onipresente e ninguém vive sem tê-la. Mas podemos decidir o que aceitar como fé e o que não. É importante observar, porém, que a percepção da dicotomia entre “questões de fé” e “fatos incontestáveis” tem menos a ver com racionalidade do que com o que é socialmente aceito em nossa sociedade, grupo social ou em nosso período histórico. Aquilo que é do “conhecimento de todos” é algo que não nos sentimos obrigados a comprovar, ao passo que tudo aquilo que não é parte do saber geral da maioria das pessoas fica a critério dos crédulos – ou seja, dos que creem.  Todos nós conhecemos pessoas que não frequentam sinagogas ou igrejas pelo fato de julgarem não haver provas da existência de D’us, mas que falam, com naturalidade, sobre as vibrações ou buscam a cura nos cristais, ou mesmo que consultam a página de Astrologia no jornal. Nem todas as pessoas creem em tais superstições; algumas preferem aderir a outras menos óbvias, como acreditar em tudo que leem nas mídias sociais ou se deixar levar por influenciadores digitais e celebridades. Há pessoas que se recusam a procurar um lugar de oração porque alegam não ter provas de que as orações são eficazes, mas que creem que se vestir com roupas de certas cores no Réveillon traz boa sorte. Há muita fé e talvez mesmo um excesso de credulidade nos seres humanos – mesmo entre aqueles que se vangloriam de serem céticos e racionais. A questão é: por que essa abundância de crença não inclui, na maioria das vezes, a fé em D’us? Talvez seja porque exige muito esforço o fato de se abrir a essa possibilidade, e talvez até uma mudança significativa na vida da pessoa. A principal razão para tantas pessoas acreditarem em superstições e, por outro lado, serem tão esquivas a ter fé em D’us é porque é muito fácil e não exige esforço algum crer em coisas banais. Já as crenças religiosas, essas carregam em si muitas consequências mentais, morais e práticas. Outra razão para o fato de os seres humanos aceitarem tantas coisas sem exigir qualquer prova é simplesmente o fato de não considerarem tais coisas importantes ou significativas. Por exemplo, se perguntássemos a um estudioso de História em que época viveu Alexandre, o Grande, essa pessoa nos daria a data e provavelmente vários detalhes sobre sua vida e seus feitos. Ninguém duvida da existência desse grande líder militar grego. E por quê? Acreditamos na sua existência graças a registros históricos bastante antigos a respeito de eventos que ocorreram há mais de dois milênios. Obviamente, nenhum de nós conheceu Alexandre, o Grande, em pessoa. Acreditamos que tenha existido porque aceitamos como verdade o que nos dizem os livros de História da Civilização. Certamente há evidências circunstanciais que embasam a crença em sua existência, e mesmo o Talmud se refere a ele. Mas não podemos dizer que temos certeza de sua existência como temos dos governantes atuais. Alexandre, o Grande, viveu há muito tempo e ninguém tem como afirmar que haja prova absoluta e irrefutável de que ele não seja um personagem de ficção. Por que, então, é tão fácil as pessoas acreditarem na existência de Alexandre, o Grande? Porque não nos importa, ao menos para a maioria de nós, se ele realmente existiu. Se não existiu, mas é fruto da invenção de alguém, que diferença faz? Da mesma forma, aceitamos dados sobre o tamanho do Oceano Pacífico e sobre a altitude do Monte Everest. Essas crenças não trazem consequências, por isso aceitamos como verdadeiras as informações dos livros didáticos e dos mapas-múndi. No entanto, há certas crenças que acarretam muitas consequências. A fé em assuntos importantes e existenciais deixa muitas marcas em nossa vida: molda nossa visão de mundo e nosso comportamento, o certo e o errado e nossos valores de vida. A existência Divina obviamente tem implicações extensas. A aceitação de um princípio de fé não é difícil – nós o fazemos o tempo todo. O difícil é aceitar as consequências inerentes a esse princípio. Milagres e fenômenos naturais. Quando, em 1961, os primeiros cosmonautas soviéticos retornaram do espaço, o premiê Nikita Khrushchev lhes perguntou: “Vocês viram alguém lá em cima?”