quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A PROTEÇÃO AMBIENTAL NA SHARIA ISLÂMICA


Islamismo. www.mesquitadobraz.org.br. Por Al–Balagh Foudation. Tradução Ahmed Ismail. A PROTEÇÃO AMBIENTAL NA SHARIA ISLÂMICA. Em Nome de Deus, o Clemente o Misericordioso. "E não causeis corrupção na terra, depois de ter sido pacificada..." Alcorão (A`raf 7:56).  Uma Palavra da Fundação. "Enobrecemos os filhos de Adão e os conduzimos pela terra e pelo mar, agraciamo-los com todo o bem e os preferimos acima da maior parte do que criamos." Alcorão (Isra` 17:70). Por certo que Deus Onipotente depositou suas bênçãos e riquezas neste mundo, de modo excedente às necessidades humanas, para que o homem vivesse tranquilo e livre de problemas, e também, criou-o na mais apropriada forma e deu-lhe uma mente e um corpo que o auxiliam a utilizar as bênçãos concedidas; como o dia e a noite, a terra e o céu, os rios e as árvores, o sol e a lua (...) etc. Porém, com todas essas bênçãos e tesouros que nos rodeiam, presentes na superfície e no interior da terra, um quinto da população mundial, isto é, um bilhão e duzentos milhões de pessoas, vivem à beira da miséria. Não obstante todo avanço tecnológico na atualidade, com a diversificação dos produtos industriais e dos serviços, um temor obsessivo ainda está presente na mente do homem do ocidente e do oriente, no qual ele se vê mais ansioso do que seus antepassados, em razão do que o ameaça: os perigos da poluição ambiental, da radioatividade nuclear, da carência de recursos naturais e da guerra. Neste mundo atual, uma pessoa que tenha abundância de alimentos não pode ser considerada alguém que vive confortavelmente, porque é possível que uma epidemia, doenças ou outros elementos destrutivos, como micro radiações imperceptíveis, a ataquem sob condições em que ela esteja familiarizada ou não, que podem entrar em seu lar por meio de (por exemplo) recipientes de leite contaminados ou pelo ar envenenado que respire. Portanto, não é surpresa que o presidente da "Conferência para o Desenvolvimento Social" realizada em Copenhague em março de 1995, tenha anunciado aos líderes mundiais que o objetivo da conferência era "reduzir a intranquilidade e a insegurança que ameaça as pessoas por todo o mundo e dedicar mais esforços para assegurar uma vida digna para a sociedade." E antes disso, outra conferência foi realizada, que enfatizou a quase impossibilidade de separar os fatores do desenvolvimento e do ambiente em quaisquer circunstâncias. Então, existem os perigos da poluição ambiental, a infiltração de raios solares destrutivos à camada de ozônio, o risco da deformidade em crianças e o crescimento da incidência de câncer provocado por contaminação nuclear, acrescidos dos riscos de secas com o desaparecimento de rios, o desflorestamento e a extinção de plantas e animais não estão confinados a uma região particular, nem ao hemisfério norte nem ao hemisfério sul, quer seja nos países desenvolvidos ou nos subdesenvolvidos. Assim, há uma séria necessidade de um esforço coletivo para se cumprir as resoluções internacionais para a proteção do meio ambiente e das espécies vegetais e animais, a fim de se proteger e garantir a existência humana. A qual também é a resolução da ONU, UNESCO e da Décima Segunda Conferência da Terra. Mas, infelizmente, alguns países, sobretudo os industrialmente desenvolvidos, não estão respeitando essas resoluções e continuam seus testes nucleares e a produção de outros elementos destrutivos em nome de seus interesses materiais, sem a menor consideração pelos seres humanos e o futuro do mundo. Isso é o que é confirmado pela UNESCO em sua análise dos problemas ambientais no mundo: "Certamente, a questão da produção e do consumo dos países industrializados influencia sobremaneira todos esses problemas, nessa questão o esforço no sentido de auferir grande lucro e muito rapidamente desconsidera os problemas e as dificuldades decorrentes da desordem ambiental... e esse tipo de procedimento e comportamento criará um grande dano, que virá a provocar a exaustão dos fatores naturais nos países em desenvolvimento..." A evidência da ação desumana e do egoísmo dos países desenvolvidos pode ser percebida na insistência da França em realizar testes nucleares no mar do Caribe, e na manutenção de testes nucleares pelos norte-americanos depois de todos os acordos contrários que foram assinados e o risco da propagação dos armamentos nucleares. Os acidentes em usinas nucleares, na América em 1985, que confirma somente a ocorrência de 2.300 eventos, a exportação de resíduos nucleares, como também a destinação de lixo nuclear para alguns países do terceiro mundo, e a perigosa exploração dos recursos naturais em alguns países africanos sem qualquer consideração aos riscos ambientais. E ainda, a exportação britânica de carne contaminada (a doença da vaca louca) a outros países, e outros inúmeros exemplos que vemos, estão causando grande prejuízo e desconforto a existência humana neste planeta. Al-Balagh Foundation. Definição de Ambiente. "Ambiente é o complexo de fatores físicos, químicos e biológicos (clima, solo e seres vivos) que interagem num organismo ou comunidade ecológica e que principalmente determina sua forma e sobrevivência; (ambiente) o agregado de condições sociais e culturais que influenciam a vida de um indivíduo ou comunidade. Trata-se das condições e circunstâncias naturais em que as pessoas, os animais e os vegetais vivem, condições e circunstâncias que se referem ao ambiente natural, social e político. Portanto, o ambiente significa as condições e circunstâncias que rodeiam algo em particular. O meio ambiente é um entorno natural, e se refere às condições naturais, a atmosfera e as circunstâncias que estão relacionadas ao homem, e isso inclui os vegetais, as florestas, a água, o ar, os oceanos, os animais e as outras forma de vida, a natureza da terra e o que há nela, como as montanhas, os rios, os pântanos, os desertos, e abrange a água quente ou fria, a chuva e as nuvens, os raios solares... etc. Todas as criaturas e entidades estão inter-relacionadas e produzem efeitos recíprocos, e isso também age positiva ou negativamente na vida do homem, sobretudo na atualidade, depois do avanço industrial e o aumento da interferência humana e de suas ações transformadoras na condição natural. Outras fontes científicas definiram o ambiente como "a condição em que o homem vive e obtém os componentes de sua vida, como o alimento, a moradia e os medicamentos, e que conduz a relação com seu semelhante”. Assim, esta é a definição de ambiente que considera o homem um ponto central dentro dele. O Homem e o Meio Ambiente. O homem é parte do mundo natural em sua formação, crescimento e na continuidade de sua existência nesta terra; interage com os componentes naturais e suas condições ambientais a todo momento. O Alcorão, em muitas passagens, se referiu ao relacionamento do homem com a natureza e o ambiente. Aqui, citamos alguns desses versículos: "E Deus vos produziu da terra, paulatinamente…" (Nuh 71:17). "...e criamos todos os seres vivos da água ..." (Anbiya 21:30. "E ao povo de Çamud enviamos seu irmão Saleh, que lhes disse: Ó povo meu, adorai a Deus porque não tereis outra divindade além Dele. Ele foi quem vos criou da terra e nela vos enraizou. Implorai, pois, seu perdão, voltai a Ele arrependidos, porque meu Senhor está próximo e é exorável." (Hud 11:61). "Criou os céus sem colunas aparentes, fixou na terra firmes montanhas, para que não oscile convosco, e disseminou nela animais de toda espécie; e emviamos a água do céu, com que fazemos brotar toda a nobre espécie de casais." (Lukman 31:10). "Não reparais em que Deus vos submeteu tudo quanto há nos céus e na terra, e vos cumulou com Suas mercês, conhecidas e desconhecidas? Sem dúvida, entre os humanos há os que disputam nesciamente acerca de Deus, sem orientação ou Livro lúcido." (Lukman 31:20). "...e enviou-vos água do céu, para com ela vos purificardes, vos livrardes da imundície de Satã ..." (Anfal 8:11). "...e enviamos do céu, água pura." (Furqan 25:48). "(...). Submeteu a vós os navios que, com Sua anuência, singram os mares, e submeteu a vós, os rios." (Ibrahim 14:32). "E foi Ele quem submeteu a vós, o mar, para que dele comêsseis carne fresca..." (Nahl 16:14). "Dela vos criamos e a ela retornareis, e dela vos faremos surgir outra vez." (Taha 20:55). "E quando se retira, eis que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção, devastar as semeaduras e o gado (...)" (Baqara 2:205). Os textos alcorânicos acima tratam do homem como uma parte do ambiente natural, que interage com o mesmo; tirando proveito dele e de modo similar, fornecendo algo a ele. O homem é também, responsável pelo desenvolvimento desse ambiente e o zelo por sua incorruptibilidade. O homem, esta criatura viva, representa uma parte do sistema natural que age em seus componentes no sentido de entendê-los e coordená-los. O mundo natural pode ser definido como o equilíbrio calculado, científico e acurado do Ser mais Sábio e Prudente. A quantidade de água em estado sólido, a salinidade de um mar, a água doce de um rio, o índice de oxigênio, o grau dos raios solares, de calor ou a quantidade de chuva, de peixes, de animais ou plantas (...) tudo isso é perfeitamente calculado sem o mínimo erro. A terra e sua força gravitacional, a taxa de movimento, a força de absorção, agem na vida do homem, dos animais e dos vegetais, e sua continuada existência neste universo demonstra que o Sábio Criador ordenou tudo isso cuidadosamente. Por conseguinte, os versículos citados abordaram a realidade da vida humana - no que tange a natureza e o ambiente, ou seja: (1) Que o homem foi criado da terra e se desenvolve por meio dela, como as plantas; que a água é uma base para a vida, e que Deus Onipotente colonizou a terra com o homem; isto é, confiou ao homem o desenvolvimento dela utilizando de seus recursos naturais e condições ambientais - para o correto entendimento humano do poder de Deus Onipotente e de suas bênçãos. (2) Que o ambiente natural deste mundo, como as montanhas, têm por razão a proteção do equilíbrio da terra e dos seres viventes, pela produção e consumo, do que vive sob o sistema de equilíbrio da vida. As chuvas que caem, as plantas que crescem, tudo isso é uma prova da Grandeza, do Poder, da Sabedoria e da Prudência de Deus, e que qualquer ação do Sábio Conhecedor é calculada sem a mínima contradição, e que mesmo se houver abuso de algum recurso o mesmo produzirá o efeito de acordo com o sistema natural resguardando o equilíbrio ambiental, de um do modo ou de outro, é a evidência da grandeza e da sabedoria do Criador Tudo neste mundo e em seu entorno natural, como a água, os animais, as florestas e as plantas, as criaturas aquáticas, os raios solares, o calor, a chuva, a salinidade do mar e a água doce dos rios, foi criado para o homem, para tornar sua vida melhor. Em vista disso, o Alcorão ordena ao homem que reflita sobre as bênçãos de Deus e o convoca ao monoteísmo, ao louvor e a adoração de Deus somente. Este é o modo que o Alcorão põe o homem no ambiente natural: como parte dele. Entretanto, depois de explicar essa relação entre a vida, o intelecto e a natureza, o Alcorão discute as atividades, as responsabilidades e os sistemas sociais que protegem o bem estar do meio ambiente e a vontade divina do mundo da existência sob a autoridade da Shari'ah. Organização e Equilíbrio Natural do Ambiente. O meio ambiente é um preciso e equilibrado mundo que está edificado na experiência, no conhecimento e na sabedoria. Assim, a natureza, o ambiente e a vida são uma unidade completa e inter relacionada, como um único corpo; água, terra, ar e vento (...) etc, são todos criados com um propósito e objetivo. Não existe nada criado na terra sem um objetivo, ou incompleto, ou com metas contraditórias. Glória seja dada a Deus que criou todas as coisas, moldou-as e as fez cuidadosamente equilibradas. Os teólogos discutiram duas questões fundamentais nos princípios islâmicos que tratam das ações e da sabedoria de Deus, que são: 1 - Deus predestinou a criação de cada coisa, o que é benéfico para as criaturas, e a vida não pode prescindir delas. 2 - As ações de Deus são intencionais (ou seja, não existem sem um objetivo) e que todas Suas ações se fundamentam na sabedoria. Em vista disso, a escola dos Ahlul Bayt entabulou um debate candente com outras escolas de pensamento islâmico com respeito a essa questão controversa no mundo natural, intelectual e social, que o conhecimento humano e os pesquisadores confirmam, para maior esclarecimento da análise islâmica desse assunto, devemos examinar os livros que abordam essas duas questões ideológicas. As ações de Deus são claramente dotadas de propósito, porque Ele é Sábio em suas ações, e as ações um sábio não contrariam a sabedoria. Aquele que age sem um propósito é um tolo, Deus está muito acima disso. "Não criamos os céus, a terra e tudo que há entre eles por diversão" Alcorão (Dukhan 44:38) "...