segunda-feira, 13 de abril de 2026

QUAL É O SIGNIFICADO DO XIRÊ

Religião Afro-brasileira. Por Eurico Ramos. Livro Revendo o Candomblé - XI. QUAL É O SIGNIFICADO DO XIRÊ? Por que pessoas dançam e giram em sentido anti-horário, em torno do pilar central do barracão? Acredito que não adianta muito ser um babalorixá ou uma iyalorixá sem que se possua o mínimo conhecimento de algumas ciências. Pois a nossa religião não se resume exclusivamente a ebós e oferendas. Existem vários aspectos que precisam ser cuidadosamente observados. E para falarmos do significado do xirê, precisamos partir de um conceito básico, com o qual convivemos naturalmente todos os dias a terra gira. O xirê, por sua vez, é o ápice, o ponto máximo do ato litúrgico numa casa de candomblé. É a festa, e o culto à fartura, é o momento do nascimento do orixá, quando este orixá está pronto para ser apresentado ao público. Mas a tão conhecida "roda das baianas" é bem mais do que isso. Curiosamente, a roda das baianas gira no sentido anti-horário, o mesmo sentido da rotação do planeta Terra. O costume da roda das baianas foi herdado do islamismo, que muitas influências deixaram em diversas regiões da Terra. Os islâmicos caminham ao redor de um pilar central, do mesmo modo que as filhas de santo giram em torno da cumeeira da casa de candomblé. O ato de girar no sentido anti-horário também tem ligações com o islamismo, com o fato desses girarem no sentido anti-horário ao redor de um pilar em suas mesquitas. Pilar este que, para nós de Ketu - tradições africanas, é o opó, o pilar principal, situado no centro do barracão. Os islâmicos caminham ao redor de um pilar, no sentido anti-horário, exatamente como o povo do candomblé caminham e dançam ao redor do seu opó. A diferença é que no islamismo tudo é feito com muito sentimento, muita dor, enquanto no candomblé tudo é feito com outro sentido e com muita alegria. Porque estamos dançando e comemorando a vida. A cada vez que acontece um xirê, uma festa de candomblé, estamos, na verdade, contando a história da evolução do mundo de cada um dos orixás. Portanto, o xirê nada mais é do que uma narrativa psicodramática da evolução humana sobre a Terra. Os orixás vêm a este mundo narrar a evolução da raça humana, diante de toda uma plateia, sem que essa seja capaz de perceber o que está acontecendo.. Ali, nós encontramos Exu, que representa o primeiro movimento, o começo, o único da vida. Oxóssi é o caçador nômade, o homem primitivo, que caminhava nas planícies africanas buscando a caça. Ogun traz a Idade do Ferro (1200 a.C. 550), quando o homem começa a dominar os metais. Ossãe mostra o manuseio das plantas, a descoberta da medicina e o advento da cura. Oluaiê faz com que o homem se fixe à terra, sendo o advento da agricultura. Iroko mostra a fartura da terra, marcando o ciclo de plantio e de colheita. É Iroko quem determina a época de se plantar, de se colher e de dar descanso a terra. Xangó traz o advento da política, faz com que o ser humano comece a se organizar em sociedade. As danças desse orixá mostram isso de forma bem clara. Depois vêm as iabás, as orixás femininas. Ewá é a juventude, a menina que se transforma em mulher. Oxum traz o dom da maternidade, o dom da mulher de gerar novas vidas. Iansã traz a mulher descobrindo-se como ser vivente, como pessoa independente. Obá mostra o momento em que a mulher se torna capaz de trabalhar e competir com os homens em termos profissionais e sociais. Iemanjá mostra que a mulher também pode ter as mesmas características dos homens sem perder, no entanto, a feminilidade. Nanã traz o poder matriarcal. Oxalá, a suprema sabedoria, nos mostra o caminho das estrelas, a evolução do homem em sua jornada na Terra. Enfim, toda a evolução humana, em seus diversos estágios, é detalhadamente narrada durante um xirê. Todas essas danças são mostradas de forma simbólica, psicodramática, teatral, muito bonita durante uma festa de candomblé. Infelizmente, a nossa religião é linda, mas predominantemente formada por pessoas de baixa escolaridade. Sendo capazes de perceber que os orixás trazem diante de nossos olhos a história da própria humanidade. Abraço. Davi.

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