quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

As Paixões da Alma. I. René Descartes.

Art. 1. O que é paixão em relação a um sujeito é sempre ação a qualquer outro respeito. Nada há em que melhor apareça quão defeituosas são as ciências que recebemos dos antigos do que naquilo que escreveram sobre as paixões; pois, embora seja esta uma matéria cujo conhecimento foi sempre muito procurado, e ainda que não pareça ser das mais difíceis, porquanto cada qual, sentindo-as em si próprio, não necessita tomar alhures (num outro lugar, em outro momento) qualquer observação para lhes descobrir a natureza, todavia o que os antigos delas ensinaram é tão pouco, e na maior parte tão pouco crível, que não posso alimentar qualquer esperança de me aproximar da verdade, senão distanciando-me dos caminhos que eles trilharam. Eis por que serei obrigado a escrever aqui do mesmo modo como se tratasse de uma matéria que ninguém antes de mim houvesse tocado; e, para começar, considero que tudo quanto se faz ou acontece de novo é geralmente chamado pelos filósofos uma paixão em relação ao sujeito a quem acontece, e uma ação com respeito àquele que faz com que aconteça (1); de sorte que, embora o agente e o paciente sejam amiúde (repetida vezes ou frequentemente) muito diferente, a ação e a paixão não deixam de ser sempre uma mesma coisa com dois nomes, devido aos dois sujeitos diversos aos quais podemos relacioná-la. (1). Ora, sempre julguei que é uma e mesma coisa que é denominada ação quando a relacionamos ao termo de onde ela procede e paixão com respeito ao termo no qual ela é recebida. 

Art. 2. Que para conhecer as paixões da alma cumpre distinguir entre as suas funções e as do corpo. Depois, também considero que não notamos que haja algum sujeito que atue mais imediatamente contra nossa alma do que o corpo ao qual está unida, e que, por conseguinte, devemos pensar que aquilo que nela é uma paixão é comumente nele uma ação; de modo que não existe melhor caminho para chegar ao conhecimento de nossas paixões do que examinar a diferença que há entre a alma e o corpo, a fim de saber a qual dos dois se deve atribuir cada uma das funções existentes em nós.

Art. 3. Que regra se deve seguir para esse efeito. E nisso não se encontrará grande dificuldade, se se tomar em conta que tudo o que sentimos existir em nós, e que vemos existir também nos corpos inteiramente inanimados, só deve ser atribuído ao nosso corpo; e, ao contrário, que tudo o que existe em nós, e que não concebemos de modo algum como passível de pertencer a um corpo, deve ser atribuído a nossa alma (2).  (2). Lembrança do princípio da distinção das substâncias enunciado na Meditação Sexta.

Art. 4. Que o calor e o movimento dos membros, procedem do corpo, e os pensamentos, da alma. Assim, por não concebermos que o corpo pense de alguma forma, temos razão de crer que toda espécie de pensamento em nós existente pertence à alma; e, por não duvidarmos de que haja corpos inanimados que podem mover-se de tantas diversas maneiras que as nossas, ou mais do que elas, e que possuem, tanto ou mais calor (o que a experiência mostra na chama, que possui, ela só, muito mais calor e movimento do que qualquer de nossos membros), devemos crer que todo o calor e todos os movimentos em que não dependem do pensamento, pertencem apenas ao corpo.

Art. 5. Que é erro acreditar que a alma dá o movimento e o calor ao corpo. Por esse meio, evitaremos um erro considerável em que muitos caíram, de sorte que o reputo a principal causa que até agora impediu que se pudessem explicar bem as paixões e as outras coisas pertencentes à alma. Consiste em ter-se imaginado, vendo-se que todos os corpos mortos são privados de calor e depois de movimento, que era a ausência da alma que fazia cessar esses movimentos, e esse calor; e assim se julgou, sem razão, que o nosso calor natural e todos os movimentos de nossos corpos dependem da alma (3), ao passo que se devia pensar, ao contrário, que a alma só se ausenta, quando se morre, porque esse calor cessa, porque os órgãos que servem para mover o corpo se corrompem.  (3). A alma está implantada na máquina do corpo, mas não é seu princípio de formação nem conservação. Trata-se simplesmente de íntima associação da alma com o todo e as partes da máquina já feita (...). Assim a natureza física realizaria mecanicamente uma máquina muito complicada, com disposições tais que uma alma poderia de alguma forma calça-la, sem que tenha tido algo com a fabricação e a imbricação (telhas, tábuas, ardósias) de suas partes.