`Senhor Nosso! Não criaste tudo isso em vão! Glorificado Sejas!...” Alcorão (Al-i-Imran 3:191) Todo esse propósito e benefício não produz retorno em benefício a Deus, porque Ele se encontra isento de qualquer necessidade em relação a suas criaturas, antes, produz benefício para elas próprias mediante a aquisição do Paraíso e o contentamento de Deus, além da salvação do castigo e da perdição sem que ocorra nenhum decréscimo da parte de Deus Onipotente, porque Ele é perfeito e completo em Sua essência e em todos os aspectos. Porém, os asha'ritas sustentam que: "é impossível que Deus faça algo com um propósito, e não por algum interesse. É possível e permissível para Ele punir Seus servos sem qualquer benefício ou interesse." (n.2) Os asha'ritas tinham rejeitado o princípio da finalidade e interpretado erroneamente o fato de que qualquer um que realize uma ação com um propósito necessita desta mesma ação. Entretanto, como já vimos, o propósito e a meta são pelo interesse das criaturas, e Ele (Deus), o Altíssimo, está muito acima da necessidade. O filósofo islâmico, Nasruddin Tusi, escreveu enfatizando a necessidade do interesse (maslaha): "O interesse pode ser necessário devido a existência da razão e da ausência (não-existência) do que possa restringir sua realização." Allamah Hilli comenta essa afirmação dizendo:" As pessoas divergem, Abu Ali, Abu Hashim e seus companheiros dizem, "interesse não é necessário para Deus Onipotente," e Balkhi os contradiz afirmando, "interesse é necessário e este é o entendimento adotado pelas pessoas de Baghdad e alguns de Basra," enquanto Abul Hassan Basri conclui: "é necessário sob certas circunstâncias, mas não todas." Esta é, também, a opinião do escritor." (n3) Assim, podemos deduzir que o pensamento ideológico, no Islam, já confirmou o princípio ideológico, que é: "Deus Onipotente não faz ou cria coisa alguma neste universo natural ou no mundo do homem senão com um propósito ou interesse que produza benefício ao homem ou as demais criaturas. E, naturalmente, sábios e pesquisadores em diferentes campos científicos têm apoiado essa opinião ideológica, o que, de um modo ou de outro, afirma a autenticidade dessa opinião e idéia. Para um maior entendimento da questão, citaremos o que o químico Thomas David Parkinson, escreveu: "Porém o sistema que testemunhamos à nossa volta não é um sinal do poder das coisas, mas, está acima disso em sabedoria e se move no sentido do estabelecimento dos interesses do homem, o que confirma que a preocupação do Senhor Deus em relação a Seus servos não é menor do que Sua preocupação com os sistemas e as leis que governam o universo." Atente para a perfeita sabedoria que está imprimida a seu redor, que às vezes contradiz o habitual, por exemplo, a água. Uma pessoa espera encontrar o peso molecular (da água) (18) gasoso ao ponto do congelamento, e por exemplo, o peso molecular da ammonia (17) gasoso ao ponto imperfeito de fervura (73) na atmosfera normal, e o hidrogênio sulfídrico, que aproximadamente possui as mesmas características da água, com um peso molecular de (53), gasoso ao ponto imperfeito de fervura (53), em vista disso, o estado de liquefação da água ao ponto contrastante de fervura, a deixará confusa. Além disso, a água possui outra importante característica, que somente por observá-la, a pessoa compreenderá que se trata de algo bem planejado. A água cobre 3/4 da superfície terrestre, e em razão disso, tem um grande efeito na atmosfera geral e no grau da temperatura, que se for reduzida, uma grande e indesejável mudança ocorrerá. Uma outra preciosa característica que a água possui, e que indica que o Criador deste universo a ordenou a fim de servir aos interesses de Suas criaturas, é que a água é o único elemento conhecido cuja densidade diminui quando se solidifica, e essa característica tem grande influência e importância na vida (no planeta). E assim, o gelo, que flutua na superfície da água quando a temperatura esfria, em vez de afundar se torna um bloco sólido que nem derrete nem se fende. Assim, o gelo, água em seu estado sólido, flutua na superfície e cria uma camada que protege a água embaixo dele. Com isso, os peixes e as demais criaturas aquáticas subsistem e na primavera o gelo derrete rapidamente. (n4) De sua parte, Dr. Christie Morrison em sua obra "Science call for Faith", ao discutir o equilíbrio natural, a coordenação entre seus componentes, a precisão e a perfeição do sistema ambiental, a proteção do sistema da vida e a Grandeza do Criador, escreveu: "O ar denso, possuindo a necessária magnitude retirada da passagem dos raios químicos, necessário para as plantas, que destrói os micróbios e produz vitaminas, sem o mínimo dano ao homem, a não ser na ocorrência de um longo tempo de exposição, permanece puro (sem contaminação) e inalterável em seu equilíbrio natural para a existência do homem. O grande (fator) de equilíbrio é a superfície de água, ou seja, o entorno natural em que a vida, o alimento, a chuva, o clima equilibrado, as plantas e o próprio homem, se desenvolvem. Certamente, aquele que compreender isso, ficará perplexo com a Sua Grandeza (de Deus) e se submeterá à Sua Ordem." Dr. Lawrence Kolino Woker, botânico, fisiologista, conferencista na Universidade de Geórgia, escreveu: "Estou escrevendo um artigo como especialista em pesquisa florestal, e também, como alguém que dá muita atenção aos estudos ambientais e a fisiologia vegetal, para mostrar a importância da floresta como prova da existência de Deus. Mais adiante, discutiremos mais sobre isso, quando discutirmos o Sagrado zelo e o Poder Divino que se manifesta na restauração da fertilidade da terra. Numa floresta virgem que não sofre nenhuma ação humana, as árvores crescem e suas diferentes espécies se desenvolvem de geração em geração até que seu número aumente; exceto se as atividades humanas interfiram nisso, ou que sejam destruídas pelo fogo ou outra calamidade sobrevenha. A interrupção pelas atividades humanas da floresta natural, suas plantas e fertilidade, levará a redução de sua fertilidade e por fim, perderemos as árvores e o solo, o que dará oportunidade à ocorrência de enchentes. Então, ele acrescenta: "O homem gasta uma imensa quantia de dinheiro construindo grandes represas a fim de impedir as enchentes, mas, esta é apenas uma solução temporária para essa gigantesca força que nem barreiras de pedra, nem grandes edificações podem repelir. Portanto, é necessário encontrar uma solução real para esse problema a partir de sua fonte, e isso não pode ser realizado por meio da construção de represas, nem por meio do florestamento, é algo que somente a própria natureza pode realizar." (n5) Dr. Christie Morison, ao discutir o sistema ambiental da terra e dos seres viventes, escreveu: "Certamente, a admirável relação que existe entre o oxigênio e o dióxido de carbono, no que tange a (vida) animal e vegetal, atrai a atenção de toda pessoa sensata.". E continua: "Este é o modo que todo vegetal e planta, bem como toda forma de vida primária, etc., surge do carbono e da água. Ademais, o oxigênio atmosférico é convertido em dióxido de carbono na respiração animal e regenerado pelas plantas na fotosíntese. Daí que, sem o relacionamento cordial, a vida dos animais e das plantas se exauriria, ou seja, sempre que o equilíbrio da vida se alterar a condição de ambos será inteiramente modificada." (n6) O Que Surpreende no Equilíbrio Sistêmico. O seguinte fato é um claro exemplo de um importante critério com respeito à existência humana. Há alguns poucos anos atrás, um tipo de cacto foi cultivado na Austrália, e logo, essa planta cobriu uma extensa área de terra ao ponto de perturbar toda a comunidade e suas atividades agrícolas. Todos os esforços para impedir seu alastramento foram inúteis, e a Austrália continuou afetada por essa praga. Posteriormente, as pesquisas conduzidas por alguns entomologistas descobriram que um inseto, que dependia desse cacto para sobreviver, se reproduzira rapidamente por toda a Austrália. Em breve tempo, esse inseto destruiu o cacto. Assim sendo, eis o critério e como o equilíbrio foi alterado. (n7) O Meio Ambiente e as Práticas Destrutivas. Um levantamento ou uma acurada análise no mundo natural, em seus componentes, na relação, no equilíbrio e nas mudanças que ocorrem nele, mostrará a sabedoria, a precisão e a perfeição que o envolve, porque, não há nada criado inutilmente ou para o prejuízo de alguém, e mesmo se prejudicar os seres humanos, é um prejuízo relativo, devido o fato de que o ser humano foi primeiramente proibido de praticá-lo. E frequentemente, tal elemento prejudicial é alterado por processos naturais para ser útil ao vegetais, a terra e mesmo ao próprio homem. Por certo, se for permitido que as leis naturais ajam segundo foram criadas por Deus, protegerão a sanidade, a beleza natural e ambiental e a vida de todos. A distribuição da água, das montanhas, das florestas, das correntes de vento, das faixas climáticas, da proporção de gases, dos raios solares, etc.. atua sob um sistema inter-relacionado e bem organizado, como as bactérias e o cadáver de um animal ou uma planta morta entram nos processos químicos naturais para o reconhecimento dos interesses ambientais e a garantia do bem estar do entorno natural. O Alcorão, quando desenvolve o tema do meio ambiente, e a perfeição natural, como também o papel destrutivo do homem, diz: "E quando se retira, eis que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção, devastar as semeaduras e o gado..." (Baqara 2:205) "E não causeis corrupção na terra, depois de ter sido pacificada, mas invocai-o com temor e esperança, porque sua misericórdia está próxima dos benfeitores." (A`raf 7:56) O Alcorão enfatiza que a terra e seus componentes de vida e natureza são perfeitos e saudáveis; e que é o homem que atua em sua perfeição e os destrói. Em razão disso, vemos esse cenário ampliado no homem atuando na capacidade da terra em sua forma natural, como um elemento destrutivo; ceifando a vida dos vegetais, dos animais e dos seres humanos. Nosso mundo atual tem testemunhado os mais temíveis tipos de corrupção sobre a terra e o meio ambiente, como também, a destruição do que o homem recebeu a ordem de proteger e cuidar. Deus criou o homem da terra como um de seus componentes e ordenou a ele que a protegesse. Deus Onipotente enfatiza essa responsabilidade, através do Profeta Salih que diz: "E ao povo de Çamud enviamos seu irmão Saleh, que lhes disse: Ó povo meu, adorai a Deus porque não tereis outra divindade além Dele. Ele foi quem vos criou da terra e nela vos enraizou. Implorai pois, seu perdão, voltai a Ele arrependidos, porque meu Senhor está próximo e é Exorável." (Hud 11:61) Este é o aviso alcorânico sobre a corrupção na terra e a destruição ambiental; o chamado para a implementação e a proteção de suas leis equilibradas. A terrível e destrutiva ação humana se manifesta na produção de armamentos químicos, nucleares e biológicos, que provocam grande dano ao mundo; e também na destruição da natureza que se manifesta no corte de árvores (em grande escala) e na poluição atmosférica através da combustão e da produção (crescente) de lixo. Estudos científicos e estatísticas dirigidos por especialistas demonstram que a interferência humana nas leis naturais pela destruição ambiental, e mesmo em ações supostamente benéficas ao homem, como o uso de fertilizantes químicos e outras substâncias tóxicas para controlar as pragas; causam grande dano ao equilíbrio ambiental, e à estabilidade da vida no planeta. O problema mais evidente de nossa era é a poluição, causada pela indústria e mesmo pela ação bélica. Assim, a poluição, mediante a utilização do carbono e do dióxido de carbono, a destruição da camada de ozônio ou a poluição química provocada por substâncias tóxicas, pela radioatividade, a água poluída por óleo cru ou lixo produzido pelo homem, o uso de fertilizantes agrícolas como os compostos de fosfato e nitrato, etc.. são provas contundentes do que Deus Onipotente proíbe ao dizer: "E não causeis corrupção na terra, depois de ter sido pacificada..." Alcorão (A`raf 7:56) Entretanto, tudo no mundo natural age de acordo com o sistema de pureza, perfeição e equilíbrio. Daí que, a proporção natural de carbono é fixa e equilibrada, de modo que as plantas absorvam uma grande quantidade de dióxido de carbono natural para o seu crescimento. Os estudos científicos confirmam que a quantidade média de carbono no mundo natural é aproximadamente 300 partes em cada 10.000 partes de ar. Contudo, essa proporção aumentou em 1984 para 354 partes em cada 10.000; e esta proporção atual dobrará por volta de 2020 se a combustão mecânica e a queima de florestas continuarem (nos mesmos índices). (n8)  Mencionamos aqui, que há um grande aumento na proporção do dióxido de carbono na atmosfera, e isso se deve ao calor atmosférico, que pode ser detectado e que trará um grande prejuízo num futuro próximo. Causará o derretimento do gelo polar e uma elevação descomunal do nível das águas, o que afetará o equilíbrio natural, mudará a composição natural da terra, o que por sua vez provocará um grande dano ao homem… para sempre. (n9) Em seu relatório sobre as práticas destrutivas para a Conferência do Clima da Terra e Direitos Humanos, a Liga árabe para os Direitos Humanos escreveu: "As estatísticas mostram que 160.000 gases tóxicos estão pondo em risco a camada atmosférica somente nos EUA. Por exemplo, os EUA estão usando 350 milhões de toneladas de Hidro-floro carbonos, que são utilizados na manufatura de aerossóis, isto é, a média de 25% da utilização mundial que chega a 1.400 milhões de toneladas. Esta ação, apenas, causará o enfraquecimento da camada de ozônio. Ao mesmo tempo, os países desenvolvidos, sozinhos, produzem 800.000 toneladas de lixo tóxico, o que é aproximadamente 30% do lixo produzido no mundo, e esses países descartam esse lixo no Saara e nos rios dos países subdesenvolvidos." A Liga ainda diz em seu relatório que 600 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza, 100 milhões de africanos estão morrendo de fome, 43 milhões de acres de floresta são devastados anualmente e 80% da população mundial enfrentará dificuldades e inutilização em termos de terras cultiváveis, de alimentação e água potável no próximo século. Porém, sobre essa dura realidade, a linha geral do clima terrestre impõe aos países pobres o ônus dessa destruição da camada de ozônio. Além do que foi mencionado antes, a conferência demonstra que os países do terceiro mundo importam mercadorias dos países do norte, que provocam poluição ambiental. E ao mesmo tempo, enfatiza que mãos estrangeiras realizam esse projeto naqueles países em vista de sua necessidade por trabalho industrial, baixos salários e impostos, matérias primas disponíveis e leis liberais, onde não serão questionados ou forçados a proteger