Mahabharata. Livro
Mahabharata Recontado por Krishna Dharma (1955 - ). MAHABHARATA – INTRODUÇÃO. APRESENTAÇÃO – O MAHABHARATA É,
ORIGINALMENTE, uma imensa obra de cerca de 100 mil versos em sânscrito.
Profundamente reverenciado pelos indianos como um texto sagrado, forma a base
do pensamento religioso e filosófico hindu há milhares de anos. Por muito tempo
este texto precioso esteve inacessível aos leitores ocidentais, pois o complexo
idioma sânscrito não permitia a tradução, pelo menos não uma de leitura fácil
em inglês. Portanto, Krishna Dharma nos prestou um serviço valioso ao condensar
o clássico numa história encantadora, à semelhança de uma novela, embora
mantendo-a fiel ao original. O Mahabharata simplesmente trata de tudo o que se
possa imaginar, de romance e intrigas a política, astrologia e artes marciais.
Sua narrativa central enfoca o cruel conflito que houve entre os irmãos
pândavas, de origem divina, e seus primos kauravas. Deuses, sábios, reis e
heróis participam da disputa, que culmina numa grande guerra que aniquila
milhões de vidas. Tudo é descrito como parte do plano cósmico de krishna – e
aqui deve ser esclarecido que Krishna, que também desempenha um papel central
no texto, é visto e apresentado como o Ser Supremo. Diferentemente de muitos
tradutores, Krishna Dharma não minimiza esse ponto fundamental. Assim, sente-se
tranquilamente e entre no mundo do Mahabharata – um mundo que, sob muitos
aspectos, não é diferente do nosso, já que nos faz confrontar sentimentos e
verdades universais. O texto é como um espelho no qual podemos vislumbrar
nossas fragilidades humanas e, também, nossas mais altas aspirações. Ele
ilumina nosso lado obscuro e nos eleva à luz da consciência de Deus. Trata do
egoísmo, do engano, da desonra e do ateísmo, mas também mostra o caminho para
chegarmos ao altruísmo, à verdade, à honra e à essência da benção da fé. Embora
possamos nos sentir distantes dos personagens do Mahabharata no tempo e espaço,
o que aprendemos deles e com eles é tão significativo hoje quanto o foi, na
Índia, há 5 mil anos. Na verdade, devido à sua aplicabilidade universal, o
Mahabharata é uma das tradições vivas mais antigas do mundo, que pode ser
reinterpretada geração após geração, revitalizando-se nas vidas das pessoas que
existiram em qualquer em qualquer época da história mundial, e centenas de
milhões de hindus contemporâneos são testemunhas desse fato. Talvez um prova
evidente de que o Mahabharata continua a falar às pessoas, milhares de anos
depois de seu aparecimento, seja o sucesso da adaptação do épico em filme e
peça teatral por Peter Brook (1925- ), no início da década de 1990. O
Mahabharata de Brook é adaptado à era moderna. Outro exemplo seria o trabalho
de Steven Pressfield (1943- ), que, em 1995, publicou uma novela
chamada The Legend Of Bagger Vance (A Lenda de Bagger Vance), na qual apresenta
a história do Mahabharata num campo de golfe. Pelo menos, foi isso que fez na
seção que trata do Bhagavad Gita. O trabalho de Krishna Dharma é uma
contribuição importante a essa lista de Mahabharatas modernos. Seu livro faz
com que olhemos dentro de nossos corações, descobrindo se o Mahabharata
desempenha ou não algum papel no drama de nossas vidas. Steven J. Rosen
(1955- ). Texto de Krishna Dharma (1955- ). NOTA DO
AUTOR. DEPOIS DE FALAR com vários revisores e leitores de meus livros, soube
que o Mahabharata é classificado como mitologia. Embora seja reconhecida a
validade de seus ensinamentos éticos e espirituais, sua história é tida como
pouco mais que um veículo fictício para sua apresentação. Porém, para milhões
de outras pessoas, o Mahabharata é muito mais que mera ficção. Os seguidores
das Escrituras Védicas consideram-no o relato de fatos históricos e parte dos
Vedas. Ele inclui o Bhagavad Gita, que, por si só, é um tratado espiritual de
cunho elevadíssimo que expõe a teologia védica essencial. O Mahabharata narra,
basicamente, os eventos que cercam a narrativa do Bhagavad Gita, sendo, por
isso, um texto importante dentro do cânone védico. Entretanto, se não pudermos
admitir a história do Mahabharata como factual, sua credibilidade espiritual,
poderá ser bastante diminuída. Acredito que isso seria uma vergonha, já que,
para mim, tanto a beleza como o valor do Mahabharata residem justamente em sua
espiritualidade. Reconheço os problemas que essa questão suscita. Há muitos
elementos no Mahabharata que um leitor moderno achará difícil aceitar deuses,
demônios, poderes místicos, guerreiros com habilidades super-humanas etc. Sem
dúvida, há muitas coisas que estão além da experiência da maioria, se não de
todos nós. Então, como podem elas ser admitidas por qualquer pessoa razoável?
Em resposta, gostaria de apresentar algumas considerações do ponto de vista de
um seguidor da tradição védica. Antes de fazê-lo, entretanto, tenho de levar em
conta que, depois de milhares de anos, é provável que alguns dos pormenores do
Mahabharata já não sejam inteiramente precisos. Existem agora numerosas
versões, e muitas delas foram preservadas principalmente por meio de tradições
orais, de forma que variações não devem surpreender. Talvez, aqui e ali, alguns
poetas criativos tenham adornado o texto, e talvez o verso singular do texto
original tenha se perdido. Mas, de modo geral, a narrativa principal e os
pormenores permanecem e são comuns à maioria das versões. Foram produzidas as
chamadas “edições críticas do texto” que incluem apenas os versos constantes em
todas as versões, e essas edições contam basicamente a mesma história que
adaptei neste livro. Então, como podemos acreditar na veracidade dessa
história? Consideremos, primeiro, a questão da epistemologia, isto é, de como
chegamos ao conhecimento das coisas. Quando nossa razão é atraída para fora de
seus limites, em geral reagimos de duas maneiras: ou rejeitamos a nova
informação que desafia nossos conceitos, ou os submetemos a uma checagem. “Em
que acredito, e por que acredito? Será que aquilo que acolho com verdadeiro é
factual? Como foi que adquiri meu conhecimento?” Atualmente dá-se grande
importância ao método empírico: ver para crer. Na maioria dos casos, a ciência
trabalha dessa forma – por meio do processo indutivo da compreensão, que
depende do fenômeno observado. Porém esse não é o método mais confiável. Nossos
sentidos, nos quais nos baseamos para realizar observações, podem ser
facilmente enganados. Vemos o Sol, no céu, como um pequeno disco, mas na
realidade ele é um astro milhares de vezes maior do que a Terra. E nossos
sentido não percebem essa verdade. Além do problema de os sentidos falharem, o
que faz com que nossa informação sobre o Universo se torne questionável, também
lutamos para traduzir essa informação com clareza. Os cientistas sempre
buscaram sofregamente a verdade, o entendimento mais profundo e mais completo
do que eles veem. Novas teorias sempre surgem, e as velhas são desafiadas.
Muito daquilo em que se acreditava há alguns séculos hoje é rejeitado. Talvez
até mesmo o que aprendemos na escola, quando crianças, esteja agora superado
por um entendimento mais completo. Contudo, ao longo da construção de nosso
conhecimento há um processo que nunca falha: o de ouvir uma autoridade que já
conhece a verdade. É assim que a maioria de nós aprende qualquer coisa. Ouvimos
nossos pais, professores, rádio, tevê; lemos livros, jornais e muito mais.
Devemos ter um pouco de fé, nessas fontes, mas o que acontece em última análise
é que aquilo que ouvimos e lemos forma nosso sistema de crenças e compreensão.
A maioria das coisas que sabemos, ou que pensamos saber, foi assimilada aos
poucos de alguma autoridade. Dizemos que o Sol é um astro que fica a milhões de
milhas da Terra porque temos fé, acreditamos nos cientistas que nos afirmam
isso, e não porque fomos ao Sol e medimos a distância até lá nós mesmos. É
claro que consideramos um fato como verdadeiro quando este se confirma por
nossa experiência direta. Esse princípio se aplica até mesmo nos casos em que
não compreendemos completamente um fenômeno. Deixem-me explicar com um exemplo:
uso regularmente e-mail e a internet. Porém, a tecnologia de ambos está muito
além de minha compreensão. Não tenho tempo nem inclinação, talvez nem mesmo
habilidade, para aprender informática. No entanto, me contaram que, quando uma
mensagem de e-mail é enviada, é partida em pequenos pedaços de informação que
são, então, transmitidos a seus destino por várias grades eletrônicas.
Misturados e dispersos por toda a vasta rede de informação, esses bits
finalmente se juntam, outra vez, reconstituindo a mensagem original. Não tenho
a menor ideia de como isso acontece; parece-me quase um milagre, mas sei que as
letras que envio são recebidas, intactas, em seu destino. Os sábios das
verdades cibernéticas me explicaram a tecnologia que desenvolveram e, porque
vejo que ela funciona, eu a aceito, apesar de sentir-me desconcertado. Do mesmo
modo, os Vedas lidam com outro tipo de tecnologia. Basicamente, essa tecnologia
pode ser descrita como a ciência dos mantras. Quando se entoam determinados
mantras em sânscrito. Invocam-se poderes superiores. As vibrações dos sons dos
mantras, quando adequadamente entoados por uma pessoa qualificada, possuem uma
potência intrínseca que atraem seres etéreos, como deuses, gandarvas e outros.
Esses entes super naturais podem, então, a nosso pedido, investir-nos de um
poder que nos permita executar feitos extraordinários como os descritos no
Mahabharata. Nesse ponto, contudo, tenho de ser honesto, enfatizando que não
vivi nenhuma experiência como a que menciono acima. Nunca me deparei com deus
algum, nem com qualquer arma celestial sendo usada; tampouco possuo poderes
místicos. Entretanto, tenho experiência pessoal com uma parte do Mahabharata –
o Bhagavad Gita. Esse livro também descreve uma ciência; na verdade, a ciência
da realização espiritual do homem, em que ele é enviado por Deus. Seguindo as
orientações científicas contidas no Bhagavad Gita – que, aliás, também inclui
mantras – pude experimentar seus resultados práticos. Percebo que minha mente
se tornou mais pacífica, meus desejos materiais diminuíram e que meu
entendimento sobre o conhecimento espiritual ali apresentado se desenvolve
gradualmente, permitindo-me entender sozinho as verdades contidas naquele
texto. Como exemplifiquei com o caso da informática, posso não compreender
totalmente como ou por que tais coisas se dão. Mas os sábios das verdades
espirituais já me explicaram isso e, com base em minha experiência pessoal,
acredito no que eles me disseram. Constatando que a parte mais importante do
Mahabharata é verificável por percepção direta, não tenho razões para duvidar
do teor de outras passagens ainda não verificadas por minha experiência.
Trata-se de julgar uma coisa por seus resultados. Se aceitarmos o Bhagavad Gita
e o Mahabharata com verdadeiros e tentarmos seguir suas orientações,
alcançaremos resultados, como já mencionei. Por outro lado, se seguirmos outras
autoridades, que depreciam os Vedas – jornais, tevê, cientistas ateus etc –
obteremos resultados bem diferentes: nossos desejos por prazeres materiais
crescerão ilimitadamente, e nunca serão satisfeitos; nos tornaremos cada vez
mais perturbados, frustrados, deprimidos e fracassados em nossas vidas.