. Quando responderam negativamente, Khrushchev declarou, alegremente, que isso constituía a prova derradeira de que D’us não existia. O raciocínio do líder soviético era que se os cosmonautas não viram D’us no espaço sideral – o lugar onde tantas pessoas acreditam, erroneamente, que Ele se encontra –, isso significava que Ele inexistia. O problema óbvio com a conclusão do líder soviético – além do fato de que D’us não é um ser físico – é que várias coisas que existem no mundo e têm profundo impacto em nossa vida não podem ser captadas por nossos cinco sentidos. O fato de os seres humanos não conseguirem ver algo obviamente não significa que esse algo inexista. Um exemplo atual e relevante, ainda que infeliz: não podemos ver a olho nu, falar, ouvir, tocar ou cheirar o Coronavírus. Contudo esse vírus virou o mundo de cabeça para baixo, afetando a vida de bilhões de pessoas. Os cientistas têm as ferramentas avançadas – potentes microscópios – que lhes permitem identificar o vírus. Mas, e se vivêssemos em uma época em que não se tinha o conhecimento científico nem esses poderosos microscópios para ver e identificar o Coronavírus? E mesmo hoje, apesar de todos os óbitos e destruição, há pessoas que alegam que o Coronavírus é uma fraude. Talvez essa gente siga o mesmo raciocínio que Khrushchev utilizou para tentar negar a existência Divina: aquilo que não conseguimos ver não existe. E mesmo quando os cientistas fornecem imagens aumentadas do vírus, essas pessoas dizem que se trata de uma invenção da comunidade científica e da indústria farmacêutica que lucra com a mesma. Não há comprovação que baste para alguém que se recusa a crer em algo. Se há pessoas que esperam ver D’us “andando” pelo espaço sideral, elas ficarão desapontadas pois não O encontrarão. Há pessoas que entendem que um Ser Infinito não é corpóreo – e que, portanto, não pode ser visto –, mas que pedem milagres como prova da existência Divina. No entanto, filosoficamente – como indicou Maimônides (o Rambam) há quase um milênio – um milagre não prova coisa alguma. Um milagre apenas significa que algo de extraordinário ocorreu, e apenas isso. Um milagre que viola o que conhecemos por leis da natureza é simplesmente o que é: algo surpreendente que está além do que entendemos das leis da Ciência. Por exemplo: o relato que consta na Torá sobre o cajado de Aaron ter virado uma serpente e depois voltar a ser um cajado é muito surpreendente e sobrenatural – não há explicação científica para isso. Mas não tem nada que ver com a existência de D’us. Nem sequer comprova que Aaron e Moshé eram emissários Divinos, pois, como a própria Torá nos conta, os feiticeiros do Faraó também souberam replicar esse feito sobrenatural. Os eventos sobrenaturais não provam que D’us exista. Tudo o que provam é que o mundo não é totalmente regido pela lei natural. Um evento sobrenatural é apenas uma anomalia – e nada mais. De fato, pode mesmo nem ser um evento significativo. Há uma parábola na literatura árabe que se aplica à nossa discussão. Um velho filósofo estava perdido em uma ilha com um jovem discípulo. Ele havia educado o jovem, ensinando-lhe tudo o que sabia. Quando cresceu, o aluno perguntou ao mestre: “Como viemos parar neste mundo?”. E o professor lhe descreveu o processo. O jovem, apesar de sua educação e respeito pelo mestre, respondeu: “Isso que você me diz é uma ficção tão mirabolante que não dá para se acreditar. Por experiência própria sei que se eu não respirar por dois minutos, morro. E agora você vem me dizer que eu sobrevivi durante nove meses sem respirar! Isso claramente é uma impossibilidade, sem lógica alguma, e prova cabal de que toda essa história é inventada!”. Um dos pontos dessa parábola é que mesmo uma teoria improvável não compromete a realidade. Se algo existe, simplesmente existe, quer seja provável ou improvável, quer acreditemos nesse algo quer não, quer possamos ou não provar sua existência. Se é, é; se não é, não é. Não importa quão plausível ou implausível seja algo, as opiniões de terceiros não têm impacto algum em sua existência ou inexistência. Por exemplo, acreditamos que as girafas existam porque a maioria de nós já as viu. Por outro lado, há pessoas que não creem na existência do Leviatã – uma gigantesca criatura marinha mencionada no Talmud e no Livro dos Salmos – pelo fato de nunca a termos visto. Mas se tivéssemos que descrever uma girafa a alguém que nunca tivesse visto esse animal, essa pessoa poderia dizer que se trata de um conceito implausível; as girafas não parecem mesmo criaturas plausíveis. O planeta Marte, a galáxia de Andrômeda e as girafas existem – quer acreditemos ou não em sua existência. E existem independentemente do fato de acreditarmos ou não em sua existência. Da mesma forma, a existência de D’us independe de seres humanos que acreditem ou não em Sua existência. D’us existe mesmo que ninguém o creia. Como ensinou Maimônides, os fatos moldam as opiniões e não o contrário – as opiniões não moldam os fatos. As coisas são verdade ou não; existem ou não existem, independentemente das crenças e opiniões das pessoas. Os Milagres de Pessach. Como o Êxodo do Egito marca a gênese do Povo Judeu como nação, muitos creem, erroneamente, que