quarta-feira, 3 de agosto de 2016

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA II.



Espiritismo. Texto de Alan Kardec (1804-1869). INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA II.  SEIS. Como o dissemos, os seres que assim se comunicam designam a si próprios pelo nome de Espíritos ou gênios e como tendo pertencido, pelos menos alguns, aos homens que viveram na Terra. Eles constituem o mundo espiritual, como nós constituímos, durante nossa vida, o mundo corporal. Resumimos, aqui, em poucas palavras, os pontos mais marcantes da doutrina que eles nos transmitiram, a fim de responder mais facilmente a algumas objeções. “Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo poderoso, soberanamente justo e bom. Criou o Universo que compreende todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais. Os seres materiais constituem o mundo visível ou corporal, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos. O mundo espiritual é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e que sobrevive a tudo. O mundo corporal é apenas secundário; ele poderia deixar de existir, ou jamais ter existido, sem alterar a essência do mundo espiritual. Os Espíritos revestem, temporariamente, um envoltório material perecível, cuja destruição pela morte devolve-os à liberdade. Entre as diferentes espécies de seres corporais, Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram a um certo grau de desenvolvimento, é o que lhe dá a superioridade moral e intelectual sobre todas as outras. A alma é um espírito encarnado e o corpo é apenas seu envoltório. Há no homem três coisas: 1o ) o corpo ou ser material, análogo aos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2o ) a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3o ) o elo que une a alma e o corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito. O homem tem, assim, duas naturezas: por seu corpo, ele participa da natureza dos animais dos quais possui os instintos; pela sua alma, ele participa da natureza dos Espíritos. O elo ou perispírito que une o corpo e o Espírito é uma espécie de envoltório semi material. A morte é a destruição do envoltório mais grosseiro, o Espírito conserva o segundo envoltório que constitui para ele um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, mas que pode tornar-se, acidentalmente, visível e até tangível, como acontece no fenômeno das aparições. Assim, o Espírito não é, absolutamente, um ser abstrato, indefinido, que apenas o pensamento pode conceber; é um ser real, circunscrito, que, em certos casos, é apreciável pelos sentidos da visão, da audição e do tato. Os Espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais nem em poder, nem em inteligência, nem em saber, nem em moralidade. Os da primeira ordem são os Espíritos superiores, que se distinguem dos outros por sua perfeição, seus conhecimentos, sua proximidade de Deus, a pureza de seus sentimentos e seu amor pelo bem: são os anjos ou puros Espíritos. As outras classes afastam-se cada vez mais dessa perfeição: os das ordens inferiores são inclinados à maioria de nossas paixões: o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho, etc.; eles se comprazem no mal. Entre estes, há os que nem são muito bons, nem muito maus; mais perturbadores e intrigantes do que malvados, a malícia e as inconsequências parecem ser sua característica: são os Espíritos inconsequentes ou levianos. Os Espíritos não pertencem perpetuamente à mesma ordem. Todos se melhoram, passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esta melhora se dá pela encarnação que é imposta a uns, como expiação e a outros, como missão. A vida material é uma prova a que devem se submeter, repetidamente, até que tenham atingido a perfeição absoluta; é uma espécie de peneira ou filtro de onde saem mais ou menos purificados. Deixando o corpo, a alma retorna ao mundo dos Espíritos de onde tinha saído, para retomar uma nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual ela permanece no estado de Espírito errante. Devendo o Espírito passar por várias encarnações, daí resulta que todos nós tivemos várias existências e que ainda teremos outras, mais ou menos aperfeiçoadas, seja nesta Terra, seja em outros mundos. A encarnação dos Espíritos sempre aconteceu na espécie humana; seria um erro acreditar que a alma ou Espírito pudesse encarnar-se no corpo de um animal.  Há entre esta doutrina da reencarnação e a da metempsicose, tal como a admitem algumas seitas, uma diferença característica que é explicada na sequência desta obra. As diferentes existências corporais do Espírito são sempre progressivas e nunca regressivas; porém a rapidez do progresso depende dos esforços que fazemos para chegar à perfeição. As qualidades da alma são as do Espírito que está encarnado em nós: assim, o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito e o homem perverso, a de um Espírito impuro. A alma possuía sua individualidade antes de sua encarnação; ela a conserva após sua separação do corpo. No seu retorno ao mundo dos Espíritos, a alma aí reencontra todos aqueles que conheceu na Terra, e todas as suas existências anteriores se desenham em sua memória, com a lembrança de todo o bem e de todo o mal que fez. O Espírito encarnado está sob a influência da matéria; o homem que supera esta influência, através da elevação e depuração de sua alma, aproxima-se dos bons Espíritos, com os quais estará um dia. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões e coloca todas as alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, aproximasse dos Espíritos impuros, dando preponderância à natureza animal. Os Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo. Os Espíritos não encarnados ou errantes não ocupam uma região determinada e circunscrita: eles estão por toda a parte, no Espaço e ao nosso lado, vendo-nos e esbarrando em nós incessantemente; é toda uma população invisível que se agita em torno de nós. Os Espíritos exercem, sobre o mundo moral e até sobre o mundo físico, uma ação incessante; agem sobre a matéria e sobre o pensamento, e constituem uma das potências da Natureza, causa efi ciente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados ou mal explicados, e que não encontram uma solução racional senão no Espiritismo. As relações dos Espíritos com os homens são constantes. Os bons Espíritos nos estimulam ao bem, nos sustentam nas provas da vida e nos auxiliam a suportá-las com coragem e resignação; os maus nos incitam ao mal: é para eles uma satisfação ver-nos sucumbir e assemelhar-nos a eles. As comunicações dos Espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas. As comunicações ocultas acontecem pela influência boa ou má que eles exercem sobre nós, à nossa revelia; cabe à nossa razão discernir as boas e as más inspirações. As comunicações ostensivas se dão por meio da escrita, da palavra ou outras manifestações materiais, com mais frequência por intermédio dos médiuns que lhes servem de instrumentos. Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou mediante evocação. Podem-se evocar todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros, como os dos personagens mais ilustres, qualquer que seja a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, de nossos amigos ou de nossos inimigos, e deles obter, através das comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre sua situação de além-túmulo, sobre seus pensamentos a nosso respeito, assim como as revelações que lhes é permitido fazer-nos. Os Espíritos são atraídos em razão de sua simpatia pela natureza moral do meio que os evoca. Os Espíritos superiores se comprazem nas reuniões sérias, onde dominam o amor do bem e o desejo sincero de se instruir e de se melhorar. Sua presença afasta destas os Espíritos inferiores que encontram, ao contrário, um livre acesso e podem agir com toda liberdade, entre as pessoas frívolas ou guiadas apenas pela curiosidade e onde quer que se encontrem maus instintos. Longe de obter deles bons conselhos, ou informações úteis, não se deve esperar deles senão futilidades, mentiras, brincadeiras de mau gosto ou mistificações, pois, frequentemente, tomam nomes venerados para melhor induzir ao erro. A distinção dos bons e dos maus Espíritos é extremamente fácil; a linguagem dos Espíritos superiores é constantemente digna, nobre, impregnada da mais elevada moralidade, livre de qualquer paixão inferior; seus conselhos exalam a mais pura sabedoria e têm sempre por objetivo nosso melhoramento e o bem da Humanidade. A dos Espíritos inferiores, ao contrário, é inconsequente, frequentemente trivial e até grosseira; se eles dizem, às vezes, coisas boas e verdadeiras, dizem-nos, mais frequentemente, coisas falsas e absurdas, por malícia ou por ignorância; zombam da credulidade e se divertem às custas daqueles que os interrogam, lisonjeando sua vaidade, embalando seus desejos com falsas esperanças. Em resumo, as comunicações sérias, na mais ampla acepção do termo, só se dão nos centros sérios, naqueles cujos membros estão unidos por uma comunhão íntima de pensamentos, objetivando o bem. A moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: Agir para com os outros, como quereríamos que os outros agissem para conosco; isto é, fazer o bem e não fazer absolutamente o mal. O homem encontra neste princípio a regra universal de conduta para suas menores ações. Eles nos ensinam que o egoísmo, o orgulho, a sensualidade são paixões que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos à matéria; que o homem que, ainda neste mundo, se desligue da matéria através do desprezo às futilidades mundanas e do amor ao próximo, aproxima-se da natureza espiritual; que cada um de nós deve se tornar útil, conforme as faculdades e os meios que Deus colocou em suas mãos para experimentá-lo; que o Forte e o Poderoso devem apoio e proteção ao Fraco, pois aquele que abusa de sua força e de seu poder para oprimir seu semelhante viola a lei de Deus. Ensinam, finalmente, que nada podendo estar oculto, no mundo dos Espíritos o hipócrita será desmascarado e todas as suas torpezas reveladas; que a presença inevitável e de todos os instantes daqueles para com os quais tivermos agido mal é um dos castigos que nos estão reservados; que ao estado de inferioridade e de superioridade dos Espíritos correspondem penas e gozos que nos são desconhecidos na Terra. Mas eles nos ensinam, também, que não há faltas irremissíveis e que não possam ser apagadas pela expiação. Para tal, o homem encontra o meio nas diferentes existências que lhe permitem avançar, conforme o seu desejo e seus esforços, no caminho do progresso em direção à perfeição, que é seu objetivo final. Este é o resumo da Doutrina Espírita, assim como ela resulta do ensinamento dado pelos Espíritos superiores. Vejamos, agora, as objeções que se lhe opõem. SETE.  Para muita gente, a oposição das corporações científicas é, senão uma prova, pelo menos uma forte presunção contrária. Não somos daqueles que protestam contra os pesquisadores, pois não queremos que digam que damos coices; temo-los, ao contrário, em grande estima e ficaríamos muito honrados de nos contar entre eles; porém a opinião deles não poderia representar um julgamento irrevogável em todas as circunstâncias. Caso a Ciência saia da observação material dos fatos, quando se trata de apreciar e explicar estes fatos, o campo fica aberto às conjecturas; cada um apresenta seu sistemazinho que deseja fazer prevalecer e sustenta obstinadamente. Não vemos todos os dias as opiniões mais divergentes alternadamente preconizadas e rejeitadas? Ora repelidas como erros absurdos, depois proclamadas como verdades incontestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério de nossos julgamentos, o argumento sem réplica; na ausência de fatos, a dúvida é a opinião do homem sensato. Para as coisas notórias, a opinião dos estudiosos é, com razão, digna de fé, porque sabem mais e melhor que o leigo; porém, diante de princípios novos, de coisas desconhecidas, sua maneira de ver sempre é apenas hipotética, porque não estão, mais do que outros, isentos de preconceitos; direi mesmo que o sábio talvez tenha mais preconceitos que qualquer outro, porque uma propensão natural o leva a subordinar tudo ao ponto de vista que aprofundou: o matemático não vê prova senão numa demonstração algébrica, o químico refere tudo à ação dos elementos, etc. Qualquer homem que se torne especialista a ela fixa todas as suas ideias; tiraio daí, e ele, com frequência, divaga, porque quer submeter tudo ao mesmo cadinho: é uma consequência da fraqueza humana. Consultarei, portanto, de boa vontade e com toda confiança um químico sobre uma questão de análise, um físico sobre a potência elétrica, um mecânico sobre uma força motriz; porém, eles me permitirão, e sem que isso atinja o respeito que seu saber especial lhes confere, não ter a mesma consideração por sua opinião negativa acerca