o meio ambiente ou enfrentar duras penalidades por abusar disso. O que podem os países pobres fazer para enfrentar esse grave problema, diante de sua pobreza, subdesenvolvimento, seus problemas diários e a fome que atinge seus cidadãos? Podem superar sozinhos tais problemas? Para enfrentar esse terrível perigo, se presumiu que a soma de aproximadamente 600 bilhões de dólares fosse suficiente para curar o problema, mas, a maioria dos países industrializados se recusa a acatar a proposta da ONU, que declara que os países ricos devem sacrificar 7% de sua renda anual até 2000, para auxiliar os países pobres em seus projetos de desenvolvimento. Todavia, a organização fica mais preocupada quando o governo americano se recusa a assinar o acordo alcançado com o intuito de parar a difusão de armamentos biológicos. Ademais, o governo norte-americano não somente se recusa a assinar o acordo, como também se recusa a se comprometer com a meta de decréscimo da emissão do dióxido de carbono no meio ambiente ao fim deste século. E, na verdade, enfatiza que essa emissão poderá aumentar 1,76 % nos próximos oito anos. Sem dúvida, as atividades humanas atualmente são os fatores responsáveis da produção de aproximadamente 7,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono lançado no meio ambiente, que, é o principal fator na mudança do clima mundial e causa da poluição do ar. Não obstante a proteção do meio ambiente seja considerada um fator básico no processo econômico e no desenvolvimento social, atividades humanas que incluem a destruição das florestas, a poluição marinha, os produtos agrícolas químicos e outras invenções modernas, levam a fonte biológica, as plantas, os animais e os outros fenômenos naturais a um perigoso estágio, que pode ameaçar a própria existência do homem. Entretanto, se diz que o homem seja o responsável pelo crime de poluição do ar, da terra, da água e de todo o meio ambiente, mas quem é este homem? É o homem da Somália, da Índia, do Sudão ou do Iêmen, ou o homem que vive na América, no Canadá ou no Japão? Uma análise mais cuidadosa e uma reflexão sobre as estatísticas nos dará maior esclarecimento sobre a importância da injunção alcorânica com respeito a destruição ambiental e a poluição. E também teremos um bom entendimento sobre a diferença entre a civilização islâmica e a civilização ocidental (materialista) que ameaça a sanidade do meio ambiente e a existência humana, revelando a tendência legislativa islâmica e sua precisa solução para as questões culturais e sociais, e sua preocupação com as questões humanas e ambientais. Como Proteger o Ambiente Humano. A proteção do ambiente natural e social está entre as mais importantes metas existenciais islâmicas, bem como a explicação do sentido de seu cuidado e preocupação com o bem estar humano e a proteção do meio ambiente, a aderência ao sistema da vida, a felicidade humana e sua existência permanente. A razão disso é que o bem estar da espécie humana e dos seres viventes e inanimados ao redor dela, como a terra, a água e o ar dependem da proteção em relação a poluição e a destruição. O Islam adotou algumas medidas para a proteção ambiental. Eis algumas delas: 1. Esclarecer e educar o homem no sentido de como zelar pela saúde e a natureza, como proteger as criaturas da terra. E isso está baseado no princípio de que tudo o que Deus Onipotente criou é perfeito, preciso e possui o propósito da reforma; não há nada criado em vão ou por mera diversão. O Alcorão explicou esse ponto quando disse: "...Tal é a obra de Deus, que tem disposto prudentemente todas as coisas..." (Naml 27:88) Porém, quando o homem se torna egoísta e agressivo, tais posicionamentos o inclinam à destruição do meio ambiente e a poluição da natureza. A esse respeito, o Alcorão considera o homem responsável pela poluição ambiental, ao dizer: "A corrupção surgiu na terra e no mar por causa do que as mãos dos humanos lucraram...." (Ar Rum 30:41) E além disso, se dirige ao homem e o encoraja a proteger a natureza e a levar uma vida saudável , quando diz: "E não causeis corrupção na terra, depois de ter sido pacificada..." (A`raf 7:56) "E quando se retira, eis que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção, devastar as semeaduras e o gado (...)" (Baqara 2:205) 2. A exortação à pureza: O mais evidente processo de proteção do ambiente humano é a orientação islâmica para a educação do homem na pureza e na higiene e seu apelo para a purificação do corpo, das roupas, dos utensílios, etc; Deus Onipotente diz: "E tuas vestes, purifica !" (Muddathir 74:4) "(...) E quando estiverdes impuros, higienizai-vos (...)" (Ma'ida 5:6) "(...) Deus não deseja impor-vos carga alguma; porém, quer purificar-vos e agraciar-vos, para que Lhe agradeçais." (Ma`ida 5:6) Em vista disso, a pureza e a proteção do ambiente contra a poluição são consideradas bênçãos de Deus, e que devem ser apreciadas. Daí, entendemos que bênçãos como por exemplo, a saúde, o bem viver e os bens materiais, etc, são incompletas sem a pureza do meio ambiente e sua proteção contra a poluição e a destruição, porque, sem isso, continuaremos à mercê dos riscos e ameaças da destruição e da extinção. O Profeta (saas), falando sobre a proteção da saúde, da pureza do ambiente que rodeia o homem, diz, "Em verdade, vosso corpo tem um direito sobre vós." (n10) E disse também, quando explicava a importância da proteção da natureza: "Varrei vossos quintais e não sejais como os judeus." (n11) Imam Ali Bin Musa Al Rida (as), falando da pureza e da higiene, diz: "A purificação está entre os princípios dos profetas." (n12) Jabir Bin Abdullah Ansari relatou o repúdio do Santo Profeta (saas) à falta de higiene, e diz: "Um dia o Santo Profeta (saas) veio ao nosso encontro e viu um homem com os cabelos desgrenhados e mal cuidados. Então disse: Este não tem com que se pentear?" (n13) E também foi relatado dele (saas) o seguinte dizer quando viu um outro homem vestido com roupas sujas: "Este não tem algo para lavar suas roupas?” (n14) Sem dúvida, o pensamento e a civilização islâmica estão muito acima dos demais, no que tange a sua ênfase de que Deus Onipotente deseja para seus servos uma vida prazeirosa, a pureza e um ambiente isento de poluição. O Profeta (saas) explicou esse ponto ao dizer: "Certamente que Deus é bom e Ele ama a bondade; Ele é puro e ama a pureza." (n15) E quando falando da pureza e da higiene no Islam, convocando à limpeza do ambiente, ele (saas) diz: "Em verdade o Islam é puro, portanto sede puros, porque não entrará no Paraíso quem não for puro, (n16) 3. Proibindo a poluição ambiental: Como o Islam exorta seus seguidores à purificação, também, proíbe a poluição e a destruição ambiental. Sobre essa questão, foi relatado do Santo Profeta (saas) que ele tenha proibido o cuspir na terra, em razão de seus efeitos prejudiciais à saúde e sua contradição com a natureza humana. O Santo Profeta (saas) também proibiu e alertou para que não se defecasse sob uma árvore frutífera ou se urinasse num local de água parada, na água corrente ou no caminho, para que se protegesse o ambiente da poluição, e se mantivesse a saúde e a pureza. Podemos destacar a importância dessa recomendação se entendermos o perigo que o lixo produzido pelo homem representa para nossa saúde e para o meio ambiente, sobretudo, o papel que esses contaminantes na água desempenham na propagação de doenças para a comunidade que a consome, seja bebendo, se banhando ou consumindo frutos regados com essa água. Relatou-se de Imam Sádiq (as) que: "O Santo Profeta (saas) proibiu a defecação na beira de um poço, rio ou debaixo de uma árvore frutífera." (n17) Também relatou do Profeta (saas) que tenha dito: "é proibido urinar na água estagnada." (n18) E ele (as) mencionou ainda do Profeta (saas) que tenha dito: "em verdade, Deus vos alerta, "Oh, minha nação! Eu vos proíbo vinte e quatro coisas," e ele recitou-as até que disse, "Ele vos previne contra o ato de urinar à beira de um rio." (n19) 4. A proibição de permanecer em estado de "najasah" (estado de impureza) e a purificação: Quando estudamos a filosofia das leis islâmicas, percebemos a preocupação e o cuidado dessas leis com a proteção do homem. Os juristas resumiram a filosofia das leis islâmicas e as analisaram numa fórmula simples, que é, "atrair o melhor interesse (masalaha) e repelir o mal (a corrupção) (mafasid)." Assim sendo, "masalaha" e "mafasada" são dois critérios de uma lei particular e a razão de sua legislação. E, naturalmente, quando da prática desse princípio legislativo sobre coisas que a lei islâmica prescreve, como a impureza de determinadas coisas, e a proibição de consumí-las ou vendê-las, e a necessidade de purificar-se delas antes da oração, uma pessoa compreenderá o valor das leis islâmicas e sua exortação contra o mal que é prejudicial à saúde. Em vista disso, a shari'ah denomina as seguintes coisas de "najis" e exige a purificação em relação a elas antes da oração ou do tawaf (o ato de rodear a Kaaba): 1. A urina e as fezes humanas, bem como os dejetos dos animais que sejam proibidos para o consumo. 2. O cadáver humano, dos animais cujo sangue jorra quando sacrificados. 3. O esperma humano e o dos animais cujo sangue jorra quando sacrificados. 4. O sangue humano e o sangue dos animais cujo sangue jorra quando sacrificados. 5. As bebidas alcoólicas. 6. Os porcos e os cães. Sem dúvida, o atual problema humano, especialmente nas grandes cidades, se trata de como nos livrar dos dejetos humanos e animais e de como dar uma correta destinação aos cadáveres, pois constituem fontes evidentes de micróbios e de perigosas doenças que acometem o ser humano. Além disso, a utilização das impurezas acima mencionadas, poluindo o meio ambiente foi proibida e o homem recebeu a ordem de se livrar delas. Deus Onipotente diz: "...Deus não deseja impor-vos carga alguma; porém, quer purificar-vos e agraciar-vos, para que Lhe agradeçais." (Ma`ida 5:6) Com efeito, a pessoa que examinar cuidadosamente essas normas de purificação, perceberá que o método de purificação islâmico é o mais perfeito sistema para proteção da saúde e do meio ambiente. Menciona a água, a terra, o sol como sendo purificadores naturais de todos os elementos impuros, como os dejetos humanos, os cadáveres, o sangue e o sêmen de alguns animais. Também considera a transformação (istihala) de um determinado estado para outro, como a transformação de um cadáver em cinzas pela combustão, um dos elementos de purificação. Ademais, o método de purificação islâmico é composto de diferentes modalidades, que se encontram entre os mais perfeitos processos e práticas de proteção ambiental, que são: a. O Islam, ao considerar os cadáveres, o sangue, o sêmen e os dejetos do homem e de alguns animais como "najis" (impuros), o que as pesquisas científicas confirmam serem fontes de algumas doenças e de poluição ambiental, ordena que sua purificação e remoção do corpo humano e de utensílios como as roupas, os tapetes, etc, pelo uso da água e dos demais purificadores como obrigatório. O Islam também legisla a purificação de alguns "mutanajjisat" (objetos que se tornam impuros pelo contato com impurezas) por meio da terra, dos raios de sol, elementos que cientificamente são provados serem microbicidas. Mediante esta medida, o Islam preconiza a purificação do ambiente e a proteção do mesmo em relação aos riscos da poluição. b. A inumação dos cadáveres: o Islam tornou obrigatória a inumação dos cadáveres humanos, que é uma das mais importantes medidas no sentido da eliminação dos micróbios e a proteção do ambiente humano. c. O banho: O Islam legislou diferentes tipos de banho (ghusl) para a limpeza e proteção do corpo em relação as impurezas e demais fontes de doenças, com isso, tornou compulsório o "ghusl" e outras práticas, recomendadas. As compulsórias são: Ghusl al Janabah: É obrigatório para um "junub" (uma pessoa em estado de impureza ritual devido a ejaculação ou relação sexual) se purificar através do banho ritual para que possa realizar o sallah (a prece) ou o jejum. O Islam legislou como "makruh" indesejável, que uma pessoa em estado de impureza durma, coma ou beba algo sem antes realizar o banho ritual. Ghusl al-Haidh. Ghusl al-Istihadhah. Ghusl-e-Massil-e-Mayyit. Ghusl an-Nifas. Os banhos mustahab (meritórios) que o Islam recomenda que se faça, são muitos, o mais importante deles é o ghusl da sexta-feira para a purificação do corpo. d. A ablução (wudhu): a ablução na perspectiva islâmica, é o método mais evidente de purificação do homem. O Islam tornou compulsórias aos muçulmanos cinco preces diárias (a partir dos nove anos para as meninas e dos quinze anos para os meninos) e essas preces não podem ser cumpridas sem o devido estado de ablução. Assim, a pessoa se ablui cinco ou pelo menos três vezes ao dia para a prece, quer seja a compulsória ou a voluntária, que sem o estado de pureza ritual não é válida. Por conseguinte, a ablução é considerada purificação, na qual o ato de lavar a face e as mãos é compulsório e o enxaguar a boca e lavar as narinas são práticas recomendadas. Além de legislar como obrigatória a ablução, o Islam exorta os fiéis para que estejam em estado de pureza ritual quando realizarem alguns atos recomendados de adoração, como a leitura do Alcorão, e também recomenda a realização da ablução antes de dormir. e. A limpeza dos móveis e dos demais utensílios domésticos: a preocupação do Islam com a limpeza do ambiente pode ser atestada também por sua proibição do consumo de coisas impuras ou que tenham sido contaminadas por coisas impuras. Portanto, é obrigatório para aquele que deseja comer ou beber utilizando um prato ou um copo, que eventualmente tenha sido contaminado por algo impuro, purificá-lo com água, ou em alguns casos, com água e areia (terra limpa), antes de utilizá-lo. Os livros de jurisprudência discutiram o método de purificação de tais itens quando entram em contato com substâncias impuras (para maiores detalhes, favor pesquisar os livros sobre o assunto). 