os eventos que levaram à libertação dos Filhos de Israel sejam as bases da Fé Judaica. Acreditam que a veracidade do Judaísmo gira em torno do fato de as Dez Pragas do Egito e da abertura do Mar serem decorrentes de milagres. E que, se houvesse explicação científica para a razão disso ter ocorrido, a história do Êxodo do Egito não seria prova alguma da existência de D’us e da veracidade da Torá. A verdade é que nós, judeus, somos os primeiros a admitir, como ensinou Maimônides, que os milagres não provam nada. O Judaísmo e seus princípios fundamentais, como o conhecimento da Existência Divina, a Providência e a Revelação independem da ocorrência das Dez Pragas e da abertura do Mar. Cremos em D’us e em Sua Torá não por causa do Êxodo do Egito, mas por causa da Revelação Divina no Sinai, perante milhões de pessoas. E por que o Judaísmo não se originou nos milagres ocorridos no Egito e no Mar de Juncos? Porque, como vimos acima, milagres não comprovam a existência de D’us nem a veracidade de religião alguma. Os membros de todas as religiões e até os idólatras conseguiram realizar milagres. A própria Torá atesta isso ao relatar que os feiticeiros do Faraó realizavam feitos sobrenaturais. Se um milagre é definido por romper as leis da Natureza, então o maior milagre de todos os ocorridos no Egito não foram as Dez Pragas nem a divisão do Mar. Foi, como dissemos acima, o cajado de Aaron ter virado uma serpente e depois voltado a ser o cajado. Chama atenção o fato desse fenômeno sobrenatural nem sequer constituir uma das Pragas. De fato, como conta a Torá, nem chegou a impressionar o Faraó, pois seus feiticeiros conseguiram replicar o mesmo feito. Entre as Dez Pragas, a única que constituiu um fenômeno sobrenatural foi a primeira: fazer as águas do Egito virarem sangue. Não há explicação científica para isso. Mas como a própria Torá nos conta, os feiticeiros do Faraó também conseguiram fazê-lo. Claramente, nem o cajado virar serpente nem as águas virarem sangue provaram algo sobre a existência de D’us. Afinal, como poderiam fenômenos sobrenaturais que podem ser realizados por feiticeiros politeístas, idólatras e malvados atestar a existência de D’us? E as demais nove pragas e a abertura do Mar nem mesmo foram sobrenaturais. Rãs, piolhos, insetos, pragas e morte do gado, chagas, granizo, nuvens de gafanhotos, trevas e a morte súbita dos primogênitos foram eventos assombrosos, mas não sobrenaturais. Há explicações científicas até para o fato do granizo que abateu o Egito conter fogo. Quanto à abertura do Mar, isso poderia ter sido causado por um tsunami. Ironicamente, as últimas oito pragas, que não eram sobrenaturais, foram as que os feiticeiros egípcios não conseguiram reproduzir: eles conseguiram replicar apenas a praga do sangue – que foi, de fato, sobrenatural – e a praga das rãs. Isso serve de corroboração de que não podemos definir um milagre como sendo uma violação das leis da natureza, pois nove dos dez milagres que D’us realizou para libertar os judeus do Egito não foram fenômenos sobrenaturais. O que, então, houve de milagroso nas Dez Pragas e na abertura do Mar, que constituem um dos temas principais do Seder de Pessach? Foi o fato de terem caído sobre os egípcios, poupando os judeus. O Faraó libertou os Filhos de Israel não pelo fato de o Egito estar assolado por desastres, pois estes ocorrem de tempos em tempos. Tampouco o impressionou o cajado de Aaron ter transformado as águas do Egito em sangue; seus feiticeiros também o fizeram. O que perturbou o Faraó foi o fato desses fenômenos só terem ocorrido com os egípcios, não com os judeus, que viviam na mesma terra. Ele se aplica às demais pragas, já que nenhuma delas caiu sobre os judeus e suas propriedades. Por exemplo, como foi possível que uma praga apenas matasse o gado dos egípcios, sem afetar nem um único animal dos milhões de judeus que viviam no país? Seus animais não eram diferentes daqueles dos egípcios. Não há explicação lógica para os animais pertencentes aos judeus terem sido poupados. A 10ª praga finalmente derrubou o Faraó – não devido à morte súbita no Egito, mas porque foi direcionada a alvos específicos – os primogênitos egípcios, poupando todos os judeus. Finalmente, ficou claro ao Faraó aquilo que seus feiticeiros lhe tinham alertado, quando não conseguiram replicar a terceira praga, a do piolho: tudo o que ocorria não era causado por forças aleatórias da natureza, mas eram ato de um Poder Superior que claramente punia os egípcios. Assim sendo, a definição de um milagre – como explicamos em um artigo anterior em Morashá (Ed. 106, Os Milagres no Judaísmo) – não é necessariamente um evento sobrenatural, mas um favorecimento