do Espiritismo, não mais do que pelo julgamento de um arquiteto sobre uma questão de música. As ciências comuns fundamentam-se nas propriedades da matéria que se pode experimentar e manipular à vontade; os fenômenos espíritas baseiam-se na ação de inteligências que possuem sua vontade, e nos provam, a cada instante, que não se encontram à disposição de nossos caprichos. As observações não podem, portanto, ser feitas da mesma forma: elas requerem condições especiais e um outro ponto de partida; querer submetê-las aos nossos procedimentos comuns de investigação, é estabelecer analogias que não existem. A Ciência propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo: ela não tem que se ocupar com isso, e seu julgamento, qualquer que seja ele, favorável ou não, não teria peso algum. O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal que os sábios podem ter como indivíduos, abstração feita de sua qualidade de sábios; mas querer entregar a questão à Ciência, equivaleria a que uma assembleia de físicos e astrônomos decidisse sobre a existência da alma; com efeito, o Espiritismo está todo na existência da alma e no seu estado após a morte; ora, é soberanamente ilógico pensar que um homem deva ser um grande psicólogo, porque é um grande matemático, ou um grande anatomista. O anatomista, dissecando o corpo humano, procura a alma e, já que não a encontra sob seu escalpelo, como aí encontra um nervo, ou porque não a vê exala-se como um gás, daí conclui que ela não existe, porque se coloca do ponto de vista exclusivamente material; disto decorre que ele tenha razão contra a opinião universal? Não. Vedes, portanto, que o Espiritismo não é da alçada da Ciência. Quando as crenças espíritas se popularizarem, quando forem aceitas pelas massas e, se julgarmos pela rapidez com a qual elas se propagam, esse tempo não pode estar muito distante, acontecerá com elas o que se dá com todas idéias novas que têm encontrado oposição: os sábios se renderão à evidência; a isto chegarão, individualmente, pela força das coisas. Até lá é intempestivo desviá-los de seus trabalhos especiais, para constrangê-los a se ocuparem com algo estranho, que não está nem nas suas atribuições, nem no seu programa. Enquanto isso, aqueles que, sem um estudo prévio e aprofundado da matéria, se pronunciam pela negativa e ridicularizam quem quer que não seja de sua opinião, esquecem que aconteceu o mesmo com a maioria das grandes descobertas que honram a Humanidade; expõe-se a ver seus nomes aumentarem a lista dos ilustres proibidores das ideias novas e inscritos ao lado daqueles dos membros da douta assembleia que, em 1752, acolheu com uma enorme gargalhada a tese de Franklin sobre os para raios, julgando-a indigna de figurar entre as comunicações que lhe eram dirigidas; e daquela outra que fez a França perder o benefício da iniciativa da marinha a vapor, declarando o sistema de Robert Fulton (1765-1815) um sonho impraticável; e, entretanto, eram questões de sua alçada. Logo, se essas assembleias, que contavam em seu seio a elite dos sábios do mundo, só tiveram zombarias e sarcasmo pelas ideias que não compreendiam, ideias que, alguns anos mais tarde, revolucionariam a Ciência, os costumes e a indústria, como esperar que uma questão estranha aos seus trabalhos obtenha melhor acolhimento? Esses erros de alguns, deploráveis para sua memória, não poderiam retirar nossa consideração por eles em função dos títulos que adquiriram a outros respeitos, mas será necessário um diploma ofi cial para se ter bom senso e será que fora das cátedras acadêmicas existem apenas tolos e imbecis? Lancem os olhos sobre os adeptos da Doutrina Espírita, e ver-se-á se nela se encontram apenas ignorantes e se o número imenso de homens de mérito que a têm abraçado permite relegá-la ao rol das crenças simplórias. Seu caráter e seu saber valem a pena que se diga: já que tais homens afi rmam, nisto deve haver pelo menos alguma coisa. Repetimos ainda que, se os fatos com os quais nos ocupamos se tivessem limitado ao movimento mecânico dos corpos, a pesquisa da causa física desse fenômeno entraria no domínio da Ciência; porém desde que se trata de uma manifestação fora das leis da Humanidade, ela sai da competência da Ciência material, pois nem pode ser explicada pelos algarismos, nem pelo poder mecânico. Quando surge um fato novo, que não ressalta de nenhuma Ciência conhecida, o sábio, deve abstrair-se de sua Ciência, e dizer a si mesmo que para ele é um estudo novo e que não pode ser feito com ideias preconcebidas. O homem que acredita que sua razão é infalível está bem perto do erro; até mesmo aqueles que possuem as ideias mais falsas se apoiam em sua razão e é em virtude disso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível. Aqueles que outrora repeliram as admiráveis descobertas com as quais a Humanidade se honra, apelaram todos a esse juiz para rejeitá-las: o que se chama razão não é, frequentemente, senão o orgulho disfarçado e quem quer que se creia infalível, coloca-se como igual a Deus. Dirigimo-nos, pois, àqueles que são bastante ponderados para duvidar do que não viram e que, julgando o futuro pelo passado, não acreditam que o homem tenha chegado ao seu apogeu, nem que a Natureza tenha virado para ele a última página de seu livro. OITO.  Acrescentamos que o estudo de uma doutrina, assim como a Doutrina Espírita, que nos lança, de repente, numa ordem de coisas tão nova e tão grande, só pode ser feito com proveito por homens sérios, perseverantes, isentos de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado. Não poderíamos dar essa qualificação àqueles que julgam a priori, levianamente e sem ter visto tudo; que não imprimem aos seus estudos nem a continuidade, nem a regularidade nem o recolhimento necessários; não poderíamos dá-la, menos ainda, a certas pessoas que, para não perderem sua reputação de homens inteligentes, esforçam-se para encontrar um lado cômico nas coisas mais verdadeiras, ou assim consideradas por pessoas, cujo saber, caráter e convicções têm direito ao respeito de quem quer que tenha pretensão de ser educado. Portanto, que aqueles que não julgam os fatos dignos de si nem de sua atenção se abstenham; ninguém pretende violentar-lhes a crença, mas que admitam respeitar a dos outros. O que caracteriza um estudo sério, é a continuidade que se lhe dá. Será de espantar o fato de não se obter, frequentemente, nenhuma resposta sensata a questões, graves por si mesmas, quando são feitas ao acaso e lançadas, bruscamente, no meio de uma multidão de questões bizarras? Aliás, uma questão é frequentemente complexa e pede, para ser esclarecida, questões preliminares ou complementares. Quem quer que deseje adquirir conhecimento de uma ciência deve fazer um estudo metódico, começar pelo princípio e seguir o encadeamento e o desenvolvimento das ideias. Aquele que, por acaso, dirige a um sábio uma questão sobre uma ciência da qual ele não sabe a primeira palavra, progredirá com isto? O próprio sábio poderá, com a melhor boa vontade, dar-lhe uma resposta satisfatória? Esta resposta isolada será forçosamente incompleta e, com freqüência, por isso mesmo, ininteligível, ou poderá parecer absurda e contraditória. Acontece exatamente o mesmo nas relações que estabelecemos com os Espíritos. Querendo instruir-vos em sua escola, é preciso fazer um curso com eles; mas como entre nós, deveis escolher vossos professores e trabalhar com assiduidade. Dissemos que os Espíritos superiores só vão às reuniões sérias, e sobre tudo àquelas em que reine uma perfeita comunhão de pensamentos e de sentimentos  para o bem. A leviandade e as questões fúteis os afastam, como, entre os homens, elas afastam as pessoas sensatas; o campo fica, então, livre à turba dos Espíritos mentirosos e frívolos, sempre à espreita das ocasiões de zombar e de se divertir às nossas custas. O que acontece com uma pergunta séria numa reunião como esta? Será respondida, mas, por quem? É como se, no meio de um bando de brincalhões, lançásseis estas questões: Que é a alma? Que é a morte? e outras coisas bem recreativas. Se quiserdes respostas sérias, sede sérios vós mesmos, em toda a acepção da palavra e apresentai-vos com todas as condições desejadas; somente assim, obtereis grandes coisas. Sede, além disso, laboriosos e perseverantes nos vossos estudos, sem o que os Espíritos superiores vos abandonam, como o faz um professor para com os seus alunos negligentes. NOVE.  O movimento dos objetos é um fato incontestável; a questão é saber se, nesse movimento, há ou não uma manifestação inteligente, e em caso afirmativo, qual é a origem dessa manifestação. Não falamos do movimento inteligente de certos objetos, nem das comunicações verbais, nem mesmo daquelas que são escritas diretamente pelo médium; esse gênero de manifestação, evidente para aqueles que viram e aprofundaram o assunto, não é absolutamente, à primeira vista, bastante independente da vontade, para convencer um observador novato. Falaremos, portanto, apenas da escrita obtida com o auxílio de um objeto qualquer: um lápis, uma cesta, prancheta, etc.; a maneira como os dedos do médium repousam sobre o objeto desafia, como o dissemos, a mais consumada habilidade de poder participar, no que quer que seja, do traçado dos caracteres. Porém, admitamos ainda, que, através de uma maravilhosa destreza, ele possa enganar o olhar mais investigador; como explicar a natureza das respostas, quando elas estão fora de todas as ideias e de todos os conhecimentos do médium? E observe-se bem que não se trata de respostas monossilábicas, mas, frequentemente, de várias páginas escritas com a mais espantosa rapidez, seja espontaneamente, seja sobre um assunto determinado; sob a mão do médium mais estranho à literatura, nascem, às vezes, poesias de uma sublimidade e de uma pureza irrepreensíveis, que os melhores poetas humanos não desaprovariam. O que aumenta ainda mais a estranheza desses fatos, é que se produzem por toda a parte, e que os médiuns se multiplicam ao infinito. Esses fatos são reais ou não? Para isso temos somente uma resposta: vede e observai; não vos faltarão oportunidades; mas, sobretudo, observai com frequência, durante longo tempo e conforme as condições exigidas. O que os antagonistas respondem à evidência? Vós sois, dizem eles, vítimas do charlatanismo ou o joguete de uma ilusão. Diremos, primeiramente, que é preciso afastar a palavra charlatanismo de onde não há lucros; os charlatães não exercem o seu ofício gratuitamente. Seria, portanto, quando muito, uma falsificação. Mas, por que estranha coincidência esses mistificadores aliar-se-iam de um extremo ao outro do mundo, para agir do mesmo modo, produzir os mesmos efeitos, e dar sobre os mesmos assuntos e em diversas línguas, respostas idênticas, senão quanto às palavras, pelo menos quanto ao sentido? Como pessoas austeras, sérias, honradas, instruídas se prestariam a semelhantes manobras, e com que objetivo? Como encontraríamos em crianças, a paciência e a habilidade necessárias? Pois se os médiuns não são instrumentos passivos, são lhes necessários habilidade e conhecimentos incompatíveis com uma certa idade e certas posições sociais. Acrescentam, então, que se não há fraude, podemos ser vítimas de uma ilusão de ambos os lados. Em boa lógica, a qualidade das testemunhas tem um certo peso; ora, aqui está o caso de perguntar se a Doutrina Espírita, que hoje conta adeptos aos milhões, não os recruta senão entre os ignorantes? Os fenômenos sobre os quais ela se apoia são tão extraordinários que concebemos a dúvida; mas o que não se poderia admitir, é a pretensão de alguns incrédulos ao monopólio do bom senso, que, sem respeito para com as conveniências ou o valor moral de seus adversários, tacham, sem cerimônia, de ineptos todos aqueles que não são de sua opinião. Aos olhos de qualquer pessoa judiciosa, a opinião das pessoas esclarecidas que viram durante muito tempo, estudaram e meditaram sobre uma coisa, será sempre, senão uma prova, pelo menos uma presunção em seu favor, visto que ela pôde prender a atenção de homens sérios, que não tinham interesse algum em propagar um erro, nem tempo a perder com futilidades. DEZ. Dentre as objeções, há algumas das mais enganosas, pelo menos na aparência, porque se baseiam na observação e são feitas por pessoas austeras. Uma dessas objeções é tirada da linguagem de certos Espíritos que não parece digna da elevação que se supõe em seres sobrenaturais. Reportando-se ao resumo da doutrina que apresentamos acima, ver-se-á aí que os próprios Espíritos nos ensinam que eles não são iguais nem em conhecimentos, nem em qualidades morais, e que não se deve levar ao pé da letra tudo o que dizem. Cabe às pessoas sensatas separar o bom do mal. Certamente, aqueles que tiram desse fato a conclusão de que só nos comunicamos com seres maléficos, cuja única ocupação é nos ludibriar, não conhecem as comunicações que acontecem nas