Religião Afro-brasileira. Por Eurico Ramos. Livro Revendo o Candomblé - IX. QUAL O SIGNIFICADO DO USO DE FOLHAS? Todas as seitas e culturas antigas apresentam uma estreita ligação com as folhas e ervas e a sua utilização é fundamental no culto aos orixás. Diziam os amigos que, ko si ewé ou sem folhas não existe orixás. As folhas representam o sangue verde do reino vegetal e são utilizados desde a iniciação até a defumação nas casas de candomblé. Cada folha, cada erva apresenta sua função específica. Cada folha, conforme sua morfologia e textura, sendo consagrada a um orixá. É importante falar sobre o aspecto científico das folhas. Nosso planeta é bombardeado por raios solares como UVA, UVB - raios ultravioletas etc. Esses raios, quando chegam a atmosfera e entram em contato como o nitrogênio, quebram este elemento e fazem com que ele perca elétrons. Transformando-se em isótopos radioativos instáveis. Aos quais chamamos de carbono 14. Esses isótopos radioativos descem às camadas mais baixas da atmosfera e são capturados pelas plantas através da fotossíntese. Conforme a morfologia de cada vegetal, formato, este reterá uma quantidade maior ou menor dos referidos isótopos. Cada orixá tem afinidade com uma certa quantidade de plantas ou ervas. Cada erva apresentará uma concentração ainda que ínfima de isótopos radioativos. Que irão incidir no comportamento e nas ondas cerebrais dos seres vivos. É importante observar com atenção a morfologia das plantas. As folhas pertencem aos orixás, mas estás só ganham axé - energia, poder e força - depois de serem cantadas e encantadas. As ervas devem ser colhidas em horários determinados, pois algumas folhas são híbridas no sentido de serem quentes ou frias, conforme a hora. Ou seja, são quentes durante o dia e frias à noite. Podendo pertencer a orixás distintos. Se forem colhidas a noite, pertencerão a um determinado orixá, se forem colhidas durante o dia pertencerão a outro. Há folhas que só devem ser colhidas durante a noite - para orixás bem frios, como Nanã, por exemplo - exceto as que são utilizadas em ebós - sacrifício, oferenda ou alimento. Algumas ervas devem ser colhidas somente de madrugada, pois sabemos que a maioria das folhas é (somente) quente, ou (somente) fria. Há que diga que só devem ser colhidas até as 6 horas da tarde. Contudo por que dizem isso? Porque dependendo do orixá a quem pertence essa folha e durante o dia a folha será quente por causa da luz do sol, essa é a grande diferença. Em princípio, podemos dizer que as folhas com formato arredondado geralmente pertencem às labás, orixás femininos. E que as ervas mais alongadas pertencem aos orixás masculinos, os oborós - exceto no que se refere a Oxalufã. Pois suas ervas são arredondadas e viçosas como as folhas das labás. O salão é arredondado e é de Oxalá. Por outro lado, há uma erva chamada colônia, que apresenta formato alongado tendo folhas compridas. Todavia, por ser extremamente perfumada é consagrada a Oxum e Yemanjá. Entretanto são poucas as exceções neste sentido. Sabemos que no candomblé utilizam-se três tipos de sangue (ejé), ou seja, o ejé dos três reinos: mineral, vegetal e animal. Do reino mineral, utilizamos o carvão mineral, o giz, a argila, a tabatinga, o quartzo, o ferro e o bronze. Do reino vegetal utilizamos as folhas, seu sumo, sua selva, às raízes e flores. Finalmente, do reino animal, o sangue, as seivas, a saliva e o suor. No caso das ervas, podemos dizer que são de vital importância para o nosso culto. Tão ou mais importante do que as outras seivas. Em determinados casos, um orixá poderá até não aceitar o ejé animal, mas o omi eró (sangue vegetal) ele sempre aceitará. O ori (cabeça) por exemplo, ante de qualquer liturgia, sempre deverá ser lavado com a seiva das ervas. Existem folhas que são indicadas para banhos, outras somente para acompanhar um ebó. Outras apenas para encanta o orixá. Também existem ervas que só podem ser utilizadas na mata, no local. Entretanto essas ervas deverão ganhar axé depois de serem cantadas e encantadas com orós (cânticos ritualísticos) em louvor a elas. Cada nação utiliza as forças ritualísticas das ervas conforme seus costumes. Nos candomblés mais ortodoxos, cada folha ou erva possui sua característica própria. Inclusive, a sua cantiga própria, que é usada para encantá-la ou ativar seu axé. Uma folha, quando não é cantada, não terá encanto. Uma folha ou erva, quando colhida, jamais deverá ser carregada sem que esteja apontada para