e ato de graça Divinos. O que as Dez Pragas e a abertura do Mar demonstraram, ao Povo de Israel e ao Faraó e seus magos, foi que Aquele que controla as forças da natureza poupou os judeus enquanto castigava os egípcios. O Mar de Juncos, as fontes de água de um país, as rãs, os piolhos e as demais pragas não diferenciam entre os cidadãos de diferentes nacionalidades. A única razão lógica para as pragas pouparem os judeus foi o fato de não serem desastres naturais, mas sim, recursos usados pelo Todo Poderoso. Ou seja, os milagres do Egito não foram as pragas, mas o fato de terem sido instrumentos da Divina Providência. Se as pragas também tivessem atingido os judeus, não haveria milagre e o Povo de Israel não teria sido libertado. A Graça Divina a favor dos judeus expressa pelas Dez Pragas é o tipo de milagre que pode reforçar a fé na existência de D’us – a percepção de que os eventos no mundo, naturais ou sobrenaturais, não são aleatórios, mas sim, orquestrados por um Poder Superior. O propósito de um milagre, portanto, não é a violação das leis da natureza. O propósito de um milagre é nos fazer lembrar que há um Ser Superior que coordena tudo o que ocorre no mundo, sejam essas ocorrências fenômenos naturais ou sobrenaturais. Em Pessach, e particularmente durante o Seder, narramos e celebramos os milagres – os favorecimentos Divinos – que conduziram à libertação de nosso povo da escravidão egípcia. Mas temos que enfatizar que mesmo os milagres da Providência Divina expressos nas Dez Pragas não constituem o berço do Judaísmo. Cremos na veracidade do Judaísmo não apenas por causa dos eventos que levaram ao Êxodo do Egito, mas por causa da Revelação Divina no Monte Sinai. Como explica o Sefer HaChinuch: Se D’us não Se tivesse revelado a todo o Povo Judeu no Monte Sinai e nos dado a Sua Torá, uma pessoa desafiadora poderia dizer, ao ver todos os milagres que Moshé realizou perante o Faraó e perante o Povo de Israel: “Quem sabe se Moshé os realizou por meio do poder de D’us ou por meio de técnicas demoníacas de sabedoria ou do poder do nome dos anjos?”. E apesar de que todos os sábios e feiticeiros egípcios     disseram ao Faraó que Moshé fizera os milagres por meio do poder de D’us, como está escrito: “É o dedo de D’us” (Êxodo 8:15), mesmo assim uma pessoa obstinada ainda poderia dizer: “Tudo se deveu à superioridade de conhecimento de Moshé sobre a magia e as forças demoníacas que o levaram a fazer as mágicas – e foi por isso que os magos egípcios cederam perante ele”. Em outras palavras, um cético poderia argumentar que Moshé dominava certas artes de magia que eram desconhecidas pelos egípcios, e por isso estes atribuíram os milagres a D’us apenas por desconhecerem o fato de que tais atos milagrosos podiam ser realizados por outros meios. Contudo, depois que o Povo de Israel vivenciou a profecia no Monte Sinai, ouvindo a Voz de D’us, não houve mais lugar para ceticismo algum. E eles entenderam claramente que todos os atos de Moshé haviam sido efetuados sob o comando do Mestre do Universo e que Sua Mão comandara tudo o que lhes ocorrera. Uma das razões para Pessach ser considerado a Festa da Fé é que apesar de haver documentos históricos e achados arqueológicos que atestem os relatos da Torá sobre as Dez Pragas, é preciso termos fé e acreditarmos nelas, assim como fazemos ao estudar História Antiga. E ainda, uma pessoa cética pode sempre argumentar que essas pragas não provam a Existência Divina, pois pode ter sido apenas uma incrível coincidência o fato de terem assolado apenas os egípcios, poupando os judeus. Alguns desses argumentos são válidos, e é por essa razão que o Êxodo não constitui a base do Judaísmo. A história da saída do Egito é relatada pelo segundo livro da Torá e está associada a muitos mandamentos do Judaísmo, inclusive à própria mitzvá de mencionar o Êxodo todos os dias de nossa vida. Contudo, as Dez Pragas e a abertura do Mar de Juncos não constituem a base do Judaísmo. Afinal, como ensinou o Rambam, os milagres não provam nada. Mas os eventos históricos, particularmente quando envolvem milhões de pessoas, como foi a Revelação Divina no Monte Sinai, exigem uma medida de fé, mas o tipo de fé que é usado pelos cientistas e historiadores respeitados e por todos aqueles que buscam sinceramente a verdade – a fé que é aceita como fato apenas porque se baseia em evidência concreta. Pessach celebra a liberdade do Povo Judeu, mas apenas marca o início de um processo que culmina 50 dias depois, na festa de Shavuot, quando celebramos a Divina Revelação no Monte Sinai – um evento no qual a fé em D’us do Povo de Israel foi corroborada com fatos. www.morasha.com.br. Abraço. Davi.