reuniões onde só se manifestam Espíritos superiores, do contrário, não pensariam assim. É lamentável que o acaso os tenha tão mal servido para só lhes mostrar o lado mau do mundo espiritual, pois não aceitamos supor que uma tendência simpática atraia muito mais para eles os maus Espíritos, do que os bons: os Espíritos mentirosos, ou aqueles cuja linguagem é de grosseria revoltante. Poder-se-ia, além do mais, concluir que a solidez de seus princípios não é bastante poderosa para afastar o mal e que, encontrando um certo prazer em satisfazer-lhes a curiosidade a esse respeito, os maus Espíritos disso se aproveitem para se insinuar entre eles, enquanto que os bons se afastam. Julgar a questão dos Espíritos por esses fatos, seria tão pouco lógico quanto julgar o caráter de um povo pelo que se diz e se faz numa reunião de alguns obstruem ou de pessoas de má reputação que não se relacionam nem com os prudentes, nem com as pessoas sensatas. Essas pessoas encontram-se na mesma situação de um estrangeiro que, chegando a uma grande capital pelo mais feio subúrbio, julgasse todos os habitantes pelos costumes e a linguagem desse bairro ínfimo. No mundo dos Espíritos, há também uma boa e uma má sociedade; que essas pessoas aceitem estudar o que se passa entre os Espíritos de elite, e se convencerão de que a cidade celeste encerra algo além da ralé. Mas, dizem, os Espíritos de elite vêm até nós? A isso nós lhes responderemos: Não fiqueis no subúrbio; vede, observai e julgareis; os fatos aí estão para todo o mundo; a menos que não se apliquem a elas estas palavras de Jesus: Eles têm olhos e não vêm; ouvidos e não ouvem. Uma variante dessa opinião consiste em ver, nas comunicações espíritas e em todos os fatos materiais aos quais elas dão lugar, apenas a intervenção de um poder diabólico, novo Proteu (mitologia grega filho de Tetis e Oceanus) que se revestiria de todas as formas para melhor nos enganar. Não a julgamos suscetível de um exame sério, é por isso que não nos deteremos nela; ela se acha refutada pelo que acabamos de dizer; somente acrescentaremos que, se assim fosse, seria preciso admitir que o diabo é algumas vezes bem prudente, bem comedido e, sobretudo, bem moral, ou então, que há também bons diabos. Efetivamente, como acreditar que Deus só permita ao Espírito do mal manifestar-se, para nos perder, sem dar-nos, como contrapeso, os conselhos dos bons Espíritos? Se Ele não o pode, é impotente; se o pode e não faz isto, é incompatível com sua bondade; uma e outra suposição seriam uma blasfêmia. Notai que admitir a comunicação dos maus Espíritos, é reconhecer o princípio das manifestações; ora, desde que elas existam, só pode ser com a permissão de Deus. Como acreditar, sem impiedade, que ele só permita o mal, com exclusão do bem? Uma doutrina assim seria contrária às mais simples noções do bom senso e da religião. ONZE. Uma coisa estranha, acrescentam, é que só se fale de Espíritos de personagens conhecidos, e se perguntam por que eles são os únicos a se manifestar. Aqui está um erro proveniente, como muitos outros, de uma observação superfi cial. Dentre os Espíritos que vêm espontaneamente, há muito mais desconhecidos para nós do que ilustres, que se designam através de um nome qualquer e, frequentemente, por um nome alegórico ou característico. Quanto àqueles que se evocam, a menos que não seja um parente ou um amigo, é bastante natural dirigir-nos àqueles que conhecemos, mais do que aos desconhecidos; o nome dos personagens ilustres impacta muito mais, é por isso que são mais notados. Acham ainda singular que os Espíritos de homens eminentes acorram, familiarmente, ao nosso apelo, e se ocupem, algumas vezes, de coisas minuciosas, em comparação àquelas de que trataram durante sua vida. Nada há de surpreendente nisso para os que sabem que o poder ou a consideração de que esses homens gozaram neste mundo, não lhes dá supremacia alguma no mundo espiritual; os Espíritos confirmam, neste caso, estas palavras do Evangelho: “Os grandes serão rebaixados e os pequenos serão elevados”, o que se deve entender como uma referência à ordem que cada um de nós ocupará entre eles; é assim que aquele que tenha sido o primeiro na Terra, pode, lá, ser um dos últimos; aquele diante do qual curvávamos a cabeça, durante sua vida, pode, então, vir entre nós como o mais humilde artesão, pois, deixando a vida, deixou toda a sua grandeza, e o mais poderoso monarca talvez, lá, esteja abaixo do último de seus soldados. DOZE. Um fato demonstrado pela observação e confirmado pelos próprios Espíritos é que os Espíritos inferiores, frequentemente, apossam-se de nomes conhecidos e respeitados. Quem, portanto, pode nos assegurar que aqueles que dizem ter sido, por exemplo, Sócrates, Júlio César, Carlos Magno, Fénelon, Napoleão, Washington, etc., tenham, realmente, animado estas personalidades? Esta dúvida existe entre alguns adeptos muito fervorosos da Doutrina Espírita; eles admitem a intervenção e a manifestação dos Espíritos, mas se perguntam que certeza se pode ter de sua identidade. Esse controle é, com efeito, bastante difícil de se estabelecer: se não pode ser de uma forma tão autêntica quanto por uma certidão de estado civil, podeo, pelo menos, por presunção, conforme alguns indícios. Quando se manifesta o Espírito de alguém que nos é pessoalmente conhecido, de um parente ou de um amigo, por exemplo, sobretudo se ele morreu há pouco tempo, acontece, geralmente, que sua linguagem está de acordo com o caráter que apresentava quando vivo: já é um indício de identidade; a dúvida, porém, quase não é mais admitida quando este Espírito fala de coisas particulares, lembra circunstâncias de família que só são conhecidas do interlocutor. Um filho não se enganará, certamente, com a linguagem de seu pai ou de sua mãe, nem pais com a de seu filho. Acontecem, algumas vezes, nessas espécies de evocações íntimas, coisas surpreendentes, que convencem o mais incrédulo. O cético (descrente que duvida) mais endurecido fica, frequentemente, aterrado com revelações inesperadas que lhe são feitas. Uma outra circunstância muito característica vem em apoio da identidade. Dissemos que a caligrafia do médium, geralmente, muda com o Espírito evocado, e que esta caligrafia se reproduz, exatamente igual, cada vez que o mesmo Espírito se apresenta; constatou-se inúmeras vezes que, para as pessoas mortas, sobretudo há pouco tempo, essa caligrafia tem uma semelhança impressionante com a da pessoa em vida; têm-se visto assinaturas de uma exatidão perfeita! De resto, estamos longe de apontar este fato como uma regra e, sobretudo, como constante; nós o mencionamos como algo digno de nota. Apenas os Espíritos que chegaram a um certo grau de purificação estão livres de qualquer influência corporal; mas quando não estão completamente desmaterializados (é a expressão da qual se servem), conservam a maioria das ideias, dos pendores e até das manias que tinham na Terra, e aí está mais um meio de reconhecimento; mas encontramo-los, sobretudo, numa infinidade de fatos minuciosos que só uma observação atenta e regular pode revelar. Vêm-se escritores discutirem suas próprias obras ou suas doutrinas, aprovar ou condenar algumas partes delas; outros Espíritos lembrarem circunstâncias ignoradas ou pouco conhecidas de sua vida ou de sua morte, enfim, coisas que são, pelo menos, provas morais de identidade, as únicas que podem ser invocadas diante de coisas abstratas. Portanto, se a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo ponto, estabelecida em alguns casos, não há razão para que não o seja em outros, e se não se têm, os mesmos meios de controle, para as pessoas cuja morte é mais antiga, tem-se sempre o da linguagem e do caráter; pois, certamente, o Espírito de um homem de bem não falará como o de um homem perverso ou de um depravado. Quanto aos Espíritos que se apropriam de nomes respeitáveis, logo se traem por sua linguagem e suas máximas; aquele que se dissesse Fénelon, por exemplo, e que ferisse, ainda que acidentalmente, o bom-senso e a moral, mostraria, por isso mesmo, a falsificação. Se, ao contrário, os pensamentos que exprime são sempre puros, sem contradições e continuamente à altura do caráter de François Fénelon (1651-1715), não há motivos para duvidar de sua identidade; de outra forma, seria preciso supor que um Espírito que só prega o bem pudesse, conscientemente, utilizar a mentira, e isto, sem utilidade. A experiência nos ensina que os Espíritos do mesmo grau, do mesmo caráter e animados pelos mesmos sentimentos reúnem-se em grupos e em famílias; ora, o número dos Espíritos é incalculável e estamos longe de conhecê-los todos: a maioria mesmo não tem nomes para nós. Um Espírito da categoria de Fénelon pode, pois, vir em seu lugar, frequentemente até, enviado por ele como representante; apresenta-se com seu nome, por ser idêntico a ele e poder substituí-lo e porque precisamos de um nome para fixar nossas ideias; mas, o que importa, em definitivo, que um Espírito seja, realmente ou não, o de Fénelon? Se só disser coisas boas e falar como o teria feito o próprio Fénelon, é um bom Espírito; o nome sob o qual ele se faz conhecer é indiferente e, frequentemente, apenas um meio de fixar nossas ideias. Não poderia ser da mesma forma nas evocações íntimas; porém, aí, como o dissemos, a identidade pode ser estabelecida através das provas, de certo modo, patentes. Além disso, é certo que a substituição dos Espíritos pode dar lugar a uma porção de equívocos, que daí podem resultar erros e, com frequência, mistificações; aí está uma dificuldade do Espiritismo prático; jamais, porém, dissemos que essa ciência fosse uma coisa fácil, nem que se pudesse aprendê-la brincando, exatamente como qualquer outra ciência. Nunca será demais repetir que ela pede um estudo assíduo e com constância prolongada; não se podendo provocar os fatos, é preciso esperar que eles se apresentem por si mesmos e, frequentemente, eles decorrem de circunstâncias que nem imaginamos. Para o observador atento e paciente, os fatos abundam, porque ele descobre milhares de matizes característicos que são, para ele, traços de luz. Acontece o mesmo com as ciências comuns; enquanto o homem superficial não vê numa flor senão uma forma elegante, o sábio nela descobre tesouros para o pensamento. TREZE. As observações acima nos levam a dizer algumas palavras sobre uma outra dificuldade, a da divergência que existe na linguagem dos Espíritos. Sendo muito diferentes uns dos outros os Espíritos, do ponto de vista dos conhecimentos e da moralidade, é evidente que a mesma questão pode ser resolvida num sentido oposto, conforme a categoria que ocupem, exatamente como se ela fosse proposta alternadamente, entre os homens, a um sábio, a um ignorante ou a um brincalhão de mau gosto. O ponto essencial, já o dissemos, é saber a quem nos dirigimos. Mas, acrescentam, como se explica que os Espíritos reconhecidos por serem superiores, não estejam sempre de acordo? Diremos, primeiramente, que, independentemente da causa que acabamos de assinalar, há outras que podem exercer uma certa influência sobre a natureza das respostas, abstração feita da qualidade dos Espíritos; isto é um ponto capital cujo estudo dará a explicação; é por isso que dizemos que esses estudos requerem uma atenção demorada, uma observação profunda e, como aliás, todas as ciências humanas, sobretudo, continuidade e perseverança. São necessários anos para formar um médico medíocre, três quartos da vida para formar um sábio e se desejaria, em algumas horas, adquirir a Ciência do Infi nito! Portanto, que ninguém se engane: o estudo do Espiritismo é imenso; ele tem relação com todas as questões da metafísica e da ordem social; é todo um mundo que se abre diante de nós. É de admirar que se precise de tempo, de muito tempo para adquiri-lo? Aliás, a contradição nem sempre é tão real quanto possa parecer. Não vemos, todos os dias, homens que professam a mesma ciência variarem na definição que dão de uma coisa, seja porque utilizam termos diferentes, seja porque a encaram sob um outro ponto de vista, embora a ideia fundamental seja sempre a mesma? Que se conte, se for possível, o número das definições de gramática que têm sido dadas! Acrescentemos, ainda, que a forma da resposta depende, muitas vezes, da forma da pergunta. Portanto, seria pueril encontrar uma contradição, onde geralmente só há diferença de palavras. Os Espíritos superiores não se preocupam absolutamente com a forma; para eles, a essência do pensamento é tudo. Tomemos, como exemplo a definição de alma. Por não possuir esta palavra acepção única, os Espíritos podem, assim como nós, divergir na definição que deem dela: um poderá dizer que ela é o princípio da vida; um outro, chamá-la de centelha anímica; um terceiro, dizer que ela é interna; um quarto, que ela é externa, etc., e todos terão razão nos seus pontos de vista. Poder-se-ia até acreditar que alguns