sábado, 6 de março de 2021

DEUS E O VAZIO

 

Budismo. www.sotozencuritiba.org.br. Por Ryotan Tokuda. DEUS E O VAZIO. Em outubro de 1989 o monge Tokuda proferiu algumas palestras em Porto Alegre - RS - Brasil, em uma atividade conjunta do Centro de Estudos Budistas, Departamento de Filosofia/UFRGS e Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência/RS. Estas palestras foram transcritas nas revistas Bodisatva 3, 4 e 5, aqui está a última. Este título "Deus e o Vazio", pode parecer estranho. O vazio que é a teoria fundamental do budismo, principalmente do zen, é o "nada". Dentro do cristianismo também podemos encontrar esta compreensão do vazio, como nas palavras de São João da Cruz, místico espanhol. Ele ganhou o título de "doutor em nada". Como nas palestras anteriores, vou continuar falando sobre mestre Eckart, místico alemão, e mestre Dogen, fundador da linhagem Soto Zen no Japão. Em primeiro lugar escolhi este sermão de mestre Eckart: "Paulo levantou-se do chão e com os olhos plenamente abertos nada viu." Na minha opinião, esse texto tem quatro sentidos: O primeiro é que, ao levantar do chão com os olhos abertos viu o "nada", e o "nada" era Deus. O segundo: ao se levantar, nada viu além de Deus. Terceiro, em todas as coisas nada mais viu além de Deus. No quarto, quando viu Deus viu todas as coisas como "nada". Esta frase "quando Paulo se levantou do chão com os olhos plenamente abertos nada viu" corresponde à experiência de São Paulo quando ia para Damasco. Era contra Jesus Cristo - nunca o vira pessoalmente, mas estava em oposição a ele. Nessa viagem, escutando a voz de Jesus Cristo, quase desmaiou. Caiu, levantou-se, tornou a cair, ficou cego três dias. Depois sua vida mudou totalmente. Em lugar de atacar Cristo, meio que tornou-se discípulo, mesmo nunca o tendo encontrado pessoalmente. Começou a pregar a palavra de Jesus Cristo para os estrangeiros. Chegou até a brigar com São Pedro. Na Bíblia encontramos esse tipo de experiência mística de São Paulo e São João. Comentada por mestre Eckart, a frase me lembra mestre Dogen no capítulo "vida e morte" do Shobogenzo, onde dois monges discutiam, "Em vida e morte existe Buda, logo, prá que preocupar com vida-e-morte? 'Vida-e-morte' é o mesmo que 'samsara'; mundo ilusório. Na vida 'samsara'; que vivemos com vida, morte, sofrimentos, existe Buda. Por isso, não se preocupe com essas dores e sofrimentos, dizia um. E o outro, "Não, nada disso, em vida-e-morte não existe Buda, não há que preocupar com vida e morte, pelo contrário." Um dizia que dentro da vida existe Buda e o outro afirmava o contrário. Discutiram até que um deles, percebendo que não conseguiam sair do impasse, propôs inquirir o mestre, que respondeu, "Um está muito próximo e o outro longe", e o monge que perguntou insistiu, "Mas quem está mais perto e quem está mais longe?" e o mestre falou, quem está mais próximo não precisa perguntar. Em suma, quem perguntou, perdeu. Se existe ou não existe Buda dentro de vida-e-morte é questão ociosa, ambas as posições são verdadeiras, ambas são a mesma. São as duas faces de uma moeda. Uma moeda é composta das duas faces. Com pontos de vista diferentes chega-se a diferentes conclusões, da mesma forma que o desenho de um cubo, visto de um ponto ou outro, também muda. Mestre Eckart vê na experiência de São Paulo quatro possibilidades. Na primeira, quando ele se levantou do chão com os olhos abertos e viu o "nada", o "nada" era Deus. Na segunda, ao se levantar ele nada viu além de Deus. Na terceira, em todas coisas ele nada mais viu além de Deus. Isto é igual à discussão anterior sobre o Buda em todas as coisas. Ou seja, em vida-e-morte existe Buda, por isso você não precisa se preocupar. Dentro de todas as coisas você pode encontrar Buda, Deus. Quarta: quando viu Deus, viu todas as coisas como "nada". Esta é a outra possibilidade. Dentro de vida-e-morte não existe Buda nem Deus, mas "nada". Por isso não é necessário se preocupar com vida-e-morte. Há outras passagens de mestre Eckart: "A luz que Deus é brilha no escuro. Deus é que é a verdadeira luz. Para ver isso a pessoa deve estar cega e deve tirar para fora de Deus tudo o que é algo. Um mestre diz que aquele que falar de Deus através de qualquer semelhança, fala de modo simplório Dele. Mas falar de Deus através do 'nada'; é falar Dele corretamente. Quando a alma unificada entra na total auto abnegação, encontra Deus como um Nada." Aqui se diz "quando se fala de Deus através do nada, fala-se Dele corretamente". Uma vez um dos monges, discípulo direto de Buda, cujo nome era Subhuti - aquele que no Sutra do Diamante faz as perguntas porque entende sunya, o vazio, profundamente -, estava sentado em meditação sobre uma pedra. Profunda concentração. De repente, sente algo cair sobre si. Eram pétalas de flores. "o que está acontecendo?!" perguntou surpreso, e Deus Brama apareceu, "o que está fazendo aí?" Subhuti: "Admirando..." Brama: "Admirando o quê, qual nada, estás falando o vazio." E Subhuti: "Não estou falando nada". Então Brama concluiu, "É precisamente isso, estás explicando perfeitamente o vazio", enquanto pétalas caíam. A história aqui é mitológica, pertence à mitologia budista. Diz em resumo que quando você não fala, fala perfeitamente, com o sermão do corpo, das figuras, dos gestos, que mostram o interesse, atenção, cansaço, etc. O corpo fala também durante a meditação. Estando naquele estado, o vazio fala perfeitamente. A luz de Deus brilha na escuridão, Deus é a verdadeira luz. Para ver isso deve-se estar cego, e tirar fora de Deus tudo o que é algo. Cego como ficou São Paulo durante três dias. Necessariamente. Há outro discípulo de Buda cujo nome é Anuruda. Em certa ocasião, durante um sermão de Buda, ele, sem querer, caiu no sono. Buda chamou sua atenção. De tão envergonhado, ele tomou a decisão de dali em diante não mais dormir. À noite, não mais deitava, meditava sentado dia e noite. Esse treinamento forte o deixou cego. Ele perdeu uma visão, mas diz-se que isso lhe abriu outra. Muita gente diz "abriu o terceiro olho". Os budistas falam no olho do céu. Falam que temos cinco tipos de olho: o olho de carne, ou olho físico; o olho de sabedoria, que permite ver as coisas invisíveis; o olho do céu; o olho de Darma; e, por último, o olho de Buda. Assim, indo além do olho físico, você começa a ver as coisas que anteriormente não via. As pessoas acreditam no que estão vendo, mas será que você está vendo as coisas mesmo, ou a projeção de coisas de sua mente consciente e inconsciente? Ri-se de uma historia zen muito engraçada. Havia uma padaria em frente a um templo budista. O monge precisou viajar e pediu que o dono da padaria cuidasse do templo, atendesse visitas, etc. Ocorre que chegou um monge viajante à aldeia. Antigamente os monges viajavam, numa espécie de treinamento monástico, visitando outros monges, mestres e mosteiros. Desafiavam os mais fortes no Darma, e mantinham-se treinando. O recém-chegado também praticava assim. Nessas batalhas do Darma, com perguntas e respostas, quem perdia era obrigado a deixar o templo; quem ganhava podia ficar como responsável. Uma batalha do Darma era algo muito sério. Não era uma batalha de luta, mas de conhecimento, de experiências, de linguagem. O monge visitante estava chegando e o dono da padaria, preocupadíssimo, ouvia a sugestão do chefe da aldeia, "Raspe a cabeça, coloque o manto e apenas sente-se diante da parede como se estivesse meditando. Faça como se estivesse em treinamento de silêncio, nada fale, nem escute e nem responda." O dono da padaria se animou, "Ah, é fácil, isso eu posso fazer." Raspou a cabeça, colocou o manto e sentou-se voltado para a parede. Nisso chegou o monge visitante e começou a fazer perguntas sobre o Darma, a doutrina budista. O dono da padaria assumiu um tom grave e fez "Shhh". O monge entendeu, Ah, ele está fazendo muitos dias de treinamento de silêncio, mas já que estou aqui depois de tão longa caminhada nas montanhas você vou aproveitar e perguntar com gestos, assim ele também pode responder com gestos, sem quebrar seu voto de silêncio. Gesticulando, perguntou, Como é seu coração, seu espírito? O dono da padaria respondeu com um grande gesto para as dez direções, ou seja, os quatro pontos cardeais, os quatro pontos médios entre eles, para cima e para baixo, "Meu coração é corno o oceano." Veio a segunda pergunta "Como viver este mundo?", e o dono da padaria mostrou os cinco dedos da mão, panca sila, os cinco preceitos: não matar, não roubar, não cometer adultério, não conduzir os outros a erros, não usar intoxicantes. O monge sentiu-se tocado, "Ah, que bonito!" E mostrou três dedos da mão, perguntando, "Onde estão as três jóas, o Buda, o Darma, a Sanga?" Ao que o dono da padaria respondeu com o punho, "Não procure longe, está aqui muito perto, perto do olho, está aqui." Impressionado, o viajante foi embora. Vendo isso, o chefe da aldeia correu até o padeiro, "O que aconteceu? Ele foi embora muito impressionado, me conta", e o dono da padaria explicou, "Aquele monge é muito estúpido, primeiro, fez um gesto com as mãos, perguntando quanto custava o pão, se o pão era muito pequeno, e eu abri bem os braços mostrando que meu o pão é bem grande. Ele perguntou quanto custavam dez pães e eu mostrei-lhe cinco dedos, dizendo cinco moedas, mas ele me mostrou três dedos, pedindo que vendesse por três, e eu pensei, que sem-vergonha, e por pouco não lhe acertei um soco no olho!" Esta é uma história muito engraçada que mostra cada um vendo o que está pensando em sua própria mente, interpretando à sua maneira. Quando você fica velho, toda a manhã pega o jornal e busca qual página? A necrológica! ... As cruzes com preto e dourado... Ah, morreu com oitenta e cinco anos, coitadinho, eu tenho 77 (risos), mas isto não é brincadeira para uma pessoa. Eu, ao abrir o jornal, nem penso na seção necrológica, nem na policial, mas corro logo os olhos para ver o que passa no cinema... "Karatê Kid III, ah, isto é interessante!..." O que você vê depende de seu interesse. Aquilo que não lhe interessa, ainda que esteja lá, você não vê. Muitas vezes ocorre o oposto, você vê o que não existe, você cria. Por isso, não confie muito naquilo que esteja vendo. Como podemos ver as coisas verdadeiramente? Como já disse em palestra anterior, aqui há uma mesa, mas mesa o que é? Madeira, árvore, pregos e o que mais? Afinal de contas, nada, vazio. Tudo é vazio. Para ver a verdade você tem que ser cego e tem que abrir a outra visão, o olho de Buda, 0 olho da sabedoria, o olho do Darma, e com isso você pode começar a ver as coisas invisíveis, ver até o que o outro está pensando, ou o que irá acontecer daqui a dez anos. Às vezes a gente vê e isto realmente acontece, não é algo sobrenatural. Meditando, aquela onda de consciência, a mente fica completamente tranqüila, como o lago rodeado de montanhas altas. Quando não há ondas, a água reflete com perfeição a lua cheia. Zazen é isto, sentando, refletindo, vêm-se as coisas como elas são. Mestre Eckart: "Apareceu ante um homem como um sonho. Foi um sonho acordado em que ele ficou grávido com 'nada'; como uma mulher com um filho no ventre. E daquele 'nada' um filho nasceu; este era o fruto do nada." Deus nasceu do nada e por isso ele diz: "levantou-se do chão com os olhos abertos vendo nada." O treinamento zen no Japão se dá atualmente através de duas escolas, a escola Rinzai e a Soto. Eu sou da escola Soto mas fui treinado na Rinzai. Quando você encontra pela primeira vez seu mestre no mosteiro, geralmente o mestre dá um koan, uma pergunta, este é o método na escola Rinzai. A primeira categoria de koans chamamos de "hoshin", ou "corpo cósmico de Buda". A primeira experiência do zen é através da meditação onde você encontra o corpo cósmico de Buda. Abandonando o ego, desaparecendo o seu corpo, aí há unidade com o universo. Por isso há um koan inicial como o do cachorro, do mestre Joshu, ou o do som de uma só mão. Se batem-se palmas ouvem-se sons, mas quando há só uma mão, qual é o som? Ou o koan do carvalho do jardim da frente, ou ainda o do rosto original antes do nascimento, antes do nascimento dos próprios pais. Estas perguntas paradoxais se destinam a tirar todos os condicionantes mentais anteriores, limpar a mente. Hoje a escola Rinzai ainda treina assim, mas as perguntas e respostas originais eram um pouco diferentes. Um monge perguntou ao mestre Joshu, "Cachorro tem natureza de Buda?" e mestre Joshu respondeu, "Mu", uma negação. Mas como Buda havia dito que todos os seres viventes têm a natureza de Buda, "Por que o cachorro não tem?" Então Joshu respondeu "Por que tem consciência cármica". Aí outro monge repetiu a pergunta, "Cachorro tem a natureza de Buda ou não?" Desta vez mestre Joshu respondeu, "Sim", e o monge complementou, "Por que então entrou Buda neste corpo coberto de pelos?" Durante um retiro de meditação intensiva, você tem que fazer entrevista "dokusan" com o mestre, cinco vezes por dia. Você pensa, pensa e imagina ter achado uma resposta maravilhosa, "Ah, que bom!", e mostra a resposta ao mestre que responde, "O quê? Nada disso! Vá embora!" O monge volta a pensar, pensar e pensar. Esforça-se e novamente pensa ter encontrado uma solução, leva ao mestre e, "Não! Você quer dar sermão para mim? Vá embora." Desânimo, não era novamente... E assim vai, tentando, tentando... A função do mestre e dizer "não, não, não...", sempre não! Mais nada deve dizer... O monge fica sem possibilidades. Depois de um ou dois dias elas estão esgotadas. Sem resposta, não pode mais visitar o mestre. Para responder o quê? Aí, não tendo mais o que pensar, ele senta em zazen, mas os monges veteranos vão buscá-lo, "Venha logo, o mestre está esperando para a entrevista", e ele responde, "Eu sei, mas não tenho mais nenhuma resposta". Eles arrastam o monge e o jogam à porta do mestre, "Ainda há tempo, vamos logo, o mestre está esperando!" Quando ele entra, e não há outra alternativa senão entrar, o mestre está na posição formal, sentado ereto, e pergunta, "Quem está aí? Ah, você, vá embora, vá embora." O monge tem que entrar e responder, mas já não consegue nem mesmo entrar! Que sofrimento! Ter que responder onde não é mais possível; sentar, a única alternativa é sentar...! Não há resposta possível! Uma semana com cinco encontros diários é algo muito longo! Mas não ha como evitar, é preciso ir e ir novamente, novamente, etc. Cada um, no entanto, tem seus próprios koans, adequados ao seu nível de compreensão. No meu caso foi o primeiro koan, o "mu" do cachorro, de Joshu... Quando se chega ao retiro muitos são os monges novatos e o mestre não se lembra de todos, cada um tem que apresentar o que está fazendo, que tipo de koan está aprendendo. É preciso falar em japonês o enunciado todo do koan em uma voz empostada, uniforme e sem pontuação, mas enfática, como uma recitação de sutra:

"UM MONGE PERGUNTOU A MESTRE JOSSHUUUUuuuu
CACHORRO TEM A NATUREZA DE BUDA OU NÃOOOOoooo
E JOSSHU RESPONDEUUUUuuuu
MUUUUUUUUUUUUUUUUUUuuuuuuuuuuuuu"

E o mestre responde "Humm; ainda muito insuficiente." Quando você expira, tem que ser como uma cunha que corta um tronco, deve durar dez segundos, quinze segundos, até trinta segundos. Neste momento você não pensa em nada. E assim segue, "MUUUUUuuuuuu....", dia e noite, como uma bola de ferro fervente, vermelha, queimando todos os pensamentos e idéias anteriores. Você não pode vomitá-la, não pude engoli-la e ela está aqui embaixo do umbigo também, no ponto de "kikai". E não há resposta; chegando à frente do mestre, apresenta este "MU" e quando está muito bem o mestre resmunga "HUum HUum". Que alívio, que bom! O monge está concentrado com todas as forças físicas do espírito e da vontade. O "mu" vem do topo da cabeça à extremidade do pé. E assim vai indo, vai indo... De repente, fazendo a concentração de "mu", você encontra aquela parede, aquele paredão, aquela muralha de ferro. Você se concentra e não consegue, cai, tenta novamente e cai, e assim vai. Isto é mais do que um general enfrentando mil inimigos, pegando aquela espada de três quilogramas, onde ela passa corta tudo. Assim corta todos seus pensamentos anteriores e vai indo, indo, indo, às vezes uma semana, às vezes sete anos; durante sete anos apenas "muuuu..." - tem que ter muita paciência. Mas de repente essa parede quebra. Isto é "kenshu", a primeira experiência zen. Não é fácil, é necessário ter muita força de vontade. Voltando ao nosso assunto, cachorro tem natureza de Buda? Não, não tem. Por quê? Buda disse, Todos os seres viventes têm natureza de Buda, então por que o cachorro não teria? Se Buda está falando a verdade, o mestre está mentindo, se o mestre está falando a verdade, então Buda está mentindo. Isso é um dilema. Este é o método do zen, o dilema, buscando limpar todos seus esquemas de raciocínio lógico e com isto penetrar dentro do inconsciente. A função é essa. Hoje em dia vejo assim, mas naquela época não sabia nada disso. Apenas nada havia para ser dito, mas o mestre pegava o monge pelo pescoço e dizia, "Fala, fala, fala!"... Falar o quê? Nada havia para falar! "Fala, fala!" Ufa!! Não tenho nada para dizer!... "Fala, fala". E brota o grito "KAAAAAAAAAaaaaaatttzzzz......". O famoso "katz". Parece uma loucura, mas é algo muito sério entre os que estão vivendo isso. "Chegou o momento de dokusan, anda." Atravessando o corredor, passo a passo, firme. E o fato do monge ter consciência cármica que o impede de atravessar o muro. Quem tem consciência cármica não consegue ver além de seus carmas! Outro monge vem e pergunta ao mestre, Cachorro tem natureza de Buda? Resposta: Tem. Então por que entrou dentro deste corpo coberto de pêlos? Ele entrou com um propósito, sabendo que em vez de entrar no paraíso entra no estado animal, ou no estado dos demônios famintos, ou até no inferno. Ele está pronto para isso. Hoje pela manhã foram citadas estas palavras de São Paulo: "Se for para a glória de Deus, posso ser até mesmo separado de Deus, posso entrar em quaisquer tipo de dificuldades." Esse é o verdadeiro espírito de bodisatva. Mas quando você entra no inferno, a cada passo que é dado, este mundo muda e transforma-se no paraíso, isso é o que acontece. Isso é uma coisa milagrosa. Moisés atravessou o Mar Vermelho que se abriu para ele. Milagre! Mas isso acontece. Muitas vezes encontramos uma dificuldade insuperável; como atravessá-la se até mesmo a visão não é possível e está tudo nebuloso? É possível ver apenas um passo, dois passos, cinco metros, e só após andar um longo trecho a visão é possível novamente e o nevoeiro esta superado. E preciso ir andando. As dificuldades chegam de todos os lados à volta de você. Pensando logicamente é impossível chegar até lá, mas passo a passo vai-se indo, confiando no caminho de Deus ou de Buda, superando as dificuldades uma a uma e termina-se chegando no outro lado. Sabendo isto, com este propósito, entra-se no estado inferior. E como o exemplo de ontem. A esposa perdeu a vista e o marido perfurou seus próprios ólhos para acompanhá-la. Deus é isso. Deus está lá, por que precisaria vir aqui? Ele é puro, perfeito, por que escolher este mundo doloroso e chegar até mesmo a viver a crucificação como um criminoso, com suas mãos e pés pregados ao lenho? Ele estava lá tão bem com o Pai. Ele escolheu isto. Escolhendo este mundo inferior, doloroso, sofrido, Deus encarnou, tornou-se homem para ajudar a nós. É isso aí. Quando cachorro é cachorro, é Buda, porque dentro de todas as coisas Deus está. Além disso nada mais há. Dentro de todas as coisas pode-se ver Deus, apenas Deus, então por que não dentro de um cachorro? Então cachorro enquanto cachorro é Buda. Cachorro é Buda, mas não é preciso dizer que cachorro é Buda. Basta dizer "cachorro". E por isso que se diz que dentro de vida-e-morte não existe Buda. Quando se diz "cachorro é Buda", está se comparando, cachorro está sendo colocado como algo absoluto, como Deus, ou como Buda. Quando cachorro é realmente cachorro, nem é preciso dizer que é Deus, basta chamá-lo de cachorro, pronto. Então, nesse momento, Deus desaparece e com isto surge a perfeição, porque todas as coisas estão no seu lugar, no seu estado perfeito, absoluto, cada um de nós também. Neste momento você tem que realizar, não amanhã, ou depois de amanhã, mas nesta vida. Por isso se diz, aqui e agora você tem todas as condições. As jóias do tesouro já estão dentro de sua casa, apenas é necessário abrir a porta e usar livremente. RESPOSTAS A AUDIÊNCIA. Não sei por que no Oriente a ciência não se desenvolveu. Creio que é pelo fato de a ciência, de certo modo, ser muito analítica e no Oriente trabalhar-se mais com a intuição. O que me preocupa como médico de medicina oriental é que o pensamento da ciência, buscando encontrar a verdade - e isso é muito bom -, se lança em analisar mais e mais, perdendo a visão global. A medicina oriental já se preocupa com isto, descobrir os meridianos. Dentro das orelhas com a auricultura, encontra- se todas as partes do corpo. Dentro das palmas das mãos também encontra-se todas as partes do corpo, da mesma forma nas palmas dos pés e no intestino grosso. Dentro dessas pequenas partes, o conhecimento da medicina oriental permite encontrar fígado, estômago, baço, pâncreas, etc. Não sei como foi isso descoberto. Hoje em dia a medicina tradicional está muito preocupada em analisar e encontrar a verdade "no fundo", e com isso perde a visão global. O que acontece? Cada especialista de fígado, estômago, pulmão, vista, orelha, etc., perdeu a visão global da relação de cada órgão com os demais. Não sei como os orientais descobriram isto pela própria experiência. Hoje em dia a ciência está começando por baixo, aceita que existam os meridianos, que existam essas teorias - e realmente existem e funcionam. Então estamos vivendo o momento em que a experiência está à frente mas carece de explicações lógicas. O médico que incorpora práticas orientais milenares não tem explicações para o que observa e pratica, apenas vem praticar a arte da cura através da experiência. Desta forma, neste momento a ciência está começando a provar o que já se praticava há muito tempo na medicina oriental. De certo modo, podemos dizer que a ciência está atrasada e que agora é que começa a incorporar essas experiências. Nos Estados Unidos fizeram uma experiência muito interessante: primeiro uma câmara focava um parque em pleno centro da cidade, Nova Iorque ou Boston. No parque havia um casal de namorados sentados e abraçados. A partir desse ponto, a câmara começa a afastar-se cada vez mais, mostrando inicialmente o banco, depois o parque inteiro, a cidade inteira, a região metropolitana, o estado, o país inteiro, o continente americano, e afastando-se mais e mais, o globo terrestre e ainda a Terra como uma estrela entre outras. Depois voltando novamente até o parque, com o casal conversando no banco, e continua aproximando mais e mais, a pele, o interior do corpo, o átomo, o elétron, o próton e o que mais. Conseguindo isso, até onde é possível ir? Essa é a questão. Primeiro a busca das causas; a questão dos físicos e da ciência é, ao mesmo tempo, uma questão religiosa: "de onde veio a vida?" Os cientistas podem criar uma coisa com alguns materiais. Se não tiverem os materiais como ponto de partida, nada podem fazer e criar. Aí vem a pergunta "Deus nasceu de nada, como pode acontecer isso?" Ainda não temos resposta para isso, tanto na ciência como na religião. Fazendo como a câmara que se afasta, indo até os confins do universo, será que o universo tem fim ou não? Todos querem essa resposta mas ela não é conhecida, então como é o final do mundo? O universo é como um prédio grande? Mas então, ultrapassando a parede desse prédio, o que há além? O infinito não pode ser imaginado. E o vazio, o que é isso? Não entendo. Essa é a busca dos cientistas e da mesma forma é também a busca dos religiosos e dos budistas. Mergulhando-se mais e mais encontra-se o que? Encontra-se aquela experiência direta, o vazio, e vazio é tudo. Esse vazio não significa haver ou não-haver, ou o niilismo. Quando há o nada, há o tudo ao mesmo tempo. Encontra-se essa resposta. Aqui não há lógica. Encontra-se o tudo, mas com intuição direta, com experiência própria é que se encontra e com certeza absoluta. Sente-se isso, e isso é o encontro com Deus como o "nada". www.sotozencuritiba.org.br. Abraço. Davi

texto gentilmente cedido pelo Centro de
Estudos Budistas Bodisatva
www.bodisatva.org