Portanto, este é o teor do Mahabharata: se o Bhagavad Gita é o manual de orientação
prática, o Mahabharata é o passo a passo ilustrado que mostra, inclusive, os
passos que não devem ser dados. Vejamos, por exemplo, os pandavas, que se
esforçam por seguir as instruções de krishna dadas no Bhagava Gita: embora
passem por dificuldades, permanecem fiéis àquelas orientações e, ao final,
emergem vitoriosos e abençoados pela boa fortuna; por outro lado, Duriodhana e
os irmãos ignoram os ensinamentos de Krishna e optam por seguir seus próprios
desejos, encontrando assim a ruína. Visto pela perspectiva da fé, o Mahabharata
é um trabalho profundamente iluminador, que pode ser lido repetidamente. Em
suas páginas pode-se descobrir várias camadas de significados profundo. É claro
que está é uma versão muito sintetizada, mas espero que, ao conhece-la, você se
inspire para ler o livro mais extenso que escrevi, assim como o texto completo
do Bhagavad Gita, que não foi incluído neste livro. Recomendo o Bhagava Gita
como ele é, escrito por A. C. Bhaktivedanta Swuami. É esse o texto a que me
referi antes por suas instruções espirituais, e aproveito para, aqui,
reverenciar seu estimado autor. Também gostaria de respeitosamente agradecer a
Kishari Ganguli e a Manmatha Datta, dois eruditos cujas traduções do
Mahabharata foram minhas principais fontes de material para este livro. Como
sempre, estou aberto às opiniões de meus leitores, que podem ser enviadas por
intermédio da editora. Acredito que possam existir falhas em meu texto e, nesse
caso, peço-lhe que seja tolerante. Avise-me se encontrar algum engano, e o
corrigirei nas edições futuras. INTRODUÇÃO. O MAHABHARATA, PARTE DOS ANTIGOS
Vedas da Índia, é uma história diferente de qualquer outra. Poucos livros são
tão longevos quanto esse épico de 5 mil anos, e sua popularidade milenar é a
maior testemunha da sabedoria profunda contida nas suas páginas. Este grande
épico inclui o Bhagavad Gita – uma obra-prima de conhecimento espiritual,
reverenciada por milhões de pessoas no mundo todo – que é a narração dos fatos
que levam a revelação daquele texto iluminado. O Mahabharata trata das
atividades de Krishna, que fala no Bhagavad Gita e que é considerado pelos
vedas como o Ser Supremo. Isso dá à obra uma qualidade singular. Embora, sob o
ponto de vista externo, o enredo seja uma lenda emocionante, repleta de intrigas
e conflitos entre reis, demônios, deuses e sábios, existe um significado mais
profundo e espiritual que permeia toda a obra. Sente-se uma certa elevação
espiritual ao se ler o livro, cuja intenção, aliás, é nos aproximar da
compreensão do Divino e despertar, dentro de nós, um prazer transcendental,
superior a todas as outras felicidades. O Mahabharata pode ser lido várias
vezes, sem se tornar repetitivo ou tediosos. Na verdade, podem-se descobrir
camadas de significados diferentes a cada leitura. Junto à sua mensagem
espiritual e à história fascinante, o Mahabharata apresenta uma visão
maravilhosa da vida no mundo antigo. Já foi chamado de “enciclopédia cultural
da Índia”, mas sua abordagem é ainda mais ampla do que isso, pois abarca
verdades universais básicas e comuns a toda a humanidade. Os assuntos tratados
no Mahabharata são muitos para serem mencionados, mas num verso famosos do
original lê-se que “o que quer que não seja encontrado no Mahabharata não
poderá ser encontrado em nenhum outro lugar”. Entretanto, deixo que vocês
descubram por si mesmos o tesouro maravilhoso que o Mahabharata é. Esta é uma
versão resumida, mas espero que estimule seu interesse para ir adiante e ler
outros textos mais completos. Também escrevi uma longa novela, de cerca de mil
páginas, na qual inclui muitas das lendas incríveis que cercam a narrativa
central do Mahabharata, e que exclui deste livro a fim que não se tornasse
muito extenso. Se este é o seu primeiro mergulho nas deliciosas águas do
Mahabharata, e se você experimentar aquela sensação refrescante e encorajadora
da imersão, recomendo que vá ainda mais fundo lendo a versão
inteira. Finalmente, ofereço todos os créditos a Srila Viassadeva, o
sábio imortal, autor da obra original. Que ele abençoe a todos, e que possamos
perceber o significado mais profundo do Mahabharata. “ (...) e aquele que
conhece a causa mais profunda que me move nesta esfera mortal se liberta de vez
da fonte do sofrimento e se eleva acima de todos os medos” Bhagavad Gita 4,9.
Livro Mahabharata – Recontado por Krishna Dharma. Abraço. Davi.
terça-feira, 7 de maio de 2019
segunda-feira, 6 de maio de 2019
ABRA SEU CORAÇÃO
Espiritualidade.
www.oshobrasil.com.br. Texto de
Rajneesh Chandra Mohan Jain – Osho (1931-1990). ABRA SEU CORAÇÃO. Osho – Na
maior parte da minha vida, eu me mantive à distância, separado e isolado, e,
assim, eu tenho estado protegido das pessoas e situações. O meu medo mais íntimo
sempre foi o de abrir meu coração totalmente. O vasto amor que eu sinto poderia
derramar-se como água de um poço transbordando e seria perdido, desviado ou
rejeitado. Minha essência é como uma flor delicada, e se ela florescesse num
terreno errado ela poderia com facilidade ser maldosamente machucada ou
destruída. Este é o meu medo. Seria este o tempo e o lugar para abrir o meu
coração totalmente? Tom Cassidy – Este é um dos medos mais básicos de todos os
seres humanos. Este é o medo que tem dado origem aos monges e às freiras. Todo
o passado da humanidade foi dominado por esse medo, como um câncer da
alma. Parece muito lógico que, se você compartilhar o seu amor, ele
será desperdiçado e logo você ficará infeliz. Essa é a lei comum da economia:
se você quiser ter mais dinheiro, não o compartilhe, seja miserável. Ganhe o
tanto que você conseguir e dê o mínimo possível. Somente assim você consegue
acumular e ficar rico. Isso é verdadeiro no que se refere ao mundo exterior,
mas é absolutamente falso quanto ao mundo interior; ali funciona uma lei
totalmente diferente. A lei interna é: se você não dá, você perde; se
você dá, você conserva. Quanto mais você dá, mais você tem. Quanto
menos você dá, menos você tem. Se você não der nada, nada terá; ficará
completamente vazio, um túmulo, e dentro do túmulo não há qualquer
possibilidade de uma flor desabrochar. As flores necessitam do sol, da chuva,
do vento, das estrelas, do céu, dos pássaros, da Terra. Por mais delicada que
ela seja, ela necessita abrir-se para a existência. Em tal abertura, a
fragrância é liberada, o esplendor que estava preso é liberado. Tom, você é
basicamente um monge. A palavra monge é significativa; ela quer dizer “aquele
que vive uma vida solitária”, aquele que vive uma vida sem relacionamentos, sem
relações, sem amar, sem compartilhar; aquele que vive uma vida sem janelas,
fechado por todos os lados, completamente fechado em si mesmo devido ao medo de
que, se abrir, quem sabe o que acontecerá com seu coração sensível, com seu
delicado ser interior? Ele tem medo de rejeição, medo de situações, medo do
desconhecido. Ele se agarra a si mesmo, mas esse agarrar só lhe traz “morte”.
Ele pode seguir arrastando-se por anos, mas isto não é vida, isto é suicídio
lento. A própria palavra monge quer dizer aquele que decidiu viver uma vida
solitária. Da mesma raiz vem monastério, onde as pessoas vivem solitariamente.
Da mesma palavra vêm outros como monopólio, monotonia, monogamia. Tentar viver
por si mesmo, desconectado dos outros, é a ideia mais perigosa que alguém pode
ter, e uma vez que ela começa a tomar um colorido religioso, fica muito difícil
livrar-se dela, pois ela satisfaz o seu ego, ela alimenta tudo o que é errado
em você e destrói tudo o que é belo em você. Dentro de um túmulo não há
qualquer possibilidade de rosas desabrocharem, mas existe a possibilidade de
cobras, escorpiões e aranhas; tudo o que é feio e venenoso. Se o túmulo está
completamente fechado, o seu próprio ar se torna venenoso. E milhões de pessoas
estão vivendo a vida de monges e freiras. Elas podem não ter ido para o
monastério, elas podem estar vivendo com suas esposas e filhos, mas estão
fechadas. Eles podem estar vivendo no mundo, mas se protegendo muito, sempre
cautelosas e calculando, para que suas vidas não tenham qualquer alegria, dança
ou canção. É preciso um pouco de coragem para fazer da vida uma celebração.
Você diz, Tom: Na maior parte da minha vida, eu me mantive à distância (...).
Você tem sido um suicida! Vida significa estar junto, com a existência, com as
árvores, com os rios, com as pedras, com as pessoas, com os animais, com tudo o
que é. A única maneira de tornar a sua vida rica é relacionar-se com ela .
Quanto mais você se relaciona, mais multidimensionalmente você é, mais rico
você é, mais você cresce e desabrocha. Ainda há tempo. Abandone esta ideia
estúpida de estar à distância, separado e isolado. Isto você pode fazer depois
de morrer! Então você terá tempo, mais do que suficiente. Pelo seu nome, parece
que você é um cristão. Então, até o dia do julgamento final, você terá tempo
mais do que suficiente. Você poderá viver como um monge em seu túmulo, e você
poderá guardar a bíblia e o rosário com você. Mas enquanto você estiver vivo,
enquanto está imensa oportunidade estiver sendo dada a você, viva-a, alegre-se com
ela. Jesus disse repetidas vezes aos seus discípulos: “alegrai-vos sempre no
Senhor, outra vez vos digo – alegrai-vos”, Filipenses 4,4. Jesus não era um
monge, ele era um homem vivo. Ele viveu com todo tipo de pessoas, os jogadores,
os bêbados, as prostitutas, os pecadores, os cobradores de impostos. Ele viveu
– e não com a ideia de que era “mais santo do que você”, ele viveu com grande
amizade. Ele gostava das festas que se prolongavam, das danças e da música. E,
acredite, ele não estava constantemente evangelizando, ela fazia especulações
também. E ele bebia, ele gostava de vinho – e ele compartilhava isso com seus
discípulos. O jejum não era o seu caminho, mas sim a festa. Não seja monacal
(hábito de reclusão, solidão). Ser um homem é uma oportunidade tão grande que
não há necessidade alguma de desperdiça-la. E lembre-se de uma coisa: as coisas
das quais você tem medo (...) de abrir meu coração totalmente. O vasto amor que
eu sinto poderia derramar-se como água de um poço transbordando (...). Por quem
você está sentindo este vasto amor? Só por você mesmo? Porque amar significa
ter uma direção, um objeto. O amor é sempre endereçado a alguém. A quem o seu
amor é endereçado? Você é como um envelope ainda não aberto: você nem mesmo leu
o que está escrito na carta, você nem sabe se existe uma carta dentro ou se
está simplesmente carregando um envelope vazio. A não ser que abra o envelope,
você nunca saberá. Abra-o! E lembre-se, o poço nunca se esgota porque no fundo
ele é conectado ao oceano. O oceano está continuamente alcançando-o em pequenas
nascentes. Na verdade, se você não tirar água do poço, ele morrerá, porque as
nascentes não serão mais necessárias e ficarão bloqueadas. Não sendo usadas,
elas perderão a sua função, e a velha água se tornará estragada e morta, talvez
venenosa. É bom para o poço que sua água seja tirada. Quanto mais água você
tirar, mais correntes de água fresca chegarão ao poço. O poço não está
desconectado da existência. Certamente o seu coração é um poço. Se ele for
mantido fechado, você não captará a energia do Universo fluindo para você.