deles professem teorias materialistas e, todavia, não ser assim. Acontece o mesmo relativamente a Deus, que será: o princípio de todas as coisas, o Criador do Universo, a soberana inteligência, o infinito, o grande Espírito, etc., etc. Definitivamente, será sempre Deus. Citemos, finalmente, a classificação dos Espíritos. Eles formam uma sequência ininterrupta, desde o grau inferior até o grau superior. A classificação é, portanto, arbitrária; um poderá fazê-la em três classes; outro, em cinco, dez ou vinte, à vontade, sem que por isso esteja errado; todas as ciências humanas nos dão o exemplo disto: cada cientista tem o seu sistema; os sistemas mudam, mas a Ciência não muda. Quer se aprenda a botânica pelo sistema de Linnée, de Jussieu, ou de Tournefort, não se saberá menos botânica por isso. Deixemos, pois, de dar às coisas puramente convencionais mais importância do que merecem para nos ater apenas ao que é verdadeiramente sério e, com frequência, a reflexão fará descobrir no que parece ser o maior disparate, uma similitude que havia escapado a um primeiro exame. QUATORZE. Passaríamos, superficialmente, sobre a objeção de alguns cépticos, a propósito de erros de ortografia cometidos por alguns Espíritos, se ela não possibilitasse a uma observação essencial. A ortografia deles, é preciso dizê-lo, nem sempre é irrepreensível; mas é preciso estar muito carente de razões para fazer disso o objeto de uma crítica séria, dizendo que, já que os Espíritos sabem tudo, devem saber ortografia. Poderíamos opor-lhes os numerosos pecados deste gênero cometidos por mais de um sábio da Terra, o que nada lhes tira de seu mérito; porém, há neste fato uma questão mais grave. Para os Espíritos e principalmente para os Espíritos superiores, a ideia é tudo, a forma é nada. Livres da matéria, a linguagem que utilizam entre si é rápida como o pensamento, visto que o próprio pensamento é que se comunica sem intermediário; logo, eles não devem se achar à vontade, quando são obrigados, para se comunicar conosco, a se servir das formas longas e embaraçosas da linguagem humana e, sobretudo, da insuficiência e da imperfeição desta linguagem para exprimir todas as ideias; é o que eles próprios dizem. Também é curioso ver os meios de que se utilizam, muitas vezes, para atenuar esse inconveniente. Aconteceria o mesmo conosco se tivéssemos que nos exprimir numa língua de palavras e de estruturas mais longas, e mais pobre nas suas expressões do que a que usamos. É o obstáculo que experimenta o homem de gênio que se impacienta com a lentidão de sua pena, sempre atrasada com relação ao seu pensamento. Concebe-se, diante disto, que os Espíritos dão pouco valor à puerilidade da ortografia, principalmente, quando se trata de um ensino importante e sério; aliás, já não é maravilhoso que eles se exprimam, indiferentemente, em todas as línguas e que as compreendam todas? Não se deve concluir daí, todavia, que a correção convencional da linguagem lhes seja desconhecida; eles a observam quando isto é necessá- rio; é assim, por exemplo, que a poesia ditada por eles desafiaria, frequentemente, a crítica do mais meticuloso purista e isto apesar da ignorância do médium. QUINZE.  Há, ainda, pessoas que vêem perigo em toda a parte e em tudo o que não conhecem; também não deixam de tirar uma conclusão desfavorável pelo fato de que algumas pessoas que, tendo-se dedicado a esses estudos, perderam a razão. Como homens sensatos podem ver nesse fato uma objeção séria? Não acontece o mesmo com todas as preocupações intelectuais sobre um cérebro fraco? Sabe-se o número de loucos e de maníacos produzido pelos estudos matemáticos, médicos, musicais, filosóficos e outros? Seria o caso de banir esses estudos por isso? O que isso prova? Através dos trabalhos corporais estropiam-se os braços e as pernas, que são os instrumentos da ação material; através dos trabalhos da inteligência, estropia-se o cérebro, que é o instrumento do pensamento. Porém, se o instrumento foi quebrado, não se dá o mesmo com o espírito: ele permanece intacto; e quando está desligado da matéria, não goza menos da plenitude de suas faculdades. Ele é, como homem, no seu gênero, um mártir do trabalho. Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura: as ciências, as artes e até a religião fornecem seu contingente. A loucura tem como causa primeira uma predisposição orgânica do cérebro que o torna mais ou menos acessível a certas impressões. Havendo uma predisposição para a loucura, esta tomará o caráter da preocupação principal que se torna, então, uma ideia fixa. Essa ideia fixa poderá ser a dos Espíritos, naquele que com eles se ocupou, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma Ciência, da maternidade, de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso se tivesse tornado um louco espírita, caso o Espiritismo tivesse sido sua preocupação dominante, como o louco espírita poderia tê-lo sido sob uma outra forma, conforme as circunstâncias. Digo, portanto, que o Espiritismo não tem privilégio algum a esse respeito; e vou mais longe: digo que, bem compreendido, é um preservativo contra a loucura. Dentre as causas mais numerosas de sobre excitação cerebral, é preciso incluir as decepções, os infortúnios, as afeições contrariadas, que são, ao mesmo tempo, as causas mais frequentes de suicídio. Ora, o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista bem elevado; elas lhe parecem tão pequenas, tão mesquinhas diante do futuro que o aguarda; a vida é para ele tão curta, tão fugidia, que as tribulações não são aos seus olhos senão os incidentes desagradáveis de uma viagem. O que, num outro, produziria uma violenta emoção, pouco o afeta; sabe, aliás, que as amarguras da vida são provas que servem para o seu adiantamento, se ele as suporta sem reclamar, porque será recompensado, conforme a coragem com que as tiver suportado. Suas convicções lhe dão, portanto, uma resignação que o preserva do desespero e, por conseguinte, de uma causa contínua de loucura e de suicídio. Ele sabe, além disso, através do espetáculo que lhe proporcionam as comunicações com os Espíritos, a sorte daqueles que, voluntariamente, abreviam seus dias, e o quadro é bem próprio a fazê-lo refletir; também é considerável o número daqueles que se detiveram à beira deste declive funesto. Aí está um dos resultados do Espiritismo. Que os incrédulos riam dele o quanto queiram; desejo-lhes as consolações que ele proporciona a todos aqueles que se deram ao trabalho de sondar-lhe as misteriosas profundezas. Entre as causas de loucura, é preciso ainda colocar o pavor, e o diabo desequilibrou mais de um cérebro. Sabe-se o número de vítimas que foram feitas, abalando-se mentalidades fracas com esse quadro, que se esforçam para tornar mais apavorante, através de horrendos detalhes? O diabo, dizem, só assusta as criancinhas; é um freio para torná-las bem-comportadas; sim, como Bicho-papão e o Lobisomem e, quando não têm mais medo deles, fi cam piores do que antes; e, para atingir esse belo resultado, não se leva em conta o número de epilepsia causadas pelo abalo de um cérebro delicado. A religião seria bem frágil se, por falta de temor, seu poder pudesse estar comprometido; felizmente, não é assim. Ela tem outros meios de agir sobre as almas; o Espiritismo fornece-lhe meios mais eficazes e mais sérios, se ela souber utilizá-los em seu proveito; ele mostra a realidade das coisas e neutraliza, deste modo, os efeitos funestos de um temor exagerado. DEZESSEIS.  Restam-nos a examinar duas objeções; as únicas que merecem, verdadeiramente, este nome, porque estão baseadas em teorias racionais. Uma e outra admitem a realidade de todos os fenômenos materiais e morais, excluem, porém, a intervenção dos Espíritos. Segundo a primeira dessas teorias, todas as manifestações atribuídas aos Espíritos não seriam outra coisa senão efeitos magnéticos. Os médiuns estariam num estado que se poderia chamar sonambulismo desperto, fenômeno que qualquer pessoa que tenha estudado o magnetismo pode testemunhar. Neste estado, as faculdades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal; o círculo das percepções intuitivas estende-se além dos limites de nossa concepção comum. A partir daí, o médium tiraria de si mesmo e por efeito de sua lucidez, tudo o que diz e todas as noções que transmite, mesmo sobre as coisas que lhe são as mais estranhas, no seu estado habitual. Não seremos nós que contestaremos o poder do sonambulismo, cujos prodígios vimos e estudamos em todas as suas fases, durante mais de trinta e cinco anos; concordamos em que, com efeito, muitas manifestações espíritas podem ser explicadas através desse meio; mas uma observação cuidadosa e atenta mostra uma infi nidade de fatos em que a intervenção do médium, a não ser como instrumento passivo, é materialmente impossível. Àqueles que partilham dessa opinião, diremos, como aos outros: “Vede e observai, pois, certamente, não vistes tudo.” Em seguida, opor-lhe-emos duas considerações tiradas de sua própria doutrina. De onde veio a teoria espírita? É um sistema imaginado por alguns homens para explicar os fatos? De maneira nenhuma. Quem, então, a revelou? Precisamente esses mesmos mé- diuns cuja lucidez exaltais. Se, portanto, essa lucidez é tal como a supondes, por que teriam eles atribuído a Espíritos o que tivessem haurido em si mesmos? Como teriam dado essas informações tão precisas, tão lógicas, tão sublimes sobre a natureza dessas inteligências extra humanas? De duas, uma: ou eles são lúcidos ou não o são. Se o são, se tivermos confiança na veracidade deles, poderíamos, sem nos contradizer, admitir que não estão com a verdade. Em segundo lugar, se todos os fenômenos tivessem sua origem no médium, eles seriam idênticos no mesmo indivíduo, e não se veria a mesma pessoa usar uma linguagem disparatada, nem exprimir, alternadamente, as coisas mais contraditórias. Esta falta de unidade nas manifestações obtidas pelo médium prova a diversidade das fontes; se, pois, não se pode encontrá-las todas no médium, é mesmo necessário procurá-las fora dele. Segundo uma outra opinião, o médium é mesmo a fonte das manifestações, mas em vez de extraí-las de si mesmo, assim como o pretendem os partidários da teoria sonambúlica, ele as haure do meio-ambiente. O médium seria, assim, uma espécie de espelho que refl ete todas as ideias, todos os pensamentos e todos os conhecimentos das pessoas que o rodeiam; nada diria que não fosse conhecido, pelo menos de algumas delas. Não se poderia negar, e isto é mesmo um princípio da doutrina, a influência exercida pelos assistentes sobre a natureza das manifestações; entretanto esta influência difere, completamente, daquela que se supõe existir, e daí concluir que o médium seja o eco dos seus pensamentos, há muita distância, pois milhares de fatos estabelecem, peremptoriamente, o contrário. Portanto, aí está um erro grave, que prova, uma vez mais, o perigo das conclusões prematuras. Essas pessoas, não podendo negar a existência de um fenômeno que a ciência comum não pode explicar e não querendo admitir a presença dos Espíritos, explicam-no à sua maneira. Sua teoria seria especiosa, se pudesse abarcar todos os fatos; porém, isto não acontece, absolutamente. Quando se lhes demonstra, até a evidência, que certas comunicações do médium são completamente estranhas aos pensamentos, aos conhecimentos e até às opiniões de todos os assistentes, que essas comunicações são, muitas vezes, espontâneas e contradizem todas as ideias preconcebidas, elas não desistem por tão pouco. A irradiação, dizem elas, estende-se bem além do círculo imediato que nos cerca; o médium é o reflexo da Humanidade inteira, de tal modo que, se ele não haure suas inspirações dos que estão ao seu lado, vai busca- las fora, na cidade, no país, em todo o globo e até em outras esferas. Não penso que se encontre nesta teoria uma explicação mais simples e mais provável que a do Espiritismo, pois ela supõe uma causa bem mais maravilhosa. A ideia de que seres que povoam os espaços e, estando em contato permanente conosco, comunicam-nos seus pensamentos, nada tem que choque mais a razão do que a suposição dessa irradiação universal, vindo, de todos os pontos do Universo, concentrar-se no cérebro de um indivíduo. Ainda uma vez, e aí está um ponto capital, sobre o qual não é demais insistir bastante, a teoria do sonambulismo e a que se poderia chamar reflexiva, foram imaginadas por alguns homens; são opiniões individuais, criadas para explicar um fato, enquanto que a Doutrina dos Espíritos não é, em absoluto, de concepção humana; ela foi ditada pelas próprias inteligências que se manifestaram, quando ninguém disso cogitava e mesmo a opinião geral a rejeitava. Ora, perguntamos, onde os médiuns foram haurir uma doutrina que não existia no pensamento de ninguém na Terra? Perguntamos, além disso, por que estranha coincidência milhares de mé- diuns disseminados por todos