segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Budha não está mais Distante que a Palma de nossa Mão.



O autor dessa tradução é o grande mestre de meditação Mipam Rinpoche (1846-1914), que tentou mostrar a verdadeira natureza da mente. I. Ensinamento Quintessencial sobre o tema da Mente. O Budha não está mais distante que a palma de nossa mão. Inclino-me diante de Padmasambhava. E diante do ilustre Lama que é a emanação do ser de sabedoria Manjushri (1) , e semelhante a  todos os Budhas seus filhos. Em atenção daqueles que desejam (aprender) a meditação sobre o reconhecimento do sentido profundo da Mente. Eu vou explicar brevemente o início da via dos conselhos do coração (2). É necessário, no começo, confiar no ensinamento quintessencial de um Lama que possui a experiência da realização. Se não penetrarmos na experiência do ensinamento do Lama, toda a perseverança e o esforço consagrados à meditação equivalerão a disparar uma flecha na escuridão. O ponto crucial é colocar sua consciência no estado não fabricado (3), instalado em si mesmo; o rosto da sabedoria sem véu que é distinto do envoltório da mente, quer dizer daquela que se identifica. O sentido de permanecer desde o início é o estado natural, não fabricado. Tendo  desenvolvido a convicção íntima de que tudo o que surge é a essência do Dharmakaya (4), não rejeitam este conhecimento. Deixar-se levar pelas explicações discursivas sobre o tema da via, é como correr atrás de um arco-íris. Quando as experiências meditativas se manifestam como consequência da consciência lúcida do nobre estado não fabricado, não é pelo meio indireto de uma concentração exterior, mas de preferência mantendo a não ação (5). Estupendo, a maneira como chegamos à este conhecimento! II. No momento bem aventurado onde atingimos o estado intermediário. A constância do estado inabalável é mantida pela lembrança do estado espontaneamente estabelecido da Mente em si. Se colocar neste estado é suficiente. Se obstáculos são produzidos pelas nuvem que se elevam da análise mental que cria a distinção entre o sujeito e o objeto da meditação. Lembremo-nos então da natureza da Mente que desde o início é não fabricada, a Mente em si, vasta como o céu. Para relaxar, libertemo-nos da estreiteza e dissipemos o apego à esses conceitos. O conhecimento espontâneo estabelecido não consiste em pensamentos que fluem em todas as direções. Ele é vacuidade límpida e radiante, distinta de toda avidez mental. Este estado não pode ser descrito por exemplo, símbolos ou palavras. Percebemos diretamente a consciência última por meio da sabedoria do discernimento. O nobre estado da consciência lúcida, imparcial, vazia não mudou, não muda e não mudará. Ela é nosso próprio rosto, mascarado pelas impurezas dos conceitos repentinos, diversas vagabundagens quiméricas. Como é triste! Que ganharemos em nos prender a uma miragem? Qual o objetivo de perseguirmos esses sonhos diversos? De que serve se agarrar o espaço? Por conceitos variados, colocamos a cabeça ao contrário. Coloquem de lado essa falta de sentido esgotante e detenhamo-nos na esfera primordial! O céu verdadeiro é saber que Samsara (7) e nirvana não são mais que uma exibição ilusória. Mesmo que hajam exibições muito variadas, consideremos que elas têm o mesmo sabor. Ter-se estabelecido em uma relação íntima com a meditação permite lembrar-se da consciência nua, situada em si mesma, vibrante, livre dos conceitos. A Mente natural está além do conhecimento ou do não conhecimento, da felicidade ou do sofrimento. A felicidade nasce deste estado de relaxamento e repouso total. Então, no movimento ou na imobilidade, no ato de comer ou de dormir, nós conhecemos permanentemente este estado, e tudo é a via. Assim, vigilância, atenção, designa esta consciência semelhante ao céu. E mesmo no período que segue a sessão de meditação formal, elaboramos muito menos conceitos. III. Nos momentos bem aventurados do estado último. Relativamente às quatro ocasiões: mover, ficar imóvel, comer e dormir. (6), as marcas dos hábitos tenazes, a partir das quais surgem todos os conceitos e os sopros cármicos da Mente, são transformados. Nós possuímos a capacidade de nos recolher na cidadela da sabedoria imóvel e inata. O que chamamos Samsara não é mais que um conceito. A majestosa sabedoria é livrar-se de todo conceito. Então, tudo o que surge se manifesta como totalmente perfeito. O estado da nobre clara luz é constante, tanto à noite como de dia. Ela é outra que a distinção entre se lembrar e não se lembrar. Outra que desviar-se de seu justo lugar pela advertência do terreno fundamental que impregna toda coisa. Então, não realizamos nada pelo esforço. Sem nenhuma exceção, todas as qualidades inerentes às vias e as bases, clarividência, compaixão, etc., surgirão espontaneamente (8), crescente como a relva que chega à maturidade no verão. Liberto de apreensão e de vaidade, liberado de esperança e medo. É a grande felicidade não nascida, eterna, vasta como o céu. Essa nobre yoga é semelhante ao Garuda lúdico no céu da Grande Perfeição Imparcial.  Maravilhoso! Confiando no ensinamento quintessencial dum mestre, o meio de manifestar esta sabedoria da essência do coração é realizar as duas acumulações de mérito e sabedoria (9), de uma maneira tão ampla como o oceano é vasto. Então, sem dificuldade, a realização será colocada na sua mão. Espetacular! Em consequência, possam todos os seres sensíveis, pela virtude desta explicação, chegar a ver Manjushri juvenil, que é atividade compassiva de nossa consciência, mestre supremo, essência do diamante (o Dzogpa Chenpo da clara luz). Tendo percebido isso, nesta vida mesma, possamos atingir a iluminação perfeita.  Notas: 1. Manjushi. O Bodhisattva da Sabedoria. Segundo a mitologia budista, Manjushi foi, em uma encarnação anterior, ao rei Amba que fez o voto de se tornar um bodhisattva para o bem de todos os seres. 2. Os conselhos do coração. O ensinamento do coração do lama. É um ensinamento essencial condensado, destinado à meditação e apresentado pelo lama aos seus discípulos de coração. 3. O estado não fabricado. A consciência que surge no instante da percepção, uma pura presença que aparece sem modificação, não engendrada por causas. 4. Dharmakaya. Dharma significa a totalidade da existência; Kaya é esta dimensão. A base essencial do ser cuja essência é a claridade e a luminosidade e no seio da qual todos os fenômenos são percebidos como despidos de existência intrínseca. 5. A experiência meditativa se manifestando por intermédio da não ação; a meditação do Dzogchen é não conceitual e realizada simplesmente pelo reconhecimento sem esforço de nossa própria natureza verdadeira, não condicionada. A ação ou o esforço para realizar a meditação são contrários à presença relaxada que caracteriza a prática Dzogchen. 6. Mover-se, permanecer imóvel, comer e dormir; as quatro atividades, englobando todas as ações possíveis, no meio das quais um praticante dzogchen tenta manter sua consciência lúcida. 