 

quinta-feira, 4 de março de 2021

SAMSARA

 

Cinema. Editor do Mosaico. SAMSARA. “Samsara é uma produção independente de 2001, indiana, italiana, francesa e alemã. Dirigido pelo cineasta indiano Pan Nalin. A narrativa fala de um monge budista que busca a iluminação. O protagonista, desde os 5 anos vive num monastério budista, até o momento em que se torna um homem e decide conhecer a vida mundana material. Desse modo, ao se apaixonar, sente grande atração por uma camponesa chamada Pema. O filme mostra uma faceta do misterioso mundo do Tibete; isso numa instigante história de busca profunda. O dilema entre – procurar a verdade única do nirvana ou satisfazer a mil desejos do corpo e da mente de um homem comum (...). Aclamado em toda a Europa e vencedor de diversos festivais de cinema". Samsara não é um filme que digamos, nos comove do início ao fim, contudo por ser uma produção independente se descola de alguns conceitos da filosofia budista; sem perder de vista a essência desta rica tradição. Mesmo com uma proposta de questionar alguns milenares pressupostos dessa  religião, assume esses aspectos numa discussão filosófica conscienciosa, ligada numa referência subjetiva a elementos de pesquisa histórica. Desse modo, os que já apreciam essa filosofia espiritual reconhecerão, que esse foi, no âmago aquilo que o Iluminado Budha disse a seus discípulos em particular, num de seus sermões "a verdade não está fora, a verdade está dentro de você". O Budha nunca arrogou para si a posse única da verdade e nem encorajou seus discípulos a que o fizessem. No entanto em suas predicas pediu que seus seguidores aceitassem as verdades dos outros, sem censurá-los ou menosprezá-los, mostrando um coração complacente e interagindo com essas opiniões divergentes. A proposta do diretor indiano na perspectiva filosófica e cultural, se reverte de coragem e importância, pois passa a caracterizar, enfatizando mais na secularização do roteiro que no enfoque eminentemente espiritual. Este a meu ver foi o diferencial que fez com que o filme recebesse diversos prêmios da crítica especializada, inclusive expandindo a cultura budista pelo – Europa – velho mundo. O cenário é belíssimo, rodado nas majestosas paisagens do Ladakh, nas cordilheiras do Himalaia indiano. O filme começa com uma caravana com dezenas de pessoas indo para um monastério budista levando algumas crianças. Quando alguns olham para o céu percebem uma ave ao alto voando em círculo, e logo depois algo cai em cima de uma espécie de pagode – pavilhão de construção típica, onde alguns povos do oriente rendem culto a seus deuses – altar budista. No Tibete antigo muitas crianças eram levadas à vida religiosa por suas famílias, quem sabe, na intenção de verem seus filhos escolhidos como um Bodhisattva, uma encarnação do Budha. Outras, pela pobreza mesmo, e melhores condições quanto a educação e colocação social. Já que o Budha disse; "Não sou o primeiro Budha que existiu na Terra, e nem serei o último. No tempo devido outro Budha levantar-se-á no mundo, um santo, um ser divinamente Iluminado. Dotado de sabedoria em sua conduta, benigno, conhecendo o universo, um líder incomparável dos homens, um mestre dos anjos e dos mortais". Esse é o Budha Maitreya o renovador do Budismo, o próximo Budha que reiniciará o atual ciclo começado por Sidharta Gautama. Acontecerá quando o ensinamento deste estiver esquecido neste mundo. Supõe-se que isso se dará daqui a aproximadamente uns 30.000 anos no porvir. O jovem Tashi o personagem principal do filme, é encontrado pela caravana numa caverna, tendo meditado por mais de três anos. Retirado por seus párias cortam os seus longos cabelos. Ele toma um banho num rio vestindo um hábito, sendo por eles levado ao monastério. Ao chegarem percebe-se que o local é simples, contudo seguro dentro das limitações da vida religiosa. As crianças introduzidas brincam sem entendem o que foram fazer por lá; e Taishi começa o cotidiano da rotina monástica. Numa das salas há uma grande estátua retratando a face do Budha. O Budismo não têm dogmas, muito menos o conceito cristão de idolatria; a imagem do Budha têm o intuito de trazer a honra e reverência à seus ensinos, e a lembrança de que a ignorância produz sofrimento – samsara, retardando a Iluminação.  Nesse ambiente se desenvolve a crise existencial de Tashi, revelada no conflito, se continuaria na vocação para alcançar a purificação completa e o estado desperto de iluminação ou retornaria à normalidade leiga renunciando a vida religiosa. Tashi tem sonhos eróticos onde é acariciado por uma mulher. Conversa com um monge sobre o ocorrido e este o consola mostrando que as tentações quando rejeitadas são forma de aperfeiçoar nosso dharma – missão divina. O sofrimento, ao contrário, advindo delas demonstram o ciclo do Samsara – sofrimento – pelo qual devemos passar, além da acumulação do carma negativo que deverá ser reparado pela disciplina, na atual vida ou no próximo renascimento. Tashi ao receber uma incumbência de seus superiores, fora do monastério, troca olhares com uma jovem conhecida, entrando na propriedade da família desta. Refletindo sobre esse fato, ao dormir, pela manhã decide abandonar o monastério, seguindo seu próprio caminho pelo mundo. Esse fato é marcado por um belo "ritual" onde Tashi vai a um lago, e despido de suas vestes monásticas toma um banho. Já com vestes normais montado num cavalo e acompanhado por um cão segue à uma região distante. Depara-se com um campo de trigo, dormindo aos arredores. Uma linda jovem da propriedade, Pema, vendo o estranho naquele estado, se compadece dele, trazendo comida e cobertor para passa a noite. Acabam fazendo sexo. Ela fala sobre ele para seu pai, que convencido resolve contratá-lo, pois é tempo de colher a lavoura para ser comercializada. Na região existe um comprador das mercadorias dos fazendeiros, que desonesto, usando uma balança com aferição incorreta rouba na pesagem dos produtos. Além de ameaçar aqueles que não negociarem com ele. Tashi descobre essas falcatruas e junto com seu patrão decide negociar os produtos diretamente na cidade. Retorna com o valor da venda, agora correto, e casa-se com Pema tendo um filho. Quando este nasce para a felicidade da família, a parteira diz: "acaba de renascer mais uma vida". No budismo reencarnação e renascimento são coisas distinta; essa é uma questão de opinião nas tradições orientais. O hinduísmo por falar em espírito universal, entende que a mônada, a centelha divina primordial do ser que evoluirá, até alcançar a consciência cósmica, está presente em todas as consciência, desde a elemental até os avatares e mahatma. O budismo ao tratar do conceito da Vacuidade do Eu e do princípio da Não Existência, ou seja se a nossa própria individualidade – alma no cristianismo – é uma ilusão, Maya. Como essa ilusão pode existir e transferir-se para outro corpo num outro reino. Desse modo preferem o termo transmigração ou renascimento. “Para os budistas, a existência não acaba com a morte. Quando uma pessoa morre, renasce em outro ser vivo. Ao morrer, a mente se desprende do corpo físico e renascerá em outro corpo. Segundo os ensinamentos, o período que se segue à morte é conhecido como – bardo. Existem várias fases desse bardo, e os grandes mestres e praticantes mais realizados, encontram nesse momento da morte e da transição o momento ideal para alcançar a iluminação – neste momento, eles reconhecem a natureza verdadeira da mente e se iluminam. No entanto, nem todos os que morrem têm essa capacidade de alcançar a iluminação no momento da morte. Nesses casos, após a morte, o que se seguirá será todo o processo de transição até um novo renascimento. Os ensinamentos budistas dizem que o carma individual de cada ser é que irá determinar o seu renascimento.  Por carma, podemos entender tudo o que é acumulado e criado com ações, palavras e pensamentos – tanto negativas como positivas. Se na vida anterior, esse ser cometeu muitos atos negativos movido pelo veneno da raiva, seu renascimento será muito doloroso. Ele renascerá como um ser no reino dos infernos. Se na vida anterior, esse ser cometeu muitos atos negativos movido principalmente pelo veneno do apego e da avareza, ele renascerá como um ser no reino dos fantasmas famintos. Se ele cometeu muitos atos cometidos pelo veneno da ignorância, renascerá como um ser no reino dos animais. Além desses reinos, chamados de reinos inferiores, os seres podem também renascer nos três reinos superiores, se em suas vidas tiverem cometido mais atos positivos do que negativos. Assim, renascerão como seres no reino humano se tiverem criado bastante mérito e carma positivo, mas ainda assim com um pouco de ações negativas movidas pelo desejo. No reino dos semideuses eles renascerão se tiverem, além de muito carma positivo, cometido muitos atos negativos movidos pelo veneno da inveja. E renascerão no reino dos deuses, se além de muito carma positivo, tiverem sido manchados pelo veneno do orgulho. De todos os renascimentos, o considerado mais afortunado é o do seres humano: eles têm, na medida certa, condições para criarem mérito e condições positivas, e ao mesmo tempo, podem conhecer o sofrimento que trazem os venenos da mente – o que os torna capazes de ter compaixão por todos os seres vivos”. Fonte Budismo Joia Rara. Uma cena que aparentemente pode chocar-nos, é quando Tashi e Pema tem relações sexuais, e seu filho garoto assiste a esse fato. Isso não é comum entre casais cristãos, tão pouco recomendado, se pensarmos numa ética religiosa. Tashi pela terceira vez tem relacionamento sexual, agora com a melhor amiga de Pema, quando esta vai resolver algumas questões na cidade. Decididamente Tashi não tem escrúpulos morais, e seu mundanismo licencioso assustaria qualquer monge comprometido com a vida religiosa. O desejo, é segundo os ensinamentos dos sutras, um grande inimigo a ser vencido. Incontrolavelmente, muitas vezes, somos enganados pela mente, caindo na teia do apego e exagerada afeição natural. Uma passionalidade que requer meditação constante para controlar o cavalo indomável que muitas vezes a nossa mente se torna. Essa foi a característica criada pelo diretor para definir o mundanismo humano, uma essência impregna em nosso comportamento, que mesmo com a meditação nirvânica não é possível debelar. Teremos sim, condições de resistir as tentações vinda do exterior e também do nosso interior. Isso com muito esforço e perseverança para o desapego da luxúria e concupiscência impregnada em nossa natureza humana  É percebido que Tashi confundia as três joias do Budismo. O Budha, aquele que está desperto. O Dharma, o caminho da compreensão e do amor. A Sangha, a comunidade que vive em consciência e harmonia. Tinha percepção de seu Budha interior, porém quanto aos outros dois itens, seus conceitos eram elementares, e desprovido de argumentação espiritual. Tanto que sua fala como monge, é pobre e sua prática do Dharma não se sobressai em sua experiência particular. Tashi não tomou o caminho da conscienciosa decisão ao entrar para a vida monástica. Tudo indica que foi influenciado por terceiros, não assumindo propriamente a importante decisão. Assim, os conflitos e desviou morais se acentuavam comprometendo sua busca pela verdade e compreensão do Samsara existencial. No meio desse descontrole emocional e mental, resolve retorna para o monastério. Na visão de quem assiste o filme uma decisão temerária e irrefletida. Sem comunicar à sua esposa, na calada da noite, Tashi, foge de sua responsabilidade de marido, abandonando mulher e filho. Esse ponto do roteiro, foi brilhantemente explorado pelo diretor, pois implicitamente traz à luz o tema de Sidharta Gautama. Ele deixando sua esposa Yashodhara e seu filho Rahul enquanto estavam dormindo. Para compreender porque o homem sofre o Samsara, e como libertá-lo dessa situação, abandona o palácio e sua posição de futuro monarca do reino. É interesse que se prestarmos atenção aos fatos subsequente a esse evento, reconheceremos que o indiano diretor Pan Nalin, deixa claro a diferença da atitude de Tashin em relação ao Gautama. Yashodhara, em sua sabedoria aceita a decisão de seu marido Siddharta, se "sacrificando"  para que ele siga o caminho da iluminação para libertar todos os seres do cativeiro do Samsara. Budha compartilhou antes com Yashodara sua decisão de encontrar a libertação para o sofrimento humano. Ela prontamente o apoiou, inclusive anos depois quando o Budha retorna ao palácio, ela torna-se discípula dele, instituindo uma ordem religiosa budista para mulheres. O Budha foi perguntado, depois que alcançou o Nirvana, se ele ainda amava seu filho Rahul, pois Yashodhara havia falecido. Ele disse que o amava muito mais agora. O diálogo ao final de Tashi e Pema, que não entende tal atitude tomada pelo marido, é uma expressão do desconsolo e inconsequência daquele que desrespeitando o outro, desonra e fere o sentimento daquela que dividiu com ele o leito nupcial. Não poderia terminar diferente – lamentavelmente –  a trajetória de Tashi em busca de prazeres transitórios, e sua irresponsabilidade em tratar com as emoções alheias. Ele segue solitário por uma longa estrada, com o propósito de tentar novamente voltar ao monastério. E por sua mesquinhez de caráter, implicitamente, o roteirista deduz que isso não ocorreu, para sua tristeza e desgosto. Ou para que refletisse sob sua condição, tomando agora o caminho da virtuosidade com a intensão de diminuir o carma negativo acumulado em sua trajetória de compromisso com a mundanidade.  O filme está disponível no YouTube com legenda em português e várias outras línguas. Recomenda-se indicativo de 18 anos para apreciar a projeção. Abraço. Davi.

