terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Caçando e Matando o Ego.

Em nosso estado mental normal, nosso ego parece enorme e concreto; ele parece ser justamente nosso melhor amigo, protetor e benfeitor. Mas na verdade, ele é o nosso pior inimigo, uma fraude que nos engana, fazendo-nos sentir que não podemos existir ou viver sem ele. Como um monstro morando em nosso coração, ele está sempre pronto para fazer coisas ruins e causar problemas a nós e aos outros. Nosso ego tem um monte de truques para se manter na ativa. Por isso, devemos prestar atenção quando começarmos a nos dizer: Se eu não cuidar do número um (nós mesmos), não vou trabalhar e vou acabar passando fome; se eu ficar me distraindo com esse assunto de espaço, vou acabar virando um vegetal. Posso até morrer! O ego tem mais defesas que a OTAN. Cuidado! Não há dúvidas de que é do nosso próprio interesse nos livrarmos desse demônio interior o mais rápido possível, a menos que sejamos masoquistas e gostemos da eterna dor física e mental. Ao recolher e responsabilizar nosso ego de apego a si mesmo por todos os nossos problemas, com certeza geraremos o desejo de cuidar de nosso mundo interno e de nos livrar desse ego o mais rápido possível. Para isso, precisamos enxergá-lo como um mentiroso, examinando se de fato existe como parece ou não. Isso significa dizer a nós mesmos: Pela lógica, se eu existo tal como parece, devo ser ou um com todo meu corpo e mente, ou separado e diferente deles. Se, quando busco o meu ego, não consigo encontrá-lo nem em minha mente nem em meu corpo, e nem tampouco como algo separado deles, não tenho outra opção senão aceitar que o que estou percebendo é o meu falso senso de individualidade. Precisamos expulsar esse fantasma da máquina. Pensando dessa forma, começamos a caçar nosso ego aparentemente vivo, nosso verdadeiro inimigo, e isso nos força a confrontar nossas suposições nunca examinadas sobre como existimos de fato. Eis um desafio bastante significativo do ponto de vista emocional: descobrir que nossa percepção básica da realidade é uma grande bobagem. Essa é a auto cura absoluta, e por isso devemos prosseguir, cheios de alegria, nesse nível grosseiro do treinamento espacial. Se sentirmos que o eu, ou nosso ego, é realmente nosso corpo,  como as indústrias de cosméticos adorariam que nós acreditássemos, então:
1.  Qual parte do corpo somos? A cabeça, o coração, os membros?
2. Como tenho muitas partes, devo ter muitos eus e muitos egos.
3. Se sou o meu corpo, então, mesmo que minha mente não esteja nele, eu estarei existindo. Quando meu corpo morrer, deixarei de existir. Essa visão materialista e niilista tem sido desafiada por muitos relatos de experiência pós-morte, além de testemunhos de tulkus nascidos no Ocidente e no Oriente, terapeutas de vidas passadas etc. 4. Se alguém corta fora nossa perna com um machado, ficamos histéricos e gritamos: Ele cortou minha perna, mostrando assim que sentimos que somos os proprietários de nosso corpo, e não o corpo em si. 5. Se sentimos que nosso ego é a nossa mente, precisamos examinar o que nossa mente é. Temos muitos fatores ou aspectos maiores ou menores da mente: seis sentidos e consciências mentais e cinquenta e um fatores composicionais, todos os aspectos misturados de clareza e escuridão em nossa mente. Ora, se tenho tantas mentes diferentes, devo ter muitos egos diferentes, uma personalidade múltipla esquizofrênica com cinquenta e sete identidades. 6. Quando alguém nos insulta, pensamos, ele machucou meus sentimentos, mostrando assim que nos sentimos os proprietários de nossa mente, e não a mente em si.
7. "Penso, logo existo". Frase dita pelo filósofo René Descartes (1596-1650), em sua famosa obra Meditações Metafísica. Se sou minha mente, posso viver sem meu corpo. 8. Se sentimos que somos a combinação de nosso corpo e mente, devemos tentar seguir o seguinte raciocínio: Não Sou meu corpo. Não sou minha mente. Mesmo assim, quando eles estão juntos, chamo-os de "eu". Mas como é possível que dois "não sou" tornam-se um "eu sou"? Pense nisso! Esse é um enigma profundo e cheio de sentido, não uma piada. É o mesmo que chamar de foguete a uma combinação de todas as partes de um foguete. Na verdade, nenhuma delas separadamente é o foguete, mas à união de todas as partes damos o nome de foguete. Enquanto estamos satisfeitos com o simples nome das coisas e não investigamos nosso mundo com mais profundidade, tudo parece estar certo. Os carros, as pessoas, os computadores, tudo trabalha e funciona. Mas se verificamos o que há por trás das ilusões, perceberemos que não há qualquer foguete que exista independentemente, mas apenas um objeto surgido inter dependente, dependendo de suas partes, causas, condições etc. Esse é o misterioso milagre da realidade. Quando buscamos as coisas em si, elas desaparecem. Mas quando as aceitamos elas funcionam maravilhosamente bem, até o momento em que se quebram, adoecem e morrem. 9. Se sentimos que nosso eu é diferente de nosso corpo e mente, devemos tentar imaginar então que nosso corpo foi totalmente destruído por uma bomba atômica e que nossa mente foi, de alguma forma, desligada, totalmente aniquilada. Onde estaríamos então? Obviamente, em lugar nenhum. 10. Portanto: Certamente não sou meu corpo, não sou minha mente, nem a combinação de meu corpo e mente; Então, onde estou? Em lugar nenhum. O que percebemos nesse momento, se tivermos feito o jogo da forma adequada, é nada, exceto o espaço absoluto. Esse nada não é o frio vácuo morto do espaço externo ou a completa negação da vida que nos ensinaram nas aulas de filosofia. A experiência da vacuidade, ou do espaço absoluto, é preenchida por uma sensação de extrema bem aventurança e uma profunda paz. Sem dúvida, segundo os nossos sentidos, não há nada lá, mas de alguma forma encontramos a sensação de arrebatadora alegria de tocarmos a essência da vida e o tecido fundamental da realidade. Ainda assim, não há nada lá. É fascinante e maravilhoso. Então, compreendemos de verdade o monstro que é o nosso ego, nos impedindo completamente de ter essa arrebatadora experiência. O eu é realmente muito egoísta. Todas as vezes que "caçamos o ego", devemos tentar manter a mente ingênua como a mente de uma criança. Não é bom começar o jogo pensando, já sei a resposta ou que tédio!, pois assim não poderemos ter o impacto emocional do inacreditável fato de que de repente nosso ego desapareceu, fugiu envergonhado. Quando nosso inimigo interior tiver sido exposto como uma fraude, um mentiroso e um traidor, a fantasia de sua existência se desintegrará no nada. Mas não se preocupe: ele voltará para nos assombrar por muitos e muitos anos. Está apegado a nós tanto quanto nós estamos apegados a ele. Matar o ego é um processo difícil e demorado. Mas é absolutamente benéfico e, por isso, devemos persistir com alegria. Nossa porcentagem de vitória crescerá passo a passo e, um dia, teremos vencido completamente.
Assim, tendo exposto nosso ego como uma fraude, usando a luz de nossa sabedoria, tudo que nos resta é uma negação, um vasto espaço ou vacuidade que não implica em nada mais, mas prova apenas que nosso ego independente nunca existiu. O vasto espaço da vacuidade não prova nem confirma mais nada. As pessoas comuns, em geral, necessitam de muito espaço individual e sempre se sentem desconfortáveis em espaços pequenos e em multidões. O antídoto para essa sensação e para o ser comum é familiarizar a mente com o vasto espaço interior do não ego, não eu, não meu! A auto cura não é desenvolver o ego, mas dissolvê-lo no espaço. Assim, sempre nos sentiremos muito confortáveis e relaxados, mesmo se estivermos rodeados por trinta pessoas gritando todas ao mesmo tempo. Algumas pessoas sentem medo quando entram em contato com esse imenso espaço interior, sentindo que fizeram desaparecer a si mesmas. Mas não há motivo para se preocupar: apenas fizemos desaparecer temporariamente nossa alucinação ou fantasia do ego. A energia do apego ao ego é tão forte nas pessoas comuns que certamente reaparecerá logo. Quando chegar o momento de você entrar em contato com o espaço interior, não se preocupe, seu corpo e mente e seu eu, surgidos inter dependente, ainda estão aqui. Gelso. Auto Cura. Lama Ganchen Rinpoche. Abraço. Davi.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Porta da Liberação.