7. Samsara. Existência cíclica marcada pelo nascimento, a velhice, a doença, a morte e o renascimento. Os seres sensíveis, dominados pelo desejo, a ira e a ignorância, continuam a migrar através dos seis mundos do Samsar (o mundo dos deus, dos semi deuses, dos humanos, dos animais, dos espíritos famintos, e dos seres infernais) segundo seu carma. 8. Qualidades inerentes que surgem espontaneamente; como consequência natural da meditação dzogchen, os praticantes avançados podem desenvolver qualidades transcendentais tais como uma grande sabedoria, compaixão, a clarividência etc. 9. As duas acumulações. A acumulação de mérito por meio das boas ações e da sabedoria por intermédio da contemplação. Se bem que os dois sejam importantes sobre a vida do Dharma, o Budha disse que se conseguirmos manter o estado de contemplação (a acumulação de sabedoria) durante o tempo que é precioso a uma formiga para ir da extremidade do nariz de uma pessoa a sua testa, isso seria mais benéfico que uma vida inteira de acumulação de méritos pela ação virtuosa e a generosidade. 10. Mipam Rinpoche. Celebre mestre budista tibetano do século XIX, que começou por ser aluno de Patrul Rinpoche (1808-1887). Mipam foi o autor de comentários originais sobre o Dzogchen (de acordo com o budismo tibetano o dzogchen é o estado primordial ou condição natural, e também um corpo de ensinamentos e práticas meditativas com o objetivo de realizar tal condição. O Dzogchen ou Grande Perfeição, é um ensinamento central da Escola Nyingma, também praticado por adeptos de outras Escolas do Budismo Tibetano. Segundo a literatura Dzogchen, este é o mais alto e definitivo caminho rumo a iluminação. Da perspectiva de Dzogchen, é dito que da natureza última de todos os seres sencientes, capaz de sentir e perceber através dos sentidos, (reinos inferiores minerais vegetais e animais) é pura, abrangente, primordialmente límpida e naturalmente clara além do tempo. Essa clareza intrínseca não possui forma própria, e ainda é capaz de perceber, experienciando, refletindo, ou expressando em toda a sua forma. A analogia que os mestres Dzogchen fazem é que a natureza de um ser é como um espelho que reflete com completa abertura, mas não é afetado pelas imagens refletidas, ou como uma bola de cristal que reflete a cor do material em que é colocada sem, no entanto, ser alterada. A sabedoria que emerge ao reconhecer essas claridade semelhante ao espelho, que não pode ser encontrada pela busca ou identificada, é o que o Dzogchen se refere como Rigpa. Rigpa é a consciência desnuda e inteiramente aqui e agora, não podendo ser estabelecida como qualquer coisa específica, estado, ou ação. Ela tem a face original do vazio que é pura desde o início, totalmente penetrante e perspicaz), sobre outras escrituras budistas importantes. Continuamos sobre o Rigpa numa próxima oportunidade. http://www.nossacasa.net/shunya/. Abraço. Davi.

sábado, 25 de abril de 2015

Hinduismo. Parte I.



A reflexão a seguir foi extraída da Enciclopédia Livre Wikepédia com alguns ajustes para uma melhor compreensão. O Hinduísmo é uma tradição religiosa que se originou no sub continente indiano. É frequentemente chamado de Sanâta Dharma por seus praticantes, frases em sânscrito que significa: a eterna e perpétua lei. Num sentido mais abrangente, o Hinduísmo engloba o Bramamismo, a crença na Alma Universal; Brâhma no sentido mais específico. O termo se refere ao mundo cultural e religioso, ordenado por castas, da Índia pós budista. De acordo com o livro História das Grandes Religiões, o Hinduísmo é um estado de espírito, uma atitude mental dentro de seu quadro peculiar, socialmente dividido, teologicamente sem crença. desprovido de veneração em conjunto e de formalidades eclesiásticas ou de congregação, deste modo substituindo o nacionalismo. Entre as suas raízes está a religião Védica da idade do ferro na Índia, e como tal, o Hinduísmo é citado frequentemente como a religião mais antiga do mundo, a mais antiga tradição viva ou a mais antiga das principais tradições existentes. É formado por diferentes tradições e composto por diferentes tipos, não possuindo um fundador. Esses tipos, sub tradições e denominações, quando somadas, fazem do Hinduísmo a terceira maior religião do mundo, depois do Cristianismo e do Islamismo, com aproximadamente um bilhão de fieis, dos quais cerca de 905 milhões vivem na Índia e no Nepal. Outros países com significativa população de hinduísta são Blangadesh, Sri Lanka, Paquistão, Malásia, Singapura, Ilhas Maurício, Fiji, Suriname, Guiana, Trinidad e Tobago, Reino Unido, Canadá e USA. O vasto corpo de Escrituras Sagradas do Hinduísmo se divide em Shruti (revelado) e Smriti (recordado). Essas escrituras discutem a teologia, filosofia e mitologia hinduísta, e fornecem informações sobre a prática do Dharma (vida religiosa). Entre estes textos os Vedas e os Upanishades possuem a primazia na autoridade, importância e antiguidade. Outras escrituras importantes são os Tantras, os Ágamas sectários, e os Puranas, além dos épicos Maabárata e Ramáiana. O Baghavad Ghita, um tratado do Maabárata, narrado pelo deus Krishna, costuma ser definido como um sumário dos ensinamentos espirituais dos Vedas. Os hindus acreditam num Espírito Supremo Cósmico, que é adorado de muitas formas, representado por divindades individuais. O hinduísmo é centrado sobre uma variedade de práticas que são vistos como meios de ajudar o indivíduo a experimentar a divindade que está em todas as partes, e realizar a verdadeira natureza de seu Ser. A teologia hinduísta se fundamenta no culto aos Avatares (manifestações corporais) da Divindade Suprema, Brahma. Particular destaque é dado a Trimurti (uma trindade constituída por Brahma, Shiva e Vishnu. Tradicionalmente o culto direto aos membros da Trimurti é relativamente raro) e mais próximos da realidade cultural e psicológica dos praticantes, como por exemplos Krishna, Avatar de Vishnu e personagem central do Baghavad Guita. Hindu é o nome em persa do rio Indo, encontrado pela primeira vez na palavra Hindu (handu) do persa antigo, correspondente ao sânscrito Védico Sindhu. O Rigveda chama a terra dos indo arianos com Sapta Sindhu ( a terra dos sete rios no noroeste da Ásia Meridional, um deles o Indo), que corresponde ao Hapta no Avesta (Vendidad or Videvdad, 1:18), Escritura Sagrada do Zoroastrianismo. O termo foi utilizado para designar aqueles que viviam no sub continente Indiano, ou para além do Sindhu. O termo persa Hinduk entrou na Índia pelo Sultanato de Delhi e aparece nos textos do sul da Índia, bem como da Cachemira, a partir de 1323, e a partir daí é cada vez mais utilizado, especialmente durante o Raj britânico. Desde o fim do século XVIII a palavra passou a ser usada no ocidente como um termo que abrange a maioria das tradições religiosas, espirituais e culturais do sub continente, com a exceção do Sikhismo, Budismo e Jainismo; religiões distintas. O Hinduísmo pode ser sub dividido em diversas correntes principais. Dos seis Darshanas ou divisões históricas originais, apenas duas escolas, a Vedanta e a Yoga, sobrevivem. As principais divisões do Hinduísmo hoje em dia são o ShiKnuísmo, Shivaísmo, Smartismo e o Shaktismo. A imensa maioria dos