o céu. Caso isso não seja feito, os efeitos dessa erva serão contrários ao que ela se propôs. Em outras palavras não se deve nunca carregar um maço de erva com os braços para baixo. Os ramos das folhas devem estar sempre apontados para o alto. Sempre no sentido que nascem da terra. Muitos babalossães antigos, quando tinham alguma diferença com a pessoa que iria se utilizar daquelas folhas. Fazia questão de levar essas ervas apontadas para o chão. Em alguns casos, até as arrastavam ao longo do caminho. Isso é grave e perigoso. Dessa forma, eles retiravam o axé das folhas, pois, fazendo isso, o sangue verde do reino vegetal (sumo das folhas) se esvaia. Se perdendo o axé na terra, como se para ela voltasse. Peregun arawa titun ó - Que o peregun faça com que seu corpo (sua vida) seja reto e sólido novamente. Outra erva bastante utilizada pelos membros dos cultos é a ewé Iará (folha de mamona). A ewé Iará pertence a Obaluaié sendo utilizada no Olubajé. Nela são servidas as comidas ritualísticas. Nas obrigações de 3, 7 e 14 anos, depois da "matança dos orixás" - sacrifício de animais aos orixás - remonta ao ato da caça do caçador nômade africano. Também se utiliza a ewé na cerimônia do itá. As ervas, depois de encantadas através de seus orós (cânticos ritualísticos), podem ser trituradas junto à água do poço para a prospecção do om ieró. Podem ser colocadas embaixo da eni (esteira em ioruba). Podem recobrir os ibás para esfriá-los ou para "acordar" o orixá. Ou, ainda, para acalmá-lo. Podem aninhar um ibá ori. Em determinadas nações, pilar as ervas é também um costume muito usado. A folha chamada de "são gonçalinho" pertence a Oxóssi. É muito usada nas casas da nação Ketu. Geralmente, são espalhadas no chão antes de um xiré para atrair os orixas. Esse costume, com o passar do tempo, foi assimilado por outras nações do candomblé também. Há quem use aroeira no chão do barracão - o que considero arriscado, sendo essa erva muito quente podendo "trazer briga". Usamos a aroeira apenas em ebós, para dar ânimo às pessoas. Geralmente, pessoas que estão muito tristes ou deprimidas por algum motivo, devem fazer um ebó com essa erva. Em algumas casas, usa-se aroeira para fazer a cama do assentamento dos orixás. O que também está certo. No Axé do Engenho Velho - Salvador - Bahia, usamos abre caminho. Folha de fortuna é uma folha híbrida e pode ser utilizada para todos os orixás. A panaceia é uma folha fria. Pertence às Iabás de água. Ncontramos ainda a ewé oxibatá, que é o obebé de Oxúm. Imprescindível no ritual iniciático. A negramina é de Oyá. É também uma erva muito importante e tem a propriedade de afastar espíritos desencarnados. A negramina corta feitiçarias. Além de ser também antidepressiva. Mas é uma erva muito quente, apesar de altamente perfumada. Para-raio é uma erva de Oyá. Mas seus efeitos são menos intensos. A para-raio é mais usada no omi eró, na sassanhe e no próprio Ibá de Oyá. O akokó é também uma erva de Oyá, geralmente utilizada em obrigações de tempo. Mas quando quinada (macerada) seus efeitos são contrários, o akokó guinado atrai egungun. O uso indevido das ervas pode ser muito prejudicial para quem as utiliza de forma inadequada. Esta erva é utilizada somente em orós dos 7 a 14 anos e nunca pode ser utilizada em preceitos de Iaô. Seria muito perigoso. Quanto a usar o akokó em obrigação de 3 anos, é mais perigosa ainda. Porque é uma folha estreitamente relacionada a ancestralidade. Por motivos óbvios, igualmente, não deve ser usada para ornamentação. Recomenda-se, nesses casos, utilizar outras ervas. Manjericão e folha de Ibeji. Folhas de iroko e mariwo nunca são usadas em ornamento, porque, além de ser perigoso é um desrespeito para com os orixás. Antigamente, o que se usava para ori ou para orixá não se usava em outras coisas. O uso correto das folhas é um grande segredo, pois podem-se fazer vários usos delas: remédio, feitiços, banhos, desde o uso medicinal até a magia branca pura. Hoje em dia ainda existem aqueles babalossães que conhecem o segredo das folhas, pois esse culto será diretamente relacionado ao orixá Ossãe. O correto é colher as folhas, e claro que quando não há essa possibilidade, precisamos comprá-las no mercado, o que é uma prática que já virou convenção. Hoje boa parte das casas de culto encontra-se no perímetro urbano. Mas é óbvio que tais ervas não tem o mesmo axé das folhas colhidas de forma natural. Abraço. Davi
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