Continue se esvaziando e você ficará surpreso; quanto mais se esvaziar, mais
cheio você ficará. Por isto é que Gautama, o Budha, enfatiza a palavra shunya,
zero. Torne-se um zero! Se quiser tornar-se cheio, a sua mensagem é,
simplesmente se torne vazio, um nada, só espaço, puro espaço, um espaço sem
limites contendo nada. Apenas esvazie-se totalmente e, você não será capaz de
acreditar, um milagre acontece. Quando você está totalmente vazio, a existência
toda entra em você. Todas as estrelas estão dentro de você, assim como o sol e
a lua. De repente você se vê tão vasto quanto o Universo. Ser nada é a única
maneira de ser tudo. Ser ninguém é a única maneira de ser divino. O vazio traz
o divino. E não se preocupe com seu amor ficando perdido; nada jamais é
perdido. O mundo sempre contém a mesma quantidade de tudo, nem mais nem menos.
Isso agora é um fato científico; não existe um simples átomo a menos ou a mais
do que o que sempre existiu. A quantidade do Universo permanece absolutamente a
mesma, pois de onde alguma coisa nova pode vir? A existência compreende tudo,
não existe “algum outro lugar”. E para que outro lugar qualquer coisa pode ir?
Não existe outro lugar para se ir, assim, nada jamais é perdido. Talvez possa
demorar um pouco mais para se alcançar a pessoa certa, mas sempre se alcança.
Cante a canção e não se preocupe! Ela alcançará a pessoa certa no tempo certo.
Se não for hoje, será amanhã, se não for nesta sua vida, então em algum outro
tempo. Mas ela alcançará, com certeza. Ela sempre encontra a pessoa certa que
pode absorvê-la. Simplesmente cante a canção. Não se preocupe com quem ela irá
alcançar; toda a sua preocupação deve ser: cantar com totalidade, e isso é
tudo. Mais do que isso, não é exigido de ninguém. Não lhe cabe saber se ela
será ouvida ou não. Quando uma flor nasce no meio de uma selva, ela não está
preocupada se alguém vai passar por ali, ela simplesmente libera a fragrância.
Se ela alcançar alguém para cheirá-la, ótimo: se ela não alcançar, qual o
problema? A flor desabrochou, ela se ofereceu ao Universo. Agora fica por conta
do Universo fazer o que quiser com ela. Nada jamais é perdido, desviado ou
rejeitado. Mas as pessoas se sentem muitas vezes rejeitadas porque antes mesmo
delas darem algo, já existe a expectativa. Se sua expectativa não for
satisfeita, elas se sentem rejeitadas. É a expectativa que está criando
problema, não o amor. Dê o amor sem qualquer corda amarando-o. Dê o amor pelo
puro prazer de dar. Alegre-se dando-o. O pássaro cuco ao cantar distante, não
se preocupa se alguém está gostando ou não. A estrela distante – você pensa que
ela está preocupada se um poeta está escrevendo um belo poema sobre ela ou se
um Vincent van Gogh (1853-1890) está pintando-a, ou se um fotógrafo ou um
astrônomo estão preocupados com ela? A estrela não está interessada nisso. A
sua alegria está em continuar brilhando. Simplesmente abra o seu coração, Tom
Cassidy. E abra-o totalmente, sem quaisquer expectativas e condições. É certo
que ele alcançará o coração certo: isto sempre acontece. Quando eu comecei a
cantar a minha canção, não havia ninguém para ouvi-la. Depois as pessoas
começaram a chegar. Eu fiquei surpreso: como elas ouviram? Por que essas
pessoas continuam vindo? De todas as direções, de todo o mundo as pessoas
começaram a vir. Como você chegou aqui? E eu não estava esperando que alguém
viesse. Eu estava simplesmente cantando a minha canção, eu estava desfrutando
isso. Há poucos dias um sannyasin, perguntou: Osho, eu tive um sonho: eu estava
sentado sozinho no Budha Hall e então você chegou. Você sentou-se na cadeira e
eu fiquei muito intrigado porque eu estava só e não avia mais ninguém no Budha
Hall, todo ele estava vazio. E eu estava preocupado com o que você iria fazer.
Não precisa se preocupar, eu farei a minha parte. Eu não posso deixa-lo só. Eu
falarei para você por uma hora e meia continuamente. E você também não pode
escapar. Quando há muitas pessoas, umas poucas conseguem escapar, mas se você
está sozinho, para onde poderá ir? Eu seguirei você! Sem pessoa alguma, ainda
que você não esteja lá, eu estarei sozinho no Budha Hall, eu cantarei aminha
canção. Tente isso um dia! Eu ainda contarei minhas piadas e se não houver
ninguém para rir delas, eu mesmo rirei. Se não for de piada, porque eu já a
conheço, estarei rindo do fato de não ter ninguém lá e, ainda assim, eu estar
contando uma piada! Que ridículo! Tom, não se preocupe. Você diz: Minha
essência é como uma flor delicada (...). Então, permita que ela assim seja! Ela
é bela, ela é uma flor delicada. Permita que os outros também participem de sua
fragrância, permita que os outros também bebam de sua fonte. Logo a flor
morrerá, à tardinha ela já terá ido. Assim, não a esconda, pois mesmo se
escondê-la, você não conseguirá salvá-la. De manhã, a rosa abre suas pétalas,
ao final da tarde as pétalas definham e a rosa se vai. Antes que ela se vá,
permita que ela seja compartilhada, deixe que as crianças brinquem ao seu
redor. Deixe todo mundo se alegra! Do contrário, você estará morrendo sem estar
realizado. Ela é uma flor delicada, mas quanto mais delicada for, mais
rapidamente ela tem que se abrir a existência, ela não pode esperar pelo amanhã
– talvez ela não esteja aqui amanhã. E você está preocupado: se ela florescesse
num terreno errado (...). Não há terreno errado em lugar algum. Na verdade, se
uma rosa consegue florescer num deserto, aquele será o mais belo terreno e ela
será uma rosa excepcional. Se ela puder desabrochar entre pedras, então aquela
rosa deve ser um Budha, não menos do que isso; um Cristo, não menos do que
isso. Num terreno adequado, num jardim, as flores comuns desabrocham, mas as
flores extraordinárias desabrocham também entre as pedras e no deserto. Assim,
não se preocupe com o terreno e não se preocupe que ela poderia com facilidade
ser maldosamente machucada ou destruída. Tudo que nasce será destruído, por
isso, antes que ela seja destruída, permita que ela tenha a sua dança. E você
está me perguntando: Seria este o tempo e o lugar para abrir o meu coração
totalmente? Todo tempo e todo lugar é o lugar certo! E porque você está aqui
neste momento, permita que este seja o lugar. Onde você poderia encontrar um
espaço melhor, com pessoas mais bonitas, mais receptivas, mais amorosas do que
estas que estão à sua volta neste Budhafield? Tom Cassidy, você esperou tempo
demais, não espere mais. Este é o tempo. Nunca confie no momento seguinte; o
amanhã nunca vem. É agora ou nunca!. www.oshobrasil.com.br. Abraço. Davi.
sexta-feira, 3 de maio de 2019
IV. OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA IDEOLOGIA CHINESA ATUAL
Confucionismo.
Texto de Jacque Gernet (1921-2018). IV. OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA
IDEOLOGIA CHINESA ATUAL. Enquanto que o ensino político visa a formação de um
monarca absoluto, que controla o povo, já o ensino ético tem a família como
centro de toda a sociedade, refletindo-se as relações familiares em toda a
sociedade. Trata-se da noção de Estado-família, em que o soberano ou presidente
deve velar pelo bem-estar do povo. Ora, quando o governo se faz pela virtude e
pelas qualidades do governante, dá-se uma maior importância às relações
pessoais, o que se verifica nos atuais países de influência confucionista. O
principal objetivo do governante não é agir diretamente sobre o povo, mas
suscitar a sua ação, pelo comportamento conforme às tradições e aos ritos. A
ação política é, como tal, dominada pela procura da harmonia social e pelo
consenso. Num governo em que as relações pessoais assumem um papel de destaque,
as noções de confiança e de face adquirem uma grande importância, para além das
já citadas virtudes confucionistas, com vista a um ideal de dignidade humana.
Finalmente, o ensino intelectual visa aprofundar os conhecimentos e pesquisar a
verdade. "O mandarim deve o seu poder não ao seu nascimento, mas à sua
educação que lhe permite agir de acordo com as leis cósmicas universais."
52 Trata-se da instrução à qual Confúcio reservou um lugar de destaque na sua
filosofia e que é uma das chaves da modernização. Para além destes aspectos, há
ainda a questão ambiental. A rápida modernização sob o mote “Paz e
Desenvolvimento” (和平与发展) tem efeitos negativos sobre o ambiente. No entanto,
sublinha o confucionismo que o Homem e a Natureza são um, não se podendo
separar. Tal como refere Tang Yijie, “para se resolver os problemas humanos há
que considerar a natureza, e para se resolver os problemas da natureza, há que
considerar os problemas humanos. Não se pode considerá-los separadamente. (…)
Se não se considerar, pode ser muito perigoso, o século XXII pode
destruir-se.”53 Trata-se da União entre o Céu (天), a Terra (地) e
o Homem (人). O CONFUCIONISMO NA POLÍTICA INTERNA CHINESA ACTUAL
Apesar deste bem-estar geral, as reformas de Deng também provocaram alguns
problemas. A prosperidade em que vive a China deu origem ao aparecimento dos
chamados "novos ricos", novas elites empresariais que se orientam por
um diferente conjunto de valores morais. Como o seu objetivo principal se
tornou o lucro, agravou-se o fenómeno da corrupção. a adoptar, se os atrativos
valores ocidentais que estão “na moda” ou os velhos valores chineses da era dos
pais e avós. Tendo em conta estas Por outro lado, o cidadão comum (老百姓),
especialmente entre as camadas mais jovens da sociedade, padecem de uma certa
desorientação em relação aos valores preocupações, tem o governo chinês
manifestado intenções de reavivar os valores tradicionais, nomeadamente os
princípios confucionistas como forma de promover a estabilidade da sociedade, e
mesmo do próprio governo. A guisa de exemplo poder-se-á dizer que já desde a
década de 80, Jiang Zemin vinha defendendo que Confúcio era um dos maiores
pensadores chineses, pelo que se devia estudar os seus princípios. Na
Assembleia Nacional Popular de 1995, Jiang Zemin apelou ao renascimento moral e
ético. Zemin tem sublinhado a civilização espiritual como motivo da nova
campanha ideológica, como forma de luta contra a deterioração moral e ética e
da desordem social de que a China tem sido alvo. Na célebre “Teoria das Três
Representações” (三个代表) apresentada no Discurso de Jiang Zemin no 80.º
Aniversário do PCC, em julho de 2001, à segunda destas representações refere-se
exatamente à promoção da cultura avançada chinesa (代表中国先进 文化).
