Islamismo. www.mesquitadobraz.org.br.
Por Al–Balagh Foudation. Tradução Ahmed Ismail. A PROTEÇÃO AMBIENTAL NA SHARIA
ISLÂMICA. Em Nome de Deus, o Clemente o Misericordioso. "E não
causeis corrupção na terra, depois de ter sido pacificada..." Alcorão
(A`raf 7:56). Uma Palavra da Fundação. "Enobrecemos os filhos de Adão
e os conduzimos pela terra e pelo mar, agraciamo-los com todo o bem e os
preferimos acima da maior parte do que criamos." Alcorão (Isra` 17:70).
Por certo que Deus Onipotente depositou suas bênçãos e riquezas neste mundo, de
modo excedente às necessidades humanas, para que o homem vivesse tranquilo e
livre de problemas, e também, criou-o na mais apropriada forma e deu-lhe uma
mente e um corpo que o auxiliam a utilizar as bênçãos concedidas; como o dia e
a noite, a terra e o céu, os rios e as árvores, o sol e a lua (...)
etc. Porém, com todas essas bênçãos e tesouros que nos rodeiam, presentes
na superfície e no interior da terra, um quinto da população mundial, isto é,
um bilhão e duzentos milhões de pessoas, vivem à beira da miséria. Não obstante
todo avanço tecnológico na atualidade, com a diversificação dos produtos
industriais e dos serviços, um temor obsessivo ainda está presente na mente do
homem do ocidente e do oriente, no qual ele se vê mais ansioso do que seus
antepassados, em razão do que o ameaça: os perigos da poluição ambiental, da
radioatividade nuclear, da carência de recursos naturais e da
guerra. Neste mundo atual, uma pessoa que tenha abundância de alimentos
não pode ser considerada alguém que vive confortavelmente, porque é possível
que uma epidemia, doenças ou outros elementos destrutivos, como micro radiações
imperceptíveis, a ataquem sob condições em que ela esteja familiarizada ou não,
que podem entrar em seu lar por meio de (por exemplo) recipientes de leite
contaminados ou pelo ar envenenado que respire. Portanto, não é surpresa
que o presidente da "Conferência para o Desenvolvimento Social"
realizada em Copenhague em março de 1995, tenha anunciado aos líderes mundiais
que o objetivo da conferência era "reduzir a intranquilidade e a
insegurança que ameaça as pessoas por todo o mundo e dedicar mais esforços para
assegurar uma vida digna para a sociedade." E antes disso, outra
conferência foi realizada, que enfatizou a quase impossibilidade de separar os
fatores do desenvolvimento e do ambiente em quaisquer
circunstâncias. Então, existem os perigos da poluição ambiental, a
infiltração de raios solares destrutivos à camada de ozônio, o risco da
deformidade em crianças e o crescimento da incidência de câncer provocado por
contaminação nuclear, acrescidos dos riscos de secas com o desaparecimento de
rios, o desflorestamento e a extinção de plantas e animais não estão confinados
a uma região particular, nem ao hemisfério norte nem ao hemisfério sul, quer
seja nos países desenvolvidos ou nos subdesenvolvidos. Assim, há uma séria
necessidade de um esforço coletivo para se cumprir as resoluções internacionais
para a proteção do meio ambiente e das espécies vegetais e animais, a fim de se
proteger e garantir a existência humana. A qual também é a resolução da ONU,
UNESCO e da Décima Segunda Conferência da Terra. Mas, infelizmente, alguns
países, sobretudo os industrialmente desenvolvidos, não estão respeitando essas
resoluções e continuam seus testes nucleares e a produção de outros elementos
destrutivos em nome de seus interesses materiais, sem a menor consideração
pelos seres humanos e o futuro do mundo. Isso é o que é confirmado pela
UNESCO em sua análise dos problemas ambientais no mundo: "Certamente, a
questão da produção e do consumo dos países industrializados influencia
sobremaneira todos esses problemas, nessa questão o esforço no sentido de
auferir grande lucro e muito rapidamente desconsidera os problemas e as
dificuldades decorrentes da desordem ambiental... e esse tipo de procedimento e
comportamento criará um grande dano, que virá a provocar a exaustão dos fatores
naturais nos países em desenvolvimento..." A evidência da ação
desumana e do egoísmo dos países desenvolvidos pode ser percebida na
insistência da França em realizar testes nucleares no mar do Caribe, e na
manutenção de testes nucleares pelos norte-americanos depois de todos os
acordos contrários que foram assinados e o risco da propagação dos armamentos
nucleares. Os acidentes em usinas nucleares, na América em 1985, que confirma
somente a ocorrência de 2.300 eventos, a exportação de resíduos nucleares, como
também a destinação de lixo nuclear para alguns países do terceiro mundo, e a
perigosa exploração dos recursos naturais em alguns países africanos sem
qualquer consideração aos riscos ambientais. E ainda, a exportação britânica de
carne contaminada (a doença da vaca louca) a outros países, e outros inúmeros
exemplos que vemos, estão causando grande prejuízo e desconforto a existência
humana neste planeta. Al-Balagh Foundation. Definição de
Ambiente. "Ambiente é o complexo de fatores físicos, químicos e
biológicos (clima, solo e seres vivos) que interagem num organismo ou
comunidade ecológica e que principalmente determina sua forma e sobrevivência;
(ambiente) o agregado de condições sociais e culturais que influenciam a vida
de um indivíduo ou comunidade. Trata-se das condições e circunstâncias
naturais em que as pessoas, os animais e os vegetais vivem, condições e
circunstâncias que se referem ao ambiente natural, social e político. Portanto,
o ambiente significa as condições e circunstâncias que rodeiam algo em
particular. O meio ambiente é um entorno natural, e se refere às condições
naturais, a atmosfera e as circunstâncias que estão relacionadas ao homem, e
isso inclui os vegetais, as florestas, a água, o ar, os oceanos, os animais e
as outras forma de vida, a natureza da terra e o que há nela, como as
montanhas, os rios, os pântanos, os desertos, e abrange a água quente ou fria,
a chuva e as nuvens, os raios solares... etc. Todas as criaturas e
entidades estão inter-relacionadas e produzem efeitos recíprocos, e isso também
age positiva ou negativamente na vida do homem, sobretudo na atualidade, depois
do avanço industrial e o aumento da interferência humana e de suas ações transformadoras
na condição natural. Outras fontes científicas definiram o ambiente como
"a condição em que o homem vive e obtém os componentes de sua vida, como o
alimento, a moradia e os medicamentos, e que conduz a relação com seu
semelhante”. Assim, esta é a definição de ambiente que considera o homem um
ponto central dentro dele. O Homem e o Meio Ambiente. O homem é parte do
mundo natural em sua formação, crescimento e na continuidade de sua existência
nesta terra; interage com os componentes naturais e suas condições ambientais a
todo momento. O Alcorão, em muitas passagens, se referiu ao relacionamento do
homem com a natureza e o ambiente. Aqui, citamos alguns desses
versículos: "E Deus vos produziu da terra, paulatinamente…" (Nuh
71:17). "...e criamos todos os seres vivos da água ..." (Anbiya
21:30. "E ao povo de Çamud enviamos seu irmão Saleh, que lhes disse: Ó
povo meu, adorai a Deus porque não tereis outra divindade além Dele. Ele foi
quem vos criou da terra e nela vos enraizou. Implorai, pois, seu perdão, voltai
a Ele arrependidos, porque meu Senhor está próximo e é exorável." (Hud
11:61). "Criou os céus sem colunas aparentes, fixou na terra firmes
montanhas, para que não oscile convosco, e disseminou nela animais de toda
espécie; e emviamos a água do céu, com que fazemos brotar toda a nobre espécie
de casais." (Lukman 31:10). "Não reparais em que Deus vos submeteu
tudo quanto há nos céus e na terra, e vos cumulou com Suas mercês, conhecidas e
desconhecidas? Sem dúvida, entre os humanos há os que disputam nesciamente
acerca de Deus, sem orientação ou Livro lúcido." (Lukman 31:20).
"...e enviou-vos água do céu, para com ela vos purificardes, vos livrardes
da imundície de Satã ..." (Anfal 8:11). "...e enviamos do céu, água
pura." (Furqan 25:48). "(...). Submeteu a vós os navios que, com Sua
anuência, singram os mares, e submeteu a vós, os rios." (Ibrahim 14:32).
"E foi Ele quem submeteu a vós, o mar, para que dele comêsseis carne
fresca..." (Nahl 16:14). "Dela vos criamos e a ela retornareis, e
dela vos faremos surgir outra vez." (Taha 20:55). "E quando se
retira, eis que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção,
devastar as semeaduras e o gado (...)" (Baqara 2:205). Os textos
alcorânicos acima tratam do homem como uma parte do ambiente natural, que
interage com o mesmo; tirando proveito dele e de modo similar, fornecendo algo
a ele. O homem é também, responsável pelo desenvolvimento desse ambiente e o
zelo por sua incorruptibilidade. O homem, esta criatura viva, representa uma
parte do sistema natural que age em seus componentes no sentido de entendê-los
e coordená-los. O mundo natural pode ser definido como o equilíbrio calculado,
científico e acurado do Ser mais Sábio e Prudente. A quantidade de água em
estado sólido, a salinidade de um mar, a água doce de um rio, o índice de
oxigênio, o grau dos raios solares, de calor ou a quantidade de chuva, de
peixes, de animais ou plantas (...) tudo isso é perfeitamente calculado sem o
mínimo erro. A terra e sua força gravitacional, a taxa de movimento, a força de
absorção, agem na vida do homem, dos animais e dos vegetais, e sua continuada
existência neste universo demonstra que o Sábio Criador ordenou tudo isso
cuidadosamente. Por conseguinte, os versículos citados abordaram a
realidade da vida humana - no que tange a natureza e o ambiente, ou seja: (1)
Que o homem foi criado da terra e se desenvolve por meio dela, como as plantas;
que a água é uma base para a vida, e que Deus Onipotente colonizou a terra com
o homem; isto é, confiou ao homem o desenvolvimento dela utilizando de seus
recursos naturais e condições ambientais - para o correto entendimento humano
do poder de Deus Onipotente e de suas bênçãos. (2) Que o ambiente natural deste
mundo, como as montanhas, têm por razão a proteção do equilíbrio da terra e dos
seres viventes, pela produção e consumo, do que vive sob o sistema de
equilíbrio da vida. As chuvas que caem, as plantas que crescem, tudo isso
é uma prova da Grandeza, do Poder, da Sabedoria e da Prudência de Deus, e que
qualquer ação do Sábio Conhecedor é calculada sem a mínima contradição, e que
mesmo se houver abuso de algum recurso o mesmo produzirá o efeito de acordo com
o sistema natural resguardando o equilíbrio ambiental, de um do modo ou de
outro, é a evidência da grandeza e da sabedoria do Criador Tudo neste mundo e
em seu entorno natural, como a água, os animais, as florestas e as plantas, as
criaturas aquáticas, os raios solares, o calor, a chuva, a salinidade do mar e
a água doce dos rios, foi criado para o homem, para tornar sua vida melhor. Em
vista disso, o Alcorão ordena ao homem que reflita sobre as bênçãos de Deus e o
convoca ao monoteísmo, ao louvor e a adoração de Deus somente. Este é o modo
que o Alcorão põe o homem no ambiente natural: como parte dele. Entretanto,
depois de explicar essa relação entre a vida, o intelecto e a natureza, o
Alcorão discute as atividades, as responsabilidades e os sistemas sociais que
protegem o bem estar do meio ambiente e a vontade divina do mundo da existência
sob a autoridade da Shari'ah. Organização e Equilíbrio Natural do
Ambiente. O meio ambiente é um preciso e equilibrado mundo que está edificado
na experiência, no conhecimento e na sabedoria. Assim, a natureza, o ambiente e
a vida são uma unidade completa e inter relacionada, como um único corpo; água,
terra, ar e vento (...) etc, são todos criados com um propósito e objetivo. Não
existe nada criado na terra sem um objetivo, ou incompleto, ou com metas
contraditórias. Glória seja dada a Deus que criou todas as coisas, moldou-as e
as fez cuidadosamente equilibradas. Os teólogos discutiram duas questões
fundamentais nos princípios islâmicos que tratam das ações e da sabedoria de
Deus, que são: 1 - Deus predestinou a criação de cada coisa, o que é
benéfico para as criaturas, e a vida não pode prescindir delas. 2 - As
ações de Deus são intencionais (ou seja, não existem sem um objetivo) e que
todas Suas ações se fundamentam na sabedoria. Em vista disso, a escola dos
Ahlul Bayt entabulou um debate candente com outras escolas de pensamento islâmico
com respeito a essa questão controversa no mundo natural, intelectual e social,
que o conhecimento humano e os pesquisadores confirmam, para maior
esclarecimento da análise islâmica desse assunto, devemos examinar os livros
que abordam essas duas questões ideológicas. As ações de Deus são
claramente dotadas de propósito, porque Ele é Sábio em suas ações, e as ações
um sábio não contrariam a sabedoria. Aquele que age sem um propósito é um tolo,
Deus está muito acima disso. "Não criamos os céus, a terra e tudo que
há entre eles por diversão" Alcorão (Dukhan 44:38) "...`Senhor
Nosso! Não criaste tudo isso em vão! Glorificado Sejas!...” Alcorão (Al-i-Imran
3:191) Todo esse propósito e benefício não produz retorno em benefício a
Deus, porque Ele se encontra isento de qualquer necessidade em relação a suas
criaturas, antes, produz benefício para elas próprias mediante a aquisição do
Paraíso e o contentamento de Deus, além da salvação do castigo e da perdição
sem que ocorra nenhum decréscimo da parte de Deus Onipotente, porque Ele é
perfeito e completo em Sua essência e em todos os aspectos. Porém, os
asha'ritas sustentam que: "é impossível que Deus faça algo com um
propósito, e não por algum interesse. É possível e permissível para Ele punir
Seus servos sem qualquer benefício ou interesse." (n.2) Os asha'ritas
tinham rejeitado o princípio da finalidade e interpretado erroneamente o fato
de que qualquer um que realize uma ação com um propósito necessita desta mesma
ação. Entretanto, como já vimos, o propósito e a meta são pelo interesse das
criaturas, e Ele (Deus), o Altíssimo, está muito acima da necessidade. O
filósofo islâmico, Nasruddin Tusi, escreveu enfatizando a necessidade do
interesse (maslaha): "O interesse pode ser necessário devido a existência
da razão e da ausência (não-existência) do que possa restringir sua
realização." Allamah Hilli comenta essa afirmação dizendo:" As
pessoas divergem, Abu Ali, Abu Hashim e seus companheiros dizem,
"interesse não é necessário para Deus Onipotente," e Balkhi os contradiz
afirmando, "interesse é necessário e este é o entendimento adotado pelas
pessoas de Baghdad e alguns de Basra," enquanto Abul Hassan Basri conclui:
"é necessário sob certas circunstâncias, mas não todas." Esta é,
também, a opinião do escritor." (n3) Assim, podemos deduzir que o
pensamento ideológico, no Islam, já confirmou o princípio ideológico, que é:
"Deus Onipotente não faz ou cria coisa alguma neste universo natural ou no
mundo do homem senão com um propósito ou interesse que produza benefício ao
homem ou as demais criaturas. E, naturalmente, sábios e pesquisadores em
diferentes campos científicos têm apoiado essa opinião ideológica, o que, de um
modo ou de outro, afirma a autenticidade dessa opinião e idéia. Para um maior
entendimento da questão, citaremos o que o químico Thomas David Parkinson,
escreveu: "Porém o sistema que testemunhamos à nossa volta não é um sinal
do poder das coisas, mas, está acima disso em sabedoria e se move no sentido do
estabelecimento dos interesses do homem, o que confirma que a preocupação do
Senhor Deus em relação a Seus servos não é menor do que Sua preocupação com os
sistemas e as leis que governam o universo." Atente para a perfeita
sabedoria que está imprimida a seu redor, que às vezes contradiz o habitual,
por exemplo, a água. Uma pessoa espera encontrar o peso molecular (da água)
(18) gasoso ao ponto do congelamento, e por exemplo, o peso molecular da
ammonia (17) gasoso ao ponto imperfeito de fervura (73) na atmosfera normal, e
o hidrogênio sulfídrico, que aproximadamente possui as mesmas características
da água, com um peso molecular de (53), gasoso ao ponto imperfeito de fervura
(53), em vista disso, o estado de liquefação da água ao ponto contrastante de
fervura, a deixará confusa. Além disso, a água possui outra importante
característica, que somente por observá-la, a pessoa compreenderá que se trata
de algo bem planejado. A água cobre 3/4 da superfície terrestre, e em razão
disso, tem um grande efeito na atmosfera geral e no grau da temperatura, que se
for reduzida, uma grande e indesejável mudança ocorrerá. Uma outra
preciosa característica que a água possui, e que indica que o Criador deste
universo a ordenou a fim de servir aos interesses de Suas criaturas, é que a
água é o único elemento conhecido cuja densidade diminui quando se solidifica,
e essa característica tem grande influência e importância na vida (no planeta).
