terça-feira, 7 de maio de 2019

MAHABHARATA - INTRODUÇÃO


Mahabharata. Livro Mahabharata Recontado por Krishna Dharma (1955 - ). MAHABHARATA – INTRODUÇÃO.    APRESENTAÇÃO – O MAHABHARATA É, ORIGINALMENTE, uma imensa obra de cerca de 100 mil versos em sânscrito. Profundamente reverenciado pelos indianos como um texto sagrado, forma a base do pensamento religioso e filosófico hindu há milhares de anos. Por muito tempo este texto precioso esteve inacessível aos leitores ocidentais, pois o complexo idioma sânscrito não permitia a tradução, pelo menos não uma de leitura fácil em inglês. Portanto, Krishna Dharma nos prestou um serviço valioso ao condensar o clássico numa história encantadora, à semelhança de uma novela, embora mantendo-a fiel ao original. O Mahabharata simplesmente trata de tudo o que se possa imaginar, de romance e intrigas a política, astrologia e artes marciais. Sua narrativa central enfoca o cruel conflito que houve entre os irmãos pândavas, de origem divina, e seus primos kauravas. Deuses, sábios, reis e heróis participam da disputa, que culmina numa grande guerra que aniquila milhões de vidas. Tudo é descrito como parte do plano cósmico de krishna – e aqui deve ser esclarecido que Krishna, que também desempenha um papel central no texto, é visto e apresentado como o Ser Supremo. Diferentemente de muitos tradutores, Krishna Dharma não minimiza esse ponto fundamental. Assim, sente-se tranquilamente e entre no mundo do Mahabharata – um mundo que, sob muitos aspectos, não é diferente do nosso, já que nos faz confrontar sentimentos e verdades universais. O texto é como um espelho no qual podemos vislumbrar nossas fragilidades humanas e, também, nossas mais altas aspirações. Ele ilumina nosso lado obscuro e nos eleva à luz da consciência de Deus. Trata do egoísmo, do engano, da desonra e do ateísmo, mas também mostra o caminho para chegarmos ao altruísmo, à verdade, à honra e à essência da benção da fé. Embora possamos nos sentir distantes dos personagens do Mahabharata no tempo e espaço, o que aprendemos deles e com eles é tão significativo hoje quanto o foi, na Índia, há 5 mil anos. Na verdade, devido à sua aplicabilidade universal, o Mahabharata é uma das tradições vivas mais antigas do mundo, que pode ser reinterpretada geração após geração, revitalizando-se nas vidas das pessoas que existiram em qualquer em qualquer época da história mundial, e centenas de milhões de hindus contemporâneos são testemunhas desse fato. Talvez um prova evidente de que o Mahabharata continua a falar às pessoas, milhares de anos depois de seu aparecimento, seja o sucesso da adaptação do épico em filme e peça teatral por Peter Brook (1925-  ), no início da década de 1990. O Mahabharata de Brook é adaptado à era moderna. Outro exemplo seria o trabalho de Steven Pressfield (1943-  ), que, em 1995, publicou uma novela chamada The Legend Of Bagger Vance (A Lenda de Bagger Vance), na qual apresenta a história do Mahabharata num campo de golfe. Pelo menos, foi isso que fez na seção que trata do Bhagavad Gita. O trabalho de Krishna Dharma é uma contribuição importante a essa lista de Mahabharatas modernos. Seu livro faz com que olhemos dentro de nossos corações, descobrindo se o Mahabharata desempenha ou não algum papel no drama de nossas vidas. Steven J. Rosen (1955-  ). Texto de Krishna Dharma (1955-  ). NOTA DO AUTOR. DEPOIS DE FALAR com vários revisores e leitores de meus livros, soube que o Mahabharata é classificado como mitologia. Embora seja reconhecida a validade de seus ensinamentos éticos e espirituais, sua história é tida como pouco mais que um veículo fictício para sua apresentação. Porém, para milhões de outras pessoas, o Mahabharata é muito mais que mera ficção. Os seguidores das Escrituras Védicas consideram-no o relato de fatos históricos e parte dos Vedas. Ele inclui o Bhagavad Gita, que, por si só, é um tratado espiritual de cunho elevadíssimo que expõe a teologia védica essencial. O Mahabharata narra, basicamente, os eventos que cercam a narrativa do Bhagavad Gita, sendo, por isso, um texto importante dentro do cânone védico. Entretanto, se não pudermos admitir a história do Mahabharata como factual, sua credibilidade espiritual, poderá ser bastante diminuída. Acredito que isso seria uma vergonha, já que, para mim, tanto a beleza como o valor do Mahabharata residem justamente em sua espiritualidade. Reconheço os problemas que essa questão suscita. Há muitos elementos no Mahabharata que um leitor moderno achará difícil aceitar deuses, demônios, poderes místicos, guerreiros com habilidades super-humanas etc. Sem dúvida, há muitas coisas que estão além da experiência da maioria, se não de todos nós. Então, como podem elas ser admitidas por qualquer pessoa razoável? Em resposta, gostaria de apresentar algumas considerações do ponto de vista de um seguidor da tradição védica. Antes de fazê-lo, entretanto, tenho de levar em conta que, depois de milhares de anos, é provável que alguns dos pormenores do Mahabharata já não sejam inteiramente precisos. Existem agora numerosas versões, e muitas delas foram preservadas principalmente por meio de tradições orais, de forma que variações não devem surpreender. Talvez, aqui e ali, alguns poetas criativos tenham adornado o texto, e talvez o verso singular do texto original tenha se perdido. Mas, de modo geral, a narrativa principal e os pormenores permanecem e são comuns à maioria das versões. Foram produzidas as chamadas “edições críticas do texto” que incluem apenas os versos constantes em todas as versões, e essas edições contam basicamente a mesma história que adaptei neste livro. Então, como podemos acreditar na veracidade dessa história? Consideremos, primeiro, a questão da epistemologia, isto é, de como chegamos ao conhecimento das coisas. Quando nossa razão é atraída para fora de seus limites, em geral reagimos de duas maneiras: ou rejeitamos a nova informação que desafia nossos conceitos, ou os submetemos a uma checagem. “Em que acredito, e por que acredito? Será que aquilo que acolho com verdadeiro é factual? Como foi que adquiri meu conhecimento?” Atualmente dá-se grande importância ao método empírico: ver para crer. Na maioria dos casos, a ciência trabalha dessa forma – por meio do processo indutivo da compreensão, que depende do fenômeno observado. Porém esse não é o método mais confiável. Nossos sentidos, nos quais nos baseamos para realizar observações, podem ser facilmente enganados. Vemos o Sol, no céu, como um pequeno disco, mas na realidade ele é um astro milhares de vezes maior do que a Terra. E nossos sentido não percebem essa verdade. Além do problema de os sentidos falharem, o que faz com que nossa informação sobre o Universo se torne questionável, também lutamos para traduzir essa informação com clareza. Os cientistas sempre buscaram sofregamente a verdade, o entendimento mais profundo e mais completo do que eles veem. Novas teorias sempre surgem, e as velhas são desafiadas. Muito daquilo em que se acreditava há alguns séculos hoje é rejeitado. Talvez até mesmo o que aprendemos na escola, quando crianças, esteja agora superado por um entendimento mais completo. Contudo, ao longo da construção de nosso conhecimento há um processo que nunca falha: o de ouvir uma autoridade que já conhece a verdade. É assim que a maioria de nós aprende qualquer coisa. Ouvimos nossos pais, professores, rádio, tevê; lemos livros, jornais e muito mais. Devemos ter um pouco de fé, nessas fontes, mas o que acontece em última análise é que aquilo que ouvimos e lemos forma nosso sistema de crenças e compreensão. A maioria das coisas que sabemos, ou que pensamos saber, foi assimilada aos poucos de alguma autoridade. Dizemos que o Sol é um astro que fica a milhões de milhas da Terra porque temos fé, acreditamos nos cientistas que nos afirmam isso, e não porque fomos ao Sol e medimos a distância até lá nós mesmos. É claro que consideramos um fato como verdadeiro quando este se confirma por nossa experiência direta. Esse princípio se aplica até mesmo nos casos em que não compreendemos completamente um fenômeno. Deixem-me explicar com um exemplo: uso regularmente e-mail e a internet. Porém, a tecnologia de ambos está muito além de minha compreensão. Não tenho tempo nem inclinação, talvez nem mesmo habilidade, para aprender informática. No entanto, me contaram que, quando uma mensagem de e-mail é enviada, é partida em pequenos pedaços de informação que são, então, transmitidos a seus destino por várias grades eletrônicas. Misturados e dispersos por toda a vasta rede de informação, esses bits finalmente se juntam, outra vez, reconstituindo a mensagem original. Não tenho a menor ideia de como isso acontece; parece-me quase um milagre, mas sei que as letras que envio são recebidas, intactas, em seu destino. Os sábios das verdades cibernéticas me explicaram a tecnologia que desenvolveram e, porque vejo que ela funciona, eu a aceito, apesar de sentir-me desconcertado. Do mesmo modo, os Vedas lidam com outro tipo de tecnologia. Basicamente, essa tecnologia pode ser descrita como a ciência dos mantras. Quando se entoam determinados mantras em sânscrito. Invocam-se poderes superiores. As vibrações dos sons dos mantras, quando adequadamente entoados por uma pessoa qualificada, possuem uma potência intrínseca que atraem seres etéreos, como deuses, gandarvas e outros. Esses entes super naturais podem, então, a nosso pedido, investir-nos de um poder que nos permita executar feitos extraordinários como os descritos no Mahabharata. Nesse ponto, contudo, tenho de ser honesto, enfatizando que não vivi nenhuma experiência como a que menciono acima. Nunca me deparei com deus algum, nem com qualquer arma celestial sendo usada; tampouco possuo poderes místicos. Entretanto, tenho experiência pessoal com uma parte do Mahabharata – o Bhagavad Gita. Esse livro também descreve uma ciência; na verdade, a ciência da realização espiritual do homem, em que ele é enviado por Deus. Seguindo as orientações científicas contidas no Bhagavad Gita – que, aliás, também inclui mantras – pude experimentar seus resultados práticos. Percebo que minha mente se tornou mais pacífica, meus desejos materiais diminuíram e que meu entendimento sobre o conhecimento espiritual ali apresentado se desenvolve gradualmente, permitindo-me entender sozinho as verdades contidas naquele texto. Como exemplifiquei com o caso da informática, posso não compreender totalmente como ou por que tais coisas se dão. Mas os sábios das verdades espirituais já me explicaram isso e, com base em minha experiência pessoal, acredito no que eles me disseram. Constatando que a parte mais importante do Mahabharata é verificável por percepção direta, não tenho razões para duvidar do teor de outras passagens ainda não verificadas por minha experiência. Trata-se de julgar uma coisa por seus resultados. Se aceitarmos o Bhagavad Gita e o Mahabharata com verdadeiros e tentarmos seguir suas