Ainda que este conceito se refira primordialmente ao facto de que os princípios
e políticas adoptadas pelo Partido devam refletir os requisitos da cultura
científica avançada em direção à modernidade, também refere que se deve ter em
conta as qualidades culturais e ética de toda a nação. Além disso, no texto
refere-se que “no que concerne ao rico legado cultural deixado na História da
China ao longo de muitos milhares de anos, devemos selecionar a essência e
descartar o excedente, e seguir em frente desenvolvendo-a de acordo com o
espírito dos tempos para que o passado sirva o presente” Tal como defendem
alguns autores, assiste-se atualmente à política da “herança crítica” do
confucionismo, isto é, “eliminam-se os elementos excessivos do confucionismo
enquanto, por outro lado, se escolhem alguns princípios confucionistas para
educar os quadros e o povo.” Por outro lado, a terceira representação acentua
que é papel do PCC representar os interesses da maioria do povo chinês, o que
está em completo acordo com o princípio confucionista de que o governo deve
procurar em primeiro lugar satisfazer as necessidades do povo, e depois
educá-lo. Como tal, os dois princípios estão em completo acordo. Mais
recentemente, com o aparecimento da Epidemia Atípica, o presidente chinês Hu
Jintao (胡锦涛), apresentou como formas de controlo da doença:
promoção da tecnologia avançada e orgulho do espírito cultural tradicional
chinês da solidariedade, defendendo que em conjunto se poderá vencer as
dificuldades. Reconhecendo as múltiplas vantagens que representa a ética
confucionista em vista de todas as rápidas mudanças características da
modernização, resolveu o governo chinês, à semelhança do que vem acontecendo em
Singapura, desenvolver esforços no sentido de reabilitar a imagem do Grande
Mestre, devido aos ataques de que foi alvo durante a Revolução Cultural, assim
como promover os estudos da sua doutrina. Esta atitude insere-se num ambiente
geral de “febre pela cultura tradicional” (guoxue re, 国学热 ) que apareceu
na China na década de 80 e que se tem acentuado nos últimos anos, caracterizada
pela popularização da cultura tradicional, procurando selecionar os aspectos da
cultura tradicional que são úteis para as exigências da sociedade moderna. “Em
22 de Setembro de 1984 comemorou-se oficialmente na República Popular da China
o 2535º aniversário de Confúcio, venerado naquele País ao longo de 2500 anos,
como Professor de Dez Mil Gerações. A celebração decorreu no seu distrito natal
em Qufu, na Província de Shandong. Nesta data foi inaugurada a estátua
restaurada de Confúcio e também o próprio templo ancestral que ali existe os
quais durante a Revolução Cultural tinham sido bastante danificados. O palacete
e o cemitério da família Kong, que ocupam mais de 200 hectares, foram, também,
abertos ao público e visitados por muitos chineses e turistas estrangeiros”
Desde a década de 80, o governo chinês tem apoiado a criação de Associações e
Centros de Estudo dedicadas ao estudo e divulgação da filosofia confucionista.
Entre as mais relevantes conta-se a Fundação de Confúcio (中国孔子基金会),
em Jinan (济南), Província de Shandong (山东), a Associação Confucionista Chinesa (中华孔子学会) e a
Associação Confucionista Internacional (国际儒家联合会), ambas
em Beijing (北京). A Associação mais antiga é a Fundação de Confúcio (中国孔子基金会)
de Shandong que foi criada em setembro de 1984 em Qufu (曲阜),
a cidade-natal de Confúcio, sendo mais tarde, em 1996, movida a para Jinan, a
capital da província de Shandong. Estabelecida sob a liderança do intelectual
Gu Mu (谷牧), de acordo com os estatutos, a Fundação de Confúcio
tem como objetivos: estudar, investigar, divulgar e desenvolver o pensamento de
Confúcio e da escola confucionista e a cultura tradicional chinesa; contribuir
para a construção de uma civilização com o espírito do socialismo de
características chinesas; promover a reunião de todos os chineses, que se
encontram dentro e fora da China, assim como o intercâmbio cultural. 58 De
acordo com estes objetivos, a Associação tem desenvolvido diversas atividades como
organização de “Reuniões do saber” (学术会议) sobre Confúcio e a sua filosofia, entre as quais se
destacam as reuniões de 1989, 1994 e 1999, onde se comemoraram o 2540.º, o
2545.º e o 2550.º Aniversário sobre a morte de Confúcio. Esta Fundação, que
depende de fundos públicos nacionais e também estrangeiros, tem também
publicado livros e revistas, entre os quais se destaca a revista “Estudos sobre
Confúcio” (研究孔子) publicada desde 2000 com uma regularidade
quinquenal. A Associação Confucionista Chinesa ( 中华孔子学会
) é outra das mais antigas Associações
existentes na China, dedicadas ao estudo e investigação da filosofia
confucionista. Anteriormente era somente um Departamento de Estudos sobre
Confúcio (中华孔子研究所) da Associação Chinesa de História Antiga (中国老年历史学会). Ora, dada a sua importância, em junho de 1984, o
governo chinês criou esta Associação, com o objectivo de desenvolver o estudo e
investigação de Confúcio e da sua Escola, assim como da cultura tradicional
chinesa. Constituída por importantes estudiosos do confucionismo de
instituições como a Academia Chinesa das Ciências Sociais (中国社会科学院),
a Universidade de Pequim (北京大学) e a Universidade Qinghua (清华大学), entre
outras, esta Associação tem procurado imprimir um cunho científico aos seus
estudos do confucionismo, através da atitude de “busca da verdade dos fatos” (实事求是), orientando-se pelo princípio “que Cem Flores
desabrochem, que Cem Escolas Rivalizem” (百花齐放,百家争鸣) e usando o método de “Sintetizar novas ideias a
partir da cultura” ( 文化综合创新 ). Esta organização tem organizado periodicamente
conferências sobre a relação do confucionismo com os diversos aspectos da
actualidade, nomeadamente a “Conferência Internacional sobre a Relação entre o
Confucionismo e a Modernidade”, em 1992 em Sichuan; a “Conferência Internacional
sobre o Pensamento Confucionista e a Economia de Mercado”, em 1995, em Pinggu,
Beijing; e a “Conferência Internacional sobre o Comerciante Confucionista e o
séc. XXI”, em 1999, em Jining, Shandong. Para além destas conferências e de
algumas publicações, recentemente a Associação Confucionista Chinesa ajudou no
estabelecimento de uma escola dedicada ao ensino da cultura tradicional
chinesa, em Beijing, em Andingmen, juntamente com a administração do Templo de
Confúcio em Beijing e o Departamento de Andingmen. A Escola de Cultura
Tradicional Chinesa de Andingmen (国学启蒙馆) 59, como é chamada, abriu em abril de 2002 no Templo
de Confúcio em Beijing, e fornece um conjunto de aulas em que se pretende
transmitir a cultura tradicional chinesa a crianças dos 4 aos 6 anos. Os atuais
alunos têm aulas um dia por semana (aos sábados) e através de um sistema de
ensino inovador aprendem matérias relacionadas com os clássicos chineses e as
virtudes confucionistas.60 Tal como nos sublinhou Zhang Yiyi, vice-diretora do
Departamento de Planeamento Familiar de Andingmen, “procura-se usar um método
inovador que combina as técnicas de ensino ocidentais para ensinar a cultura
tradicional chinesa. Desta forma se procura preservar a cultura antiga chinesa,
tornando o estudo dos clássicos em algo atrativo”. Os conselheiros são
especialistas na cultura tradicional chinesa, nomeadamente em literatura
clássica, em Ópera de Pequim, Artes Marciais, etc., pois é importante não só
desenvolver o conhecimento, mas também a postura, o que marca para a vida
inteira, em resumo trata-se de ajudar a constituir homens de virtude. Trata-se
de “manter a cultura chinesa antiga, por um lado, e de elevar a qualidade do
ensino desde a infância, por outro, contribuindo para a educação de futuros
alunos de grandes universidades como Universidade de Pequim e Universidade
Tsinghua”, segundo palavras de Zhang Yiyi.62 Com o objetivo de promover o
encontro entre os diversos estudiosos nacionais e internacionais do
confucionismo, foi criada, em outubro de 1994, a Associação Confucionista
Internacional (国际儒家联合会), com sede em Beijing. O principal objetivo desta
Associação é promover a investigação do confucionismo através do intercâmbio de
investigadores de diversos países e regiões, dentre os quais Caojian (曹建),
o Secretário da Associação, nos destacou como principais China, Singapura,
Coreia e Japão. No entanto, de entre os cerca de 200 intelectuais que fazem
parte desta Associação, incluem-se também alguns de países ocidentais como
Estados Unidos, Alemanha, França e Grã-Bretanha. A Associação é constituída por
dois Centros de Estudos: o Centro de Estudos do Confucionismo Contemporâneo e o
Centro de Estudos Internacional Tiras de Bambu63, e organiza com uma
regularidade anual, conferências internacionais sobre os mais diversos temas,
assim como publica também regularmente alguns livros e revistas. Para além
destas atividades promovidas pelo governo como forma de desenvolver os estudos
sobre a cultura tradicional chinesa, com especial relevo para a filosofia
confucionista, tem também o executivo chinês colocado em prática princípios
ditos confucionistas na sua administração como forma de resolução de alguns
problemas emergentes. Tal como defendia Jiang Zemin no seu discurso no 80.º
Aniversário do PCC, em relação aos recursos humanos dentro do Partido e do
governo, “devemos aprofundar a reforma do sistema de pessoal como forma de
produzir um contingente de oficiais de alto calibre que são capazes de assumir
responsabilidades. (…) O princípio do recrutamento e promoção através de uma
competição aberta e justa com base no mérito deve ser impulsionado”, Como tal,
conclui-se que os atuais líderes chineses procuram promover aos cargos
oficiais, as pessoas com as qualificações mais adequadas e que estejam
dispostas a assumir as responsabilidades respectivas. Trata-se do princípio
confucionista da “retificação dos nomes”, de colocar o funcionário adequado no
cargo respectivo, com todo o conjunto de tarefas e responsabilidades a que lhe
corresponde. Como forma de selecionar os mais dotados para os cargos
superiores, continua o governo a socorrer-se do sistema de seleção através de
exames para o cargo de funcionário público. Finalmente, no que diz respeito à
ideologia comunista propriamente dita, verifica-se a existência de alguns princípios
comuns à filosofia confucionista. Tal como sistematizaram Guy Kirsch e Klaus
Mackscheidt, “como o confucionismo, o marxismo defende que todas as coisas
estão sujeitas a leis inerentes que definem o que as coisas são e o que deviam
ser, é nossa obrigação desejar o que irá acontecer, liberdade é reconhecer o
que é necessário. (…). Ambos os ensinamentos derivam a sua legitimação de
livros clássicos e todo o discurso concentra-se em estabelecer se um argumento
avançado nas disputas sociais é ortodoxo ou heterodoxo; o único objetivo é
descobrir quem está correto de acordo com os velhos e veneráveis livros e de
acordo com as tradições e hábitos dos antepassados. (…). Ambos confucionismo e
marxismo enfatizam o significado de ordem vertical. Gostaríamos de convida a
audiência a substituir os termos confucionistas pelos marxistas ou comunistas:
príncipe – comité central do partido comunista; rito – prática revolucionária;
conhecimento – consciência proletária; Filho do Céu – cabeça do proletariado;
lei do Céu – dialética da História; tradição – história do movimento
trabalhador; murmúrios do povo – vontade das massas; autoridade do príncipe –
papel de liderança do partido; hierarquia – centralismo democrático. Se
substituíssemos os termos de um pelo outro, os textos poderiam ser lidos sem se
mudar o seu significado em profundidade. No entanto, as semelhanças existentes
entre o confucionismo e o comunismo não se cingem à forma. A nível do conteúdo
destas duas formas de pensar verificam-se também aspectos em comum. Ao adaptar
a ideologia comunista à realidade chinesa, os líderes chineses têm defendido
uma forma diferente de socialismo, trata-se do chamado “socialismo de
características chinesas”. Tal como recentemente defendido por Jiang Zemin no
16.º Congresso do PCC, em nde 2002, a China entra agora na fase da “Sociedade
modestamente acomodada”, em chinês, xiaokang shehui (小康社会), uma fase
intermédia antes de chegar ao fim último da ideologia chinesa, o socialismo.