E assim, o gelo, que flutua na superfície da água quando a temperatura esfria,
em vez de afundar se torna um bloco sólido que nem derrete nem se fende. Assim,
o gelo, água em seu estado sólido, flutua na superfície e cria uma camada que
protege a água embaixo dele. Com isso, os peixes e as demais criaturas
aquáticas subsistem e na primavera o gelo derrete rapidamente. (n4) De sua
parte, Dr. Christie Morrison em sua obra "Science call for Faith", ao
discutir o equilíbrio natural, a coordenação entre seus componentes, a precisão
e a perfeição do sistema ambiental, a proteção do sistema da vida e a Grandeza
do Criador, escreveu: "O ar denso, possuindo a necessária magnitude
retirada da passagem dos raios químicos, necessário para as plantas, que
destrói os micróbios e produz vitaminas, sem o mínimo dano ao homem, a não ser
na ocorrência de um longo tempo de exposição, permanece puro (sem contaminação)
e inalterável em seu equilíbrio natural para a existência do homem. O grande
(fator) de equilíbrio é a superfície de água, ou seja, o entorno natural em que
a vida, o alimento, a chuva, o clima equilibrado, as plantas e o próprio homem,
se desenvolvem. Certamente, aquele que compreender isso, ficará perplexo com a
Sua Grandeza (de Deus) e se submeterá à Sua Ordem." Dr. Lawrence
Kolino Woker, botânico, fisiologista, conferencista na Universidade de Geórgia,
escreveu: "Estou escrevendo um artigo como especialista em pesquisa
florestal, e também, como alguém que dá muita atenção aos estudos ambientais e
a fisiologia vegetal, para mostrar a importância da floresta como prova da
existência de Deus. Mais adiante, discutiremos mais sobre isso, quando discutirmos
o Sagrado zelo e o Poder Divino que se manifesta na restauração da fertilidade
da terra. Numa floresta virgem que não sofre nenhuma ação humana, as
árvores crescem e suas diferentes espécies se desenvolvem de geração em geração
até que seu número aumente; exceto se as atividades humanas interfiram nisso,
ou que sejam destruídas pelo fogo ou outra calamidade sobrevenha. A interrupção
pelas atividades humanas da floresta natural, suas plantas e fertilidade,
levará a redução de sua fertilidade e por fim, perderemos as árvores e o solo,
o que dará oportunidade à ocorrência de enchentes. Então, ele acrescenta:
"O homem gasta uma imensa quantia de dinheiro construindo grandes represas
a fim de impedir as enchentes, mas, esta é apenas uma solução temporária para
essa gigantesca força que nem barreiras de pedra, nem grandes edificações podem
repelir. Portanto, é necessário encontrar uma solução real para esse problema a
partir de sua fonte, e isso não pode ser realizado por meio da construção de
represas, nem por meio do florestamento, é algo que somente a própria natureza
pode realizar." (n5) Dr. Christie Morison, ao discutir o sistema
ambiental da terra e dos seres viventes, escreveu: "Certamente, a
admirável relação que existe entre o oxigênio e o dióxido de carbono, no que
tange a (vida) animal e vegetal, atrai a atenção de toda pessoa sensata.".
E continua: "Este é o modo que todo vegetal e planta, bem como toda forma
de vida primária, etc., surge do carbono e da água. Ademais, o oxigênio
atmosférico é convertido em dióxido de carbono na respiração animal e
regenerado pelas plantas na fotosíntese. Daí que, sem o relacionamento cordial,
a vida dos animais e das plantas se exauriria, ou seja, sempre que o equilíbrio
da vida se alterar a condição de ambos será inteiramente modificada."
(n6) O Que Surpreende no Equilíbrio Sistêmico. O seguinte fato é um claro
exemplo de um importante critério com respeito à existência humana. Há alguns
poucos anos atrás, um tipo de cacto foi cultivado na Austrália, e logo, essa
planta cobriu uma extensa área de terra ao ponto de perturbar toda a comunidade
e suas atividades agrícolas. Todos os esforços para impedir seu alastramento
foram inúteis, e a Austrália continuou afetada por essa praga. Posteriormente,
as pesquisas conduzidas por alguns entomologistas descobriram que um inseto,
que dependia desse cacto para sobreviver, se reproduzira rapidamente por toda a
Austrália. Em breve tempo, esse inseto destruiu o cacto. Assim sendo, eis o
critério e como o equilíbrio foi alterado. (n7) O Meio Ambiente e as
Práticas Destrutivas. Um levantamento ou uma acurada análise no mundo natural,
em seus componentes, na relação, no equilíbrio e nas mudanças que ocorrem nele,
mostrará a sabedoria, a precisão e a perfeição que o envolve, porque, não há
nada criado inutilmente ou para o prejuízo de alguém, e mesmo se prejudicar os
seres humanos, é um prejuízo relativo, devido o fato de que o ser humano foi
primeiramente proibido de praticá-lo. E frequentemente, tal elemento
prejudicial é alterado por processos naturais para ser útil ao vegetais, a
terra e mesmo ao próprio homem. Por certo, se for permitido que as leis
naturais ajam segundo foram criadas por Deus, protegerão a sanidade, a beleza
natural e ambiental e a vida de todos. A distribuição da água, das
montanhas, das florestas, das correntes de vento, das faixas climáticas, da
proporção de gases, dos raios solares, etc.. atua sob um sistema
inter-relacionado e bem organizado, como as bactérias e o cadáver de um animal
ou uma planta morta entram nos processos químicos naturais para o
reconhecimento dos interesses ambientais e a garantia do bem estar do entorno
natural. O Alcorão, quando desenvolve o tema do meio ambiente, e a perfeição
natural, como também o papel destrutivo do homem, diz: "E quando se
retira, eis que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção,
devastar as semeaduras e o gado..." (Baqara 2:205) "E não
causeis corrupção na terra, depois de ter sido pacificada, mas invocai-o com
temor e esperança, porque sua misericórdia está próxima dos benfeitores."
(A`raf 7:56) O Alcorão enfatiza que a terra e seus componentes de vida e
natureza são perfeitos e saudáveis; e que é o homem que atua em sua perfeição e
os destrói. Em razão disso, vemos esse cenário ampliado no homem atuando na
capacidade da terra em sua forma natural, como um elemento destrutivo; ceifando
a vida dos vegetais, dos animais e dos seres humanos. Nosso mundo atual tem
testemunhado os mais temíveis tipos de corrupção sobre a terra e o meio
ambiente, como também, a destruição do que o homem recebeu a ordem de proteger
e cuidar. Deus criou o homem da terra como um de seus componentes e ordenou a
ele que a protegesse. Deus Onipotente enfatiza essa responsabilidade, através
do Profeta Salih que diz: "E ao povo de Çamud enviamos seu irmão
Saleh, que lhes disse: Ó povo meu, adorai a Deus porque não tereis outra
divindade além Dele. Ele foi quem vos criou da terra e nela vos enraizou.
Implorai pois, seu perdão, voltai a Ele arrependidos, porque meu Senhor está
próximo e é Exorável." (Hud 11:61) Este é o aviso alcorânico sobre a
corrupção na terra e a destruição ambiental; o chamado para a implementação e a
proteção de suas leis equilibradas. A terrível e destrutiva ação humana se
manifesta na produção de armamentos químicos, nucleares e biológicos, que
provocam grande dano ao mundo; e também na destruição da natureza que se
manifesta no corte de árvores (em grande escala) e na poluição atmosférica
através da combustão e da produção (crescente) de lixo. Estudos científicos
e estatísticas dirigidos por especialistas demonstram que a interferência
humana nas leis naturais pela destruição ambiental, e mesmo em ações
supostamente benéficas ao homem, como o uso de fertilizantes químicos e outras
substâncias tóxicas para controlar as pragas; causam grande dano ao equilíbrio
ambiental, e à estabilidade da vida no planeta. O problema mais evidente
de nossa era é a poluição, causada pela indústria e mesmo pela ação bélica.
