Hinduísmo. Bhagavad Gita - A Mensagem do Mestre. Capítulo II. Parte II. SANKHYA YOGA. A VERDADEIRA NATUREZA DO ESPÍRITO. 48. Coloca-te no meio entre esses dois extremos, oh príncipe, e cumpre, em tranquila resignação, o dever por ser dever, e não pela expectativa da recompensa. Conserva ânimo igual na ventura ou desventura, assim é que faz o yogi. 49. Por muito importante que seja a tua reta ação, o primeiro lugar pertence sempre ao reto pensamento. Procura, portanto, o teu refúgio na paz e na calma do reto pensar, oh Arjuna. Porque aqueles que baseiam o seu bem-estar só nas ações, com estas necessariamente perdem a felicidade e a paz. Caindo na miséria e no descontentamento. 50.Quem atingiu a consciência de yogi é capaz de elevar-se acima dos resultados bons e maus. Esforça-te por atingir esta consciência, porque ela é a chave que abre o mistério da ação. 51. Os sábios, que renunciam mentalmente os frutos possíveis de suas retas ações. Libertam-se das cadeias dos renascimentos e se encaminham a morada eterna. 52. Quando te tiveres elevado acima da trama das ilusões, não te inquietarás com os cuidados e questões a respeito das doutrinas, nem com as disputas sobre ritos, cerimonias e outros enfeites dispensáveis da vestimenta da ideia espiritual. 53. Livre serás, então, de todas as opiniões alheias, tanto das que se acham nos livros sagrados. Como das dos teólogos eruditos ou dos que ousam interpretar o que não compreendem. Em lugar disso, fixarás a tua mente na mais séria contemplação do Espírito. Assim alcançarás a harmonia com o teu Eu real, que é a base de tudo. 54. Diz Arjuna: Explica-me, Oh Mestre cujos raios de saber tudo penetram, quais são os sinais distintivos que caracterizam os homens sábios. Aqueles que são firmes e constantes no conhecimento e fixos na contemplação. Como se comportam e como agem? Como se pode reconhecê-los? 55. Fala o Verbo Divino: Quando um homem, oh príncipe, quebrou os vínculos dos desejos de seu coração e está internamente satisfeito consigo, atingiu a Consciência Espiritual e firmou-se no conhecimento. 56. A sua mente não é turbada nem pela adversidade nem pela prosperidade. Aceita ambas, sem apegar-se a nenhuma. Nele não tem parte a ira, nem o medo, nem as paixões. Ele merece o nome de sábio. 57. Com equanimidade suporta as vicissitudes da vida, tanto as favoráveis como as desfavoráveis. Não se entrega nem a alegria excessiva, nem a tristeza. Nada lhe rouba a liberdade. 58. Quando um homem chegou a possuir a verdadeira sabedoria espiritual, é semelhante a tartaruga que encolhe para dentro da sua casa os seus membros. Assim o homem sábio é capaz de desviar os seus sentidos dos objetos que neles produzem impressão. Abrigando-os das ilusões do mundo exterior, protegendo-os pela armadura do Espírito. 59. É verdade que o homem que se abstêm dos excessos sensuais, é capaz de negar a satisfação aos sentidos. Tal homem, contudo, ainda é inquietado pelos desejos de gratificação. Mas aquele que achou o seu Eu Real dentro de si é livre até do desejo e de toda tentação que desaparecem como a sombra ante a luz meridiana. 60. O homem que se abstém, às vezes sucumbe ainda ao ataque repentino de um desejo tumultuoso. Todavia quem conhece que o seu Eu Real é a única realidade, esse é senhor de si mesmo, de seus desejos e de seus sentidos. 61. Tendo vencido os sentidos, pode descansar em minha Divindade, contemplando o Ser Real. O irreal, o ilusório não existe para ele. 62. Quem anela objetos dos sentidos, nos quais pensa e os quais contempla. Fica atraído e enlaçado por esses objetos. Desta atração e deste enlace provem o desejo, e o desejo gera a paixão. 63. A paixão é a causa da perturbação mental e da temeridade. Estas trazem a confusão e a perda da memória das verdades já reconhecidas. Resultando também a perda da razão e com isso se perde o homem totalmente. 64. Mas quem, senhor de si mesmo, encontra os objetos dos sentidos, sem a eles anelar e sem deles fugir, esse alcança a Paz. 65. Na Paz que é superior a todo intelecto, ele encontra a sua libertação de todas as aflições e dores da vida. Quando, porém, a sua mente está livre destes elementos de inquietação, fica aberta ao influxo da sabedoria e da ciência. 66. Não podem chegar a verdadeira ciência aqueles que não entraram nessa Paz, pois, sem a Paz e sem a calma não é possível existir sabedoria e nem felicidade. 67. Onde não há Paz, encontra-se a harmonia dos desejos sensuais. Que destrói a faculdade do saber, assim como um feroz vento tempestuoso impede o forte navio que caminha pelas ondas do Oceano. 68. Por isso, oh príncipe, só aquele cujo sentidos são plenamente livres de atração dos objetos sensuais é protegido pelo saber do Espírito. Tendo o verdadeiro conhecimento. 69. Aquilo que parece ser claridade de dia à massa do povo é, para ele, escuridão e ignorância. Mas aquilo que é noite para a multidão, ele reconhece como luz mediana. Isto quer dizer que aquilo que a gente do mundo sensorial considera ser real e verdadeiro, para o sábio é ilusão. Aquilo que a maior parte dos homens julga ser irreal e não existente. O sábio conhece como o único que é Real e existente. 70. O homem cujo coração é como o Oceano, a quem afluem todos os rios e que, apesar disso, permanece constante e não sai dos seus limites. O homem que sente o ímpeto dos desejos, das paixões e inclinações, todavia, fica imóvel, esse alcança a Paz. Aquele, porém, que se entrega aos desejos, não conhece a Paz, sendo escravo dos desejos inquietantes (70). Tal estado em que todos os desejos e todos os pensamentos "dormem", mas em que se sente a mais elevada consciência da Divindade. Chama-se como o termo sânscrito Samadhi. 71. Aquele que se separou dos efeitos dos desejos e abandonou os prazeres da carne, tanto um pensamento como uma ação. Caminha diretamente para a Paz. Quem deixou atrás de si o orgulho, a vangloria e o egoísmo, caminha diretamente para a Bem-aventurança. 72. Este é, oh príncipe , o estado da união com o Ser Real, o estado Bem-aventurado da Consciência Espiritual. Quem o atingiu, não se deixa embaraçar nem desviar pela ilusão. E quem havendo-o atingido, nele permanece na hora da morte, entra diretamente em Nirvana, em Brahma, no seio do Pai-Eterno. (72) A palavra Nirvana designa a desaparição de todas as ilusões. É o domínio completo do espírito sobre a matéria. (72) Brahma é o Deus Criador. Abraço. Davi
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