sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

SANKHYA YOGA - A VERDADEIRA NATUREZA DO ESPÍRITO

Hinduísmo. Bhagavad Gita - A Mensagem do Mestre. Capítulo II. Parte I. SANKHYA YOGA - A VERDADEIRA NATUREZA DO ESPÍRITO. Neste capítulo se ensina como se pode, por meiro da meditação filosófica obter a verdadeira concepção do Universo. Isto é, o ensinamento da nulidade e instabilidade de todas as formas que existem no mundo dos fenômenos. Em contraste com o ser Eterno, e como este conhecimento nos conduz da liberdade espiritual e da imortalidade.


Continua Sanjaya a contar: 1. Krishna, cheio de amor, piedade e compaixão, disse a Arjuna, vendo a sua pungente tristeza e as lágrimas nos seus olhos. (1)  O homem que está cheio de dúvidas afasta-se por si mesmo do céu da temperança, que é próprio a alma que conhece a verdade. 2. Donde vem, oh Arjuna, essa pusilanimidade? Esta fraqueza, indigna de um homem, faz-te infeliz, pois te fecha as portas do céu. 3. Não te entregues a ela, sacode de ti essa cisma desprezível. Levanta-te resoluto e bravo, oh vencedor de inimigos. 4. Respondeu Arjuna: Oh meu caríssimo. Como posso eu atacar e combater a Bhishma e Drôna, quando ambos, respeito e estimo? 5. Seria melhor, para mim, comer o pão seco e sem sabor do mendigo, do que, ser o instrumento da morte. A estes nobres e respeitados homem que eram meus preceptores e mestres! É verdade que eles são ávidos dos meus bens. Mas como poderia eu gozar a riqueza e o poder, sobre os quais há manchas de sangue dos meus queridos! 6. Não posso dizer se é melhor que nós os vençamos ou que eles nos vençam a nós. Mas sei que eu não desejaria viver nem um minuto mais, se visse morrer os meus parentes e amigos. Os filhos do rei Dhritarashtra e o povo de Kuru. 7. Compaixão e ânsia comprimem o meu coração e a minha menta vacila diante do problema que se lhe apresenta. Não sei o que devo fazer. Dissipa tu, Oh Krishna, estas dúvidas. Dize-me, qual é o meu dever. Eu sou teu discípulo: prostrado perante i, peço que dês as instruções de que careço. 8. Tão confuso está o meu entendimento, que não posso descobrir nada que acalme a febre da minha mente. O meu interior está em fogo que seca as minhas faculdades. Ainda que eu ganhasse um reino na terra. Cujo brilho excedesse a todos os outros reinos como o sol excede as estrelas. Ou conseguisse o poder dos deuses e o domínio sobre os exércitos celestes, minha aflição não diminuiria. Não, eu não quero combater!. 9. Continua Sanjaya: Depois de ter falado assim ao Senhor da Criação, Arjuna caiu em silêncio. 10. Então Krishna, sorrindo ternamente, dirigiu ao desanimado as seguintes palavras. Achando-se ambos no meio do espaço entre os dois exércitos. Palavras do Verbo Divino (10). Krishna é a representação do Verbo Divino ou Logos (Cristo em nós). 11. Sem necessidade te entristeces e afliges, contudo, as tuas palavras tem grãos de verdade. Elas exprimem a sabedoria do mundo exterior (exotérico). Contudo não satisfazem a mente interior (esotericamente). São apenas a expressão de uma parte da verdade. Os sábios não se entristecem nem por causa dos vivos nem por causa dos mortos. 12. Sabe, oh príncipe de Pandu, que nunca houve tempo em que não existíssemos eu ou tu. Ou qualquer destes príncipes da terra. Igualmente, nunca virá tempo em que algum de nós deixe de existir (12). O que no homem é divino, é o seu ser verdadeiro que é eterno. Não nasce e nem morre, formando a sua individualidade que aparece periodicamente vestida de corpo material, contudo independente dele. 13. Assim como a alma, vestindo este corpo material, passa pelos estados de infância, mocidade, virilidade e velhice. Assim, no tempo devido, ela passa a um outro corpo, e em outras encarnações viverá outra vez. Os que possuem a sabedoria da doutrina esotérica (interior), sabem, portanto não se deixando influenciar pelas mudanças a que está sujeito este mundo exterior. 14. Os sentidos dão-te, pelas apropriadas faculdades mentais, o sentimento do calor e do frio, do prazer e da dor. Mas estas mudanças vêm e vão, porque pertencem ao temporário, impermanente, inconstante. Suporta-as com equanimidade, valentia e paciência, oh príncipe! 