Art. 6. Que diferença há entre um corpo vivo e um corpo morto. A fim de evitarmos, portanto, esse erro, consideremos que a morte nunca sobrevém por culpa da alma, mas somente porque alguma das principais partes do corpo se corrompe; e julguemos que o corpo de um homem vivo difere de um morto como um relógio, ou outro autômato (isto é, outra máquina que se mova por si mesma), quando está montado e tem em si o principio corporal dos movimentos para os quais foi instituído, com tudo o que se requer para a sua ação, difere do mesmo relógio, ou outra máquina, quando está quebrado e o princípio de seu movimento para de agir (4).  (4). No caso do homem, a deterioração da máquina não conduz apenas à sua destruição, mas também à separação da alma e do corpo. A doutrina da união da alma e do corpo na separação exclui, assim, radicalmente todo animismo (ideologia ou crença de acordo com a qual todas as formas identificáveis da natureza: animais, pessoas, plantas, fenômenos naturais, etc, possuem almas)  ou vitalismo (doutrina biológica que admite um princípio vital, distinto a um só tempo da alma e do organismo, fazendo dele dependerem as ações orgânicas). Abraço. Davi.

Art. 7. Breve explicação das partes do corpo e de algumas de suas funções. Para tornar isso mais inteligível, explicarei, em poucas palavras, a forma toda de que se compõe a máquina de nosso corpo (5). Não há quem já não saiba que existem em nós um coração, um cérebro, um estômago, músculos, nervos, artérias, veias e coisas semelhantes; sabe-se também que os alimentos ingeridos descem ao estômago e as tripas, de onde o seu suco, correndo para o fígado e para todas as veias, se mistura como o sangue que elas contém, aumentado, por esse meio, a sua quantidade (6). Aquele que ouviram falar, por pouco que seja, da medicina sabem, além disso, como se compõe o coração e como todo o sangue das veias pode facilmente correr da veia cava para seu lado direito, e daí passar ao pulmão pelo vaso que denominamos veia arteriosa, depois retornar do pulmão ao lado esquerdo do coração pelo vaso denominado artéria venosa (7), e, enfim, passar daí para a grande artéria, cujos ramos se espalham pelo corpo inteiro. E mesmo todos os que não foram cegados inteiramente pela autoridade dos antigos, e que quiseram abrir os olhos para examinar a opinião de Harvey no tocante à circulação do sangue (8), não duvidam de que todas as veias e artérias do corpo sejam como regatos por onde o sangue não para de correr muito rapidamente, começando seu curso na cavidade direita do coração pela veia arteriosa. Nessa veia os ramos se espalham por todo o pulmão e se juntam aos da artéria venosa, pelo qual ele passa do pulmão ao lado esquerdo do coração. depois segue daí para a grande artéria, cujos ramos, esparsos pelo resto do corpo, se unem aos ramos da veia que levam de novo o mesmo sangue à cavidade direita do coração, de sorte que essas duas cavidades são como eclusas, através de cada uma das quais passa todo o sangue em cada volta que faz pelo corpo. Demais, sabe-se que todos os movimentos dos membros dependem dos músculos e que estes músculos se opõem uns aos outros, de tal modo que, quando um deles se encolhe, atrai para si a parte do corpo a que está ligado, o que provoca ao mesmo tempo o alongamento do músculo que lhe é oposto; depois, se acontece numa outra vez que este último se encolha, leva o primeiro a alongar-se e puxa para si a parte a que eles estão ligados. Enfim, sabe-se que todos esses movimentos dos músculos, assim como todos os sentidos, dependem dos nervos, que são como pequenos fios ou como pequenos tubos que procedem, todos, do cérebro, e contêm, como ele, certo ar ou vento muito sutil que chamamos espíritos animais.  (5). Sendo possível e indispensável à inteligência das paixões a distinção entre as funções que dependem do corpo e as funções que dependem da alma. Descartes irá agora descrever sucessivamente as funções essenciais de um e de outro. Até o Art. 17, as funções do corpo. (6). Tratado do Homem, (páginas 808, 809), devido a fermentação que se produz no estômago, as partes mais sutis dos alimentos formam o quilo, que é levado para o fígado, onde sofre a ação da hematose. Este licor ai se sutiliza (...) adquire cor e toma a forma do sangue (...). Pra, este sangue, assim contido nas veias, só tem uma única passagem manifesta por onde possa sair delas, a saber, a que conduz a concavidade direita do coração. (7). Veia arteriosa; artéria pulmonar; artéria venosa; veia pulmonar. (8). Descartes recusava atribuir a ação do coração a uma contração muscular, mas aderia inteiramente à teoria circulatória de William Harvey (1578-1657). A opinião de Descartes sobre a circulação do sangue, relata Baillet, granjeara-lhe grande crédito entre os doutores e contribuíra maravilhosamente para restabelecer nesta matéria a reputação de Harvey, que se vira maltratada por diversos médicos dos Países Baixos (Holanda), a maioria dos quais ignorante ou obstinada em antigas máximas de suas faculdades. Abraço. Davi.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

René Descartes (1596-1650).