quarta-feira, 3 de março de 2021

TEFILÁ, TZEDACÁ E TESHUVÁ

 

Judaísmo. www.morasha.com.br. TEFILÁ, TZEDACÁ E TESHUVÁ. Rabi Lazar dizia: “Três coisas anulam um decreto servo: Tefilá (Oração). Tzedacá (Caridade) e Teshuvá (Arrependimento)”. Talmud Yerushalmi, Taanit 9b. Um dos temas principais dos Asseret Yemei Teshuvá, os Dez Dias de Arrependimento, que se iniciam em Rosh Hashaná e terminam na conclusão do Yom Kipur – são as três coisas que têm o poder de anular um decreto Celestial severo. E elas são: a Tefilá, oração, a Tzedacá, caridade, e a Teshuvá, arrependimento. O Talmud Yerushalmi (Taanit 9b), ensina que a origem desse ensinamento é uma passagem do Livro de Crônicas (2 Crônicas, 7:14), que reconta a resposta de D’us às orações do Rei Salomão quando ele inaugurou o Tempo Sagrado de Jerusalém. O rei pedira a D’us que fossem aceitas as súplicas em prol do Templo Sagrado. D’us respondeu que se Ele viesse a decretar uma escassez de alimentos, uma peste ou uma praga contra a Terra, Ele atenderia às súplicas do povo e aliviaria o decreto, com a estipulação mencionada no versículo: “E (se) Meu povo, sobre o qual Meu Nome é proclamado, humilhar-se, e orar, e buscar a Minha face, e se eles se arrependerem de seus maus caminhos, Eu os atenderei dos Céus, e perdoarei seus pecados e curarei sua terra”. O Talmud Yerushalmi demonstra de que forma a oração, a caridade e o arrependimento se originam de elementos desse versículo. Quando o versículo diz “e orar”, obviamente se refere à oração. Quando diz “buscar a Minha face”, refere-se à caridade, pois está escrito no Livro de Salmos (em 17:15): “Quanto a mim, por minha justiça, contemplarei Tua face (…)”, que é interpretado como: “pelo mérito de minha justiça (Tzedek) – por meio da caridade (Tzedacá) que eu realizo – terei o mérito de contemplar a Tua face”. E quando o versículo diz: “eles se arrependerem de seus maus caminhos”, isso claramente se refere ao arrependimento. E conclui o Talmud Yerushalmi: “O que lá está escrito, na continuação daquele versículo: ‘Eu os atenderei dos Céus, e perdoarei seus pecados e curarei sua terra’”. Essa passagem do Talmud de Jerusalém – que ensina que a oração, a caridade e o arrependimento podem anular um decreto Celestial hostil – suscita muitas perguntas que constituem o cerne do Judaísmo. Por exemplo, como pode a oração influenciar as decisões Divinas? Ou, qual o significado do conceito de que por meio da caridade, da Tzedacá, pode-se “contemplar a Face de D’us” – obviamente um conceito antropomórfico, uma vez que os conceitos físicos não se aplicam ao Todo Poderoso? E ainda outra questão fundamental: Qual o significado da TeshuváO propósito da oração. TEFILÁ, oração, é um elemento essencial em todas as religiões. A oração e a religião são interligadas. Não existe relacionamento se não há comunicação e a oração é nossa forma de nos comunicarmos com D’us. Qualquer um pode orar, em qualquer idioma, e da forma que melhor lhe aprouver. Mesmo as crianças pequenas oram. É bem possível que a oração seja instintiva e não apenas algo que tenhamos que aprender. Como a oração é um fenômeno tão comum, muitas pessoas a aceitam como coisa natural, mas na verdade não é tão simples assim. O próprio conceito da oração levanta muitas questões teológicas e filosóficas. Por exemplo, se as decisões Divinas são decretadas por Sua Divina Sabedoria e, assim, simbolizam a bondade, a verdade e a justiça, por que a oração levaria D’us a mudar de opinião? Outra pergunta: se uma pessoa é um ser humano íntegro e merecedor, por que D’us não haveria de favorecê-la mesmo se ela não orasse? Por outro lado, se a pessoa não faz jus àquilo que pede em suas orações, por que a oração deveria ajudá-la? Uma pergunta ainda mais fundamental: Por que devemos orar, afinal? D’us Infinito, que é Onisciente, certamente está ciente de nossos desejos e necessidades mesmo que nós não os pronunciemos. Não há nada que possamos dizer-lhe que Ele ainda não saiba. D’us sabe, melhor ainda do que nós, aquilo que desejamos, aquilo que nos falta e de que carecemos. Ele certamente está ciente do que está em nosso coração e do que se passa em nossa mente. Conhece nossas ambições e anseios, nossas preocupações, problemas e aflições. Nada do que sabemos e sentimos é desconhecido por D’us. Conhece-nos melhor do que nós nos conhecemos. O conceito de que por meio da oração podemos mudar a mente de D’us é especialmente desconcertante. Quando oramos e pedimos que D’us aja de determinada maneira, estamos indicando saber melhor do que Ele como deveria agir? Se Lhe pedimos que anule um decreto, estaríamos dizendo que Ele tomou uma decisão errada e deveria reconsiderá-la? Ao que tudo indica, o conceito de oração parece ser um ato que contradiz a noção de que D’us é onisciente e perfeito. E, mesmo assim, além de termos permissão de orar, somos mesmo instruídos a fazê-lo. Segundo vários legisladores da Torá, a oração é um mandamento bíblico. Na verdade, temos o mandamento de servir a D’us diariamente, como determina a Torá: “(...). E servireis ao Eterno, vosso D’us, e Ele abençoará o teu pão e a tua água (...).” (Êxodo, 23:25). Apesar de podermos servir a D’us de várias formas, a principal delas é por meio da oração, quando podemos comungar com D’us com nossos pensamentos, emoções e pronunciamentos. A oração pode ter várias formas, desde que forneça uma forte comunhão entre a pessoa e D’us. Pode consistir de uma louvação a D’us, de um pedido a Ele para que realize nossas necessidades e desejos ou de um agradecimento por benesses recebidas. Mesmo que a pessoa sinta ter tudo o que precisa e deseja, sempre deve orar a D’us pedindo pelo futuro. É claro que quando oramos, estamos rogando a D’us para que realize nossas necessidades e desejos e geralmente Lhe pedimos que mude Seu decreto. Por que D’us não apenas permite, mas nos ordena fazer algo que parece ser pretensioso e mesmo um pouco ofensivo a Ele? Por que Ele espera que nós Lhe digamos aquilo que Ele já sabe e lhe peçamos para que reverta ou anule Suas próprias decisões? Há várias respostas a essas perguntas. Uma discussão rica e profunda sobre a oração está muita além do escopo deste artigo. Mas tentaremos discutir brevemente algumas respostas que o Judaísmo dá ao tema. Nossos Sábios ensinam que D’us geralmente deposita bênçãos sobre uma pessoa na medida em que essa pessoa seja um digno receptáculo das mesmas. Se a pessoa não o é, pode “perder” uma bênção que lhe estava destinada, simplesmente porque deixou de se alinhar com aquela bênção ao não se tornar digno da mesma. Isso pode ser comparado a um agricultor que estava destinado a ter um ano próspero em suas terras, mas que deixou de semeá-las e, portanto, não colheu nada. Assim, os problemas ou carências de uma pessoa podem refletir um estado espiritual inadequado, e não necessariamente o plano Divino para ela. Da mesma forma, quando a pessoa muda sua realidade espiritual, ela pode mudar as circunstâncias de sua vida. Essa mudança não ocorre porque ela mudou a ideia de D’us, mas porque, ao elevar seu estado espiritual, ela se tornou digna do bem que D’us lhe havia reservado, a priori. Uma das maneiras mais potentes e eficazes de se elevar o estado de espírito é por meio da oração. De fato, esse é um dos principais propósitos da oração. Quando a pessoa reza, especialmente quando o faz com intensidade e sinceridade, está intensificando sua fé e confiança em D’us, pois, ao orar, está reconhecendo a Infinita capacidade Divina, nossa dependência d’Ele e Seu controle sobre tudo. O ato de orar aumenta a conscientização que essa pessoa tem de D’us e de Sua Providência, tornando-a, assim, digna da bondade que D’us lhe quer dedicar. A oração também deve levar a pessoa a se curvar perante D’us. A humildade e o sentimento de que estamos totalmente dependentes de D’us nos leva mais perto d’Ele – tornando aquele que ora mais apto a receber as bênçãos Divinas. Isso explica melhor o porquê de D’us “desejar” as orações dos justos: um justo pode ser digno de uma bênção, de qualquer modo, mas, ainda assim, D’us deseja elevá-lo, ainda mais, motivando-o a orar e, assim, crescer espiritualmente. A oração tem a capacidade de levar a pessoa aos mais altos níveis de perfeição espiritual. Isso também explica por que devemos orar ainda que D’us conheça nossos desejos e pedidos mais do que nós mesmos. Na oração, devemos nos concentrar e nos entregar por completo, chegando, assim, muito mais perto de D’us, pois voltamos toda a nossa atenção a Ele, conectando-nos com Ele ao expressar nossas necessidades. Isso nos torna merecedores da benesse que D’us reservou para nós. Por essa razão, a oração era a forma como os patriarcas – Avraham (Abraão), Itzhak (Isaque) e Yaacov (Jacó) – bem como todos os grandes homens e mulheres de Israel se ligavam a D’us. De fato, vemos na Torá que Moshé (Moisés), o maior dos profetas, regularmente orava a D’us. É importante observarmos que a oração tem o poder de efetuar uma mudança porque ela revela a dedicação da pessoa a D’us também de outras maneiras. Por exemplo, quando alguém se empenha em ir à sinagoga e se une aos demais, ela está santificando o Nome de D’us de forma pública e disseminando sua fé em D’us. Assim sendo, a oração não é uma questão de “informar” D’us acerca de nossas solicitações. É uma forma muitíssimo poderosa de dedicação, de crescimento espiritual e de união com D’us. Isso é o que a torna uma das funções mais fundamentais do homem na vida, e um meio dos mais poderosos de se alcançar um favorecimento Divino. Como o propósito da oração é rogar a D’us que introduza mudanças no mundo físico, a oração serve para aperfeiçoar Seu relacionamento com o mundo e, assim, unificar os planos espiritual e material. Esse é o significado do ensinamento cabalístico de que a oração deve se elevar e penetrar todos os mundos espirituais, de modo a fazer com que a bondade Divina flua para baixo, unificando-os e nutrindo-os. Por essa razão, a oração é tão importante perante D’us. O Talmud Bavli ensina que a oração é uma daquelas coisas que se colocam nos reinos espirituais mais elevados, no entanto muitas pessoas a consideram de forma leviana. Se elas soubessem quão poderosa pode ser a oração, certamente orariam com mais frequência e muito mais concentração. Resumindo o que vimos acima, a oração anula os decretos Celestiais hostis porque orando nos aproximamos de D’us e, assim, removemos todas as barreiras que podem nos ter impedido de receber as benesses que emanam d’Ele. A oração não muda a Sua opinião. Mas muda nosso estado espiritual, tornando-nos, assim, mais aptos a receber as bênçãos Divinas. Voltando à analogia mencionada acima, D’us pode decretar que um determinado agricultor tenha uma boa safra, mas é necessário semear adequadamente para que a colheita seja boa. Da mesma forma, o esforço que uma pessoa despende na oração é, em geral, um pré-requisito para a concretização de todas as benesses que D’us decretou para ela. O poder da caridade. “E (se) Meu povo, sobre o qual Meu Nome é proclamado, humilhar-se, e orar, e buscar a Minha face, e se eles se arrependerem de seus maus caminhos, Eu os atenderei dos Céus, e perdoarei seus pecados e curarei sua terra” (2 Crônicas, 7:14). O Talmud Yerushalmi cita esse versículo e ensina que ao realizarmos atos de TZEDACÁ, “contemplamos a face” de D’us, e que essa é uma das formas de anular um decreto Celestial hostil. D’us obviamente não tem face; trata-se puramente de uma expressão antropomórfica, na qual os atributos humanos são atribuídos a D’us para que o homem possa ter alguma compreensão do Divino. Nossos Sábios ensinam que a “face” de D’us se refere ao Seu Atributo de Misericórdia, pois denota estima e bondade demonstradas à pessoa sobre a qual D’us irradia Seu