orientações, alcançaremos resultados, como já mencionei. Por outro lado, se seguirmos outras autoridades, que depreciam os Vedas – jornais, tevê, cientistas ateus etc – obteremos resultados bem diferentes: nossos desejos por prazeres materiais crescerão ilimitadamente, e nunca serão satisfeitos; nos tornaremos cada vez mais perturbados, frustrados, deprimidos e fracassados em nossas vidas. Portanto, este é o teor do Mahabharata: se o Bhagavad Gita é o manual de orientação prática, o Mahabharata é o passo a passo ilustrado que mostra, inclusive, os passos que não devem ser dados. Vejamos, por exemplo, os pandavas, que se esforçam por seguir as instruções de krishna dadas no Bhagava Gita: embora passem por dificuldades, permanecem fiéis àquelas orientações e, ao final, emergem vitoriosos e abençoados pela boa fortuna; por outro lado, Duriodhana e os irmãos ignoram os ensinamentos de Krishna e optam por seguir seus próprios desejos, encontrando assim a ruína. Visto pela perspectiva da fé, o Mahabharata é um trabalho profundamente iluminador, que pode ser lido repetidamente. Em suas páginas pode-se descobrir várias camadas de significados profundo. É claro que está é uma versão muito sintetizada, mas espero que, ao conhece-la, você se inspire para ler o livro mais extenso que escrevi, assim como o texto completo do Bhagavad Gita, que não foi incluído neste livro. Recomendo o Bhagava Gita como ele é, escrito por A. C. Bhaktivedanta Swuami. É esse o texto a que me referi antes por suas instruções espirituais, e aproveito para, aqui, reverenciar seu estimado autor. Também gostaria de respeitosamente agradecer a Kishari Ganguli e a Manmatha Datta, dois eruditos cujas traduções do Mahabharata foram minhas principais fontes de material para este livro. Como sempre, estou aberto às opiniões de meus leitores, que podem ser enviadas por intermédio da editora. Acredito que possam existir falhas em meu texto e, nesse caso, peço-lhe que seja tolerante. Avise-me se encontrar algum engano, e o corrigirei nas edições futuras. INTRODUÇÃO. O MAHABHARATA, PARTE DOS ANTIGOS Vedas da Índia, é uma história diferente de qualquer outra. Poucos livros são tão longevos quanto esse épico de 5 mil anos, e sua popularidade milenar é a maior testemunha da sabedoria profunda contida nas suas páginas. Este grande épico inclui o Bhagavad Gita – uma obra-prima de conhecimento espiritual, reverenciada por milhões de pessoas no mundo todo – que é a narração dos fatos que levam a revelação daquele texto iluminado. O Mahabharata trata das atividades de Krishna, que fala no Bhagavad Gita e que é considerado pelos vedas como o Ser Supremo. Isso dá à obra uma qualidade singular. Embora, sob o ponto de vista externo, o enredo seja uma lenda emocionante, repleta de intrigas e conflitos entre reis, demônios, deuses e sábios, existe um significado mais profundo e espiritual que permeia toda a obra. Sente-se uma certa elevação espiritual ao se ler o livro, cuja intenção, aliás, é nos aproximar da compreensão do Divino e despertar, dentro de nós, um prazer transcendental, superior a todas as outras felicidades. O Mahabharata pode ser lido várias vezes, sem se tornar repetitivo ou tediosos. Na verdade, podem-se descobrir camadas de significados diferentes a cada leitura. Junto à sua mensagem espiritual e à história fascinante, o Mahabharata apresenta uma visão maravilhosa da vida no mundo antigo. Já foi chamado de “enciclopédia cultural da Índia”, mas sua abordagem é ainda mais ampla do que isso, pois abarca verdades universais básicas e comuns a toda a humanidade. Os assuntos tratados no Mahabharata são muitos para serem mencionados, mas num verso famosos do original lê-se que “o que quer que não seja encontrado no Mahabharata não poderá ser encontrado em nenhum outro lugar”. Entretanto, deixo que vocês descubram por si mesmos o tesouro maravilhoso que o Mahabharata é. Esta é uma versão resumida, mas espero que estimule seu interesse para ir adiante e ler outros textos mais completos. Também escrevi uma longa novela, de cerca de mil páginas, na qual inclui muitas das lendas incríveis que cercam a narrativa central do Mahabharata, e que exclui deste livro a fim que não se tornasse muito extenso. Se este é o seu primeiro mergulho nas deliciosas águas do Mahabharata, e se você experimentar aquela sensação refrescante e encorajadora da imersão, recomendo que vá ainda mais fundo lendo a versão inteira.  Finalmente, ofereço todos os créditos a Srila Viassadeva, o sábio imortal, autor da obra original. Que ele abençoe a todos, e que possamos perceber o significado mais profundo do Mahabharata. “ (...) e aquele que conhece a causa mais profunda que me move nesta esfera mortal se liberta de vez da fonte do sofrimento e se eleva acima de todos os medos” Bhagavad Gita 4,9. Livro Mahabharata – Recontado por Krishna Dharma. Abraço. Davi.


segunda-feira, 6 de maio de 2019

ABRA SEU CORAÇÃO


Espiritualidade. www.oshobrasil.com.br. Texto de Rajneesh Chandra Mohan Jain – Osho (1931-1990). ABRA SEU CORAÇÃO. Osho – Na maior parte da minha vida, eu me mantive à distância, separado e isolado, e, assim, eu tenho estado protegido das pessoas e situações. O meu medo mais íntimo sempre foi o de abrir meu coração totalmente. O vasto amor que eu sinto poderia derramar-se como água de um poço transbordando e seria perdido, desviado ou rejeitado. Minha essência é como uma flor delicada, e se ela florescesse num terreno errado ela poderia com facilidade ser maldosamente machucada ou destruída. Este é o meu medo. Seria este o tempo e o lugar para abrir o meu coração totalmente? Tom Cassidy – Este é um dos medos mais básicos de todos os seres humanos. Este é o medo que tem dado origem aos monges e às freiras. Todo o passado da humanidade foi dominado por esse medo, como um câncer da alma.  Parece muito lógico que, se você compartilhar o seu amor, ele será desperdiçado e logo você ficará infeliz. Essa é a lei comum da economia: se você quiser ter mais dinheiro, não o compartilhe, seja miserável. Ganhe o tanto que você conseguir e dê o mínimo possível. Somente assim você consegue acumular e ficar rico. Isso é verdadeiro no que se refere ao mundo exterior, mas é absolutamente falso quanto ao mundo interior; ali funciona uma lei totalmente diferente. A lei interna é: se você não dá, você perde; se você  dá, você conserva. Quanto mais você dá, mais você tem. Quanto menos você dá, menos você tem. Se você não der nada, nada terá; ficará completamente vazio, um túmulo, e dentro do túmulo não há qualquer possibilidade de uma flor desabrochar. As flores necessitam do sol, da chuva, do vento, das estrelas, do céu, dos pássaros, da Terra. Por mais delicada que ela seja, ela necessita abrir-se para a existência. Em tal abertura, a fragrância é liberada, o esplendor que estava preso é liberado. Tom, você é basicamente um monge. A palavra monge é significativa; ela quer dizer “aquele que vive uma vida solitária”, aquele que vive uma vida sem relacionamentos, sem relações, sem amar, sem compartilhar; aquele que vive uma vida sem janelas, fechado por todos os lados, completamente fechado em si mesmo devido ao medo de que, se abrir, quem sabe o que acontecerá com seu coração sensível, com seu delicado ser interior? Ele tem medo de rejeição, medo de situações, medo do desconhecido. Ele se agarra a si mesmo, mas esse agarrar só lhe traz “morte”. Ele pode seguir arrastando-se por anos, mas isto não é vida, isto é suicídio lento. A própria palavra monge quer dizer aquele que decidiu viver uma vida solitária. Da mesma raiz vem monastério, onde as pessoas vivem solitariamente. Da mesma palavra vêm outros como monopólio, monotonia, monogamia. Tentar viver por si mesmo, desconectado dos outros, é a ideia mais perigosa que alguém pode ter, e uma vez que ela começa a tomar um colorido religioso, fica muito difícil livrar-se dela, pois ela satisfaz o seu ego, ela alimenta tudo o que é errado em você e destrói tudo o que é belo em você. Dentro de um túmulo não há qualquer possibilidade de rosas desabrocharem, mas existe a possibilidade de cobras, escorpiões e aranhas; tudo o que é feio e venenoso. Se o túmulo está completamente fechado, o seu próprio ar se torna venenoso. E milhões de pessoas estão vivendo a vida de monges e freiras. Elas podem não ter ido para o monastério, elas podem estar vivendo com suas esposas e filhos, mas estão fechadas. Eles podem estar vivendo no mundo, mas se protegendo muito, sempre cautelosas e calculando, para que suas vidas não tenham qualquer alegria, dança ou canção. É preciso um pouco de coragem para fazer da vida uma celebração. Você diz, Tom: Na maior parte da minha vida, eu me mantive à distância (...). Você tem sido um suicida! Vida significa estar junto, com a existência, com as árvores, com os rios, com as pedras, com as pessoas, com os animais, com tudo o que é. A única maneira de tornar a sua vida rica é relacionar-se com ela . Quanto mais você se relaciona, mais multidimensionalmente você é, mais rico você é, mais você cresce e desabrocha. Ainda há tempo. Abandone esta ideia estúpida de estar à distância, separado e isolado. Isto você pode fazer depois de morrer! Então você terá tempo, mais do que suficiente. Pelo seu nome, parece que você é um cristão. Então, até o dia do julgamento final, você terá tempo mais do que suficiente. Você poderá viver como um monge em seu túmulo, e você poderá guardar a bíblia e o rosário com você. Mas enquanto você estiver vivo, enquanto está imensa oportunidade estiver sendo dada a você, viva-a, alegre-se com ela. Jesus disse repetidas vezes aos seus discípulos: “alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez vos digo – alegrai-vos”, Filipenses 4,4. Jesus não era um monge, ele era um homem vivo. Ele viveu com todo tipo de pessoas, os jogadores, os bêbados, as prostitutas, os pecadores, os cobradores de impostos. Ele viveu – e não com a ideia de que era “mais santo do que você”, ele viveu com grande amizade. Ele gostava das festas que se prolongavam, das danças e da música. E, acredite, ele não estava constantemente evangelizando, ela fazia especulações também. E ele bebia, ele gostava de vinho – e ele compartilhava isso com seus discípulos. O jejum não era o seu caminho, mas sim a festa. Não seja monacal (hábito de reclusão, solidão). Ser um homem é uma oportunidade tão grande que não há necessidade alguma de desperdiça-la. E lembre-se de uma coisa: as coisas das quais você tem medo (...) de abrir meu coração totalmente. O vasto amor que eu sinto poderia derramar-se como água de um poço transbordando (...). Por quem você está sentindo este vasto amor? Só por você mesmo? Porque amar significa ter uma direção, um objeto. O amor é sempre endereçado a alguém. A quem o seu amor é endereçado? Você é como um envelope ainda não aberto: você nem mesmo leu o que está escrito na carta, você nem sabe se existe uma carta dentro ou se está simplesmente carregando um envelope vazio. A não ser que