Religião Afro-brasileira. Por Eurico Ramos. Livro Revendo o Candomblé - XIII. COMO SE DIVIDE UM ILÊ E POR QUÊ? Este aspecto de profundo sentido litúrgico, é da maior importância para nós, podendo ser explanado aqui apenas de forma superficial. Mas pode-se dizer que os candomblés mais ortodoxos organizam a casa, o ebé - comunidade - a roça de candomblé de forma que a mesma represente um grande corpo. Que se fosse visto de cima, apareceria deitado sobre a terra. E os membros deste axê, que compõem o ebê, representam o sangue (ejê) que circula por todo esse corpo. Por esse motivo, nós sempre encontramos, do lado esquerdo de quem entra na casa de candomblé, o Ilê Bará - a Casa do Exu. Representando o pé direito desse grande corpo que está deitado. Do lado direito de quem entra, encontramos a Casa de Ogun, que vai representar o pé esquerdo desse grande corpo deitado. Quando se entra no barracão propriamente dito, no barracão onde se realizam as festas públicas, a sua porta, a sua entrada, representa o genital feminino desse corpo. Ali dentro nós vamos encontrar, em cada quarto de santo, um órgão específico desse grande corpo - ará. Podemos explicar da seguinte forma: o runkó - onde se recolhe o Iaó - é o útero, o quarto de Oxum é a barriga. O quarto de Yemanjá é o seio, o quarto de Xangó é o coração, o quarto de Yansã é o pulmão. O quarto de Oxalá é o cérebro, o quarto de Oxóssi são os braços, o quarto de Oluaiê - ou dos Iji - representa a pele desse grande corpo. E as pessoas que transitam ali dentro, os filhos de santo, significam o ejé, o sangue que faz com que esse corpo esteja vivo e pulsando. A casa é exatamente um corpo vivo. Por esse motivo, inclusive, quando chegamos da rua, precisamos tomar um banho, verter água sobre o corpo e coloca vestes apropriadas. Para podermos transitar dento do ilé - dessa forma, esse grande corpo nos reconhece como parte do ebé e não como um elemento estranho. Pois, nesse caso, poderá repelir ou até mesmo "expulsar o estranho de suas entranhas". Outra visão em relação aos quartos de santo, paralela à que vimos anteriormente, nos mostra que cada orixá é cultuado em um quarto diferente porque é oriundo de uma região distinta do continente africano. Por esse motivo, cada quarto, além de representar um órgão daquele grande corpo, vai significar também uma região específica do país iorubá de onde vem aquele orixá. Dessa forma, encontramos Ogum representa a região de Iré, o quarto de Oxóssi representando a região de Erinlé, o quarto de Oxum a região de Oxobó. O de Yansã a região de Abenkutá, o de Xangó a região de Oyo, o dos Iji - Nanã. Oxumaré e Olualé - representando os orixás cujo culto tem origem no antigo Daomé - atual Benin na África, foram assimilados ao culto iorubano. Desse modo, podemos entender que todos os orixás têm seu culto próprio, completamente diferente um dos outros. Abraço. Davi
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