segunda-feira, 16 de março de 2026

QUAL O SIGNIFICADO DOS FIOS DAS CONTAS ?

Religião Afro-brasileira. Por Eurico Ramos. Livro Revendo o Candomblé - VIII. QUAL O SIGNIFICADO DOS FIOS DAS CONTAS? Todas as religiões ditas pagãs utilizam alguns fetiches ou instrumentos especiais, os quais, acredita-se, tem o poder de religar o homem aos planos astrais superiores. Sendo o Candomblé um culto pagão, este também utiliza determinados elementos litúrgicos capazes de aproximar os indivíduos das energias em que acreditam. Os fios de contas são os elementos litúrgicos que ligam os seres humanos aos seus orixás. Em termos filosóficos, podemos dizer que esses fios representam o "cordão umbilical". Conforme a cor, a morfologia e o número de voltas que um fio de conta apresenta, ele terá um significado diferente. Para falarmos nas cores dos fios de contas, teríamos que entrar antes em Colorimetria, parte da ciência que estuda os efeitos das cores sobre o comportamento humano. Sabemos que cada orixá detêm o domínio de uma ou mais cores. Por exemplo, Oyá está relacionada à terracota (ferrugem). Sabemos que Oyá está também ao elemento ar (oxigênio). Uma das grandes características do oxigênio é oxidar ou enferrujar os metais. Sabiamente, o africano correlacionou Oyá a cor ferrugem. Tal fenômeno científico talvez explique os pemas de Ifá que relatam as grandes lutas entre Ogum (ferro) e Oyá (oxigênio). Outro exemplo bastante interessante ainda se relaciona ao orixá Ogum. Em alguns casos, ele é visto com a cor verde (cor da folha do dendezeiro). Em outros, é visto com o azul marinho (ferro não oxidado, "sem Oyá"). O ferro (Ogum), quando levado ao fogo (Xangô), não se oxida, não enferruja, não sofre a influência de Oyá. Tal questão científica pode ser interpretada pelo poema de Ifá que relata a luta entre Xangô (fogo) e Ogum (ferro) por Oyá (oxigênio). O mesmo pode ser observado quando um babalorixá diz que "sem Oyá não existe Xangô, ou ko si Oya, ko si Oba. Hoje, a química nos diz: sem oxigênio (Obá) não existe combustão (Xangô). É intrigante pensar como os africanos, tão primitivos, podiam aprender naturalmente tis conceitos da física e da química. Exu é o orixá do movimento, é a própria energia cinética. Por isso, ele reflete todas as cores, detendo o domínio de todas. Do branco ao preto. Erroneamente, são atribuídas a Exu as cores vermelho e preto, quando na verdade, as suas cores são todas as cores misturadas. Bem parecido, aliás, com os fios de contas dos erês. A única diferença é que os fios de contas dos erês não levam miçanga presa e os de Exu levam. Odé ou Oxóssi, sua cor ritualística é o azul turquesa. Tal cor refere-se  à coloração das águas do rio Erinlé, do qual este orixá é padroeiro na Nigéria - África. Ossãe tem o domínio sobre o verde e o branco. Verde das folhas e o branco da selva das árvores. Iroko também usa o verde e o branco pelos mesmos motivos de Ossãe. Obaluaiê, por ser o senhor da vida, deterá o domínio das cores do reino mineral. Preto carvão, vermelho barro, branco carbonato de cálcio, também conhecido como cal. Nanã usa sempre o violeta, cor dos musgos encontrados nas águas paradas dos lagos. Nesses musgos da beira dos lagos surgiram os primeiros protozoários. As primeiras formas de vida desse planeta, por isso Nanã é tão antiga. Os musgos submersos nos lagos apresentam a cor lilás. Os musgos da superfície são ricos em clorofila e por isso possuem a cor verde. Oxumaré relaciona-se no Ketu ao amarelo (como Oxum), período gestativo, e o preto carvão, final de tudo. Oxumaré, por logismo, representa o começo e o fim de tudo. É por isso representado também pelo círculo, sem começo nem fim. Dizem