5. A proibição de alguns alimentos e bebidas e algumas outras práticas, como o se alimentar da carne de animais mortos por razões desconhecidas (ou sacrificados de modo incorreto), beber o sangue, as bebidas inebriantes ou o uso de drogas, que são elementos destrutivos da saúde e do bem estar da sociedade. 6. A proibição das relações sexuais (ou prática sexuais) ilícitas, como a homossexualidade, o lesbianismo, a masturbação, etc. 7. A criação do conceito de "nem dano ou prejuízo deliberado” (ladharara wa la dhirara). Com este grande conceito ou princípio que dá o direito de impedimento de qualquer prática ou ato que produza algum resultado prejudicial, podemos dizer que o Islam proibiu qualquer coisa que seja danosa ao ambiente. Portanto, cabe aos sábios e eruditos religiosos, em outras palavras, é sua responsabilidade especificar tais atos ou práticas prejudiciais. Em seguida, se torna responsabilidade do governo proibi-los, como também proteger o bem estar e a coexistência pacífica de seus cidadãos. 8. A responsabilidade de "ordenar o bem e proibir o mal" (al amru bil ma'rufi wan nahayi anil munkar): esta injunção, bem como o direito e a jurisdição dada a um governante pelo Islam para o cumprimento de seus deveres, forma uma atmosfera reformadora na sociedade islâmica. E isso compreende todos os requerimentos necessários que possam assegurar a proteção do ambiente e seu desenvolvimento para o interesse dos seres humanos. Assim, as leis islâmicas se baseiam na fórmula: "Atrair os melhores interesses e repelir a corrupção." E que o princípio de "auxiliai-vos mutuamente no bem e na piedade, e não auxiliai-vos no pecado e na agressão" é uma ampla base para a proteção do ambiente (social) e para a preservação do sistema natural, pois o versículo proíbe a agressão à natureza e à vida e exige um relacionamento coletivo em prol da bondade e da reforma. A Flora. "É Ele quem envia a água do céu, da qual bebeis, e por meio da qual brotam arbustos com que alimentais o gado. E com ela faz germinar a plantação, a oliveira, a tamareira, a videira, bem como toda a sorte de frutos, Nisto há um sinal para os que refletem." (Nahl 16:10-11). Em nossa discussão anterior, apresentamos a opinião e o ponto de vista de alguns eruditos e pesquisadores na área da botânica, e a relação dos vegetais e o equilíbrio ambiental. Também, demonstramos o papel das plantas na vida dos animais e do homem, não no campo têxtil, alimentar ou medicinal, mas na organização e no equilíbrio do meio ambiente. A importância do equilíbrio da proporção de oxigênio e dióxido de carbono, da prevenção e debelação de enchentes, da retificação da atmosfera e da renovação da fertilidade do solo, foram também destacadas. Os vegetais são a terceira criatura vivente neste mundo e a primeira forma de vida, criatura produzida, são companheiras dos homens e dos animais. Sobre essa questão, em diferentes passagens o Alcorão trata das plantas, das colheitas, das árvores, das terras aráveis, do ambiente vegetal e da relação do homem e as plantas. A mensagem islâmica encoraja a agricultura e o plantio de árvores, e proíbe o corte e a remoção de árvores durante a guerra como alguns governantes de nosso tempo praticam, devido a sua brutalidade. Portanto, o Islam apela para a proteção da flora e o cultivo de árvores para a preservação da sanidade ambiental. Ademais, o Islam considera o plantio de árvores e a preservação da terra como um ato de adoração e uma caridade, um ato que se conforma com a condição de companheirismo do homem, das plantas e dos animais. Deus evidencia isso, dizendo: "Ele foi quem vos criou da terra e nela vos enraizou." (11: 61) Também na tradição profética, narrou-se do Santo Profeta (saas) que: "Não há muçulmano que cultive uma planta ou semeie uma safra que pássaros, animais ou pessoas comam dela, que não tenha uma recompensa por isso. (n20) "Nenhum homem cultiva uma planta a menos que Deus registre uma recompensa para ele, tanto quanto os frutos que cresçam dela" (n21) O Profeta(saas) enfatiza ainda o plantio quando diz: "Se uma pessoa possui uma semente de palmeira e pode semeá-la antes de ser ressuscitada no Dia do Julgamento, ela deve fazê-lo." (n22) E foi relatado dele (saas) que tenha dito: "Um muçulmano não cultivará uma planta que um homem ou animal coma de seus frutos, sem que tenha uma recompensa por isso." (n23) Ibn Umar relata: "Estávamos na presença do Santo Profeta (saas) quando um caroço de tâmara foi trazido, então ele (saas) disse: "Em verdade, entre as árvores, há uma que é como um muçulmano," e eu quis dizer que era a plameira, mas quando olhei em volta percebi que eu era o mais jovem dos presentes ali. Então, o Santo Profeta (saas) disse: "É a tamareira." (n24)  Esta foi a maneira que o Profeta (saas) tornou a agricultura e a preocupação com a proteção ambiental para o benefício do homem e dos animais um ato de adoração, uma caridade e por outro lado, comparou a tamareira com o muçulmano que proporciona um grande benefício à comunidade. Quando discute a questão do crime ou da agressão contra a vida, o Alcorão condena os destruidores do ambiente animal, humano e vegetal, denomina tal agressão como um agressão a humanidade, pois, a agressão contra as fontes da vida do ser humano é uma agressão contra ele próprio. Com respeito a isso o Alcorão diz: "E quando se retira, eis que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção, devastar as semeaduras e o gado (...)" (Baqara 2:205) Neste versículo, o Alcorão compara a destruição das plantas e dos animais com a corrupção da terra, e a considera uma agressão contra o sistema da vida, um mal que deve ser eliminado. Portanto, a partir disso, podemos perceber como os princípios da lei islâmica e suas ideologias correspondem às leis naturais e do sistema equilibrado da vida. Esses dois pontos mostram bem a sabedoria e a vontade de Deus em Sua legislação e criação. Protegendo a Fauna. "Na criação dos céus e da terra ; na alteração do dia e da noite; nos navios que singram o mar para o benefício do homem; na água que Deus envia do céu, com a qual vivifica a terra, depois de ter sido árida e onde disseminou toda espécie animal; na mudança dos ventos; nas nuvens submetidas entre o céu e a terra, (nisso tudo) há sinais para os sensatos." (Baqara 2:164) "Não existe seres que andem sobre a terra, nem que voem no céu, que não constituam nações semelhantes a vós. Nada omitimos no Livro; então, serão congregados ante seu Senhor." (An`am 6:38) "Não existe criatura sobre a terra cujo sustento não dependa de Deus; Ele conhece sua estância temporal e permanente; porque tudo está registrado num Livro lúcido." (Hud 11:6) "Não reparas acaso, em que tudo o que há nos céus e tudo o que há na terra se prostra diante de Deus? O sol, a lua, as estrelas, as montanhas, as árvores, os animais e muitos humanos?... (Hajj 22:18) "Não reparas, acaso, em que tudo o que há nos céus e na terra glorifica a Deus, inclusive os pássaros, ao estenderem suas asas? Cada um está ciente de seu(modo de ) orar e louvar (...)” (Nur 24:41) "(...) Nada existe que não glorifique Seus louvores; porém, não compreendeis suas glorificações" (Isra` 17:44) "E criou o gado, do qual obtendes vestimentas, alimento e outros benefícios. E tendes nele encanto, que quando o conduzis aos apriscos, quer quando, pela manhã, os levais para o pasto." (Nahl 16:5-6) "E (criou) o cavalo, o mulo e o asno para serem cavalgados e para o vosso deleite, e cria coisas mais, que ignorais." (Nahl 16:8) "É Ele quem envia água do céu, da qual bebeis e mediante a qual brotam arbustos com que alimentais o gado. E com ela faz germinar a plantação, a oliveira, a tamareira, a videira, bem como toda sorte de frutos. Nisto há um sinal para os sensatos." (Nahl 16:10-11) "E fixou na terra sólidas montanhas, para que ela não estremeça convosco, bem como os rios e caminhos pelos quais vos conduzis." (Nahl 16:15) "Bem como em tudo o que vos multiplicou na terra, de variegadas cores, certamente nisto há um sinal para os que meditam." (Nahl 16:13) "E foi Ele quem submeteu a vós, o mar, para que dele comêsseis carne fresca e retirásseis certos ornamentos com que vos enfeitais. Vedes nele os navios sulcando a água, à procura de algo de Sua graça; quiçá sejais agradecidos." (Nahl 16:14) "Se pretendeis contar as mercês de Deus, nunca podereis enumerá-las. Sabei que Deus é Indulgente, Mui Misericordioso." (Nahl 16:18) Nesta coletânea de versículos, o Alcorão descreve o meio ambiente de um modo admirável, e reúne seus diferentes componentes, o homem, a terra, o ar, a atmosfera, os rios, os mares, a chuva, as plantas, os animais, os pássaros, os peixes, etc, numa mesma circunstância e numa perfeita e complexa formação servindo um propósito interrelacionado e específico. Daí que, tudo isso tenciona o interesse e o bem estar do homem, e por isso ele é o centro e o responsável pela proteção do meio ambiente. Relacionado a isso, o Alcorão alerta aqueles que destróem e poluem o meio ambiente, da seguinte maneira: "E não corrompais a terra , depois dela ter sido pacificada..." (A`raf 7:56) Em outra passagem, o Alcorão descreve os que espalham a corrupção na terra e tratam o sistema da vida na terra e no mar de modo irresponsável, como pessoas nefastas e pervertidas, o Alcorão declara: "A corrupção surgiu na terra e no mar por causa do que as mãos dos humanos lucraram...." (Ar Rum 30:41) "E quando se retira, eis que sua intenção é percorrer a terra para causar corrupção, devastar as semeaduras e o gado..." (Baqara 2:205) De fato, a partir desses versículos, podemos compreender a preocupação do Islam com o mundo animal e com todo ambiente da vida. O Islam se dirige ao homem e apresenta a ele uma fórmula essencial de como viver com as outras criaturas que compartilham o mesmo ambiente, a fim de estar apto a dispô-las à seu serviço, com a permissão de Deus. O Alcorão descreve essa questão dizendo: "Para que vos acomodásseis sobre eles, para assim recordar-vos das mercês de vosso Senhor, quando isso acontecesse. Dizei: Glorificado seja Quem no-los submeteu, o que nunca teríamos conseguido fazer." (Zukhruf 43:13) Na mesma consideração, porém, o Alcorão descreve o mundo animal como um mundo independente, que tem seu próprio sistema, suas próprias leis, formações sociais e relações entre seus elementos, com seu Senhor, com o homem, as plantas e o mundo material. O Alcorão descreve isso dizendo: "Não existem seres que andem sobre a terra, nem que voem no céu, que não constituam nações semelhantes a vós. Nada omitimos no Livro; então, serão congregados ante seu Senhor." (An`am 6:38) Portanto, os animais são criaturas como nós, que possuem seus próprios sistemas, dos quais até agora o homem não foi capaz de descobrir muito. O Alcorão retrata os animais como criaturas que conhecem seu Senhor, se dirigem a ele e têm suas próprias formas de oração, "dhikr" e prostração de acordo com a sua existência, ainda que os homens, em sua maioria, não sejam capaz de perceber isso. E como o homem, os animais possuem sua própria riqueza no mundo natural, que é o propósito de Deus Onipotente para eles. Além disso, Deus, através de Sua graça e bençãos, criou animais para o serviço do homem, para que se sirva de suas carnes e derivados, utilize seu pêlo e outras partes (para vestimenta e propósitos de agricultura) ou os use como montaria, transporte ou no cultivo da terra, ou ainda, os mantenha como fonte de beleza, decoração ou riqueza. O Alcorão põe o mundo animal lado a lado com o mundo dos homens, para que o homem viva com essa criatura como parte de seu ambiente, e ainda, que seja responsável por sua proteção. Por isso o Islam proíbe a agressão e a crueldade com os animais e proíbe sua caça (exceto em época de necessidade) ou matança inútil. O direito e a superioridade dada ao homem sobre os animais consiste em que os use com bondade e tolerância. As leis islâmicas advertem contra o dano aos animais ou a seu ambiente, como por exemplo, a destruição de suas pastagens ou a matança (injustificada); com exceção dos animais que são prejudiciais ao homem, quando necessário. Em situações que matá-los significa preservar a saúde e a vida (serpentes, escorpiões, etc). Com efeito, quando analisamos as leis islâmicas, percebemos as admiráveis razões para a proteção dos animais. Narrou-se do Santo Profeta (saas) que ele advertiu contra a matança das abelhas e dos asnos selvagens (para comer sua carne). Mencionou-se que a segunda proibição teria sido para impedir a extinção desses muares. Em outra tradição, proíbe-se o pegar os pássaros em seus ninhos durante a noite ou antes de que tenham crescido o suficiente para voar. A razão disso é que os princípios islâmicos respeitam a lei do equilíbrio ambiental entre o homem e os animais, por conseguinte, os animais possuem o direito de se protegerem de qualquer intruso quer seja pela fuga ou revoada, sendo que na situação mencionada não podem exercê-lo. A lei que mencionamos anteriormente,"la dharara wa la dhirara" tem um efeito predominante no campo da proteção e da preservação do ambiente animal. Como na proibição da caça e da pesca na estação reprodutiva, ou na proibição de se lançar substâncias venenosas nos rios para matar os peixes, ou da destruição das árvores e colheitas, ou de se provocar o alastramento da corrupção na terra. Dessa descrição alcorânica, podemos inferir a visão islâmica com respeito aos animais e nossa responsabilidade com este universo, e de como devemos conviver com ele. Já vimos a tradição profética que diz: "Um muçulmano não cultivará uma planta que um homem ou animal coma de seus frutos, sem que tenha uma recompensa por isso." Portanto, toda boa ação que um homem realiza, como proteger um outro ser humano ou algum animal, tem uma recompensa. O que demonstra que o Islam se preocupa e encoraja a proteção e a preservação dos animais, e que estes possuem seus próprios