BIBLIOGRAFIA

Simple Words - Rabbi Adin Even-Israel Steinsaltz - Simon & Schuster

The Schottenstein Edition Sefer Hachinuch / Book of Mitzvos - Volume #1 - Artscroll - Mesorah

 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

A LEI DA UNIDADE DA VIDA

 

Editor do Mosaico. Teosofia. A LEI DA UNIDADE DA VIDA. Há sete princípios que regem a organização evolutiva setenária do homem e veremos dois deles que são o Princípio da Periodicidade e o Princípio da Correspondência que estão detalhados no livro A Doutrina Secreta volume II da senhora Helena Petrovna Blavatski (1831-1891). Ela esteve nas montanhas do Tibete durante sete anos fazendo pesquisas e catalogando documentos e depoimentos de mestres orientais – Lamas tibetanos – sobre variados assuntos da espiritualidade e filosofia Budista, Hindu e Brâmane. Alguns desses fatos são mostrados no livreto A Voz do Silêncio e no livro O País das Montanhas Azuis. A proposta dessa lição é montar um universo hipotético onde a representação lógica dos pressupostos que serão desenvolvidos estruturará os princípios acima. Esses atuarão como pano de fundo de nossa pesquisa filosófica, creditando uma elaboração baseada nas leis físicas que determinam a evolução da vida em suas fases específicas de densidade e fluidez. Esse desenvolvimento prossegue vagarosamente rumo ao Uno Universal. Os princípios aludidos formam a base da filosofia esotérica que foi chamada por diferentes nomes ao longo das épocas. Dentre esses temos Sabedoria Antiga, Religião Sabedoria, Sabedoria Arcana, Doutrina Secreta, Ciência Oculta, Sabedoria Divina e atualmente é usado o nome de Teosofia. A Teosofia busca os conhecimentos das tradições, culturas, filosofias, religiões e espiritualidades provenientes dos antigos sábios e filósofos. Um processo que baseado na observação e abstração formam a base científica e espiritual das culturas e filosofias dos antigos povos. dando origem ao sistema intelectivo, racional e cosmológico do pensamento universal. Compreende-se que o conhecimento é poder, e deve ser usado para o bem da humanidade. Sendo esse um dos motivos pelos quais não é disponibilizado em sua completude. Do contrário, irresponsáveis e interesseiros tomariam da situação para intentarem objetivos nocivos e perniciosos. Os iniciados em mistérios ocultos que tem compromissos ético, moral e da fraternidade universal são aqueles a quem é desvelado os conhecimentos mais profundos. Para serem usados em conexões de respeito, tolerância e compreensão dos arbítrios desiguais unindo os polos harmoniosamente. Esse conhecimento de que estamos falando também foram percebidos através de signos geométricos e hierogrifos (sinais gráficos de antigas civilizações). Como exemplos temos o símbolo da Cruz no Cristianismo. Isso por causa de Jesus Cristo ter sido crucificado, também representa a Santíssima Trindade. A extremidade superior tipifica Deus – o Pai – no céu; a extremidade inferior simboliza Jesus Cristo – o Filho – na Terra; as duas extremidades horizontais representam o Espírito Santo. A Estrela de Davi e o Candelabro no Judaísmo. A Lua Crescente e a Estrela no Islamismo. O Mantra Om, a Swastika e a Concha no Hinduísmo. A Roda do Dharma, o vaso e a flor de Lótus no Budismo. O conhecimento é mostrado também no olhar iluminado dos místicos que perceberam o lado sutil da vida e captaram as imagens e projeções além da aparência visível. Mantendo-os no corpo astral em fluidez, conseguiram classificar esses signos para que arquétipos humanos e culturais fossem preservados como legado histórico e social. Quando nos primórdios das raças raízes surge a humanidade o conhecimento é passado, contudo os aspectos profundos foram ocultados por muitos motivos. Dentre eles o ocorrido na Civilização perdida de Atlântida em que um cataclismo dizimou esses povos e sucumbiu com o acervo de conhecimento acumulado por milhares de gerações. O fato é mencionado por Platão (428 AC 347) numa narrativa em seus contos. A Lei da Unidade da Vida traz a premissa que o planeta Terra é uma única matéria e estamos interligados em um sistema sui generis gerando causa e sofrendo os efeitos. Família, sociedade, natureza mineral, vegetal e animal tudo está unificado. Em essência somos iguais e o princípio onipresente, eterno, sem limite e imutável habita em cada substância viva na Terra. O Logos Divino busca uma experiência em cada Ser. O Espírito Eterno quer emanar suas vibrações cósmica de infinito alcance em todo o Universo. O escritor brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967) em seu livro Grande Sertão Veredas traz a ideia da compreensão argumentativa da Consciência Cósmica. Ela permeia e interage com todos os elementos constituintes dos vários aspectos da natureza. Esse livro é místico e bem parecido com um tratado de metafísica, pois na leitura podemos distinguir dimensões espirituais, antropológicas, psicológicas e cosmológicas. Na introdução Guimarães Rosa usa um neologismo chamado de nonada para introduz a discussão das leis que regem o Universo mostrando os conflitos entre matéria e espírito. Na ciência esotérica o Logos está relacionado ao Sistema Solar, sendo imanente em cada átomo no aspecto da dualidade. Como exemplos temos vida e forma, matéria e espírito, claro ou escuro, dia e noite, calor e frio, uma polaridade de contingência e necessidade que geram o mundo. No caso da matéria e do espírito fica evidente que há um desnivelamento entre potência e ato dentro das categorias das consciências elementais, minerais, vegetais, animais e humanas. Nos seres menos