quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

COMO SÃO AS INDUMENTÁRIAS DOS ORIXÁS?

Religião Afro-brasileira. Por Eurico Ramos. Livro Revendo o Candomblé - VI.  COMO SÃO AS INDUMENTÁRIAS DOS ORIXÁS? Primeiro, eu gostaria de falar sobre o advento das indumentárias - roupas, trajes dos orixás no Brasil. Ensinamento que me foi transmitido oralmente pelas antigas yás do Axé da Casa Branca do Engenho Velho. Muitas das quais chegaram a conhecer os últimos tempos de senzala - alojamentos destinados a moradias dos escravos. Por que as roupas que se veem nos filmes e fotos dos orixás na África são diferentes das roupas que vemos aqui no Brasil? A resposta é muito simples: quando havia festa na senzala em louvor a um orixá, as mucamas, que também eram lavadeiras, simplesmente roubavam as roupas de gala da sinhá da casa grande. Iam para a senzala e vestiam seus orixás com essas indumentárias. Isso é visto até os dias de hoje, porque, se observamos bem as roupas das iabas - principalmente Oxum, Iansã e Iemanjá - podemos notar que as roupas desses orixás remontam ao Brasil Colônia (1500-1822), ao Brasil Império (1882-1889). O mesmo se aplica a Oxóssi, por exemplo, com aquele chapéu de caçador, que seria a figura do capataz da fazenda. Na realidade, as indumentárias começaram a mudar dessa forma. Começou-se a vestir os orixás com as roupas da sinhá - forma que os escravos designavam as senhoras ou patroas. Com suas roupas de gala, anáguas, panos finos e tecidos caros. As próprias joias das sinhás serviam de adorno aos orixás, manifestados na senzala. Quando acaba o candomblé, a mucama tratava imediatamente de lavar a guardar a roupa da sinhá. Ela não imaginava que suas vestimentas caríssimas, seus tecidos de Lisboa - Portugal, e de Paris - França. Na realidade, nas noites de lua cheia serviam para adornar os orixás africanos na senzala. Era assim que funcionava, e isso é visto até os dias de hoje. Essa é a grande diferença que há em termos de África e em termos de Brasil. Na África, o calor é muito forte, a temperatura é muito elevada, e os orixás se manifestavam praticamente sem roupa. No Brasil é que houve essa mudança. Existem variações nas indumentárias dos orixás e estas passaram por algumas modificações, conforme a casa e a nação. Na realidade, essas indumentárias estão totalmente desvirtuadas, com raras exceções. A indumentária de Obaluaê é, talvez, ainda hoje, a mais próxima do original. Devido ao uso da palha de costa e também a sua ferramenta, que é o xaxará - símbolo e ícone da realeza. Visto ser tal divindade um rei. Aliás, a título  de curiosidade nas casas cujo padroeiro é Xango, não se pronuncia o prefixo "oba" para Obaluaê. Suprime-se este prefixo - visto que, em terras Ketu, o único "obá" rei é Xango - chamado de orixá de Olualé. No Axé do Engenho Velho, Xango, Omulu e até Odê usam saiote e um bombacho por baixo. No caso de Ogum, ele não conseguiria se movimentar bem como saiotes, devido a rapidez de suas danças. Por isso, sempre usa bombacho. A respeito de Ogum, há outro aspecto importante a ressaltar. Até na Umbanda as pessoas sabem que a coroa de Ogum é o mariwo. Não sei por que, em algumas casas de culto ainda insistem em colocar uma coroa de metal em Ogum, que lembra os capacetes dos soldados romanos. Muito usados também para Oxogulá. Na minha opinião, esses capacetes deveriam ser substituídos por um eketé, o que seria bem mais correto. Atualmente, esses capacetes também são usados para Logun Edê. Está, além das roupas, enfeita-se com palha da costa. O mesmo se aplica a Oyá Ibale. Os parametros  dos orixás mudaram muito em relação ao que eram originalmente na África. Os paramentos de Oxum, por exemplo quase não sobrou nada da indumentária original desse orixá. Na África, Oxum, quando manifestada usava poucas vestes, era adornada com folhas e usava o obebé. Aliás, o obebé é um dos poucos fetiches remanescentes das suas terras de origem. Também podemos facilmente encontrar nas casas de candomblé a orixá Naná ostentando uma vassoura. Sabemos que o fetiche ou instrumento litúrgico, dessa orixá é o ibiri - instrumento alongado. Representando uma curvatura no final de sua haste, lembrando um grande sinal de interrogação. O ibiri é confeccionado com feixes de  mariwo, presos com palha de costa, enfeitado com búzios. Seria o símbolo dos eguns, de que Naná é a mãe, pois ela os carrega no colo e os embala no caminho do orun. Ela embala o ibiri, com as mães fazem com seus bebês. O ibiri tem um significado mágico. Representa a própria morte - elemento dominado por Naná. Esse orixá usa muita palha de costa, assim como seus orixás-filhos, todos oriundos do antigo Daomé - atual Benin, país africano. Naná usa cores que vão do lilás ao branco. Em determinadas casas tradicionais, diz-se que, por causa da estreita relação de Naná com Oxalá, uma das proibições de suas filhas seria o uso de roupas vermelhas e pretas. Em outras, afirmam que seria por causa da sua relação com as Eleye - as senhoras do pássaro da noite. Existem fortes controvérsias sobre esse assunto. Fato é que, hoje em dia, podemos ver com certa facilidade Nanã dançar nos barracões ostentando uma vassoura nas mãos em vez do ibiri. Com relação a Xango, por exemplo, um de seus símbolos é o oxê. O oxê de Xango, antes de ser um símbolo de beleza, é também encontrado em vários cultos pagãos. Na mitologia nórdica, encontramos Thor, o deus do trovão, que ostenta um martelo similar ao oxê de Xango. Na mitologia grega, Zeus também ostenta um martelo estilizado, similar ao oxê de Xango. Dizem às antigas yas que o oxe era, na verdade uma muleta, pois Xango era manco. Esse orixá teria sido ferido em combate, passando a apresentar um defeito físico. Realmente o oxê tem um formato que permite alguém se apoiar nele, se for o caso. E contam também as yas que foi Ossãe quem confeccionou o oxê em madeira para que o Xango pudesse guerrear contra Ogum. O oxê deve ser confeccionado sempre em madeira, nunca em metal, pois assim manda a tradição. Quanto ao xere, na África era confeccionado em madeira e principalmente com cabaças de pescoço longo, apresentando sementes em seu interior que, ao serem sacudidas, imitam o som da chuva. Por esse motivo, sempre que Xango se manifesta, tocamos o xere em sua homenagem. Passando a Oxala, é importante ressaltar aqui a simbologia do opaxoro de Oxalufa, que é o símbolo da realeza desse orixá. Nele encontramos elementos que remontam à própria criação do mundo. Alias, os símbolos do opaxoro são incrivelmente similares aos encontrados nas mesquitas islâmicas. Devido aos vestígios do Islã que permaneceram na nossa religião até os dias de hoje. Essa influência islâmica pode ser observada em vários detalhes. Nos torsos ou ojas nas cabeças, nos panos da costa, nas roupas em geral. No ato de se prostrar no chão em respeito a Oxalá. No caminhar ao redor do opó, pilar central do barracão. No fato de sexta-feira ser "dia santo", tanto no Islamismo quanto no candomblé. Com podemos observar, os vestígios do Islamismo são facilmente encontrados no candomblé. Também veio do Islã o hábito de se oferecer o carneiro a Xangô e a Oxalá, pois esse animal é muito apreciado naquela região da África. Abraço. Davi 

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