15. O homem que não se deixa atormentar por essas coisas. Que se conserva firme e inabalável no meio do prazer e da dor. Possui a verdadeira igualdade de ânimo, esse, crê-me, entrando no caminho que conduz a imortalidade. 16. Aquilo que é irreal, ilusório, não tem em si o Ser Real, não existe na realidade, e sim só na ilusão. Aquilo que é o Ser Real, nunca cessa de ser. Nunca pode deixar de existir, apesar de todas as aparências contrárias. Os sábios, oh Arjuna, fizeram pesquisas relativas a isto e descobriram a verdadeira essência e o sentido interior das coisas (16). Só aquele ser no homem que é penetrado pela verdade pode conhecê-la. Porque a verdade é a sua essência e conhece-se no homem, a si mesma.17. Sabe que o Ser Absoluto, de que todo Universo tem o seu princípio, está em tudo sendo indestrutível. Ninguém pode causar a destruição desse Imperecível (17). O corpo é o instrumento do espírito. É a sombra incorporada, em que a Luz se esforça por manifestar-se. 18. Estes corpos caducos, que servem como envoltório para as almas que os ocupam. São coisas finitas, coisas do momento, e não são o verdadeiro homem real. Eles perecem, como todas as coisas finitas, deixa-os perecer, oh príncipe de Pandu, sabendo isto, prepara-te para o combate. 19. Aquele que pensa, em sua ignorância: Eu mato ou serei morto, procede como criança que não tem conhecimento da verdade. Porque o que é na realidade, é eterno, e o Eterno não pode matar nem ser morto. 20. Conhece esta verdade, oh príncipe! O homem real, isto é, o Espírito do homem, não nasce nem morre. Inato, imortal, perpétuo e eterno, sempre existiu e sempre existirá. O corpo pode morrer ou ser morto e destruído, porém, aquele que ocupou o corpo, permanece depois da morte deste ( 20). O Espírito é a vida mesma, isto é, a Vida Eterna de que a vida exterior, corporal, é só um reflexo. Uma manifestação de ordem inferior. 21. Quem conhece a verdade de que o Homem real é eterno, indestrutível, superior ao tempo, à mudança e aos acidentes, não pode cometer a estultice de pensar que pode matar eu ser morto. 22. Como a gente tira do corpo as roupas usadas e as substitui por novas e melhores. Assim também o habitante do corpo, que é o espírito, tendo abandonado a velha morada mortal, entra em outro, nova e recém preparada para ele (22). A reencarnação é uma lei universal em toda a natureza. O espírito do homem desencarnado volta, depois de um tempo de descanso. Ocupando um novo corpo, formando assim nova pessoa. Enquanto a alma não tem conhecimento espiritual de si mesma sendo este processo inconsciente. 23.O homem real, o Espírito, não pode ser ferido por armas, nem queimado pelo fogo. A água não o molha, o vento não lhe seca nem move. 24. Ele é impermeável, incombustível, indissolúvel, imortal, permanente, imutável, inalterável, eterno, e penetra tudo. 25. Em sua essência, é invisível, inconcebível, incognoscível (25) Isto é, para o intelecto exterior, mas é cognoscível para a percepção interior do homem espiritualmente iluminado. Sabendo isto, não te entregues à aflição pueril. 26. Se porém não o crês, e pensas que nascimento e morte são coisas reais. Mesmo assim, te pergunto: por que te lamentas e entristecesses? 27. Pois, em verdade, a morte deriva do nascimento, e o nascimento deriva da morte. Não te aflijas, pois pelo inevitável. 28. Aqueles que carecem da sabedoria interior, ignoram de onde vimos e para onde vamos. Conhecem só aquilo que é transitório. No Ser Eterno, todas as coisas são compreendidas no estado invisível. Depois se fazem visíveis e na morte tornam a ser invisíveis. Por que então lamentar? 29. Quanto à alma, o homem real, Espírito ou Ser Eterno, alguns o tomam por coisa maravilhosa. Com incredulidade e sem compreensão. Mas a mente mortal não compreende este mistério, nem o conhece em sua natureza verdadeira e essencial. Apesar de tudo o que foi dito, ensinado e pensado a seu respeito (29). Só pode compreender o Ser Eterno, quem o realizou em si mesmo. 30. O Espírito, esse Homem real que habita o corpo, é invulnerável e indestrutível: é a vida mesma. Não há, pois, motivo para te abandonares à aflição e tristeza. 31. Deves estar atento ao teu dever. Tu, que és um príncipe da casa dos guerreiros, tens por dever combater com resolução e heroísmo. 