hindus atuais podem ser categorizados sob um destes quatro grupos, embora ainda existam outros, cujas denominações e filiações variam imensamente. Alguns estudiosos dividem as correntes do Hinduísmo moderno em seus tipos: Hinduísmo Popular, baseado nas tradições locais e nos cultos das divindades tutelares, praticado em nível mais localizado. Hinduísmo Dhármico ou moral diária, baseado na noção de carma, na Astrologia, nas normas de sociedade como o sistema de castas, os costumes de casamentos. Hinduísmo Vedanta, especialmente o Advaita (Smartismo), baseado nos Upanishades e nos Puranas. Bhakti, ou devocionalismo, especialmente Vishnuísmo. Hinduísmo Bramânico Védico, tal como é praticado pelos brâmanes tradicionalistas, especialmente os Shrautins. Hinduísmo Yogue, baseado especialmente nos Yoga Sutras de Patandjáli (200 AC 400 DC). O comentário de Vyasa o define como descendente de Santanu. Existe diversas lendas sobre esse autor, havendo uma que diz ser ele uma encarnação do deus serpente Ananta, ou meio homem meio serpente. Ou ainda uma serpente que desejando ensinar o Yoga ao mundo caiu (Pat) dos céus nas palmas das mãos abertas (anjali) de uma mulher, que por sua vez o chamou de Patandjáli. Nos documentos de Shadgurusishya pesquisados por Max Muller (1823-1900) indicam-se cinco gerações de professores da tradição sânscrita, sendo o primeiro Shaunaka, seguido por Asvalayana, Katyayana, Patanjali e finalmente Vyasa. Virtualmente nada se sabe sobre a vida de Patanjali, e algumas escolas acreditam que ele é totalmente ficcional, Com os principais templos Hoysaleswara e Khajuraho. O Hinduísmo não tem um sistema unificado de crenças, codificado numa declaração de fé ou um credo, mas sim é um termo abrangente, que engloba a pluralidade de fenômenos religiosos que se originaram e são baseados nas tradições Vêdicas. Hindu é originalmente um termo persa, em uso desde os tempos do Sultanato Délhi, e que se referia a qualquer tradição nativa da Índia, em contraste com o Islã. Hindu é usado no inglês no sentido de pagão indiano desde o século XVII. Porém, a noção do Hinduísmo como uma tradição religiosa identificável, qualificando uma das religiões do mundo, surgiu apenas durante o século XIX. A característica da tolerância compreensiva às diferenças de credo e a abertura dogmática do Hinduísmo o torna difícil de ser definido como uma religião de acordo com o conceito ocidental tradicional. Embora  o Hinduísmo seja um conceito prático, claro que a maior parte de seus seguidores, muitos manifestam algum tipo de problema ao tentar chegar a uma definição do termo, principalmente devido à ampla gama de tradições e ideias incorporadas ou cobertas por ele. Embora seja descrito como uma religião, o Hinduísmo costuma ser definido com mais frequência como uma tradição religiosa. É descrito como a mais antiga das religiões do mundo, e mais diversa em tradições espirituais. A maior parte das tradições hindus reverenciam um corpo de Literatura Sagrada ou religiosa os Vedas, embora existem exceções; algumas tradições religiosas acreditam que certos rituais específicos sejam essenciais para a salvação, mas diversos pontos de vista sobre o assunto podem coexistir. Algumas filosofias hindus postulam uma ontologia teística da criação, sustento e destruição do universo, enquanto outros hindus são não teístas. (há uma grande diferença entre o termo teísta, ateísta e não teísta. Para esclarecimentos ler a exposição sobre o Budismo nesse blog de 12 de agosto de 2014). O Hinduísmo por vezes é caracterizado pela crença na reencarnação (Samsara), determinada pela lei do carma, e que a salvação é a liberdade deste ciclo de sucessivos nascimentos e mortes. Outras religiões da região, no entanto, como o Budismo e o Jainismo, também acreditam nisto, mesmo estando fora do escopo do Hinduísmo. O Hinduísmo é visto como a mais complexa de todas as religiões históricas vivas do mundo, porém a despeito desta complexidade é não apenas numericamente a maior delas, como também a mais antiga tradição em existência na Terra, com raízes que se estendem até a pré história. Uma definição do Hinduísmo dada pelo primeiro vice presidente da Índia, o reputado teólogo Sarvepalli Radhakrishnan (1888-1975), diz que ele não é apenas uma fé, mas que, por estar ele próprio relacionado à união da razão e intuição, não pode ser definido, apenas experimentado. De maneira similar, alguns acadêmicos sugerem que o hinduísmo pode ser visto como uma categoria com seus limites pouco definidos, e não uma entidade rígida e bem definida. Algumas formas de expressão religiosa são centrais ao Hinduísmo, enquanto outras não são tão centrais, porém ainda enquadram-se dentro da categoria; com base nisto desenvolveram-se algumas teorias acerca da definição do Hinduísmo, como a teoria dos protótipos. Os problemas com uma única definição do que realmente se quer dizer pelo termo Hinduísmo frequentemente são atribuídas ao fato de que o Hinduísmo não tem um fundador histórico único ou comum. O Hinduísmo não tem um sistema único de salvação, e apresenta diferentes metas de acordo com a seita ou denominação. As formas da religião Vêdica são vistos não como uma alternativa ao Hinduísmo, mas como a sua forma mais antiga, e praticamente não há justificativa para as divisões estabelecidas pela maior parte dos acadêmicos ocidentais entre o Vedismo, o Bramanismo e o próprio Hinduísmo. Uma possível definição de Hinduísmo é ainda mais complicada pelo uso frequente do termo fé como sinônimo para religião. Alguns acadêmicos e diversos praticantes se referem ao Hinduísmo com uma definição nativa, como Sanatana Dharma, uma frase em sânscrito que significa a eterna lei ou eterno caminho. O Hinduísmo é uma corrente religiosa que evoluiu organicamente através dum grande território marcado por uma diversidade étnica e cultural significativa. Esta corrente evoluiu tanto através da inovação interior quanto pela assimilação de tradições ou cultos externos ao próprio Hinduísmo. O resultado foi uma variedade enorme de tradições religiosas, que vai de cultos pequenos e pouco espalhados por todo o sub continente indiano e outras regiões do mundo. A identificação do Hinduísmo como uma religião independente, separada do Budismo e o do Jainismo, depende muitas vezes da afirmação dos próprios fiéis de que ela o é. Temas proeminentes na (porém não restritos às) crenças hinduístas incluem o Dahma, ética hindu, Samsara, o contínuo ciclo de nascimento, morte e renascimento. Carma a ação e consequente reação, Moksa que corresponde a libertação do Samsara e as diversas Yogas que são os caminhos ou práticas espirituais. O hinduísmo é um sistema diversificado de pensamento, com crenças que abrangem o monoteísmo, politeísmo, panteísmo (crença de que Deus e todo o universo são uma única e mesma coisa, sendo que Deus não existe como um Espírito separado. Nesse conceito Ele é todo o universo, a mente humana, as estações e todas as coisas e ideias que existem) monismo (sistema filosófico segundo o qual existe apenas uma espécie de realidade. O monismo de Baruc de Spinoza (1632-1677) identifica Deus com