Semblante, como vemos nos versículos da Bênção Sacerdotal (Números, 6:25), “Faça o Eterno resplandecer o Seu rosto sobre ti e te agracie”. No livro de Salmos, 17,15, há um versículo que diz: “Quanto a mim, por minha justiça, contemplarei Tua face; e ao despertar serei saciado por Tua visão”, expressando o anseio e a antecipação do Rei David pelo Mundo Vindouro. Segundo ele, por meio de seus atos de caridade, ele mereceria “contemplar a face de D’us”, ou seja, deleitar-se na radiante Presença Divina. Vemos, portanto, que a “face de D’us” pode “ser vista” por meio de atos de caridade. Assim, quando o versículo diz – “E (se) o Meu povo, que é chamado pelo Meu Nome (...) buscar a Minha face” – a expressão “buscar a Minha face” refere-se a atos de caridade. O Talmud Bavli (Bava Batra 10a) ensina que Rabi Eliezer, baseando-se nesse versículo, tinha o costume de dar TEZDACÁ antes de rezar. Como ao orar nos aproximamos de D’us e buscamos Sua “face”, a forma de realizá-lo se dá mediante atos de caridade. Por que a caridade é tão poderosa? Por que invoca o Atributo Divino da Misericórdia? Porque para os Céus, a recompensa é dada de acordo com os nossos atos. Em outras palavras, D’us nos trata da mesma maneira como tratamos os demais. Se alguém é generoso com os outros, D’us é generoso com esse alguém. Se a pessoa cuida das necessidades dos demais, D’us cuidará das suas. Se a pessoa é misericordiosa e dá parte do que ganha para salvar os demais dos muitos sofrimentos decorrentes da pobreza, D’us será misericordioso com ele e o protegerá contra o sofrimento e a infelicidade. Fora isso, a caridade, assim como a oração, eleva o estado de espírito da pessoa a alturas incríveis. E, portanto, aquele que regularmente pratica a caridade se torna merecedor de maravilhosas bênçãos Divinas. Nossos livros sagrados estão repletos de ensinamentos acerca do poder imenso e das recompensas, materiais e espirituais, da prática da TZEDACÁ. O Talmud Bavli (Bava Batra 9a) afirma que “A TZEDACÁ é igual a todos os demais mandamentos juntos”, e que “é maior do que todos os sacrifícios”. O Talmud Yerushalmi (Peah 1,1) o corrobora: “TZEDACÁ e atos de bondade são o equivalente a todos os mandamentos da Torá”. O Midrash (Midrash Zuta, Cântico dos Cânticos 1) ensina que “Se apenas as pessoas que viveram na geração do Dilúvio (de Noach) e as pessoas de Sodoma tivessem feito TZEDACÁ, elas não teriam perecido”. O Midrash também ensina que a existência do mundo é baseada na prática da caridade: “Grande é a TZEDACÁ, pois desde o dia em que o mundo foi criado até o dia de hoje, o mundo se equilibra sobre T” (Midrash Tana d´Vei Eliyahu Zuta 1). O Talmud Bavli vai além e diz que a caridade é tão poderosa que pode reverter o decreto Celestial da morte – ou seja, pode prolongar a vida de uma pessoa. Pois está escrito: “Rabi Yehudá costumava dizer: ‘Dez coisas fortes foram criadas no mundo. A pedra é dura, mas o ferro a corta. O ferro é duro, mas o fogo o amolece. O fogo é duro, mas a água o apaga. A água é forte, mas as nuvens a carregam. As nuvens são fortes, mas o vento as dispersa. O vento é forte, mas o corpo o suporta. O corpo é forte, mas o medo o esmaga. O medo é forte, mas o vinho o expulsa. O vinho é forte, mas o sono o dissipa. A morte é a mais forte de todos, e a caridade salva da morte, pois está escrito: ‘A TZEDACÁ livra da morte’” (Provérbios, 10,2). Podemos concluir, com base nessa passagem talmúdica, que a coisa mais poderosa na Terra, mais poderosa mesmo que a morte, é a TZEDACÁ. Se a caridade é mais forte do que a morte, ela é certamente forte o bastante para anular os decretos Celestiais negativos. O significado do arrependimento. Há uma passagem no Livro de Jeremias (2:35), na qual o profeta cita D’us como tendo dito: “Eis porém que te julgarei, porquanto afirmas: ‘Não pequei’”. Isso implica que o julgamento desfavorável dos Céus cairá sobre a negação dos pecados, não sobre os próprios pecados. Se alguém deseja obter expiação por seus pecados, o primeiro passo necessário é admiti-los. Aquele que nega ou justifica seus delitos não pode arrepender-se e, portanto, torna-se muito difícil ser perdoado pelos mesmos. Para curar uma enfermidade, é preciso identificá-la e depois diagnosticá-la corretamente. Infelizmente, há muitos que se recusam a agir assim. Acreditam que podem estabelecer seus próprios padrões de moralidade. Tentam viver segundo suas próprias definições de bem e mal, sem recorrer à Revelação Divina. O que essas pessoas estão fazendo é seguir um curso mal sucedido, percorrido por geração após geração de filósofos. Após milhares de anos de experimentações, a própria Filosofia chegou à conclusão de que, a menos que seja revelado por algum Poder Superior, não existe nenhum padrão verdadeiramente objetivo do bem e do mal. O Judaísmo, por outro lado, reconhece D’us como a autoridade suprema de toda a moralidade. O bem e o mal são definidos e determinados por D’us. Ao mesmo tempo, D’us, em Sua Onipotência, pode perdoar o pecado e erradicar qualquer transgressão cometida pela pessoa, pois a mesma Autoridade que declara o pecado de algo pode perdoá-lo. Se o pecado é uma enfermidade espiritual, o arrependimento é sua cura. Portanto, um dos ensinamentos fundamentais do Judaísmo é que quando uma pessoa se arrepende, seus pecados são perdoados. A Torá assim o declara: “...E voltares... para o Eterno e ouvires a Sua voz,... teu D’us aceitará teu arrependimento e Se compadecerá de ti...” (Deuteronômio, 30,2-3). O arrependimento é eficaz mesmo quando se trata de pecados graves. Como ensinam nossos Sábios: “Nada pode se antepor ao arrependimento”. Ele é eficaz não importa quantas vezes a pessoa tenha pecado. Mesmo se a pessoa tenha vivido toda a vida negando e blasfemando contra D’us, ela pode ser perdoada. O arrependimento é relevante para todos os seres humanos – até para os mais perversos e os mais justos. Como D’us criou o homem como uma criatura falível, com livre escolha e livre arbítrio, é inevitável que ele peque. Como está escrito: “Não há homem na face da Terra que seja tão justo que só faça o bem e não peque” (Eclesiastes, 7:20). Mas, para obter o perdão Divino, o arrependimento tem que ser genuíno; não apenas dizer algo que não se sente, nem fingir piedade. Arrependimento significa admitir as próprias fraquezas e erros e fazer tudo o que for necessário para repará-los. Em seu sentido mais correto, o arrependimento consiste de quatro elementos: mudar a forma de agir, arrepender-se sinceramente, confessar-se a D’us e tomar a decisão de não repetir o pecado. Nossos Sábios ensinam que há dois tipos de pecados que a pessoa pode cometer. O primeiro é contra D’us. Quem desobedece às leis Divinas, por omissão ou comissão, comete um pecado – porque de alguma forma danificou a infraestrutura espiritual do universo (pecados de comissão) ou deixou de contribuir para aperfeiçoá-lo (pecados de omissão). O verdadeiro arrependimento é o remédio para quem não seguiu as leis de D’us. Mas, como ensinou o profeta Jeremias, para se achegar a D’us em arrependimento, é preciso primeiro admitir que se errou. Depois a pessoa tem que tentar melhorar – caminhar na direção certa. Não se espera que a pessoa se torne um Tzadik – um ser humano verdadeiramente justo – da noite para o dia. Mas se espera que a pessoa melhore – passo a passo, um dia de cada vez. No entanto, há uma segunda categoria de pecados, geralmente muito mais sérios – aqueles que são cometidos contra outros seres humanos. D’us não perdoa uma pessoa por esse tipo de pecado até que aquele contra quem o pecado foi feito verdadeiramente perdoe o pecador. Quando alguém peca contra outro ser humano, nenhuma oração, nenhum jejum, nem mesmo em Yom Kipur, pode servir de expiação. O que é necessário fazer é desculpar-se com a pessoa que foi prejudicada ou injuriada e fazer todas as reparações necessárias. Somente depois de tê-lo feito, pode-se pedir perdão a D’us por ter pecado contra um de Seus filhos. Apesar dos passos iniciais do arrependimento consistirem em se afastar do pecado, aproximando-se do remorso e da confissão, uma forma mais elevada de arrependimento envolve praticar boas ações. Na verdade, as três coisas que anulam um decreto Celestial negativo – oração, caridade e arrependimento – são interligadas: uma parte essencial do arrependimento mais elevado é a oração, a caridade e os atos de bondade com os demais, bem como o estudo da Torá. Como está escrito: “Pela bondade (caridade) e pela verdade (Torá) é expiada a iniquidade” (Provérbios, 16,6). O arrependimento é tão poderoso que é uma das coisas principais que pode romper as barreiras que impedem a Redenção Messiânica. O profeta nos diz: “E virá um redentor a Tsión, a todos que se arrependerem das transgressões de Yaacov – diz o Eterno” (Isaías, 59,20). Há uma tradição que conta que se cada judeu se arrependesse e se voltasse a D’us por apenas um dia, a Redenção Messiânica ocorreria imediatamente. A Torá assim diz: “E se voltares – tu e teus filhos – para o Eterno, teu D’us, e ouvires a sua voz, seguindo tudo o que eu te ordeno hoje..., D’us se compadecerá de ti e te fará voltar, juntando-te dentre todas as nações para onde o Eterno, teu D’us, te espalhou (Deuteronômio, 30,2-3). Os Dez Dias de Arrependimento. TEFILÁTZEDACÁ e TESHUVÁ são três pilares do Judaísmo que cada judeu deve se empenhar em praticar durante todo o ano. Somos instruídos a orar diariamente, preferivelmente três vezes ao dia - Shacharit (a oração da manhã), Minchá (a oração da tarde) e Arvit(a oração da noite). A prática de caridade é um mandamento que deve ser realizado diariamente, exceto nos dias em que não podemos manusear dinheiro - Shabat e Yom Tov. Quanto ao arrependimento – a retificação das transgressões e o esforço em melhorar a nossa espiritualidade –, deveria ser uma preocupação diária de todo judeu. Rabi Eliezer, um dos maiores Sábios do Talmud, que, como mencionamos acima, fazia caridade antes de rezar, costumava dizer: “Arrependa-se na véspera de morrer”. Quando seus alunos lhe perguntaram como era possível saber o dia de nossa morte com antecedência, ele respondeu que era por isso que devíamos nos arrepender diariamente. Apesar de podermos e devermos sempre nos arrepender de nossos erros, D’us determinou que os dez dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur fossem os Asseret Yemei TESHUVÁ – os Dez Dias de Arrependimento. Portanto, é costume dizer preces de arrependimento durante esse período, ser ainda mais generosos na caridade que fazemos habitualmente e ser mais rígidos em nosso cumprimento da ética e da religião. Os Dez Dias de Arrependimento se iniciam em Rosh Hashaná, cujo principal mandamento é ouvir o som do Shofar. Um dos simbolismos do Shofar é servir para despertar os corações das pessoas para D’us. Pois assim falou o profeta: “Será ouvido em uma cidade o som do Shofar sem que estremeçam seus moradores?” (Amós 3:6). Do mesmo modo, Yom Kipur, que conclui os Dez Dias de Arrependimento, é o dia mais auspicioso do ano para um judeu se arrepender. O chamado ao arrependimento foi uma das missões mais importantes de todos os profetas. Junto com a oração e a caridade, o arrependimento pode banir qualquer decreto maligno que possa ter sido decretado sobre um indivíduo ou uma comunidade. Como a oração e a caridade, o arrependimento tem o poder de interceder por uma pessoa, protegendo-a do mal e mesmo prolongando sua vida. Assim sendo, durante os Asseret Yemei TESHUVÁ, cabe a cada um de nós fortalecer-se no cumprimento das três coisas que anulam os decretos Celestiais negativos. Fazendo-o, poderemos melhor atrair as bênçãos Divinas para o ano vindouro – para nós e nossas famílias, para o Povo Judeu e para toda a humanidade. www.morasha.com.br. Abraço. Davi.