Assim, a poluição, mediante a utilização do carbono e do dióxido de carbono, a
destruição da camada de ozônio ou a poluição química provocada por substâncias
tóxicas, pela radioatividade, a água poluída por óleo cru ou lixo produzido
pelo homem, o uso de fertilizantes agrícolas como os compostos de fosfato e
nitrato, etc.. são provas contundentes do que Deus Onipotente proíbe ao
dizer: "E não causeis corrupção na terra, depois de ter sido
pacificada..." Alcorão (A`raf 7:56) Entretanto, tudo no mundo natural
age de acordo com o sistema de pureza, perfeição e equilíbrio. Daí que, a
proporção natural de carbono é fixa e equilibrada, de modo que as plantas
absorvam uma grande quantidade de dióxido de carbono natural para o seu
crescimento. Os estudos científicos confirmam que a quantidade média de
carbono no mundo natural é aproximadamente 300 partes em cada 10.000 partes de
ar. Contudo, essa proporção aumentou em 1984 para 354 partes em cada 10.000; e
esta proporção atual dobrará por volta de 2020 se a combustão mecânica e a
queima de florestas continuarem (nos mesmos índices). (n8) Mencionamos
aqui, que há um grande aumento na proporção do dióxido de carbono na atmosfera,
e isso se deve ao calor atmosférico, que pode ser detectado e que trará um
grande prejuízo num futuro próximo. Causará o derretimento do gelo polar e uma
elevação descomunal do nível das águas, o que afetará o equilíbrio natural,
mudará a composição natural da terra, o que por sua vez provocará um grande
dano ao homem… para sempre. (n9) Em seu relatório sobre as práticas
destrutivas para a Conferência do Clima da Terra e Direitos Humanos, a Liga
árabe para os Direitos Humanos escreveu: "As estatísticas mostram que
160.000 gases tóxicos estão pondo em risco a camada atmosférica somente nos
EUA. Por exemplo, os EUA estão usando 350 milhões de toneladas de Hidro-floro
carbonos, que são utilizados na manufatura de aerossóis, isto é, a média de 25%
da utilização mundial que chega a 1.400 milhões de toneladas. Esta ação,
apenas, causará o enfraquecimento da camada de ozônio. Ao mesmo tempo, os
países desenvolvidos, sozinhos, produzem 800.000 toneladas de lixo tóxico, o
que é aproximadamente 30% do lixo produzido no mundo, e esses países descartam
esse lixo no Saara e nos rios dos países subdesenvolvidos." A Liga
ainda diz em seu relatório que 600 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de
pobreza, 100 milhões de africanos estão morrendo de fome, 43 milhões de acres
de floresta são devastados anualmente e 80% da população mundial enfrentará
dificuldades e inutilização em termos de terras cultiváveis, de alimentação e água
potável no próximo século. Porém, sobre essa dura realidade, a linha geral
do clima terrestre impõe aos países pobres o ônus dessa destruição da camada de
ozônio. Além do que foi mencionado antes, a conferência demonstra que os países
do terceiro mundo importam mercadorias dos países do norte, que provocam
poluição ambiental. E ao mesmo tempo, enfatiza que mãos estrangeiras realizam
esse projeto naqueles países em vista de sua necessidade por trabalho
industrial, baixos salários e impostos, matérias primas disponíveis e leis
liberais, onde não serão questionados ou forçados a proteger o meio ambiente ou
enfrentar duras penalidades por abusar disso. O que podem os países pobres
fazer para enfrentar esse grave problema, diante de sua pobreza, subdesenvolvimento,
seus problemas diários e a fome que atinge seus cidadãos? Podem superar
sozinhos tais problemas? Para enfrentar esse terrível perigo, se presumiu
que a soma de aproximadamente 600 bilhões de dólares fosse suficiente para
curar o problema, mas, a maioria dos países industrializados se recusa a acatar
a proposta da ONU, que declara que os países ricos devem sacrificar 7% de sua
renda anual até 2000, para auxiliar os países pobres em seus projetos de
desenvolvimento. Todavia, a organização fica mais preocupada quando o governo
americano se recusa a assinar o acordo alcançado com o intuito de parar a
difusão de armamentos biológicos. Ademais, o governo norte-americano não
somente se recusa a assinar o acordo, como também se recusa a se comprometer com
a meta de decréscimo da emissão do dióxido de carbono no meio ambiente ao fim
deste século. E, na verdade, enfatiza que essa emissão poderá aumentar 1,76 %
nos próximos oito anos. Sem dúvida, as atividades humanas atualmente são
os fatores responsáveis da produção de aproximadamente 7,5 milhões de toneladas
de dióxido de carbono lançado no meio ambiente, que, é o principal fator na
mudança do clima mundial e causa da poluição do ar. Não obstante a
proteção do meio ambiente seja considerada um fator básico no processo
econômico e no desenvolvimento social, atividades humanas que incluem a
destruição das florestas, a poluição marinha, os produtos agrícolas químicos e
outras invenções modernas, levam a fonte biológica, as plantas, os animais e os
outros fenômenos naturais a um perigoso estágio, que pode ameaçar a própria
existência do homem. Entretanto, se diz que o homem seja o responsável
pelo crime de poluição do ar, da terra, da água e de todo o meio ambiente, mas
quem é este homem? É o homem da Somália, da Índia, do Sudão ou do Iêmen, ou o
homem que vive na América, no Canadá ou no Japão? Uma análise mais cuidadosa e
uma reflexão sobre as estatísticas nos dará maior esclarecimento sobre a
importância da injunção alcorânica com respeito a destruição ambiental e a
poluição. E também teremos um bom entendimento sobre a diferença entre a
civilização islâmica e a civilização ocidental (materialista) que ameaça a
sanidade do meio ambiente e a existência humana, revelando a tendência
legislativa islâmica e sua precisa solução para as questões culturais e
sociais, e sua preocupação com as questões humanas e ambientais. Como
Proteger o Ambiente Humano. A proteção do ambiente natural e social está entre
as mais importantes metas existenciais islâmicas, bem como a explicação do
sentido de seu cuidado e preocupação com o bem estar humano e a proteção do
meio ambiente, a aderência ao sistema da vida, a felicidade humana e sua
existência permanente. A razão disso é que o bem estar da espécie humana e dos
seres viventes e inanimados ao redor dela, como a terra, a água e o ar dependem
da proteção em relação a poluição e a destruição. O Islam adotou algumas
medidas para a proteção ambiental. Eis algumas delas: 1. Esclarecer e
educar o homem no sentido de como zelar pela saúde e a natureza, como proteger
as criaturas da terra. E isso está baseado no princípio de que tudo o que Deus
Onipotente criou é perfeito, preciso e possui o propósito da reforma; não há
nada criado em vão ou por mera diversão. O Alcorão explicou esse ponto quando
disse: "...Tal é a obra de Deus, que tem disposto prudentemente todas
as coisas..." (Naml 27:88) Porém, quando o homem se torna egoísta e
agressivo, tais posicionamentos o inclinam à destruição do meio ambiente e a
poluição da natureza. A esse respeito, o Alcorão considera o homem responsável
pela poluição ambiental, ao dizer: "A corrupção surgiu na terra e no mar
por causa do que as mãos dos humanos lucraram...." (Ar Rum 30:41) E
além disso, se dirige ao homem e o encoraja a proteger a natureza e a levar uma
vida saudável , quando diz: "E não causeis corrupção na terra, depois
de ter sido pacificada..." (A`raf 7:56) "E quando se retira, eis
que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção, devastar as
semeaduras e o gado (...)" (Baqara 2:205) 2. A exortação à pureza: O
mais evidente processo de proteção do ambiente humano é a orientação islâmica
para a educação do homem na pureza e na higiene e seu apelo para a purificação
do corpo, das roupas, dos utensílios, etc; Deus Onipotente diz: "E
tuas vestes, purifica !" (Muddathir 74:4) "(...) E quando
estiverdes impuros, higienizai-vos (...)" (Ma'ida 5:6) "(...)
Deus não deseja impor-vos carga alguma; porém, quer purificar-vos e
agraciar-vos, para que Lhe agradeçais." (Ma`ida 5:6) Em vista disso,
a pureza e a proteção do ambiente contra a poluição são consideradas bênçãos de
Deus, e que devem ser apreciadas. Daí, entendemos que bênçãos como por exemplo,
a saúde, o bem viver e os bens materiais, etc, são incompletas sem a pureza do
meio ambiente e sua proteção contra a poluição e a destruição, porque, sem
isso, continuaremos à mercê dos riscos e ameaças da destruição e da
extinção. O Profeta (saas), falando sobre a proteção da saúde, da pureza
do ambiente que rodeia o homem, diz, "Em verdade, vosso corpo tem um
direito sobre vós." (n10) E disse também, quando explicava a
importância da proteção da natureza: "Varrei vossos quintais e não sejais
como os judeus." (n11) Imam Ali Bin Musa Al Rida (as), falando da
pureza e da higiene, diz: "A purificação está entre os princípios dos
profetas." (n12) Jabir Bin Abdullah Ansari relatou o repúdio do Santo
Profeta (saas) à falta de higiene, e diz: "Um dia o Santo Profeta (saas)
veio ao nosso encontro e viu um homem com os cabelos desgrenhados e mal cuidados.
Então disse: Este não tem com que se pentear?" (n13) E também foi
relatado dele (saas) o seguinte dizer quando viu um outro homem vestido com
roupas sujas: "Este não tem algo para lavar suas roupas?” (n14) Sem
dúvida, o pensamento e a civilização islâmica estão muito acima dos demais, no
que tange a sua ênfase de que Deus Onipotente deseja para seus servos uma vida
prazeirosa, a pureza e um ambiente isento de poluição. O Profeta (saas)
explicou esse ponto ao dizer: "Certamente que Deus é bom e Ele ama a
bondade; Ele é puro e ama a pureza." (n15) E quando falando da pureza e da
higiene no Islam, convocando à limpeza do ambiente, ele (saas) diz: "Em
verdade o Islam é puro, portanto sede puros, porque não entrará no Paraíso quem
não for puro, (n16) 3. Proibindo a poluição ambiental: Como o Islam exorta
seus seguidores à purificação, também, proíbe a poluição e a destruição
ambiental. Sobre essa questão, foi relatado do Santo Profeta (saas) que ele
tenha proibido o cuspir na terra, em razão de seus efeitos prejudiciais à saúde
e sua contradição com a natureza humana. O Santo Profeta (saas) também proibiu
e alertou para que não se defecasse sob uma árvore frutífera ou se urinasse num
local de água parada, na água corrente ou no caminho, para que se protegesse o
ambiente da poluição, e se mantivesse a saúde e a pureza. Podemos destacar
a importância dessa recomendação se entendermos o perigo que o lixo produzido
pelo homem representa para nossa saúde e para o meio ambiente, sobretudo, o
papel que esses contaminantes na água desempenham na propagação de doenças para
a comunidade que a consome, seja bebendo, se banhando ou consumindo frutos
regados com essa água. Relatou-se de Imam Sádiq (as) que: "O Santo
Profeta (saas) proibiu a defecação na beira de um poço, rio ou debaixo de uma
árvore frutífera." (n17) Também relatou do Profeta (saas) que tenha dito:
"é proibido urinar na água estagnada." (n18) E ele (as)
mencionou ainda do Profeta (saas) que tenha dito: "em verdade, Deus vos
alerta, "Oh, minha nação! Eu vos proíbo vinte e quatro coisas," e ele
recitou-as até que disse, "Ele vos previne contra o ato de urinar à beira
de um rio." (n19) 4. A proibição de permanecer em estado de
"najasah" (estado de impureza) e a purificação: Quando estudamos a
filosofia das leis islâmicas, percebemos a preocupação e o cuidado dessas leis
com a proteção do homem. Os juristas resumiram a filosofia das leis islâmicas e
as analisaram numa fórmula simples, que é, "atrair o melhor interesse
(masalaha) e repelir o mal (a corrupção) (mafasid)." Assim sendo,
"masalaha" e "mafasada" são dois critérios de uma lei
particular e a razão de sua legislação. E, naturalmente, quando da prática
desse princípio legislativo sobre coisas que a lei islâmica prescreve, como a
impureza de determinadas coisas, e a proibição de consumí-las ou vendê-las, e a
necessidade de purificar-se delas antes da oração, uma pessoa compreenderá o
valor das leis islâmicas e sua exortação contra o mal que é prejudicial à
saúde. Em vista disso, a shari'ah denomina as seguintes coisas de "najis"
e exige a purificação em relação a elas antes da oração ou do tawaf (o ato de
rodear a Kaaba): 1. A urina e as fezes humanas, bem como os dejetos dos
animais que sejam proibidos para o consumo. 2. O cadáver humano, dos
animais cujo sangue jorra quando sacrificados. 3. O esperma humano e o dos
animais cujo sangue jorra quando sacrificados. 4. O sangue humano e o
sangue dos animais cujo sangue jorra quando sacrificados. 5. As bebidas
alcoólicas. 6. Os porcos e os cães. Sem dúvida, o atual problema
humano, especialmente nas grandes cidades, se trata de como nos livrar dos
dejetos humanos e animais e de como dar uma correta destinação aos cadáveres,
pois constituem fontes evidentes de micróbios e de perigosas doenças que
acometem o ser humano. Além disso, a utilização das impurezas acima
mencionadas, poluindo o meio ambiente foi proibida e o homem recebeu a ordem de
se livrar delas. Deus Onipotente diz: "...Deus não deseja impor-vos
carga alguma; porém, quer purificar-vos e agraciar-vos, para que Lhe agradeçais."
(Ma`ida 5:6) Com efeito, a pessoa que examinar cuidadosamente essas normas
de purificação, perceberá que o método de purificação islâmico é o mais
perfeito sistema para proteção da saúde e do meio ambiente. Menciona a água, a
terra, o sol como sendo purificadores naturais de todos os elementos impuros,
como os dejetos humanos, os cadáveres, o sangue e o sêmen de alguns animais.
Também considera a transformação (istihala) de um determinado estado para
outro, como a transformação de um cadáver em cinzas pela combustão, um dos
elementos de purificação. Ademais, o método de purificação islâmico é composto
de diferentes modalidades, que se encontram entre os mais perfeitos processos e
práticas de proteção ambiental, que são: a. O Islam, ao considerar os
cadáveres, o sangue, o sêmen e os dejetos do homem e de alguns animais como
"najis" (impuros), o que as pesquisas científicas confirmam serem
fontes de algumas doenças e de poluição ambiental, ordena que sua purificação e
remoção do corpo humano e de utensílios como as roupas, os tapetes, etc, pelo
uso da água e dos demais purificadores como obrigatório. O Islam também
legisla a purificação de alguns "mutanajjisat" (objetos que se tornam
impuros pelo contato com impurezas) por meio da terra, dos raios de sol, elementos
que cientificamente são provados serem microbicidas. Mediante esta medida, o
Islam preconiza a purificação do ambiente e a proteção do mesmo em relação aos
riscos da poluição. b. A inumação dos cadáveres: o Islam tornou
obrigatória a inumação dos cadáveres humanos, que é uma das mais importantes
medidas no sentido da eliminação dos micróbios e a proteção do ambiente
humano. c. O banho: O Islam legislou diferentes tipos de banho (ghusl)
para a limpeza e proteção do corpo em relação as impurezas e demais fontes de
doenças, com isso, tornou compulsório o "ghusl" e outras práticas,
recomendadas. As compulsórias são: Ghusl al Janabah: É obrigatório para um
"junub" (uma pessoa em estado de impureza ritual devido a ejaculação
ou relação sexual) se purificar através do banho ritual para que possa realizar
o sallah (a prece) ou o jejum. O Islam legislou como "makruh"
indesejável, que uma pessoa em estado de impureza durma, coma ou beba algo sem
antes realizar o banho ritual. Ghusl
al-Haidh. Ghusl al-Istihadhah. Ghusl-e-Massil-e-Mayyit. Ghusl an-Nifas. Os banhos
mustahab (meritórios) que o Islam recomenda que se faça, são muitos, o mais
importante deles é o ghusl da sexta-feira para a purificação do corpo. d.
A ablução (wudhu): a ablução na perspectiva islâmica, é o método mais evidente
de purificação do homem. O Islam tornou compulsórias aos muçulmanos cinco
preces diárias (a partir dos nove anos para as meninas e dos quinze anos para
os meninos) e essas preces não podem ser cumpridas sem o devido estado de ablução.
Assim, a pessoa se ablui cinco ou pelo menos três vezes ao dia para a prece,
quer seja a compulsória ou a voluntária, que sem o estado de pureza ritual não
é válida. Por conseguinte, a ablução é considerada purificação, na qual o ato
de lavar a face e as mãos é compulsório e o enxaguar a boca e lavar as narinas
são práticas recomendadas. Além de legislar como obrigatória a ablução, o
Islam exorta os fiéis para que estejam em estado de pureza ritual quando
realizarem alguns atos recomendados de adoração, como a leitura do Alcorão, e
também recomenda a realização da ablução antes de dormir. e. A limpeza dos
móveis e dos demais utensílios domésticos: a preocupação do Islam com a limpeza
do ambiente pode ser atestada também por sua proibição do consumo de coisas
impuras ou que tenham sido contaminadas por coisas impuras. Portanto, é
obrigatório para aquele que deseja comer ou beber utilizando um prato ou um
copo, que eventualmente tenha sido contaminado por algo impuro, purificá-lo com
água, ou em alguns casos, com água e areia (terra limpa), antes de utilizá-lo.