os pontos do globo, que nunca se viram, engajaram-se para dizer a mesma coisa. Se o primeiro médium que apareceu na França sofreu influência de opiniões já aceitas na América, por que extravagância foi ele beber suas ideias a duas mil milhas além mar, junto a um povo estranho pelos costumes e pela linguagem, em vez de fazê-lo a sua volta? Contudo, há uma outra circunstância na qual não se tem pensado bastante. As primeiras manifestações, na França, como na América, não se deram através da escrita, nem da palavra, mas através de pancadas que correspondiam às letras do alfabeto e formavam palavras e frases. Foi através desse meio que as inteligências que se revelaram declararam ser Espíritos. Portanto, caso pudesse supor a intervenção do pensamento dos médiuns nas comunicações verbais ou escritas, não poderia ser assim com as pancadas, cuja significação não podia ser conhecida antecipadamente. Poderíamos citar inúmeros fatos que demonstram, na inteligência que se manifesta, uma individualidade evidente e uma independência absoluta de vontade. Remetemos, pois, os dissidentes a uma observação mais atenta e, se quiserem estudar com afinco, sem prevenção, e não concluir antes de terem visto tudo, reconhecerão a impotência de sua teoria para tudo explicar. Limitar-nos-emos a fazer as seguintes perguntas: Por que a inteligência que se manifesta, qualquer que seja ela, recusasse a responder a certas perguntas sobre assuntos perfeitamente conhecidos, como, por exemplo, o nome ou a idade do interrogador, o que ele tem na mão, o que ele fez na véspera, seu projeto para o dia seguinte, etc? Se o médium fosse o espelho do pensamento dos assistentes, nada lhe seria mais fácil do que responder. Os adversários retrucam o argumento, perguntando, por sua vez, por que Espíritos que devem saber tudo, não podem dizer coisas tão simples, conforme o axioma: Quem pode mais, pode menos, e, daí, concluem que não são Espíritos. Se um ignorante ou um gozador, apresentando-se diante de uma douta assembleia, perguntasse, por exemplo, por que é que é dia em pleno meio-dia, alguém acreditaria que ela se desse ao trabalho de responder seriamente e seria lógico concluir, pelo seu silêncio ou zombarias que dirigisse ao questionador, que seus membros fossem apenas tolos? Ora, é precisamente porque os Espíritos são superiores que não respondem a perguntas fúteis e ridículas, e não querem ser colocados em apuros; é por isso que se calam ou dizem ocupar-se com coisas mais sérias. Finalmente, perguntaremos por que os espíritos vêm e vão, frequentemente, em dado momento e por que, passado esse momento, não há preces, nem súplicas que possam trazê-los de volta? Se o médium apenas agisse pelo impulso mental dos assistentes, é evidente que, nesta circunstância, o concurso de todas as vontades reunidas deveria estimular sua clarividência. Se, portanto, ele não cede ao desejo da assembleia, corroborado pela sua própria vontade, é que ele obedece a uma influência estranha a si mesmo e aos que o cercam, e que esta influência atesta, por esse fato, sua independência e sua individualidade. DEZESSETE. O ceticismo, no tocante à Doutrina Espírita, quando não é o resultado de uma oposição sistemática interessada, quase sempre tem sua origem num conhecimento incompleto dos fatos, o que não impede certas pessoas de resolver a questão como se a conhecessem perfeitamente. Pode-se ter muita inteligência, até instrução e carecer-se de bom-senso; ora, o primeiro indício de falta de bom-senso é acreditar que o seu é infalível. Muitas pessoas também vêem nas manifestações espíritas apenas um objeto de curiosidade; esperamos que, pela leitura deste livro, elas encontrem nesses fenômenos estranhos algo a mais do que um simples passatempo. A ciência espírita compreende duas partes: uma, experimental, sobre as manifestações em geral; a outra, filosófica, sobre as manifestações inteligentes. Quem quer que apenas tenha observado a primeira está na posição daquele que só conhecesse a Física pelas experiências recreativas, sem ter penetrado no âmago da Ciência. A verdadeira Doutrina Espírita encontra-se no ensino dado pelos Espíritos e os conhecimentos que este ensino comporta são graves demais para serem adquiridos de outra forma, que não por um estudo sério e contínuo, feito no silêncio e no recolhimento; pois, apenas nessa condição, pode-se observar um número infinito de fatos e de particularidades que escapam ao observador superficial e permitem firmar uma opinião. Tendo este livro, como resultado, apenas o de mostrar o lado sério da questão e provocar estudos nesse sentido, já seria muito, e felicitar-nos-íamos por ter sido escolhido para executar uma obra pela qual aliás, não pretendemos ter nenhum mérito pessoal, já que os princípios que ela encerra não são criação nossa; o mérito cabe inteiramente, portanto, aos Espíritos que a ditaram. Esperamos que dê um outro resultado, o de guiar os homens desejosos de se esclarecer, mostrando-lhes, nestes estudos, um grande e sublime objetivo: o do progresso individual e social e o de indicar-lhes o caminho a seguir para atingi-lo. Terminemos por uma última consideração. Astrônomos, sondando os espaços, encontraram, na distribuição dos corpos celestes, lacunas não justificadas e em desacordo com as leis do conjunto: suspeitaram que essas lacunas deviam ser preenchidas por globos que tivessem escapado ao seu exame; de outro lado, observaram certos efeitos cuja causa lhes era desconhecida e disseram: ali, deve haver um mundo, pois esta lacuna não pode existir e estes efeitos devem ter uma causa. Então, julgando a causa pelo efeito, puderam calcular seus elementos e, mais tarde, os fatos vieram legitimar suas previsões. Apliquemos este raciocínio a uma outra ordem de ideias. Se se observa a série dos seres, julga-se que eles formam uma corrente sem solução de continuidade, desde a matéria bruta até o homem mais inteligente. Porém, entre o homem e Deus, que é o alfa e o ômega de todas as coisas, que lacuna imensa! Será racional pensar que nele terminem os elos dessa corrente? Que ele transponha, sem transição, a distância que o separa do infinito? A razão nos diz que entre o homem e Deus deve haver outros degraus, como ela disse aos astrônomos que, entre os mundos conhecidos, devia haver mundos desconhecidos. Que filosofia preencheu esta lacuna? O Espiritismo no-la mostra preenchida pelos seres de todas as ordens do mundo invisível, e estes seres são apenas os Espíritos dos homens, que chegaram aos diferentes degraus que conduzem à perfeição; então, tudo se liga, tudo se encadeia, desde o alfa até o ômega. Vós, que negais a existência dos Espíritos, preenchei, portanto, o vazio que eles ocupam; e vós, que deles rides, ousai, pois, rir das obras de Deus e da sua onipotência. O Livro dos Espíritos. www.espiritismo.net.com.br. Abraço. Davi.

Gnomos.

Teosofia. Texto de Geoffrey Hodson (1886-1983). Capítulo dois. GNOMOS. O gnomo é geralmente classificado como um espírito da Terra. As investigações comprovam que, se existem realmente na Natureza todas as espécies de entidades atribuídas à tradição, há, por outro lado, amplas divergências dentro de cada tipo. Algumas destas divergências são tão relevantes, que passam a reclamar novos nomes e classificações. No futuro, quando o naturalista, o etnólogo e o explorador se aventurarem pelo Reino da Fantasia e os seus relatos científicos passarem a ser estudados em todas as escolas, surgirão necessariamente novos nomes para designar as múltiplas e variadas espécies de criaturas fantásticas. Como, na minha opinião, a nomenclatura tradicional é, em muitos sentidos, a mais satisfatória, classifiquei os habitantes do Reino da Fantasia por mim estados a partir do nome atribuído à raça à qual mais se assemelham. Neste capítulo, descrevo alguns exemplares de criaturas das árvores e homúnculos alados, muito embora eles difiram, em muitas características importantes, do verdadeiro gnomo. Pode ser que o estudante faça objeções quanto a classificar como gnomo uma criatura alada que vive nas árvores; porém, até onde vão as minhas observações, o aspecto dos seres que designei sob esse título está muito mais próximo do gnomo do que de outra espécie qualquer. Assim, pois, classificarei como Gnomo criaturas diversas que diferem, em muitos pontos, do verdadeiro gnomo tradicional. O gnomo é geralmente fino e magro, de aparência grotesca, rosto cadavérico e comprido, sendo quase sempre um solitário. A impressão que ele nos deixa é a de possuir uma idade extremamente avançada; todo o seu aspecto, a sua conduta, a sua indumentária, tudo parece absolutamente remoto em relação ao presente. Os seus braços são demasiado longos para o nosso senso de proporção e, tal como suas pernas, curvam-se à altura das juntas, como se tivessem enrijecendo com a idade. A tez é rude e grosseira, os olhos muito pequenos e negros, ligeiramente repuxados para o alto. Afirma-se que a forma do gnomo é um remanescente da antiga Atlântida e, se isto for verdade, pode-se supor que o tipo seja uma representação da aparência dos povos daquele período e, embora grotescos para nós, uma expressão do seu padrão de beleza. O autêntico gnomo da Terra não é um tipo de entidade muito agradável; os que encontrei na Inglaterra eram inteiramente negros ou marrons, da cor da turfa, e embora eu nunca tivesse incorrido em sua hostilidade, a sua atmosfera era decididamente desagradável. UM GNOMO DAS ÁRVORES. Nos campos vizinhos de Preston – Inglaterra. Setembro de 1921. Vivendo na parte mais baixa de um freixo, encontra-se um gnomo. Parece maior do que qualquer outro que já vira anteriormente, tendo provavelmente oitenta centímetros de altura, até a extremidade do capuz. Ele assume sua forma de gnomo quando está prestes a deixar a árvore para fazer breves excursões pelo campo. Desloca-se com grande rapidez, a mais de trinta quilômetros por hora, e, a despeito da sua velocidade, abre caminho por entre a relva de um modo fantástico. Com passadas largas e erguendo bem alto as suas pernas. Ele está de bom humor, pensando em si mesmo, na sua árvore e nos seus passeios, enquanto nos recessos de sua mente perduram lembranças de brincadeiras, a maioria delas de natureza solitária, debaixo dos galhos da árvore. Tais recordações, bem como suas antecipações complementares, parecem torna-lo ainda mais feliz. Na sua mente, não cabe mais que alegria. Não necessita da companhia dos seus semelhantes para sentir-se feliz, pois é em si mesmo que encotra prazer. A sua felicidade, por conseguinte, é estável e duradoura. Ele parece viver, em grande parte, no presente. Aparentemente, ele tem atrás de si um longo período de vida, e, no entanto, a passagem do tempo parece produzir pouco ou nenhum efeito sobre ele, tanto mental como fisicamente. Uma tentativa de contatá-lo enquanto ele está no interior da árvore produz uma curiosa impressão sobre a minha consciência: o tronco da árvore se faz transparente, como se o gnomo estivesse encerrado numa caixa de vidro – com a diferença, porém, de que o material da superfície do tronco é sólido em toda a sua extensão; este duplo etérico da árvore possui uma cor cinza pálido e tons esverdeados. O gnomo parece abandonar a sua forma costumeira quando se encontra no interior da árvore. O tronco da árvore assemelha-se a um cilindro que, na ausência do gnomo, teria apenas uma cor, a das forças vitais da árvore; a presença do gnomo confere individualidade a essas forças, na medida em que são fortemente afetadas por seu padrão de vibração. Quando o gnomo está prestes a deixar a árvore, o primeiro fenômeno que eu posso ver é ele assumir lentamente sua forma própria, encerrando-se, assim, na matéria densa. Tendo assumido essa forma, ele se lança no solo, e só então é que consigo realmente apreendê-lo em sua individualidade. Seus traços fisionômicos, em especial o queixo, são longos e pronunciados, os ossos da face são grandes e salientes, o rosto magro é um tanto cadavérico, os olhos repuxados como os de um chinês, as pupilas pequenas e redondas; as orelhas são compridas e chegam a projetar-se para fora do capuz, os seus cabelos são escuros. Embora seja monocromático, apresentando uma coloração próxima à da casca de uma árvore, o capuz reflete um tom qualquer de vermelho. Ao deixar a árvore, o gnomo permanece em contato magnético com ela, e eu diria que a distância que ele pode percorrer é limitada. É como se o seu corpo fosse constituído pelo duplo etérico da árvore, de modo que, ao deixa-la, este se expande. Tal é sua condição presente, mas pode haver ocasiões em que ele é completamente livre. É muito curioso vê-lo entrar na árvore, como se estivesse transpondo uma porta. Ao sair, parece fazê-lo sempre no mesmo ponto e na mesma direção, isto é, para o lado do Sul. UM GNOMO DA ROCHA. Lake District. Junho de 1922. Bem no fundo da rocha maciça atrás de nós, há uma consciência evolutiva que se manifesta