terça-feira, 2 de março de 2021

O COMUM E O EXTRAORDINÁRIO

 

Espiritualidade. www.oshobrasil.com.br. Texto de Rajneesh Chandra Mohan, mais conhecido pelo nome de Osho (1931-1990). Ele foi líder religioso de uma seita dármica. É mundialmente conhecido como mestre na arte de meditação e do despertar da consciência. O COMUM E O EXTRAORDINÁRIO. 

Sudha, é impossível ajudá-la, porque você não é comum – ninguém o é, ninguém pode ser. Todo mundo é único e extraordinário. O problema surge quando você começa a tentar ser aquilo que você já é. Aí você fracassa. Se você fosse comum, não haveria nenhuma dificuldade em alcançar o extraordinário. Haveria toda possibilidade. Mas, o peixe está no oceano e ele está tentando estar no oceano. O fracasso será total, ele está condenado a fracassar. Como você pode ser comum? Toda essa existência é extraordinária. Cada grão de areia numa praia é extraordinário, cada folhinha de grama é extraordinária. E eu não estou falando apenas de lótus e rosas – naturalmente, elas também são extraordinárias – mas uma flor comum de um capim não é comum. Tudo o que existe é divino, como pode ser comum? Não tente ser comum, caso contrário você vai fracassar e você irá criar miséria para si mesma. Eu mesmo não posso ajudar, eu não posso ir contra o Tao, contra a lei fundamental da vida. Deus só cria o extraordinário. Toda essa existência é especial. Essas gotas de chuva, essa manhã, as pessoas ao seu redor – este momento é extraordinário, ele não pode ser repetido novamente, não, nunca, nem mesmo em toda a eternidade ele poderá ser repetido novamente. Você nunca encontrará essas gotas de chuva caindo novamente, esse som, essa manhã, essas pessoas. Toda essa situação é extraordinária. Ela só acontece uma vez. Em todo o mundo você não encontrará uma outra Sudha. Você pode seguir procurando, e não apenas neste momento presente, mesmo no passado ou no futuro, e nenhuma, Sudha jamais será repetida. É assim que nós somos. E se você começar a tentar ser extraordinária, você estará em dificuldades. Aceite a si mesma como você é, e aceite o todo como ele é – se você puder compreender que tudo é extraordinário – então você terá se tornado comum. Sudha, não é que você queira ser extraordinária, você quer ser especial, comparada com as outras pessoas. Isso também é absurdo, nenhuma comparação é possível. Como você pode ser comparada com outro alguém? Ninguém é como você. Você não compara um cachorro com um papagaio, ou compara? Não há qualquer similaridade, não há qualquer semelhança, como você pode comparar um cachorro com um papagaio? Ou uma árvore com um homem? Ou uma pedra com um rio? Na verdade, dois indivíduos não são iguais, por isso eles são incomparáveis. Você é você e o outro é o outro. Compreender isso é ser ambos: comum e extraordinário. Extraordinário no sentido de que a existência somente cria pessoas únicas e comuns no sentido de que todo mundo é extraordinário. Não há nada extraordinário em ser extraordinário, todo mundo é. A comparação desaparece e quando não há comparação, não existe possibilidade de ego. Você me pede: por favor, ajude-me a ser feliz (...). Eu só posso ajudá-la a não ser miserável. Eu não posso ajudar você a ser feliz. Mas se você não for miserável, você será feliz. Mas nenhum caminho direto é possível para fazê-la feliz. Se isso fosse possível, eu já teria feito você feliz há muito tempo atrás. Eu não sou miserável, eu já teria dado isso a você se fosse possível. Mas não há qualquer possibilidade. A felicidade não é algo que possa acontecer com você a partir de fora. Uma vez que você pare de ser miserável, a felicidade acontece, a felicidade brota dentro do seu ser. Ela simplesmente cresce a partir de você, você começa a florescer e os obstáculos são removidos. E esse parece ser o seu maior obstáculo: você quer ser extraordinária. Eu lhe declaro: Sudha, você é extraordinária. Mas lembre-se de que todo mundo também é. Por isso, agora não há necessidade de se preocupar. Eu lhe garanto, você não precisa provar isso. Deixe que esse obstáculo desapareça. Aceite a sua qualidade de ser extraordinária, curta isso, celebre isso. Walt Whitman (1819-1892) diz: “Eu celebro a mim mesmo, eu canto a mim mesmo (...)”. Celebre e cante. Você é extraordinária. Deus não fez outra pessoa como você e nunca fará outra pessoa como você. Somente por uma vez Deus existe como você, em você, nessa forma. Essa forma não se repete. Então, o que está faltando? Toda a sua miséria está surgindo porque você está tentando se tornar extraordinária. E essa já é a qualidade do seu ser. Tornar-se, não se aplica neste caso. E então, de repente, você verá (...). Se você puder ver o ponto (...). Não pense a respeito disso, simplesmente veja o ponto – ele é tão cristalino – e um grande fardo sobre o seu peito irá desaparecer. Assim, você é extraordinária! Respire fundo, relaxe e, de repente, a felicidade está ali. Felicidade não é alguma coisa que tenhamos que fazer ou produzir por ela. Ela é natural, ela é espontânea. Eu posso ajudá-la a não estar na miséria. A miséria é criação sua, enquanto a felicidade é criação de Deus. Miséria é um presente que você tem dado a si mesma, enquanto felicidade é um presente que Deus tem lhe dado. Mas você se agarra à miséria e quando você se agarra, você a alimenta com esse agarrar. Abandone isso. Comece a dançar e cantar e celebrar. Ponha um fim nisso agora. E não diga “amanhã”, porque o amanhã nunca vem. E não diga “eu vou pensar mais sobre isso”. Pensar não vai ajudar. Isso é um fato simples. Ou você compreendeu ou você perdeu o ponto. Deixe-me repetir de novo: todo mundo é extraordinário, assim, ninguém precisa tentar. Não sofra com essa inferioridade desnecessária. E se sofrer com isso, você poderá seguir sofrendo anos e anos, e você continuará criando, e você continuará encontrando novas maneiras e meios. Alguém tem um nariz mais comprido que o seu, aí você se sentirá inferior. Alguém tem o cabelo louro, aí você se sentirá inferior. Alguém tem aqueles belos olhos, aí você se sentirá inferior. Alguém é mais inteligente, aí você se sentirá inferior. Alguém é um pouco mais alto, aí você se sentirá inferior. Se você continuar procurando e buscando miséria, ela estará disponível. Você pode encontrá-la em qualquer pessoa com quem você cruze. Você encontrará uma coisa ou outra que está faltando em você. Mas é essa sua maneira de ver as coisas que cria a miséria. Esqueça todo mundo e simplesmente olhe dentro de você, as dádivas que Deus tem lhe dado. E a gratidão irá surgir. Na verdade não existe razão alguma, nenhuma razão para essa existência existir, nenhuma razão para essa chuva, para essa manhã, para essa melodia, para essa bela canção que as nuvens estão cantando ao seu redor. Se essas coisas não estivessem aí, nós não poderíamos reclamar. Se essas coisas não estivessem aí, nós não poderíamos solicitar que elas estivessem. Essas coisas simplesmente estão aí, sem a nossa solicitação. Elas estão aí. Nós nem mesmo temos que bater na porta, e a porta está aberta. E milhões de dádivas estão sendo derramadas sobre você, simplesmente olhe para essas dádivas e você se surpreenderá. Você se surpreenderá ao ver como você tem perdido essas coisas. Só a alegria de respirar é suficiente para estar agradecido, só a alegria de encontrar um amigo é suficiente para estar agradecido, só a alegria de se sentar em silêncio, sem nada fazer (...). A alegria de uma manhã ou de um entardecer, a alegria de uma noite (...). Simplesmente siga procurando por essas alegrias e você as encontrará. Você só encontra aquilo que você procura. Você tem estado procurando por miséria, daí você ter criado misérias. Hoje está chovendo e amanhã não estará chovendo, então amanhã você poderá se sentir miserável. Você dirá: “porque não está chovendo hoje?” E quando estava chovendo, você não estava agradecido. Comece a se sentir agradecido. A felicidade estará cada vez mais próxima quanto mais você se tornar agradecido. A gratidão funciona como um magnetismo. A mente reclamante repele a felicidade, ela fecha as portas. Tudo depende de você. Eu posso mostrar para você o caminho, mas é você que terá que caminhar nele. Budha disse “os Budhas podem apenas apontar o caminho, eles não podem caminhar por você”. Você terá que caminhar. Eu estou mostrando a você o caminho, mas você se tornou muito esperta, eficiente em criar miséria para você mesma. Mude a direção de sua energia, canalize-a em direção à alegria, à beleza (...) esse cuco cantando lá longe. E pouco a pouco você verá tantas coisas que sempre estiveram ali, mas que você não as estava vendo. Seus olhos estavam cheios de miséria, por isso você estava perdendo tudo isso. Seus olhos estavam anuviados, eles estavam nebulosos, nevoentos. É por isso que você estava perdendo tudo isso. E a pessoa pode perder por uma pontinha, a pessoa pode perder por um pequeno pensamento. Um pequeno pensamento pode se tornar uma barreira e você pode perder toda a beleza do vasto Himalaia. Você pode estar ali, observando os belos picos do Himalaia e o sol se pondo sobre as neves do Himalaia espalhando um dourado por toda parte, e um pensamento vem à sua mente e o Himalaia desaparece, o pensamento anuvia você. Você se lembra de alguma coisa: no outro dia alguém havia insultado você e isso foi o bastante. Ou você começa a fazer planos para o futuro: “amanhã eu vou ter que partir” e, aí, o Himalaia desaparece. E o pensamento era tão pequeno, e o Himalaia tão grande (...). Mas mesmo um pequeno pensamento pode impedir. O pensamento está tão próximo de você e ele pode se colocar no meio. Uma simples partícula de pó pode cair em seus olhos, e só uma pequena partícula, quase invisível, pode tornar você cego, e você não consegue abrir os olhos e não pode ver o sol brilhando. Sudha, faça apenas uma coisa: comece a abandonar esse conceito de inferioridade, esse conceito de que você tem que ser extraordinária. Veja que mesmo essa sua pergunta contém isso. Você assinou a pergunta assim: (...) uma Budha comum, Sudha. Mesmo ali, o ego está reivindicando que “eu não sou algum Budha comum. Eu sou um Budha comum". Você consegue perceber? “Os Budhas são pessoas extraordinárias. Eu não sou como eles. Eu sou um Budha comum”. Isso é reivindicar ser extraordinário. Ajude-me a ser comum. Você quer ser extraordinariamente comum. O ego pode continuar jogando, jogos sutis. Você terá que olhar completamente, do início ao fim. Simplesmente lembre-se de duas coisas: uma, que você já é aquilo que quer ser, então não há necessidade de fazer qualquer coisa para isso. Você pode chamar isso de comum ou pode chamar de extraordinário, não faz qualquer diferença. Você já é isso e você não conseguirá ser nada além disso. Como você chama isso, não importa. Se você está amando a palavra “comum” então todo mundo é comum. Se você estiver amando a palavra “extraordinário” então todo mundo é extraordinário. Lembre-se de mais uma coisa: o que quer que seja que você esteja reivindicando para você, você terá que reivindicar para o todo. E esse é o problema, você gostaria de ser especial, não ser como todo mundo. Existe uma bela parábola (...). Um homem adorava Deus por muitos anos e sempre ele pedia “satisfaça apenas um de meus desejos”. Deus já devia estar cansado, aborrecido. Um dia ele apareceu e lhe disse: “OK, você não me deixa em paz. De manhã, de noite, você segue batendo na mesma tecla satisfaça um de meus desejos. OK, eu estou aqui, qual é o seu desejo?”. E o homem disse: o que quer que eu peça, deverá imediatamente ser dado a mim, esse é o meu desejo. O homem era muito esperto! Deus, em sua inocência, deve ter pensado que ele iria pedir uma só coisa, mas ele pediu tudo. Ele disse que só tinha um pedido e que era "o que quer que eu peça deverá ser dado imediatamente a mim”. Mas você não pode derrotar Deus, porque a esperteza nunca derrota a inocência. Deus disse: “perfeitamente certo, será como você pede, mas lembre-se de uma coisa, o que quer que você pedir, ao seu vizinho será dado em dobro”. Agora o homem estava acabado. Meses se passaram e Deus retornava sucessivas vezes. “Você nada pede (...)” Ele parou de rezar e Deus continuava retornar várias vezes, de manhã, de tarde e ele dizia: O que? Você ainda não pediu? E o homem ficou muito cheio de Deus. Ele pensou e pensou, mas qualquer coisa que ele tivesse, os vizinhos teriam em dobro. Isso não terá fim. Ele sempre quis ter um belo palácio, mas qual é o sentido agora? Os vizinhos terão grandes palácios em dobro. Uma simples ideia estava esmagando ele, estava matando ele. Ele perdeu toda a alegria de viver. Agora não havia qualquer possibilidade de um dia ser feliz, e esse Deus voltava de manhã e de tarde para torturá-lo. Assim, um dia ele disse: OK, me dê um belo palácio dourado. Imediatamente a sua choupana se tornou um palácio dourado, e ele viu que toda a cidade ficou cheia de palácios dourados – palácios maiores, palácios duplos, todos dourados – e o seu era o mais pobre de todos. Ele procurou então por um advogado, porque a quem você recorre quando algum problema legal surge? O advogado lhe disse: não se preocupe. E naturalmente Deus não poderia vencer um advogado. O advogado lhe disse: você peça; faça agora um grande poço em frente à minha casa, sem um muro. Assim um grande poço apareceu diante de seu palácio e dois poços apareceram diante dos palácios dos demais. O advogado disse: agora peça; faça com que um dos meus olhos desapareça. O homem disse: o que você está dizendo? E o advogado disse: simplesmente espere. Lei é lei. Um de seus olhos desapareceu e ambos os olhos de seus vizinhos desapareceram. Agora, toda a cidade ficou cega (,,,) e com dois poços diante de cada palácio dourado (...) as pessoas começaram a cair nos poços e as pessoas começaram a morrer. E o homem ficou muito feliz. Ele disse agora o meu desejo foi satisfeito.  Assim, eu sei Sudha, que você estará em dificuldades, pois eu declaro que você é extraordinária, mas todo mundo, todos os seus vizinhos, inclusive o Pramod, são duplamente extraordinários. E, por favor, não procure por um advogado”. www.oshobrasil.com.br. Beijo a todos. Davi.