As três portas da liberação, vacuidade, não sinal e não desejo, são comuns a todas as escolas do Budismo. A primeira é vacuidade, shunyata. Vazio sempre significa vazio de alguma coisa, portanto, devemos perguntar: Vazio de quê? Se eu bebo toda a água de um copo, o copo fica vazio de água, mas não fica vazio de ar. Vazio não quer dizer inexistência. Se Avalokiteshvara nos diz que os cinco skandhas são vazios, temos de perguntar: Vazios de quê? Se o fizermos ele irá nos dizer: Vazios de uma existência independente. Significa que "A" é inteiramente feito de elementos "não A". Esta folha de papel é vazia de uma existência independente, porque ela não pode existir por ela mesma; ela tem de inter ser com todas as outras coisas. A folha de papel é feita de elementos não papel tais como árvores, luz do sol, chuva, solo, minerais, tempo, espaço e consciência. Ela é vazia de um eu separado, mas está cheia de todas as outras coisas. De modo que vazio significa ao mesmo tempo cheio. Os ensinamentos de inter existência e interdependência podem se relacionar. Vacuidade é uma porta de liberação, uma prática, não apenas um assunto para ser discutido. Olhe em profundidade todas as coisas e será capaz de enxergar a verdadeira natureza da vacuidade. Fazendo-o você removerá a discriminação e transcenderá o medo do nascimento e da morte. A segunda porta da liberação é não sinal, alakshana. Podemos reconhecer Buda, o sublime, por meio de sinais? Se somos pegos por sinais, perdemos Buda. O Sutra do Diamante nos diz: "Um lugar onde alguma coisa pode ser distinguida por sinais, nesse lugar há decepção". O engano surge dos sinais, por isso nossa prática é transcendê-los. Se ficarmos presos numa noção ou num sinal, esta porta da liberação, se fechará. Precisamos abrir a porta usando a chave do não sinal. Não tente agarrar a realidade por meio de sinais. Não confie muito em suas percepções. No Sutra do Diamante, Buda pergunta a Subhuti: O que você acha, Subhuti? É possível agarrar o Tathagata por meio de sinais corpóreos? Subhuti responde: "Não, honrado Senhor. Quando o Tathagata fala em sinais corpóreos, não há sinais sobre os quais se esteja falando". Subhuti está usando a linguagem do Prajnaparamita. Por isso ele diz: Quando o Tathagata fala de sinais, não há sinais sobre os quais se esteja falando. Se você pode ver a natureza não sinal dos sinais, você pode ver o Tathagata. Como podemos encontrar o Tathagata?. Buda, o perfeito, nos diz que não podemos apreendê-lo pelas nossas noções. A palavra "sinal" é usada aqui. Podemos também usar as palavras "marca", ou "aparência externa", "fenômeno" ou "designação" (lakshana ou nimitia). Um sinal ou uma marca nunca é a própria realidade. Usualmente, por causa da nossa ignorância e energias de hábito, percebemos as coisas incorretamente. Somos detidos em nossas categorias mentais, especialmente em nossas noções de eu, pessoa, ser vivente e extensão de vida. Fazemos discriminaçao entre o eu e o não eu, como se o eu não tivesse nada a ver com o não eu. Cuidamos do bem-estar do eu, mas não pensamos muito sobre o bem-estar de tudo que seja não eu. Quando vemos as coisas desse jeito, nosso comportamento está baseado em percepções equivocadas. Nossa mente é como uma espada cortando a realidade em pedaços. E então agimos como se cada pedaço da realidade fosse independente dos outros pedaços. Se observarmos profundamente, removeremos essas barreiras entre nossas categorias mentais e veremos o um no muito e o muito no um, que é a verdadeira natureza da inter existência. Esta é a forma de ficarmos livres de nossos conceitos. É por isso que no Sutra do Diamante Buda usa a linguagem da liberdade quando responde a seu discípulo Subhuti. Encontramos muitas sentenças como esta no Sutra do Diamante: O bodhisattva não é um bodhisattva, por isso é um verdadeiro bodhisattva. Esse modo de falar é chamado de dialética do Prajnaparamita. Ele nos é ofertado por Buda para nos libertarmos de nossas noções. Vamos tentar compreender a dialética da Prajnaparamita: Uma taça não é uma taça, portanto, é verdadeiramente uma taça. Um eu não é um eu, por isso ele pode ser verdadeiramente um eu. Quando olhamos para dentro de "A", a coisa que estamos observando, uma taça, um eu, uma montanha, um governo, vemos nela os elementos "não A". Na verdade, "A" é feito apenas de elementos "não A", portanto, podemos dizer que A é não A ou que A não é A. Pai é feito de elementos não pai, inclusive os filhos. Se não há filhos, como pode haver um pai? Observando profundamente um pai, vemos os filhos; por conseguinte pai não é pai. O mesmo acontece com relação aos filhos, esposa, marido, cidadão, presidente, todos os demais e todas as coisas. Na lógica, o princípio de identidade é que A é A e que A nunca pode ser B. Para nos libertarmos dos nossos conceitos, temos de transcender esse princípio. O primeiro princípio da dialética do Prajnaparamita é que A é não A. Vendo isso, sabemos que o bem estar de A depende do bem estar dos elementos não A. O bem estar do homem depende do bem estar dos elementos não homem na natureza. Quando você tem a percepção correta do homem e sabe que ele é feito de elementos não homem, você pode, com segurança, chamá-lo por seus verdadeiros nomes, árvores, ar, mulher, peixe ou homem. Buda deveria ser visto da mesma forma. Buda é feito de elementos não Buda. A iluminação é feita de elementos não Iluminação. O darma é feito de elementos não darma. Os bodhisattvas são feitos de elementos não bodhisativas. Declarações desse tipo constam no Sutra do Diamante Prajnaparamita, e elas são um caminho para a prática da segunda porta da liberação, a porta do não sinal. Se aprendermos sobre as três portas da liberação, mas não as praticamos, elas não têm nenhuma utilidade. Para abrir a porta do não sinal e entrar no reino da realidade tal qual ela é, temos de praticar a mente alerta em nossa vida diária. Observando atentamente todas as coisas, enxergamos a natureza da inter existência. Vemos que o presidente de nosso país é composto de elementos não presidente, inclusive economistas, políticos, ódio, violência, amor etc. Observando atentamente uma pessoa que seja presidente, vemos a realidade de nosso país e do mundo. Nela podemos encontrar tudo o que concerne à nossa civilização. Uma coisa contém todas as outras coisas. Merecemos nosso governo e nosso presidente porque ambos refletem a realidade de nosso país, a forma como pensamos e sentimos, e a maneira como levamos nossa vida diária. Quando sabemos que A não é A, quando sabemos que nosso presidente não é nosso presidente, que ele é "nós mesmos", não mais o censuramos ou culpamos. Sabendo que ele é feito apenas de elementos não presidente, saberemos onde devemos aplicar nossa energia para melhorar nosso governo e nosso presidente. Temos de cuidar dos elementos não presidente e dos elementos não governo dentro e em torno de nós. Não é uma questão de debate. É uma questão de prática. Um lugar onde alguma coisa pode ser distinguida por sinais, nesse lugar há decepção. Subitamente, esta sentença do Sutra do Diamante se torna clara. Enquanto não olharmos a realidade profundamente e descobrirmos qual é sua verdadeira natureza, seremos enganados por sinais ou noções. Quando enxergamos a