32. O dever de um soldado é combater, e combater bem. O combate justo honra o guerreiro e abre-lhe a porta de céu. 33. Se desistires da legítima luta pela verdade e pelo direito, cometerás um grande crime contra a tua honra. Contra o teu dever e contra o teu povo. 34. Os homens de perto e de longe falarão de ti com desprezo, classificando de vergonhoso o teu proceder. E a vergonha e a desonra são piores do que a morte para quem é de nobre nascimento. 35. Todos os generais pensarão que foi por medo que fugiste do campo de batalha. Te tratarão como covarde e aqueles que até agora te estimam. Desprezar-te-ão. 36. Os teus inimigos espalharão má fama a teu respeito. Com burla e com desdém falarão de ti e de tua falta de coragem. Poderia acontecer-te coisa pior? 37. Se fores morto em batalha, o céu dos guerreiros será a tua recompensa. Se fores o vencedor, será teu o destino sobre a terra. Tem, pois, coragem, oh filho de Kunti, e decide-te a combater com ânimo firme! 38. Com a mente tranquila, aceita como igual o prazer e a dor, o ganho e a perda. A vitória e a derrota. Cinge-te para a peleja, cumpre o teu dever, e evita assim o pecado. 39. O que te expus, oh Arjuna, é a doutrina de Sankya, filosofia especulativa da vida e das coisas. Agora, prepara-te também para ouvir a doutrina de uma escola chamada yoga. Se com a devida profundeza e, concentração, chegares a compreender estas verdades, te libertaras das cadeias das ações. 40. Nada  de teus esforços se perde neste caminho, já a menor porção desta ciência e prática nos livra de grande medo e perigo. (40) Yoga significa "união", não só no sentido de doutrina filosófica, como também na prática, o saber teórico sem a realização prática não tem valor. 41. Neste ramo de ciência, há um só objeto em que a mente pode concentrar-se com segurança, muito ao contrário de outros campos de esforço mental. Cheios de múltiplos ramos, numerosos caminhos e divergentes fins. 42. Muitos há que, saciando-se com as letras, ou com o sentido exterior, superficial, das Sagradas Escrituras e doutrinas. Não podendo perceber o seu verdadeiro sentido interior. Acham grandes deleites em controvérsias técnicas e respeito do texto, em definições monstruosas e abstrusas interpretações. 43. Os corações desses homens estão cheios de desejos e esperanças pessoais. O seu mais alto ideal é um céu, onde acham todos os objetos de seus prazeres. A satisfação do seu sensualismo, e não se elevam à altura de onde se percebe a união de todos os seres. Usam palavras floreadas, inventam várias cerimônias e falam muito dos prêmios que esperam aqueles que as observam. Dos castigos em que caem os que são de outras opiniões. 44. Fica, porém, sabendo que laboram em erro, lhes desconhecendo o uso da razão concentrada. Estranhas-lhes são as alturas da consciencia espiritual. 45. Os Vedas, isto é, as Sagradas Escrituras, tratam das três gunas ou qualidades da Natureza, Instruem os pecadores a se elevarem acima delas. Liberta-te, oh Arjuna, dessas gunas. Se livre dos contrastes das forças opostas da natureza que pertencem a vida finita, e as coisas sujeitas a mudanças. Procura para teu descanso a consciência de teu Eu Real, a Verdade Eterna. Deixa longe de ti os cuidados mundanos e a avidez da possessão material. Concentra-te em ti mesmo, e não te entregues as ilusões do mundo finito. 46. Como de um tanque, em que de todos os lados aflui água, pode-se tirar o fluido, cristalino para encher com ele muitos vasos de diferentes formas e dimensões. Assim as doutrinas dos livros sagrados fornecem a mente do estudante sério, tudo aquilo de que ele precisa para chegar ao conhecimento das coisas divinas. Conforme o grau e o caráter de seu desenvolvimento. 47. Seja, pois, o motivo das tuas ações e dos teus pensamentos sempre o cumprimento do dever. Faze as tuas obras sem procurares recompensas, sem te preocupares com o teu sucesso ou insucesso, com o teu ganho ou o teu prejuízo pessoal. Não caias, todavia, em ociosidade e inação, como acontece facilmente  aos que perderam a ilusão de esperar uma recompensa das suas ações. Abraço. Davi

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