Ora, é interessante notar que no Livro dos Ritos66, se fala de duas etapas do
desenvolvimento político, em que a xiaokang shehui é uma fase intermédia antes
de chegar ao ideal da “Grande Harmonia”, o datong shehui (大同社会).
Tal como descrito no Livro dos Ritos, numa sociedade modestamente acomodada,
“cada pessoa respeita os seus pais, cada pessoa cuida dos seus filhos. Os bens
armazenados e adquiridos são para si mesmos. O monarca hereditário deve,
através dos ritos, construir muralhas e proteger a cidade. Os ritos devem ser
usados como disciplina social, na relação entre governante e ministros, entre
pais e filhos, entre irmãos mais velhos e irmãos mais novos, entre maridos e
esposas. Através do sistema estabelecido, os campos são delimitados, os mais
dotados são colocados nos cargos oficiais, a indústria é estabelecida, por isso
ainda que hajam intrigas, resultarão em produção, ainda que hajam guerras,
resultarão em vantagem. (…). Se, algum soberano não usar os ritos para
governar, será deposto, o povo vê-lo-á como uma desgraça. Esta é a xiaokang
shehui. Como tal, conclui-se que a descrição feita da que então seria uma
“Sociedade Modestamente Acomodada” inclui que o governante deveria seguir os
ritos, a lei, e prover à satisfação das necessidades do povo, assim como à sua
proteção. Por outro lado, deveria colocar as pessoas mais qualificadas nos
cargos públicos, sempre tendo a noção de governo benevolente em mente, pois se
não o fizesse poderia ser deposto. Atualmente, a noção de xiaokang shehui
adoptada pelo governo chinês também inclui estes princípios gerais,
principalmente no que se refere à satisfação das necessidades básicas da
população e à provisão dos recursos educativos básicos. Tal como elucidou Jiang
Zemin no seu discurso no 16.º Congresso do PCC, os objetivos da “Sociedade
modestamente acomodada” são: desenvolvimento económico, melhoria da democracia
socialista e do sistema legal, promoção dos níveis ideológicos e éticos, assim
como das qualificações científicas e culturais e da saúde de todo o povo,
promoção do desenvolvimento sustentado. No “Livro dos Ritos” é também descrito
o ideal político, que já haveria existido na Antiguidade e que devia ser
restabelecido: “Quando a Grande Via prevalece, o mundo é uma comunidade, os
homens de talento são escolhidos para o governo, a confiança mútua e a amizade
prevalece entre os homens. Os homens não amam somente os seus pais, nem cuidam
somente das suas crianças, mas também dos outros. Uma adequada provisão é
fornecida para os mais idosos até à sua morte, emprego para os capazes e meios
para criar os mais jovens. Bondade e compaixão são demonstradas para com os
viúvos, órfãos, idosos sem filhos e incapacitados, para que todos tenham apoio.
Os homens têm trabalho adequado e as mulheres têm casa. Os homens lutam contra
o desaproveitamento dos recursos naturais, mas também não os exploram somente
para seu próprio benefício. As intrigas são reprimidas e não se desenvolvem.
Não há roubos nem rebeliões, e as portas podem ficar abertas. Esta é a Grande
Harmonia”. As características aqui descritas como o ideal dos confucionistas,
aproxima-se em muito do ideal utópico de comunismo, nomeadamente
características como a igual distribuição da riqueza, o bem-estar social, a
segurança e a promoção dos recursos humanos, numa sociedade que ao final é uma
comunidade mundial (tian xia wei gong, 天下为公). Como tal,
parece que já a civilização chinesa desde há muito preconizava ideais que mais
tarde haveriam de entrar na política através da ideologia comunista. Talvez por
este motivo, foi esta ideologia de origem estrangeira tão bem aceite pela
sociedade chinesa no século XX. O CONFUCIONISMO COMO BASE DO RENASCIMENTO DO
NACIONALISMO CHINÊS Para além das noções comuns existentes entre a filosofia
confucionista e a ideologia comunista, os princípios confucionistas têm
contribuído para a coesão do povo chinês e mesmo para o desenvolvimento de um
certo nacionalismo entre as suas gentes. E "o novo nacionalismo está a ser
construído, não no contexto das relações entre a maioria han e as outras
minorias, mas no contexto das relações entre a civilização chinesa e as outras
civilizações." Como tal, esse nacionalismo que renasce não coloca frente a
frente as diferentes etnias chinesas, mas une-as sob uma base comum, em defesa
das influências nocivas do exterior. Ora, a origem deste renascimento do
nacionalismo é recente. Tal como referido por Zheng Yongnian, o nacionalismo
surgiu de uma forma progressiva, para promover a cultura e civilização
tradicional chinesa em contraste com os valores ocidentais. O primeiro impulso
veio da invasão de ideias ocidentais de que a China foi palco durante a década
de 80, o que provocou um sentimento de inferioridade em relação à cultura
chinesa. Em início da década de 90, o desenvolvimento económico chinês levou os
intelectuais a acreditar que a China também era capaz, com base nos seus
próprios valores, em face da decadência de algumas potências estrangeiras,
nomeadamente com a dissolução da União Soviética. E no centro desses valores
tradicionais chineses, a base do nacionalismo, está no confucionismo. Tal como
sublinha Samuel Huntington, na sua teoria do "Choque de
Civilizações", o confucionismo é a base do nacionalismo chinês. E ele
chega mesmo a apresentar este nacionalismo como uma ameaça à civilização
ocidental, o que nos parece profundamente exagerado. Este sentimento
nacionalista com base em valores tradicionais está também presente nas
comunidades emigradas, em que sempre se reportam aos outros nacionais que se
encontrem na China ou no estrangeiro, para lhes oferecer o seu apoio. O
confucionismo privilegia as relações pessoais, o que no caso do relacionamento
entre a China e os países do Sudeste asiático é particularmente importante, em
vista das redes de guanxi (关系)que se estabelecem entre os
chineses naquela região. São sobejamente conhecidas as comunidades chinesas no
Sudeste Asiático que, por um lado, não permitem a entrada de desconhecidos,
ditos de outras etnias, mas que em contrapartida promovem os relacionamentos
entre pessoas etnicamente chinesas. Influenciados por estas considerações,
alguns intelectuais chineses chegaram mesmo a afirmar que a civilização
confucionista é superior à ocidental, sendo capaz de trazer paz e harmonia às
nações. Isto porque a civilização confucionista não é religiosa, ao contrário
da ocidental que, por isso, tem sido responsável pelo deflagrar de diversos
conflitos internacionais. A ênfase do confucionismo está relações pessoais,
entre as pessoas, pelo que enquanto as relações entre duas pessoas forem
harmoniosas, a paz reinará em sociedade. Por outro lado, ao contrário das religiões
ocidentais, não se sublinha aqui a crença na salvação, num mundo superior, mas
ensina-se a viver em sociedade. Os princípios confucionistas apresentam o
modelo de como tirar o melhor usufruto de viver em sociedade, no relacionamento
entre pais e filhos, irmãos, amigos e soberano e súbditos. É a lei das cinco
relações de Mêncio (372 AC 289) que se continua enraizada na sociedade chinesa
atual, promovendo a sua harmonia e estabilidade. Atualmente, o povo chinês
continua a respeitar estes princípios, ainda que inconscientemente porque já
faz parte do seu temperamento, os conceitos de benevolência e de piedade
filial, a aprendizagem pela experiência, a justiça, a humildade, o respeito
pelos mais velhos, etc. Todos estes conceitos transmitem uma grande harmonia e
estabilidade à sociedade chinesa. No entanto, estes valores confucionistas não
se cingem às fronteiras políticas da China, nem mesmo às fronteiras étnicas do
seu povo. Valores como o personalismo e o comunitarismo caracterizam a forma de
ser dos povos asiáticos que, com base nessas concepções pretendem constituir
uma forma própria de ser, a chamada “Asian Way”, por contraposição à
perspectiva ocidental. Estas perspectivas são particularmente evidentes em
relação à polémica questão dos direitos humanos, em que estas duas concepções
chocam. Como tal, pode considerar-se o confucionismo o núcleo duro da concepção
asiática, incluindo os países do Nordeste e Sudeste Asiático, numa combinação
mais ou menos consistente, mas ainda muito heterogénea. Há aqui a destacar os
esforços desenvolvidos por Lee Kuan Yew por promover a cultura tradicional e a
ética confucionista como centro de uma visão asiática mais abrangente. Neste
caso seria o confucionismo o centro de uma forma de sentir afeta não só os
chineses política e etnicamente definidos, mas também aos outros povos
asiáticos em geral, por contraposição aos ocidentais. O CONFUCIONISMO NA
POLÍTICA EXTERNA CHINESA ACTUAL As concepções confucionista e comunista não se
tocam somente a nível interno, mas também a nível externo. Ambas nascidas de
uma época de caos e desorganização, tanto a filosofia confucionista como a
atual política externa chinesa preconizam a ordem, a paz e o desenvolvimento. O
Período dos Reinos Combatentes, quando surgiu a filosofia confucionista, era
uma época de grande desordem e conflito, em que os vários reinos se digladiavam
por alargar os seus territórios, aumentar os recursos e conseguir a hegemonia.