abra o envelope, você nunca saberá. Abra-o! E lembre-se, o poço nunca se esgota porque no fundo ele é conectado ao oceano. O oceano está continuamente alcançando-o em pequenas nascentes. Na verdade, se você não tirar água do poço, ele morrerá, porque as nascentes não serão mais necessárias e ficarão bloqueadas. Não sendo usadas, elas perderão a sua função, e a velha água se tornará estragada e morta, talvez venenosa. É bom para o poço que sua água seja tirada. Quanto mais água você tirar, mais correntes de água fresca chegarão ao poço. O poço não está desconectado da existência. Certamente o seu coração é um poço. Se ele for mantido fechado, você não captará a energia do Universo fluindo para você. Continue se esvaziando e você ficará surpreso; quanto mais se esvaziar, mais cheio você ficará. Por isto é que Gautama, o Budha, enfatiza a palavra shunya, zero. Torne-se um zero! Se quiser tornar-se cheio, a sua mensagem é, simplesmente se torne vazio, um nada, só espaço, puro espaço, um espaço sem limites contendo nada. Apenas esvazie-se totalmente e, você não será capaz de acreditar, um milagre acontece. Quando você está totalmente vazio, a existência toda entra em você. Todas as estrelas estão dentro de você, assim como o sol e a lua. De repente você se vê tão vasto quanto o Universo. Ser nada é a única maneira de ser tudo. Ser ninguém é a única maneira de ser divino. O vazio traz o divino. E não se preocupe com seu amor ficando perdido; nada jamais é perdido. O mundo sempre contém a mesma quantidade de tudo, nem mais nem menos. Isso agora é um fato científico; não existe um simples átomo a menos ou a mais do que o que sempre existiu. A quantidade do Universo permanece absolutamente a mesma, pois de onde alguma coisa nova pode vir? A existência compreende tudo, não existe “algum outro lugar”. E para que outro lugar qualquer coisa pode ir? Não existe outro lugar para se ir, assim, nada jamais é perdido. Talvez possa demorar um pouco mais para se alcançar a pessoa certa, mas sempre se alcança. Cante a canção e não se preocupe! Ela alcançará a pessoa certa no tempo certo. Se não for hoje, será amanhã, se não for nesta sua vida, então em algum outro tempo. Mas ela alcançará, com certeza. Ela sempre encontra a pessoa certa que pode absorvê-la. Simplesmente cante a canção. Não se preocupe com quem ela irá alcançar; toda a sua preocupação deve ser: cantar com totalidade, e isso é tudo. Mais do que isso, não é exigido de ninguém. Não lhe cabe saber se ela será ouvida ou não. Quando uma flor nasce no meio de uma selva, ela não está preocupada se alguém vai passar por ali, ela simplesmente libera a fragrância. Se ela alcançar alguém para cheirá-la, ótimo: se ela não alcançar, qual o problema? A flor desabrochou, ela se ofereceu ao Universo. Agora fica por conta do Universo fazer o que quiser com ela. Nada jamais é perdido, desviado ou rejeitado. Mas as pessoas se sentem muitas vezes rejeitadas porque antes mesmo delas darem algo, já existe a expectativa. Se sua expectativa não for satisfeita, elas se sentem rejeitadas. É a expectativa que está criando problema, não o amor. Dê o amor sem qualquer corda amarando-o. Dê o amor pelo puro prazer de dar. Alegre-se dando-o. O pássaro cuco ao cantar distante, não se preocupa se alguém está gostando ou não. A estrela distante – você pensa que ela está preocupada se um poeta está escrevendo um belo poema sobre ela ou se um Vincent van Gogh (1853-1890) está pintando-a, ou se um fotógrafo ou um astrônomo estão preocupados com ela? A estrela não está interessada nisso. A sua alegria está em continuar brilhando. Simplesmente abra o seu coração, Tom Cassidy. E abra-o totalmente, sem quaisquer expectativas e condições. É certo que ele alcançará o coração certo: isto sempre acontece. Quando eu comecei a cantar a minha canção, não havia ninguém para ouvi-la. Depois as pessoas começaram a chegar. Eu fiquei surpreso: como elas ouviram? Por que essas pessoas continuam vindo? De todas as direções, de todo o mundo as pessoas começaram a vir. Como você chegou aqui? E eu não estava esperando que alguém viesse. Eu estava simplesmente cantando a minha canção, eu estava desfrutando isso. Há poucos dias um sannyasin, perguntou: Osho, eu tive um sonho: eu estava sentado sozinho no Budha Hall e então você chegou. Você sentou-se na cadeira e eu fiquei muito intrigado porque eu estava só e não avia mais ninguém no Budha Hall, todo ele estava vazio. E eu estava preocupado com o que você iria fazer. Não precisa se preocupar, eu farei a minha parte. Eu não posso deixa-lo só. Eu falarei para você por uma hora e meia continuamente. E você também não pode escapar. Quando há muitas pessoas, umas poucas conseguem escapar, mas se você está sozinho, para onde poderá ir? Eu seguirei você! Sem pessoa alguma, ainda que você não esteja lá, eu estarei sozinho no Budha Hall, eu cantarei aminha canção. Tente isso um dia! Eu ainda contarei minhas piadas e se não houver ninguém para rir delas, eu mesmo rirei. Se não for de piada, porque eu já a conheço, estarei rindo do fato de não ter ninguém lá e, ainda assim, eu estar contando uma piada! Que ridículo! Tom, não se preocupe. Você diz: Minha essência é como uma flor delicada (...). Então, permita que ela assim seja! Ela é bela, ela é uma flor delicada. Permita que os outros também participem de sua fragrância, permita que os outros também bebam de sua fonte. Logo a flor morrerá, à tardinha ela já terá ido. Assim, não a esconda, pois mesmo se escondê-la, você não conseguirá salvá-la. De manhã, a rosa abre suas pétalas, ao final da tarde as pétalas definham e a rosa se vai. Antes que ela se vá, permita que ela seja compartilhada, deixe que as crianças brinquem ao seu redor. Deixe todo mundo se alegra! Do contrário, você estará morrendo sem estar realizado. Ela é uma flor delicada, mas quanto mais delicada for, mais rapidamente ela tem que se abrir a existência, ela não pode esperar pelo amanhã – talvez ela não esteja aqui amanhã. E você está preocupado: se ela florescesse num terreno errado (...). Não há terreno errado em lugar algum. Na verdade, se uma rosa consegue florescer num deserto, aquele será o mais belo terreno e ela será uma rosa excepcional. Se ela puder desabrochar entre pedras, então aquela rosa deve ser um Budha, não menos do que isso; um Cristo, não menos do que isso. Num terreno adequado, num jardim, as flores comuns desabrocham, mas as flores extraordinárias desabrocham também entre as pedras e no deserto. Assim, não se preocupe com o terreno e não se preocupe que ela poderia com facilidade ser maldosamente machucada ou destruída. Tudo que nasce será destruído, por isso, antes que ela seja destruída, permita que ela tenha a sua dança. E você está me perguntando: Seria este o tempo e o lugar para abrir o meu coração totalmente? Todo tempo e todo lugar é o lugar certo! E porque você está aqui neste momento, permita que este seja o lugar. Onde você poderia encontrar um espaço melhor, com pessoas mais bonitas, mais receptivas, mais amorosas do que estas que estão à sua volta neste Budhafield? Tom Cassidy, você esperou tempo demais, não espere mais. Este é o tempo. Nunca confie no momento seguinte; o amanhã nunca vem. É agora ou nunca!. www.oshobrasil.com.br. Abraço. Davi.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

IV. OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA IDEOLOGIA CHINESA ATUAL


Confucionismo. Texto de Jacque Gernet (1921-2018). IV. OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA IDEOLOGIA CHINESA ATUAL. Enquanto que o ensino político visa a formação de um monarca absoluto, que controla o povo, já o ensino ético tem a família como centro de toda a sociedade, refletindo-se as relações familiares em toda a sociedade. Trata-se da noção de Estado-família, em que o soberano ou presidente deve velar pelo bem-estar do povo. Ora, quando o governo se faz pela virtude e pelas qualidades do governante, dá-se uma maior importância às relações pessoais, o que se verifica nos atuais países de influência confucionista. O principal objetivo do governante não é agir diretamente sobre o povo, mas suscitar a sua ação, pelo comportamento conforme às tradições e aos ritos. A ação política é, como tal, dominada pela procura da harmonia social e pelo consenso. Num governo em que as relações pessoais assumem um papel de destaque, as noções de confiança e de face adquirem uma grande importância, para além das já citadas virtudes confucionistas, com vista a um ideal de dignidade humana. Finalmente, o ensino intelectual visa aprofundar os conhecimentos e pesquisar a verdade. "O mandarim deve o seu poder não ao seu nascimento, mas à sua educação que lhe permite agir de acordo com as leis cósmicas universais." 52 Trata-se da instrução à qual Confúcio reservou um lugar de destaque na sua filosofia e que é uma das chaves da modernização. Para além destes aspectos, há ainda a questão ambiental. A rápida modernização sob o mote “Paz e Desenvolvimento” (和平与发展) tem efeitos negativos sobre o ambiente. No entanto, sublinha o confucionismo que o Homem e a Natureza são um, não se podendo separar. Tal como refere Tang Yijie, “para se resolver os problemas humanos há que considerar a natureza, e para se resolver os problemas da natureza, há que considerar os problemas humanos. Não se pode considerá-los separadamente. (…) Se não se considerar, pode ser muito perigoso, o século XXII pode destruir-se.”53 Trata-se da União entre o Céu (), a Terra () e o Homem (). O CONFUCIONISMO NA POLÍTICA INTERNA CHINESA ACTUAL Apesar deste bem-estar geral, as reformas de Deng também provocaram alguns problemas. A prosperidade em que vive a China deu origem ao aparecimento dos chamados "novos ricos", novas elites empresariais que se orientam por um diferente conjunto de valores morais. Como o seu objetivo principal se tornou o lucro, agravou-se o fenómeno da corrupção. a adoptar, se os atrativos valores ocidentais que estão “na moda” ou os velhos valores chineses da era dos pais e avós. Tendo em conta estas Por outro lado, o cidadão comum (老百姓), especialmente entre as camadas mais jovens da sociedade, padecem de uma certa desorientação em relação aos valores preocupações, tem o governo chinês manifestado intenções de reavivar os valores tradicionais, nomeadamente os princípios confucionistas como forma de promover a estabilidade da sociedade, e mesmo do próprio governo. A guisa de exemplo poder-se-á dizer que já desde a década de 80, Jiang Zemin vinha defendendo que Confúcio era um dos maiores pensadores chineses, pelo que se devia estudar os seus princípios. Na Assembleia Nacional Popular de 1995, Jiang Zemin apelou ao renascimento moral e ético. Zemin tem sublinhado a civilização espiritual como motivo da nova campanha ideológica, como forma de luta contra a deterioração moral e ética e da desordem social de que a China tem sido alvo. Na célebre “Teoria das Três Representações” (三个代表) apresentada no Discurso de Jiang Zemin no 80.