principalmente sob o aspecto de manchas coloridas e informes, uma espécie de gnomo embrionário; pode-se adivinhar vagamente o contorno de sua cabeça, bem como os olhos e a boca, mas o resto do corpo é quase que apenas sugerido, tal como os esboços iniciais de um pintor que, espalhando sobre a tela as cores essenciais, deixa para uma fase posterior a precisa delimitação de seus contornos. Em razão dessa indefinição, o aspecto da criatura é de uma excessiva fealdade, para não dizer mesmo monstruosa. Para a visão etérica; a rocha é totalmente transparente e dentro dela a criatura parece estar como que encerrada num imenso recipiente de vidro, vagamente consciente do ambiente que a rodeia. A única faculdade de volição que ela parece possuir é a de deslocar lentamente o foco e a direção de sua obtusa e limitada consciência, o que faz de maneira demasiado insegura e letárgica. As suas cores principais, que possuem uma considerável densidade, são o vermelho, o verde e o marrom, as quais vibram sob o efeito das mais débeis oscilações em resposta à consciência que desperta lentamente. A presença dessa criatura confere à rocha  uma certa individualidade, o que é perceptível no plano físico sob a forma de uma vibração magnética. É difícil avaliar o seu tamanho, mas a sua altura varia provavelmente de três a quatro metros e meio. Os pés, se os tem, devem estar plantados bem no fundo da terra em que a rocha se assenta, e a cabeça, a uns noventa centímetros acima do seu topo. UM GNOMO DOMÉSTICO. Lake District. Junho de 1922. Enquanto observava alguns espíritos da Natureza, minha atenção foi atraída para uma grande rocha situada a uns trinta e cinco metros distância, sob o qual se encontrava um gnomo, que vivia debaixo da Terra. Percebi-o de relance, no instante em que desaparecia sob a rocha. Tratava-se de uma figura bastante estranha, de cor cinza escuro, diminuta e grotescamente humana, levando na cabeça um chapéu que terminava em ponta, a qual pendia para a frente, como que sob o peso de uma pequena borla; seu rosto parecia o de um velho, magro, cadavérico e comprido, com uma longa barba acinzentada. Vestia uma indumentária de cor cinzenta, uma túnica que ia pouco além da cintura. Na mão direita, levava uma luzinha fraca, parecida com uma vela, de brilho amarelado. Ele penetrou na Terra, cerca de sessenta a noventa centímetros abaixo da rocha, e moveu-se em redor, sem encontrar obstáculo. Tendo assimilado a noção humana de uma casa, parecia supor que o lugar fosse a sua morada, e que necessitava de luz. Eu diria que ele havia observado as pessoas indo para a cama e que agora as imitava; ele era ridiculamente sério em seu faz de conta. Não parecia trabalhar; apenas dava alguns passeios ocasionais até a beira d’água, a uns trinta e cinco metros de distância. Após tê-lo aguardado por algum tempo, ele reapareceu usando na cabeça um modelo diferente de chapéu. Tratava-se, desta vez, de uma cumprida cartola, e sua figura recordou-me um pouco a imagem da lagarta sentada sobre o cogumelo, em Alice no país das maravilhas. Sua curiosidade era altamente aguçada. Chegava ao ponto de assomar as janelas para espreitar os hábitos dos seres humanos e, embora carecesse de inteligência para estabelecer qualquer juízo a partir de suas observações, era capaz de memorizar e imitar muitos dos hábitos cotidianos daqueles  a quem estivera observando. Percebo agora por que me veio a ideia, ao vê-lo pela primeira vez, de que o seu capuz era na verdade um gorro de dormir e de que ele estava indo para a cama; obviamente, ele imitava o comportamento dos homens para seu próprio divertimento, não obstante o fato de não ter qualquer necessidade de se recolher, de cobrir-se com um gorro ou de conduzir uma luz, além de não ter nem cama nem quarto, a não ser nas recordações que perduravam em sua mente. Suas faculdades de concentração abandonaram-no logo que ele desceu para o fundo da Terra. Sua conduta e mesmo sua aparência modificaram-se quando retornou à superfície, com um novo aparato de fantasias. Agora, ele estava de saída – suas representações não pareciam passar disso – daí, suponho,  a cartola! Logo depois, uma expressão de ausência  tomou conta do seu rosto, suas ideias chegaram ao fim e até mesmo sua forma pareceu dissipar-se momentaneamente. Alguns minutos depois, ele podia ser visto dirigindo-se rapidamente para o lago, levando um minúsculo buquê que ele mergulhou solenemente na água e, com enorme satisfação, trouxe de volta para a sua rocha. Reapareceu imediatamente, desta vez  sem o buquê, e então pude ver sua pequena figura se desloando velozmente ao longo da superfície do lago, uns sessenta centímetros acima dela, até que a perdi de vista. Desnecessário é dizer que tanto a água como o buquê que ele simulava carregar eram feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos, reduzindo-se a água, na verdade, a uma coluna de fumaça acinzentada e o buquê a uma nêvoa. Para este pequeno cavalheiro, a existência parece consistir de uma sucessão ininterrupta de passeios: cada um deles possui uma finalidade especial, que ora é perfeitamente clara, ora extremamente vaga. Tudo o que faz é imitando os seres humanos. Certamente, ele possui alguma simpatia pelas rochas, pelas relvas e pelo terreno que compõem e rodeiam sua morada. GNOMOS DANÇARINOS. Num campo nas cercanias de Preston. Setembro de 1922. Neste lugar, existem alguns gnomos que se encontram num estágio inferior de desenvolvimento em relação aos gnomos das árvores. Seu tamanho é menor, variando sua altura de uns dez a quinze centímetros. O gnomo que foi fotografado há poucos anos pertence provavelmente a esta espécie. Distinguem-se dos gnomos das árvores pelo fato de não serem solitários, vivendo e se divertindo em grupos; seus jogos e trejeitos são extremamente estranhos e grotescos. Trata-se de pequeninas criaturas, de colorido vistoso e matizes muito mais fortes e brilhantes do que os apresentados pelos duendes. O grupo que observo está dançando em semicírculo e todos se dão as mãos, balançando de um lado para outro; suas pernas não são retas, arqueando-se para fora à altura dos joelhos. Seus braços são muito longos, ligeiramente tortos perto dos cotovelos. Sorriem de modo estranho, com uma ponta de malícia e infantilidade, e seus olhos escuros e redondos brilham com singular expressão, como se experimentassem um êxtase interior. Suas asas, talhadas como as do morcego, desdobram-se lateralmente às costas e possuem uma cor mais escura que a dos corpos, sendo feitas de uma substância macia e peluda, de textura extremamente fina. Aparentemente, o seu contato recíproco, seus movimentos oscilantes, muito embora desprovidos de finalidade no plano físico, produzem uma sensação astral bastante agradável. Como pude constatar, parecem  ter o efeito de excitar e estimular o corpo astral, que não passa de uma nuvem de matéria informe, de tamanho duas vezes maior do que o corpo físico. Sem dúvida, impõem também sobre eles um tipo especial de força vibratória. Em estado de repouso ou semi repouso, o corpo astral é uma nuvem de matéria um tanto quanto informe, de um colorido quase imperceptível, tal qual um halo lunar. Podem-se observar também alguns tons róseos e avermelhados, ou então um amarelo brilhante, semelhante ao da folhagem  de outono, além de marrons mais próximos do vermelho. Quando estimulados pela dança, as vibrações se iniciam a partir do centro do corpo astral (aproximadamente no plexo solar), energizando todo o corpo, enquanto o envolvem ondas e ondulações. As cores, então, tornam-se mais intensas, a aura se amplia e assim o gnomo experimenta, até o máximo de usa capacidade, os efeitos produzidos dessa maneira. Subitamente, o movimento do grupo se modifica, embora se mantenha a formação original em semicírculo. Agora, dançam para a frente e para trás, erguendo as pernas para o alto, dobrando-as no ar e tornando a pousar os pés no chão, em poses de uma comicidade fantástica. Parecem ter consciência apenas da luz solar que brilha e do estado vital da atmosfera. Esses gnomos em nada lembram a rapidez flamejante dos duendes ou mesmos dos elfos da floresta. Seus movimentos são esquisitos, tensos e solenes. Todavia, como todas as criaturas astrais e etéricas, eles possuem a faculdade de se deslocar rapidamente através do espaço. GNOMOS DOS CHARCOS. Wryesdale. Num pântano rodeado de colinas. Novembro de 1922. Movendo-se em volta, caminhando por entre os arbustos espessos e as moitas de junco, podem-se avistar inúmeros gnomos que apresentam algumas características incomuns. Sua altura varia de quarenta e cinco a oitenta centímetros; possuem aparência masculina e apenas uma cor, um marrom bastante escuros, muito semelhante à cor da turfa que se alastra por todo o solo da região. Também o rosto e as mãos apresentam essa mesma cor escura. Usam chapéus compridos e pontudos, de abas dobradas e bastante estreitas; a ponta desses chapéus, que são bastante justos, cai ligeiramente para trás. Suas feições são fortemente marcadas e acentuadas – particularmente na extremidade, tem o comprimento de dois e meio centímetros. O queixo também é pronunciado e saliente e a boca, bastante larga, está perpetuamente aberta num sorriso travesso. A pele é grossa, de textura esponjosa. Os olhos são negros, redondos e alongados. Dão a impressão de usar um traje bastante justo que, na verdade, possui uma textura idêntica à da pele. Esse traje principia por um gola dobrada à altura do pescoço e termina da mesma forma nos pulsos e nos joelhos; a barriga da perna, o tornozelo e o pé formam uma só peça inteiriça, sendo que os pés tem de vinte a vinte e três centímetro de comprimento e se reduzem, nas extremidades, a um ponto. São muito desengonçados e caminham com passadas largas, quase aos saltos, embora seja evidente que também podem se deslocar pelo espaço em alta velocidade, pois vejo alguns deles se movendo dessa forma, apenas roçando o chão. Uma curiosa tentativa de obstruir o meu campo de visão acaba de ser feita por um desses gnomos. Da sua cabeça – penso que do meio da testa – projeta-se um jato de névoa acinzentada e brilhante que vem de encontro a minha aura, formando à minha frente uma espécie de nuvem diáfana. O jato continuou a ser emitido e se eu tivesse me servindo tão somente da minha visão etérica, acha que ele teria alcançado seu objetivo. É notável o poder de concentração demonstrado por ele. A uma distância de treze metros, o gnomo conseguiu envolver nosso grupo com sua projeção em forma de névoa, que visava provavelmente a ocultá-lo da nossa vista. Está claro que ele se opõe à nossa presença e que lhe desagrada o exame minucioso e a atenção especial que lhe dedicamos e que ele intui, por instinto. Os outros tipos de espécies vão e vêm continuamente pelo mato: não se pode afirmar que estejam brincando, embora, a despeito de gostarem da claridade e parecerem impelidos a uma incessante movimentação, eu não consiga enxergar nenhum outro motivo para as suas perambulações. Também neles se manifesta a faculdade imitativa, sendo evidente que nós observavam enquanto caminhávamos pelos campos, pois vi mais de um gnomo conduzindo uma cesta que se assemelhava, com bastante exatidão, àquela na qual trazíamos a comida. Isso lhe dá prazer, o que exprimem por um sorriso arreganhado, quase tolo. É extremamente hilariante vê-los caminhar em fila com suas cestas, que chegam a somar agora uma dúzia inteira! Esses gnomos são criaturas da Terra e a Terra é o seu habitat; não acho que sejam capazes de se elevar no ar e alturas superiores às suas. Certamente, a Terra não é sólida para eles, pois alguns deles deslocam com os tornozelos e os pés enterrados no chão, sem qualquer obstáculo. Um contato mais próximo com suas consciências demonstra serem elas ultra primitivas e bastante limitadas. Não é fácil compreender o regime de evolução dessas criaturas, pois a Natureza, aparentemente, não lhes opõe qualquer resistência e todos os seus desejos parecem se realizar. Quando tento entrar em contato com a existência subterrânea deles, parecem dissolver-se e, de algum modo, perder sua individualidade própria em favor de uma essência comum à medida que descem para o fundo da Terra. Nessa essência, formam-se glóbulos que se movem sob o chão sem qualquer resistência, e ao acompanhar um deles, constato que, ao ressurgir à superfície, transforma-se imediato num genuíno gnomo. Não tenho meios para saber se essa metamorfose se deve a algum esforço de inteligência, inclinando-me antes a considerá-la mais ou menos automática. Parecem ter consciência de tudo o que se passa mas, se tal conhecimento é causa ou efeito do fenômeno, é algo que me sinto incapaz de determinar. O grupo, em sua quase totalidade, é animado por uma consciência gregária e por um instinto de rebanho. Do Livro O Reino dos Devas e dos Espíritos da Natureza. Abraço. Davi.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA I.