Por outro lado, a degradação das condições de vida suscitava descontentamento e
insurreições sociais entre a população. Neste contexto, os confucionistas
enfatizavam a harmonia e defendiam o regresso ao estado de coisas ante, isto é,
à ordem característica da Antiguidade. Sendo a sociedade constituída por
diferentes sujeitos com diferentes personalidades e ambições, deviam os homens
e mesmo os Estados respeitar-se mutuamente, tentar compreender-se e mesmo fazer
algumas concessões quando necessário. Trata-se aqui da Doutrina do Meio (zhong
yong, 中庸), do meio termo, da tentativa de conciliar os
opostos, sem cair para um ou para o outro lado. Diziam os confucionistas que,
se se respeitam os princípios morais, os relacionamentos serão harmoniosos,
caracterizados por cooperação e confiança mútuas. E isto não se aplica somente
às relações sociais, mas também aos sujeitos internacionais, na época, ao
relacionamento entre diferentes reinos, segundo a teoria de Mêncio. Defendia
ele que os indivíduos, assim como os reinos, tinham os seus próprios
interesses, que são diferentes uns dos outros. Se as pessoas forem egoístas e
quiserem concretizar os seus interesses e desejos, às vezes provocam choques
pois não têm em atenção os interesses dos outros. Esta atitude pode resultar em
mal-estar e mesmo conflito, pelo que devem as pessoas assim como o Estados privilegiar
a justiça e retidão (义) em detrimento
do interesse (利). Por isso, “sempre foi posição firme dos
confucionistas oporem-se a guerras para lucros egoístas e advogarem «retidão
sobre os lucros» num esforço para eliminar guerras e conflitos entre blocos e
Estados. A posição reflete a sua esperança para uma pacífica comunidade
internacional, assim como o seu ideal humanitário”. É interessante notar que na
década de 50, Mao Zedong elaborou com o líder indiano um conjunto de princípios
que, a ser respeitados, permitiriam um bom relacionamento entre os diferentes
países com base na coexistência pacífica. E esses cinco princípios eram: -
respeito mútuo pela soberania territorial; - não agressão mútua; - não
interferência nos assuntos internos; - equidade e benefício mútuo; -
coexistência pacífica. Atualmente estes princípios encontram-se sintetizados na
teoria de Deng Xiaoping que advoga uma política externa de paz independente
cujo propósito é a manutenção da paz mundial e o desenvolvimento conjunto. Esta
perspectiva está de acordo com o ponto de vista de Confúcio de que “Conduzindo
os ritos, a harmonia é o princípio mais importante” (Analectos I:12). E essa
harmonia (he wei gui,和为贵) também inclui o respeito das especificidades de cada
um, de acordo com o princípio de “Harmonia na diferença” (he er butong, 和而不同),
o que significa que pode haver trabalho de cooperação harmoniosa mas
respeita-se a diferença. Segundo Confúcio, “O homem de bem estar em harmonia
com outros mas não os segue cegamente, o homem inferior segue os outros
cegamente mas não está em harmonia com eles.” (Analectos XIII:23) Tal como
explica Tang Yijie, “a situação da China e dos Estados Unidos é diferente, mas
podemos viver harmoniosamente, não é necessário entrar em conflito ou guerra”.
Esta tem sido a postura da China a nível internacional com relação a outros
países, especialmente os países vizinhos. Isto porque só neste harmonioso
ambiente internacional será possível realizar o objetivo básico da paz e
desenvolvimento económico (和
平与发展). Além disso, um dos outros princípios da atual
política externa chinesa chama a atenção para a completa unificação da China
sob o mote “um país, dois sistemas” (一国两制). Chama-se aqui a atenção
para a transferência das soberanias de Hong Kong, Macau e quem sabe Taiwan para
a mãe-pátria. Esta ideia pertence já a um antigo princípio chinês de
unificação, a chamada “Grande Unificação” (大一统), presente nos
Anais da Primavera e Outono. Na atualidade, este princípio foi expresso por Mao
Zedong e Deng Xiaoping, e continua a ser incluído como um dos mais importantes
princípios da política externa da atualidade. Por outro lado, a enunciação da
existência de dois sistemas, neste caso económicos, sob uma mesma liderança
política poderá ser facilmente entendido através do princípio confucionista de
“harmonia na diferença”, tal como já havia acontecido ao longo da História da
China em relação a outros sistemas. CONCLUSÃO. O confucionismo é uma teoria
que, tendo surgido num período de fortes convulsões políticas e sociais, só chegou
à categoria de doutrina política pela mão do Imperador Wudi. Contudo, ao longo
da longa História da Civilização Chinesa, estes princípios sempre serviram de
base ao relacionamento entre as pessoas, a nível do núcleo familiar, depois em
sociedade e, numa escala maior, dentro do Estado e mesmo nas relações entre
diferentes Estados. Mesmo apesar dos ataques de que foi alvo, especialmente
durante o período da Revolução Cultural Chinesa, valores como ren, xiao e li
permaneceram inalterados e inabalavelmente como diretores da vida em sociedade.
A adopção da ideologia comunista por diversas regiões de tradição
confucionista, como é o caso da China, do Vietnam e da Coreia do Norte, veio
trazer luz sobre o facto de existirem alguns traços em comum entre esta ideologia
estrangeira e a autóctone filosofia confucionista. A semelhança verifica-se
logo ao analisar o contexto do seu aparecimento, períodos altamente conturbados
em que a liderança havia sido posta em causa. Depois a comparação da própria
história dos principais defensores veio trazer a nu características semelhantes
relacionadas logo à partida como a própria vida, a liderança carismática, a
capacidade de atrair multidões, o método adoptado para comunicar e partilhar
experiências e a forma encontrada para transmitir o seu pensamento. O próprio
formato dos escritos básicos é bastante semelhante. No que se refere ao
conteúdo da doutrina e ideologia propriamente ditas, encontramos muitos pontos
em comum já sobejamente desenvolvidos, entre os quais se destaca os princípios
de reforma agrária adoptada e as preocupações com o povo que governam, num
período inicial de aplicação da ideologia comunista à realidade chinesa. Na
atualidade, com todas as mutações próprias de uma sociedade em permanente
evolução, é interessante verificar o retorno da ênfase concedida pelos
governantes aos valores tradicionais, que neste caso estão inevitavelmente
relacionados com o confucionismo. O aparecimento desta “febre de cultura
tradicional” encontra justificação nos efeitos perversos da modernização, tal
como a instabilidade económica e consequente desorientação social, indefinição
de valores diretivos em face da grande entrada de valores ocidentais, etc. Qual
ciclo vicioso, o confucionismo ajuda a manter a estabilidade do comunismo e o
comunismo promove a expansão do confucionismo. Ao adoptar princípios como a
promoção da educação, escolha dos funcionários mais qualificados para os cargos
públicos, obediência às chefias, os governantes chineses têm adoptado uma
postura confucionista. Disso exemplo é mote adoptado por Deng Xiaoping de
“procurar a verdade dos factos” (实事求是), a que
Jiang Zemin (1926 - ) veio juntar o “adequar-se aos tempos atuais” (与时俱进), o tem
bases profundamente confucionistas, de um conhecimento prático que se atualiza constantemente.
As influências confucionistas na ideologia chinesa atual, adaptada à realidade
chinesa, o dito socialismo de características chinesas, verifica-se não somente
na forma, mas também no conteúdo profundo. Ideias como “Sociedade Comodamente Acomodada”
e “Sociedade Comunitária” encontram raízes no Livro dos Ritos, onde a xiaokang
shehui e a Grande Harmonia são descritas. Trata-se afinal do que dizia
Jean-Louis Rocca, que "o confucionismo representa a única filosofia
política chinesa." Talvez pela existência milenar de ideais políticos
semelhantes, tenha a ideologia comunista sido tão bem aceite pelo povo chinês.
Por isso, é pouco provável que os princípios confucionistas se apaguem da
memória coletiva chinesa e mesmo asiática, como base dos “valores asiáticos”.
No que se refere ao caso da China continental, com uma visão profundamente
utilitária, parece certo que enquanto os princípios confucionistas servirem os
propósitos do governo, no seu rumo de promoção do desenvolvimento económico,
não serão esquecidos e continuarão mesmo a ser promovidos pelas entidades
oficiais, qual harmoniosa inter-relação de yin e yang. Resta-nos saber até
quando esta situação se manterá. Livro Os Princípios Confucionistas da
Ideologia Chinesa Atual. Abraço. Davi
quinta-feira, 2 de maio de 2019
III. OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA IDEOLOGIA CHINESA ATUAL
Confucionismo.
Texto de Jacques Gernet (1921-2018). III. OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA
IDEOLOGIA CHINESA ATUAL. A VIDA. Natural do Reino de Zhao (actual província de
Shanxi), Xunzi (荀子) teve uma vida breve (298 AC238). Quando nasceu,
Mêncio era já um homem maduro. Viajou bastante pelo seu reino, assim como pelos
reinos vizinhos de Yan, Chu, Qin e Qi. Apesar de não ter sido reconhecido
enquanto esteve no reino de Yan, durante o reinado de Gui, foi nomeado três
vezes decano da Academia de Ji Xia, em Qi, um dos reinos centrais de tradição
ritualista ligada a Confúcio e Mêncio (372 AC 289). Esta academia foi fundada
pela vontade dos soberanos preocupados em aliar o prestígio cultural à sua
política de hegemonia. Era o caso do soberano Xuan de Qi que Mêncio conheceu
pessoalmente e que encorajava os letrados de todos os municípios a vir a Jixia,
oferecendo-lhes todas as comodidades para prosseguir os seus estudos e expor as
suas doutrinas. Isto tornou aquela academia num dos principais focos de
atividade cultural e ponto de reunião dos grandes pensadores da época nos
começos do século III AC. Foi lá que Xunzi teve a oportunidade de se destacar
como um polémico defensor da causa confucionista face aos outros pensadores. É
aqui que o reconhecimento do poder político do prestígio moral e intelectual
dos letrados atinge o auge, os detentores do saber passam a ser chamados de
"mestres" (先生). No reino de Zhao discutiu
assuntos militares com o Duque de Linwu perante o Imperador Xiao Cheng e, no
reino de Qin, fez investigações acerca das políticas adoptadas. Finalmente, em
255, serviu o duque Chun Sheng no reino de Chu como alto magistrado de Lanling
(na actual província de Shandong), onde permaneceu até ao fim da sua vida. Foi
também ali que compôs o seu livro "Xunzi", com os seus discípulos.