Os livros de jurisprudência discutiram o método de purificação de tais itens
quando entram em contato com substâncias impuras (para maiores detalhes, favor
pesquisar os livros sobre o assunto). 5. A proibição de alguns alimentos e
bebidas e algumas outras práticas, como o se alimentar da carne de animais
mortos por razões desconhecidas (ou sacrificados de modo incorreto), beber o
sangue, as bebidas inebriantes ou o uso de drogas, que são elementos destrutivos
da saúde e do bem estar da sociedade. 6. A proibição das relações sexuais
(ou prática sexuais) ilícitas, como a homossexualidade, o lesbianismo, a
masturbação, etc. 7. A criação do conceito de "nem dano ou prejuízo
deliberado” (ladharara wa la dhirara). Com este grande conceito ou
princípio que dá o direito de impedimento de qualquer prática ou ato que
produza algum resultado prejudicial, podemos dizer que o Islam proibiu qualquer
coisa que seja danosa ao ambiente. Portanto, cabe aos sábios e eruditos
religiosos, em outras palavras, é sua responsabilidade especificar tais atos ou
práticas prejudiciais. Em seguida, se torna responsabilidade do governo
proibi-los, como também proteger o bem estar e a coexistência pacífica de seus
cidadãos. 8. A responsabilidade de "ordenar o bem e proibir o
mal" (al amru bil ma'rufi wan nahayi anil munkar): esta injunção, bem como
o direito e a jurisdição dada a um governante pelo Islam para o cumprimento de
seus deveres, forma uma atmosfera reformadora na sociedade islâmica. E isso
compreende todos os requerimentos necessários que possam assegurar a proteção
do ambiente e seu desenvolvimento para o interesse dos seres humanos. Assim, as
leis islâmicas se baseiam na fórmula: "Atrair os melhores interesses e
repelir a corrupção." E que o princípio de "auxiliai-vos mutuamente
no bem e na piedade, e não auxiliai-vos no pecado e na agressão" é uma
ampla base para a proteção do ambiente (social) e para a preservação do sistema
natural, pois o versículo proíbe a agressão à natureza e à vida e exige um
relacionamento coletivo em prol da bondade e da reforma. A Flora. "É
Ele quem envia a água do céu, da qual bebeis, e por meio da qual brotam
arbustos com que alimentais o gado. E com ela faz germinar a plantação, a oliveira,
a tamareira, a videira, bem como toda a sorte de frutos, Nisto há um sinal para
os que refletem." (Nahl 16:10-11). Em nossa discussão anterior,
apresentamos a opinião e o ponto de vista de alguns eruditos e pesquisadores na
área da botânica, e a relação dos vegetais e o equilíbrio ambiental. Também,
demonstramos o papel das plantas na vida dos animais e do homem, não no campo
têxtil, alimentar ou medicinal, mas na organização e no equilíbrio do meio
ambiente. A importância do equilíbrio da proporção de oxigênio e dióxido de
carbono, da prevenção e debelação de enchentes, da retificação da atmosfera e
da renovação da fertilidade do solo, foram também destacadas. Os vegetais são a
terceira criatura vivente neste mundo e a primeira forma de vida, criatura
produzida, são companheiras dos homens e dos animais. Sobre essa questão, em
diferentes passagens o Alcorão trata das plantas, das colheitas, das árvores,
das terras aráveis, do ambiente vegetal e da relação do homem e as
plantas. A mensagem islâmica encoraja a agricultura e o plantio de
árvores, e proíbe o corte e a remoção de árvores durante a guerra como alguns
governantes de nosso tempo praticam, devido a sua brutalidade. Portanto, o
Islam apela para a proteção da flora e o cultivo de árvores para a preservação
da sanidade ambiental. Ademais, o Islam considera o plantio de árvores e a
preservação da terra como um ato de adoração e uma caridade, um ato que se
conforma com a condição de companheirismo do homem, das plantas e dos animais.
Deus evidencia isso, dizendo: "Ele foi quem vos criou da terra e nela
vos enraizou." (11: 61) Também na tradição profética, narrou-se do
Santo Profeta (saas) que: "Não há muçulmano que cultive uma planta ou
semeie uma safra que pássaros, animais ou pessoas comam dela, que não tenha uma
recompensa por isso. (n20) "Nenhum homem cultiva uma planta a menos
que Deus registre uma recompensa para ele, tanto quanto os frutos que cresçam
dela" (n21) O Profeta(saas) enfatiza ainda o plantio quando diz:
"Se uma pessoa possui uma semente de palmeira e pode semeá-la antes de ser
ressuscitada no Dia do Julgamento, ela deve fazê-lo." (n22) E foi
relatado dele (saas) que tenha dito: "Um muçulmano não cultivará uma
planta que um homem ou animal coma de seus frutos, sem que tenha uma recompensa
por isso." (n23) Ibn Umar relata: "Estávamos na presença do
Santo Profeta (saas) quando um caroço de tâmara foi trazido, então ele (saas)
disse: "Em verdade, entre as árvores, há uma que é como um
muçulmano," e eu quis dizer que era a plameira, mas quando olhei em volta
percebi que eu era o mais jovem dos presentes ali. Então, o Santo Profeta
(saas) disse: "É a tamareira." (n24) Esta foi a maneira que o
Profeta (saas) tornou a agricultura e a preocupação com a proteção ambiental
para o benefício do homem e dos animais um ato de adoração, uma caridade e por
outro lado, comparou a tamareira com o muçulmano que proporciona um grande
benefício à comunidade. Quando discute a questão do crime ou da agressão
contra a vida, o Alcorão condena os destruidores do ambiente animal, humano e
vegetal, denomina tal agressão como um agressão a humanidade, pois, a agressão
contra as fontes da vida do ser humano é uma agressão contra ele próprio. Com
respeito a isso o Alcorão diz: "E quando se retira, eis que sua
intenção é percorrer a terra para causar corrupção, devastar as semeaduras e o
gado (...)" (Baqara 2:205) Neste versículo, o Alcorão compara a
destruição das plantas e dos animais com a corrupção da terra, e a considera
uma agressão contra o sistema da vida, um mal que deve ser eliminado. Portanto,
a partir disso, podemos perceber como os princípios da lei islâmica e suas
ideologias correspondem às leis naturais e do sistema equilibrado da vida.
Esses dois pontos mostram bem a sabedoria e a vontade de Deus em Sua legislação
e criação. Protegendo a Fauna. "Na criação dos céus e da terra ; na
alteração do dia e da noite; nos navios que singram o mar para o benefício do
homem; na água que Deus envia do céu, com a qual vivifica a terra, depois de
ter sido árida e onde disseminou toda espécie animal; na mudança dos ventos;
nas nuvens submetidas entre o céu e a terra, (nisso tudo) há sinais para os
sensatos." (Baqara 2:164) "Não existe seres que andem sobre a
terra, nem que voem no céu, que não constituam nações semelhantes a vós. Nada
omitimos no Livro; então, serão congregados ante seu Senhor." (An`am
6:38) "Não existe criatura sobre a terra cujo sustento não dependa de
Deus; Ele conhece sua estância temporal e permanente; porque tudo está
registrado num Livro lúcido." (Hud 11:6) "Não reparas acaso, em
que tudo o que há nos céus e tudo o que há na terra se prostra diante de Deus?
O sol, a lua, as estrelas, as montanhas, as árvores, os animais e muitos
humanos?... (Hajj 22:18) "Não reparas, acaso, em que tudo o que há
nos céus e na terra glorifica a Deus, inclusive os pássaros, ao estenderem suas
asas? Cada um está ciente de seu(modo de ) orar e louvar (...)” (Nur
24:41) "(...) Nada existe que não glorifique Seus louvores; porém,
não compreendeis suas glorificações" (Isra` 17:44) "E criou o
gado, do qual obtendes vestimentas, alimento e outros benefícios. E tendes nele
encanto, que quando o conduzis aos apriscos, quer quando, pela manhã, os levais
para o pasto." (Nahl 16:5-6) "E (criou) o cavalo, o mulo e o
asno para serem cavalgados e para o vosso deleite, e cria coisas mais, que
ignorais." (Nahl 16:8) "É Ele quem envia água do céu, da qual
bebeis e mediante a qual brotam arbustos com que alimentais o gado. E com ela
faz germinar a plantação, a oliveira, a tamareira, a videira, bem como toda
sorte de frutos. Nisto há um sinal para os sensatos." (Nahl
16:10-11) "E fixou na terra sólidas montanhas, para que ela não
estremeça convosco, bem como os rios e caminhos pelos quais vos conduzis."
(Nahl 16:15) "Bem como em tudo o que vos multiplicou na terra, de
variegadas cores, certamente nisto há um sinal para os que meditam." (Nahl
16:13) "E foi Ele quem submeteu a vós, o mar, para que dele comêsseis
carne fresca e retirásseis certos ornamentos com que vos enfeitais. Vedes nele
os navios sulcando a água, à procura de algo de Sua graça; quiçá sejais
agradecidos." (Nahl 16:14) "Se pretendeis contar as mercês de
Deus, nunca podereis enumerá-las. Sabei que Deus é Indulgente, Mui
Misericordioso." (Nahl 16:18) Nesta coletânea de versículos, o
Alcorão descreve o meio ambiente de um modo admirável, e reúne seus diferentes
componentes, o homem, a terra, o ar, a atmosfera, os rios, os mares, a chuva,
as plantas, os animais, os pássaros, os peixes, etc, numa mesma circunstância e
numa perfeita e complexa formação servindo um propósito interrelacionado e
específico. Daí que, tudo isso tenciona o interesse e o bem estar do homem, e
por isso ele é o centro e o responsável pela proteção do meio
ambiente. Relacionado a isso, o Alcorão alerta aqueles que destróem e poluem
o meio ambiente, da seguinte maneira: "E não corrompais a terra , depois
dela ter sido pacificada..." (A`raf 7:56) Em outra passagem, o Alcorão
descreve os que espalham a corrupção na terra e tratam o sistema da vida na
terra e no mar de modo irresponsável, como pessoas nefastas e pervertidas, o
Alcorão declara: "A corrupção surgiu na terra e no mar por causa do
que as mãos dos humanos lucraram...." (Ar Rum 30:41) "E quando
se retira, eis que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção, devastar
as semeaduras e o gado..." (Baqara 2:205) De fato, a partir desses
versículos, podemos compreender a preocupação do Islam com o mundo animal e com
todo ambiente da vida. O Islam se dirige ao homem e apresenta a ele uma fórmula
essencial de como viver com as outras criaturas que compartilham o mesmo
ambiente, a fim de estar apto a dispô-las à seu serviço, com a permissão de
Deus. O Alcorão descreve essa questão dizendo: "Para que vos
acomodásseis sobre eles, para assim recordar-vos das mercês de vosso Senhor,
quando isso acontecesse. Dizei: Glorificado seja Quem no-los submeteu, o que
nunca teríamos conseguido fazer." (Zukhruf 43:13) Na mesma
consideração, porém, o Alcorão descreve o mundo animal como um mundo
independente, que tem seu próprio sistema, suas próprias leis, formações
sociais e relações entre seus elementos, com seu Senhor, com o homem, as
plantas e o mundo material. O Alcorão descreve isso dizendo: "Não
existem seres que andem sobre a terra, nem que voem no céu, que não constituam
nações semelhantes a vós. Nada omitimos no Livro; então, serão congregados ante
seu Senhor." (An`am 6:38) Portanto, os animais são criaturas como
nós, que possuem seus próprios sistemas, dos quais até agora o homem não foi
capaz de descobrir muito. O Alcorão retrata os animais como criaturas que
conhecem seu Senhor, se dirigem a ele e têm suas próprias formas de oração,
"dhikr" e prostração de acordo com a sua existência, ainda que os
homens, em sua maioria, não sejam capaz de perceber isso. E como o homem, os
animais possuem sua própria riqueza no mundo natural, que é o propósito de Deus
Onipotente para eles. Além disso, Deus, através de Sua graça e bençãos,
criou animais para o serviço do homem, para que se sirva de suas carnes e
derivados, utilize seu pêlo e outras partes (para vestimenta e propósitos de
agricultura) ou os use como montaria, transporte ou no cultivo da terra, ou
ainda, os mantenha como fonte de beleza, decoração ou riqueza. O Alcorão
põe o mundo animal lado a lado com o mundo dos homens, para que o homem viva
com essa criatura como parte de seu ambiente, e ainda, que seja responsável por
sua proteção. Por isso o Islam proíbe a agressão e a crueldade com os animais e
proíbe sua caça (exceto em época de necessidade) ou matança inútil. O direito e
a superioridade dada ao homem sobre os animais consiste em que os use com
bondade e tolerância. As leis islâmicas advertem contra o dano aos animais ou a
seu ambiente, como por exemplo, a destruição de suas pastagens ou a matança
(injustificada); com exceção dos animais que são prejudiciais ao homem, quando
necessário. Em situações que matá-los significa preservar a saúde e a vida
(serpentes, escorpiões, etc). Com efeito, quando analisamos as leis
islâmicas, percebemos as admiráveis razões para a proteção dos animais.
Narrou-se do Santo Profeta (saas) que ele advertiu contra a matança das abelhas
e dos asnos selvagens (para comer sua carne). Mencionou-se que a segunda
proibição teria sido para impedir a extinção desses muares. Em outra tradição,
proíbe-se o pegar os pássaros em seus ninhos durante a noite ou antes de que
tenham crescido o suficiente para voar. A razão disso é que os princípios
islâmicos respeitam a lei do equilíbrio ambiental entre o homem e os animais,
por conseguinte, os animais possuem o direito de se protegerem de qualquer
intruso quer seja pela fuga ou revoada, sendo que na situação mencionada não
podem exercê-lo. A lei que mencionamos anteriormente,"la dharara wa
la dhirara" tem um efeito predominante no campo da proteção e da
preservação do ambiente animal. Como na proibição da caça e da pesca na estação
reprodutiva, ou na proibição de se lançar substâncias venenosas nos rios para
matar os peixes, ou da destruição das árvores e colheitas, ou de se provocar o
alastramento da corrupção na terra. Dessa descrição alcorânica, podemos inferir
a visão islâmica com respeito aos animais e nossa responsabilidade com este
universo, e de como devemos conviver com ele. Já vimos a tradição profética que
diz: "Um muçulmano não cultivará uma planta que um homem ou animal coma de
seus frutos, sem que tenha uma recompensa por isso." Portanto, toda boa
ação que um homem realiza, como proteger um outro ser humano ou algum animal,
tem uma recompensa. O que demonstra que o Islam se preocupa e encoraja a proteção
e a preservação dos animais, e que estes possuem seus próprios direitos e
recursos, como os seguintes versículos afirmam: "Comei e apascentais
vosso gado! Em verdade, nisto há sinais para os sensatos." (Taha
20:54) "E o fruto e a forragem, para o vosso uso e do vosso
gado." (Abasa 80:31-32) "Não existe criatura alguma sobre a
terra cujo sustento não dependa de Deus..." (Hud 11:6) Do ponto de
vista islâmico a proteção e a alimentação dos animais são atos de caridade e a
matança (desnecessária) e o tratamento cruel a eles é uma ação proibida
(passível de severa punição). Por outro lado, as leis islâmicas proíbem a
mutilação dos animais ou a mudança de suas formas, como corte de orelhas, a
castração, etc., quer seja manual ou mecanicamente, com o uso de instrumentos
modernos. Deus amaldiçoou Satã que ilude o homem, que tenta seduzi-lo para
realizar esse ato agressivo, e Deus Onipotente, citando a astúcia de Satã
contra o homem, diz: "(Disse Satã) Ordenarei a eles aparar as orelhas
do gado e os incitarei a desfigurar a criação de Deus! Contudo, aquele que
tomar Satã por protetor , em vez de Deus, claramente ter-se-á perdido."