º Aniversário do PCC, em julho de 2001, à segunda destas representações refere-se exatamente à promoção da cultura avançada chinesa (代表中国先 文化). Ainda que este conceito se refira primordialmente ao facto de que os princípios e políticas adoptadas pelo Partido devam refletir os requisitos da cultura científica avançada em direção à modernidade, também refere que se deve ter em conta as qualidades culturais e ética de toda a nação. Além disso, no texto refere-se que “no que concerne ao rico legado cultural deixado na História da China ao longo de muitos milhares de anos, devemos selecionar a essência e descartar o excedente, e seguir em frente desenvolvendo-a de acordo com o espírito dos tempos para que o passado sirva o presente” Tal como defendem alguns autores, assiste-se atualmente à política da “herança crítica” do confucionismo, isto é, “eliminam-se os elementos excessivos do confucionismo enquanto, por outro lado, se escolhem alguns princípios confucionistas para educar os quadros e o povo.” Por outro lado, a terceira representação acentua que é papel do PCC representar os interesses da maioria do povo chinês, o que está em completo acordo com o princípio confucionista de que o governo deve procurar em primeiro lugar satisfazer as necessidades do povo, e depois educá-lo. Como tal, os dois princípios estão em completo acordo. Mais recentemente, com o aparecimento da Epidemia Atípica, o presidente chinês Hu Jintao (锦涛), apresentou como formas de controlo da doença: promoção da tecnologia avançada e orgulho do espírito cultural tradicional chinês da solidariedade, defendendo que em conjunto se poderá vencer as dificuldades. Reconhecendo as múltiplas vantagens que representa a ética confucionista em vista de todas as rápidas mudanças características da modernização, resolveu o governo chinês, à semelhança do que vem acontecendo em Singapura, desenvolver esforços no sentido de reabilitar a imagem do Grande Mestre, devido aos ataques de que foi alvo durante a Revolução Cultural, assim como promover os estudos da sua doutrina. Esta atitude insere-se num ambiente geral de “febre pela cultura tradicional” (guoxue re, 国学 ) que apareceu na China na década de 80 e que se tem acentuado nos últimos anos, caracterizada pela popularização da cultura tradicional, procurando selecionar os aspectos da cultura tradicional que são úteis para as exigências da sociedade moderna. “Em 22 de Setembro de 1984 comemorou-se oficialmente na República Popular da China o 2535º aniversário de Confúcio, venerado naquele País ao longo de 2500 anos, como Professor de Dez Mil Gerações. A celebração decorreu no seu distrito natal em Qufu, na Província de Shandong. Nesta data foi inaugurada a estátua restaurada de Confúcio e também o próprio templo ancestral que ali existe os quais durante a Revolução Cultural tinham sido bastante danificados. O palacete e o cemitério da família Kong, que ocupam mais de 200 hectares, foram, também, abertos ao público e visitados por muitos chineses e turistas estrangeiros” Desde a década de 80, o governo chinês tem apoiado a criação de Associações e Centros de Estudo dedicadas ao estudo e divulgação da filosofia confucionista. Entre as mais relevantes conta-se a Fundação de Confúcio (中国孔子基金会), em Jinan (济南), Província de Shandong ), a Associação Confucionista Chinesa (华孔子学会) e a Associação Confucionista Internacional (际儒家联合会), ambas em Beijing (北京). A Associação mais antiga é a Fundação de Confúcio (中国孔子基金会) de Shandong que foi criada em setembro de 1984 em Qufu (曲阜), a cidade-natal de Confúcio, sendo mais tarde, em 1996, movida a para Jinan, a capital da província de Shandong. Estabelecida sob a liderança do intelectual Gu Mu (谷牧), de acordo com os estatutos, a Fundação de Confúcio tem como objetivos: estudar, investigar, divulgar e desenvolver o pensamento de Confúcio e da escola confucionista e a cultura tradicional chinesa; contribuir para a construção de uma civilização com o espírito do socialismo de características chinesas; promover a reunião de todos os chineses, que se encontram dentro e fora da China, assim como o intercâmbio cultural. 58 De acordo com estes objetivos, a Associação tem desenvolvido diversas atividades como organização de “Reuniões do saber” (术会议) sobre Confúcio e a sua filosofia, entre as quais se destacam as reuniões de 1989, 1994 e 1999, onde se comemoraram o 2540.º, o 2545.º e o 2550.º Aniversário sobre a morte de Confúcio. Esta Fundação, que depende de fundos públicos nacionais e também estrangeiros, tem também publicado livros e revistas, entre os quais se destaca a revista “Estudos sobre Confúcio” (研究孔子) publicada desde 2000 com uma regularidade quinquenal. A Associação Confucionista Chinesa ( 华孔子学会 ) é outra das mais antigas Associações existentes na China, dedicadas ao estudo e investigação da filosofia confucionista. Anteriormente era somente um Departamento de Estudos sobre Confúcio (华孔子研究所) da Associação Chinesa de História Antiga (中国老年历史学会). Ora, dada a sua importância, em junho de 1984, o governo chinês criou esta Associação, com o objectivo de desenvolver o estudo e investigação de Confúcio e da sua Escola, assim como da cultura tradicional chinesa. Constituída por importantes estudiosos do confucionismo de instituições como a Academia Chinesa das Ciências Sociais (中国社会科学院), a Universidade de Pequim (北京大学) e a Universidade Qinghua (华大学), entre outras, esta Associação tem procurado imprimir um cunho científico aos seus estudos do confucionismo, através da atitude de “busca da verdade dos fatos” (实事求是), orientando-se pelo princípio “que Cem Flores desabrochem, que Cem Escolas Rivalizem” (百花齐放百家争鸣) e usando o método de “Sintetizar novas ideias a partir da cultura” ( 文化综合创新 ). Esta organização tem organizado periodicamente conferências sobre a relação do confucionismo com os diversos aspectos da actualidade, nomeadamente a “Conferência Internacional sobre a Relação entre o Confucionismo e a Modernidade”, em 1992 em Sichuan; a “Conferência Internacional sobre o Pensamento Confucionista e a Economia de Mercado”, em 1995, em Pinggu, Beijing; e a “Conferência Internacional sobre o Comerciante Confucionista e o séc. XXI”, em 1999, em Jining, Shandong. Para além destas conferências e de algumas publicações, recentemente a Associação Confucionista Chinesa ajudou no estabelecimento de uma escola dedicada ao ensino da cultura tradicional chinesa, em Beijing, em Andingmen, juntamente com a administração do Templo de Confúcio em Beijing e o Departamento de Andingmen. A Escola de Cultura Tradicional Chinesa de Andingmen (国学启蒙) 59, como é chamada, abriu em abril de 2002 no Templo de Confúcio em Beijing, e fornece um conjunto de aulas em que se pretende transmitir a cultura tradicional chinesa a crianças dos 4 aos 6 anos. Os atuais alunos têm aulas um dia por semana (aos sábados) e através de um sistema de ensino inovador aprendem matérias relacionadas com os clássicos chineses e as virtudes confucionistas.60 Tal como nos sublinhou Zhang Yiyi, vice-diretora do Departamento de Planeamento Familiar de Andingmen, “procura-se usar um método inovador que combina as técnicas de ensino ocidentais para ensinar a cultura tradicional chinesa. Desta forma se procura preservar a cultura antiga chinesa, tornando o estudo dos clássicos em algo atrativo”. Os conselheiros são especialistas na cultura tradicional chinesa, nomeadamente em literatura clássica, em Ópera de Pequim, Artes Marciais, etc., pois é importante não só desenvolver o conhecimento, mas também a postura, o que marca para a vida inteira, em resumo trata-se de ajudar a constituir homens de virtude. Trata-se de “manter a cultura chinesa antiga, por um lado, e de elevar a qualidade do ensino desde a infância, por outro, contribuindo para a educação de futuros alunos de grandes universidades como Universidade de Pequim e Universidade Tsinghua”, segundo palavras de Zhang Yiyi.62 Com o objetivo de promover o encontro entre os diversos estudiosos nacionais e internacionais do confucionismo, foi criada, em outubro de 1994, a Associação Confucionista Internacional (际儒家联合会), com sede em Beijing. O principal objetivo desta Associação é promover a investigação do confucionismo através do intercâmbio de investigadores de diversos países e regiões, dentre os quais Caojian (曹建), o Secretário da Associação, nos destacou como principais China, Singapura, Coreia e Japão. No entanto, de entre os cerca de 200 intelectuais que fazem parte desta Associação, incluem-se também alguns de países ocidentais como Estados Unidos, Alemanha, França e Grã-Bretanha. A Associação é constituída por dois Centros de Estudos: o Centro de Estudos do Confucionismo Contemporâneo e o Centro de Estudos Internacional Tiras de Bambu63, e organiza com uma regularidade anual, conferências internacionais sobre os mais diversos temas, assim como publica também regularmente alguns livros e revistas. Para além destas atividades promovidas pelo governo como forma de desenvolver os estudos sobre a cultura tradicional chinesa, com especial relevo para a filosofia confucionista, tem também o executivo chinês colocado em prática princípios ditos confucionistas na sua administração como forma de resolução de alguns problemas emergentes. Tal como defendia Jiang Zemin no seu discurso no 80.º Aniversário do PCC, em relação aos recursos humanos dentro do Partido e do governo, “devemos aprofundar a reforma do sistema de pessoal como forma de produzir um contingente de oficiais de alto calibre que são capazes de assumir responsabilidades. (…) O princípio do recrutamento e promoção através de uma competição aberta e justa com base no mérito deve ser impulsionado”, Como tal, conclui-se que os atuais líderes chineses procuram promover aos cargos oficiais, as pessoas com as qualificações mais adequadas e que estejam dispostas a assumir as responsabilidades respectivas. Trata-se do princípio confucionista da “retificação dos nomes”, de colocar o funcionário adequado no cargo respectivo, com todo o conjunto de tarefas e responsabilidades a que lhe corresponde. Como forma de selecionar os mais dotados para os cargos superiores, continua o governo a socorrer-se do sistema de seleção através de exames para o cargo de funcionário público. Finalmente, no que diz respeito à ideologia comunista propriamente dita, verifica-se a existência de alguns princípios comuns à filosofia confucionista. Tal como sistematizaram Guy Kirsch e Klaus Mackscheidt, “como o confucionismo, o marxismo defende que todas as coisas estão sujeitas a leis inerentes que definem o que as coisas são e o que deviam ser, é nossa obrigação desejar o que irá acontecer, liberdade é reconhecer o que é necessário. (…). Ambos os ensinamentos derivam a sua legitimação de livros clássicos e todo o discurso concentra-se em estabelecer se um argumento avançado nas disputas sociais é ortodoxo ou heterodoxo; o único objetivo é descobrir quem está correto de acordo com os velhos e veneráveis livros e de acordo com as tradições e hábitos dos antepassados. (…). Ambos confucionismo e marxismo enfatizam o significado de ordem vertical. Gostaríamos de convida a audiência a substituir os termos confucionistas pelos marxistas ou comunistas: príncipe – comité central do partido comunista; rito – prática revolucionária; conhecimento – consciência proletária; Filho do Céu – cabeça do proletariado; lei do Céu – dialética da História; tradição – história do movimento trabalhador; murmúrios do povo – vontade das massas; autoridade do príncipe – papel de liderança do partido; hierarquia – centralismo democrático. Se substituíssemos os termos de um pelo outro, os textos poderiam ser lidos sem se mudar o seu significado em profundidade. No entanto, as semelhanças existentes entre o confucionismo e o comunismo não se cingem à forma. A nível do conteúdo destas duas formas de pensar verificam-se também aspectos em comum. Ao adaptar a ideologia comunista à realidade chinesa, os líderes chineses têm defendido uma forma diferente de socialismo, trata-se do chamado “socialismo de características chinesas”. Tal como recentemente defendido por Jiang Zemin no 16.