natureza não sinal dos sinais, vemos Buda. Depois de ver a verdadeira natureza de A, que é não A, nós tocamos a realidade de A. Nos círculos zen costuma-se dizer: Antes de eu começar a praticar, as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Depois que comecei a praticar, as montanhas não eram mais montanhas, e os rios não eram mais rios. Agora, como pratiquei por um bom tempo, as montanhas voltaram a ser montanhas e os rios voltaram a ser rios. Isto não é difícil de entender. Noções, mesmo as de Buda e de darma, são perigosas. Um mestre zen era alérgico à palavra Buda porque sabia que muita gente entendia mal Buda. Um dia, durante uma palestra sobre o darma, ele disse: Detesto a palavra Buda. Toda vez que tenho de dizê-la, vou até o rio e enxaguo três vezes minha boca. Todos na assembleia ficaram em silêncio, até que um homem levantou-se e disse: Mestre, eu sinto o mesmo. Toda vez que o ouço dizer a palavra Buda, tenho de ir até o rio e lavar três vezes meus ouvidos. Isso quer dizer que devemos transcender as palavras, conceitos e noções, e entrar pela porta do não sinal. Mate o Buda é um meio drástico de dizer que devemos matar o conceito de Buda para dar uma oportunidade ao verdadeiro Buda. Esses ensinamentos do Sutra do Diamante estão proximamente relacionados com aqueles do Sutra Conhecendo a Melhor Maneira de Pegar uma Serpente. Temos de estar atentos para não ficarmos estagnados, mesmo nos ensinamentos de Buda. Segundo o Sutra do Diamante: É por essa razão que não nos devemos deixar aprisionar por darmas ou pela ideia de que isto não seja o darma. Se você pensa que a ideia de darma é perigosa, pode ficar gostando da noção de não darma. Mas a noção de não darma é ainda mais perigosa. O que Buda quer dizer quando fala: Bhikkhus, todos os ensinamentos que lhes dou são um barco. Todos os ensinamentos devem ser abandonados, e os não ensinamentos, nem se fala. Você tem de matar não somente os ensinamentos mas também os não ensinamentos, a fim de obter o verdadeiro ensinamento. Mesmo o darma tem de ser largado, assim como o não darma. Praticar com o espírito da não prática, sem apegar-se às formas é a melhor maneira de praticar. Suponhamos que você pratica muito bem a meditação sentada. As pessoas olham e vêm que você é um praticante aplicado. Você se senta perfeitamente e começa a sentir-se um pouco orgulhoso. Enquanto os outros dormem até tarde e não comparecem em tempo à sala de meditação, você está lá sentado lindamente. Com esse tipo de sentimento a felicidade que resulta da sua prática será limitada. Mas se você percebe que está praticando para todos, mesmo que a comunidade inteira esteja dormindo e você seja o único a meditar, sua meditação beneficiará a todos e sua felicidade será ilimitada. Devemos praticar desta maneira - sem forma, no espírito da não prática. Buda ensinou seis paramitas ou perfeições. A primeira é a prática da generosidade, dana. Danaparamita deve sempre ser praticada sem forma. Se um bodbisattva pratica generosidade sem confiar em sinais, a felicidade resultante e inimaginável e incomensurável. Quando, voluntariamente, você limpa a cozinha e esfrega as tigelas, se está praticando como um bodhisattva, experimentará grande alegria e felicidade ao fazê-lo. Mas se seu sentimento é: Estou fazendo tanto, enquanto os outros não estão contribuindo com sua parte, você sofrerá, porque sua prática está sendo baseada na forma e na discriminação entre o eu e o não eu. Quando está martelando um prego numa peça de madeira se, acidentalmente, você bater no dedo, sua mão direita porá o martelo de lado e cuidará de sua mão esquerda. Não há discriminação: Eu sou a mão direita dando a você, mão esquerda, uma ajuda. Ajudar a mão esquerda é ajudar a mão direita. Essa é a prática de não se apoiar na forma, e a felicidade resultante é sem limite. É a maneira de um bodhisattva praticar generosidade e serviço. Se lavarmos os pratos com raiva e discriminação, nossa felicidade será menor que uma colher de chá. A segunda paramita que um bodhisattva pratica são os preceitos, silaparamita. Devemos praticar os preceitos com esse mesmo espírito, sem confiar em formas. Não devemos dizer: Eu pratico os preceitos, você não. Eu trabalho muito para praticar os preceitos. Há aqueles que se alimentam com dieta vegetariana sem se apoiarem na forma. Nem sequer têm ideia de que são vegetarianos e que os outros não o são. Apenas sabem que é natural e agradável serem vegetarianos. Os preceitos se tornam proteção e deixam de ser vistos como limitadores da liberdade. O mesmo vale para a prática de outras paramitas, paciência (ksantiparamita), energia (viriaparamita), e meditação (dhyanaparamita). O bodhisattva pratica sem confiar na forma. Por isso sua prática é a prática da não prática. Você pratica e, contudo, não parece que está praticando. A sexta paramita é a prática da Compreensão, Prajnaparamita. É a paramita básica, descrita às vezes como receptáculo de todas as paramitas. Você precisa de um bom receptáculo para carregar água, senão a água vai vazar. Se você não pratica a perfeição do entendimento, é como um pote de barro não cozido. A água vazará e será perdida. Prajnaparamita é também descrita como a mãe de todos os budas e bodhisattvas. Aqueles que praticam vipassyana, "observar em profundidade", são seus filhos. Essas são imagens importantes dos Sutras Prajnaparamita. A terceira porta da liberação é não desejo ou não meta, apranihita. Significa que não há nada para correr atrás, nada para obter ou realizar, nada a ser apanhado. Isto é encontrado em muitos Sutras, não apenas nos do Mahayana, mas em Sutras primitivos como Conhecendo a Melhor Maneira de Pegar uma Serpente. Todos temos a tendência de lutar com nosso corpo e nossa mente. Acreditamos que a felicidade é possível somente no futuro. Apercebermo-nos de que já chegamos, que não temos de ir para mais longe, que já estamos aqui, pode nos dar paz e alegria. já há suficiência de condições para nossa felicidade. Para tocá-las precisamos apenas nos permitir estar no momento presente. O que estamos procurando para sermos felizes? Tudo já está aqui. Não precisamos colocar um objeto à nossa frente para corrermos atrás, crendo que, até que o alcancemos, não seremos felizes. O objeto está sempre no futuro, e este jamais poderemos agarrar. Nós já estamos na Terra Pura, no Reino de Deus. Já somos Budas. Precisamos apenas despertar e nos dar conta de que já estamos aqui. Um dos ensinamentos básicos de Buda é que é possível viver feliz no momento presente. Drishta dharma sukha é a expressão em sânscrito. O darma lida com o momento presente. O darma não é uma questão de tempo. Se você pratica o darma, se vive de acordo com o darma, a felicidade e a paz estão com você agora. A cura se dá, tão cedo seja abraçado o darma. No ensinamento do Budismo Mahayana há duas dimensões de realidade, a histórica e a suprema. Na dimensão histórica parece que existe algo a ser realizado. Na dimensão suprema, você já é o que deseja ser. Entenderemos melhor o ensinamento não meta quando chegarmos ao ensinamento do Sutra do Lótus. Cultivando a Mente do Amor. Texto de Thic Nhat Hanh. Abraço. Davi.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Esperança para O Mundo em Crise e Assustado.