direitos e recursos, como os seguintes versículos afirmam: "Comei e apascentais vosso gado! Em verdade, nisto há sinais para os sensatos." (Taha 20:54) "E o fruto e a forragem, para o vosso uso e do vosso gado." (Abasa 80:31-32) "Não existe criatura alguma sobre a terra cujo sustento não dependa de Deus..." (Hud 11:6) Do ponto de vista islâmico a proteção e a alimentação dos animais são atos de caridade e a matança (desnecessária) e o tratamento cruel a eles é uma ação proibida (passível de severa punição). Por outro lado, as leis islâmicas proíbem a mutilação dos animais ou a mudança de suas formas, como corte de orelhas, a castração, etc., quer seja manual ou mecanicamente, com o uso de instrumentos modernos. Deus amaldiçoou Satã que ilude o homem, que tenta seduzi-lo para realizar esse ato agressivo, e Deus Onipotente, citando a astúcia de Satã contra o homem, diz: "(Disse Satã) Ordenarei a eles aparar as orelhas do gado e os incitarei a desfigurar a criação de Deus! Contudo, aquele que tomar Satã por protetor , em vez de Deus, claramente ter-se-á perdido." (Nisa` 4:119) Mediante esses textos, leis e conceitos podemos compreender os princípios islâmicos que conclamam à proteção dos animais e do meio ambiente. O Governo e a Proteção Ambiental. O Islam denomina como governo uma força política responsável pela proteção do bem estar de seus cidadãos, pela administração e o planejamento das questões da sociedade. Essa orientação ou proteção abrange todos esses diferentes empreendimentos, políticos, financeiros, sociais e sanitários... etc, para preservar o sistema da vida, o qual inclui a personalidade, o físico, o intelectual e o âmbito material. Os eruditos islâmicos resumiram esse conceito como o principal componente no sistema social do Islam, e o que possui o princípio mais amplo e universal, que é: O Islam veio com o intuito de proteger os melhores interesses do homem e repelir a corrupção da terra. De modo semelhante, esses princípios agem no sentido de organizar as leis naturais, a lei do "la dharara wa la dhirara", que um texto profético, que atua no campo da vida legislativa do homem. Assim sendo, existem normas ou princípios intelectuais e legislativos que habilitam o governo, e o obrigam à proteção ambiental, que são: La dharara wa la dhirara" 2. O Islam veio com o intuito de proteger os melhores interesses do homem e repelir a corrupção da terra. 3. O governo islâmico é responsável pela proteção do bem-estar de seus cidadãos e por seus interesses gerais, como o Santo Profeta (saas) disse: "O líder é um pastor e é responsável por seu rebanho. "De acordo com esses princípios, um governo, do ponto de vista islâmico, é responsável pela preservação do ambiente e da natureza, pois a preservação do ambiente humano, dos animais e dos vegetais é o mais evidente aspecto dos interesses do homem, da preservação e o impedimento da corrupção na vida material. Assim, essas normas intelectuais e legislativas habilitam o governo a proibir o corte de florestas, ou a destruição das árvores frutíferas, a caça ou a pesca nas estações reprodutivas, ou a caça em regiões que o número de animais é menor, para preservá-los da extinção (...) etc. O governo também é responsável pelo impedimento ou proibição de qualquer ato que seja prejudicial ao meio ambiente, como o uso de substâncias tóxicas ou venenosas, ou que contenham micróbios com o risco de contágio, ou a construção de indústrias que causem poluição dentro da cidade depositando resíduos na proximidade de habitações ou comunidades. Porque todas essas práticas são danosas e destrutivas do sistema da vida e espalham a corrupção na terra, após ela ter sido bem organizada e edificada, o Alcorão proíbe isso em sua declaração: "E não corrompais a terra, depois dela ter sido pacificada..." (A`raf 7:56) Louvado seja Deus, o Senhor dos Mundos. www.mesquitadobraz.org.br. Abraço. Davi


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

APRESENTAÇÃO III


Religião Afro-brasileira. Candomblé. Livro O Candomblé da Bahia. Rito Nagô. Tradução de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-2018). Capítulo I. APRESENTAÇÃO III. Se este o perde e outra pessoa o usa, não terá nenhum poder para esta, pois não foi posto em participação, nem direta, nem indireta, com a cabeça dela. Vê-se, pois, que a cerimônia da lavagem nada tem de dramático nem de pitoresco. Atenção, porém. É de importância capital para o indivíduo que a ela se submete, pois daí por diante fica ligado a um mundo diferente. Não gozará mais da liberdade que antes possuía, está preso a toda uma cadeia de obrigações negativas ou positivas, de encargos e de deveres. Não poderá mais comer certos alimentos, os que são eho (tabu) para seu deus; não poderá ter relações sexuais no dia da semana dedicado à divindade; finalmente, compromete-se tacitamente a participar do ciclo de despesas do candomblé. Uma primeira ruptura se produziu, o homem se destacou da civilização profana, brasileira, para se integrar na civilização africana. Os Orixá detêm agora poder sobre ele; se violar os tabus, se não desempenhar suas novas obrigações, o deus que em parte já reina na sua cabeça pode puni-lo por meio de uma série de infelicidades, doenças, desgraças familiares, que irão se acumulando se não fizer caso dos primeiros avisos. O colar, com o decorrer do tempo, pode perder sua força e neste caso urge proceder a nova lavagem. Porém, para tal, não há datas marcadas, pois, a decadência da virtude das contas varia de acordo com as circunstâncias. b) O bori. Esta cerimônia foi descrita, mais ou menos minuciosamente, por Manuel Querino (1851-1923) e por Pierre Verger (1902-1996) na Bahia, por René Ribeiro no Recife; são encontrados também alguns detalhes na reportagem de Henry Georges Clouzot (1907-1977). Isto tudo nos permite não perder tempo com a descrição do ritual e ir imediatamente ao que é mais importante. O nome popular que designa esta cerimônia mostra bem tanto a função quanto o que tem de essencial: "dar de comer à cabeça". A pessoa que a faz realizar senta-se numa esteira recoberta de pano branco, com o torso nu e uma simples toalha nos ombros. O sacerdote, igualmente vestido de branco para a circunstância, consulta primeiramente os oubis para conhecer a vontade dos deuses. Se estes aceitaram a cerimônia, começará por recitar, "em língua", as fórmulas consagradas, pedindo a bênção dos Orixá e das almas dos antepassados; tritura entre os dentes uma noz de oubi e por três vezes cospe o conteúdo no rosto do paciente. Enquanto os assistentes entoam cânticos apropriados, diversos alimentos são preparados: parte será oferecida ao Orixá "dono da cabeça", outra aos mortos, outra será disposta sobre a cabeça de quem faz realizar o bori, e a última enfim será cozida para a refeição final. E, o que é ainda mais importante, sacrifica-se um galo; seu sangue rega, além da pedra do santo, a cabeça, o peito, os pés e as mãos do fiel. O animal foi morto arrancando-lhe violentamente a cabeça; o pescoço, ainda sacudido por movimentos espasmódicos e do qual o sangue jorra, é aproximado da boca do paciente que por três vezes, estirando a língua, o lambe. A cerimônia termina por nova consulta aos oubi, a fim de saber se os deuses estão satisfeitos e aceitam o ritual celebrado, sendo então consumida a parte das oferendas que foi cozida. O paciente, com o rosto, as mãos e os pés ainda sujos do sangue do sacrifício, que lhe coagulou sobre a pele, deve ficar a noite toda no terreiro, conservando na cabeça pequena parte dos alimentos para que o Orixá tenha tempo de comê-los. O bori (contração de obori) pode corresponder a diversos fins. "Tem por objetivo (...) obter saúde", diz Manuel Querino. E René Ribeiro, depois de ter definido o ori como sendo o próprio espírito do homem, acrescenta: "Sua fragilidade é motivo da maior preocupação, ritos como o dar comida à cabeça (...) tomando-se periodicamente necessários para que o indivíduo não se ressinta das possessões repetidas, como ainda possa oferecer a necessária resistência à ação de influências mágicas ou de entidades malévolas. Estes dois textos se completam, pois a doença a que Manuel Querino alude não é senão um sinal do enfraquecimento do ori, o resultado de "influências mágicas ou de entidades malévolas". No entanto, este mesmo autor, falando mais adiante do rito de iniciação, faz observação importante para nós: "Há pessoas que, apesar de pertencerem à seita, todavia não se querem prestar a dançar e a cantar de público, na ocasião em que o santo chega inesperadamente. Nesse caso, evita-se a manifestação, não completando o trabalho; restringe-se a cerimônia com a supressão da raspagem da cabeça, e não se espargindo sobre ela o effun. Isto é, no fundo a iniciação destes adeptos se limita ao bori e à educação religiosa. A oferta alimentar à cabeça, na medida em que efetivamente fortifica o ori, pode ter virtude profilática ou curativa. Por outro lado, na medida em que, por intermédio do sangue, liga a pedra do Orixá e o indivíduo, do mesmo modo que, por intermédio do alimento sagrado, se realiza uma ligação entre o deus, os mortos, os membros presentes do candomblé e a pessoa que põe em prática o bori, - promove, de maneira mais forte ainda do que a simples lavagem das contas, a incorporação do fiel à civilização africana. Constitui, em suma, a incorporação daqueles que serão servidores da seita, sem jamais manifestarem fenômenos de possessão. A lavagem das contas pode se reduzir ao simples banho de ervas sagradas, sem efusão de sangue, enquanto o bori requer o sacrifício de um "animal de duas patas"; a ligação entre a pedra divina e o indivíduo é, por conseguinte, neste caso, infinitamente mais estreita. Mas o sangue de um "animal de duas patas" tem menos força do que o de um "animal de quatro patas", e por isso esta participação é menos adiantada do que aquela que se estabelece com o rito de iniciação. No bori, o sangue que corre sobre a pedra, sobre o colar (se for feita a lavagem das contas ao mesmo tempo que a cerimônia de "dar comida a cabeça", como na descrição de Verger) é o mesmo lambido no pescoço da ave sacrificada, e a participação se opera, pois, simultaneamente. A lavagem das contas, ao contrário, pode se fazer sem a participação daquele que as usará (o qual não merece conhecer ainda os "segredos" da seita), efetuando-se a lavagem da cabeça ou do corpo um ou mais dias depois. Ora, este afastamento no tempo, na medida em que se realiza, manifesta ligação menor entre a pessoa e a realidade sobrenatural. Assim também, o indivíduo que dá comida à cabeça nada mais faz do que lamber o sangue pondo a língua de fora; mas a inicianda, como veremos, enfia o pescoço do galo no fundo da boca para engolir o sangue do "animal de duas patas", e, quanto ao sangue do “animal de quatro patas", recebe-o por um pequeno orifício praticado no alto do crânio. O bori, então, ocupa realmente posição intermediária no sistema que entrelaça homens e divindades, colocado entre a lavagem das contas, de um lado, e do outro, a iniciação propriamente dita. Uma vez que se trata da religião afro-brasileira, tão rica em rituais complexos, não se deve esquecer que o bori compreenderá ou não determinados elementos segundo o fim para o qual tende. Seja fortificar unicamente o espírito, seja ao mesmo tempo colocar a pessoa em associação mais estreita com o mundo dos candomblés. De qualquer modo, porém, o social nada mais faz do que inscrever, no domínio das relações interpessoais, as leis da vida mística. Os graus de participação ao grupo nada mais fazem do que seguir os da participação do homem ao seu Orixá. As variações da solidariedade social não são enfim mais do que o reflexo e a consequência das variações da solidariedade estabelecida entre a pessoa e o mundo dos deuses. Eis porque a posição do fiel na seita muda de acordo com a força do vínculo que o une a ela. O que, entre parêntesis, explica porque a união do sangue de um "animal de duas patas", sendo mais vigorosa, exige que o espírito do indivíduo seja fortalecido primeiramente, para depois poder suportá-la impunemente (e daí os dois aspectos complementares do bori). Por fim, a coerência da sociedade religiosa, das formas e dos processos de relação entre os membros dela, a participação maior ou menor destes membros ao tesouro de representações coletivas, os tipos de cooperação, dependem, em última análise, das ligações religiosas preestabelecidas entre os candidatos à vida do candomblé e as divindades. Não é a morfologia social que domina e explica a religião, corno queria Durkheim, mas ao contrário é o aspecto místico que domina o social. A iniciação. A lavagem das costas e o bori são partes obrigatórias da iniciação, pois a participação mais íntima à vida do candomblé exige forçosamente, primeiro, a passagem pelos graus intermediários. Além disso, a filha de santo iniciada deverá trazer sempre consigo seu colar; é preciso, portanto, prepará-lo. Por outro lado, os ritos de iniciação são extremamente dramáticos e não deixam de apresentar perigos para os indivíduos que a eles se entregam, por suscitarem forças misteriosas e poderosas; de onde a necessidade de fortificar a cabeça, a fim de que possa impunemente suportar o desencadeamento destas forças; como rito profilático e não simplesmente como incorporação, o bori é também necessário. Mas se a lavagem das contas e o "dar comida à cabeça" fazem parte da sequência cerimonial da iniciação, naturalmente esta é infinitamente mais rica, mais complexa, uma vez que, por meio dela, a incorporação ao candomblé se toma ainda mais estreita. Henry Georges Clouzot (1907-1977) parece pensar que a iniciação tem por fim dar origem ao êxtase. No entanto, escreve ele, se a possessão não é efetivamente senão uma crise histérica, por que existiria na Bahia, e somente na Bahia, tal proporção de doentes? O ponto central da iniciação consistiria, pois, em administrar ervas especiais que agem como drogas