º Congresso do PCC, em nde 2002, a China entra agora na fase da “Sociedade modestamente acomodada”, em chinês, xiaokang shehui (小康社会), uma fase intermédia antes de chegar ao fim último da ideologia chinesa, o socialismo. Ora, é interessante notar que no Livro dos Ritos66, se fala de duas etapas do desenvolvimento político, em que a xiaokang shehui é uma fase intermédia antes de chegar ao ideal da “Grande Harmonia”, o datong shehui (大同社会). Tal como descrito no Livro dos Ritos, numa sociedade modestamente acomodada, “cada pessoa respeita os seus pais, cada pessoa cuida dos seus filhos. Os bens armazenados e adquiridos são para si mesmos. O monarca hereditário deve, através dos ritos, construir muralhas e proteger a cidade. Os ritos devem ser usados como disciplina social, na relação entre governante e ministros, entre pais e filhos, entre irmãos mais velhos e irmãos mais novos, entre maridos e esposas. Através do sistema estabelecido, os campos são delimitados, os mais dotados são colocados nos cargos oficiais, a indústria é estabelecida, por isso ainda que hajam intrigas, resultarão em produção, ainda que hajam guerras, resultarão em vantagem. (…). Se, algum soberano não usar os ritos para governar, será deposto, o povo vê-lo-á como uma desgraça. Esta é a xiaokang shehui. Como tal, conclui-se que a descrição feita da que então seria uma “Sociedade Modestamente Acomodada” inclui que o governante deveria seguir os ritos, a lei, e prover à satisfação das necessidades do povo, assim como à sua proteção. Por outro lado, deveria colocar as pessoas mais qualificadas nos cargos públicos, sempre tendo a noção de governo benevolente em mente, pois se não o fizesse poderia ser deposto. Atualmente, a noção de xiaokang shehui adoptada pelo governo chinês também inclui estes princípios gerais, principalmente no que se refere à satisfação das necessidades básicas da população e à provisão dos recursos educativos básicos. Tal como elucidou Jiang Zemin no seu discurso no 16.º Congresso do PCC, os objetivos da “Sociedade modestamente acomodada” são: desenvolvimento económico, melhoria da democracia socialista e do sistema legal, promoção dos níveis ideológicos e éticos, assim como das qualificações científicas e culturais e da saúde de todo o povo, promoção do desenvolvimento sustentado. No “Livro dos Ritos” é também descrito o ideal político, que já haveria existido na Antiguidade e que devia ser restabelecido: “Quando a Grande Via prevalece, o mundo é uma comunidade, os homens de talento são escolhidos para o governo, a confiança mútua e a amizade prevalece entre os homens. Os homens não amam somente os seus pais, nem cuidam somente das suas crianças, mas também dos outros. Uma adequada provisão é fornecida para os mais idosos até à sua morte, emprego para os capazes e meios para criar os mais jovens. Bondade e compaixão são demonstradas para com os viúvos, órfãos, idosos sem filhos e incapacitados, para que todos tenham apoio. Os homens têm trabalho adequado e as mulheres têm casa. Os homens lutam contra o desaproveitamento dos recursos naturais, mas também não os exploram somente para seu próprio benefício. As intrigas são reprimidas e não se desenvolvem. Não há roubos nem rebeliões, e as portas podem ficar abertas. Esta é a Grande Harmonia”. As características aqui descritas como o ideal dos confucionistas, aproxima-se em muito do ideal utópico de comunismo, nomeadamente características como a igual distribuição da riqueza, o bem-estar social, a segurança e a promoção dos recursos humanos, numa sociedade que ao final é uma comunidade mundial (tian xia wei gong, 天下为公). Como tal, parece que já a civilização chinesa desde há muito preconizava ideais que mais tarde haveriam de entrar na política através da ideologia comunista. Talvez por este motivo, foi esta ideologia de origem estrangeira tão bem aceite pela sociedade chinesa no século XX. O CONFUCIONISMO COMO BASE DO RENASCIMENTO DO NACIONALISMO CHINÊS Para além das noções comuns existentes entre a filosofia confucionista e a ideologia comunista, os princípios confucionistas têm contribuído para a coesão do povo chinês e mesmo para o desenvolvimento de um certo nacionalismo entre as suas gentes. E "o novo nacionalismo está a ser construído, não no contexto das relações entre a maioria han e as outras minorias, mas no contexto das relações entre a civilização chinesa e as outras civilizações." Como tal, esse nacionalismo que renasce não coloca frente a frente as diferentes etnias chinesas, mas une-as sob uma base comum, em defesa das influências nocivas do exterior. Ora, a origem deste renascimento do nacionalismo é recente. Tal como referido por Zheng Yongnian, o nacionalismo surgiu de uma forma progressiva, para promover a cultura e civilização tradicional chinesa em contraste com os valores ocidentais. O primeiro impulso veio da invasão de ideias ocidentais de que a China foi palco durante a década de 80, o que provocou um sentimento de inferioridade em relação à cultura chinesa. Em início da década de 90, o desenvolvimento económico chinês levou os intelectuais a acreditar que a China também era capaz, com base nos seus próprios valores, em face da decadência de algumas potências estrangeiras, nomeadamente com a dissolução da União Soviética. E no centro desses valores tradicionais chineses, a base do nacionalismo, está no confucionismo. Tal como sublinha Samuel Huntington, na sua teoria do "Choque de Civilizações", o confucionismo é a base do nacionalismo chinês. E ele chega mesmo a apresentar este nacionalismo como uma ameaça à civilização ocidental, o que nos parece profundamente exagerado. Este sentimento nacionalista com base em valores tradicionais está também presente nas comunidades emigradas, em que sempre se reportam aos outros nacionais que se encontrem na China ou no estrangeiro, para lhes oferecer o seu apoio. O confucionismo privilegia as relações pessoais, o que no caso do relacionamento entre a China e os países do Sudeste asiático é particularmente importante, em vista das redes de guanxi (关系)que se estabelecem entre os chineses naquela região. São sobejamente conhecidas as comunidades chinesas no Sudeste Asiático que, por um lado, não permitem a entrada de desconhecidos, ditos de outras etnias, mas que em contrapartida promovem os relacionamentos entre pessoas etnicamente chinesas. Influenciados por estas considerações, alguns intelectuais chineses chegaram mesmo a afirmar que a civilização confucionista é superior à ocidental, sendo capaz de trazer paz e harmonia às nações. Isto porque a civilização confucionista não é religiosa, ao contrário da ocidental que, por isso, tem sido responsável pelo deflagrar de diversos conflitos internacionais. A ênfase do confucionismo está relações pessoais, entre as pessoas, pelo que enquanto as relações entre duas pessoas forem harmoniosas, a paz reinará em sociedade. Por outro lado, ao contrário das religiões ocidentais, não se sublinha aqui a crença na salvação, num mundo superior, mas ensina-se a viver em sociedade. Os princípios confucionistas apresentam o modelo de como tirar o melhor usufruto de viver em sociedade, no relacionamento entre pais e filhos, irmãos, amigos e soberano e súbditos. É a lei das cinco relações de Mêncio (372 AC 289) que se continua enraizada na sociedade chinesa atual, promovendo a sua harmonia e estabilidade. Atualmente, o povo chinês continua a respeitar estes princípios, ainda que inconscientemente porque já faz parte do seu temperamento, os conceitos de benevolência e de piedade filial, a aprendizagem pela experiência, a justiça, a humildade, o respeito pelos mais velhos, etc. Todos estes conceitos transmitem uma grande harmonia e estabilidade à sociedade chinesa. No entanto, estes valores confucionistas não se cingem às fronteiras políticas da China, nem mesmo às fronteiras étnicas do seu povo. Valores como o personalismo e o comunitarismo caracterizam a forma de ser dos povos asiáticos que, com base nessas concepções pretendem constituir uma forma própria de ser, a chamada “Asian Way”, por contraposição à perspectiva ocidental. Estas perspectivas são particularmente evidentes em relação à polémica questão dos direitos humanos, em que estas duas concepções chocam. Como tal, pode considerar-se o confucionismo o núcleo duro da concepção asiática, incluindo os países do Nordeste e Sudeste Asiático, numa combinação mais ou menos consistente, mas ainda muito heterogénea. Há aqui a destacar os esforços desenvolvidos por Lee Kuan Yew por promover a cultura tradicional e a ética confucionista como centro de uma visão asiática mais abrangente. Neste caso seria o confucionismo o centro de uma forma de sentir afeta não só os chineses política e etnicamente definidos, mas também aos outros povos asiáticos em geral, por contraposição aos ocidentais. O CONFUCIONISMO NA POLÍTICA EXTERNA CHINESA ACTUAL As concepções confucionista e comunista não se tocam somente a nível interno, mas também a nível externo. Ambas nascidas de uma época de caos e desorganização, tanto a filosofia confucionista como a atual política externa chinesa preconizam a ordem, a paz e o desenvolvimento. O Período dos Reinos Combatentes, quando surgiu a filosofia confucionista, era uma época de grande desordem e conflito, em que os vários reinos se digladiavam por alargar os seus territórios, aumentar os recursos e conseguir a hegemonia. Por outro lado, a degradação das condições de vida suscitava descontentamento e insurreições sociais entre a população. Neste contexto, os confucionistas enfatizavam a harmonia e defendiam o regresso ao estado de coisas ante, isto é, à ordem característica da Antiguidade. Sendo a sociedade constituída por diferentes sujeitos com diferentes personalidades e ambições, deviam os homens e