Aos leitores do Mosaico uma visão resumida dos atuais eventos políticos no mundo. A suposta volta da Guerra Fria, tem sido noticiada em tele jornais e jornais impressos de grande circulação aqui no Brasil. Os atuais fatos internacionais colocam em evidência esse pavor e medo do passado. Uma onda magnética de preocupação e expectativa perpassa as correntes inconscientes do pensamento ocidental. Fatos novos com roupagens velhas, e eventos arcaicos com vestimentas novas trazem espanto à comunidade globalizada. Na África Ocidental a manifestação do grupo Jihadista Islâmico Boko Haram, aterroriza, a população nigeriana bem como seus vizinhos Chade, Níger, Benin e Camarões. A Nigéria com sua população dividida entre cristãos e muçulmanos (sul e norte), sofre com o avanço desses terroristas que supostamente se dizem muçulmanos. O Islã é uma religião que prega a paz e a fraternidade entre os povos; repudiando toda forma de violência e opressão contra o outro. Maomé ao falar da Jihad (guerra santa) referia-se segundo teólogos muçulmanos liberais à luta que temos de travar contra nós mesmo. Nosso egoísmo, orgulho, inveja, luxúria e cobiça pelo materialismo e hedonismo mundano. Esses tais usam a religião como álibi (justificativa que se faz para que alguém si livre da culpa) para todo tipo de perversidade e intolerância, principalmente, contra os cristãos do sul do país. Oficialmente esse grupo terrorista alega que luta pela Sharia (Escritura Sagrada do Islã), combatendo segundo dizem a corrupção do governo nigeriano que atualmente é de filosofia cristã, a falta de pudor das mulheres, a prostituição e outros vícios. Eles culpam por todos esses males os cristãos, a cultura ocidental e a tentativa de ensinar algo a mulheres e meninas. Eles afirmam que as meninas sequestradas vão começar uma vida nova como servas. Na verdade serão escravas desses indivíduos truculentos e pervertidos. A Sharia virou lei no Norte da Nigéria, que tem uma maioria muçulmana. O Sul com a maioria cristã não quer a Sharia. O governo e a capital ficam no Sul, mas por causa das matanças, ameaças e o crescimento da população muçulmana, o número total dos adeptos dessa religião já ultrapassou o dos cristãos nigerianos, e por isso o Boko Haram exige a Sharia para o país inteiro. O grupo terrorista tem como objetivo acabar com a democracia na Nigéria, promovendo a educação exclusivamente em escolas islâmicas. No dia 25 de dezembro de 2011, cerca de cinco ataques à bomba em várias cidades da Nigéria causaram pelo menos 40 civis mortos e um policial ferido. O primeiro ataque aconteceu nos arredores da capital Abuja, o segundo na cidade de Jos, no centro do país, o terceiro na cidade de Gadaka, no nordeste, e os outros dois na cidade de Damaturu, no norte. Os alvos foram igrejas católicas durante a celebração da Missa do Galo após a Véspera de Natal. Em 2014 intensificaram as ações militares e terroristas. Operando com caminhões e carros blindados, cercaram vilas cristãs que ainda existem no norte da Nigéria, matando populações inteiras. Muitos conseguiram fugir, mas muitas meninas adolescentes foram capturadas vivas, sendo o número de mortos na ocasião mais de 100. Uma prova do que esses terrorista são capazes de fazer, tomando o santo nome de Aláh injusta e blasfemamente. Aláh fará com que paguem, até o último centavo, por esse procedimento desumano e monstruoso. Assim, não julguemos os fatos generalizando os conceitos muçulmanos praticados por esses terroristas africanos, que se auto promovem, usando sacrílegamente o nome de Aláh e seu profeta para cometerem atrocidades contra os cristãos nigerianos e de países vizinhos.  Esse fato, na região ocidental da África, não tem tido uma cobertura particularmente notável da mídia internacional. Mas as ações do famigerado e repugnante estado “islâmico” tem sido recorrentemente noticiado nos telejornais e imprensa escrita do ocidente. Execuções sumárias de pessoas e grupos de estrangeiros e opositores as suas ideologias são gravadas em vídeos, acessamos via rede mundial em nossos celulares, smartphones, note books e tablets. Têm o atrevimento de estampar decapitações em séries, remetendo-as pela Web. Os USA e aliados franceses, ingleses e mais quarenta países, inclusive o Irã combatem esses criminosos no Curdistão, Síria, Líbia e Iraque onde estão amotinados, planejando criar um Califado, “império islâmico”, que tem a pretensão de espalhar-se a partir da região do Iraque, Síria, Marrocos, Índia, partes da China, todo o Oriente Médio e norte da África. A América para, “esses islâmicos”, é território aborígene devendo ser despovoada. Tudo começou com a Primavera Árabe em 2010, quando por algum motivo desconhecido o povo ocidental acreditou que a democracia faria bem para os países árabes que estavam governados por imperadores perpétuos. Os terroristas fanáticos jihadistas foram então carinhosamente apelidados de “protestantes” ou “revolucionários” enquanto depuseram os antigos presidentes um atrás do outro. No meio dessa confusão política surgiu um grupo de malucos no norte do Iraque dissidentes da Al Qaeda (que para eles se vendeu) conhecidos por terem barba no pescoço. Eles começaram a vestir preto no meio do deserto de 60ºC e ficaram por lá morrendo de calor e ganhando respeito e popularidade por aguentarem isso. Enquanto eles compravam armas no mercado negro, a mídia só falava do Egito, da Crimeia e de como Bashar al Assad (1965-    ) era malvado, mimado e apegado ao poder. As Cruzadas dos Tempos Modernos realizada pelos ocidentais no Oriente Médio na primeira década do século XXI foram um grande sucesso. George W. Bush (1946-    ) e seu sucessor Barack Obama (1961-    ), além de outros líderes como Tony Blair (1953-    ), ajudaram a depor Muammar al Kadafi (1942-2011), Hosni Mubarak (1928-   ), Zine El Abidine Ben Ali (1936-    ). Além dos temíveis vilões Saddam Hussein (1937-2006), executado em praça pública e Osama Bin Laden (1957-2011), morto no Paquistão por forças especiais da marinha americana. Infelizmente essa atmosfera de “liberdade” e despretensão institucional permitiu a criação de um suposto país “islâmico”, que pretende converter o mundo para sua ideologia religiosa, que claramente não se baseia no sagrado livro do Alcorão, pois cometem as maiores atrocidades degolando jornalistas estrangeiros, estuprando meninas menores de idade, metralhando gente na rua, crucificando pessoas, matando crianças cristãs e explodindo coisas. Em 2014 o estado “islâmico” encontrou seu auge ao aproveitar-se da "ausência" de governos no Iraque e as conturbações na Síria. Gananciosos tentaram atacar o Líbano, mas não conseguiram, sendo rechaçados, todavia alegam mesmo assim autoridade sobre todos os muçulmanos do planeta, uma intenção descabida e dissimulada, pretendendo também invadir o Iraque e a Síria. Esse estado terrorista “islâmico” subiu ao poder sob a liderança de um muçulmano que se diz aiatolá, aproveitando-se do caos da guerra civil Síria. Estima-se que existam 80 mil soldados desse hipotético Estado, dentre combatentes na Síria 50 mil e no Iraque 30 mil. Esse contingente de insurretos têm aterrorizado o Oriente Médio um território que se estende desde o leste do Mediterrâneo até o Golfo Pérsico. O presidente Barak Obama pediu autorização ao Congresso Nacional, para usar  a força bélica (soldados, blindados, aviões e todo o arsenal armamentista) contra esses terroristas, nos redutos nacionais onde se encontram. Também o Egito pediu uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, para condenar esses extremistas, usando a força militar das Nações Unidas contra eles. O Papa Francisco, (Jorge Mario Bergoglio 1936-   ) em recente discurso no Vaticano aceitou formalmente o uso da força militar contra esses extremistas do "estado Islâmico", desde que referendado pela ONU, principalmente, devido a execuções sumárias de estrangeiros e decapitação de cristão realizada por esses terroristas. Esse bando de criminosos aproveitando-se do desgoverno da Líbia, onde várias facções de etnias diferentes lutam para tomar posse do governo central, infiltrando-se no país conseguindo aliciar um enorme contingente de simpatizantes, desse modo, praticando atos terroristas no vizinho Egito. A força aérea egípcia contra atacou bombardeando posições estratégicas desse suposto estado islâmico em território líbio. A União Europeia sofre com os aliciadores  (traficantes) dessas milícias paramilitares que atuam no continente, seduzem os jovens europeus, com promessas ilusórias de um novo céu e uma nova terra onde reina a justiça, persuadindo-os à ingressarem em suas fileiras como combatentes da jihad (guerra santa). Mais de três mil jovens já foram enganados, permanecendo entre esses criminosos; sendo usados para cometerem as maiores barbáries que vemos na internet e na TV. As famílias desses jovens sofrem terrivelmente, perdendo contato com eles, muitos são adolescente, e alguns milagrosamente, voluntária, ou com a ajuda de terceiros, conseguem retornar, sendo presos pelos seus governos nacionais; em alguns casos considerados traidores de suas pátrias.   