sobre as candidatas, reduzindo-as a um estado de atordoamento, mantendo-as então sob uma espécie de dominação hipnótica e estabelecendo-lhes no espírito, quando estão nesse estado de desagregação mental, uma associação entre o desencadear de certas músicas e o transe; associação que é tanto mais forte quanto é obra de sugestão, e a sugestão continua a operar quando o indivíduo retorna do estado hipnótico ao estado de vigília. Sua conclusão é, no entanto, mais flexível, pois leva em consideração ainda o fato de certas candidatas serem possuídas por um "santo bruto" antes de terem sofrido as provas iniciatórias: "Creio que as provas a que são submetidas as iaos constituem tratamento para certas neuroses, mas tratamento especial pois, eliminando crises agudas, mantém essas mesmas neuroses fixando suas manifestações em certas formas. Por exemplo: a epiléptica que entrou na camarinha acompanhando as filhas de santo. Suas crises se espaçaram imediatamente, desaparecendo no fim de 15 dias (...). Em lugar de se abandonar "às convulsões, aliviava-se (ou punha fim à inibição) entrando em estado de santidade". Clouzot já aqui reconhece que a iniciação, em vez de procurar destruir o indivíduo para torná-lo sugestionável, e assim sujeito às crises de possessão, tem muito mais por objetivo controlar estas crises. No entanto, encara ainda o controle através da medicina psiquiátrica. Dever-se-á encarar necessariamente as centenas de filhas e filhos de santo que vivem na Bahia como outros tantos epilépticos, histéricos, paranoicos, numa palavra, neuróticos - embora nosso autor pareça de início rejeitar esta hipótese? Não negamos que a explicação de Clouzot seja válida para alguns casos. Mas o transe de possessão tem caráter antes sociológico do que patológico; Jean Melville Herskovits (1895-1963) observa com muita razão, não devemos esquecer que este transe é fenômeno ''normal" para certas civilizações como as da África Negra, imposto pelo meio e constituindo uma espécie de adaptação social a certos ideais coletivos. É preciso estudar o cerimonial da iniciação sem nenhum etnocentrismo, sem escolher entre os elementos constitutivos aqueles que nos parecem os mais importantes ou os mais explicativos, mas também, por outro lado, sem negligenciar nenhum dos aspectos da questão: o controle da vida mística, a associação do indivíduo com seu Orixá, a incorporação de um novo membro na confraria religiosa, a morte e a ressurreição do candidato. Todos os que descreveram a iniciação na Bahia, dão como início da cerimônia a entrada do candidato ou candidata no santuário em que vai daí por diante viver muitos meses, de três a doze conforme o candomblé. Somente Pierre Verger (1902-1996), referindo-se à África, introduz na sequência o cerimonial da morte e da ressurreição do indivíduo. Quando alguém é possuído por um "santo bruto" e desaba finalmente no chão, deve ser transportado para o aposento em que o babalorixá vai "matar o santo", isto é, fazer o paciente retomar ao estado normal. A queda ao solo corresponde à morte da personalidade antiga e o rito de "matar o santo", à ressurreição; o ser que renasce não é mais, naturalmente, a personalidade antiga e sim um novo "eu" daí por diante divinizado. Todavia, embora a vontade do Orixá de montar este ou aquele indivíduo, transformando-o em seu cavalo, se manifeste muitas vezes desta maneira patética (já demos atrás alguns exemplos), pode-se na Bahia vir a ser filho ou filha de santo sem passar pelo estado preliminar de "santo bruto". Quando, por exemplo, descobrimos uma pedra de forma estranha, podemos reconhecer nela o apelo ainda misterioso de uma divindade; é o caso de Olympia, cuja história nos conta Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906). A doença pode igualmente ser um sinal; conhecemos certo filho de Omolú que se iniciou depois de ter apanhado varíola. Algumas filhas de santo são, por sua vez, desde cedo designadas pelos pais para fazerem parte da confraria, sem que tenham manifestado em seu comportamento qualquer propensão a cair em transe. Nestes casos, morte e ressurreição só terão lugar depois da entrada no santuário, e então sob a forma de uma verificação, de uma espécie de teste para saber se o Orixá está realmente de acordo com a continuação do cerimonial. Tanto na lavagem das contas quanto no bori, por meio do banho de ervas ou pelo sangue, era a cabeça colocada em comunicação com a pedra da divindade, mas esta era uma pedra do pegi, uma pedra já "feita". Na iniciação, ao contrário, é preciso preparar nova pedra que será a pedra particular da iniciada, aquela de que terá de cuidar durante o resto da vida e à qual dá de comer. Daí a frase de Nina Rodrigues: "A feitura do santo compreende duas operações distintas, mas que se completam, a preparação de fetiche e a iniciação ou consagração do seu possuidor". Realmente, se, para facilitar a descrição, podemos separar os dois rituais, ambos são, todavia, mais do que complementares, ligados que estão de modo inextricável. Isto porque, como dissemos, a incorporação do indivíduo à vida do candomblé é consequência da sua ligação com um Orixá, e porque a força do Oríxá está em sua pedra. O que se pode afirmar é que esta preparação e, segundo a expressão de Nina Rodrigues, esta colocação do "fetiche" e da cabeça em participação, têm lugar no próprio começo do cerimonial de iniciação, no decorrer das primeiras etapas. Começa-se, naturalmente, - e esta é a função de babalaô, pela consulta aos búzios divinatórios, para saber qual o santo que reclama como sua candidata. Uma vez conhecido o nome do Orixá, então tem lugar a entrada no santuário. Vai então a candidata, nas trevas em geral luminosas das noites tropicais, tomar banho na fonte sagrada; põe de lado as velhas vestes antes de entrar n'água, envergando novas roupas à saída. Assim fica simbolizada, pelo banho lustral e pela mudança de trajes, a passagem da vida profana à vida mística. Regressando ao santuário, é solenemente recebida pelos dignitários da seita, que a fazem sentar num banco ou cadeira que nunca tenha servido, constituindo isto, de certo modo, um rito de entronização. Prepara-se a pedra. "A preparação ou lavagem do fetiche é coisa bem complicada em que o pai de terreiro põe toda a sua ciência, toda a sua perícia. A pedra do raio de Xangô, por exemplo, deve ser colocada num banho de azeite de dendê, de ervas sagradas; a de Yemanjá, em mel, farinha de milho, etc. Em seguida, esta pedra será colocada em contato com o indivíduo e com o colar que ele usará. Antes de mergulhar mais profundamente no dédalo do ritual, celebra-se um bori para fortificar a cabeça, tornando-a capaz de suportar sem perigo as crises repetidas e prolongadas que vão se suceder. Além disso, se necessário, outras "dar de comida à cabeça" terão lugar em seguida. O bori, além de tornar a pessoa apta a continuar sem perigo a iniciação, liga também mais estreitamente, como já mostramos, a pedra, o santo, o candidato e o grupo social que constitui o candomblé. É preciso acrescentar que esta pedra não será esquecida no decorrer dos rituais; uma parte dos alimentos, dos animais sacrificados, do sangue derramado, lhe será oferecida, de modo que a fabricação da pedra, ou como se diz a "fixação" de Orixá na pedra, segue passo a passo todas as etapas da "fixação" paralela do Orixá na cabeça do iniciado. A respeito de cerimônias proibidas aos olhos profanos, tudo o que se pode afirmar é que os dois movimentos são simultâneos, a pedra entrando no pegi ao mesmo tempo que o indivíduo entra na seita; as duas incorporações coexistem e traduzem a mesma participação, do objeto e de seu possuidor, com uma realidade sobrenatural idêntica. O babala6 pode às vezes se enganar ao consultar a sorte; a verdade é que tal só acontece raramente. Conheci apenas um caso controvertido, o de uma filha de Exú; era, porém, a filha que se sentia descontente com seu "Santo", e pretendia ser filha de Ogun; o babalorixá que a tinha feito não cessava, ao contrário, de afirmar que S (...) era mesmo filha de Exú. Em todo o caso, logo da primeira vez, não se pode nunca ter certeza de que o babalaô não se enganou. Trata-se de erro muito grave, pois o verdadeiro Orixá a que pertence o cavalo não deixaria efetivamente de manifestar seu descontentamento, vendo os sacrifícios, os alimentos, irem a outro que não a ele; para se vingar, lançaria doenças, azares, contra o cavalo em questão: justamente porque S (...) se sentia doente é que acreditava que tinha sido "malfeito”. Para evitar estes casos de reconhecimento errado, que obrigariam o indivíduo a praticar duas operações caras e difíceis, a de "tirar o santo" da cabeça e em seguida colocar outro, realiza-se, nos primeiros estágios da iniciação, toda uma série de ritos de "confirmação". Livro O Candomblé da Bahia. Rito Nagô. Abraço. Davi. Continuar na página 45

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

OS ANALECTOS - INTRODUÇÃO VI


Confucionismo. www.https//rt.br. OS ANALECTOS. Tradução do inglês de Caroline Chang. Tradução do chinês. Introdução e notas de D. C. Lau. INTRODUÇÃO VI. As odes eram uma ontologia que todo homem educado conhecia plenamente, de modo que uma citação correta delas extraída, podia ser usada para comunicar a opinião de alguém em situações delicadas ou que requeressem extrema polidez. Habilidade de falar por meio do disfarce de uma citação era particularmente útil em conversas diplomáticas. É por essa razão que Confúcio disse: “Se um homem que conhece as trezentas Odes de cor (...) se mostra incapaz de ter iniciativa própria quando enviado para reinos estrangeiros, então qual a utilidade das Odes para ele, independentemente de quantas ele tenha aprendido?” (XIII.5). Esse jeito de usar as Odes não se limita a situações diplomáticas. Ao criticar o governante e seu governo, um homem também deveria recorrer a citações das Odes. Como colocou o autor anônimo do prefácio de Kuan chü, “Aquele que fala não ofende, ao passo que aquele que ouve pode entender o aviso”. [19] Isso é importante em sistemas políticos nos quais ofensas feitas àqueles no poder podem facilmente causar sérios problemas a alguém. E há outra vantagem. Quando a verdadeira opinião de alguém é amortecida por uma citação, é sempre possível que esse alguém negue, posteriormente, que tal significado, seja qual for, tenha sido intencional. Por essa razão, tais práticas persistiram até os dias de hoje. Em Os analectos há um bom exemplo desse costume de falar veladamente. O príncipe K’uai K’ui, o filho do duque Ling, de Wei, fugiu para Chin depois de uma fracassada tentativa de assassinar Nan Tzu, a famosa mulher do seu pai. Quando da morte do duque de Ling, o filho de K’uai K’ui, Che, sucedeu ao seu avô. Com o apoio do Exército Chin, o príncipe K’uai K’ui se instalou em uma cidade fronteiriça de Wei, esperando por uma oportunidade de destronar seu filho. Jan Yu queria saber se Confúcio estava do lado de Che, mas já que tanto ele quanto Confúcio eram visitantes naquele reino não lhes cabia serem vistos discutindo abertamente as políticas de Wei; e se uma pergunta direta lhe tivesse sido colocada, Confúcio muito provavelmente teria se recusado a respondê-la. Tzu-kung, que tinha a reputação de ser um orador talentoso (XI.3), ofereceu-se para tentar descobrir. Assim foi como correu a conversa. Ele entrou e disse: “Que tipo de homens eram Po Yi e Shu Ch’i?”. “Eram excelentes anciãos.” “Tinham alguma queixa?” “Procuravam a benevolência e a encontraram. Então, por que teriam qualquer queixa?” Sequer uma palavra foi dita sobre Wei, mas Tzu-kung ficou satisfeito por ter obtido a resposta. Ele saiu e disse: “O Mestre não está do lado dele” (VII.15). Po Yi e Shu Ch’i eram os filhos do senhor de Ku Chu. O pai queria que Shu Ch’i, o filho mais novo, o sucedesse, mas, quando ele morreu, nenhum dos filhos estava disposto a tirar do outro a sucessão, e ambos foram às montanhas e passaram a viver como eremitas. Ao aprovar Po Yi e Shu Ch’i em sua tentativa de entregar a sucessão um ao outro, Confúcio estava implicitamente reprovando Che, que estava envolvido em uma vergonhosa briga com o próprio pai pelo trono. Até agora olhamos apenas para os ensinamentos morais de Confúcio relacionados ao seu ideal de cavalheiro. Há, entretanto, outro lado de seus ensinamentos que foi amplamente negligenciado pelos intelectuais e estudiosos. É a sua preocupação com o que pode ser descrito como questões de método. No âmago desse aspecto dos seus ensinamentos está a oposição entre hsüeh (aprendizado) e ssu (pensamento). Para compreender o significado desta oposição, precisamos, antes de tudo, descobrir o que constituía aprendizado. Um rápido exame das dificuldades que se encontram em traduzir a palavra hsüeh se mostrará esclarecedor. A escolha natural em inglês por um equivalente é o verbo “to learn” [aprender], mas muito frequentemente somos forçados, pelas exigências da língua inglesa, a usar “to study ” [estudar]. A razão é a seguinte: o verbo “aprender” requer um objeto explícito. Por exemplo, não dizemos “ele aprende”. Podemos, é claro, dizer “Ele aprende rápido”, ou “Ele está disposto a aprender”, mas esses são casos especiais em que o ponto principal da frase não está na palavra “aprender”. Por outro lado, dizemos “ele estuda”. Há, entretanto, outras diferenças entre “aprender” e “estudar”. Tendemos a “aprender” algumas coisas mas “estudar” outras. Por exemplo, uma criança aprende a andar, mas um entomólogo estuda o comportamento das formigas. Aprendemos algo prático; estudamos algo teórico. Quando se trata de aprender, o foco está naquele que aprende; ao estudar, o foco está no objeto de estudo. Ao aprender algo novo, um homem se aprimora. Ou ele adquire uma nova técnica ou se torna mais proficiente em uma técnica antiga. Ao estudar, um homem adquire novos conhecimentos, mas esses novos conhecimentos não necessariamente fazem alguma diferença para ele do ponto de vista prático. Essa diferença