mesmo os Estados respeitar-se mutuamente, tentar compreender-se e mesmo fazer algumas concessões quando necessário. Trata-se aqui da Doutrina do Meio (zhong yong, 中庸), do meio termo, da tentativa de conciliar os opostos, sem cair para um ou para o outro lado. Diziam os confucionistas que, se se respeitam os princípios morais, os relacionamentos serão harmoniosos, caracterizados por cooperação e confiança mútuas. E isto não se aplica somente às relações sociais, mas também aos sujeitos internacionais, na época, ao relacionamento entre diferentes reinos, segundo a teoria de Mêncio. Defendia ele que os indivíduos, assim como os reinos, tinham os seus próprios interesses, que são diferentes uns dos outros. Se as pessoas forem egoístas e quiserem concretizar os seus interesses e desejos, às vezes provocam choques pois não têm em atenção os interesses dos outros. Esta atitude pode resultar em mal-estar e mesmo conflito, pelo que devem as pessoas assim como o Estados privilegiar a justiça e retidão () em detrimento do interesse (). Por isso, “sempre foi posição firme dos confucionistas oporem-se a guerras para lucros egoístas e advogarem «retidão sobre os lucros» num esforço para eliminar guerras e conflitos entre blocos e Estados. A posição reflete a sua esperança para uma pacífica comunidade internacional, assim como o seu ideal humanitário”. É interessante notar que na década de 50, Mao Zedong elaborou com o líder indiano um conjunto de princípios que, a ser respeitados, permitiriam um bom relacionamento entre os diferentes países com base na coexistência pacífica. E esses cinco princípios eram: - respeito mútuo pela soberania territorial; - não agressão mútua; - não interferência nos assuntos internos; - equidade e benefício mútuo; - coexistência pacífica. Atualmente estes princípios encontram-se sintetizados na teoria de Deng Xiaoping que advoga uma política externa de paz independente cujo propósito é a manutenção da paz mundial e o desenvolvimento conjunto. Esta perspectiva está de acordo com o ponto de vista de Confúcio de que “Conduzindo os ritos, a harmonia é o princípio mais importante” (Analectos I:12). E essa harmonia (he wei gui,为贵) também inclui o respeito das especificidades de cada um, de acordo com o princípio de “Harmonia na diferença” (he er butong, 和而不同), o que significa que pode haver trabalho de cooperação harmoniosa mas respeita-se a diferença. Segundo Confúcio, “O homem de bem estar em harmonia com outros mas não os segue cegamente, o homem inferior segue os outros cegamente mas não está em harmonia com eles.” (Analectos XIII:23) Tal como explica Tang Yijie, “a situação da China e dos Estados Unidos é diferente, mas podemos viver harmoniosamente, não é necessário entrar em conflito ou guerra”. Esta tem sido a postura da China a nível internacional com relação a outros países, especialmente os países vizinhos. Isto porque só neste harmonioso ambiente internacional será possível realizar o objetivo básico da paz e desenvolvimento económico ( 平与发展). Além disso, um dos outros princípios da atual política externa chinesa chama a atenção para a completa unificação da China sob o mote “um país, dois sistemas” (一国两制). Chama-se aqui a atenção para a transferência das soberanias de Hong Kong, Macau e quem sabe Taiwan para a mãe-pátria. Esta ideia pertence já a um antigo princípio chinês de unificação, a chamada “Grande Unificação” (大一), presente nos Anais da Primavera e Outono. Na atualidade, este princípio foi expresso por Mao Zedong e Deng Xiaoping, e continua a ser incluído como um dos mais importantes princípios da política externa da atualidade. Por outro lado, a enunciação da existência de dois sistemas, neste caso económicos, sob uma mesma liderança política poderá ser facilmente entendido através do princípio confucionista de “harmonia na diferença”, tal como já havia acontecido ao longo da História da China em relação a outros sistemas. CONCLUSÃO. O confucionismo é uma teoria que, tendo surgido num período de fortes convulsões políticas e sociais, só chegou à categoria de doutrina política pela mão do Imperador Wudi. Contudo, ao longo da longa História da Civilização Chinesa, estes princípios sempre serviram de base ao relacionamento entre as pessoas, a nível do núcleo familiar, depois em sociedade e, numa escala maior, dentro do Estado e mesmo nas relações entre diferentes Estados. Mesmo apesar dos ataques de que foi alvo, especialmente durante o período da Revolução Cultural Chinesa, valores como ren, xiao e li permaneceram inalterados e inabalavelmente como diretores da vida em sociedade. A adopção da ideologia comunista por diversas regiões de tradição confucionista, como é o caso da China, do Vietnam e da Coreia do Norte, veio trazer luz sobre o facto de existirem alguns traços em comum entre esta ideologia estrangeira e a autóctone filosofia confucionista. A semelhança verifica-se logo ao analisar o contexto do seu aparecimento, períodos altamente conturbados em que a liderança havia sido posta em causa. Depois a comparação da própria história dos principais defensores veio trazer a nu características semelhantes relacionadas logo à partida como a própria vida, a liderança carismática, a capacidade de atrair multidões, o método adoptado para comunicar e partilhar experiências e a forma encontrada para transmitir o seu pensamento. O próprio formato dos escritos básicos é bastante semelhante. No que se refere ao conteúdo da doutrina e ideologia propriamente ditas, encontramos muitos pontos em comum já sobejamente desenvolvidos, entre os quais se destaca os princípios de reforma agrária adoptada e as preocupações com o povo que governam, num período inicial de aplicação da ideologia comunista à realidade chinesa. Na atualidade, com todas as mutações próprias de uma sociedade em permanente evolução, é interessante verificar o retorno da ênfase concedida pelos governantes aos valores tradicionais, que neste caso estão inevitavelmente relacionados com o confucionismo. O aparecimento desta “febre de cultura tradicional” encontra justificação nos efeitos perversos da modernização, tal como a instabilidade económica e consequente desorientação social, indefinição de valores diretivos em face da grande entrada de valores ocidentais, etc. Qual ciclo vicioso, o confucionismo ajuda a manter a estabilidade do comunismo e o comunismo promove a expansão do confucionismo. Ao adoptar princípios como a promoção da educação, escolha dos funcionários mais qualificados para os cargos públicos, obediência às chefias, os governantes chineses têm adoptado uma postura confucionista. Disso exemplo é mote adoptado por Deng Xiaoping de “procurar a verdade dos factos” (实事求是), a que Jiang Zemin (1926 - ) veio juntar o “adequar-se aos tempos atuais” (时俱进), o tem bases profundamente confucionistas, de um conhecimento prático que se atualiza constantemente. As influências confucionistas na ideologia chinesa atual, adaptada à realidade chinesa, o dito socialismo de características chinesas, verifica-se não somente na forma, mas também no conteúdo profundo. Ideias como “Sociedade Comodamente Acomodada” e “Sociedade Comunitária” encontram raízes no Livro dos Ritos, onde a xiaokang shehui e a Grande Harmonia são descritas. Trata-se afinal do que dizia Jean-Louis Rocca, que "o confucionismo representa a única filosofia política chinesa." Talvez pela existência milenar de ideais políticos semelhantes, tenha a ideologia comunista sido tão bem aceite pelo povo chinês. Por isso, é pouco provável que os princípios confucionistas se apaguem da memória coletiva chinesa e mesmo asiática, como base dos “valores asiáticos”. No que se refere ao caso da China continental, com uma visão profundamente utilitária, parece certo que enquanto os princípios confucionistas servirem os propósitos do governo, no seu rumo de promoção do desenvolvimento económico, não serão esquecidos e continuarão mesmo a ser promovidos pelas entidades oficiais, qual harmoniosa inter-relação de yin e yang. Resta-nos saber até quando esta situação se manterá. Livro Os Princípios Confucionistas da Ideologia Chinesa Atual. Abraço. Davi

quinta-feira, 2 de maio de 2019

III. OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA IDEOLOGIA CHINESA ATUAL


Confucionismo. Texto de Jacques Gernet (1921-2018). III. OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA IDEOLOGIA CHINESA ATUAL. A VIDA. Natural do Reino de Zhao (actual província de Shanxi), Xunzi (荀子) teve uma vida breve (298 AC238). Quando nasceu, Mêncio era já um homem maduro. Viajou bastante pelo seu reino, assim como pelos reinos vizinhos de Yan, Chu, Qin e Qi. Apesar de não ter sido reconhecido enquanto esteve no reino de Yan, durante o reinado de Gui, foi nomeado três vezes decano da Academia de Ji Xia, em Qi, um dos reinos centrais de tradição ritualista ligada a Confúcio e Mêncio (372 AC 289). Esta academia foi fundada pela vontade dos soberanos preocupados em aliar o prestígio cultural à sua política de hegemonia. Era o caso do soberano Xuan de Qi que Mêncio conheceu pessoalmente e que encorajava os letrados de todos os municípios a vir a Jixia, oferecendo-lhes todas as comodidades para prosseguir os seus estudos e expor as suas doutrinas. Isto tornou aquela academia num dos principais focos de atividade cultural e ponto de reunião dos grandes pensadores da época nos começos do século III AC. Foi lá que Xunzi teve a oportunidade de se destacar como um polémico defensor da causa confucionista face aos outros pensadores. É aqui que o reconhecimento do poder político do prestígio moral e intelectual dos letrados atinge o auge, os detentores do saber passam a ser chamados de "mestres" (先生). No reino de Zhao discutiu assuntos militares com o Duque de Linwu perante o Imperador Xiao Cheng e, no reino de Qin, fez investigações acerca das políticas adoptadas. Finalmente, em 255, serviu o duque Chun Sheng no reino de Chu como alto magistrado de Lanling (na actual província de Shandong), onde permaneceu até ao fim da sua vida. Foi também ali que compôs o seu livro "Xunzi", com os seus discípulos. "O Livro de Xunzi" é constituído por 32 capítulos, cada um formando um tratado teórico sobre um assunto preciso. Trata-se do único livro da antiguidade chinesa, com exceção do "Han Feizi", com um discurso elaborado e construtivo. Apesar da sua importância, não foi considerado um Clássico. Embora não tivesse tido a oportunidade de assistir à ascensão crescente do reino de Qin através da força e dos meios militares, triunfando sobre todos os outros reinos e fundando a Dinastia Qin, parece que Xunzi não nutriu nenhuma admiração pela eficácia do seu governo. Até porque este se baseava em princípios legistas, contrários à doutrina confucionista. Aliás, na senda do confucionismo, Xunzi não acreditava que o poder militar de Qin fosse suficiente para se impor ao povo, devendo este basear-se antes na humanidade do soberano, tal como já o haviam defendido Confúcio e Mêncio. Na realidade, a repressiva Dinastia Qin (221-206 a.C.) não haveria de durar muito tempo, por contraposição à anterior Dinastia Zhou, a mais longa de toda a História da China. 