(Nisa` 4:119) Mediante esses textos, leis e conceitos podemos compreender
os princípios islâmicos que conclamam à proteção dos animais e do meio
ambiente. O Governo e a Proteção Ambiental. O Islam denomina como governo
uma força política responsável pela proteção do bem estar de seus cidadãos,
pela administração e o planejamento das questões da sociedade. Essa orientação
ou proteção abrange todos esses diferentes empreendimentos, políticos,
financeiros, sociais e sanitários... etc, para preservar o sistema da vida, o
qual inclui a personalidade, o físico, o intelectual e o âmbito material. Os
eruditos islâmicos resumiram esse conceito como o principal componente no
sistema social do Islam, e o que possui o princípio mais amplo e universal, que
é: O Islam veio com o intuito de proteger os melhores interesses do homem e
repelir a corrupção da terra. De modo semelhante, esses princípios agem no sentido
de organizar as leis naturais, a lei do "la dharara wa la dhirara",
que um texto profético, que atua no campo da vida legislativa do homem. Assim
sendo, existem normas ou princípios intelectuais e legislativos que habilitam o
governo, e o obrigam à proteção ambiental, que são: La dharara wa la
dhirara" 2. O Islam veio com o intuito de proteger os melhores
interesses do homem e repelir a corrupção da terra. 3. O governo islâmico
é responsável pela proteção do bem-estar de seus cidadãos e por seus interesses
gerais, como o Santo Profeta (saas) disse: "O líder é um pastor e é
responsável por seu rebanho. "De acordo com esses princípios, um governo,
do ponto de vista islâmico, é responsável pela preservação do ambiente e da
natureza, pois a preservação do ambiente humano, dos animais e dos vegetais é o
mais evidente aspecto dos interesses do homem, da preservação e o impedimento
da corrupção na vida material. Assim, essas normas intelectuais e legislativas
habilitam o governo a proibir o corte de florestas, ou a destruição das árvores
frutíferas, a caça ou a pesca nas estações reprodutivas, ou a caça em regiões
que o número de animais é menor, para preservá-los da extinção (...) etc. O
governo também é responsável pelo impedimento ou proibição de qualquer ato que
seja prejudicial ao meio ambiente, como o uso de substâncias tóxicas ou
venenosas, ou que contenham micróbios com o risco de contágio, ou a construção
de indústrias que causem poluição dentro da cidade depositando resíduos na
proximidade de habitações ou comunidades. Porque todas essas práticas são
danosas e destrutivas do sistema da vida e espalham a corrupção na terra, após
ela ter sido bem organizada e edificada, o Alcorão proíbe isso em sua
declaração: "E não corrompais a terra, depois dela ter sido
pacificada..." (A`raf 7:56) Louvado seja Deus, o Senhor dos Mundos. www.mesquitadobraz.org.br. Abraço.
Davi
quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
APRESENTAÇÃO III
Religião
Afro-brasileira. Candomblé. Livro O Candomblé da Bahia. Rito Nagô. Tradução de
Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-2018). Capítulo I. APRESENTAÇÃO III. Se
este o perde e outra pessoa o usa, não terá nenhum poder para esta, pois não
foi posto em participação, nem direta, nem indireta, com a cabeça dela. Vê-se,
pois, que a cerimônia da lavagem nada tem de dramático nem de pitoresco.
Atenção, porém. É de importância capital para o indivíduo que a ela se submete,
pois daí por diante fica ligado a um mundo diferente. Não gozará mais da
liberdade que antes possuía, está preso a toda uma cadeia de obrigações
negativas ou positivas, de encargos e de deveres. Não poderá mais comer certos
alimentos, os que são eho (tabu) para seu deus; não poderá ter relações sexuais
no dia da semana dedicado à divindade; finalmente, compromete-se tacitamente a
participar do ciclo de despesas do candomblé. Uma primeira ruptura se produziu,
o homem se destacou da civilização profana, brasileira, para se integrar na
civilização africana. Os Orixá detêm agora poder sobre ele; se violar os tabus,
se não desempenhar suas novas obrigações, o deus que em parte já reina na sua
cabeça pode puni-lo por meio de uma série de infelicidades, doenças, desgraças
familiares, que irão se acumulando se não fizer caso dos primeiros avisos. O
colar, com o decorrer do tempo, pode perder sua força e neste caso urge
proceder a nova lavagem. Porém, para tal, não há datas marcadas, pois, a
decadência da virtude das contas varia de acordo com as circunstâncias. b) O
bori. Esta cerimônia foi descrita, mais ou menos minuciosamente, por Manuel
Querino (1851-1923) e por Pierre Verger (1902-1996) na Bahia, por René Ribeiro
no Recife; são encontrados também alguns detalhes na reportagem de Henry
Georges Clouzot (1907-1977). Isto tudo nos permite não perder tempo com a
descrição do ritual e ir imediatamente ao que é mais importante. O nome popular
que designa esta cerimônia mostra bem tanto a função quanto o que tem de
essencial: "dar de comer à cabeça". A pessoa que a faz realizar
senta-se numa esteira recoberta de pano branco, com o torso nu e uma simples
toalha nos ombros. O sacerdote, igualmente vestido de branco para a
circunstância, consulta primeiramente os oubis para conhecer a vontade dos
deuses. Se estes aceitaram a cerimônia, começará por recitar, "em
língua", as fórmulas consagradas, pedindo a bênção dos Orixá e das almas
dos antepassados; tritura entre os dentes uma noz de oubi e por três vezes
cospe o conteúdo no rosto do paciente. Enquanto os assistentes entoam cânticos
apropriados, diversos alimentos são preparados: parte será oferecida ao Orixá
"dono da cabeça", outra aos mortos, outra será disposta sobre a
cabeça de quem faz realizar o bori, e a última enfim será cozida para a
refeição final. E, o que é ainda mais importante, sacrifica-se um galo; seu
sangue rega, além da pedra do santo, a cabeça, o peito, os pés e as mãos do
fiel. O animal foi morto arrancando-lhe violentamente a cabeça; o pescoço,
ainda sacudido por movimentos espasmódicos e do qual o sangue jorra, é
aproximado da boca do paciente que por três vezes, estirando a língua, o lambe.
A cerimônia termina por nova consulta aos oubi, a fim de saber se os deuses
estão satisfeitos e aceitam o ritual celebrado, sendo então consumida a parte das
oferendas que foi cozida. O paciente, com o rosto, as mãos e os pés ainda sujos
do sangue do sacrifício, que lhe coagulou sobre a pele, deve ficar a noite toda
no terreiro, conservando na cabeça pequena parte dos alimentos para que o Orixá
tenha tempo de comê-los. O bori (contração de obori) pode corresponder a
diversos fins. "Tem por objetivo (...) obter saúde", diz Manuel
Querino. E René Ribeiro, depois de ter definido o ori como sendo o próprio
espírito do homem, acrescenta: "Sua fragilidade é motivo da maior
preocupação, ritos como o dar comida à cabeça (...) tomando-se periodicamente
necessários para que o indivíduo não se ressinta das possessões repetidas, como
ainda possa oferecer a necessária resistência à ação de influências mágicas ou
de entidades malévolas. Estes dois textos se completam, pois a doença a que
Manuel Querino alude não é senão um sinal do enfraquecimento do ori, o
resultado de "influências mágicas ou de entidades malévolas". No
entanto, este mesmo autor, falando mais adiante do rito de iniciação, faz
observação importante para nós: "Há pessoas que, apesar de pertencerem à
seita, todavia não se querem prestar a dançar e a cantar de público, na ocasião
em que o santo chega inesperadamente. Nesse caso, evita-se a manifestação, não
completando o trabalho; restringe-se a cerimônia com a supressão da raspagem da
cabeça, e não se espargindo sobre ela o effun. Isto é, no fundo a iniciação
destes adeptos se limita ao bori e à educação religiosa. A oferta alimentar à
cabeça, na medida em que efetivamente fortifica o ori, pode ter virtude
profilática ou curativa. Por outro lado, na medida em que, por intermédio do
sangue, liga a pedra do Orixá e o indivíduo, do mesmo modo que, por intermédio
do alimento sagrado, se realiza uma ligação entre o deus, os mortos, os membros
presentes do candomblé e a pessoa que põe em prática o bori, - promove, de
maneira mais forte ainda do que a simples lavagem das contas, a incorporação do
fiel à civilização africana. Constitui, em suma, a incorporação daqueles que
serão servidores da seita, sem jamais manifestarem fenômenos de possessão. A
lavagem das contas pode se reduzir ao simples banho de ervas sagradas, sem
efusão de sangue, enquanto o bori requer o sacrifício de um "animal de
duas patas"; a ligação entre a pedra divina e o indivíduo é, por
conseguinte, neste caso, infinitamente mais estreita. Mas o sangue de um
"animal de duas patas" tem menos força do que o de um "animal de
quatro patas", e por isso esta participação é menos adiantada do que
aquela que se estabelece com o rito de iniciação. No bori, o sangue que corre
sobre a pedra, sobre o colar (se for feita a lavagem das contas ao mesmo tempo
que a cerimônia de "dar comida a cabeça", como na descrição de
Verger) é o mesmo lambido no pescoço da ave sacrificada, e a participação se
opera, pois, simultaneamente. A lavagem das contas, ao contrário, pode se fazer
sem a participação daquele que as usará (o qual não merece conhecer ainda os
"segredos" da seita), efetuando-se a lavagem da cabeça ou do corpo um
ou mais dias depois. Ora, este afastamento no tempo, na medida em que se
realiza, manifesta ligação menor entre a pessoa e a realidade sobrenatural.
Assim também, o indivíduo que dá comida à cabeça nada mais faz do que lamber o
sangue pondo a língua de fora; mas a inicianda, como veremos, enfia o pescoço
do galo no fundo da boca para engolir o sangue do "animal de duas
patas", e, quanto ao sangue do “animal de quatro patas", recebe-o por
um pequeno orifício praticado no alto do crânio. O bori, então, ocupa realmente
posição intermediária no sistema que entrelaça homens e divindades, colocado
entre a lavagem das contas, de um lado, e do outro, a iniciação propriamente
dita. Uma vez que se trata da religião afro-brasileira, tão rica em rituais
complexos, não se deve esquecer que o bori compreenderá ou não determinados
elementos segundo o fim para o qual tende. Seja fortificar unicamente o
espírito, seja ao mesmo tempo colocar a pessoa em associação mais estreita com
o mundo dos candomblés. De qualquer modo, porém, o social nada mais faz do que
inscrever, no domínio das relações interpessoais, as leis da vida mística. Os
graus de participação ao grupo nada mais fazem do que seguir os da participação
do homem ao seu Orixá. As variações da solidariedade social não são enfim mais
do que o reflexo e a consequência das variações da solidariedade estabelecida
entre a pessoa e o mundo dos deuses. Eis porque a posição do fiel na seita muda
de acordo com a força do vínculo que o une a ela. O que, entre parêntesis,
explica porque a união do sangue de um "animal de duas patas", sendo
mais vigorosa, exige que o espírito do indivíduo seja fortalecido
primeiramente, para depois poder suportá-la impunemente (e daí os dois aspectos
complementares do bori). Por fim, a coerência da sociedade religiosa, das
formas e dos processos de relação entre os membros dela, a participação maior
ou menor destes membros ao tesouro de representações coletivas, os tipos de
cooperação, dependem, em última análise, das ligações religiosas preestabelecidas
entre os candidatos à vida do candomblé e as divindades. Não é a morfologia
social que domina e explica a religião, corno queria Durkheim, mas ao contrário
é o aspecto místico que domina o social. A iniciação. A lavagem das costas e o
bori são partes obrigatórias da iniciação, pois a participação mais íntima à
vida do candomblé exige forçosamente, primeiro, a passagem pelos graus
intermediários. Além disso, a filha de santo iniciada deverá trazer sempre
consigo seu colar; é preciso, portanto, prepará-lo. Por outro lado, os ritos de
iniciação são extremamente dramáticos e não deixam de apresentar perigos para
os indivíduos que a eles se entregam, por suscitarem forças misteriosas e
poderosas; de onde a necessidade de fortificar a cabeça, a fim de que possa
impunemente suportar o desencadeamento destas forças; como rito profilático e
não simplesmente como incorporação, o bori é também necessário. Mas se a
lavagem das contas e o "dar comida à cabeça" fazem parte da sequência
cerimonial da iniciação, naturalmente esta é infinitamente mais rica, mais
complexa, uma vez que, por meio dela, a incorporação ao candomblé se toma ainda
mais estreita. Henry Georges Clouzot (1907-1977) parece pensar que a iniciação
tem por fim dar origem ao êxtase. No entanto, escreve ele, se a possessão não é
efetivamente senão uma crise histérica, por que existiria na Bahia, e somente
na Bahia, tal proporção de doentes? O ponto central da iniciação consistiria,
pois, em administrar ervas especiais que agem como drogas sobre as candidatas,
reduzindo-as a um estado de atordoamento, mantendo-as então sob uma espécie de
dominação hipnótica e estabelecendo-lhes no espírito, quando estão nesse estado
de desagregação mental, uma associação entre o desencadear de certas músicas e
o transe; associação que é tanto mais forte quanto é obra de sugestão, e a
sugestão continua a operar quando o indivíduo retorna do estado hipnótico ao
estado de vigília. Sua conclusão é, no entanto, mais flexível, pois leva em
consideração ainda o fato de certas candidatas serem possuídas por um
"santo bruto" antes de terem sofrido as provas iniciatórias:
"Creio que as provas a que são submetidas as iaos constituem tratamento
para certas neuroses, mas tratamento especial pois, eliminando crises agudas, mantém
essas mesmas neuroses fixando suas manifestações em certas formas. Por exemplo:
a epiléptica que entrou na camarinha acompanhando as filhas de santo. Suas
crises se espaçaram imediatamente, desaparecendo no fim de 15 dias (...). Em
lugar de se abandonar "às convulsões, aliviava-se (ou punha fim à
inibição) entrando em estado de santidade". Clouzot já aqui reconhece que
a iniciação, em vez de procurar destruir o indivíduo para torná-lo
sugestionável, e assim sujeito às crises de possessão, tem muito mais por objetivo
controlar estas crises. No entanto, encara ainda o controle através da medicina
psiquiátrica. Dever-se-á encarar necessariamente as centenas de filhas e filhos
de santo que vivem na Bahia como outros tantos epilépticos, histéricos,
paranoicos, numa palavra, neuróticos - embora nosso autor pareça de início
rejeitar esta hipótese? Não negamos que a explicação de Clouzot seja válida
para alguns casos. Mas o transe de possessão tem caráter antes sociológico do
que patológico; Jean Melville Herskovits (1895-1963) observa com muita razão,
não devemos esquecer que este transe é fenômeno ''normal" para certas
civilizações como as da África Negra, imposto pelo meio e constituindo uma
espécie de adaptação social a certos ideais coletivos. É preciso estudar o cerimonial
da iniciação sem nenhum etnocentrismo, sem escolher entre os elementos
constitutivos aqueles que nos parecem os mais importantes ou os mais
explicativos, mas também, por outro lado, sem negligenciar nenhum dos aspectos
da questão: o controle da vida mística, a associação do indivíduo com seu
Orixá, a incorporação de um novo membro na confraria religiosa, a morte e a
ressurreição do candidato. Todos os que descreveram a iniciação na Bahia, dão
como início da cerimônia a entrada do candidato ou candidata no santuário em
que vai daí por diante viver muitos meses, de três a doze conforme o candomblé.