Espiritismo. Texto de Alan Kardec (1804-1869). INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA  Parte I. UM. Para coisas novas, palavras novas são necessárias, assim o requer a clareza da linguagem, para evitar a confusão inseparável do sentido múltiplo dos mesmos termos. As palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo, possuem uma acepção bem definida; dar-lhes uma nova para aplicá-las à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar as causas já tão numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem quer que acredite possuir em si outra coisa além da matéria é espiritualista; mas daí não se conclui que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em lugar das palavras ESPIRITUAL, ESPIRITUALISMO, empregamos, para designar essa última crença, as de espírita e de espiritismo cuja forma lembra a origem e o sentido radical, e que por isso mesmo têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, reservando à palavra espiritualismo sua acepção própria. Diremos, portanto, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se desejarem, os espiritistas. Como especialidade, O Livro dos Espíritos contém a Doutrina Espírita; como generalidade, ele se prende à Doutrina Espiritualista da qual apresenta uma das fases. Esta é a razão pela qual ele traz no topo de seu título as palavras: Filosofia Espiritualista. DOIS.  Há uma outra palavra sobre a qual convém igualmente se entenderem, porque é um dos esteios de toda doutrina moral, e porque é objeto de numerosas controvérsias, por falta de uma acepção bem determinada; é a palavra alma. A divergência de opiniões sobre a natureza da alma vem da aplicação particular que cada um faz desta palavra. Uma língua perfeita, em que cada ideia tivesse sua representação através de um termo próprio, evitaria muitas discussões; com uma palavra para cada coisa, todo o mundo se entenderia. Segundo uns, a alma é o princípio da vida material orgânica; ela não tem, absolutamente, existência própria e termina com a vida: é o materialismo puro. Neste sentido, e por comparação, falam de um instrumento rachado que não emite mais som: ele não tem alma. Conforme essa opinião, a alma seria um efeito e não uma causa. Outros pensam que a alma é o princípio da inteligência, agente universal do qual cada ser absorve uma porção. Segundo eles, não haveria para todo o Universo senão uma alma que distribui centelhas entre os diversos seres inteligentes, durante a vida destes; depois da morte, cada centelha retorna à fonte comum onde no Livro dos Espíritos ela se confunde no todo, como os riachos e os rios retornam ao mar de onde saíram. Esta opinião difere da precedente pelo fato de que, nesta hipótese, há em nós mais do que a matéria, e de que alguma coisa subsiste após a morte; mas é quase como se nada restasse, visto que, não possuindo mais individualidade, não teríamos mais consciência de nós mesmos. Conforme esta opinião, a alma universal seria Deus, e cada ser uma porção da Divindade; é uma variação do panteísmo. Segundo outros, finalmente, a alma é um ser moral, distinto, independente da matéria e que conserva sua individualidade após a morte. Esta acepção é, certamente, a mais geral, porque, sob um nome ou sob outro, a ideia desse ser que sobrevive ao corpo encontra-se no estado de crença instintiva e independente de qualquer ensino, em todos os povos, qualquer que seja o grau de sua civilização. Esta doutrina, segundo a qual a alma é a causa e não o efeito, é a dos espiritualistas. Sem discutir o mérito destas opiniões, e apenas considerando o aspecto linguístico da questão, diremos que estas três aplicações da palavra alma constituem três ideias distintas que pediriam, cada qual, um termo diferente. Esta palavra tem, portanto, uma tripla acepção, e cada qual tem razão, sob seu ponto de vista, na definição que lhe dá; a dificuldade ocorre porque a língua possui uma só palavra para três ideias. Para evitar qualquer equívoco, seria necessário restringir a acepção da palavra alma a uma destas três ideias; a escolha é indiferente, o importante é que todos se entendam, é uma questão de convenção. Acreditamos mais lógico tomá-la na sua acepção mais vulgar; é por isso que chamamos ALMA o ser imaterial e individual que reside em nós e que sobrevive ao corpo. Se este ser não existisse, sendo apenas um produto da imaginação, ainda assim, seria preciso um termo para designá-lo. Por falta de uma palavra especial para cada uma das duas outras acepções nós chamamos: Princípio vital o princípio da vida material e orgânica, qualquer que seja sua fonte e que é comum a todos os seres vivos, desde as plantas até o homem. Podendo a vida existir, abstração feita da faculdade de pensar, o princípio vital é uma coisa distinta e independente. A palavra vitalidade não daria a mesma ideia. Para uns, o princípio vital é uma propriedade da matéria, um efeito que se produz quando a matéria se encontra em dadas circunstâncias; segundo outros, é a ideia mais comum, ele reside num fluido especial, universalmente espalhado e do qual cada ser absorve e assimila uma parte durante a vida, como vemos os corpos inertes absorver a luz; este seria, então, o fluido vital que, segundo algumas opiniões, não seria outro senão o fluido elétrico animalizado, também designado sob os nomes de fluido magnético, fluido nervoso, etc. Seja como for, há um fato que não se poderia contestar, pois é um resultado de observação, é que os seres orgânicos têm em si uma força íntima que produz o fenômeno da vida, enquanto essa força existe; que a vida material é comum a todos os seres orgânicos e que é independente da inteligência e do pensamento; que a inteligência e o pensamento são faculdades próprias de algumas espécies orgânicas; finalmente, que, entre as espécies orgânicas dotadas de inteligência e de pensamento, há uma dotada de um senso moral especial que lhe dá uma incontestável superioridade sobre os outros, é a espécie humana. Concebe-se que, com um sentido múltiplo, a alma não exclui o materialismo, nem o panteísmo. O próprio espiritualista pode muito bem entender a alma de acordo com uma ou outra das duas primeiras definições, sem prejuízo do ser imaterial distinto ao qual ele dará, então, um nome qualquer. Assim, esta palavra não representa uma opinião: é um Proteu2 que cada um acomoda à sua maneira; daí a fonte de intermináveis disputas. Evitar-se-ia igualmente a confusão, ao empregar a palavra alma nos três casos, se a ela se acrescentasse um qualificativo que especificaria o ponto de vista sob o qual ela é encarada, ou a aplicação que dela se faz. Seria, então, uma palavra genérica, representando, ao mesmo tempo, o princípio da vida material, da inteligência e do senso moral e que se distinguiria, através de um atributo, como os gases, por exemplo, que se distinguem acrescentando as palavras hidrogênio, oxigênio ou azoto. Portanto, poder-se-ia dizer, e talvez fosse o melhor, a alma vital para o princípio da vida material, a alma intelectual para o princípio inteligente, e a alma espírita para o princípio de nossa individualidade após a morte. Como se vê, tudo isso é uma questão de palavras, porém uma questão muito importante para que nos entendamos. Desta forma, a alma vital seria comum a todos os seres orgâ nicos: plantas, animais e homens; a alma intelectual seria própria dos animais e dos homens; e a alma espírita pertenceria apenas ao homem. Julgamos necessário insistir um tanto mais nessas explicações porque a Doutrina Espírita repousa, naturalmente, sobre a existência em nós de um ser independente da matéria e que sobrevive ao corpo. Devendo a palavra alma se reproduzir frequentemente no decorrer desta obra, era importante ser fixada no sentido que lhe atribuimos, afim de evitar qualquer engano. Passemos, agora, ao objeto principal desta instrução preliminar. TRÊS. A Doutrina Espírita, como qualquer coisa nova, tem seus adeptos e seus contraditores. Vamos tentar responder a algumas das objeções destes últimos, examinando o valor dos motivos sobre os quais eles se apoiam, sem ter, entretanto, a pretensão de convencer a todos, pois há pessoas que acreditam que a luz foi feita apenas para elas. Nós nos dirigimos às pessoas de boa-fé, sem idéias preconcebidas ou mesmo inflexíveis, porém, sinceramente desejosas de se instruir, e nós lhes demonstraremos que a maioria das objeções que se opõe à doutrina provém de uma observação incompleta dos fatos e de um julgamento emitido com muita leviandade e precipitação. Lembremos, primeiramente, em poucas palavras, a série progressiva dos fenômenos que deram origem a esta doutrina. O primeiro fato observado foi o de objetos diversos postos em movimento; designaram-no, vulgarmente, sob o nome de mesas girantes ou dança das mesas. Este fenômeno, que parece ter sido observado primeiramente na América, ou Proteu: da mitologia grega, filho de Poseidon, que mudava de forma à vontade. (Nota do tradutor segundo o Dicionário Larousse Illustré. As suas notas sequentes conterão apenas as iniciais N.T.). O Livro dos Espíritos foi o melhor, que se repetiu nesse país, pois a História prova que ele remonta à mais remota Antiguidade, produziu-se acompanhado de circunstâncias estranhas, tais como ruídos insólitos, pancadas sem causa ostensiva conhecida. Daí, propagou-se rapidamente pela Europa e por outras partes do mundo; a princípio, despertou muita incredulidade, porém a multiplicidade das experiências, em pouco tempo, não mais permitiu duvidar da realidade. Se esse fenômeno se tivesse limitado ao movimento dos objetos materiais, poderia explicar-se por uma causa puramente física. Estamos longe de conhecer todos os agentes ocultos na Natureza e todas as propriedades daqueles que conhecemos; a eletricidade, aliás, multiplica, diariamente, ao infinito, os recursos que proporciona ao homem e parece ir clarear a Ciência com uma nova luz. Portanto, nada haveria de impossível em que a eletricidade, modificada por certas circunstâncias, ou qualquer outro agente desconhecido, fosse a causa desse movimento. A reunião de várias pessoas, aumentando o poder de ação, parecia apoiar essa teoria, pois podia-se considerar esse conjunto como uma pilha múltipla cuja potência estivesse na razão do número dos elementos. O movimento circular nada apresentava de extraordinário: ele está na Natureza; todos os astros se movem circularmente; poderíamos, portanto, ter em ponto menor, um reflexo do movimento geral do Universo, ou, melhor dizendo, uma causa até então desconhecida, podia produzir, acidentalmente, com pequenos objetos, e em dadas circunstâncias, uma corrente análoga àquela que arrasta os mundos. Mas o movimento não era sempre circular; muitas vezes ele era brusco, desordenado; o objeto era violentamente sacudido, revirado, levado numa direção qualquer e, contrariamente a todas as leis da estática, suspenso do solo e mantido no espaço. Nada nestes fatos que não possa ser explicado pelo poder de um agente físico invisível. Não vemos a eletricidade derrubar os edifícios, desenraizar as árvores, lançar a distância os corpos mais pesados, atraí-los ou repeli-los? Supondo que os ruídos insólitos, as pancadas não fossem um dos efeitos comuns da dilatação da madeira, ou de qualquer outra causa acidental, ainda poderiam muito bem ser produzidos pela acumulação do fluido oculto: a eletricidade não produz os ruídos mais violentos? Até aqui, como se vê, tudo pode caber no domínio dos fatos puramente físicos e fisiológicos. Sem sair deste círculo de ideias, havia ali matéria de estudos sérios e dignos de prender a atenção dos sábios. Por que não foi assim? É penoso dizê-lo, mas isto deriva de causas que provam, entre mil fatos semelhantes, a leviandade do espírito humano. Primeiramente, a