a natureza) e não teísmo, sendo seu conceito de Deus no Hinduísmo complexo, estando vinculado a cada uma das suas tradições e filosofias. Por vezes é tido como uma religião henoteísta (isto é, que envolve a devoção a um único deus, embora aceite a existência de outros), porém o termo é visto, da mesma maneira que os outros, como uma generalização excessiva. A maior parte dos hindus acredita que o espírito ou a alma o (Eu) verdadeiro de cada pessoa, chamado de Atman é eterno. De acordo com as teologias monistas e panteístas do Hinduísmo (tais como a Escola Advaita Vedanta), este Atman não pode ser distinguido, em última instância, do Brâman, o Espírito Supremo. Estas Escolas são, portanto, chamadas de não dualistas. A meta da vida, de acordo como a Escola Advaita, é chegar à conclusão que o seu Atman é idêntico ao Brâman, a Alma Suprema. Os Upanishades afirma que quem quer, tome consciência do Atman como o âmago de si próprio estabelecendo uma identidade com Brâman, atingindo assim o Moksha (liberação ou liberdade). Escolas Dualísticas (Dvaita e Bhakti) compreendem Brâman como um Ser Supremo que possui personalidade, e o veneram como Vishnu, Brahma, Shiva ou Shakti, dependendo da seita. O Atman é dependente de Deus, enquanto o Moksha depende do amor à Deus e da graça de Deus. Quando Deus é visto como um ser Supremo Pessoal (em lugar do Princípio Infinito), Deus é chamado de Ishvara (O Senhor), Bhagavan (O Auspicioso) ou Parameshwara (O Senhor Supremo). As interpretações de Ishvara variam, no entanto, da não crença no Ishvara dos seguidores do Mimamsakas, até a sua identificação com Brâman, pelo Advaita. Na maior parte das tradições do Vishnuísmo, Deus é Vishnu, e o texto das Sagradas Escrituras Vedanta identificam este Ser como Krishna, por vezes chamado de Svayam Bhagavam. Também existem Escolas, como o Samkhya, que têm tendências não teístas. As Escrituras hindus se referem a entidades celestiais chamadas Devas (na sua forma feminina, Devatã é usado como sinônimo de Deva em hindi), os brilhantes, que pode ser traduzido como deuses ou seres celestiais. Os Devas são uma parte integrante da cultura hindu, e foram retratados na sua arte, arquitetura, e através de ícones, e histórias mitológicas, sobre eles foram relatadas nas Escrituras da religião, particularmente na Poesia Épica indiana e nos Puranas. Frequentemente são, no entanto, dissociados de Ishvara, um deus pessoal, supremo que muitos hindus veneram de uma forma particular, como seu Istadevatã, ou ideal escolhido. A escolha é uma questão de preferência individual e tradições regionais e familiares. Os Épicos hindus e os Puranas relatam diversos episódios da descida de Deus à Terra em sua forma corpórea para restaurar o Dharma da sociedade e guiar os humanos ao Moksha. Tal encarnação é chamada de Avatar. Os Avatares, mais são de Vishu, e incluem Rama (protagonista do Ramávana) e Krishna (figura central do Épico Mahabárata). Carma pode ser traduzido literalmente como ação, obra ou feito, e pode ser descrito como a lei moral de causa e efeito. De acordo com os Upanishades um indivíduo, conhecido como o Jiva Atma, desenvolve Samskaras (impressões) a partir das ações, sejam elas físicas ou mentais. O Linga Sharira, um corpo mais sutil que o físico, porém menos sutil que a alma, armazena as impressões, e lhes carrega à vida seguinte, estabelecendo uma trajetória única para o indivíduo. Assim, o conceito de um carma infalível, neutro e universal, relaciona-se intrinsecamente à reencarnação, assim como à personalidade, característica e famíliar de cada um. O carma une os conceitos de livre arbítrio e o destino. O ciclo de ação, reação, nascimento, morte e renascimento é um contínuo, chamado de Samsara. A noção de reencarnação e carma é uma premissa forte do pensamento hindu. O Bhagavad Guita afirma que: "Assim como uma pessoa veste roupas novas e joga foras as roupas antigas e rasgadas, uma alma encarnada entra em novos corpos materiais, abandonando os antigos". A Samsara dá prazeres efêmeros, que levam as pessoas a desejarem o renascimento para gozar dos prazeres de um corpo perecível. No entanto, acredita-se que escapar do mundo da Samsara através do Moksha assegura felicidade e paz duradouras. Acredita-se que depois de diversas reencarnações um Atman eventualmente procura a união com o Espírito Cósmico (Brâman/ Paramtman). A meta final da vida, referida como Moksha, Nirvana ou Samâdhi, é compreendida de diversas maneiras diferentes. Assim sucedendo: como uma realização da união de alguém com Deus; como a realização da relação eterna de alguém com Deus; realização da unidade de toda a existência; a abnegação total e conhecimento perfeito do próprio Eu; como o alcance de uma paz mental perfeita e como o desprendimento dos desejos mundanos. Tal realização libera o indivíduo da Samsara e termina com o ciclo de renascimentos. A conceitualização do Moksha difere entre as várias Escolas de Pensamento Hindu. O Advaita Vedanta, por exemplo, sustenta que após alcançar o Moksha um Atman não mais identifica a si próprio como um indivíduo, mas sim como sendo idêntico a Brâman em todos os aspectos. Os seguidores das Escolas Dvaita (dualística) se identificam como parte de Brâman, e, após atingir o Moksha, esperam passar a eternidade num Loka (céu), na companhia de sua forma escolhida de Ishvara. Assim, diz-se os seguidores do Dvaita que desejam "provar o açucar", enquanto os seguidores do Advaita querem "se tornar o açucar". O pensamento hindu clássico aceita os seguintes objetivos da vida humana, conhecidos como os Purusarthas ou quatro objetivos da vida que são Dahma (retidão), artha (sustento), kama (prazer sensual), Mokhsa (liberação ou liberdade do Samsara). No Hinduísmo, acredita-se que todos os homens seguem o Kama e o Artha, mas brevemente, com maturidade, eles aprendem a controlar estes desejos com o Dharma, ou a harmonia moral presente em toda a natureza. O objetivo maior seria o infinito, cujo resultado é a absoluta felicidade, Moksha (também conhecida como Mukti, Samadhi, Nirvana), ou liberação do Samsara, o ciclo da vida, morte, e da existência dual. Qualquer que seja a maneira na qual o hindu defina a meta de sua vida, existem diverso métodos (Yogas) que os sábios ensinaram para se atingir aquela meta. Textos dedicados ao Ioga incluem o Bhagavad Guita, os Yoga Sutras, o Hatha Yoga Pradipika, a Gheranda Samhita, entre outros, e, como sua base filosófico histórica, os Upanishades. Os caminhos que um indivíduo pode seguir para atingir a meta espiritual da vida (Moksha ou Samadhi) incluem, entre outros: Bhakti Yoga que é o caminho do amor e da devoção. O Karma Yoga conhecido como o caminho da ação correta. Raja Yoga é o caminho da meditação. Jnana Yoga corresponde ao caminho da sabedoria. Raja Yoga é o caminho da união real. Um indivíduo pode preferir um ou alguns Yogas sobre os outros, de acordo com a sua inclinação e entendimento. Algumas Escolas Devocionais ensinam que o Bhakti é, para a maior parte das pessoas o único caminho prático para se alcançar a perfeição espiritual, com base em sua crença de que o mundo atualmente estaria