segunda-feira, 22 de junho de 2026

O GRÃO DE MOSTARDA

Budismo. Livro Vida e Doutrina de Sidarta Gautama. Por Yogi Kharishanda. O GRÃO DE MOSTARDA. Capítulo VIII. Um abastado comerciante ficou profundamente aflito ao verificar, um dia, que todas as moedas e barras de ouro haviam se transformado em carvão, de noite para o dia. Então, recolheu-se ao leito sem mais querer alimentar-se, pois preferia a morte à indigência. Um amigo seu, informado do acontecido, foi visitá-lo, e ao ouvir dele a causa do seu sofrimento, ponderou-lhe: O seu ouro se transformou em carvão porque você não aplicou bem a sua riqueza. O ouro avaramente acumulado não vale mais do que o carvão. Mas ouça um conselho. Estenda os seus tapetes no bazar, ponha em cima deles o carvão e venda-o. O mercador seguiu o conselho de seu amigo, e  quando os vizinhos lhe perguntavam por que estava vendendo carvão, respondia: É a única coisa que possuo. Algum tempo depois, uma jovem órfã e pobre, chamando Krisha Gotami, passou pelo bazar do mercador e lhe perguntou: Meu senhor, está vendendo também estes montões de ouro? O mercador respondeu-lhe: De que ouro você está falando? Onde está esse? Krisha Gotami pegou uns pedaços de carvão, que na vista do mercador se transformaram em ouro. O mercador supôs que Krisha Gotami possuísse clarividência mental, e a casou com seu filho, pensando consigo mesmo: Para muitas pessoas o outro não vale mais que o carvão, mas Krisha Gotami transmuta o carvão em ouro. Krisha Gotami teve um filho e sete morreu. Esmagado pela dor, ia com o filho morto de casa em casa, pedindo um remédio, mas as pessoas diziam: Está doida, a criança está morta. Finalmente, Krisha Gotami encontrou um camponês que respondeu a sua súplica dizendo: Não posso dar um remédio para a criança, porém sei de um médico que poderá dá-lo. E Krisha Gotami respondeu: Suplico que o senhor me diga quem é: Vá ver o Buda. Meu Senhor e Mestre, meu filho estava brincando entre as flores e tropeçou numa serpente que se enroscou no seu braço. Ficou logo pálido e silencioso. Não posso aceitar que ele deixe de brincar ou que deixe o meu colo. Meu Senhor e Mestre, dê-me um remédio que cure o meu filho. O Senhor Buda respondeu-lhe: Sim, irmãzinha, há uma coisa que pode curar tanto o seu filho, como a você se puder consegui-la. Porque os que consultam os médicos tomam o que lhes é receitado. Procure um simples grão de mostarda preta: porém, só a deve receber de uma casa onde nunca tenha entrado a morte. Onde não tenha morrido pai, mãe, filho nem filha, nem irmã, nem irmão, nem escravo nem parente. Aflita, Krisha Gotami foi de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas se compadeciam dela e lhe davam: porém, quando ela perguntava se já tinha morrido alguém naquela casa, lhe respondiam; Ah, poucos são os vivos e muitos os mortos! Não desperte a nossa dor. Agradecida, ela lhes devolvia a mostarda e dirigia-se a outros que lhe diziam: Aqui está a semente, porém já morreu nosso escravo. Aqui está a semente, porém o semeador morreu entre a estação chuvosa e a colheita. E ela não encontrou nenhuma casa onde não tivesse morrido ninguém. Krisha Gotami voltou chorosa para o Senhor Buda,  dizendo-lhe: Ah, Senhor, não pude encontrar mostarda em casa onde não tivesse havido morte. Então, entre as flores silvestres, na margem do rio, deixei meu filho que não queria mamar nem sorrir. E volto para ver o seu rosto e beijar os seus pés, suplicando-lhe que me diga onde encontrar essa semente, sem deparar ao mesmo tempo com a morte. Pois apesar de tudo não posso crer na morte de meu filho, como todos me disseram e temo tenha acontecido. O Mestre respondeu-lhe: Minha irmã, procurando o que não pode ser encontrado, você achou o amargo bálsamo que eu queria-lhe dar.  Sobre o seu seio dormiu hoje o sono da morte o ser que você ama. Agora já sabe que todo mundo chora uma dor semelhante à sua. O sofrimento que aflige todos os corações pesa menos do que se estivesse concentrado num só. Ouça, eu derramaria o meu sangue se ao derramá-lo pudesse deter as suas lágrimas e descobrir o segredo de o amor causar angústia e através de prados floridos nos conduzir ao sacrifício. Qual animais mudos conduzidos por seus donos. Nenhum nascido pode evitar a morte. Assim como os frutos maduros caem da árvore, assim os mortais estão expostos à morte desde que nascem. A vida corporal do homem acaba partindo-se como a vasilha de barro do oleiro. Jovens e adultos, tolos e sábios, todos estão sujeitos à morte. Porém o sábio que conhece a lei não se perturba, porque nem pelo pranto nem pelo desânimo obtêm a paz, mas pelo contrário, avivam as dores e os sofrimentos do corpo. A morte não faz caso de lamentações. Morre o homem, e seu destino está determinado por suas ações. Embora viva dez ou cem anos, acaba o homem por separar-se de seus parentes ao sair deste mundo. Quem deseja a paz da alma deve arrancar da sua ferida a flecha do desgosto, da queixa e da lamentação. Bendito será quem vencer a dor. Sepulte você mesma o seu filho. Extenuada pela dor, Krisha Gotami sentou-se à beira do caminho, pôs-se a meditar no silêncio do entardecer e disso consigo: Quem egoísta sou em minha dor! A morte é o destino comum de tudo quanto vive. Porém, neste vale desolado há um caminho que conduz a imortalidade aquele que elimina de si todo egoísmo. E sufocando o amor egoísta que sentia por seu filho enterrou-o no bosque. Foi logo refugiar-se no Senhor Buda, e encontrou consolo no Dharma que alivia o coração dilacerado pela dor. Abraço. Davi

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