2.3.2. A CONCEPÇÃO DO HOMEM. Contrapondo-se a Mêncio, Xunzi defendia que a natureza humana é um complexo de tendências anárquicas e irracionais, sendo o homem mau por natureza. Somente através do contacto com os outros indivíduos, poderá o homem tornar-se sociável e civilizado. Segundo Xunzi, na origem toda a humanidade era luta pela posse dos bens, o que gerava desordem. Trata-se de uma teoria pessimista naturalista, semelhante à que Thomas Hobbes (1588-1679) haveria de desenvolver cerca de 20 séculos mais tarde. Defendendo que "a sociedade é a grande educadora dos indivíduos", a bondade torna-se em algo artificial, adquirida pelo treino. Para Xunzi, as qualidades inatas como o amor ao lucro, o ódio e a inveja, os desejos sensuais, não incluem nenhuma predisposição da natureza humana para a moralidade. O espírito dos homens é obscurecido por preconceitos, os quais só serão eliminados através da Razão, do dao (), através da sua capacidade de inteligência e discernimento, o zhi (). Ora, é a inteligência através do coração/espírito, o xin (), que julga se uma ação levada a cabo para satisfazer um desejo é admissível moralmente ou é somente materialmente possível. Só quando agimos de acordo com a Razão haverá ordem social. Por contraposição a Mêncio, Xunzi vê a bondade não na natureza do homem, mas na sua cultura: "A natureza é a raiz e o original, a matéria bruta; o fabricado é o que é desenvolvido até ao desabrochar pela cultura e pelos ritos. Sem a natureza, o fabricado não terá nenhum suporte para trabalhar, sem o fabricado, a natureza não teria nenhum meio de se aperfeiçoar."22 diz Xunzi. Como tal, a moralidade é puramente «fabricada», totalmente exterior à natureza humana. Para Xunzi, individual ou socialmente, a principal virtude a ser cultivada devia ser o li (), a conformidade com as normas rituais. Só através do respeito pelas práticas rituais instituídas, conseguirá o Homem atingir o equilíbrio individual, e também social, entre vícios e virtudes. Isto porque os ritos são um reflexo da ordem cósmica. Apesar dos ritos não serem naturais, têm um valor humano fundamental, trazendo o homem para a harmonia social. Explica Xunzi: "Os homens têm desejos por natureza. Quando os desejos não são satisfeitos, eles não têm outra solução senão procurá-la. Quando esta busca de satisfação não tem medida nem limite apropriado, só pode haver discórdia. Quando há discórdia, haverá desordem; quando há desordem, haverá pobreza. Os antigos reis-sábios odiavam esta confusão, pelo que estabeleceram a regra dos ritos como forma de estabelecer limites à confusão, para educar e nutrir os desejos dos homens, para dar oportunidade à sua busca de satisfação, para que os desejos nunca se extinguissem pelas coisas, nem que as coisas fossem utilizadas pelos desejos; que ambos continuassem a coexistir. É aqui que a regra dos ritos surge." Esta concepção é característica de uma época em que o território chinês se encontrava em convulsão intra reinos e inter-reinos, cada um lutando pelo domínio interno.  A CONCEPÇÃO DO SOBERANO. Xunzi dividiu os homens em três categorias: os homens superiores, que podem tornar-se soberanos ou duques; os homens inferiores, que podem tornar-se em nobres ou funcionários públicos; e os homens comuns que podem tornar-se em trabalhadores, agricultores ou comerciantes. Mas esta distinção baseava-se, não em qualquer ordem preestabelecida de carácter divino ou nobiliárquico, mas sim pelo talento. Ora, os homens superiores deviam respeitar os ritos (), o que assume um cariz mais carregado do que nos confucionistas anteriores. Assim, se os descendentes dos príncipes, nobres e ministros não agissem de acordo com os ritos, deviam ser "despromovidos" para a classe dos homens comuns, enquanto que se a conduta dos descendentes dos homens comuns estivesse de acordo com os ritos, estes deviam ser promovidos a ministros ou magistrados. Xunzi considerava os ritos, ligados diretamente às leis, como o elemento essencial unificador das diversas classes. Quem se conformasse com a legislação devia ser considerado bom e devia ser tratado de acordo com os ritos, caso contrário devia ser aplicado um castigo. Por isso, Xunzi é considerado como o fundador da doutrina da autocracia dos tempos feudais. Um soberano que dominasse os ritos teria nas suas mãos a absoluta autoridade. Estas teorias vão ser desenvolvidas pelos seus discípulos Han Fei e Li Si, que irão ter um papel determinante na fundação do absolutismo na Dinastia Qin e no desenvolvimento da doutrina legista, que acaba por afastar estas concepções relativas às leis dos seus fundamentos. Um dos melhores exemplos que os soberanos podiam encontrar era no tempo dos imperadores das Dinastias Xia (2100 AC 1600), Shang (1600 AC 1100) e Zhou, com especial referência para os desta última. O seguir-se os últimos soberanos incluía em Xunzi mais do que um regresso aos antigos, mas mais uma certa inovação como forma de fortalecer as novas instituições feudais da classe dos proprietários. Isto porque os antigos soberanos tinham inventado os princípios morais que impediam os conflitos. Por isso, havia que estudar os Clássicos, mas não os filósofos, com exceção de Confúcio (551 ac 479). OS NEO-CONFUCIONISTAS Apesar do Confucionismo ainda de forma incipiente ter surgido já durante o período do Reinos Combatentes e apesar da grande receptividade de que foi alvo entre o povo chinês, especialmente entre a classe letrada, não seria logo adoptado como doutrina oficial durante o período da Dinastia que então emergiu, a celebre mas breve Dinastia Qin (221 AC 206), unificadora do território chinês. Na realidade, a forma de governo adoptada pelo Imperador Qin Shihuang não se coadunava com os princípios confucionistas. O governo déspota do Imperador Qin coadunava-se mais com os princípios legistas, pelo que adotou o legismo como doutrina oficial. Foi necessário o aparecimento de uma outra dinastia, a Han (206 AC 220 DC), com um maior desenvolvimento cultural e uma maior abertura, para que o confucionismo se impusesse como doutrina do Estado. A partir de então, apesar de alguns soberanos terem privilegiado mais outras formas de pensamento, nomeadamente religiosas, nunca mais os princípios confucionistas deixaram de ser adoptados pela sociedade chinesa, qualquer que fosse a sua origem. Neste sentido, o confucionismo serviu como verdadeiro cimento aglutinador da sociedade chinesa, na medida em que muitos dos seus princípios continuaram a reger por muito tempo até à atualidade os relacionamentos humanos e mesmo a forma de governar. Mais tarde, mais precisamente durante a Dinastia Song (960-1279), deu-se um ressurgimento da doutrina confucionista. De 1069 a 1073, Wang Anshi (王安石,(1021-1086) preconizou uma série de duras reformas em território chinês. As suas reformas eram de natureza diversa (economia, fisco, exércitos e administração) e procuravam reforçar a autoridade do Estado em detrimento dos interesses privados. Ora, estas provocaram algum descontentamento, pelo que alguns intelectuais da época procuram formas de pensamento alternativas, uma das quais foi desencantar as antigas concepções confucionistas, reformando e trazendo uma lufada de ar fresco a esta filosofia, adaptando-a à nova realidade. Este movimento ficou conhecido como o neo-confucionismo (lixue, 理学). Apesar destes autores se oporem às concepções tauísta e budista, na realidade também incluíram alguns dos seus princípios na nova perspectiva emergente. Foi, aliás, esta linha de pensamento que seguiu Han Yu (768-824), ainda durante a Dinastia Tang (618-907), procurando desenvolver o confucionismo tradicional, especialmente o de Mêncio, adaptando-o às novas condições sociais. HAN YU Han Yu (韩愈, 768-824) nasceu em Nayang (na província de Henan), tendo ficado conhecido como o fundador do movimento literário que adoptava como modelo os escritos em estilo clássico, assim como o preconizador do neo-confucionismo. Viveu durante a Dinastia Tang, quando o budismo teve um grande desenvolvimento na sociedade chinesa e também noutros países da Ásia, nomeadamente na Coreia e no Japão. Contudo, na sequência do apoio que teve entre a Corte, esta religião foi em parte responsável pelo aumento das despesas públicas, devido ao capital investido na construção de templos e à riqueza crescentemente acumulada pelos monges budistas nos seus templos. Estas condições originaram, em meados da Dinastia Tang, uma campanha anti budista, na qual Han Yu teve um papel de liderança. Ora, foi a partir do desenvolvimento da ortodoxia confucionista, que Han Yu desenvolveu esta campanha anti budista. Os ânimos elevaram-se quando, em 819, o Imperador Xianzong preparava a chamada "cerimónia da relíquia do osso de Buda", o que causou alguma sensação dentro e fora da Corte. Han Yu logo apresentou ao Imperador um "Memorando contra as bem-vindas à relíquia de Buda", ao que este respondeu expulsando-o da capital. Han Yu foi viver para Chaozhou (na província de Cantão - Guandong), onde persistiu na sua posição anti-budista. Começou, também, a desenvolver a ortodoxia confucionista. Tal como referido no "Grande Aprendizado", defendia que a única forma de pacificar o mundo era através da cultivação moral do eu individual, e não isolar do mundo num estado de inatividade como ensinavam os budistas. No seu "Tratado sobre o Dao", desenvolveu a noção de benevolência e retidão, sublinhando que as falhas dos budistas e dos tauístas tinham a ver com a violação do modelo normal da vida, tendendo a levar as pessoas a afastarem-se completamente da sociedade e do Estado com todo o código ético que lhes é indispensável. Ainda em relação às qualidades pessoais, Han Yu defendia que os homens deviam estar dotados, não só de natureza humana, mas também de emoções, as quais se originariam do contato da natureza humana com os objetos exteriores. Na medida em que todas as pessoas possuíam as cinco virtudes em diferentes graus de desenvolvimento, individualiza três níveis da natureza humana: superior, médio e inferior. Já no que se refere às emoções humanas, estas são sete: prazer, raiva, tristeza, felicidade, afeto, ressentimento e desejo. Da mesma forma, as pessoas possuem estas sete emoções em diferentes graus de desenvolvimento, o que as coloca em três níveis: inferior, médio e superior. A natureza superior é boa; a média indeterminada, corrigível pela educação ou susceptível de se degradar; a natureza inferior é má. Uma vez atribuídos estes graus, estes são imutáveis, sendo que a educação só poderia ser aplicada para aqueles que se encontravam no nível médio. Esta teoria afasta-o da concepção de Mêncio. Na História, Hanyu salientava o papel determinante dos sábios, a cujas normas todas as pessoas se deviam sujeitar. Trata-se da identificação do Dao com o Céu, que