no Kali Yuga (uma das quatro épocas que formam o ciclo Yuga). A prática de um Yuga não exclui as outras, e muitos estudiosos acreditam que os diferentes Yogas se misturam naturalmente e auxiliam na prática das outras Yogas. Por exemplo, pensasse que a prática da Jnana Yoga inevitavelmente  leve ao amor puro (a meta do BhaKti Yoga) e vice - versa. Alguém que pratica a meditação profunda (como no Raja Yoga) deve incorporar os princípios centrais do Karma Yoga, do Jnana Yoga e do Bhakti Yoga, seja direta ou indiretamente. As práticas geralmente envolvem a procura da consciência de Deus, e por vezes também a procura de bênção dos Devas. Assim, o Hinduísmo desenvolveu muitas destas práticas como forma de ajudar o indivíduo a pensar na divindade em meio à vida cotidiana. Os hindus  podem praticar a Puja (culto u veneração) tanto em casa como num templo. Em seus próprios lares os hindus frequentemente costumam criar um altar, com ícones dedicados às suas formas escolhidas de Deus. Os templos costumam ser dedicados a uma divindade primária e as divindades subordinadas que lhe são associadas, embora alguns templos sejam dedicados a mais de uma divindade. A visita a templos não  é obrigatória, e muitos os frequentam apenas durante os festivais religiosos. Os hindus realizam seu culto através dos Murtis, ícones; o ícone serve como uma ligação tangível entre o fiel e Deus. A imagem costuma ser considerada uma manifestação de Deus, já que Ele é imanente. O Padma Purana afirma que o Murti não deve ser visto como apenas pedra ou madeira, mas sim como uma forma manifesta da Divindade. Algumas seitas hindus, como o Arya Samaj, não acreditam em venerar Deus através de ícones. O Hinduísmo possui um sistema desenvolvido de simbolismo e iconografia (estudos dos assuntos representados nas obras de arte, de suas fontes e de seus significados) para representar o sagrado na arte, arquitetura, literatura e em seu culto. Estes símbolos ganham seu significado nas esculturas, mitologias ou tradições culturais. A silaba Om (que representa o Parabrahman) e o sinal da suástica (que simboliza prosperidade ou de bom presságio, que incita esperança) acabaram passando a representar o próprio Hinduísmo, enquanto outros símbolos, como a Tilaka, identificam um seguidor da fé. O Hinduísmo ainda apresenta diversas insígnias que são costumeiramente associados a divindades específicas, como o Lótus, Chakra e Veena. Os Mantras são invocações, louvores e orações que, através de seu significado, som e estilo de canto, ajudam um devoto a focar a sua mente nos pensamentos sagrados ou exprimir devoção a Deus ou às divindades. Muitos devotos realizam abluções (lavagem do corpo ou de parte dele) matinais as margens de um rio sagrado, enquanto cantam o Gayatri Mantra ou os Mantras Mahamrityunjava. O poema Épico Maabarata exalta o Japa (canto ritualístico) como o maior dever durante o Kali Yuga (que os hindus acreditam ser a era presente), e muitos adotam o Japa como sua prática espiritual primordial. A imensa maioria dos hindus praticam rituais religiosos diariamente, porém a observância destes rituais varia enormemente de acordo com as regiões, cidades ou aldeias e indivíduos. A maior parte dos hindus segue estes rituais religiosos em seus lares. Os hindus mais devotos também executam tarefas diárias, como venerar durante a alvorada, depois de se banhar (normalmente num santuário familiar, num ritual que também envolve o acendimento de uma lâmpada e a colocação de oferendas de alimentos diante de imagens das divindades), recitar os escritos religiosos, cantar hinos devocionais, meditar, cantar Mantras, dentre outros. Um fator de destaque nos rituais religiosos é a divisão entre o puro e o impuro (ou poluído). Atos religiosos pressupõem algum grau de impureza ou poluição para o seu praticamente, que devem ser anulados ou neutralizados antes ou durante o decorrer do ritual. A purificação, feita geralmente com água, é portanto um aspecto típico da maior parte dos atos religiosos do Hinduísmo. Outras características incluem a crença na eficácia do sacrifício e do conceito de mérito, ganho através da realização da caridade ou de bons atos, que acumulam com o tempo e reduzem o sofrimento no próximo mundo. Os ritos Védicos da oblação pelo fogo (Yajna) são atualmente apenas práticas ocasionais, embora sejam altamente reverenciadas na teoria. Nas cerimônias de casamentos e funerais hindus, no entanto, o Yajna e o entoamento de Mantras Védicos ainda são a norma. Os rituais, Upacharas, mudam com o tempo; por exemplo, nas últimas centenas de anos alguns rituais, como as danças sagradas e as oferendas musicais nos tradicionais conjuntos de Upacharas Sodasa, recomendados pelo Agama Shastra, foram substituídos por oferendas de arroz e doces. Ocasiões como nascimentos, casamentos e mortes envolvem o que são frequentemente conjuntos elaborados de costumes religiosos. No Hinduísmo, os rituais que tratam do ciclo da vida incluem o Anaprashan (a primeira ingestão de comida sólida por um bebê). Upanayanam (cerimônia do fio sagrado pela qual passam as crianças de castas elevadas em sua iniciação na educação formal) e Shraadh (ritual de conceder banquetes em nome dos falecidos). Para a maior parte das pessoas na Índia, o noivado de um jovem casal e a data e hora exatas do casamento são questões decididas pelos pais, em consultas com astrólogos. Na morte, a cremação, que é considerada obrigatória para todos, com a exceção de Sanyasis, Hijra e crianças abaixo de cinco anos, costuma ser executada envolvendo-se o corpo em algum tecido e queimando-o sobre uma Pira. A peregrinação não é obrigatória no Hinduísmo, embora muitos de seus seguidores as realizem. Os hindus reconhecem diversas cidades sagradas na Índia, incluindo  Allahabad, Haridwuar, Varanasi e Vrindavan. Entre as cidades que possuem templos famosos está Puri, que abriga um dos principais templos Vishuísta de Jagannath e a comemoração de Rath Yatra: Tirumala Tirupati, Lar do Templo Tirumala Venkateswara. Dwarka e Badrinath (ou, alternativamente, as cidades de Badinath, Kedarnath, Gangotri e Yamunotri no Himalaia) compõem o circuito de peregrinação de Char Dham (quatro moradas). O Kumbh Mela (o festival das jarras) é uma das peregrinações hindus mais sagradas, realizada a cada quatro anos. A localização é alternada entre Allahabad, Haridwar, Nashik e Ujjain. Outro importante grupo de peregrinações são os Shakti Peethas, onde a Deusa Mãe é cultuada, da qual as duas principais são Kalighat e Kamakhya. O Hinduísmo apresenta diversos festivais ao longo do ano. O calendário hindu costuma prescrever estas datas. Estes festivais tipicamente celebram eventos da mitologia hindu, e coincidem muitas vezes com as mudanças de estação. Existem festivais que são celebrados principalmente por seitas específicas ou em certas regiões do Sub continente Indiano. Alguns dos festivais mais importantes são o Maha Shivaratri, Holi, Ram Navami, Krishna Janmastami, Ganesh Chaturthi, Dussera e Durga Puja, além do Diwali. Continuamos na parte II. Beijo. Davi.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Jainismo.