Somente Pierre Verger (1902-1996), referindo-se à África, introduz na sequência
o cerimonial da morte e da ressurreição do indivíduo. Quando alguém é possuído
por um "santo bruto" e desaba finalmente no chão, deve ser
transportado para o aposento em que o babalorixá vai "matar o santo",
isto é, fazer o paciente retomar ao estado normal. A queda ao solo corresponde
à morte da personalidade antiga e o rito de "matar o santo", à
ressurreição; o ser que renasce não é mais, naturalmente, a personalidade
antiga e sim um novo "eu" daí por diante divinizado. Todavia, embora
a vontade do Orixá de montar este ou aquele indivíduo, transformando-o em seu
cavalo, se manifeste muitas vezes desta maneira patética (já demos atrás alguns
exemplos), pode-se na Bahia vir a ser filho ou filha de santo sem passar pelo
estado preliminar de "santo bruto". Quando, por exemplo, descobrimos
uma pedra de forma estranha, podemos reconhecer nela o apelo ainda misterioso
de uma divindade; é o caso de Olympia, cuja história nos conta Raimundo Nina
Rodrigues (1862-1906). A doença pode igualmente ser um sinal; conhecemos certo
filho de Omolú que se iniciou depois de ter apanhado varíola. Algumas filhas de
santo são, por sua vez, desde cedo designadas pelos pais para fazerem parte da
confraria, sem que tenham manifestado em seu comportamento qualquer propensão a
cair em transe. Nestes casos, morte e ressurreição só terão lugar depois da
entrada no santuário, e então sob a forma de uma verificação, de uma espécie de
teste para saber se o Orixá está realmente de acordo com a continuação do
cerimonial. Tanto na lavagem das contas quanto no bori, por meio do banho de
ervas ou pelo sangue, era a cabeça colocada em comunicação com a pedra da
divindade, mas esta era uma pedra do pegi, uma pedra já "feita". Na
iniciação, ao contrário, é preciso preparar nova pedra que será a pedra
particular da iniciada, aquela de que terá de cuidar durante o resto da vida e
à qual dá de comer. Daí a frase de Nina Rodrigues: "A feitura do santo
compreende duas operações distintas, mas que se completam, a preparação de
fetiche e a iniciação ou consagração do seu possuidor". Realmente, se,
para facilitar a descrição, podemos separar os dois rituais, ambos são,
todavia, mais do que complementares, ligados que estão de modo inextricável.
Isto porque, como dissemos, a incorporação do indivíduo à vida do candomblé é
consequência da sua ligação com um Orixá, e porque a força do Oríxá está em sua
pedra. O que se pode afirmar é que esta preparação e, segundo a expressão de
Nina Rodrigues, esta colocação do "fetiche" e da cabeça em
participação, têm lugar no próprio começo do cerimonial de iniciação, no
decorrer das primeiras etapas. Começa-se, naturalmente, - e esta é a função de
babalaô, pela consulta aos búzios divinatórios, para saber qual o santo que
reclama como sua candidata. Uma vez conhecido o nome do Orixá, então tem lugar
a entrada no santuário. Vai então a candidata, nas trevas em geral luminosas
das noites tropicais, tomar banho na fonte sagrada; põe de lado as velhas
vestes antes de entrar n'água, envergando novas roupas à saída. Assim fica
simbolizada, pelo banho lustral e pela mudança de trajes, a passagem da vida
profana à vida mística. Regressando ao santuário, é solenemente recebida pelos
dignitários da seita, que a fazem sentar num banco ou cadeira que nunca tenha
servido, constituindo isto, de certo modo, um rito de entronização. Prepara-se
a pedra. "A preparação ou lavagem do fetiche é coisa bem complicada em que
o pai de terreiro põe toda a sua ciência, toda a sua perícia. A pedra do raio
de Xangô, por exemplo, deve ser colocada num banho de azeite de dendê, de ervas
sagradas; a de Yemanjá, em mel, farinha de milho, etc. Em seguida, esta pedra
será colocada em contato com o indivíduo e com o colar que ele usará. Antes de
mergulhar mais profundamente no dédalo do ritual, celebra-se um bori para
fortificar a cabeça, tornando-a capaz de suportar sem perigo as crises
repetidas e prolongadas que vão se suceder. Além disso, se necessário, outras
"dar de comida à cabeça" terão lugar em seguida. O bori, além de
tornar a pessoa apta a continuar sem perigo a iniciação, liga também mais
estreitamente, como já mostramos, a pedra, o santo, o candidato e o grupo
social que constitui o candomblé. É preciso acrescentar que esta pedra não será
esquecida no decorrer dos rituais; uma parte dos alimentos, dos animais
sacrificados, do sangue derramado, lhe será oferecida, de modo que a fabricação
da pedra, ou como se diz a "fixação" de Orixá na pedra, segue passo a
passo todas as etapas da "fixação" paralela do Orixá na cabeça do
iniciado. A respeito de cerimônias proibidas aos olhos profanos, tudo o que se
pode afirmar é que os dois movimentos são simultâneos, a pedra entrando no pegi
ao mesmo tempo que o indivíduo entra na seita; as duas incorporações coexistem
e traduzem a mesma participação, do objeto e de seu possuidor, com uma
realidade sobrenatural idêntica. O babala6 pode às vezes se enganar ao
consultar a sorte; a verdade é que tal só acontece raramente. Conheci apenas um
caso controvertido, o de uma filha de Exú; era, porém, a filha que se sentia
descontente com seu "Santo", e pretendia ser filha de Ogun; o
babalorixá que a tinha feito não cessava, ao contrário, de afirmar que S (...)
era mesmo filha de Exú. Em todo o caso, logo da primeira vez, não se pode nunca
ter certeza de que o babalaô não se enganou. Trata-se de erro muito grave, pois
o verdadeiro Orixá a que pertence o cavalo não deixaria efetivamente de
manifestar seu descontentamento, vendo os sacrifícios, os alimentos, irem a
outro que não a ele; para se vingar, lançaria doenças, azares, contra o cavalo
em questão: justamente porque S (...) se sentia doente é que acreditava que tinha
sido "malfeito”. Para evitar estes casos de reconhecimento errado, que
obrigariam o indivíduo a praticar duas operações caras e difíceis, a de
"tirar o santo" da cabeça e em seguida colocar outro, realiza-se, nos
primeiros estágios da iniciação, toda uma série de ritos de
"confirmação". Livro O Candomblé da Bahia. Rito Nagô. Abraço. Davi.
Continuar na página 45
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
OS ANALECTOS - INTRODUÇÃO VI
Confucionismo.
www.https//rt.br. OS ANALECTOS. Tradução
do inglês de Caroline Chang. Tradução do chinês. Introdução e notas de D. C.
Lau. INTRODUÇÃO VI. As odes eram uma ontologia que todo homem educado conhecia
plenamente, de modo que uma citação correta delas extraída, podia ser usada
para comunicar a opinião de alguém em situações delicadas ou que requeressem
extrema polidez. Habilidade de falar por meio do disfarce de uma citação era
particularmente útil em conversas diplomáticas. É por essa razão que Confúcio
disse: “Se um homem que conhece as trezentas Odes de cor (...) se mostra incapaz
de ter iniciativa própria quando enviado para reinos estrangeiros, então qual a
utilidade das Odes para ele, independentemente de quantas ele tenha aprendido?”
(XIII.5). Esse jeito de usar as Odes não se limita a situações diplomáticas. Ao
criticar o governante e seu governo, um homem também deveria recorrer a
citações das Odes. Como colocou o autor anônimo do prefácio de Kuan chü,
“Aquele que fala não ofende, ao passo que aquele que ouve pode entender o
aviso”. [19] Isso é importante em sistemas políticos nos quais ofensas feitas
àqueles no poder podem facilmente causar sérios problemas a alguém. E há outra
vantagem. Quando a verdadeira opinião de alguém é amortecida por uma citação, é
sempre possível que esse alguém negue, posteriormente, que tal significado,
seja qual for, tenha sido intencional. Por essa razão, tais práticas
persistiram até os dias de hoje. Em Os analectos há um bom exemplo desse
costume de falar veladamente. O príncipe K’uai K’ui, o filho do duque Ling, de
Wei, fugiu para Chin depois de uma fracassada tentativa de assassinar Nan Tzu,
a famosa mulher do seu pai. Quando da morte do duque de Ling, o filho de K’uai
K’ui, Che, sucedeu ao seu avô. Com o apoio do Exército Chin, o príncipe K’uai
K’ui se instalou em uma cidade fronteiriça de Wei, esperando por uma
oportunidade de destronar seu filho. Jan Yu queria saber se Confúcio estava do
lado de Che, mas já que tanto ele quanto Confúcio eram visitantes naquele reino
não lhes cabia serem vistos discutindo abertamente as políticas de Wei; e se
uma pergunta direta lhe tivesse sido colocada, Confúcio muito provavelmente
teria se recusado a respondê-la. Tzu-kung, que tinha a reputação de ser um
orador talentoso (XI.3), ofereceu-se para tentar descobrir. Assim foi como
correu a conversa. Ele entrou e disse: “Que tipo de homens eram Po Yi e Shu
Ch’i?”. “Eram excelentes anciãos.” “Tinham alguma queixa?” “Procuravam a
benevolência e a encontraram. Então, por que teriam qualquer queixa?” Sequer
uma palavra foi dita sobre Wei, mas Tzu-kung ficou satisfeito por ter obtido a
resposta. Ele saiu e disse: “O Mestre não está do lado dele” (VII.15). Po Yi e
Shu Ch’i eram os filhos do senhor de Ku Chu. O pai queria que Shu Ch’i, o filho
mais novo, o sucedesse, mas, quando ele morreu, nenhum dos filhos estava disposto
a tirar do outro a sucessão, e ambos foram às montanhas e passaram a viver como
eremitas. Ao aprovar Po Yi e Shu Ch’i em sua tentativa de entregar a sucessão
um ao outro, Confúcio estava implicitamente reprovando Che, que estava
envolvido em uma vergonhosa briga com o próprio pai pelo trono. Até agora
olhamos apenas para os ensinamentos morais de Confúcio relacionados ao seu
ideal de cavalheiro. Há, entretanto, outro lado de seus ensinamentos que foi
amplamente negligenciado pelos intelectuais e estudiosos. É a sua preocupação
com o que pode ser descrito como questões de método. No âmago desse aspecto dos
seus ensinamentos está a oposição entre hsüeh (aprendizado) e ssu (pensamento).
Para compreender o significado desta oposição, precisamos, antes de tudo,
descobrir o que constituía aprendizado. Um rápido exame das dificuldades que se
encontram em traduzir a palavra hsüeh se mostrará esclarecedor. A escolha
natural em inglês por um equivalente é o verbo “to learn” [aprender], mas muito
frequentemente somos forçados, pelas exigências da língua inglesa, a usar “to
study ” [estudar]. A razão é a seguinte: o verbo “aprender” requer um objeto
explícito. Por exemplo, não dizemos “ele aprende”. Podemos, é claro, dizer “Ele
aprende rápido”, ou “Ele está disposto a aprender”, mas esses são casos
especiais em que o ponto principal da frase não está na palavra “aprender”. Por
outro lado, dizemos “ele estuda”. Há, entretanto, outras diferenças entre
“aprender” e “estudar”. Tendemos a “aprender” algumas coisas mas “estudar”
outras. Por exemplo, uma criança aprende a andar, mas um entomólogo estuda o
comportamento das formigas. Aprendemos algo prático; estudamos algo teórico.