O profeta Muhammad (Maomé) ao receber a revelação divina de Aláh, descrita no sagrado Alcorão que em suas palavras expressam o amor, a paz e o fraternidade entre os povos, não imaginou que seus preceitos tivessem um desvio tão deturpado e nocivo, feito por esses infiéis de mente mesquinha e maligna. O Alcorão enfatiza dar esmolas, suprir as necessidades dos pobres e cuidar das viúvas, velhos e crianças desamparadas. A compaixão, gratidão e altruísmo  para com todos os povos é uma tônica do sagrado Alcorão. Assim grupos extremistas, radicais e intolerantes não se fundamentam nos escritos da Suna, Sharia e Hadith, escritos também revelados por Aláh ao Profeta. A questão da Rússia e Ucrânia é a grande preocupação internacional atualmente. Um assunto complexo e de difícil compreensão, pois envolve situações históricas, econômicas e sócio culturais. Não sou analista político e nem tenho pretensão de fazer um comentário nesse viés, mas procurarei evidenciar aspectos e fatos humanos, imprescindíveis a vivencia comunitária. A Rússia é um grande produtor de petróleo e gás natural, sendo que no caso do segundo produto, ele é encaminhado aos países europeu que o compram; o transporte é realizado através de tubulações subterrâneas. A Ucrânia precisa do gás adquirido da Rússia, mas como têm uma frágil economia, como o resto da Comunidade Europeia, exceção da Alemanha, Inglaterra, Itália e França passa por uma terrível recessão, atrasando assim seus compromisso financeiros internacionais. Essa situação a leva (Ucrânia) para uma dependência econômica quase completa da União Europeia, que emprestando dinheiro aos ucranianos em elevados juros, sufoca sua economia, deixando-os a mercê de suas ordens e politicamente mudos quanto a decisões importantes para seu povo, fazendo apenas o que as potência hegemônicas (Alemanha, França e Inglaterra) da Europa desejam. A Rússia pressiona a Ucrânia à honrar seus compromissos de pagamentos em relação ao gás, pois ela percebe que essa situação é usada pelos ucranianos como arma política. Outro complicador está em que grande parte da população ucraniana é de fala, origem e tradição russa, simpatizando-se, muitas vezes, às decisões vinda do Kremlin moscovita. A Ucrânia sofre, desde alguns anos, com oposições e movimentos separatistas, exatamente essa população de origem russa, insatisfeita com as decisões e os rumos tomados pelo governo atual enfraquecido politicamente, devido ao pouco apoio popular. Assim, parece, que isso foi um dos motivos pelos quais a Criméia se desvinculou do governo central ucraniano e também foram constituídas as repúblicas autônomas de Donetsk e Lugansk. A Criméia, agora sob a influência russa, é rica em petróleo e outras matérias primas, produzindo o precioso dióxido de titânio, um importante componente industrial, e numa posição estratégia, com sua capital Sebastopol as margens do mar Negro, sendo a base da frota da marinha russa nessa região. Lembrando que 60% da população da Criméia é de origem russa. O Kremlin moscovita justifica essa posição como contraponto ao avanço da zona de influência da OTAN (Tratado Militar do Atlântico Norte) liderado pelos USA e aliados europeus. Os combates entre forças separatistas das recentes repúblicas criadas e o governo ucraniano fizeram, até agora, milhares de baixas. Assim, a União Europeia, liderada pela Alemanha de Angela Merkel (1954-    ) juntamente com França de Françoise Holland (1954-    ); tendo a participação da Ucrânia do líder Petro Poroshenko, Rússia do líder Wladimir Putin (1952-    ), e o secretário de Estado americano John Kerry (1943-    ) realizam rodadas de negociações, conseguindo um frágil acordo entre as parte, que aparentemente não será duradouro. Obama endurece o discurso contra o Kremlin moscovita, aludindo que é inadmissível um redesenho das fronteiras da Europa, ameaçando aumentar as sanções econômicas, situação seguida pela União Europeia, acrescentando isolar o regime de Wladimir Putin (1952-    ), que é acusado de incitar os separatista em suas incursões ao território ucraniano. A Europa está claramente dividida, sem um comando para decidir e enfrentar seus problemas domésticos que são graves. Vê-se isso nessa questão abordada acima, pois debaixo de uma severa crise econômica, onde a maioria dos países arrastam-se para alimentar e dar trabalho e segurança a seus nacionais, sem falar na ameaça constante dos terroristas jihadista do “estado islâmico”, pensa, em isolar um importante parceiro comercial (Rússia) nesse momento em que as mãos precisam ser dadas, e as diferenças compreendidas e assimiladas. A Rússia sofre uma recessão, e segundo o governo do Kremlin o crescimento econômico nos próximos dois anos será pouco mais de 0%. Parece injusto, contraditório e irracional uma medida desse porte (isolamento) numa situação delicada em que vive a economia russa e a de todas as nações europeias. Percebo também, perigosa essa atitude, que manifesta insegurança em todo o continente, desestabilizando as frágeis economias da União Europeia. A crise econômica da Grécia é um reflexo desse estado infeliz em que vive o continente. Ela teve início a partir do final do ano de 2009 e início de 2010, quando várias agências de classificação de risco de crise deflagraram problemas na Grécia sobre o crescimento do déficit público, o que significa que a Grécia aumentava suas dívidas e diminuía sua arrecadação, e alertaram sobre o não pagamento de sua dívida externa. O risco de uma moratória (o não pagamento da dívida) poderia afetar toda a União Europeia. Com isso, a partir do ano de 2010, o governo grego anunciou a execução de um plano de austeridade, que consiste em tomar medidas para controle de gastos públicos e aumento da arrecadação. Isso implica na redução de benefícios (como a aposentadoria), de salários, no aumento de impostos e em demissões em massa em órgãos públicos. Diante disso a população grega entrou em choque. O aumento do déficit público, entretanto, continuou aumentando. Assim, o governo da Grécia solicitou um empréstimo em abril de 2010 de 45 bilhões de euros a União Europeia. No mês seguinte, o Fundo Monetário Internacional, a União Europeia e o Banco Central Europeu anunciaram um empréstimo de 110 bilhões de euros, divididos em várias parcelas que seriam depositadas à medida que a Grécia cumprisse as exigências impostas por esses órgãos, como a implantação de novas medidas de austeridade. Essas medidas, então, revoltaram a população grega que foi às ruas em protesto contra a redução de salários, aumento de impostos, aumento da inflação e planos de privatizações. Muitas das manifestações acabaram em conflito com a polícia e geraram algumas mortes, o que ampliou a repercussão internacional sobre a crise. Como à Grécia prossegui com a política exigida pelo trio FMI, UE e BCE, foi concedido um novo empréstimo de 109 bilhões de euros, sob a exigência de novos planos de austeridade e redução do déficit. Com isso, o Primeiro Ministro George Papandreou (1952-   ) decidiu levar essa decisão para um referendo popular que, entretanto, não foi realizado em razão das pressões externas, o que culminou em sua renúncia no dia 09/11/2011. Em 02/2012, o empréstimo foi finalmente executado, agora no valor de 130 bilhões de euros. Em 06/2012, Antonis Samaras (1951-   ) foi eleito como o novo primeiro ministro, em uma eleição marcada pelo enfraquecimento dos partidos populares e o fortalecimento de setores da extrema esquerda e de partidos da extrema direita, como o partido neonazista Chryssi Avgui (Aurora Dourada). Em 26/01/2015, tomou posse como primeiro ministro Alexis Tsípras (1974-   , mas a crise grega segue ainda em um cenário obscuro, sem a previsão de uma completa recuperação. Entretanto, duas questões são bastante levantadas pelos analistas: a primeira é a de que a crise é fruto de questões históricas de erros econômicos (como a adoção do euro sem um prévio estudo) e de que não é propriamente grega, mas do capitalismo como um todo. Assim, os gregos continuam reféns das corporações econômicas europeia, que ditam os rumos de sua economia, e eles ficam sem saber o que fazer, se priorizam seus interesses nacionais ou tentam saldar os compromissos financeiros acordados desde 2009. O risco da moratória está presença, uma situação que as instituições financeiras europeias não desejam, indisponibilizando assim, o governo grego para futuro créditos internacionais.  