O Jainismo ou jinismo é uma das religiões mais antigas da Índia, juntamente com o Hinduísmo e o Budismo, compartilhando com este último, um não teísmo de Deus como criador ou figura central. Considera-se que a sua origem antecede o Bramanismo, embora seja mais provável que tenha surgido na sua forma atual no século V AC, em resultado da ação religiosa do Mahavira. Vista durante algum tempo pelos investigadores ocidentais como uma seita do hinduísmo ou uma heresia do budismo, devido à partilha de elementos comuns com estas religiões, o Jainismo é contudo um fenômeno original. Ao contrário do Budismo, o Jainismo nunca teve um espírito missionário, tendo permanecido na Índia, onde os jainas constituem hoje cerca de quatro milhões de crentes. Pequenas comunidades jainas existem também na América do Norte e na Europa, em resultado de movimentos migratórios. A palavra Jainismo tem as suas origens no verbo sânscrito jin que significa "conquistador". Os seus adeptos devem combater, através de uma série de estágios, as paixões de modo a alcançar a libertação do mundo. Sua visão básica é dualista. A matéria e a mônada vital ou jiva são de naturezas distintas, e durante sua vida o ser vivente (seja humano ou animal) tinge sua mônada como resultado de suas ações. Para se purificar, esta religião propõe um extremo ascetismo e o colocar em prática da doutrina da não violência ou ahimsa. Os jainas reconhecem que pessoas, animais, plantas, formações rochosas, cursos de água e quedas de água têm jiva, ou seja alma ou princípio vital. Todos estes seres têm igual valor e estão interligados na teia de existência por elos kármicos. Segundos os historiadores da religião, o jainismo estabeleceu-se na Índia em meados do primeiro milenio AC. O seu fundador foi o Mahavira, existindo duas propostas para o período em que viveu: 599 AC 527 (data tradicional apontada pelo jainismo) ou 540 AC 470. (segundo os académicos). Nasceu perto de Patna, naquilo que é hoje o estado do Bihar. Foi um contemporâneo do Budha, tendo pregado na mesma região geográfica, embora não conste que os dois mestres tenham alguma vez encontrado. Pertencia à casta dos guerreiros (xátrias), casou, viveu no luxo até que por volta dos trinta anos tornou-se um mendigo errante. Entregou-se a longos processos ascéticos até obter a iluminação, tendo consagrado os restantes trinta ou quarenta anos da sua vida a pregar a sua doutrina. Faleceu em Pavapuri, no Bihar, que é desde então um dos principais locais de peregrinação jaina. De acordo com os jainas, a sua religião é eterna, tendo sido a doutrina revelada ao longo de várias eras pelos Tirthankaras, palavra que significa "fazedores de vau", ou seja, alguém que ensinou o caminho. Os Tirthankaras foram almas nascidas como seres humanos que alcançaram a libertação (moksha) do ciclo dos renascimentos através da renúncia e que transmitiram os seus ensinamentos aos homens. Na presente era existiram 24 Tirthankaras. O último desses Tirthankaras foi o Mahavira, que os jainas não consideram como o fundador do jainismo, mas antes aquele que lhe deu a sua forma actual. O 23.º Tirthankara foi Parshva, que os historiadores consideram ter sido provavelmente uma figura histórica que viveu cerca de três séculos antes do Mahavira. Os jainas acreditam que Parshva pregou os 4 grandes princípios do jainismo, a saber: não violência (ahimsa), evitar a mentira, não se apropriar do que não foi dado e não se apegar às posses materiais. Os jainas encontram-se divididos em dois grupos principais: os Digambara (Vestes de céu) e os Svetambara (Vestes brancas). Cada um destes grupos encontra-se por sua vez dividido em vários subgrupos. A maioria dos jainas pertencem ao grupo Svetambara. A origem destes dois grupos situa-se no século I d.C (ou talvez no século III d.C, segundo alguns autores) e deve-se a disputas em torno dos textos que devem constituir as escrituras do jainismo. Os Svetambara consideram que as suas escrituras estão mais próximas dos ensinamentos originais do Mahavira, enquanto que os Digambara rejeitam uma parte considerável dessas escrituras. Os Digambara consideram igualmente que a renúncia pregada pelo Mahavira implica para os monges a nudez total e que as mulheres devem primeiro renascer como homens para poderem atingir a libertação. Ao nível da geografia, os Digambara concentram-se no sudoeste da Índia e os Svetambara no noroeste (estados do Gujarate, Rajastão e Madhya Pradesh). As estátuas dos dois grupos são também diferentes: os Tirthankaras dos Svetambara possuem roupas e uma decoração mais rica, enquanto que as dos Sigambara estão nuas; estas diferenças fazem com que um adepto dos Digambara não possa praticar o culto num templo Svetambara. Posses materiais; o Mahavira acrescentou o princípio da castidade. A posse de qualquer bem é vista como relacionada com a violência, e até uma forma de violência física e psíquica. A violência em todas as suas formas tem origem no desejo de possuir, dominar, e controlar. Os ascetas jainas recusam possuir seja o que for, mas para os leigos a posse de algumas coisas é necessária para a realização das tarefas diárias. A possessividade transitória (usar um ser para deitá-lo fora) é uma forma de apego e baseia-se em relações de exploração de poder, por parte de um dos lados, em vez de amor e equanimidade incondicional. A assunção de que alguém tem acesso privilegiado à verdade é o mais potente motor de conflito entre os seres humanos. O conceito de não absolutismo refere-se ao pluralismo de opiniões, e à noção de que os vários pontos de vista sobre a verdade não são a própria verdade. O Jainismo encoraja os seus seguidores a considerarem os pontos de vista de outras filosofias, e consideram que quando qualquer uma destas filosofias, incluindo a jaina, se apega demais às suas próprias ideias está a cometer o erro de considerar o seu ponto de vista absoluto. A ideia é representada pela parábola dos homens cegos e do elefante, em que vários cegos tocam em partes do elefante, como as orelhas e as pernas, e descrevem, de forma contraditória, o que pensam ser o animal completo, partindo do pressuposto de que a parte que tocaram representava a verdade completa. O conceito de Syadvada ou talvez-ismo diz que se deve considerar que todas as proposições são apenas parcialmente verdadeiras (e parcialmente falsas). Os pontos de vista parciais da verdade são chamados de Naya. Segundo o princípio chamado de Nayavada,  através da abertura a diversos pontos de vista, o jainismo pretende que o praticante integre os diversos pontos de vista parciais, ou naya, numa teoria abrangente. A não violência é o cerne do jainismo e o ponto onde todas as doutrinas se