evoluídos a consciência é potencializada primitivamente onde as ligações neuronais tem pouquíssimas funcionalidades. No mundo visível como exemplo temos as rochas sedimentares, no entanto, os cristais de quartzo são diferentes fazendo ligações atômicas e tendo capacidade de vibração em intervalos bem definidos. Nos seres mais evoluídos a consciência é sensivelmente capacitada para transformar a potência latente da vontade e desejos em atitudes e práticas. Ela interage no mundo visível podendo percorrer os corpos sensível e fluídos nos mundos invisíveis e imateriais. A doutrina Teosófica pensa os elementos primordiais da formação da vida material e espiritual como indissociável e inseparável. Ocorrendo até o momento em que a personalidade ou casca passa pelo processo da desintegração – morte – dando lugar ao nível espiritual da individualidade. Isso acontece no estado de sutilidade, buscando se aproximar do Espírito Divino. O Princípio da Periodicidade é manifestado pelos intervalos regulares de eventos como a hora de dormir, tomar café, almoçar, trabalhar etc. Uma lei fundamental do ocultismo diz que não há repouso ou cessação de movimento na natureza. Como diz Heráclito (535 AC 475) "Tudo flui, tudo passa, tudo se move sem cessar. A vida se transforma em morte, a morte em vida e o úmido seca, o seco umedece. (...). O mundo é um sono, o sono cede à vigília, o jovem torna-se velho. (...). Tudo tem o seu Ser, contudo também o Não Ser". Esse é o princípio hermético da vibração, que postula nada está parado e tudo está em movimento. O Princípio da Correspondência diz que o que está embaixo é como o que está em cima. Esse princípio traz a ideia que existe uma correspondência entre as leis e os fenômenos dos diversos planos da existência e da vida. Isso dá ao homem os meios de explicar muitos paradoxos obscuros e segredos da natureza. Existem planos fora dos nossos conhecimentos. Todavia quando lhes aplicamos o Princípio da Correspondência chegamos a compreender muita coisa que de outro modo nos seria impossível entender. Esse princípio é de aplicação e manifestação Universal nos diversos planos do universo material, mental e espiritual sendo uma lei universal. Esse princípio pode ser aplicado nas Sagradas Escrituras quando dizem em Gênesis 1, 26-27 "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança, e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a Terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a Terra. E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou". Como diz Orígenes o cristão (182-254) "a imagem nós adquirimos a semelhança devemos conquistar". Alguns cientistas usaram esse princípio da correspondência em suas pesquisas científicas. Como exemplo temos Galileu Galilei (1564-1642) que desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos do movimento uniformemente acelerado e do movimento do pêndulo. Consequentemente a lei dos corpos e o princípio da inércia, tudo contribuindo para a conclusão de que a Terra girava em torno do sol (Sistema Heliocêntrico). E não o contrário (Sistema Geocêntrico) como sustentou a Igreja por séculos. Infelizmente para não ser condenado a morte, Galileu teve que emitir uma nota na qual dizia que o modelo apresentado devia ser interpretado apenas como uma ferramenta matemática. Isto é, simplificava as órbitas dos corpos celestes e nunca como uma lei descritiva da realidade. Outro cientista que usou o princípio da correspondência foi Isaac Newton (1643-1727) ao postular suas três leis da física como vejamos.  A primeira lei diz que todo corpo continua em seu estado de repouso ou movimento uniforme em linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças imprimidas sobre ele. A segunda lei diz que a mudança de movimento é proporcional a força motora imprimida, sendo produzida na direção da linha reta na qual aquela força é imprimida. A terceira lei diz que a uma ação sempre se opõe uma reação igual, ou seja, as ações de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e se dirigem a partes contrárias. Sempre que dois corpos qualquer A e B interagem, as forças exercidas são mútuas. Tanto A exerce força em B, como B exerce força em A. A interação entre corpos é regida pelo princípio da ação e reação, proposto por Newton. Os filósofos hindus, 4.000 anos antes de Cristo, já percebiam esta Lei que está esboçada na Lei do Carma. “Ela ajusta o efeito a sua causa, ou seja, todo o bem ou mal que tenhamos feito numa vida virá trazer-nos consequências boas ou más para esta vida ou as próximas existentes. A Lei do Carma é imodificável, e é conhecida em várias religiões como – justiça celestial. Em sânscrito, Carma significa ato deliberado. Nas suas origens, a palavra significa força ou movimento. Apesar disso, a literatura pós-védica expressa a evolução do termo para lei ou ordem, assim definida muitas vezes como Lei de Conservação de Força. Isto significa que cada pessoa receberá o resultado das suas ações, manifestando causa e consequência de seus atos. Apesar de muitas religiões e filosofias da Índia não incluírem o conceito de culpa, castigo, remissão e redenção. O Carma funciona como um mecanismo essencial para revelar a importância dos comportamentos individuais saudáveis e benéficos para si e para a humanidade”. Futuramente estudaremos com detalhes os 7 princípios herméticos que são: 1. Princípio do Mentalismo. 2. Princípio da Correspondência. 3. Princípio da Vibração. 4. Princípio da Polaridade. 5. Princípio do Ritmo. 6. Princípio da Causa e do Efeito. 7. Princípio do Gênero. Abraços. Davi.