segunda-feira, 1 de março de 2021

COMO PODEMOS SABE QUE DEUS É UMA PESSOA

 

Hinduísmo. www.ptkrishna.com. Por Satyaraja Dasa. COMO PODEMOS SABER QUE DEUS É UMA PESSOA. Recentemente, um importante editor pediu-me que escrevesse um livro que comparasse as mais de mil traduções do Bhagavad-gita existentes em inglês. Eu respondi que iria considerar seu pedido e, dentro de uma semana, recebi por entrega especial uma caixa cheia com as traduções mais importantes do Gita lançadas na última década. Ao analisar cada uma delas cuidadosamente, notei que a maioria dos tradutores não interpretava corretamente o ensinamento básico: que Deus é uma pessoa, Krishna, e que o objetivo da vida é desenvolver amor por Ele. Em vez disto, esses “Gitas” diziam que Deus é uma força abstrata, uma entidade impessoal que vive além do alcance dos sentidos. Os comentadores chegavam a essas conclusões partindo do próprio texto em sânscrito e, em geral, usavam isto como foco de suas análises. A concepção impessoal ou monista do Supremo – na qual a pessoa imagina Deus como uma força inconcebível, sem forma – é certamente uma parte legítima do que o Bhagavad-gita ensina. Contudo, esta parte fica eclipsada pela idéia de Deus como Pessoa Suprema. Como o próprio Krishna diz no Gita (7.24), “Homens sem inteligência, que não Me conhecem perfeitamente, pensam que Eu, a Suprema Personalidade de Deus, Krishna, era impessoal e depois assumi esta personalidade. Devido a seu conhecimento escasso, eles não conhecem Minha natureza superior, que é imperecível e suprema”. E apesar disto, apesar da ênfase dada pelo Gita à personalidade de Deus, a dimensão impersonalista do Gita tornou-se mais popular. Na tradição da consciência de Krishna, os mestres sugerem que o desejo de despersonalizar Deus origina-se, num nível subliminar, do desejo de evitar a rendição. Afinal de contas, se Deus é uma pessoa, então as questões como submissão e subserviência vêm à tona. Se Deus é uma abstração sem forma, podemos filosofar acerca disto sem a sensação de compromisso, sem medo de ter que reconhecer nosso dever frente a um ser superior. Então, mais uma vez, talvez a popularidade da concepção impessoal, pelo menos com relação ao Gita, possa ser devida pura e simplesmente ao conhecimento precário do sânscrito. Na verdade, o impersonalismo não faz qualquer sentido. A forma está em todo lugar, desde a montanha até um floco de neve. Tudo tem forma. Mesmo as coisas invisíveis têm forma. Consideremos o átomo: embora não possamos vê-lo, sabemos que ele ocupa um espaço delimitado e, com equipamentos apropriados, podemos detectá-lo. No fundo, sabemos que neste mundo um objeto e sua forma são inseparáveis. E aqui, evidentemente, é onde a teoria do impersonalismo entra em cena. Os impersonalistas raciocinam que, se tudo neste mundo tem forma, todas as coisas “naquele” outro mundo não devem ter forma, pois matéria e espírito são entendidos como conceitos diametralmente opostos. Embora neste caso a premissa possa ser verdadeira, a conclusão não tem lógica. Esse raciocínio equivale a pensar numa vaca que, certa vez, fugiu de um ferro em brasa: sempre que ela vê algo vermelho, ela foge. Da mesma forma, todos neste mundo sabem que as formas materiais são temporárias e limitadas. Esta verdade está enraizada em nossa consciência e naturalmente (embora algumas vezes em nível subliminar) a aplicamos a todas as formas, nunca imaginando que a forma espiritual possa ter características absolutamente diferentes. Assim, insinuamos sub-repticiamente a inexistência de forma em Deus e todos os fenômenos espirituais, seguindo inadvertidamente uma tradição de impersonalismo com o entusiasmo de uma vaca que, por temer o fogo, foge do vermelho. Entretanto, se alguém estuda o Gita em consciência de Krishna, percebe claramente que a pessoa de Krishna, também conhecida como Bhagavan (o Senhor), reina supremo. Quase todos os versos realçam o serviço prestado a Ele. Existem muitas evidências de que o Gita apóia a doutrina personalista. Krishna diz, “Eu sou a base do Brahman impessoal” [o Absoluto sem forma] (14.27). E quando analisa o valor comparativo do impessoal e pessoal, Ele diz, “Aqueles que fixam suas mentes em Minha forma pessoal e sempre se ocupam em adorar-Me com grande fé transcendental, Eu os considero muito perfeitos” (12.2). Em outras palavras, de acordo com o Gita, a concepção de Deus como uma pessoa, à qual se pode devotar, é anterior e superior à concepção de Deus como uma força impessoal, na qual se pode fundir. E o que exatamente significa “fundir-se”? Os vaisnavas, aqueles que adoram Krishna, abominam essa ideia de tornar-se “um com Deus”, dizendo que é quase tão repulsiva quanto o materialismo grosseiro. Srila Prabhupada diz que essa noção é motivada pelo medo. Em seu significado ao verso 4.10 do Bhagavad-gita, ele escreve: “Como se descreve acima, é dificílimo para uma pessoa muito afetada pela matéria compreender a natureza pessoal da Suprema Verdade Absoluta (...). Por conseguinte, consideram o Supremo como impessoal. E porque estão muito absortos na vida materialista, a ideia de conservar a personalidade após se libertarem da matéria os deixa assustados. Quando são informados de que a vida espiritual é também individual e pessoal, eles ficam com medo de voltarem a ser pessoas, e então preferem naturalmente uma espécie de fusão no vazio impessoal” Portanto, assim como o impersonalismo provém do medo de que a pessoa precisará submeter-se a uma entidade superior, como foi dito antes, agora vemos que a “fusão” concomitante também é um produto do medo – medo de que a existência individual, com todas as suas imperfeições, continue pela eternidade. Contudo, os vaisnavas propagam uma filosofia de destemor, pois eles sabem que a personalidade espiritual não é cerceada pelas limitações da matéria. Alguns eruditos também são sensatos a esse respeito. O professor Huston Smith, autor proeminente e mestre no campo das religiões comparadas, expressa eloquentemente a aversão dos Vaisnavas pela fusão com o Supremo. Ele faz isto com a ajuda de um poema tradicional sobre bhakti, escrito no século XVI na Índia: “Como o amor saudável é voltado para o exterior, o bhakta [devoto] rejeitará todas as sugestões de que o Deus que se ama é ele próprio, mesmo o seu Eu mais profundo, insistindo na diversidade de Deus (...) Assim como diz um clássico devocional, ‘Eu quero saborear o açúcar, não quero ser o açúcar’”. DEUS É REALMENTE UMA PESSOA? Fiquei irado ao ver algumas traduções e comentários impersonalistas. Deus é, primeiro e antes de tudo, uma pessoa. Prabhupada foi claro quanto a isto em seu comentário ao Gita, incrédulo de que alguém pudesse aceitar a idéia impersonalista do Absoluto: “Não se consegue compreender como a Suprema Personalidade de Deus pode ser impessoal; com relação às afirmações do Gita, é falsa a teoria impositiva dos monistas impersonalistas. Nesta passagem, fica evidente que a Suprema Verdade Absoluta, o Senhor Krishna, tem forma e personalidade” (B.G. , 7.24, significado). Mesmo as descobertas da ciência moderna dão sustentação a essa visão personalista. A seguir, reproduzo uma dissertação particularmente convincente do Dr. John C. Cotran que, antes de aposentar-se, era professor de química e catedrático do Departamento de Ciência e Matemática da Universidade de Minnesota: “A química demonstra que a matéria está deixando de existir, alguns componentes numa taxa extremamente lenta, enquanto outros a uma velocidade significativamente rápida. Por esta razão, a existência da matéria não é eterna. Assim, a matéria deve ter tido um começo. As evidências fornecidas pela química e outras ciências indicam que este começo não foi lento e gradativo; pelo contrário, foi repentino. Existem até evidências demonstrando a época aproximada em que isso ocorreu. Portanto, em alguma época bem definida, o mundo material foi criado e desde então tem seguido leis predeterminadas, não os ditames do acaso. Ora, como o mundo material e as leis que o governam não poderiam ser criados por si próprios, o ato da criação deve ter sido realizado por algum agente imaterial. As maravilhas estupendas geradas por esse ato mostram que esse agente deve possuir inteligência superlativa, que é um dos atributos da mente. Contudo, para colocar a mente em ação no campo material (por exemplo, na prática da medicina e na área da parapsicologia), é necessário o exercício da vontade, que só pode ser realizado por uma pessoa. Desta forma, nossa conclusão lógica e inevitável é de que não houve apenas a criação, mas também que ela foi gerada de acordo com os planos e a vontade de uma pessoa dotada de inteligência e conhecimento supremos (onisciência) e do poder de criar e manter o mundo material funcionando de acordo com um plano (onipotência) sempre e em todos os lugares do universo (onipresença). Em outras palavras, aceitamos sem hesitar o fato da existência do “ser espiritual supremo, Deus, criador e governante do universo”. A PERSONIFICAÇÃO. Os devotos vaisnavas sentem-se ofendidos quando seu maravilhoso Senhor é descrito como não tendo olhos, boca, cabelos, forma e, conseqüentemente, amor. Negar a Deus essas características pessoais distintas é o cúmulo da arrogância. Por acaso os seres humanos têm algo que Deus não possui? Isto não nos faria maior do que Ele – especialmente quando se trata