intersectam. A violência é a agressão intencional ou não intencional. Os jainistas tentam evitar a agressão em todas as suas formas, seja através de ações, palavras, ou pensamentos, a todo e qualquer ser vivo, ou aos ecossistemas. O Jainismo considera o lacto vegetarianismo como o mínimo que deve ser feito pelos adeptos, e os estudiosos jainas defendem o veganismo, porque a produção de leite é agressiva para as vacas. Por causa de sua adesão à Ainsa (rejeição constante a violência e respeito absoluto a toda forma de vida), os jainistas não comem carnes, inclusive de peixes, também nem ovos e mel. Há um movimento cada vez mais forte, dentro do jainismo, em direção ao vegetarianismo estrito e à rejeição ao uso de produtos animais para fazer roupas e para outros fins. Um dos mais proeminentes líderes espirituais vivos do jainismo é Gurudev Chitrabhanu (1922-   ), que é um vegano bem estrito. Não há nenhuma tradição espiritual que seja tão centrada nos animais não humanos quanto o jainismo. Eles não somente promovem o vegetarianismo, e cada vez mais o veganismo, como também estão por trás da maior parte das atividades de proteção animal do tipo “mão na massa” realizada na Índia. O veganismo e diferente de vegetarianismo, pois o veganismo significa os princípios pelos quais o ser humano viva sem explorar os animais. É a prática e busca ao fim do uso de animais para alimentação, apropriação, trabalho, caça, vivissecção, confinamento e todos os outros usos que envolvam exploração da vida animal. Os veganos procuram abolir qualquer prática que explore animais, zelando pela preservação da liberdade e integridade animal, no exercício da não violência, a busca pro alternativas aos mais diversos produtos, o não consumismo, entre outras práticas. Também boicotam qualquer produto de origem animal (alimentar ou não), além de produtos que tenham sido testados em animais ou que incluam qualquer forma possível de exploração animal nos seus ingredientes ou processos de manufatura. Ou seja, não utilizam produtos de beleza, de higiene pessoal, de limpeza, remédios, etc, que não estejam isentos de crueldade. Preferem usar os termos animais não humanos ou seres sencientes, em vez de irracionais. Os jainas também não comem tubérculos (parte grossa de um caule que cresce debaixo da terra. O tubérculo armazena alimentos em geral amido, para a planta. A batata é o melhor exemplo de tubérculo. Os jainas também têm um cuidado especial para evitar possíveis danos a pequenos insetos, por exemplo ao colocarem um pano sobre as suas bocas para não os aspirarem ou varrendo o chão à sua frente quando andam Os jainas consideram que o tempo é infinito e cíclico. Ele é visto como uma grande roda dividida em duas partes idênticas: uma realiza um movimento ascendente (Utsarpini), enquanto que a outra um movimento descendente (Avasarpini). Cada uma destas partes divide-se em seis eras (ara). Durante o período ascendente os seres humanos progridem ao nível do saber, estatura e felicidade, enquanto que o período descendente caracteriza-se pela degradação do mundo, pelo esquecimento da religião e pela perda de qualidade de vida pelos humanos. Segundo os jainas, vivemos atualmente num período de movimento descendente, numa era de infelicidade (Dukham Kal), que começou há 2500 anos e que durará 21 mil anos. Segundo o jainismo, o universo divide-se em cinco mundos, sendo cada um deles habitado por determinado tipo de seres. O universo é eterno, não tendo sido criado por nenhum ser superior. No topo do universo está a morada suprema (Siddhashila), que é o local onde habitam as almas que alcançaram a libertação (estas almas são denominadas Siddhas). Abaixo encontram-se trinta céus, habitados por seres celestiais, alguns dos quais caminham para a morada suprema. O mundo médio (Madhyaloka) inclui vários continentes separados por mares. No centro deste mundo encontra-se o continente Jambudvipa, considerado o único continente no qual as almas podem alcançar a libertação. Os seres humanos habitam este continente, bem como um segundo continente ao lado deste e parte do terceiro continente. O mundo inferior (Adholoka) consiste em sete infernos, onde os seres são atormentados por demónios e onde se atormentam uns aos outros. Abaixo do sétimo inferno encontra-se a base do universo (Nigoda), habitada por inúmeras formas inferiores. A semelhança do Hinduísmo e do Budismo, o jainismo partilha da crença no karma, embora de uma forma diferente. O karma no jainismo não é apenas um processo em que determinadas ações produzem reações, mas também uma substância física que se agrega a uma alma. As partículas de karma existem no universo e associam-se a uma alma devido às ações dessa alma (por exemplo, quando uma alma mente, rouba ou mata esta provoca agregação de karma na sua alma). A quantidade e qualidade destas partículas determinam a existência que a alma terá, a sua felicidade ou infelicidade. Só é possível a uma alma alcançar a libertação quando desta se retirarem todas as partículas de karma. O processo que permite a libertação das partículas de karma de uma alma denomina-se Nirjara e inclui práticas como o jejum, o retiro para locais isolados, a mortificação do corpo e a meditação. Os seguidores do Jainismo utilizam para isso um ritual mortuário chamado Sallekhana (também conhecido como Santhara, Samadhi Marana, Samnyasa Marana), que consiste em praticar a eutanásia através do jejum. Devido à natureza prolongada da Sallekhana, é dado tempo ao indivíduo suficiente para refletir sobre sua vida e pedir perdão dos seus pecados aos deuses. O voto de Sallekhana é tomado quando se sente que a vida tem servido o seu propósito. O objetivo é limpar karmas antigos e impedir a criação de novos. Existe uma prática hindu similar conhecido como Prayopavesa. De acordo com a revista Press Trust of India, em média, 240 jainistas prática Sallekhana até a morte a cada ano na Índia. O jainismo considera a vida monástica como o ideal de vida dos seres humanos. Entre os Svemtambara a entrada na vida monástica é autorizada aos dois sexos a partir dos sete anos, mas realiza-se em geral numa idade mais avançada. O noviço deve abandonar todos os seus bens; por altura da sua ordenação (Diksa) a sua cabeça é rapada e ele toma os cinco votos, que segue numa versão mais rigorosa do que a dos leigos (Mahavrata). Os monges jainas levam uma vida itinerante, com exceção da época das monções, altura em que se recolhem numa determinada localidade. Dependem para a sua alimentação da caridade fornecida pelos leigos jainas, a quem oferecem em troca assistência espiritual. Os monges do ramo Svetambara podem ser donos de pequenas coisas, como uma fina