de uso entre “aprender” e “estudar” é importante para o entendimento de hsüeh. Hsüeh está muito mais perto de “aprender” do que de “estudar”. Do mesmo modo que “aprender”, hsüeh faz diferença para o homem enquanto pessoa. É uma atividade que capacita o homem a adquirir uma habilidade nova ou se tornar mais proficiente em uma habilidade já adquirida. Mas, no contexto confuciano, o ponto mais importante é lembrar que é hsüeh que capacita o homem a se tornar um homem melhor do ponto de vista moral. Assim, a moralidade, na visão de Confúcio, é algo muito próximo à ideia de habilidade. Pode ser transmitida de mestre a discípulo. É por causa dessa possibilidade que Confúcio dava tanta ênfase a hsüeh. Embora “aprender” seja um equivalente muito mais satisfatório para hsüeh do que “estudar”, uma tentativa de se ater rigidamente ao uso de “aprender” pode, por si só, dar margem ao surgimento de dificuldades. Quando, por exemplo, Confúcio fala sobre hsüeh shih, é natural traduzir isso por “estudar as Odes”, mas isso, conforme vimos, transforma uma atividade prática em uma teórica. Porém, traduzir a frase por “aprender as Odes” sugere aprender as Odes de cor. Embora isso sem dúvida seja parte do significado, definitivamente não é todo o significado nem mesmo a parte mais importante dele. Como vimos, a principal proposta de hsüeh shih é tanto aprimorar a sensibilidade de uma pessoa quanto capacitá-la a usar linhas das Odes para disfarçar o que quer dizer. [20] Assim, às vezes o tradutor se vê em dificuldade para encontrar um equivalente satisfatório para hsüeh. “Aprender” é algo que diz respeito a toda a sabedoria acumulada do passado. Embora não exclua necessariamente conhecimento teórico, a ênfase, conforme é previsível, é no aprendizado moral. E essas verdades morais são, na maior parte das vezes, epitomizadas na forma de preceitos. Os ritos eram, claro, um código para tais preceitos, embora provavelmente também devem ter existido preceitos que não eram contemplados por esses códigos. Que os ritos formavam uma grande parte daquilo que um homem precisava aprender é confirmado por duas passagens de Os analectos. Na primeira, Confúcio disse: “A menos que um homem tenha o espírito dos ritos (...) ao ter coragem ele vai se tornar indisciplinado e, ao ser íntegro, ele vai se tornar intolerante” (VIII.2). Entretanto, em outra passagem ele disse: “Amar a determinação sem amar o aprendizado pode levar à intolerância” (XVII.8). As duas declarações são praticamente idênticas, exceto pelo fato de que em uma temos “os ritos”, enquanto na outra temos “aprender”. Se “aprender” tem um papel tão importante nos ensinamentos de Confúcio, por que não aparece mais frequentemente em Os analectos? Porque “aprender” não é o único termo que é usado para a atividade. Muito frequentemente Confúcio usa, no lugar de “aprender”, wen (ouvir) e, mais raramente, chien (ver). [21] Em especial, “ouvir” é usado quando há alguma referência ao aprendizado de preceitos específicos ou quando “aprender” é colocado em contraste com a ação de colocar em prática aquilo que é aprendido. Aqui estão exemplos do ensinamento de um preceito específico. O Mestre disse: (...) “Sempre ouvi dizer que um cavalheiro dá para ajudar os necessitados, e não para manter os ricos em uma vida farta”. (VI.4) Ch’en Ssu-pai disse: “Ouvi dizer que um cavalheiro não demonstra parcialidade. E mesmo assim o seu Mestre é parcial?”. (VII.31) Tzu-hsia disse: “Já ouvi dizer: vida e morte são uma questão de Destino; riqueza e honra dependem do Céu”. (XII.5) Confúcio disse: “Sempre ouvi dizer que o chefe de um reino ou de uma família nobre preocupa-se não com subpopulação, mas com a distribuição desigual; não com a pobreza, mas com a instabilidade”. (XVI.1) Tzu-y u respondeu: “Há algum tempo ouvi do senhor, Mestre, que o cavalheiro instruído no Caminho ama seus semelhantes e que os homens vulgares instruídos no Caminho são fáceis de serem comandados”. (XVII.4) Tzu-lu disse: “Há algum tempo ouvi do senhor, Mestre, que o cavalheiro não entra nos domínios daquele que não pratica o bem”. (XVII.7) Tzu-chang disse: “Isso é diferente do que eu ouvi. Ouvi que o cavalheiro honra aqueles que lhe são superiores e é tolerante para com a multidão, que é cheio de elogios para com os bons ao mesmo tempo em que se apieda dos incapazes”. (XIX.3) A relação entre ouvir e colocar em prática o que se ouviu é claramente abordada nas seguintes passagens: O Mestre disse: “Use seus ouvidos (wen) amplamente, mas deixe de fora o que é duvidoso; repita o resto com cuidado e você cometerá poucos erros. Use seus olhos (chien) amplamente e deixe de fora o que é perigoso; coloque o resto em prática com cautela e você terá poucos arrependimentos”. (II.18) A única coisa que Tzu-lu temia era que, antes que pudesse colocar em prática algo que aprendera, lhe ensinassem outra coisa diferente. (V.14) O Mestre disse: “Estas são as coisas que me causam preocupação: (...) incapacidade de, quando me é dito (wen) o que é correto, tomar uma atitude”. (VII.3) O Mestre disse: “Faço amplo uso de meus ouvidos e sigo o que é bom daquilo que ouvi; faço amplo uso dos meus olhos e retenho na minha mente o que vi”. (VII.28) Tzu-lu perguntou: “Deve-se imediatamente colocar em prática o que se ouviu?”. (XI.22) A inter-relação entre aprender e colocar em prática o que se aprendeu é forte porque entre as coisas que se aprende estão os preceitos, e qual seria a utilidade de aprender um preceito se não se fizesse uma tentativa de colocá-lo em prática? Daí a preocupação de Confúcio quanto a sua incapacidade de se mover para uma nova posição assim que ele aprendeu que essa posição é moralmente correta e o medo de Tzu-lu de se atrasar se preceitos surgirem mais rápido do que ele pode acompanhar. Mas isso não significa que se deve colocar um preceito em prática simplesmente porque é um preceito. Deve-se, antes de tudo, refletir profundamente quanto a se ele é correto. É por isso que Confúcio está constantemente aconselhando que se deve escolher daquilo que foi aprendido apenas o que é bom e deixar de fora o que é duvidoso. A única maneira de fazer isso é por meio do pensamento. Isso nos traz de volta à questão de aprender e pensar. Há um ditado bem conhecido em Os analectos: “Se um homem aprende com os outros mas não pensa, ele ficará confuso. Se, por outro lado, um homem pensa mas não aprende com os outros, ele estará em perigo” (II.15). Deve-se aprender com os sábios do passado e do presente, mas, ao mesmo tempo, deve-se tentar aprimorar aquilo que foi aprendido. Embora tanto aprender quando pensar sejam indispensáveis, Confúcio parece considerar o ato de aprender, de alguma forma, mais importante. Ele disse: “Uma vez passei todo o dia pensando, sem comer nada, e toda a noite pensando sem ir para a cama, mas descobri que nada ganhei com isso. Teria sido melhor gastar o tempo estudando” (XV.31). Aqui Confúcio está falando que se devêssemos nos entregar a uma busca apenas, então aprender seria mais proveitoso do que pensar. Um momento de reflexão mostrará que essa visão é bastante razoável. Se a meta de um homem é conseguir avanços de conhecimento, tanto pensamento quando aprendizado são igualmente necessários, mas, em casos em que o homem não tem esse objetivo, por meio do aprendizado ele pode ao menos ganhar algo, ao tomar conhecimento do que já é sabido, mas dificilmente terá qualquer ganho se ficar pensando in vacuo. Tomemos um exemplo que ilustra o modo como Confúcio refletiu sobre os ritos existentes. O Mestre disse: “Os ritos prescrevem um boné cerimonial de linho. Hoje, usamos seda preta no lugar. Isso é mais frugal, e eu sigo a maioria. Os ritos prescrevem que a pessoa prostre-se antes de subir os degraus. Hoje faz-se isso após tê-los descido. Isso é casual, e, embora indo de encontro à maioria, sigo a prática de prostrar-me antes de subir”. (IX.3) Aqui temos um caso claro de uma visão crítica de Confúcio quanto aos ritos. Ele concluiu que em um determinado caso estava preparado para seguir a maioria, mas não no outro caso. Ele chegou a essa conclusão voltando aos princípios que subjazem aos ritos em questão. No segundo caso, o princípio subjacente é respeito, enquanto no primeiro caso há igualmente frugalidade. Que o respeito devesse ser o princípio subjacente é nada menos do que algo a ser esperado, mas que a frugalidade devesse ser tal princípio pode parecer surpreendente, até que lembremos da resposta de Confúcio para uma pergunta quanto aos fundamentos dos ritos. Parte desta resposta foi: “Com os ritos, é melhor pecar pela simplicidade do que pela extravagância” (III.4). Todas as coisas sendo iguais, é melhor ser frugal. O gorro de seda cinza é mais frugal, mas nada perde em respeito. Daí a aprovação de Confúcio. Prostração depois de subir os degraus, por outro lado, é casual, em outras palavras, menos respeitoso, e não tem ganhos compensatórios. Daí a desaprovação de Confúcio. Conforme vimos, preceitos são muitas vezes introduzidos pela fórmula “Ouvi dizer”. Muitas vezes, entretanto, essa fórmula é dispensada, particularmente nos casos em que o preceito está para ser examinado. Nesses casos, a pergunta “O que você acha desse dizer?” é simplesmente colocada. Por exemplo: Tzu-kung disse: “‘Pobre sem ser servil, rico sem ser arrogante’. O que o senhor pensa desse provérbio?” O Mestre disse: “É bom, mas melhor ainda é: ‘Pobre, mas alegre no Caminho, rico, porém observador dos ritos (I.17). OS ANALECTOS. www.https//rt.br. Abraço. Davi.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

CARÁTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA III


Espiritismo. www.fetnet.org.br. Texto de Allan Kardec. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Livro A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Capítulo I. CARÁTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA III. Mas como saber se um princípio é ensinado por toda parte ou se apenas reflete uma opinião pessoal? Não estando os grupos isolados em condições de saber o que se diz alhures, era de todo necessário que um centro reunisse todas as instruções para proceder a uma espécie de depuração das vozes e transmitir a todos a opinião da maioria.20 54. Não existe nenhuma ciência que haja saído prontinha do cérebro humano. Todas, sem exceção de nenhuma são fruto de observações sucessivas, apoiadas em observações precedentes, como sobre um ponto conhecido para chegar ao desconhecido. Foi assim que os Espíritos procederam com relação ao Espiritismo, razão por que é gradativo o ensino que ministraram, pois eles não abordam as questões senão à medida que os princípios sobre os quais hajam de apoiar-se estejam suficientemente elaborados e bastante amadurecida a opinião para os assimilar. É mesmo de notar-se que, de todas as vezes que os centros particulares quiseram tratar de questões prematuras, não obtiveram mais do que respostas contraditórias, nada concludentes. Quando, ao contrário, chega o momento oportuno, o ensino se generaliza e se unifica na quase universalidade dos centros. Há, todavia, capital diferença entre a marcha do Espiritismo e a das ciências: a de que estas não atingiram o ponto em que chegaram senão após longos intervalos, ao passo que bastaram alguns anos ao Espiritismo, quando não a galgar o ponto culminante, pelo menos a recolher uma soma de observações bem grande para formar uma doutrina. Resulta esse fato da inumerável multidão de Espíritos que, por vontade de Deus, se manifestaram simultaneamente, trazendo cada um o contingente de seus conhecimentos. Resultou daí que todas as partes da Doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente durante vários séculos, o foram quase ao mesmo tempo, em alguns anos apenas, e que bastou reuni-las para que estruturassem um todo. Quis Deus que fosse assim, primeiro para que o edifício chegasse mais rapidamente ao fim; em seguida para que se pudesse, por meio da comparação, ter um controle, a bem dizer imediato e permanente, da universalidade do ensino, pois nenhuma de suas partes tem valor nem autoridade, a não ser pela sua conexão com o conjunto, devendo todas harmonizar-se, achando cada uma o devido lugar e vindo cada qual a seu tempo. Não confiando a um único Espírito o encargo de promulgar a Doutrina, quis Deus, também, que tanto o menor quanto o maior, tanto entre os Espíritos quanto entre os homens, trouxe sua pedra para o edifício, a fim de estabelecer entre eles um laço de solidariedade cooperativa, que faltou a todas as doutrinas oriundas de um tronco único. Por outro lado, dispondo todo Espírito, como todo homem, apenas de limitada soma de conhecimentos, não estavam aptos, individualmente, a tratar ex professo das inúmeras questões que o Espiritismo envolve. É por isso também que a Doutrina, em cumprimento aos desígnios do Criador, não podia ser obra nem de um só Espírito nem de um só médium. Tinha que sair da coletividade dos trabalhos, comprovados uns pelos outros. Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das próprias condições em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Por sua essência, ela contrai aliança com a Ciência que, sendo a exposição das leis da natureza, com relação a certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, autor daquelas Leis. As descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a Deus; apenas destroem o que os homens edificaram sobre as falsas ideias que formaram de Deus. O Espiritismo, pois, estabelece como princípio absoluto somente o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Interessando-se a todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará. Qual a utilidade da doutrina moral dos Espíritos, visto que não é outra senão a do Cristo? O homem precisa de uma revelação? Não pode achar em si próprio tudo o que lhe é necessário para bem se conduzir na vida? Do ponto de vista moral, é fora de dúvida que Deus outorgou ao homem um guia, que é a sua consciência, a dizer-lhe: “Não façais aos outros o que não gostaríeis que eles fizessem a vocês.” Certamente a moral natural está inscrita no coração dos homens; porém, todos saberão lê-la nesse livro? Nunca lhe desprezaram os sábios preceitos? Que fizeram da moral do Cristo? Como a praticam aqueles mesmos que a ensinam? Não se terá tornado letra morta, bela teoria, boa para os outros e não para si? Reprovareis que um pai repita a seus filhos dez vezes, cem vezes as mesmas instruções, desde que eles não as sigam? Por que Deus faria menos do que um pai de família? Por que não enviaria, de vez em quando, mensageiros especiais aos homens, para lhes lembrar os deveres e reconduzi-los ao bom caminho, quando deste se afastam? Por que não abrir os olhos da inteligência aos que os trazem fechados, assim como os homens mais adiantados enviam missionários aos selvagens e aos bárbaros? A moral que os Espíritos ensinam é a do Cristo, em virtude de não haver outra melhor. Mas, então, de que serve o ensino deles, se apenas repetem o que já sabemos? Outro tanto se poderia dizer da moral do Cristo, ensinada quinhentos anos antes por Sócrates e Platão em termos quase idênticos. O mesmo se poderia dizer também de todos os moralistas, que nada mais fazem do que repetir a mesma moral em todos os tons e sob todas as formas. Pois bem! os Espíritos vêm, muito simplesmente, aumentar o número dos moralistas, com a diferença de que, manifestando-se por toda parte, tanto se fazem ouvir na choupana como no palácio, tanto pelos ignorantes como pelos instruídos. O que o ensino dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que regem as relações entre os mortos e os vivos, princípios que completam as noções vagas que se tinham da alma, de seu passado e de seu futuro, dando por sanção à doutrina cristã as próprias leis da natureza. Com o auxílio das novas luzes que o Espiritismo e os Espíritos trouxeram, o homem compreende a solidariedade que religa todos os seres; a caridade e a fraternidade se tornam uma necessidade social; ele faz por convicção o que fazia unicamente por dever, e o faz melhor. Somente quando praticarem a moral do Cristo os homens poderão dizer que não precisam de moralistas encarnados ou desencarnados. Ora, nessa época, Deus não lhos enviará mais nenhum. Uma das questões mais importantes, entre as propostas no começo deste capítulo, é a seguinte: que autoridade tem a revelação espírita, uma vez que emana de seres de limitadas luzes e que não são infalíveis? A objeção seria procedente se essa revelação consistisse apenas no ensino dos Espíritos, se deles exclusivamente devêssemos recebê-la e houvéssemos de aceitá-la de olhos fechados. Perde, porém, todo o valor, desde que o homem concorra para a revelação com o seu raciocínio e o seu julgamento; desde que os Espíritos se limitam a pôr o homem no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos. Ora, as manifestações, nas suas inumeráveis modalidades, são fatos que o homem estuda para lhes deduzir a lei, auxiliado nesse trabalho por Espíritos de todas as categorias que, assim, são mais colaboradores seus do que reveladores, no sentido usual do termo. Ele lhe submete os dizeres ao controle da lógica e do bom senso, beneficiando-se, dessa maneira, dos conhecimentos especiais de que os Espíritos dispõem pela posição em que se acham, mas sem abdicar do uso da própria razão. Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens, comunicando- -nos com eles não saímos da condição de humanidade, circunstância capital a considerar-se. Os homens de gênio, que foram condutores da humanidade, vieram do mundo dos Espíritos e para lá voltaram ao deixarem a Terra. Considerando-se que os Espíritos podem comunicar-se com os homens, esses mesmos gênios podem dar-lhes instruções sob a forma espiritual, como o fizeram sob a forma corpórea. Podem instruir-nos depois de terem morrido, tal qual faziam quando vivos; apenas são invisíveis, ao invés de serem visíveis, sendo essa a única diferença. A experiência e o saber de que dispõem não devem ser menores do que antes e, se a palavra deles, como homens, tinha autoridade, não há razão para tê-la menos somente pelo fato de estarem no mundo dos Espíritos. 58. Todavia, não são apenas os Espíritos superiores que se manifestam, mas igualmente os de todas as categorias, e era preciso que assim acontecesse para nos iniciarmos no que respeita ao verdadeiro caráter do mundo espiritual, no-lo mostrando em todas as suas faces. Daí resulta serem mais íntimas as relações entre o mundo visível e o mundo invisível, e mais evidente a conexão entre os dois. Vemos assim mais claramente de onde viemos e para onde vamos. Tal é o objetivo essencial das manifestações. Todos os Espíritos, pois, seja qual for o grau de elevação em que se encontrem, nos ensinam alguma coisa; cabe, porém, a nós, visto que eles são mais ou menos esclarecidos, discernir o que há de bom ou de mau no que nos digam e tirar, do ensino que nos deem, o proveito possível. Ora, todos, quaisquer que sejam, nos podem ensinar ou revelar coisas que ignoramos e que sem eles nunca saberíamos. Incontestavelmente, os grandes Espíritos encarnados são individualidades poderosas, mas de ação restrita e de lenta propagação. Viesse um só deles hoje, embora fosse Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, revelar aos homens as condições do mundo espiritual, quem provaria a veracidade de suas asserções, nesta época de ceticismo? Não o tomariam por sonhador ou utopista? Mesmo que fosse verdade absoluta o que dissesse, séculos e mais séculos escoariam antes que as massas humanas lhe aceitassem as ideias. Deus, em sua sabedoria, não quis que assim acontecesse; quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, e não por encarnados, a fim de que os primeiros convencessem estes últimos da sua existência, e quis que isso ocorresse por toda a Terra simultaneamente, quer para que o ensino se propagasse com maior rapidez, quer para que, coincidindo em toda parte, constituísse uma prova de verdade, tendo assim cada um o meio de convencer-se a si próprio. 60. Os Espíritos não se manifestam para libertar o homem do estudo e das pesquisas, nem para lhe transmitirem uma ciência pronta. Com relação ao que o homem pode descobrir por si mesmo, eles o deixam entregue às suas próprias forças. É o que sabem hoje perfeitamente os espíritas. Há tempos a experiência tem demonstrado ser errôneo atribuir-se aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria e que bastaria dirigir-se ao primeiro Espírito que se apresente para conhecer todas as coisas. Saídos da humanidade, os Espíritos constituem uma de suas faces. Assim como na Terra, no plano invisível também há os superiores e os vulgares; muitos deles, pois, do ponto de vista científico e filosófico, sabem menos do que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais, nem menos. Do mesmo modo ocorre com os homens, os Espíritos mais adiantados podem instruir-nos sobre maior quantidade de coisas, dar-nos opiniões mais judiciosas, do que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos não é entrar em entendimento com potências sobrenaturais; é tratar com seus iguais, com aqueles mesmos a quem o homem se dirigiria neste mundo: a seus parentes, a seus amigos ou a indivíduos mais esclarecidos do que ele. Disto é que importa que todos se convençam e é o que ignoram os que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem ideia completamente falsa da natureza do mundo dos Espíritos e das relações com o além-túmulo. Qual, portanto, a utilidade dessas manifestações, ou, se o preferirem, dessa revelação, uma vez que os Espíritos não sabem mais do que nós ou não nos dizem tudo o que sabem? Primeiramente, como já dissemos, eles se abstêm de nos dar o que podemos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, há coisas cuja revelação não lhes é permitida, porque o grau do nosso adiantamento não as comporta. Afora isto, as condições da nova existência em que se acham lhes dilatam o círculo das percepções: eles veem o que não viam na Terra; libertos dos entraves da matéria, isentos dos cuidados da vida corpórea, julgam as coisas de um ponto de vista mais elevado e, por isso mesmo, mais justo; a perspicácia de que gozam abrange mais vasto horizonte; compreendem seus erros, retificam suas ideias e se desembaraçam dos preconceitos humanos. É nisto que consiste a superioridade dos Espíritos com relação à humanidade corpórea e daí vem que seus conselhos, segundo o grau de adiantamento que alcançaram, são mais judiciosos e desinteressados do que os dos encarnados. O meio em que se encontram lhes permite, além disso, iniciar-nos nas coisas relativas à vida futura, coisas que ignoramos e que não podemos aprender no meio em que estamos. Até agora, o homem apenas formulara hipóteses sobre o futuro, sendo a razão por que suas crenças a esse respeito se fracionaram em tão numerosos e divergentes sistemas, desde o niilismo até as concepções fantásticas do inferno e do paraíso. Hoje, são as testemunhas oculares, os próprios atores da vida de além- -túmulo que nos vêm dizer em que se tornaram e só eles o podiam fazer. Suas manifestações, conseguintemente, serviram para dar-nos a conhecer o mundo invisível que nos rodeia e do qual nem suspeitávamos e só esse conhecimento seria de capital importância, supondo-se que os Espíritos nada mais nos pudessem ensinar. Quando em viagem por um país que não conheçais, recusareis as informações do mais humilde camponês que encontrardes? Deixareis de interrogá-lo sobre as condições das estradas simplesmente por ser ele um camponês? Certamente não esperareis obter, por seu intermédio, esclarecimentos de grande alcance, mas, de acordo com o que ele é na sua esfera, poderá, sobre alguns pontos, vos ensinar melhor do que um homem instruído que não conheça o país. Tirareis das suas indicações deduções que ele próprio não tiraria, sem que por isso deixe de ser um instrumento útil às vossas observações, embora apenas servisse para vos informar acerca dos costumes dos camponeses. Dá-se a mesma coisa no que concerne às nossas relações com os Espíritos, entre os quais o menos qualificado pode servir para nos ensinar alguma coisa. Uma comparação vulgar tornará ainda mais compreensível a situação. Um navio carregado de emigrantes parte para destino longínquo. Leva homens de todas as condições, parentes e amigos dos que ficam. Vem-se a saber que esse navio naufragou. Nenhum vestígio resta dele, nenhuma notícia chega sobre a sua sorte. Acredita-se que todos os passageiros tenham perecido e o luto penetra em todas as suas famílias. Entretanto, a tripulação inteira e os passageiros, sem faltar um único homem, foi ter a uma terra desconhecida, abundante e fértil, onde todos passam a viver felizes, sob um céu clemente. Ninguém, todavia, sabe disso. Ora, um belo dia, outro navio aporta a essa terra e lá encontra os náufragos, sãos e salvos. A auspiciosa notícia se espalha com a rapidez do relâmpago. Exclamam todos: “Os nossos amigos não estão perdidos!” E rendem graças a Deus. Não podem ver-se uns aos outros, mas correspondem-se; permutam demonstrações de afeto e assim a alegria substitui a tristeza. Tal a imagem da vida terrena e da vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna. A última, semelhante ao segundo navio, nos traz a boa-nova da sobrevivência dos que nos são caros e a certeza de que um dia nos reuniremos a eles. Deixa de existir a dúvida sobre a sorte deles e a nossa. O desânimo se desfaz diante da esperança. Outros resultados fecundam essa revelação. Achando madura a humanidade para penetrar o mistério do seu destino e contemplar a sangue-frio novas maravilhas, Deus permitiu que fosse erguido o véu que ocultava o mundo invisível ao mundo visível. As manifestações nada têm de extra- -humanas; é a humanidade espiritual que vem conversar com a humanidade corpórea e dizer-lhe: “Nós existimos, logo, o nada não existe; eis o que somos e o que sereis; o futuro vos pertence, como a nós. Caminhais nas trevas, vimos clarear-vos o caminho e traçar-vos o roteiro; andais ao acaso, vimos apontar-vos a meta. A vida terrena era tudo para vós, porque nada víeis além dela; vimos dizer-vos, mostrando a vida espiritual: a vida terrestre nada é. A vossa visão se detinha no túmulo, nós vos desvendamos, para além deste, um esplêndido horizonte. Não sabíeis por que sofreis na Terra; agora, no sofrimento, vedes a Justiça de Deus. O bem não produzia nenhum fruto aparente para o futuro; doravante, ele terá uma finalidade e constituirá uma necessidade; a fraternidade, que não passava de bela teoria, assenta agora numa Lei da natureza. Sob o domínio da crença de que tudo se acaba com a vida, a imensidade é o vácuo, o egoísmo reina soberano entre vós e a vossa palavra de ordem é: ‘Cada um por si.’ Com a certeza do futuro, os espaços infinitos se povoam ao infinito, em parte alguma há o vazio e a solidão; a solidariedade liga todos os seres, aquém e além da tumba. É o reino da caridade, sob a divisa: ‘Um por todos e todos por um.’ Enfim, ao termo da vida dizíeis eterno adeus aos que vos são caros; agora simplesmente direis: ‘Até breve!’. Tais são, em resumo, os resultados da revelação nova, que veio encher o vácuo que a incredulidade havia cavado, levantar os ânimos abatidos pela dúvida ou pela perspectiva do nada e dar a todas as coisas uma razão de ser. Esse resultado carecerá de importância apenas porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da Ciência, dar saber aos ignorantes e meios aos preguiçosos para se enriquecerem sem trabalho? Entretanto, os frutos que o homem deve colher da nova revelação não dizem respeito tão só à vida futura. Ele os saboreará na Terra, pela transformação que estas novas crenças hão de necessariamente operar no seu caráter, nos seus gostos, nas suas tendências e, por conseguinte, nos hábitos e nas relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus, anunciado pelo Cristo. www.fetnet.org.br. Abraço. Davi