que Oxumaré é uma grande serpente que morde a própria cauda e se enrosca ao planeta para manter a sua integridade. Assim, esse orixá é um círculo perfeito, o início e o fim ao mesmo tempo. Xangô é marrom (oxigênio igual a Oyá) e branco (sêmen masculino relacionado a Oxalá). No caso do marrom terracota, basta lembrar o que foi citado anteriormente sobre a ação do oxigênio sobre o ferro (ferrugem). Oxum detém o domínio sobre o amarelo e seus matizes. Na verdade, Oxum relaciona-se com a gema dos ovos e não como o elemento ouro, até porque o africano primitivo não conhecia esse metal nobre. A gema é o núcleo da macro célula denominada ovo. A função da gema é nutrir o embrião da ave, e a clara do ovo é rica em albumina. Cabe à gema nutrir esse embrião até a sua total formação. E assim Oxum nutre os embriões, o começo de vida no aiyé. Teoricamente esse fato explica também a grande correlação entre a orixá Oxum e os pássaros. Agora, volto a perguntar, como é que os africanos, tão primitivos a época, detinham esse conceito sobre a biologia através do orixá Oxum? Se prestarmos atenção, podemos notar que uma das comidas ritualísticas mais importante desse orixá é elaborada com ovos. Fato é que a grande mãe Oxum detém o domínio de toda a fase gestativa de um feto. Até o líquido amniótico da bolsa intrauterina apresenta uma leva coloração amarelada. O africano primitivo já percebia isso muito bem. Se pensarmos no ovo e na barriga da mulher grávida, temos aí muitas semelhanças. O candomblé é o culto à observação dos fenômenos da natureza. Obá, a terceira das esposas de Xangô detém o domínio do coral ou alaranjado. Obá, assim como Oyá, relaciona-se à atmosfera. Ela está presente quando o sol escaldante das planícies africanas faz a tarde ficar alaranjada. Esse fenômeno é observado a nível químico na reação entre o hidrogênio e os raios solares. Está se relaciona à cor da rosa. Ela é o efeito dos primeiros raios do Sol na camada de ozônio da atmosfera. Por isso, o fio de Ewá é cor de rosa ou coral. Yemanjá receberá o branco translúcido transparente, cor da lágrima humana. Contendo 9% de cloreto de sódio, sal de cozinha, a mesma concentração de sal das águas do mar. Ela detém grande poder sobre o número 9. Observem, a água do mar possui 9% de cloreto de sódio, sal de cozinha. O solo fisiológico também possui 9% de cloreto de sódio. Todas essas águas salgadas são a próprio orixá Yemanjá. É por esse motivo que os búzios dizem que Yemanjá embala os doentes em suas águas e os alimenta. Aqui cabe uma pergunta: mas como, se o africano primitivo não conhecia o soro fisiológico? Resposta, conheciam a água de coco, que, por coincidência, também apresenta 9% de cloreto de sódio em sua composição. O coco é muito utilizado até os dias de hoje nas casas de candomblé. A cor verde água que Yemanjá usa está relacionada aos planctons (microformas de vida oceânica), princípio de todas as cadeias alimentares dos mares. O uso das cores depende também das diferentes qualidades de cada orixá. Oxalá usa o branco leitoso. Ele é o Grande Pai. Sua cor relaciona-se ao sêmen masculino. Felizmente, hoje podemos fazer comparações e correlacionar aspectos da física, química e biologia ao candomblé. Hoje a ciência pode comprovar o que os antigos babalorixás e babalaos, já falavam há milhares de anos. Mais do que qualquer outra religião, o candomblé, quando bem analisado e estudado, pode ser perfeitamente embasado pela ciência. Sem qualquer tipo de antagonismo. A ciência hoje explica o que professamos há milhares de anos, porque o africano primitivo já detinha tais conhecimentos. Abraço. Davi    

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