veste branca, uma tigela onde recebem os alimentos dos leigos e uma máscara de tecido usada sobre a boca (Mukhavastrika), cujo objectivo é evitar a ingestão involuntária de pequenos insetos. Os monges Digambara interpretam o preceito do desapego de uma forma bastante rigorosa e por esta razão não usam roupas; as monjas deste ramo usam uma veste branca. Os monges Digambara não possuem uma tigela e usam a mãos como recipiente dos alimentos. Os monges Svetambara costumam se deslocar em pequenos grupos de cinco ou seis monges, enquanto que os Digambara geralmente viajam sozinhos.Todos os monges devem seguir as três regras que evitam a conduta incorreta (Guptis: ter cuidado com os pensamentos, as palavras e as ações). Entre os Svetambara o número de monjas ultrapassa o de monges. As monjas Digambara aceitam a doutrina que afirma que para se avançar no caminho espiritual é necessário nascer com um corpo masculino. Os jainas que não são monges devem observar oito regras de comportamento e devem tomar doze votos. As oito regras de comportamento variam, mas em geral incluem a prática absoluta e irrestrita de Ahimsa (não violência) que tem seu ponto forte na alimentação: não comer carne de nenhum tipo, não comer certos vegetais (cebola, alho, batata) os quais se acredita serem de origem inferior e não usar nenhum produto de origem animal. Outras regras incluem não se alimentar à noite, não ingerir bebidas alcoólicas nem substâncias consideradas alteradoras da consciência (cafeína, teobromina) e praticar a caridade a todos os seres vivos. Ler sobre as qualidades transcendentais dos Tirthankaras e recitar o Navkar Mantra também fazem parte das principais práticas diárias. Quanto aos doze votos, eles podem ser divididos em três classes: 1. Anuvratas, são os cinco votos principais: abster-se de atos violentos, não mentir, não roubar, não cobiçar o parceiro de outra pessoa e limitar as possessões pessoais. 2. Gunavratas, são três votos que reforçam os cinco votos principais: restringir as atividades pessoais a um área concreta (Digvrata), restringir práticas que proporcionam prazer (Bhogopabhogavrata), evitar atos que causam sofrimento (Anarthadandavrata). 3. Siksavratas, são quatro votos de disciplina espiritual: meditar, limitar determinadas atividades a certos momentos, adotar a vida de um monge por um dia, fazer donativos aos monges ou aos pobres. Uma das principais formas de culto dos jainas leigos é prestar homenagem às estátuas dos Tirthankaras. Os jainas lavam as estátuas e dedicam-lhes oferendas, como mel, flores, arroz, etc. Alguns grupos jainas, como os Sthanakavasis e os Terapanthis, são contra o culto de imagens. O crente não adora a estátua em si, mas antes as qualidades associadas a ela, de modo a receber inspiração para seguir o mesmo caminho. As estátuas podem ser adoradas nos templos ou então em pequenos santuários existentes nas casas. São representadas em posição de meditação, sentadas ou em pé. Não é possível estabelecer qualquer forma de contato com os Tirthankaras através desta forma de culto, uma vez que estes, tendo alcançado a libertação, ficam fora do contato humano. Contudo, durante a Idade Média cada Tirthankara foi associado a uma deusa protetora, em relação às quais se desenvolveram formas particulares de devoção. As deusas mais importantes são Ambika (associada ao 22º Tirthankara, Arishtanemi), Padmavati (associada a Parshva), Lakshmi e Sarasvati. As orações jainas fazem referência aos grandes actos dos Tirthankaras e aos ensinamentos do Mahavira, sendo ditas num antigo dialeto do Bihar, o Ardha Magadhi. A principal oração é o Namaskara Sutra, através do qual o jaina presta homenagem às qualidades dos cinco grandes seres do Jainismo.
  • O ato de fazer doações para a construção de templos é também considerado uma forma de culto, assim como a prática de peregrinações. Mahavira Jayanti, decorre em março ou abril e celebra a data do nascimento do Mahavira. Neste dia estátuas do Mahavira são levadas em procissões pelas ruas e os jainas reúnem-se nos templos para ouvir a leitura dos seus ensinamentos.
  • Paryushana: durante o mês de Bhadrapada (agosto setembro) os membros do ramo Svetambara do jainismo celebram um dos seus festivais mais importantes, Paryushana. Este festival está dedicado ao perdão e consiste na prática do jejum durante oito dias. No último dia do festival (Samvatsari) os jainas pedem perdão uns aos outros por ofensas que possam ter causado; aqueles que conseguiram jejuar durante os oito dias seguidos são levados para os templos em procissão. O festival equivalente na tradição Digambara denomina-se Dashalakshanaparvan, e para além da prática do jejum, é lido nos templos um importante texto, o Tattvartha Sutra.
  • Divali (festa da luzes), celebração comum a toda a Índia, é para os jainas a comemoração da altura em que o Mahavira deu os seus últimos ensinamentos e alcançou a libertação. Ocorre no mês de Kaartika, que corresponde no calendário gregoriano a outubro novembro.
  • Kartik Purnima, ocorre no dia de lua cheia do mês de Kaartika. Após terem permanecido numa determinada localidade durante os meses da monção, os monges e monjas jainas regressam à vida errante, sendo por vezes acompanhados por leigos no percurso que fazem para outro local. Neste dia muitos jainas realizam a peregrinação aos templos de Palitana, no estado indiano do Gujarate.
  • Mastakabhisheka - Cada doze anos os jainas (principalmente os do ramo Digambara) reúnem-se no santuário de Shravana Belgola no estado de Karnataka, onde se encontra uma estátua de dezessete metros de Bahubali, que é alvo de libações com água, mel, leite, flores, preparados de ervas e especiarias.
O Jainismo dá mais ênfase à suástica (antigo símbolo usado como ornamento ou emblema religioso. A suástica tem a forma de uma cruz com os braços dobrados em ângulos retos e voltados para uma determinada direção. Ela foi descoberta em construções bizantinas, inscrições budistas, monumentos celtas e moedas gregas) que o hinduísmo. Representa o sétimo Jina (santo), o Tirthankara Suparsva. É considerada uma das 24 marcas auspiciosas, emblema do sétimo arhat dos tempos atuais. Todos os templos jainistas, assim como os livros santos jainistas, contêm a suástica. As cerimônias jainistas começam e terminam com o desenho da suástica feito várias vezes em volta do altar. Os adeptos também usam o arroz para desenhar a suástica (também conhecida por Sathiyo no estado indiano de Gujarat) diante dos ídolos nos templos. Os jainistas colocam uma oferenda sobre esta suástica, geralmente uma fruta, um doce (Mithai), uma fruta em passa ou ainda uma moeda ou cédula de dinheiro. Fonte: Wikipédia. Abraço. Davi.