"O Livro de Xunzi" é constituído por 32 capítulos, cada um formando
um tratado teórico sobre um assunto preciso. Trata-se do único livro da
antiguidade chinesa, com exceção do "Han Feizi", com um discurso
elaborado e construtivo. Apesar da sua importância, não foi considerado um
Clássico. Embora não tivesse tido a oportunidade de assistir à ascensão
crescente do reino de Qin através da força e dos meios militares, triunfando
sobre todos os outros reinos e fundando a Dinastia Qin, parece que Xunzi não
nutriu nenhuma admiração pela eficácia do seu governo. Até porque este se
baseava em princípios legistas, contrários à doutrina confucionista. Aliás, na
senda do confucionismo, Xunzi não acreditava que o poder militar de Qin fosse
suficiente para se impor ao povo, devendo este basear-se antes na humanidade do
soberano, tal como já o haviam defendido Confúcio e Mêncio. Na realidade, a
repressiva Dinastia Qin (221-206 a.C.) não haveria de durar muito tempo, por
contraposição à anterior Dinastia Zhou, a mais longa de toda a História da
China. 2.3.2. A CONCEPÇÃO DO HOMEM. Contrapondo-se a Mêncio, Xunzi defendia que
a natureza humana é um complexo de tendências anárquicas e irracionais, sendo o
homem mau por natureza. Somente através do contacto com os outros indivíduos,
poderá o homem tornar-se sociável e civilizado. Segundo Xunzi, na origem toda a
humanidade era luta pela posse dos bens, o que gerava desordem. Trata-se de uma
teoria pessimista naturalista, semelhante à que Thomas Hobbes (1588-1679)
haveria de desenvolver cerca de 20 séculos mais tarde. Defendendo que "a
sociedade é a grande educadora dos indivíduos", a bondade torna-se em algo
artificial, adquirida pelo treino. Para Xunzi, as qualidades inatas como o amor
ao lucro, o ódio e a inveja, os desejos sensuais, não incluem nenhuma
predisposição da natureza humana para a moralidade. O espírito dos homens é
obscurecido por preconceitos, os quais só serão eliminados através da Razão, do
dao (道), através da sua capacidade de inteligência e
discernimento, o zhi (智). Ora, é a inteligência através
do coração/espírito, o xin (心), que julga se uma ação levada a
cabo para satisfazer um desejo é admissível moralmente ou é somente materialmente
possível. Só quando agimos de acordo com a Razão haverá ordem social. Por
contraposição a Mêncio, Xunzi vê a bondade não na natureza do homem, mas na sua
cultura: "A natureza é a raiz e o original, a matéria bruta; o fabricado é
o que é desenvolvido até ao desabrochar pela cultura e pelos ritos. Sem a
natureza, o fabricado não terá nenhum suporte para trabalhar, sem o fabricado,
a natureza não teria nenhum meio de se aperfeiçoar."22 diz Xunzi. Como
tal, a moralidade é puramente «fabricada», totalmente exterior à natureza
humana. Para Xunzi, individual ou socialmente, a principal virtude a ser
cultivada devia ser o li (礼), a conformidade com as normas
rituais. Só através do respeito pelas práticas rituais instituídas, conseguirá
o Homem atingir o equilíbrio individual, e também social, entre vícios e
virtudes. Isto porque os ritos são um reflexo da ordem cósmica. Apesar dos
ritos não serem naturais, têm um valor humano fundamental, trazendo o homem
para a harmonia social. Explica Xunzi: "Os homens têm desejos por
natureza. Quando os desejos não são satisfeitos, eles não têm outra solução
senão procurá-la. Quando esta busca de satisfação não tem medida nem limite
apropriado, só pode haver discórdia. Quando há discórdia, haverá desordem;
quando há desordem, haverá pobreza. Os antigos reis-sábios odiavam esta
confusão, pelo que estabeleceram a regra dos ritos como forma de estabelecer
limites à confusão, para educar e nutrir os desejos dos homens, para dar
oportunidade à sua busca de satisfação, para que os desejos nunca se
extinguissem pelas coisas, nem que as coisas fossem utilizadas pelos desejos;
que ambos continuassem a coexistir. É aqui que a regra dos ritos surge."
Esta concepção é característica de uma época em que o território chinês se
encontrava em convulsão intra reinos e inter-reinos, cada um lutando pelo
domínio interno. A CONCEPÇÃO DO
SOBERANO. Xunzi dividiu os homens em três categorias: os homens superiores, que
podem tornar-se soberanos ou duques; os homens inferiores, que podem tornar-se
em nobres ou funcionários públicos; e os homens comuns que podem tornar-se em
trabalhadores, agricultores ou comerciantes. Mas esta distinção baseava-se, não
em qualquer ordem preestabelecida de carácter divino ou nobiliárquico, mas sim
pelo talento. Ora, os homens superiores deviam respeitar os ritos (礼),
o que assume um cariz mais carregado do que nos confucionistas anteriores.
Assim, se os descendentes dos príncipes, nobres e ministros não agissem de
acordo com os ritos, deviam ser "despromovidos" para a classe dos
homens comuns, enquanto que se a conduta dos descendentes dos homens comuns
estivesse de acordo com os ritos, estes deviam ser promovidos a ministros ou
magistrados. Xunzi considerava os ritos, ligados diretamente às leis, como o
elemento essencial unificador das diversas classes. Quem se conformasse com a
legislação devia ser considerado bom e devia ser tratado de acordo com os
ritos, caso contrário devia ser aplicado um castigo. Por isso, Xunzi é
considerado como o fundador da doutrina da autocracia dos tempos feudais. Um
soberano que dominasse os ritos teria nas suas mãos a absoluta autoridade.
Estas teorias vão ser desenvolvidas pelos seus discípulos Han Fei e Li Si, que
irão ter um papel determinante na fundação do absolutismo na Dinastia Qin e no
desenvolvimento da doutrina legista, que acaba por afastar estas concepções
relativas às leis dos seus fundamentos. Um dos melhores exemplos que os
soberanos podiam encontrar era no tempo dos imperadores das Dinastias Xia (2100
AC 1600), Shang (1600 AC 1100) e Zhou, com especial referência para os desta
última. O seguir-se os últimos soberanos incluía em Xunzi mais do que um
regresso aos antigos, mas mais uma certa inovação como forma de fortalecer as
novas instituições feudais da classe dos proprietários. Isto porque os antigos
soberanos tinham inventado os princípios morais que impediam os conflitos. Por
isso, havia que estudar os Clássicos, mas não os filósofos, com exceção de
Confúcio (551 ac 479). OS NEO-CONFUCIONISTAS Apesar do Confucionismo ainda de
forma incipiente ter surgido já durante o período do Reinos Combatentes e
apesar da grande receptividade de que foi alvo entre o povo chinês,
especialmente entre a classe letrada, não seria logo adoptado como doutrina
oficial durante o período da Dinastia que então emergiu, a celebre mas breve
Dinastia Qin (221 AC 206), unificadora do território chinês. Na realidade, a
forma de governo adoptada pelo Imperador Qin Shihuang não se coadunava com os
princípios confucionistas. O governo déspota do Imperador Qin coadunava-se mais
com os princípios legistas, pelo que adotou o legismo como doutrina oficial.
Foi necessário o aparecimento de uma outra dinastia, a Han (206 AC 220 DC), com
um maior desenvolvimento cultural e uma maior abertura, para que o confucionismo
se impusesse como doutrina do Estado. A partir de então, apesar de alguns
soberanos terem privilegiado mais outras formas de pensamento, nomeadamente
religiosas, nunca mais os princípios confucionistas deixaram de ser adoptados
pela sociedade chinesa, qualquer que fosse a sua origem. Neste sentido, o
confucionismo serviu como verdadeiro cimento aglutinador da sociedade chinesa,
na medida em que muitos dos seus princípios continuaram a reger por muito tempo
até à atualidade os relacionamentos humanos e mesmo a forma de governar. Mais
tarde, mais precisamente durante a Dinastia Song (960-1279), deu-se um
ressurgimento da doutrina confucionista. De 1069 a 1073, Wang Anshi (王安石,(1021-1086) preconizou uma série de duras reformas em
território chinês. As suas reformas eram de natureza diversa (economia, fisco,
exércitos e administração) e procuravam reforçar a autoridade do Estado em
detrimento dos interesses privados. Ora, estas provocaram algum
descontentamento, pelo que alguns intelectuais da época procuram formas de
pensamento alternativas, uma das quais foi desencantar as antigas concepções
confucionistas, reformando e trazendo uma lufada de ar fresco a esta filosofia,
adaptando-a à nova realidade. Este movimento ficou conhecido como o
neo-confucionismo (lixue, 理学). Apesar destes autores se
oporem às concepções tauísta e budista, na realidade também incluíram alguns
dos seus princípios na nova perspectiva emergente. Foi, aliás, esta linha de
pensamento que seguiu Han Yu (768-824), ainda durante a Dinastia Tang
(618-907), procurando desenvolver o confucionismo tradicional, especialmente o
de Mêncio, adaptando-o às novas condições sociais. HAN YU Han Yu (韩愈, 768-824) nasceu em Nayang (na província de Henan),
tendo ficado conhecido como o fundador do movimento literário que adoptava como
modelo os escritos em estilo clássico, assim como o preconizador do
neo-confucionismo. Viveu durante a Dinastia Tang, quando o budismo teve um
grande desenvolvimento na sociedade chinesa e também noutros países da Ásia,
nomeadamente na Coreia e no Japão. Contudo, na sequência do apoio que teve
entre a Corte, esta religião foi em parte responsável pelo aumento das despesas
públicas, devido ao capital investido na construção de templos e à riqueza
crescentemente acumulada pelos monges budistas nos seus templos. Estas
condições originaram, em meados da Dinastia Tang, uma campanha anti budista, na
qual Han Yu teve um papel de liderança. Ora, foi a partir do desenvolvimento da
ortodoxia confucionista, que Han Yu desenvolveu esta campanha anti budista. Os
ânimos elevaram-se quando, em 819, o Imperador Xianzong preparava a chamada
"cerimónia da relíquia do osso de Buda", o que causou alguma sensação
dentro e fora da Corte. Han Yu logo apresentou ao Imperador um "Memorando
contra as bem-vindas à relíquia de Buda", ao que este respondeu
expulsando-o da capital. Han Yu foi viver para Chaozhou (na província de Cantão
- Guandong), onde persistiu na sua posição anti-budista. Começou, também, a
desenvolver a ortodoxia confucionista. Tal como referido no "Grande
Aprendizado", defendia que a única forma de pacificar o mundo era através
da cultivação moral do eu individual, e não isolar do mundo num estado de
inatividade como ensinavam os budistas. No seu "Tratado sobre o Dao",
desenvolveu a noção de benevolência e retidão, sublinhando que as falhas dos
budistas e dos tauístas tinham a ver com a violação do modelo normal da vida,
tendendo a levar as pessoas a afastarem-se completamente da sociedade e do
Estado com todo o código ético que lhes é indispensável. Ainda em relação às
qualidades pessoais, Han Yu defendia que os homens deviam estar dotados, não só
de natureza humana, mas também de emoções, as quais se originariam do contato
da natureza humana com os objetos exteriores. Na medida em que todas as pessoas
possuíam as cinco virtudes em diferentes graus de desenvolvimento,
individualiza três níveis da natureza humana: superior, médio e inferior. Já no
que se refere às emoções humanas, estas são sete: prazer, raiva, tristeza,
felicidade, afeto, ressentimento e desejo. Da mesma forma, as pessoas possuem
estas sete emoções em diferentes graus de desenvolvimento, o que as coloca em
três níveis: inferior, médio e superior. A natureza superior é boa; a média
indeterminada, corrigível pela educação ou susceptível de se degradar; a
natureza inferior é má. Uma vez atribuídos estes graus, estes são imutáveis,
sendo que a educação só poderia ser aplicada para aqueles que se encontravam no
nível médio. Esta teoria afasta-o da concepção de Mêncio. Na História, Hanyu
salientava o papel determinante dos sábios, a cujas normas todas as pessoas se
deviam sujeitar. Trata-se da identificação do Dao com o Céu, que será
desenvolvido posteriormente pela Escola Neo-confucionista Cheng-Zhu (程朱),
dos irmãos Cheng e de Zhu Xi. ZHOU DUNYI Tal como referido anteriormente, o
neo-confucionismo apareceu inicialmente como oposição aos "Novos
Ensinamentos" de Wang Anshi” (1021-1086). Um dos principais intelectuais
que se opôs a estas reformas foi Sima Guang ( 司马光, 1019-1086).