sábado, 7 de janeiro de 2023

BHAGAVAD GITA - A MENSAGEM DO MESTRE. INTRODUÇÃO

 

Bhagavad Gita – A Mensagem do Mestre. INTRODUÇÃO. O Bhagavad Gita (1), isto é, A Sublime Canção, também designada como a Canção do Senhor ou a Mensagem do Mestre, é uma das obras mais importantes que existem no mundo. Este livro é altamente prezado pelos budistas e venerado como Escritura Sagrada pelos brâmanes, que, frequentemente, o citam como autoridade no que se refere à religião hindu. A filosofia nele exposta é um conjunto harmonioso das doutrinas de Patanjali, Kapila e dos Vedas. O Bhavagad Gita é um episódio da grande e antiga epopeia hindu, intitulada Mahabharata (2), que contém 250.000 versos, descrevendo a grande guerra entre os Kurus e os Pandavas, que tinha por objetivo a posse de Hastinapura, um dos centros mais importantes da civilização ariana. Em sua forma literal, apresenta o Bhagavad Gita um interessante entre Krishna (3) e Arjuna (4), tratando de um fato histórico. Mas os Mestres hindus dizem que este livro maravilhoso tem sete sentidos, e aconselham ao leitor esforçar-se por penetrar no seu mais profundo sentido interior ou espiritual. A leitura desta sublime canção é útil para todos: cada um, porém, poderá assimilar e compreender só aquilo que estiver em harmonia com o desenvolvimento de suas faculdades psíquicas e espirituais. A nossa tradução, baseando-se na edição inglesa do Yogi (5) Ramacháraca, comparada com a edição em sânscrito e latim, publicada por Aug. Guilh, von Schlegel (1767-1845), e com a edição do doutor Franz Hartmann (1838-1912), tem por fim auxiliar os leitores nesse desenvolvimento, a que todo o ser pensante deve dedicar a sua vida. Não podemos desvendar totalmente o sentido esotérico deste precioso livro, porque – conforme as leis da natureza superior – cada um há de descobri-lo por si mesmo. Acrescentamos, entretanto, notas e observações que serão úteis para aqueles que aspiram à Iniciação. A cena da ação histórica do Bhagavad Gita transporta-nos à planície da Índia, entre os rios Jumma e Jheed. Na capital do país, chamada Hastinapura (6), reinava, em tempos remotos, o rei Vichitraviria (7). Casou-se com duas irmãs, mas faleceu sem deixar filhos. Conforme o costume dos antigos povos orientais, Vyasa (8), irmão do falecido, tomou essas viúvas por esposas e teve delas dois filhos: Dhritarasshtra (9) e Pandu (10). Dhritarasshtra, o mais velho, gerou cem filhos (simbólicos) dos quais o primogênito chamava-se Duryodhana (11). O mais moço, Pandu, teve cinco filhos, todos grandes guerreiros, conhecidos como os cinco principais Pandavas. Dhritarashtra perdeu a vista, e continuou a ser rei só nominalmente, entregando o poder real a seu filho Duryodhana. Este, com o consentimento do pai, baniu do país os cinco filhos de Pandu, seus primos, os quais, porém, depois de muitas vicissitudes, viagens e aventuras, voltaram à sua terra natal. Acompanhados de muitos amigos e partidários, e formaram um poderoso exército aproveitando os guerreiros que lhes forneceram os reis vizinhos. Com as suas forças, marcharam para o campo dos Kurus, empreendendo uma campanha contra o ramo mais velho da família, os partidários de Dhritarashtra, os quais se reuniram sob o comando de Duryodhana, que substituía o seu pai cego. E, em nome da família dos Kurus , começou o ramo mais velho a opor resistência à invasão e aos ataques dos Pandavas. O Bhagavad Gita apresenta-nos esses dois exércitos, preparados para o combate. O comando ativo dos Kurus, cujo chefe é Duryodhana, está nas mãos do velho general Bhishma (12), ao passo que o supremo comando dos Pandavas é o famoso guerreiro Bhima (13). Arjuna, um dos cinco príncipes Pandavas e um dos principais caracteres desta história, estava presente, ao lado de seus irmãos e acompanhado em seu carro de guerra por Krishna, reputado pelos hindus como encarnação humana do Espírito Supemo. Krishna, amigo e companheiro de Arjuna, a quem amava por causa de sua nobre alma e a resignação, com que esse suportava as perseguições. A batalha começou, quando Bhishma, o comandante dos Kurus, deu o sinal, tocando a sua corneta ou concha, sendo seu toque imitado pelos seus partidários, e respondido pelos Pandavas. Arjuna pediu a Krishna, ao princípio da batalha, que deixasse parar o carro no meio do espaço entre os dois exércitos inimigos, para ver de perto as principais pessoas que tomavam parte na luta. Vendo, então, seus parentes e amigos, tanto de um como do outro lado, ficou horrorizado por constatar que se tratava de uma guerra fraticida, e declarou à Krishna que antes queria morrer inerme e sem se defender, do que matar seus parentes. Krishna respondeu-lhe com um notável discurso filosófico que a maior parte do Bhagavad Gita, fazendo Arjuna reconhecer a necessidade dessa luta, em que ele e os seus partidários, finalmente, alcançariam completa vitória sobre os Kurus. O autor põe a narração de tudo isso na boca de Sanjaya (14), fiel servidor do rei cego, Dhritarashtra. Como já dissemos, além do sentido histórico, material ou literal, tem o Bhagavad Gita (como toda Escritura Sagrada: a Bíblia, os Vedas, o Alcorão, etc). Ainda vários graus do sentido espiritual ou esotérico. E para que os nossos leitores possam, com facilidade, descobri-lo, lhes diremos que a luta aqui descrita é a que se trava no interior de cada homem, entre o “Bem” e o “Mal”. Arjuna, o homem, acha-se colocado no campo de suas ações, entre dois exércitos inimigos, dos quais os Pandavas representam as forças superiores, e os Kurus, as forças inferiores da alma. Ali está ARjuna, o filho de Kunti (isto é, da alma) contra os seus parentes, os filhos de Dhritarashtra (vida material) ameaçado pelo egoísmo, pelos seus prazeres e pelas suas paixões. Que formam um poderoso exército de ilusões: a sua tarefa é vencê-las, para chegar ao conhecimento de sua verdadeira essência divina. Mas, como muitas dessas ilusões se lhe tornaram agradáveis, acha difícil combatê-las. A seu lado, entretanto, tem valentes guerreiros: a sua Consciência, o Amor do Bem e da Verdade, a Obediência à Lei Suprema, a Fé, a Convicção, etc. Krishna, que lhe explica a verdadeira natureza humana e a sua relação com Deus, é o Verbo de Deus, Logos ou Cristo em nós, o nosso Superior, Imortal Ego Divino. Livro Bhagavad Gita – A Mensagem do Mestre.

 

 

Referência: 1. Bhagavad, variação do bhagavant, em sânscrito significa sublime: Gita, pronuncie-se guitá – canção. Nota-se que, nas palavras sânscritas, g tem sempre o som gutural. H é aspirado, sh lê-se como o ch ou x chiante (em chá, xarope). Â, i, û têm o som prolongado, y é um i brevíssimo, ch soa tch. 2. Moha – grande; Bhârata – Índia. 3. Krishna (sh lê-se x) representa o Homem-Deus, o nosso Ego (ou Eu) Superior. 4. Arjuna representa o homem no estado evolutivo. 5. Yoga significa união; yogi é aquele que realizou a sua união consciente com a Alma Divina. 6. Cidade (pura) do Elefante (hastina). 7. Vichitra – multicor, de muitas espécies; virya – poder. 8. Agrado, prazer. 9. Representante da vida material; instinto. 10. Representante do elemento espiritual; intelecto. A palavra pandu significa claro, pálido. 11. Dificilmente vencível; obstinação. 12. Terror; egoísmo. 13. Terrível; a vontade espiritual. 14. Sanjaya – vitorioso. Livro Bhagavad Gita – A Mensagem do Mestre. Abraço. Davi

 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

OS ANALECTOS - LIVRO IV

 