Quando se trata de aprender, o foco está naquele que aprende; ao estudar, o
foco está no objeto de estudo. Ao aprender algo novo, um homem se aprimora. Ou
ele adquire uma nova técnica ou se torna mais proficiente em uma técnica
antiga. Ao estudar, um homem adquire novos conhecimentos, mas esses novos
conhecimentos não necessariamente fazem alguma diferença para ele do ponto de
vista prático. Essa diferença de uso entre “aprender” e “estudar” é importante
para o entendimento de hsüeh. Hsüeh está muito mais perto de “aprender” do que
de “estudar”. Do mesmo modo que “aprender”, hsüeh faz diferença para o homem
enquanto pessoa. É uma atividade que capacita o homem a adquirir uma habilidade
nova ou se tornar mais proficiente em uma habilidade já adquirida. Mas, no
contexto confuciano, o ponto mais importante é lembrar que é hsüeh que capacita
o homem a se tornar um homem melhor do ponto de vista moral. Assim, a
moralidade, na visão de Confúcio, é algo muito próximo à ideia de habilidade.
Pode ser transmitida de mestre a discípulo. É por causa dessa possibilidade que
Confúcio dava tanta ênfase a hsüeh. Embora “aprender” seja um equivalente muito
mais satisfatório para hsüeh do que “estudar”, uma tentativa de se ater
rigidamente ao uso de “aprender” pode, por si só, dar margem ao surgimento de
dificuldades. Quando, por exemplo, Confúcio fala sobre hsüeh shih, é natural
traduzir isso por “estudar as Odes”, mas isso, conforme vimos, transforma uma
atividade prática em uma teórica. Porém, traduzir a frase por “aprender as
Odes” sugere aprender as Odes de cor. Embora isso sem dúvida seja parte do
significado, definitivamente não é todo o significado nem mesmo a parte mais
importante dele. Como vimos, a principal proposta de hsüeh shih é tanto
aprimorar a sensibilidade de uma pessoa quanto capacitá-la a usar linhas das
Odes para disfarçar o que quer dizer. [20] Assim, às vezes o tradutor se vê em
dificuldade para encontrar um equivalente satisfatório para hsüeh. “Aprender” é
algo que diz respeito a toda a sabedoria acumulada do passado. Embora não
exclua necessariamente conhecimento teórico, a ênfase, conforme é previsível, é
no aprendizado moral. E essas verdades morais são, na maior parte das vezes,
epitomizadas na forma de preceitos. Os ritos eram, claro, um código para tais
preceitos, embora provavelmente também devem ter existido preceitos que não
eram contemplados por esses códigos. Que os ritos formavam uma grande parte
daquilo que um homem precisava aprender é confirmado por duas passagens de Os
analectos. Na primeira, Confúcio disse: “A menos que um homem tenha o espírito
dos ritos (...) ao ter coragem ele vai se tornar indisciplinado e, ao ser
íntegro, ele vai se tornar intolerante” (VIII.2). Entretanto, em outra passagem
ele disse: “Amar a determinação sem amar o aprendizado pode levar à
intolerância” (XVII.8). As duas declarações são praticamente idênticas, exceto
pelo fato de que em uma temos “os ritos”, enquanto na outra temos “aprender”.
Se “aprender” tem um papel tão importante nos ensinamentos de Confúcio, por que
não aparece mais frequentemente em Os analectos? Porque “aprender” não é o
único termo que é usado para a atividade. Muito frequentemente Confúcio usa, no
lugar de “aprender”, wen (ouvir) e, mais raramente, chien (ver). [21] Em
especial, “ouvir” é usado quando há alguma referência ao aprendizado de
preceitos específicos ou quando “aprender” é colocado em contraste com a ação
de colocar em prática aquilo que é aprendido. Aqui estão exemplos do
ensinamento de um preceito específico. O Mestre disse: (...) “Sempre ouvi dizer
que um cavalheiro dá para ajudar os necessitados, e não para manter os ricos em
uma vida farta”. (VI.4) Ch’en Ssu-pai disse: “Ouvi dizer que um cavalheiro não
demonstra parcialidade. E mesmo assim o seu Mestre é parcial?”. (VII.31)
Tzu-hsia disse: “Já ouvi dizer: vida e morte são uma questão de Destino;
riqueza e honra dependem do Céu”. (XII.5) Confúcio disse: “Sempre ouvi dizer
que o chefe de um reino ou de uma família nobre preocupa-se não com
subpopulação, mas com a distribuição desigual; não com a pobreza, mas com a
instabilidade”. (XVI.1) Tzu-y u respondeu: “Há algum tempo ouvi do senhor,
Mestre, que o cavalheiro instruído no Caminho ama seus semelhantes e que os
homens vulgares instruídos no Caminho são fáceis de serem comandados”. (XVII.4)
Tzu-lu disse: “Há algum tempo ouvi do senhor, Mestre, que o cavalheiro não
entra nos domínios daquele que não pratica o bem”. (XVII.7) Tzu-chang disse:
“Isso é diferente do que eu ouvi. Ouvi que o cavalheiro honra aqueles que lhe
são superiores e é tolerante para com a multidão, que é cheio de elogios para
com os bons ao mesmo tempo em que se apieda dos incapazes”. (XIX.3) A relação
entre ouvir e colocar em prática o que se ouviu é claramente abordada nas
seguintes passagens: O Mestre disse: “Use seus ouvidos (wen) amplamente, mas
deixe de fora o que é duvidoso; repita o resto com cuidado e você cometerá
poucos erros. Use seus olhos (chien) amplamente e deixe de fora o que é
perigoso; coloque o resto em prática com cautela e você terá poucos
arrependimentos”. (II.18) A única coisa que Tzu-lu temia era que, antes que
pudesse colocar em prática algo que aprendera, lhe ensinassem outra coisa
diferente. (V.14) O Mestre disse: “Estas são as coisas que me causam
preocupação: (...) incapacidade de, quando me é dito (wen) o que é correto,
tomar uma atitude”. (VII.3) O Mestre disse: “Faço amplo uso de meus ouvidos e
sigo o que é bom daquilo que ouvi; faço amplo uso dos meus olhos e retenho na
minha mente o que vi”. (VII.28) Tzu-lu perguntou: “Deve-se imediatamente
colocar em prática o que se ouviu?”. (XI.22) A inter-relação entre aprender e
colocar em prática o que se aprendeu é forte porque entre as coisas que se
aprende estão os preceitos, e qual seria a utilidade de aprender um preceito se
não se fizesse uma tentativa de colocá-lo em prática? Daí a preocupação de
Confúcio quanto a sua incapacidade de se mover para uma nova posição assim que
ele aprendeu que essa posição é moralmente correta e o medo de Tzu-lu de se
atrasar se preceitos surgirem mais rápido do que ele pode acompanhar. Mas isso
não significa que se deve colocar um preceito em prática simplesmente porque é
um preceito. Deve-se, antes de tudo, refletir profundamente quanto a se ele é
correto. É por isso que Confúcio está constantemente aconselhando que se deve
escolher daquilo que foi aprendido apenas o que é bom e deixar de fora o que é
duvidoso. A única maneira de fazer isso é por meio do pensamento. Isso nos traz
de volta à questão de aprender e pensar. Há um ditado bem conhecido em Os
analectos: “Se um homem aprende com os outros mas não pensa, ele ficará
confuso. Se, por outro lado, um homem pensa mas não aprende com os outros, ele
estará em perigo” (II.15). Deve-se aprender com os sábios do passado e do
presente, mas, ao mesmo tempo, deve-se tentar aprimorar aquilo que foi
aprendido. Embora tanto aprender quando pensar sejam indispensáveis, Confúcio
parece considerar o ato de aprender, de alguma forma, mais importante. Ele
disse: “Uma vez passei todo o dia pensando, sem comer nada, e toda a noite
pensando sem ir para a cama, mas descobri que nada ganhei com isso. Teria sido
melhor gastar o tempo estudando” (XV.31). Aqui Confúcio está falando que se
devêssemos nos entregar a uma busca apenas, então aprender seria mais
proveitoso do que pensar. Um momento de reflexão mostrará que essa visão é
bastante razoável. Se a meta de um homem é conseguir avanços de conhecimento,
tanto pensamento quando aprendizado são igualmente necessários, mas, em casos
em que o homem não tem esse objetivo, por meio do aprendizado ele pode ao menos
ganhar algo, ao tomar conhecimento do que já é sabido, mas dificilmente terá
qualquer ganho se ficar pensando in vacuo. Tomemos um exemplo que ilustra o
modo como Confúcio refletiu sobre os ritos existentes. O Mestre disse: “Os
ritos prescrevem um boné cerimonial de linho. Hoje, usamos seda preta no lugar.
Isso é mais frugal, e eu sigo a maioria. Os ritos prescrevem que a pessoa
prostre-se antes de subir os degraus. Hoje faz-se isso após tê-los descido.
Isso é casual, e, embora indo de encontro à maioria, sigo a prática de
prostrar-me antes de subir”. (IX.3) Aqui temos um caso claro de uma visão
crítica de Confúcio quanto aos ritos. Ele concluiu que em um determinado caso
estava preparado para seguir a maioria, mas não no outro caso. Ele chegou a
essa conclusão voltando aos princípios que subjazem aos ritos em questão. No segundo
caso, o princípio subjacente é respeito, enquanto no primeiro caso há
igualmente frugalidade. Que o respeito devesse ser o princípio subjacente é
nada menos do que algo a ser esperado, mas que a frugalidade devesse ser tal
princípio pode parecer surpreendente, até que lembremos da resposta de Confúcio
para uma pergunta quanto aos fundamentos dos ritos. Parte desta resposta foi:
“Com os ritos, é melhor pecar pela simplicidade do que pela extravagância”
(III.4). Todas as coisas sendo iguais, é melhor ser frugal. O gorro de seda
cinza é mais frugal, mas nada perde em respeito. Daí a aprovação de Confúcio.
Prostração depois de subir os degraus, por outro lado, é casual, em outras
palavras, menos respeitoso, e não tem ganhos compensatórios. Daí a desaprovação
de Confúcio. Conforme vimos, preceitos são muitas vezes introduzidos pela
fórmula “Ouvi dizer”. Muitas vezes, entretanto, essa fórmula é dispensada,
particularmente nos casos em que o preceito está para ser examinado. Nesses
casos, a pergunta “O que você acha desse dizer?” é simplesmente colocada. Por
exemplo: Tzu-kung disse: “‘Pobre sem ser servil, rico sem ser arrogante’. O que
o senhor pensa desse provérbio?” O Mestre disse: “É bom, mas melhor ainda é:
‘Pobre, mas alegre no Caminho, rico, porém observador dos ritos (I.17). OS
ANALECTOS. www.https//rt.br. Abraço. Davi.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
CARÁTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA III
Espiritismo.
www.fetnet.org.br. Texto de Allan
Kardec. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Livro A Gênese – Os Milagres e as
Predições Segundo o Espiritismo. Capítulo I. CARÁTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA III.
Mas como saber se um princípio é ensinado por toda parte ou se apenas reflete
uma opinião pessoal? Não estando os grupos isolados em condições de saber o que
se diz alhures, era de todo necessário que um centro reunisse todas as
instruções para proceder a uma espécie de depuração das vozes e transmitir a
todos a opinião da maioria.20 54. Não existe nenhuma ciência que haja saído
prontinha do cérebro humano. Todas, sem exceção de nenhuma são fruto de
observações sucessivas, apoiadas em observações precedentes, como sobre um
ponto conhecido para chegar ao desconhecido. Foi assim que os Espíritos
procederam com relação ao Espiritismo, razão por que é gradativo o ensino que
ministraram, pois eles não abordam as questões senão à medida que os princípios
sobre os quais hajam de apoiar-se estejam suficientemente elaborados e bastante
amadurecida a opinião para os assimilar. É mesmo de notar-se que, de todas as
vezes que os centros particulares quiseram tratar de questões prematuras, não
obtiveram mais do que respostas contraditórias, nada concludentes. Quando, ao
contrário, chega o momento oportuno, o ensino se generaliza e se unifica na
quase universalidade dos centros. Há, todavia, capital diferença entre a marcha
do Espiritismo e a das ciências: a de que estas não atingiram o ponto em que
chegaram senão após longos intervalos, ao passo que bastaram alguns anos ao
Espiritismo, quando não a galgar o ponto culminante, pelo menos a recolher uma
soma de observações bem grande para formar uma doutrina. Resulta esse fato da
inumerável multidão de Espíritos que, por vontade de Deus, se manifestaram
simultaneamente, trazendo cada um o contingente de seus conhecimentos. Resultou
daí que todas as partes da Doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente
durante vários séculos, o foram quase ao mesmo tempo, em alguns anos apenas, e
que bastou reuni-las para que estruturassem um todo. Quis Deus que fosse assim,
primeiro para que o edifício chegasse mais rapidamente ao fim; em seguida para
que se pudesse, por meio da comparação, ter um controle, a bem dizer imediato e
permanente, da universalidade do ensino, pois nenhuma de suas partes tem valor
nem autoridade, a não ser pela sua conexão com o conjunto, devendo todas
harmonizar-se, achando cada uma o devido lugar e vindo cada qual a seu tempo.
Não confiando a um único Espírito o encargo de promulgar a Doutrina, quis Deus,
também, que tanto o menor quanto o maior, tanto entre os Espíritos quanto entre
os homens, trouxe sua pedra para o edifício, a fim de estabelecer entre eles um
laço de solidariedade cooperativa, que faltou a todas as doutrinas oriundas de
um tronco único. Por outro lado, dispondo todo Espírito, como todo homem, apenas
de limitada soma de conhecimentos, não estavam aptos, individualmente, a tratar
ex professo das inúmeras questões que o Espiritismo envolve. É por isso também
que a Doutrina, em cumprimento aos desígnios do Criador, não podia ser obra nem
de um só Espírito nem de um só médium. Tinha que sair da coletividade dos
trabalhos, comprovados uns pelos outros. Um último caráter da revelação
espírita, a ressaltar das próprias condições em que ela se produz, é que,
apoiando-se em fatos, tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente
progressiva, como todas as ciências de observação. Por sua essência, ela
contrai aliança com a Ciência que, sendo a exposição das leis da natureza, com
relação a certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, autor
daquelas Leis. As descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem,
glorificam a Deus; apenas destroem o que os homens edificaram sobre as falsas
ideias que formaram de Deus. O Espiritismo, pois, estabelece como princípio
absoluto somente o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta
logicamente da observação. Interessando-se a todos os ramos da economia social,
aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as
doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o
estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se
suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim
providencial. Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será
ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro
acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade
nova se revelar, ele a aceitará. Qual a utilidade da doutrina moral dos
Espíritos, visto que não é outra senão a do Cristo? O homem precisa de uma
revelação? Não pode achar em si próprio tudo o que lhe é necessário para bem se
conduzir na vida? Do ponto de vista moral, é fora de dúvida que Deus outorgou
ao homem um guia, que é a sua consciência, a dizer-lhe: “Não façais aos outros
o que não gostaríeis que eles fizessem a vocês.” Certamente a moral natural
está inscrita no coração dos homens; porém, todos saberão lê-la nesse livro?