será desenvolvido posteriormente pela Escola Neo-confucionista Cheng-Zhu (程朱), dos irmãos Cheng e de Zhu Xi. ZHOU DUNYI Tal como referido anteriormente, o neo-confucionismo apareceu inicialmente como oposição aos "Novos Ensinamentos" de Wang Anshi” (1021-1086). Um dos principais intelectuais que se opôs a estas reformas foi Sima Guang ( 马光, 1019-1086). No seguimento político de Sima Guang apareceram Zhou Dunyi (周敦), Shao Yong (邵雍) e os irmãos Cheng (程). Intelectualmente, estes seguiam as ideias da Antiga Escola Confucionista de Zi Si-Mêncio. Apesar de, aparentemente estes repudiarem o Budismo e o Tauísmo, na realidade incluíam alguns dos seus ensinamentos na sua teoria. Nas suas considerações filosóficas, os neo-confucionistas estavam essencialmente preocupados com as questões do Princípio, da mente, da natureza humana, etc. Na medida em que surgiram diversas concepções destas questões, geralmente individualiza-se esta filosofia em três escolas: a Escola do idealismo objectivo, liderada por Cheng Yi (程颐)e Zhu Xi (朱熹); a Escola do idealismo subjetivo, liderada por Lu Jiuyuan 陆九渊) e Wang Ming (王明); e a Escola do naturalismo e do utilitarismo liderada por Zhang Zai 张载), Chen Liang 陈亮) e Ye Shi 页适). Porque o objectivo do nosso estudo não é analisar a escola neo-confucionista profundamente, procuraremos fazer uma análise geral sobre as contribuições dos filósofos neo-confucionistas mais importantes para a evolução do confucionismo. Começaremos, então, por Zhou Dunyi. Zhou Dunyi (周敦)1016-1073) foi o fundador do neo-confucionismo propriamente dito. Defendia que a origem do universo era o Princípio Supremo, que não tinha som, nem forma, nem princípio, nem fim. Seria deste Princípio Supremo que originaram o Yin (阴) e o Yang (阳), e da combinação destes surgiram os Cinco elementos, dos quais, por sua vez, se originou o mundo com todos os seus elementos. Zhou reduziu, deste modo, todas as existências a uma entidade indescritível em espiral, que contém todas as implicações da Via, o Dao () ou Princípio, o Li (). A santidade é o objetivo último de todas as considerações cosmológicas que estão ligadas ao domínio humano e com uma preocupação moral tipicamente confucionista. Para Zhou, de todos os seres, o homem era o mais receptivo ao Princípio Supremo. A base do Princípio Supremo é a honestidade perfeita. Tal como Mêncio, Zhou também defendia que todos os seres humanos nasciam com bondade inata, sendo através do seu contato com o mundo exterior que o mal aparece, o que provoca a diferenciação das pessoas. Às pessoas com natureza má, Zhou recomenda que cultivem a sua honestidade perfeita como forma de restabelecer a bondade inata, tornando-se sábias. Por isso, a santidade, que pode ser alcançada por qualquer pessoa, só o será quando houver uma perfeita adequação entre o Homem e o Céu-Terra. Trata-se da prática moral fundada sobre o princípio celeste (天理), como forma de alcançar o equilíbrio perfeito entre a vida interior e a vida exterior. 2.4.3. IRMÃOS SU E IRMÃOS CHENG. Em meados do séc. XI, apareceu uma nova geração formada na senda dos homens de acção de inícios dos Song. É o caso dos dois irmãos Su, que passaram nos exames imperiais, e também dos dois irmãos Cheng, descendentes de uma família de letrados-burocratas do Norte. Enquanto que os irmãos Su 苏)foram colocados na Escola de Ouyang Xiu (欧阳 修), Cheng Yi (颐,1033-1107) e Cheng Hao (颢,1032-1085) foram enviados ainda jovens para junto de Zhou Dunyi para aprenderem com ele. Filhos de um letrado autodidacta, os irmãos Su, Su Shi (苏轼,1037-1101) e Su Che (苏撤,1039-1112) candidataram-se aos exames imperiais e ambos foram bem sucedidos. Contudo, foi o irmão mais velho que sempre se destacou. Aliás, a sua poesia é bastante conhecida na China. Su Shi começou por comentar o "Livro das Mutações" (), dos quais comentários se poderão retirar algumas considerações para construir a sua forma de pensar. Segundo ele, os homens possuem em si próprios a retidão, o que vai de encontro às concepções de Mêncio sobre a bondade inata. É partidário de uma concepção culturalista do homem, do homem de cultura (wen ). Inclui ainda no seu pensamento algumas considerações tauístas de Zhuangzi (庄子), quando defende que o sábio é aquele que encontra o acesso ao princípio das coisas, sublinhando a unidade do mundo, a fusão com a Origem, que o que se mantém sempre autêntico é a natureza. Já no que se refere aos irmãos Cheng, também seguiram rumos diferentes. Assim enquanto Cheng Hao (程颢)se dedicou ao estudo do tauísmo e do budismo, antes de se dedicar ao dao confucionista, já o seu irmão estudou na capital, junto de Hu Yuan. Posteriormente, devido aos diferentes resultados que obtiveram nos exames imperiais, os irmãos Cheng seguiram diferentes percursos. Assim, enquanto Cheng Hão foi bem sucedido e enveredou por uma carreira oficial, o seu irmão reprovou e retirou-se. Mais tarde, haveriam de encontrar-se em Luoyang, onde se dedicam ao ensino e à reflexão filosófica sobre o dao (道学), cada um fundando a sua escola. Depois da morte de seu irmão, Cheng Yi (程颐)tomou para si a missão de fazer reviver o dao confucionista pois defendia que desde o desaparecimento de Mêncio, a doutrina confucionista nunca mais havia sido transmitida. Cheng Yi defende as ideias constantes na "Doutrina do Meio" de que, sendo o decreto do Céu a natureza, é tarefa do homem alcançar o seu destino moral de acordo com o dao celeste. Enquanto seu irmão era mais lírico, exprimindo-se muitas vezes através de poemas, Cheng Yi é mais rigoroso nas suas considerações, o que imprime um carácter mais exigente à escola Cheng-Zhu (程朱). Neste contexto, Cheng Yi desenvolve o conceito de li (理)como princípio normativo, que engloba toda a totalidade, governando tanto o mundo natural como a sociedade humana, não tendo início nem fim. Todas as coisas vêm à existência através deste Princípio dito Divinosendo a sua tarefa definir a função que cada coisa deve ter na ordem natural, como forma de assegurar a harmonia moral. E este Princípio mantém-se por si só em todos os tempos e em todos os lugares, no mundo natural e no código ético da vida social. E como podem as pessoas aprender este Princípio Divino? Cheng Yi responde que é através da manutenção da mente num estado de honestidade e de veneração, enquanto que Cheng Hao defendia que seria através da investigação das coisas, através de um processo em que o Princípio era restaurado e os desejos humanos expulsos. Também aqui, os irmãos Cheng adoptam a teoria dos três níveis da natureza humana de Han Yu. Cheng Yi conclui que o exame cuidado do Princípio, o preenchimento da natureza humana e a realização da vocação, todas os três deviam ser conseguidos em conjunto. ZHU XI E LU JIUYUAN. Nascido em Wuyuan (na Província de Anhui), Zhu Xi (朱熹,1130-1200) cresceu em Fujian, pelo que a sua escola ficou conhecida pela Escola de Fujian. Discípulo da quarta geração de Cheng Yi, Zhu Xi era a figura mais proeminente do neo-confucionismo do seu tempo, tendo tido o papel mais importante na ideologia dos tempos posteriores. Como tal, alguns dos seus seguidores chegaram a compará-lo a Confúcio. Zhu viveu numa altura em que a parte Norte do país tinha caído às mãos dos Jin, pelo que os Song deslocaram a capital mais para Sul - ficando assim conhecidos por Song do Sul - não lhes restando outra solução senão apaziguá- -los ou entrar em guerra com eles. Para Zhu Xi, a solução seria melhorar a situação política através da expulsão dos bárbaros. Depois de passar brilhantemente nos exames imperiais, Zhu Xi enveredou por uma carreira burocrática, com responsabilidades nas escolas, bibliotecas e ritos da sua região de origem. Em 1179, como governador de Nankang, na província de Jiangxi, Zhu Xi dedicou-se completamente à sua missão educativa, fazendo palestras e restabelecendo a “Academia da Gruta do Veado Branco”, que desempenharia um papel de primeiro plano no desenvolvimento das academias privadas e da divulgação da daoxue (道学). Compilou e comentou, ainda, os "Cinco Clássicos" () e os "Quatro Livros" (), procurando reencontrar o espírito original de Confúcio, do qual Mêncio é designado como o seu herdeiro e porta-voz. No que se refere à sua teoria filosófica, Zhu Xi inclui elementos das teorias do Princípio Supremo de Zhou Dunyi e de Cheng Yi. Defendia que o Supremo Princípio era constituído pelo Princípio, o li () e pela Energia, o qi (), sendo o primeiro antecedente do último. Assim, o Princípio Supremo é a origem e ao mesmo tempo a síntese de todos os outros princípios do mundo, é um princípio transcendente e perfeito, enquanto que os outros são princípios concretos que regulam objetos concretos do mundo. Esta teoria tem origens numa seita budista que ensina que as variedades estão compreendidas na entidade, se bem que também se aproxima da noção de dao tauísta. À semelhança do que ocorre com todos os outros objetos do mundo, também os homens são manifestações do Princípio. Como a natureza humana vem diretamente do Princípio Divino, esta é perfeita. Contudo, com o relacionamento com outros seres, também a "natureza humana pelo temperamento", como Zhu Xi define, pode transformar-se em má ou boa. A inspiração menciana, relativo à Mêncio, é aqui clara. Como tinham um temperamento mais calmo e inocente, os sábios eram mais dificilmente afetados pela maldade, enquanto que em relação às pessoas comuns se passava exatamente o contrário. Zhu Xi propunha duas formas através das quais o pensamento podia ser remodelado: o estudo exaustivo do Princípio e manutenção do fervor. Zhu Xi desenvolveu também a interpretação da História, defendendo que o seu curso é determinado pelo pensamento dos soberanos. Enquanto que os antigos reis-sábios praticavam o Princípio Divino, os soberanos dos tempos posteriores praticavam os desejos humanos, pelo que os primeiros reinavam de uma forma real enquanto que os últimos faziam-no de uma forma coerciva. A teoria de Zhu Xi encontrou oposição por parte de Lu Jiuyuan (陆九渊,1139-1193) que, embora também admitindo a existência de um Princípio como a entidade do mundo, defendia que este se encontrava dentro da mente e não fora dela como preconizava Zhu Xi. Por outro lado, enquanto Zhu Xi preconizava a aproximação ao Princípio através do estudo, Lu recomendava a procura de dentro para fora da mente. Enquanto a doutrina de Zhu Xi ficou conhecida como a Escola Racionalista, as ideias de Lu Jiuyuan foram mais tarde desenvolvidas na Escola Idealista de Wang Yangming durante a Dinastia Ming (1368-1644). Aliás, a partir de meados do séc. XIII, o pensamento de Zhu Xi ascende à categoria de ortodoxia e começa a difundir-se por todo o mundo sinizado de então, nomeadamente pela Coreia e Japão. Através de um decreto de 1313 do Imperador Renzong da Dinastia Yuan ou Mongol (1271-1368), os comentários de Zhu Xi aos "Clássicos" e aos "Quatro Livros" são incluídos no programa dos exames imperiais. Livro Os Princípios Confucionistas da Ideologia Chinesa Atual. Abraço. Davi