vulgaridade do objeto principal que serviu de base às primeiras experimentações talvez não fosse estranha para eles. Que influência uma palavra, muitas vezes, não tem tido sobre as coisas mais graves! Sem considerar que o movimento podia ser impresso a um objeto qualquer, a ideia das mesas prevaleceu, com certeza, porque era o objeto mais cômodo, e porque é mais natural sentar-se em torno de uma mesa do que de qualquer outro móvel. Ora, os homens superiores são algumas vezes tão pueris que nada haveria de impossível em que alguns espíritos de elite tenham acreditado estar abaixo deles se ocupar com o que se convencionara chamar de a dança das mesas. É até provável que, se o fenômeno observado por Galvani o tivesse sido por homens comuns e tivesse permanecido caracterizado por um nome grotesco, ele estaria ainda relegado, junto com a varinha mágica. Com efeito, qual o cientista que, não acreditaria rebaixar-se, ocupando-se da dança das rãs? Alguns, no entanto, bastante modestos para convir que a Natureza bem poderia não lhes ter dito sua última palavra, quiseram ver, para o bem de sua consciência; mas aconteceu que o fenômeno nem sempre respondeu à sua expectativa, e do fato de não se ter produzido à sua vontade, e conforme seu modo de experimentação, eles concluíram pela negativa; apesar de sua sentença, as mesas, visto que há mesas, continuam a girar, e podemos dizer com Galileu: e todavia elas se movem! Diremos mais, é que os fatos se multiplicaram de tal forma que, hoje, eles têm o direito de cidade, importando apenas encontrar para eles uma explicação racional. Pode-se concluir alguma coisa contra a realidade do fenômeno, pelo fato de que ele não se produz de uma maneira sempre idêntica, segundo a vontade e as exigências do observador? Os fenômenos de eletricidade e de química não estão subordinados a certas condições, e devemos negá-los porque eles não se produzem fora dessas condições? O que há, portanto, de surpreendente em que o fenômeno do movimento dos objetos pelo fl uido humano tenha, também, suas condições de ocorrer e deixe de se produzir, quando o observador, colocando-se no seu próprio ponto de vista, pretende fazê-lo ao sabor de seu capricho, ou sujeitá-lo às leis dos fenômenos conhecidos, sem considerar que para fatos novos, pode e deve haver leis novas? Ora, para conhecer essas leis, é preciso estudar as circunstâncias nas quais os fatos se produzem, e este estudo não pode ser senão o fruto de uma observação embasada, atenta e, frequentemente, muito longa. Porém, alegam algumas pessoas, há, com freqüência, fraude evidente. Nós lhes perguntaremos, primeiramente, se elas estão bem certas de que haja fraude, e se elas não tomaram como tal, efeitos que elas não podiam explicar, mais ou menos como aquele camponês que considerava um sábio professor de Física, que fazia experiências, um hábil escamoteador. Supondo até que isso tenha podido acontecer algumas vezes, seria isto uma razão para negar o fato? Será preciso negar a Física, porque há ilusionistas que se decoram com o título de físicos? Aliás, é preciso levar em conta o caráter das pessoas e o interesse que elas poderiam ter em enganar. Seria, então, uma brincadeira? Pode-se bem se divertir por um instante, mas uma brincadeira indefinidamente prolongada seria tão enfadonha para o mistificador quanto para o mistificado. De resto, haveria numa mistificação que se propaga de uma extremidade do mundo à outra, e entre as pessoas mais austeras, mais honradas e mais esclarecidas, algo pelo menos tão extraordinário quanto o próprio fenômeno. QUARTO. Se os fenômenos com os quais nos ocupamos se tivessem limitado ao movimento dos objetos, eles teriam permanecido, como o dissemos, no domínio das ciências físicas; mas isto não ocorreu: estava-lhes destinado colocar-nos no caminho de fatos de uma ordem estranha. Acreditou-se descobrir, não sabemos através de que iniciativa, que a impulsão dada aos objetos não era somente o produto de uma força mecânica cega, mas que havia nesse movimento a intervenção de uma causa inteligente. Uma vez aberto esse caminho, era um campo totalmente novo de observações; era o véu levantado de sobre muitos mistérios. Haverá, com efeito, um poder inteligente? Essa é a questão. Se esse poder existe, qual é ele, qual a sua natureza, sua origem? Está acima da Humanidade? Tais são as outras questões que decorrem da primeira. As primeiras manifestações inteligentes aconteceram por meio de mesas que se levantavam e batiam com um pé um número determinado de pancadas, e respondendo, assim, através de sim ou de não, conforme a convenção, a uma pergunta feita. Até aí nada de convincente, certamente, para os cépticos, pois podiam crer num efeito do acaso. Obtiveram-se, em seguida, respostas mais desenvolvidas através das letras do alfabeto: com o objeto móvel batendo um número de pancadas correspondente ao número de ordem de cada letra, chegava-se, assim, a formular palavras e frases, que respondiam às questões propostas. A justeza das respostas, sua correlação com a pergunta, causaram espanto. O ser misterioso que assim respondia, interrogado sobre sua natureza, declarou que ele era Espírito ou gênio, atribuiu-se um nome, e forneceu diversas informações a seu respeito. Isto é uma circunstância muito importante que deve ser assinalada. Porquanto ninguém imaginou os Espíritos como um meio de explicar o fenômeno, foi o próprio fenômeno que revelou a palavra. Frequentemente, nas ciências exatas, fazem-se hipóteses para se ter uma base de raciocínio; ora, aqui não foi, absolutamente, o caso. Esse meio de correspondência era demorado e incômodo. O Espírito, e isso é ainda uma circunstância digna de nota, indicou um outro. Foi um desses seres invisíveis que deu o conselho de adaptar um lápis a uma cesta ou a um outro objeto. Essa cesta, colocada sobre uma folha de papel, é posta em movimento pela mesma potência oculta que faz mover as mesas; mas, em vez de um simples movimento regular, o lápis traça, por si mesmo, caracteres que formam palavras, frases, e discursos inteiros de várias páginas, tratando das mais elevadas questões de Filosofi a, de Moral, de Metafísica, de Psicologia, etc., e isso com tanta rapidez, como se escrevesse com a mão. Esse conselho foi dado, simultaneamente, na América, na França e em diversos países. Eis os termos nos quais ele foi dado em Paris, em 10 de junho de 1853, a um dos mais fervorosos adeptos da doutrina, que já há vários anos, e desde 1849, ocupava-se com a evocação dos Espíritos: “Vai pegar, no quarto ao lado, a cestinha; prende-lhe um lápis; coloca-o sobre o papel; põe os dedos sobre a borda”. Alguns instantes depois, a cesta pôs-se em movimento e o lápis escreveu, muito legível, esta frase: “Proíbo-vos, expressamente, de dizer o que vos digo aqui; da primeira vez que eu escrever, escreverei melhor.” O objeto ao qual se adapta o lápis, sendo apenas um instrumento, sua natureza e sua forma são completamente indiferentes; procurou-se a disposição mais cômoda; é assim que muitas pessoas se utilizam de uma pequena prancheta. A cesta, ou a prancheta, só podem ser postas em movimento sob a influência de certas pessoas dotadas, para isso, de um poder especial e que designamos sob o nome de médiuns, isto é, meios, ou intermediários entre os Espíritos e os homens. As condições que dão esse poder remontam a causas, ao mesmo tempo, físicas e morais ainda imperfeitamente conhecidas, pois encontramos médiuns de todas as idades, de ambos os sexos e em todos os graus de desenvolvimento intelectual. Essa faculdade, aliás, desenvolve-se pelo exercício. CINCO. Reconheceu-se, mais tarde, que a cesta e a prancheta, na realidade, formavam apenas um apêndice da mão, e o médium, pegando diretamente o lápis, posse a escrever através de um impulso involuntário e quase febril. Dessa maneira, as comunicações se tornaram mais rápidas, mais fáceis e mais completas; hoje, é o meio mais utilizado, tanto mais que o número das pessoas dotadas desta aptidão é bem considerável e se multiplica todos os dias. Finalmente, a experiência revelou muitas outras variedades na faculdade mediadora, e soube-se que as comunicações podiam, igualmente, acontecer através da palavra, da audição, da visão, do tato, etc., e até pela escrita direta dos Espíritos, isto é, sem o concurso da mão do médium, nem do lápis. Obtido o fato, restava constatar um ponto essencial: o papel do médium nas respostas, e a parte que nelas pode tomar, mecânica e moralmente. Duas circunstâncias capitais que não poderiam escapar a um observador atento, podem resolver a questão. A primeira é a maneira pela qual a cesta se move sob sua infl uência, unicamente pela imposição dos dedos sobre as bordas; o exame demonstra a impossibilidade de qualquer direcionamento. Esta impossibilidade se torna patente, sobretudo, quando duas ou três pessoas se colocam, ao mesmo tempo, junto à mesma cesta; seria preciso, haver entre elas uma concordância de movimento verdadeiramente fenomenal; seria preciso, ainda, concordância de pensamentos para que elas pudessem se entender sobre a resposta a dar à questão proposta. Um outro fato, não menos singular, vem ainda aumentar a dificuldade: é a mudança radical da escrita, conforme o espírito que se manifesta, e toda vez que o mesmo Espírito retorna, sua escrita se reproduz. Seria preciso, portanto, que o médium tivesse treinado a mudança de sua própria caligrafia de vinte maneiras diferentes e, principalmente, que pudesse lembrar-se daquela que pertence a esse ou àquele Espírito. A segunda circunstância resulta da própria natureza das respostas que estão, na maioria das vezes, sobretudo quando se trata de questões abstratas ou científicas, notoriamente fora dos conhecimentos e, algumas vezes, do alcance intelectual do médium, que, de resto, mais comumente, não tem consciência do que se escreve sob sua influência; que com muita frequência não entende ou não compreende a pergunta feita, visto que ela o pode ser numa língua que lhe é estranha, ou mesmo mentalmente, e que a resposta pode ser dada nessa língua. Enfim, acontece com frequência que a cesta escreva espontaneamente, sem pergunta preliminar, sobre um assunto qualquer e inteiramente inesperado. Em alguns casos, essas respostas têm um cunho de sabedoria, de profundidade e de propósito; elas revelam pensamentos tão elevados, tão sublimes, que não podem emanar senão de uma inteligência superior, impregnada da moralidade mais pura; de outras vezes, elas são tão levianas, tão frívolas, tão triviais mesmo, que a razão se recusa a acreditar que possam proceder da mesma fonte. Esta diversidade de linguagem só pode se explicar pela diversidade das inteligências que se manifestam. Essas inteligências estão na Humanidade ou fora da Humanidade? Este é o ponto a esclarecer, e cuja explicação completa encontrar-se-á nesta obra, tal como foi dada pelos próprios Espíritos. Eis, portanto, efeitos patentes que se produzem fora do círculo habitual de nossas observações, que não ocorrem misteriosamente, mas à luz do dia, que todo o mundo pode ver e constatar, que não são privilégio de um único indivíduo, mas que milhares de pessoas repetem, todos os dias, à vontade. Esses efeitos têm, necessariamente, uma causa, e desde o momento em que revelam a ação de uma inteligência e de uma vontade, eles saem do domínio puramente físico. Várias teorias foram emitidas a esse respeito; nós as examinaremos em breve, e veremos se elas podem explicar todos os fatos que se produzem. Admitamos, por enquanto, a existência de seres distintos da Humanidade, uma vez que esta é a explicação fornecida pelas inteligências que se revelam e vejamos o que eles nos dizem. O Livro dos espíritos. www.espiritismo.net. Abraço. Davi.