segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O QUE SÃO AS QUALIDADES DOS ORIXÁS

Religião Afro-brasileira. Por Eurico Ramos. Livro Revendo o Candomblé - VII. O QUE SÃO AS QUALIDADES DOS ORIXAS. Este é um assunto extremamente interessante, porque o tema qualidade de santo sempre abre espaço para debates importantes. Existem várias formas de definir qualidades de santo e uma delas remonta simplesmente a fatos históricos. Alguns Orixás com características comportamentais e folclóricas muito parecidas passaram a ser aglutinados em um único Orixá. Ou a uma mesma família de Orixás, como consequência das guerras que assolaram o continente africano. Quando uma tribo invadia outra, a tribo que perdia a batalha ficava a mercê da tribo vencedora. Logo, o mesmo acontecia a sua divindade, que passava a ser uma "qualidade" de um Orixá da tribo vencedora. Ou ainda, passava a fazer parte de um poema de Ifá, no qual um Orixá se digladiou com outro e acabou perdendo a luta. Essa explicação serve para elucidar dois aspectos, tanto de qualidade de Orixá, como poema de Ifá, porém, vamos entrar neste último assunto mais adiante. Também é importante explicar que se diferentes qualidades dos Orixás, em determinados momentos, constituem o segmento do Orixá principal. Todavia com uma pequena diferenciação, que individualiza esse Orixá como sendo uma qualidade. Erroneamente, costuma-se dizer, principalmente no Rio de Janeiro - Brasil, que existem qualidades de Orixá que são metade uma coisa, metade outra. Isso é um absurdo, isso não existe, pois Orixá é único, uno e indivisível. Ainda sobre qualidades de santo, e principalmente para nós, descendentes do Axé do Engenho Velho- Salvador- BA-Brasil. Vamos tomar como exemplo a Orixá Oxum, na África, é a dona dos rios. Existe um rio - o rio Oxum - no continente africano que banha várias cidades, várias tribos e aldeias. Obviamente, cada uma dessas tribos, dessas aldeias tem nomes diferentes. Quando o rio atravessa aquela região, passa a ter um nome específico. Então, na região onde o rio é novo, é quase um veio d'água. Oxum é nova, doce e tranquila. Na região, onde o rio é profundo, escuro e caudaloso, estas são as características ali atribuídas a Oxum. Na região das corredeiras, o rio tem muitas pedras, é violento, guerreiro. Suas pedras são afiadas e pontudas, porém as águas são revoltas por esse motivo. Yeyê Opará apresenta essas características bélicas. Na região das grandes cachoeiras, as águas batem violentamente nas pedras. Por esse motivo, Oxum é cultuada, naquela região, com tais características. Na região onde ocasionalmente o rio some dentro da mata, Oxum passa a ter "enredo" ligação com Oxóssi. Está é uma qualidade de Oxum ligada ao rio que alaga a mata e cujas águas somem dentro da vegetação. Ao chegarmos ao final do rio, as águas doces encontram o mar. É quando a Oxum é mais velha, mais tranquila e tem ligação com a Yemanjá. Mas todas essas qualidades de Oxum referem-se a um mesmo rio, que apresenta nomenclaturas diferentes conforme a região onde ela é cultuada. Obviamente o rio é cultuado em cada região de uma forma. Daí surgirem as qualidades de um mesmo Orixá. O mesmo se aplica a Odé, Xangó e a todos os Orixás. Existe, também, uma forte relação entre os Orixás, suas qualidades e diversos aspectos importantes ligados ao advento da vida humana. Tomemos como exemplo a Orixá Oyá, e algumas de suas qualidades: Onirá e Ibalé. Pode-se dizer que, em termos de corpo humano, Oyá representa o ar dos pulmões, o ar quente, úmido e rico em oxigênio, o ar da vida. No caso das Igbalé, diz-se que elas representam o último suspiro do ser humano. É quando o fôlego se esvai. Assim Oyá e Onira é o primeiro suspiro de uma criança que chega ao mundo. Oya Igbalé é o seu último suspiro. É quando nos tornamos um ará-orum, Habitante de orum, do mundo espiritual. Por isso se diz que Igbalé, nos leva de volta aos espaços do orun quando é chegado o momento. Em contrapartida, diz-se que Onira, tem enredo em Oxum, ligação. Obviamente que tem. Onde é que estava o bebê antes de nascer? No útero materno, imerso em líquido amniótico (Oxum). A bolsa se rompe, a criança vem ao mundo e respira (Onira). Aliás, Oyá Igbalé não é "uma qualidade de Yansã. Mas sim, um subgrupo de qualidades de Oyá. Oya traz o vento forte. Xangó traz a chuva forte que alaga as planícies africanas. Nanã deixa os seres imersos em suas águas. Seu filho Oluaiê, traz a peste junto com as águas de sua mãe. Aí o círculo se fecha, com Oyá Ibalé trazendo o último suspiro aos seres viventes daquele local. Esse ciclo pode ser facilmente observado em muitas regiões do Brasil e de outras localidades do mundo no período de chuvas. Isso não muda nunca, desde que o mundo é mundo: chuva, enchente, doenças e morte (transformação). Abraço. Davi.

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