Confucionismo. www.https//rt.br. OS ANALECTOS – LIVRO IV. 1. O Mestre disse: “A benevolência constitui o mais belo aspecto de uma vizinhança. Como pode ser considerado sábio um homem que, quando tem a possibilidade, não se estabelece em uma vizinhança benevolente?”. 2. O Mestre disse: “Quem não é benevolente não pode permanecer por muito tempo em uma situação difícil e tampouco pode permanecer durante muito tempo em circunstâncias favoráveis. “O homem benevolente é atraído pela benevolência porque ele se sente confortável com ela. O homem sábio é atraído pela benevolência porque percebe que ela lhe é favorável.” 3. O Mestre disse: “Apenas o homem benevolente é capaz de gostar ou de não gostar de outros homens”. 4. O Mestre disse: “Se um homem aplica o seu coração no caminho da benevolência, ele estará livre do mal”. 5. O Mestre disse: “Riqueza e posições altas são o que os homens desejam, mas a menos que eu as conseguisse do jeito certo, eu não as manteria. Pobreza e posições baixas são o que os homens não querem, mas mesmo se eu não as conseguisse do modo certo, eu não tentaria escapar delas. [53] “Se o cavalheiro abandona a benevolência, de que modo pode ele construir um nome para si? Um cavalheiro nunca abandona a benevolência, nem mesmo pelo pouco tempo que demora para se comer uma refeição. Se ele se apressa e tropeça, pode-se ter certeza de que é na benevolência que ele o faz”. 6. O Mestre disse: “Nunca conheci um homem que amasse a benevolência ou um homem que odiasse a ausência dela*. Um homem que ama a benevolência não pode ser superado. Um homem que odeia a falta de benevolência pode, talvez, ser considerado benevolente, pois ele não permitiria que aquilo que não é benevolente contaminasse sua pessoa. “Existe um homem que, pelo período de um só dia, seja capaz de dedicar toda a sua força à benevolência? Nunca conheci um homem cuja força seja insuficiente para essa tarefa. Deve haver casos de força insuficiente, mas simplesmente não os encontrei”. [54] 7. O Mestre disse: “Os erros de um homem são condizentes ao tipo de pessoa que ele é. Observe os erros e você conhecerá o homem”. 8. O Mestre disse: “Não viveu em vão aquele que morre no dia em que descobre o Caminho”. 9. O Mestre disse: “Não há razão de buscar as opiniões de um Cavalheiro [55] que, apesar de aplicar seu coração no Caminho, tenha vergonha da comida simples e de suas roupas pobres”. 10. O Mestre disse: “Nas suas relações com o mundo, o cavalheiro não é rigidamente contra ou a favor de nada. Ele fica do lado daquilo que é justo”. 11. O Mestre disse: “Enquanto o cavalheiro acalenta o bom governo, o homem vulgar acalenta sua terra natal. Enquanto o cavalheiro acalenta respeito pela lei, o homem vulgar acalenta um tratamento generoso”. [56] 12. O Mestre disse: “Se as ações de alguém são guiadas pelo lucro, esse alguém provocará muitos ressentimentos”. 13. O Mestre disse: “Se um homem é capaz de governar um reino por meio da observação dos ritos e do respeito, que dificuldades terá na vida pública? Se ele é incapaz de governar um reino por meio da observação dos ritos e do respeito, de que lhe servem os ritos?” 14. O Mestre disse: “Não se preocupe por não ter um cargo oficial. Preocupe-se com as suas qualificações. Não se preocupe porque ninguém aprecia as suas qualidades. Procure ser merecedor de apreço”. 15. O Mestre disse: “Ts’an! Uma única linha amarra todo o meu pensamento”. Tseng Tzu assentiu. Depois que o Mestre tinha saído, os discípulos perguntaram: “O que ele quis dizer?” Tseng Tzu disse: “O caminho do Mestre consiste em dar o melhor de si e usar a si próprio como medida para julgar os outros. Isso é tudo.” 16. O Mestre disse: “O cavalheiro entende o que é moral. O homem vulgar entende o que é lucrativo”. 17. O Mestre disse: “Quando conhecer alguém melhor do que você, dirija seus pensamentos para tornar-se igual a essa pessoa. Quando conhecer alguém tão bom quanto você, olhe para dentro e examine a si próprio”. 18. O Mestre disse: “Ao servir seu pai e sua mãe, você deve dissuadi-los das ações erradas do modo mais gentil. Se você vir seu conselho ser ignorado, não deve se tornar desobediente, mas permanecer reverente. Não reclame, mesmo que, com isso, você se canse”. 19. O Mestre disse: “Enquanto seus pais estiverem vivos, não viaje para muito longe. Se o fizer, seu paradeiro deve sempre ser conhecido por eles”. 20. O Mestre disse: “Se, por três anos, um homem não se desviar do caminho do seu pai, ele pode ser chamado de um bom filho”. [57] 21. O Mestre disse: “Um homem não deve desconhecer a idade do seu pai e da sua mãe. É, por um lado, uma razão para alegrias e, por outro, para ansiedade”. 22. O Mestre disse: “Na Antiguidade, os homens relutavam em falar. Isso porque consideravam vergonhoso se não conseguissem ser fiéis às suas palavras”. 23. O Mestre disse: “É raro que um homem apegado às coisas essenciais perca o autocontrole”. 24. O Mestre disse: “O cavalheiro procura ser suave no falar mas rápido no agir”. 25. O Mestre disse: “A virtude nunca está sozinha. Está destinada a ter vizinhos”. 26. Tzu-y u disse: “Ser inoportuno com seu senhor significará humilhação. Ser inoportuno com os amigos significará afastamento”. www.https//rt.br. Abraço. Davi