No seguimento político de Sima Guang apareceram Zhou Dunyi (周敦颐), Shao Yong (邵雍) e os irmãos Cheng (程). Intelectualmente, estes seguiam as ideias da Antiga
Escola Confucionista de Zi Si-Mêncio. Apesar de, aparentemente estes repudiarem
o Budismo e o Tauísmo, na realidade incluíam alguns dos seus ensinamentos na
sua teoria. Nas suas considerações filosóficas, os neo-confucionistas estavam
essencialmente preocupados com as questões do Princípio, da mente, da natureza
humana, etc. Na medida em que surgiram diversas concepções destas questões,
geralmente individualiza-se esta filosofia em três escolas: a Escola do
idealismo objectivo, liderada por Cheng Yi (程颐)e Zhu Xi (朱熹); a Escola do idealismo subjetivo, liderada por Lu
Jiuyuan (陆九渊) e Wang Ming (王明); e a Escola do naturalismo e
do utilitarismo liderada por Zhang Zai (张载), Chen Liang (陈亮) e Ye Shi (页适). Porque o
objectivo do nosso estudo não é analisar a escola neo-confucionista
profundamente, procuraremos fazer uma análise geral sobre as contribuições dos
filósofos neo-confucionistas mais importantes para a evolução do confucionismo.
Começaremos, então, por Zhou Dunyi. Zhou Dunyi (周敦颐),1016-1073) foi o fundador do neo-confucionismo
propriamente dito. Defendia que a origem do universo era o Princípio Supremo,
que não tinha som, nem forma, nem princípio, nem fim. Seria deste Princípio
Supremo que originaram o Yin (阴) e o Yang (阳),
e da combinação destes surgiram os Cinco elementos, dos quais, por sua vez, se
originou o mundo com todos os seus elementos. Zhou reduziu, deste modo, todas
as existências a uma entidade indescritível em espiral, que contém todas as
implicações da Via, o Dao (道) ou Princípio, o Li (理).
A santidade é o objetivo último de todas as considerações cosmológicas que
estão ligadas ao domínio humano e com uma preocupação moral tipicamente
confucionista. Para Zhou, de todos os seres, o homem era o mais receptivo ao
Princípio Supremo. A base do Princípio Supremo é a honestidade perfeita. Tal
como Mêncio, Zhou também defendia que todos os seres humanos nasciam com
bondade inata, sendo através do seu contato com o mundo exterior que o mal
aparece, o que provoca a diferenciação das pessoas. Às pessoas com natureza má,
Zhou recomenda que cultivem a sua honestidade perfeita como forma de
restabelecer a bondade inata, tornando-se sábias. Por isso, a santidade, que
pode ser alcançada por qualquer pessoa, só o será quando houver uma perfeita
adequação entre o Homem e o Céu-Terra. Trata-se da prática moral fundada sobre
o princípio celeste (天理), como forma de alcançar o
equilíbrio perfeito entre a vida interior e a vida exterior. 2.4.3. IRMÃOS SU E
IRMÃOS CHENG. Em meados do séc. XI, apareceu uma nova geração formada na senda
dos homens de acção de inícios dos Song. É o caso dos dois irmãos Su, que
passaram nos exames imperiais, e também dos dois irmãos Cheng, descendentes de
uma família de letrados-burocratas do Norte. Enquanto que os irmãos Su (苏)foram
colocados na Escola de Ouyang Xiu (欧阳 修), Cheng Yi (程颐,1033-1107) e Cheng Hao (程颢,1032-1085)
foram enviados ainda jovens para junto de Zhou Dunyi para aprenderem com ele.
Filhos de um letrado autodidacta, os irmãos Su, Su Shi (苏轼,1037-1101) e Su Che (苏撤,1039-1112) candidataram-se aos exames imperiais e ambos foram bem
sucedidos. Contudo, foi o irmão mais velho que sempre se destacou. Aliás, a sua
poesia é bastante conhecida na China. Su Shi começou por comentar o "Livro
das Mutações" (易经), dos quais comentários se poderão retirar algumas
considerações para construir a sua forma de pensar. Segundo ele, os homens
possuem em si próprios a retidão, o que vai de encontro às concepções de Mêncio
sobre a bondade inata. É partidário de uma concepção culturalista do homem, do
homem de cultura (wen ,
文 ). Inclui ainda no seu pensamento algumas
considerações tauístas de Zhuangzi (庄子), quando defende que o sábio é
aquele que encontra o acesso ao princípio das coisas, sublinhando a unidade do
mundo, a fusão com a Origem, que o que se mantém sempre autêntico é a natureza.
Já no que se refere aos irmãos Cheng, também seguiram rumos diferentes. Assim
enquanto Cheng Hao (程颢)se dedicou ao estudo do tauísmo e do budismo, antes de
se dedicar ao dao confucionista, já o seu irmão estudou na capital, junto de Hu
Yuan. Posteriormente, devido aos diferentes resultados que obtiveram nos exames
imperiais, os irmãos Cheng seguiram diferentes percursos. Assim, enquanto Cheng
Hão foi bem sucedido e enveredou por uma carreira oficial, o seu irmão reprovou
e retirou-se. Mais tarde, haveriam de encontrar-se em Luoyang, onde se dedicam
ao ensino e à reflexão filosófica sobre o dao (道学), cada um
fundando a sua escola. Depois da morte de seu irmão, Cheng Yi (程颐)tomou para si a missão de fazer reviver o dao confucionista pois
defendia que desde o desaparecimento de Mêncio, a doutrina confucionista nunca
mais havia sido transmitida. Cheng Yi defende as ideias constantes na
"Doutrina do Meio" de que, sendo o decreto do Céu a natureza, é
tarefa do homem alcançar o seu destino moral de acordo com o dao celeste.
Enquanto seu irmão era mais lírico, exprimindo-se muitas vezes através de
poemas, Cheng Yi é mais rigoroso nas suas considerações, o que imprime um
carácter mais exigente à escola Cheng-Zhu (程朱). Neste
contexto, Cheng Yi desenvolve o conceito de li (理)como
princípio normativo, que engloba toda a totalidade, governando tanto o mundo
natural como a sociedade humana, não tendo início nem fim. Todas as coisas vêm
à existência através deste Princípio dito Divino,sendo a sua
tarefa definir a função que cada coisa deve ter na ordem natural, como forma de
assegurar a harmonia moral. E este Princípio mantém-se por si só em todos os
tempos e em todos os lugares, no mundo natural e no código ético da vida
social. E como podem as pessoas aprender este Princípio Divino? Cheng Yi
responde que é através da manutenção da mente num estado de honestidade e de
veneração, enquanto que Cheng Hao defendia que seria através da investigação
das coisas, através de um processo em que o Princípio era restaurado e os
desejos humanos expulsos. Também aqui, os irmãos Cheng adoptam a teoria dos
três níveis da natureza humana de Han Yu. Cheng Yi conclui que o exame cuidado
do Princípio, o preenchimento da natureza humana e a realização da vocação,
todas os três deviam ser conseguidos em conjunto. ZHU XI E LU JIUYUAN. Nascido
em Wuyuan (na Província de Anhui), Zhu Xi (朱熹,1130-1200)
cresceu em Fujian, pelo que a sua escola ficou conhecida pela Escola de Fujian.
Discípulo da quarta geração de Cheng Yi, Zhu Xi era a figura mais proeminente
do neo-confucionismo do seu tempo, tendo tido o papel mais importante na
ideologia dos tempos posteriores. Como tal, alguns dos seus seguidores chegaram
a compará-lo a Confúcio. Zhu viveu numa altura em que a parte Norte do país
tinha caído às mãos dos Jin, pelo que os Song deslocaram a capital mais para
Sul - ficando assim conhecidos por Song do Sul - não lhes restando outra
solução senão apaziguá- -los ou entrar em guerra com eles. Para Zhu Xi, a
solução seria melhorar a situação política através da expulsão dos bárbaros.
Depois de passar brilhantemente nos exames imperiais, Zhu Xi enveredou por uma
carreira burocrática, com responsabilidades nas escolas, bibliotecas e ritos da
sua região de origem. Em 1179, como governador de Nankang, na província de
Jiangxi, Zhu Xi dedicou-se completamente à sua missão educativa, fazendo
palestras e restabelecendo a “Academia da Gruta do Veado Branco”, que
desempenharia um papel de primeiro plano no desenvolvimento das academias
privadas e da divulgação da daoxue (道学). Compilou e comentou, ainda,
os "Cinco Clássicos" (五经) e os "Quatro Livros" (四书), procurando
reencontrar o espírito original de Confúcio, do qual Mêncio é designado como o
seu herdeiro e porta-voz. No que se refere à sua teoria filosófica, Zhu Xi
inclui elementos das teorias do Princípio Supremo de Zhou Dunyi e de Cheng Yi.
Defendia que o Supremo Princípio era constituído pelo Princípio, o li (理) e
pela Energia, o qi (气), sendo o primeiro antecedente do último. Assim, o
Princípio Supremo é a origem e ao mesmo tempo a síntese de todos os outros
princípios do mundo, é um princípio transcendente e perfeito, enquanto que os
outros são princípios concretos que regulam objetos concretos do mundo. Esta
teoria tem origens numa seita budista que ensina que as variedades estão
compreendidas na entidade, se bem que também se aproxima da noção de dao
tauísta. À semelhança do que ocorre com todos os outros objetos do mundo,
também os homens são manifestações do Princípio. Como a natureza humana vem
diretamente do Princípio Divino, esta é perfeita. Contudo, com o relacionamento
com outros seres, também a "natureza humana pelo temperamento", como
Zhu Xi define, pode transformar-se em má ou boa. A inspiração menciana,
relativo à Mêncio, é aqui clara. Como tinham um temperamento mais calmo e
inocente, os sábios eram mais dificilmente afetados pela maldade, enquanto que
em relação às pessoas comuns se passava exatamente o contrário. Zhu Xi propunha
duas formas através das quais o pensamento podia ser remodelado: o estudo
exaustivo do Princípio e manutenção do fervor. Zhu Xi desenvolveu também a
interpretação da História, defendendo que o seu curso é determinado pelo
pensamento dos soberanos. Enquanto que os antigos reis-sábios praticavam o
Princípio Divino, os soberanos dos tempos posteriores praticavam os desejos
humanos, pelo que os primeiros reinavam de uma forma real enquanto que os
últimos faziam-no de uma forma coerciva. A teoria de Zhu Xi encontrou oposição
por parte de Lu Jiuyuan (陆九渊,1139-1193)
que, embora também admitindo a existência de um Princípio como a entidade do
mundo, defendia que este se encontrava dentro da mente e não fora dela como
preconizava Zhu Xi. Por outro lado, enquanto Zhu Xi preconizava a aproximação
ao Princípio através do estudo, Lu recomendava a procura de dentro para fora da
mente. Enquanto a doutrina de Zhu Xi ficou conhecida como a Escola
Racionalista, as ideias de Lu Jiuyuan foram mais tarde desenvolvidas na Escola
Idealista de Wang Yangming durante a Dinastia Ming (1368-1644). Aliás, a partir
de meados do séc. XIII, o pensamento de Zhu Xi ascende à categoria de ortodoxia
e começa a difundir-se por todo o mundo sinizado de então, nomeadamente pela
Coreia e Japão. Através de um decreto de 1313 do Imperador Renzong da Dinastia
Yuan ou Mongol (1271-1368), os comentários de Zhu Xi aos "Clássicos"
e aos "Quatro Livros" são incluídos no programa dos exames imperiais. Livro Os Princípios Confucionistas da Ideologia Chinesa Atual. Abraço. Davi
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