de intercâmbios amorosos? Nós podemos amar, mas Deus não? Dizer que Deus é ilimitado e, em seguida, afirmar que Ele não pode ter uma forma é contraditório. Se for ilimitado, Ele pode fazer o que quiser. E se o intercâmbio amoroso é a coisa mais sublime da criação, como a maioria admite, então Deus certamente aceitaria ser uma pessoa, pois o intercâmbio amoroso perde significado sem a personalidade, pois só pode existir entre pessoas. Por fim, a filosofia vaisnava afirma que todas as concepções de Deus estão incluídas na forma pessoal de Sri Krishna. De acordo com os princípios do Vaisnavismo, o Brahman impessoal nada mais é do que um aspecto do Absoluto, que por sua própria natureza tem qualidades ilimitadas e é ilimitadamente perfeito. Os vaisnavas descartam como absurdo e sem sentido o conceito do Absoluto como meramente impessoal, fora do alcance de todos os pensamentos e palavras. Este Absoluto não pode existir, porque ele próprio se aniquilaria. Nossa própria linguagem desaprova isto: mesmo dizer que Brahman é indescritível ou indefinível equivale a dizer ou pensar algo sobre ele. Sankaracarya, filósofo indiano do século XVIII, foi um dos primeiros a enfatizar o Absoluto impessoal. Embora aceitasse o Brahman indiferenciado como única forma existente, ele não conseguiu dar uma explicação satisfatória ao mundo manifesto, que implica em qualidades distintas (visesa) no Brahman. Em outras palavras, como pode um mundo tão variado com atributos tão diferentes ser originado de um Absoluto indiferenciado? Os filósofos impersonalistas dizem que todas as variedades do mundo material são falsas e apenas o Brahman Supremo, ou Espírito, é real. Os vaisnavas contra-argumentam que, como o mundo emana de Brahman e se Ele é real, como o mundo e suas variedades podem ser falsos? Por exemplo, se uma árvore está carregada de frutos, como alguém poderia afirmar sensatamente que a árvore é real, mas seus frutos não? A LÓGICA DO PERSONALISMO. A noção de personalidade não é apenas compatível com a Divindade infinita, mas essencial à sua compreensão. Toda a audácia impersonalista deixa algumas perguntas muito básicas sem respostas. Vejamos isto: Eu sou uma pessoa. Se a fonte de onde me originei é impessoal, então de onde vim e o que sou afinal? Se minha fonte é impessoal, como eu, que sou uma pessoa, posso relacionar-me com ela? Além disto, mesmo que exista algum tipo de experiência mística impessoal, esta experiência sempre ocorre com uma pessoa. Você e eu – duas pessoas – mantemos um intercâmbio “impessoal” com Deus. Em outras palavras, mesmo que você denomine este intercâmbio de impessoal, é preciso considerá-lo um tipo de experiência pessoal, porque acontece com uma pessoa. Quando tudo o mais falha, os filósofos impersonalistas geralmente se agarram a um argumento muito batido: O Absoluto pessoal e qualificado precisa ser limitado, eles dizem, porque atribuir certas qualidades a Ele é negar seus opostos. Contudo, os impersonalistas devem entender que não é a personificação ou a atribuição de uma personalidade ou qualidades ao infinito que o limita, mas sim estes argumentos que não podem ser sustentados ao seu limite mais pleno. O Chandogya Upanisad (7.14.4) diz que Brahman não é apenas dotado de qualidades, como também expressa estas características de formas ilimitadas. Por exemplo, a forma de Krishna pode ser considerada limitada em suas dimensões, mas também é descrita como inconcebivelmente “todo-penetrante”. Ele tem inúmeras expansões e encarnações e Sua beleza é ilimitada. Sua sabedoria não tem limites e Ele experimenta bem-aventurança eterna. Em resumo, Sua forma não é como as nossas – é absolutamente espiritual. Incontáveis versos escriturais sustentam essa visão, demonstrando que Ele é, na verdade, ilimitado. O Senhor Caitanya dizia que a visão impersonalista do Brahman sem qualidades origina-se principalmente do significado indireto das palavras em sânscrito. Ele afirmava que o significado indireto das palavras (laksana vrtti) justifica-se apenas quando o significado direto (mukhya vrtti) não fizer sentido. A ênfase exclusiva de Sankaracarya no Brahman sem qualidades anula o significado direto e verdadeiro das escrituras, que na maioria das vezes descreve Brahman como tendo qualidades. Então, como os impersonalistas que aceitam os textos védicos podem argumentar que existe um Absoluto sem forma? Para ser sincero, devemos admitir que muitos textos descrevem Brahman como não tendo qualidades. Por exemplo, o Katha Upanisad (1.3.15) descreve Brahman como não tendo som, tato ou forma. Esta noção também está expressa no Brhad-aranyaka Upanisad (1.4.10), onde se diz que Brahman não tem olhos, ouvidos, fala, boca ou mente. Contudo, o que isto realmente quer dizer? O celebrado filósofo Jiva Gosvami, que faz parte da linha do Senhor Caitanya, resolve parcialmente essa questão demonstrando que a palavra nirvisesa (“sem distinção ou qualidades) é usada freqüentemente pelas escrituras, por exemplo para negar todas as qualidades materiais (prakrta) de Brahman e não apenas para negar a existência dessas qualidades. Se o termo nirvisesa fosse usado para negar essas qualidades, não seria possível atribuir a Brahman as qualidades de nityatva (eternidade) e vibhutva (onipresença), que mesmo os seguidores de Sankaracarya aceitam como qualidades inegáveis do Absoluto. Jiva Gosvami também recorre ao Visnu Purana para provar que, embora Brahman não tenha quaisquer qualidades materiais ordinárias, Ele tem qualidades transcendentais infinitas. Desta forma, Brahman, ou Deus, não pode ser descrito simplesmente como impessoal ou sem qualidades. Jiva Gosvami escreve que esse “Brahman” é como uma pessoa destituída de seus predicados, ou uma substância destituída de seus atributos. Como a forma completa (samyak) de um objeto inclui sua substância e seus atributos, o Brahman sem qualidades é apenas uma manifestação parcial (asamyak) do Absoluto. Jiva Gosvami insiste em que o Brahman pessoal inclui o Brahman impessoal como o brilho amorfo de Sua forma divina (anga-kanti). De acordo com as palavras de Prabhupada, o Brahman impessoal é simplesmente a refulgência de Krishna. Com base nesses argumentos, fica implícita a noção de que Deus é inconcebível e, por fim, tanto pessoal e quanto impessoal. Seu aspecto impessoal depende da Sua forma pessoal, que é anterior ao primeiro. Os argumentos são bastante lógicos e, ainda assim, nossas mentes revoltam-se contra a idéia de um ser Absoluto pessoal e, ao mesmo tempo, impessoal. Preferimos escolher um ou outro, porque temos a tendência de pensar no Absoluto em termos humanos. Por esta razão, devo reiterar que a forma do Absoluto é diferente da nossa própria forma. Precisamos tomar cuidado para não limitar o infinito com nossos pensamentos e termos humanos – a falácia que os impersonalistas atribuem à doutrina de um Deus pessoal. Quando estivermos lidando com qualquer questão relativa ao infinito, precisamos usar as leis conhecidas com reserva e cautela, sem permitir que elas limitem a perfeição do infinito ou empobreçam nossa noção de divindade. Henry L. Mansel, filósofo inglês do século XIX e professor de Moral e Filosofia Metafísica em Oxford, expressou a mesma idéia da seguinte forma: “Portanto, nosso dever é pensar em Deus como pessoal, assim como é nosso dever acreditar que Ele é infinito. É verdade que não podemos reconciliar essas duas representações entre si, pois nossa concepção de personalidade inclui atributos aparentemente contraditórios com a noção de infinito. Contudo, isto não quer dizer que essa contradição existe em qualquer outro lugar, a não ser nossas próprias mentes; isso não quer dizer que isto implica em qualquer impossibilidade na natureza absoluta de Deus. Neste caso, assim como foi salientado antes, a contradição aparente é a conseqüência necessária da tentativa por parte do pensador humano de transcender os limites da sua própria consciência. Isto prova que existem limites ao poder de pensamento do homem, mais nada além disto”. CONCLUSÃO. Descrever o absoluto simplesmente como nirvisesa, ou sem qualidades e atributos distintos, é torná-Lo impessoal “amputando” Seus membros divinos. Quando reconhecemos a natureza absoluta, completa e perfeita da Pessoa Divina, conseguimos nos afastar da filosofia do impersonalismo. É possível reconciliar as afirmações conflitantes dos Vedas e Puranas quando entendermos o Absoluto como pessoal e impessoal ou, de outra forma, como possuidor de atributos e formas infinitos, incluindo-se uma dimensão impessoal. Contudo, de acordo com o sentido geral e básico das escrituras, o Absoluto é essencialmente pessoal, porque apenas num Absoluto pessoal detentor de potências infinitas e inconcebíveis, podem existir as formas infinitas de Deus, inclusive Brahman. Eu escreverei o livro solicitado sobre as inúmeras edições do Gita? Provavelmente não. O Bhagavad-gita Como Ele É de Srila Prabhupada é bastante claro quanto ao que o livro ensina e inclui o melhor de todas as versões. Eu as estudei exaustivamente. Em termos de composição, clareza, erudição e acessibilidade, nenhum outro Gita chega perto. Por esta razão, a única coisa que me resta a fazer é devolver todos esses livros àquele editor. Contudo, se ele quiser que eu escreva um livro contrapondo o personalismo e impersonalismo (...). www.ptkrishna.com. Abraço. Davi