É triste reconhecer que na hora de mais necessidade de união e harmonia entre os europeus, eles se trancam, deixando que interesses políticos superem seus terríveis problemas sociais e econômicos. Todos esperamos que as iniciativas de paz e acordos bilaterais tenham o sucesso desejado. Que a paz retorne as fronteiras ucranianas, sendo novamente estabelecida uma parceira importante e atuante no continente europeu integrada pela Rússia; com sua tradição e competência nos vários aspectos sócio econômicos e científicos, para, trazerem a harmonia, equilíbrio e condescendência para os povos europeus e asiáticos. Que o bom senso e a diplomacia responsável e imparcial, triunfe sobre as ideologias e interesses particulares de cada nação, acabando com essa “nuvem de gafanhotos” que tenta pairar sobre a Europa, ameaçando outros continentes. Resumidamente falarei sobre o conflito árabe-israelense, que interessa diretamente aos cristãos, que tem nessa beligerância comparações quanto a segunda vinda de Cristo. Alguns renomados teólogos cristãos costumam dizer que Israel é o ponteiro do mundo, e precisamos estar atentos a tudo o que diz respeito a esse povo, incluindo detalhes dos seus movimentos políticos, econômicos e sociais. Acho, hoje, depois de tudo o que tenho lido, que esta presumível posição ortodoxa me parece pretensiosa, pois o milenarismo teológico desde Santo Agostinho (354-430), em tempos de crise, em todas as épocas, tenta trazer aos coração dos fieis cristãos, a suposta esperança (ilusão) do advento do Messias, como uma dose de “intorpecente”, aliviando a tensão e ansiedade desses tempos difíceis em que estamos atravessando. Como diz as Sagradas Escrituras em Mateus 24:36,43 “Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente o Pai. “Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a casa”. Assim a hora, dia e ano desse advento não foi revelado e todas as tentativas com essa finalidade, são apenas suposições e conjecturas vazias e inverossímeis. Os judeus com sua sensatez e comedimento, não exploram e nem especulam o tema da volta do Messias, como algo urgente; emaranhado em ilusões de fatos e acontecimentos. Seu calendário religioso data o ano de 2015, como sendo o ano de 5775. Assim, segundo o Gênesis, o Criador descansou no 7º dia da obra que fizera. Numa soma e subtração hipotética diríamos que falta 1224 anos no calendário judaico para que o descanso comece a partir do ano 7000. E o Messias vem estabelecer o reino (milenar) de justiça e paz sobre a terra, restaurando o reino de Israel, mas também os judeus não preveem quando esse evento ocorrerá. Uma outra visão, agora de uma das mais antigas religiões do mundo o Jainismo, é dito que, a 5ª raça raiz, a Ariana, a que estamos vivendo, percorrerá sete rondas e ao final da última ronda, serão percorridos 21 mil anos, para que se inicie a 6ª raça raiz. Mas antes disso haverá um intervalo de tempo, onde as antigas monadas da raça anterior, serão recolhidas, havendo assim, o florescer das novas monadas, germinadas pelo Atma a Consciência Universal. Esse interlúdio será o correspondente cristão do reino de justiça e paz. No budismo e hinduísmo chamamos devachan, ou pré nirvana a esse período, onde as almas estarão num plano cósmico elevado, algumas descansando, outras mais evoluídas, por opção voluntária, servindo pela fraternidade os seres em mundos terrenos ou planetários; trabalhando pela harmonia e entendimento dos vários reinos, tanto os subterrâneos inferiores como os sutis e invisível superiores. Desde a criação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948 pela ONU, diga-se de passagem, que a resolução incluía também a criação do Estado da Palestina, mas manobras políticas impediram a segunda opção de ser levada ao plenário da ONU, assim, apenas a primeira foi aprovada. A região sempre foi motivo de conquistas e lutas à sua posse, exemplo, temos os turcos otomanos e no início do século XX os ingleses (1920), que se apossaram da região até a criação do Estado Hebreu. A diáspora (dispersão dos judeus pelo mundo) terminou em 1948 e os judeus do mundo inteiro regressaram, segundo as profecias bíblicas, também os sagrados escritos da Toráh que asseveravam o retorno deles a sua antiga pátria. Mas, os palestinos como sabemos sempre estiveram nessas terras, mesmo antes dos judeus retornarem; assim os judeus convivem, com dificuldades, entre as etnias árabes dessa conturbada região. Legalmente eles (judeus) detêm o direito jurídico e verossímil religioso pelas terras, mas os palestinos o direito histórico, pois estão por lá desde que Israel saiu após a destruição do Segundo Templo de Salomão no ano 70 de nossa era. Os árabes palestinos lutam incessantemente para terem o reconhecimento da ONU sobre suas terras atuais. Isso foi um longo processo culminando com a separação de duas regiões para esses povos, uma no sul de Israel a chamada faixa de Gaza, (conquista pelos judeus em 1967 na chamada Guerra do Yom Kippur, quando derrotaram os exército egípcios) dirigida pelo grupo radical Hamas, comandado por Kaled Messhal (1956-    ), e a outra na região ao norte de Israel na chamada Cis Jordânia, comandada pelo antigo movimento Fatah (hoje Autoridade Nacional Palestina - ANP) do líder moderado Mahmoud Abbas (1935-    ). Esse líder árabe, em minha opinião, tem sido o fator de “equilíbrio” entre as duas partes (israelenses e árabes na palestina), quando surgem divergências e acirramentos das questões em pauta relacionadas aos dois lados. Abbas com sua retórica eficiente consegui dialogar com os israelenses com respeito e consideração, mas não abrindo mão dos ideais e conquista já alcançadas pelo povo palestino. Tanto que essa região raramente é atacada pelo exército israelense; a Jordânia é uma das poucas nações árabes que tem relações diplomáticas com o Estado Hebreu. Israel atualmente liderado por Benjamin Netanyahu (1949-    ) está em constante “alerta vermelho”, pois o Hamas com seus foguetes, surgindo situações que o grupo se sente ofendido ou ameaçado, despeja seus projéteis sobre o território israelense, e os judeus não deixam por menos, atacando seu territórios com artilharia pesada deixando muitos civil árabes mortos; uma condição deplorável e desumana. No Líbano está o grupo extremista Hezbollarh dirigido pelo clérigo Hassan Nasrallah (1960-    ) apoiado pelo Irã, tendo representação no parlamento libanês, sendo que um dos bairros da cidade de Beirute é habitado por maioria xiita desse partido; desafeto de Israel. Parece não haver entre o Hezbollah e Israel, possibilidade de diálogo, sempre, um constante estado de tensão, com possíveis enfrentamento. Eles também costumam atirar foguetes para o território israelense quando as tensões aumentam, e Israel prontamente responde atacando com blindados e artilharia o sul do Líbano. Inclusive, forças da ONU patrulham uma zona desmilitarizada entre Israel e o Líbano. Uma situação recorrentes entre esses dois povos, mas um novo complicador surgiu, o suposto estado “islâmico”, que conquistou uma fatia do território da Síria, Iraque, Curdistão e Jordânia, estando próximos da fronteira com Israel. Assim o Estado Hebreu terá mais um inimigo com quem se preocupar, bem perto de seus limites. Os USA agora têm “justificativas” para atacar esse estado terrorista, pois provavelmente ameaçarão, se não atacarem Israel, que historicamente são aliados dos americanos, sendo que os judeus americanos formam uma forte comunidades nos USA com mais de 6 milhões de pessoas, influenciando no Congresso, no Banco Central, bancos particulares, indústria e áreas financeiras privadas e federais. Assim, a situação é pelo menos preocupante, modernamente no mundo. Na América do Sul, as recentes questões assumem conotações de instabilidade civil. Na Argentina Cristina Krischner (1962-   ), está sendo acusada de acobertar o atentado terrorista a Associação Israelita (1994), causando a morte de quase 100 pessoas. O promotor de justiça do caso, Alberto Nisman (1963-   ) foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento com um tiro na cabeça. As suspeitas recaem sobre seus guardas costas, mas a investigação desse fato ainda não foi concluída. Cristina está sendo acusada pelo judiciário argentino, de esconder os nomes daqueles que praticaram aquele ato hediondo; em contrapartida, levando vantagens em acordos comerciais "benevolentes" com o governo