Nunca lhe desprezaram os sábios preceitos? Que fizeram da moral do Cristo? Como
a praticam aqueles mesmos que a ensinam? Não se terá tornado letra morta, bela
teoria, boa para os outros e não para si? Reprovareis que um pai repita a seus
filhos dez vezes, cem vezes as mesmas instruções, desde que eles não as sigam?
Por que Deus faria menos do que um pai de família? Por que não enviaria, de vez
em quando, mensageiros especiais aos homens, para lhes lembrar os deveres e
reconduzi-los ao bom caminho, quando deste se afastam? Por que não abrir os
olhos da inteligência aos que os trazem fechados, assim como os homens mais
adiantados enviam missionários aos selvagens e aos bárbaros? A moral que os
Espíritos ensinam é a do Cristo, em virtude de não haver outra melhor. Mas,
então, de que serve o ensino deles, se apenas repetem o que já sabemos? Outro
tanto se poderia dizer da moral do Cristo, ensinada quinhentos anos antes por
Sócrates e Platão em termos quase idênticos. O mesmo se poderia dizer também de
todos os moralistas, que nada mais fazem do que repetir a mesma moral em todos
os tons e sob todas as formas. Pois bem! os Espíritos vêm, muito simplesmente,
aumentar o número dos moralistas, com a diferença de que, manifestando-se por
toda parte, tanto se fazem ouvir na choupana como no palácio, tanto pelos
ignorantes como pelos instruídos. O que o ensino dos Espíritos acrescenta à
moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que regem as relações entre os
mortos e os vivos, princípios que completam as noções vagas que se tinham da
alma, de seu passado e de seu futuro, dando por sanção à doutrina cristã as
próprias leis da natureza. Com o auxílio das novas luzes que o Espiritismo e os
Espíritos trouxeram, o homem compreende a solidariedade que religa todos os
seres; a caridade e a fraternidade se tornam uma necessidade social; ele faz por
convicção o que fazia unicamente por dever, e o faz melhor. Somente quando
praticarem a moral do Cristo os homens poderão dizer que não precisam de
moralistas encarnados ou desencarnados. Ora, nessa época, Deus não lhos enviará
mais nenhum. Uma das questões mais importantes, entre as propostas no começo
deste capítulo, é a seguinte: que autoridade tem a revelação espírita, uma vez
que emana de seres de limitadas luzes e que não são infalíveis? A objeção seria
procedente se essa revelação consistisse apenas no ensino dos Espíritos, se
deles exclusivamente devêssemos recebê-la e houvéssemos de aceitá-la de olhos
fechados. Perde, porém, todo o valor, desde que o homem concorra para a
revelação com o seu raciocínio e o seu julgamento; desde que os Espíritos se limitam
a pôr o homem no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos
fatos. Ora, as manifestações, nas suas inumeráveis modalidades, são fatos que o
homem estuda para lhes deduzir a lei, auxiliado nesse trabalho por Espíritos de
todas as categorias que, assim, são mais colaboradores seus do que reveladores,
no sentido usual do termo. Ele lhe submete os dizeres ao controle da lógica e
do bom senso, beneficiando-se, dessa maneira, dos conhecimentos especiais de
que os Espíritos dispõem pela posição em que se acham, mas sem abdicar do uso
da própria razão. Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens,
comunicando- -nos com eles não saímos da condição de humanidade, circunstância
capital a considerar-se. Os homens de gênio, que foram condutores da
humanidade, vieram do mundo dos Espíritos e para lá voltaram ao deixarem a
Terra. Considerando-se que os Espíritos podem comunicar-se com os homens, esses
mesmos gênios podem dar-lhes instruções sob a forma espiritual, como o fizeram
sob a forma corpórea. Podem instruir-nos depois de terem morrido, tal qual
faziam quando vivos; apenas são invisíveis, ao invés de serem visíveis, sendo
essa a única diferença. A experiência e o saber de que dispõem não devem ser
menores do que antes e, se a palavra deles, como homens, tinha autoridade, não
há razão para tê-la menos somente pelo fato de estarem no mundo dos Espíritos.
58. Todavia, não são apenas os Espíritos superiores que se manifestam, mas
igualmente os de todas as categorias, e era preciso que assim acontecesse para
nos iniciarmos no que respeita ao verdadeiro caráter do mundo espiritual, no-lo
mostrando em todas as suas faces. Daí resulta serem mais íntimas as relações
entre o mundo visível e o mundo invisível, e mais evidente a conexão entre os
dois. Vemos assim mais claramente de onde viemos e para onde vamos. Tal é o
objetivo essencial das manifestações. Todos os Espíritos, pois, seja qual for o
grau de elevação em que se encontrem, nos ensinam alguma coisa; cabe, porém, a
nós, visto que eles são mais ou menos esclarecidos, discernir o que há de bom
ou de mau no que nos digam e tirar, do ensino que nos deem, o proveito
possível. Ora, todos, quaisquer que sejam, nos podem ensinar ou revelar coisas
que ignoramos e que sem eles nunca saberíamos. Incontestavelmente, os grandes
Espíritos encarnados são individualidades poderosas, mas de ação restrita e de
lenta propagação. Viesse um só deles hoje, embora fosse Elias ou Moisés,
Sócrates ou Platão, revelar aos homens as condições do mundo espiritual, quem
provaria a veracidade de suas asserções, nesta época de ceticismo? Não o
tomariam por sonhador ou utopista? Mesmo que fosse verdade absoluta o que
dissesse, séculos e mais séculos escoariam antes que as massas humanas lhe
aceitassem as ideias. Deus, em sua sabedoria, não quis que assim acontecesse;
quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, e não por encarnados, a
fim de que os primeiros convencessem estes últimos da sua existência, e quis
que isso ocorresse por toda a Terra simultaneamente, quer para que o ensino se
propagasse com maior rapidez, quer para que, coincidindo em toda parte,
constituísse uma prova de verdade, tendo assim cada um o meio de convencer-se a
si próprio. 60. Os Espíritos não se manifestam para libertar o homem do estudo
e das pesquisas, nem para lhe transmitirem uma ciência pronta. Com relação ao
que o homem pode descobrir por si mesmo, eles o deixam entregue às suas
próprias forças. É o que sabem hoje perfeitamente os espíritas. Há tempos a
experiência tem demonstrado ser errôneo atribuir-se aos Espíritos todo o saber
e toda a sabedoria e que bastaria dirigir-se ao primeiro Espírito que se
apresente para conhecer todas as coisas. Saídos da humanidade, os Espíritos
constituem uma de suas faces. Assim como na Terra, no plano invisível também há
os superiores e os vulgares; muitos deles, pois, do ponto de vista científico e
filosófico, sabem menos do que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais,
nem menos. Do mesmo modo ocorre com os homens, os Espíritos mais adiantados
podem instruir-nos sobre maior quantidade de coisas, dar-nos opiniões mais
judiciosas, do que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos não é entrar em
entendimento com potências sobrenaturais; é tratar com seus iguais, com aqueles
mesmos a quem o homem se dirigiria neste mundo: a seus parentes, a seus amigos
ou a indivíduos mais esclarecidos do que ele. Disto é que importa que todos se
convençam e é o que ignoram os que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem
ideia completamente falsa da natureza do mundo dos Espíritos e das relações com
o além-túmulo. Qual, portanto, a utilidade dessas manifestações, ou, se o
preferirem, dessa revelação, uma vez que os Espíritos não sabem mais do que nós
ou não nos dizem tudo o que sabem? Primeiramente, como já dissemos, eles se
abstêm de nos dar o que podemos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, há
coisas cuja revelação não lhes é permitida, porque o grau do nosso adiantamento
não as comporta. Afora isto, as condições da nova existência em que se acham
lhes dilatam o círculo das percepções: eles veem o que não viam na Terra;
libertos dos entraves da matéria, isentos dos cuidados da vida corpórea, julgam
as coisas de um ponto de vista mais elevado e, por isso mesmo, mais justo; a
perspicácia de que gozam abrange mais vasto horizonte; compreendem seus erros,
retificam suas ideias e se desembaraçam dos preconceitos humanos. É nisto que
consiste a superioridade dos Espíritos com relação à humanidade corpórea e daí
vem que seus conselhos, segundo o grau de adiantamento que alcançaram, são mais
judiciosos e desinteressados do que os dos encarnados. O meio em que se
encontram lhes permite, além disso, iniciar-nos nas coisas relativas à vida
futura, coisas que ignoramos e que não podemos aprender no meio em que estamos.
Até agora, o homem apenas formulara hipóteses sobre o futuro, sendo a razão por
que suas crenças a esse respeito se fracionaram em tão numerosos e divergentes
sistemas, desde o niilismo até as concepções fantásticas do inferno e do
paraíso. Hoje, são as testemunhas oculares, os próprios atores da vida de além-
-túmulo que nos vêm dizer em que se tornaram e só eles o podiam fazer. Suas
manifestações, conseguintemente, serviram para dar-nos a conhecer o mundo
invisível que nos rodeia e do qual nem suspeitávamos e só esse conhecimento
seria de capital importância, supondo-se que os Espíritos nada mais nos
pudessem ensinar. Quando em viagem por um país que não conheçais, recusareis as
informações do mais humilde camponês que encontrardes? Deixareis de
interrogá-lo sobre as condições das estradas simplesmente por ser ele um
camponês? Certamente não esperareis obter, por seu intermédio, esclarecimentos
de grande alcance, mas, de acordo com o que ele é na sua esfera, poderá, sobre
alguns pontos, vos ensinar melhor do que um homem instruído que não conheça o
país. Tirareis das suas indicações deduções que ele próprio não tiraria, sem
que por isso deixe de ser um instrumento útil às vossas observações, embora
apenas servisse para vos informar acerca dos costumes dos camponeses. Dá-se a
mesma coisa no que concerne às nossas relações com os Espíritos, entre os quais
o menos qualificado pode servir para nos ensinar alguma coisa. Uma comparação
vulgar tornará ainda mais compreensível a situação. Um navio carregado de
emigrantes parte para destino longínquo. Leva homens de todas as condições,
parentes e amigos dos que ficam. Vem-se a saber que esse navio naufragou.
Nenhum vestígio resta dele, nenhuma notícia chega sobre a sua sorte.
Acredita-se que todos os passageiros tenham perecido e o luto penetra em todas
as suas famílias. Entretanto, a tripulação inteira e os passageiros, sem faltar
um único homem, foi ter a uma terra desconhecida, abundante e fértil, onde
todos passam a viver felizes, sob um céu clemente. Ninguém, todavia, sabe disso.
Ora, um belo dia, outro navio aporta a essa terra e lá encontra os náufragos,
sãos e salvos. A auspiciosa notícia se espalha com a rapidez do relâmpago.
Exclamam todos: “Os nossos amigos não estão perdidos!” E rendem graças a Deus.
Não podem ver-se uns aos outros, mas correspondem-se; permutam demonstrações de
afeto e assim a alegria substitui a tristeza. Tal a imagem da vida terrena e da
vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna. A última, semelhante
ao segundo navio, nos traz a boa-nova da sobrevivência dos que nos são caros e
a certeza de que um dia nos reuniremos a eles. Deixa de existir a dúvida sobre
a sorte deles e a nossa. O desânimo se desfaz diante da esperança. Outros
resultados fecundam essa revelação. Achando madura a humanidade para penetrar o
mistério do seu destino e contemplar a sangue-frio novas maravilhas, Deus
permitiu que fosse erguido o véu que ocultava o mundo invisível ao mundo
visível. As manifestações nada têm de extra- -humanas; é a humanidade
espiritual que vem conversar com a humanidade corpórea e dizer-lhe: “Nós
existimos, logo, o nada não existe; eis o que somos e o que sereis; o futuro
vos pertence, como a nós. Caminhais nas trevas, vimos clarear-vos o caminho e
traçar-vos o roteiro; andais ao acaso, vimos apontar-vos a meta. A vida terrena
era tudo para vós, porque nada víeis além dela; vimos dizer-vos, mostrando a
vida espiritual: a vida terrestre nada é. A vossa visão se detinha no túmulo,
nós vos desvendamos, para além deste, um esplêndido horizonte. Não sabíeis por
que sofreis na Terra; agora, no sofrimento, vedes a Justiça de Deus. O bem não
produzia nenhum fruto aparente para o futuro; doravante, ele terá uma
finalidade e constituirá uma necessidade; a fraternidade, que não passava de
bela teoria, assenta agora numa Lei da natureza. Sob o domínio da crença de que
tudo se acaba com a vida, a imensidade é o vácuo, o egoísmo reina soberano
entre vós e a vossa palavra de ordem é: ‘Cada um por si.’ Com a certeza do
futuro, os espaços infinitos se povoam ao infinito, em parte alguma há o vazio
e a solidão; a solidariedade liga todos os seres, aquém e além da tumba. É o
reino da caridade, sob a divisa: ‘Um por todos e todos por um.’ Enfim, ao termo
da vida dizíeis eterno adeus aos que vos são caros; agora simplesmente direis:
‘Até breve!’. Tais são, em resumo, os resultados da revelação nova, que veio
encher o vácuo que a incredulidade havia cavado, levantar os ânimos abatidos
pela dúvida ou pela perspectiva do nada e dar a todas as coisas uma razão de
ser. Esse resultado carecerá de importância apenas porque os Espíritos não vêm
resolver os problemas da Ciência, dar saber aos ignorantes e meios aos
preguiçosos para se enriquecerem sem trabalho? Entretanto, os frutos que o
homem deve colher da nova revelação não dizem respeito tão só à vida futura.
Ele os saboreará na Terra, pela transformação que estas novas crenças hão de
necessariamente operar no seu caráter, nos seus gostos, nas suas tendências e,
por conseguinte, nos hábitos e nas relações sociais. Pondo fim ao reino do
egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino
de Deus, anunciado pelo Cristo. www.fetnet.org.br.
Abraço. Davi
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