desses terroristas. A Argentina atravessa uma grande crise econômica, com disparada de preços, alta do dólar, desabastecimento de alguns produtos, desconfiança dos investidores internacionais e moratória em várias áreas por não ter condições de honrar compromissos econômicos externos já acordados. Na Venezuela Nícolas Maduro (1962-   ) recentemente mandou prender alguns oficiais generais acusados de golpistas. Os venezuelanos sofrem com uma grave crise econômica, onde fazem filas nos supermercados para comprarem alimentos, uma hiperinflação, escassos créditos internos, altos juros, um governo central fragilizado tentando manter a ordem e segurança a todo custo. As manifestações de rua já mataram mais de 40 pessoas em várias cidades, inclusive em Caracas a capital. Dia 19/02, o prefeito de Caracas Antonio Ledezma foi detido por ordem da Procuradoria acusado também de golpe de Estado na Venezuela, declarou o presidente Maduro. Apesar de ser um dos grandes exportadores de petróleo do mundo, o país está em recessão, e os créditos internacionais, devido a conturbada situação política e social não são liberados pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento; pois não há uma mínima garantia de serem honrados. Outra questão importante no "continente" Sul Americano é a disputa territorial entre o Peru do presidente Ollanta Humala (1962-   ) e Chile da presidenta Michelle Bachelet (1951-   ). Organizado para ser uma homenagem ao ex presidente chileno Sebastian Pinera (1949-   ), e anunciar importantes acordos comerciais, como o protocolo de redução de taxas alfandegárias, o encontro anual dos presidentes da Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia, Costa Rica e México), realizado esta semana na cidade de Cartagena, teve seus objetivos ofuscados pela crise dos países do bloco. O evento acontece duas semanas depois que o Tribunal de Haia - Holanda, anunciou a decisão de mudar o ângulo de fronteira marítima entre o Peru e o Chile, que mantinham a causa pendente neste Tribunal Internacional desde 2008. A sentença fez o Chile perder aproximadamente 20 mil Km quadrados de território marítimo, que passarão a fazer parte do mar peruano (...). Uma situação também preocupante, esta enfrentada pelos países vizinhos do Brasil. Parece que a propalada volta da moderna "revolução bolivariana", pregada por Hugo Chaves (1954-2013), e iniciada por Simon Bolivar (1783-1830) tendo como coadjuvante Che Guevarra (1928-1963), não tem a mínima chance de ser ressuscitada; como afirmam os adeptos de uma suposta teoria da conspiração, que as vezes, ouvimos rumores nas mídias sociais, onde exércitos bolivarianos supostamente seriam organizados nos países sul americanos como Brasil, Bolívia, Venezuela, Argentina, Equador e Uruguai; tendo um comando central para estabelecer o comunismo. Esse plano, parece, inverossímil e anacrônico no contexto mundial que acabamos de vislumbrar; especificamente em nosso continente, onde os governos locais estão envolvidos em administrar seus graves problemas sociais e econômicos, também suas forças armadas estão fragilizadas com salários insuficientes, divididas ideologicamente, baixa estima moral e armamentos obsoletos e ultrapassados. Principalmente agora, começando a descomunização e desocialização do regime cubano, advinda dos futuros acordos bilaterais USA e Cuba. Acho, sinceramente, que como cristãos, nossa inquietude deve ser pela injustiça no mundo, a desarmonia ente os povos, e os interesses superficiais sobrepondo a necessidade sócio econômica das nações. Precisamos ajudar as pessoas a se entenderem, viverem em concórdia, expressarem o altruísmo e abnegação, praticando a fraternidade e o voluntariado. Tratando o outro com compaixão e gratidão. Desse modo cumpriremos nosso dahma (missão) cooperando com a Mãe Natureza e a Providência Divina no restabelecimento da ordem e conciliação universal. Rogamos que as forças ocultas da natureza, com seus seres no mundo invisível dos minerais, vegetais e animais se levantem para combater, rechaçando os opositores seres dos mundos invisíveis inferiores. Que a peleja espiritual seja reforçada pelos Forjat, Elohim e Adonai, juntamente com os seres planetários avatares, mestres de sabedoria e mahatmas; combatendo as hostes de hierarquias malignas do mundo inferior. Que o bem triunfe sobre o mal, que a magia branca vença a magia negras. Cristãos ortodoxos e católicos, muçulmanos, protestantes, judeus ortodoxos, conservador, liberais e messiânicos elevemos nossas preces a favor da atual situação mundial. Abraço. Davi.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Não Se Apegar nem a Verdade.


Do livro Budismo: Psicologia do Auto Conhecimento. Buda, o sublime, ensinou que estar apegado a uma coisa, "sob um ponto de vista", e desprezar outras coisas, "outros pontos de vista", chama-se vínculo.
Certa vez, Buda explicou a seus discípulos a doutrina de causa e efeito, e eles disseram que a viam e a compreendiam claramente.
Então disse:
— Ó bhikkhus, esse ensinamento, que compreendeis de uma maneira tão pura e clara; se vos apegais a ele, e o guardais como a um tesouro, então não compreendeis que o ensinamento é semelhante a uma jangada que é feita para um determinado fim, e não para ser continuamente carregada às costas.
E, assim, deu o seguinte exemplo:
— Um homem, viajando, chega à margem perigosa e assustadora de um rio de vasta extensão de água. Então vê que a outra margem é segura e livre de perigo. Pensa: "Esta extensão de água é vasta e esta margem é perigosa, aquela é segura e livre de perigo. Não há embarcação nem ponte com que eu possa atravessar. Acho que seria bom juntar troncos, ramos e folhas e fazer uma jangada com a qual, impulsionada por minhas mãos e meus pés, passe com segurança à outra margem." Então esse homem executa o que imagina, utilizando-se de suas mãos e seus pés, e passa para a margem oposta sem perigo. Tendo alcançado a margem oposta, ele pensa: "Esta jangada me foi muito útil e me permitiu chegar a esta margem. Seria bom carregá-la à cabeça ou às costas onde quer que eu vá."
— Que pensais, bhikkhus? Procedendo dessa forma, esse homem agiria adequadamente em relação à jangada?
— Não, Senhor! — responderam os bhikkhus.
— Como agiria ele adequadamente em relação à jangada? Tendo atravessado para a outra margem, esse homem deveria pensar: "Esta jangada me foi de grande auxilio e graças a ela cheguei com segurança; agora seria bom que eu a abandonasse à sua sorte e seguisse o meu caminho livremente".
Assim, lembrou aos monges, contra um dogmatismo excessivo: "A doutrina se assemelha à jangada; deve ser considerada não como um fim, mas como um meio; da mesma forma, a jangada é um meio para atravessar, mas não para se apegar." (Majjhima-Nikaya).
Com esta parábola ficou claro que Gautama Buda era um instrutor prático; só ensinava o que era útil e o que poderia trazer paz e felicidade ao homem, não dando atenção à especulação intelectual. Achava indispensável ter um ponto de vista não egocêntrico e impessoal, único capaz, aos seus olhos, de amenizar os inevitáveis sofrimentos da vida. Shunya. Grupo de Estudo e Prática Budista. Abraço. Davi.



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Da Responsabilidade em Aceitar as Coisas.

Certa vez, Gautama Buda, o sublime, visitou uma pequena vila chamada Kesaputra, no reino de Kosala, cujos habitantes se chamavam Kalamas. Eles fizeram a seguinte pergunta ao Buda:
"Senhor, alguns anacoretas e brâmanes que passaram por nossa vila divulgaram e exaltaram suas próprias doutrinas e condenaram e desprezaram as doutrinas dos outros. Depois, passaram outros que também, por sua vez, divulgaram e exaltaram as suas doutrinas e também condenaram e desprezaram as doutrinas dos outros. Mas nós, Senhor, estamos sempre em dúvida e perplexos, sem saber qual desses veneráveis expôs a verdade e qual deles mentiu."
Então o Buda respondeu:
"Sim, é justa a dúvida que sentis, pois ela se originou de um assunto duvidoso. Agora prestem atenção: não vos deixeis guiar pelas palavras dos outros, nem por tradições existentes, nem por rumores. Não vos deixeis guiar pela autoridade dos textos religiosos, nem por simples lógica ou dedução, nem por aparências, nem pelo prazer da especulação sobre opiniões, nem por verossimilhanças possíveis, nem por simples impressão ou pela ideia: "Ele é nosso mestre". Mas, Kalamas, desde que souberdes e sentirdes, por vós mesmos, que certas coisas são desfavoráveis, falsas e ruins, então renunciai a elas (...), e quando souberdes e sentirdes, por vós mesmos, que certas coisas são favoráveis e boas, então deveis aceitá-las e segui-las."
Respondendo aos bhikkhus2 (monges) disse:
"Um discípulo deve examinar a questão mesmo quando o Tathagata (o próprio Buda) a propõe, pois o discípulo deve estar inteiramente convencido do valor real do seu ensinamento. Não acreditem no que o mestre diz simplesmente por respeito à personalidade dele." (Anguttara-Nikaya III, 65)
Asoka, imperador da Índia no III século a. C., seguindo o nobre exemplo de tolerância e compreensão de Gautama Buda, honrou e sustentou todas as religiões do seu vasto império. Hoje ainda é legível a inscrição original de um de seus editos gravados na rocha:
"Não devemos honrar somente nossa religião, condenando as outras; devemos acima de tudo respeitar todas as crenças, pois sempre há algo a ser apreciado por esta ou aquela razão. Agindo desta forma, glorificamos nossa própria crença e prestamos serviço às demais. De outro modo, prejudicamos a nossa própria religião e fazemos mal à dos outros. Por conseguinte, que todos escutem e estejam dispostos a não se fecharem às doutrinas professadas pelos demais."
Esse espírito de mútua compreensão deveria ser aplicado não somente em matéria de doutrina religiosa, mas também em assuntos nacionais, políticos, sociais e econômicos.
O Budismo se apresenta sob a forma de um sistema psicológico, moral e filosófico baseado na raiz dos fatos, que podem ser testados e verificados pela experiência pessoal, pois é racional e prático, isento de doutrinas esotéricas (ocultas).
O espírito de tolerância e compreensão foi sempre um dos ideais da cultura e civilização budista. A seu crédito deve ser dito que, durante um período pacífico de 2 500 anos, nenhuma gota de sangue foi derramada em nome do Budismo e nenhuma conversão jamais foi feita quer pela força, ou por qualquer outro método de repressão. Do livro Budismo: Psicologia do Auto Conhecimento. Abraço. Davi.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

II. O Primeiro Sermão de Bhuda.



Por Ricardo M. Gonçalves. O primeiro sermão de Buddha Shakyamuni foi dado aos cinco ascetas que estavam no Parque das Gazelas em Sarnath, Benares - Índia. Nesse sermão, Buddha expôs os ensinamentos fundamentais do budismo: as quatro verdades nobres (sânsc. chatu-arya-satya).
Depois da Iluminação, Budha resolveu ensinar a Lei (Dharma).
Decidiu fazê-lo primeiramente a seus cinco antigos companheiros de ascetismo: Kyojinno, Makanama, Haba, Ashabajitto e Batara. Estes se encontravam então no Parque das Gazelas, em Benares. Para lá se dirigiu então o Perfeito e Iluminado, encontrando-os sempre entregues à prática do ascetismo. Quando Budha abandonara as mortificações, eles tinham tomado sua decisão por uma fraqueza e agora só se lembravam dele com desprezo.
Ao ver que Budha se aproximava, combinaram não se levantar para cumprimentá-lo e só falar com ele no caso de serem interpelados.
Budha aproximou-se deles calmamente. Embora fingindo indiferença, os cinco examinaram-lhe o semblante. Não viram nele quaisquer sinais de frustração ou arrependimento. O antigo companheiro mostrava-se calmo e solene.
Quando Budha chegou bem perto dos cinco, estes automaticamente se levantaram e o saudaram.
Budha então perguntou-lhes:
Porque vos levantais para me cumprimentar? Não tínheis combinado ficar indiferentes?
Os cinco começaram a se sentir pouco à vontade.
Estais cansado, Gautama? Perguntou um deles.
De agora em diante, não me chameis mais pelo nome. Eu agora sou Bhuda, o Desperto, o Pai de todos os seres.
Kyojinnyo, muito admirado disse:
Quando vos transformastes em Budha? Se abandonaste o ascetismo por não consegui-lo, como tereis alcançado a Iluminação?
Kyojinnyo, não podeis julgar minha iluminação com espírito acanhado. O sofrimento físico traz perturbação à mente. O conforto físico traz apego às paixões. Nem ascetismo nem prazer permitem realizar o Caminho. É preciso abandonar esses dois extremos e seguir o Caminho do Meio. Este é o Óctuplo Caminho, composto de: Visão Correta, Pensamento Correto, Palavra Correta, Ação Correta, Esforço Correto, Intenção Correta e Meditação Correta. Aquele que praticar isso alcançará a paz espiritual e se livrará dos tormentos dos nascimento, da velhice e da morte. Eu pratiquei o Caminho do Meio e obtive a Iluminação.
As palavras de Budha encheram os cinco de grande alegria. Vendo que eles já estavam preparados para ouvir a Verdade, o Perfeito e Sublime prosseguiu:
Como sabeis, a vida é plena de sofrimento: sofrimento de nascer, de envelhecer, de adoecer e sofrimento de morrer. Há ainda o sofrimento da separação dos entes queridos, o sofrimento de ser obrigado a permanecer ligado a algo que se detesta, o sofrimento de não se obter o que se deseja e o sofrimento de perder glórias e prazeres. Muitos outros há ainda. Os seres que têm forma e os que não têm forma, os de uma, duas, quatro ou mais pernas, todos os seres vivos, enfim, estão sujeitos ao sofrimento.
Esta é a Nobre Verdade da Origem do Sofrimento.
Os cinco concordaram com as palavras de Budha, que prosseguiu:
A fonte desse sofrimento é a ideia de existência de um "eu" substancial.
Todos os seres que se deixam prender à ideia de um "eu" tornam-se sujeitos a tais sofrimentos. O desejo, a cólera e a ignorância são também causados pelo "eu". Estes três venenos são a origem de todos os sofrimentos. Todos os seres vivos que são presas desses três venenos estão entregues ao sofrimento. Tal é a Nobre verdade da Origem do Sofrimento. O sofrimento deve ser extraído. Se eliminares a ideia de "eu", o desejo, a cólera e a ignorância e os sofrimentos cessarão. Esta é a Nobre verdade da Cessação do Sofrimento. Para se obter a cessação, é necessária a prática do Óctuplo Caminho. Esta é a Nobre Verdade do Caminho da Cessação do Sofrimento.
Os cinco não puderam deixar de concordar com o ensinamento do Perfeito e Sublime, que continuou:
Amigos, prestai bastante atenção: primeiramente, é preciso conhecer a existência do sofrimento. Deve-se depois destruir a sua origem. Para isso, deve-se compreender que a cessação do sofrimento é possível. Para consegui-la, deve-se então praticar o Caminho. Eu conheci a existência do sofrimento, destruí a sua origem, compreendi sua cessação e pratiquei o Caminho. Assim obtive a Suprema Iluminação.
A Existência, a Origem, a Cessação e o caminho da Cessação do Sofrimento são as Quatro Nobres verdades. Sem conhecê-las, ninguém pode conseguir a Iluminação. Quem as compreender perfeitamente, pode-se libertar de todos os sofrimentos.
Após ouvir estas palavras, os cinco decidiram tornar-se discípulos de Budha. Para certificar-se de que eles realmente compreenderam as verdades que lhes haviam sido explicadas, o Perfeito e Sublime perguntou-lhes:
Ó monges! Os fenômenos materiais, a percepção, as ideias, a vontade e a consciência são estáveis ou impermanentes? São ou não são sofrimentos? São ou não são vazios Têm ou não têm um "eu"?
Os cinco responderam:
Ó Venerável! Os fenômenos materiais, a percepção, as ideias, a vontade e a consciência são impermanentes, são sofrimento, são vazios e não têm um "eu".
Budha então disse:
Já vos libertaste, já destruístes aquilo que dá origem ao sofrimento. Jamais voltareis a sofrer. Agora, em verdade, temos reunidos os Três Tesouros: O Budha, o Dharma, ou a lei ensinada pelo Budha, e o Sangha, ou a Comunidade dos discípulos que praticam a Lei (Dharma). Graças a esses Três Tesouros, meu ensinamento espalhar-se-á por todo o mundo e as pessoas lograrão obter a Libertação.
Os cinco discípulos, satisfeitos por ouvir tais palavras do Mestre, agradeceram e saudaram-no. Fonte: Shunya. Grupo de Estudo e Prática Budista.