Rene Descarte nasceu em La Haye, em 31 de março de 1596. Órfão com um ano de idade, de saúde frágil, passou a maior parte de sua infância em sua cidade natal. Com onze anos foi enviado para o Colégio Jesuíta de La Flèche,  de onde saiu em 1615, para conhecer o mundo. Este Colégio, na época, era reputado como um dos melhores Colégios da França. Contudo, o espírito inquieto do jovem estudante o impulsionou para fora da Academia. No seu entender, essa não ensinava propriamente a verdade das coisas, mas se contentava com a repetição dos ensinamento dos antigos, principalmente de sua recepção no transcurso da Idade Média. É curioso que um dos pensadores que mais marca o pensamento ocidental tenha feito uma carreira a margem da universidade.Foi com esse tipo de preocupação que o jovem, ao terminar os estudos nessa escola jesuíta, decidiu viajar pelo mundo, com o intuito de explorar outras terras e costumes, fazendo do "mundo" um objeto de leitura, como se fosse um livro, que requereria um novo tipo de análise. O mundo que então se descortinava era ainda um mundo "mágico", imprevisível, cheio de incertezas, capaz de atiçar a imaginação de um jovem pensador. O impulso para a viagem, para a aventura, nasce de uma profunda inquietação com o tipo de ensinamento, com as formas de filosofia e de ciência reinantes naquela época. Para ele, a filosofia e a ciência estavam esclerosadas, pois tinham como ponto de referência indubitável e verdadeiro a filosofia escolástica, de cunho Tomista Aristotélico, como se não mais coubesse a pergunta pela verdade de algo, de uma proposição, mas tão-somente uma disputa sobre a interpretação de "verdades" tidas por eternas. Resgatar o princípio mesmo da filosofia implicava um pensamento autônomo, livre de quaisquer amarras, e, sobretudo, livre de toda espécie de preconceito. Se cada um de nós almeja ter uma idéia verdadeira, devemos preliminarmente afastar esse tipo de pré conhecimento, de preconceito, sedimentado no senso comum, impeditivo de que se possa pensar diferentemente. O senso comum de uma época, qualquer que seja, não é nem pode ser critério de verdade. Engajou-se, seguindo um certo costume da época, nos exércitos de Maurício de Nassau (1604-1679). Descortinava-se, para ele, a possibilidade de lançar um outro olhar sobre o mundo, um olhar que procurava desprender-se daquela que tinha sido, até então, a sua experiência escolar. Isto era uma opção para a pequena nobreza que partia em busca da aventura e da novidade. Sem muitos recursos, tratava-se de uma escolha que estava ao seu alcance e se adequava perfeitamente à sua curiosidade, ao seu questionamento das coisas. Ele partiu para conhecer, no livro do mundo, o que os livros da escola não lhe tinham fornecido. Seu propósito central consistia em nada reconhecer como verdadeiro sem que, antes, tivesse passado previamente pela sua razão, pelo crivo de um procedimento metódico, baseado na dúvida e na hiperbolização dessa. Nenhuma ideia merece o qualificativo de verdadeira, se não for objeto de um questionamento radical que permita chegar a princípios, proposições primeiras, que sejam, de fato, indubitáveis. Nas margens do Danúbio, em 1619, durante aqueles longos invernos em que não se combatia, Descartes recolheu-se à solidão de seu quarto, de sua estufa, preferindo manter-se à margem das algazarras de seus colegas de armas. Um traço psicológico seu, que o acompanhará durante toda a sua vida, consistia no apartar-se da vida social, pois, assim, podia dedicar-se à reflexão. Lá, num ato meditativo, ele recolhia-se aos seus pensamentos. O seu diagnóstico do conhecimento de seu tempo era que este tinha sido desordenadamente construído, sem um princípio condutor, como cidades que crescem aleatoriamente. O conhecimento e a ciência exigem trabalho, questionamentos sistemáticos e método. O dogmatismo é o pior companheiro da filosofia. Numa destas noites, ele teve três sonhos consecutivos, que lhe mostraram o caminho a seguir, o caminho de uma ciência universal, feita a partir de novos fundamentos. Um novo edifício seria necessário, construído a partir de sólidos alicerces, que só seriam alcançados pela elaboração de novos princípios, primeiras proposições indubitáveis. De posse deste novo método, os homens poderiam, doravante, seguir os passos seguros de uma sabedoria teórica e prática. A filosofia e a ciência, mas também a moral, apresentariam, assim, idéias e orientações seguras que balizariam o pensamento e a ação. Tendo se desengajado do exército, Descartes procura um lugar para se estabelecer, estando decidido a seguir a via do conhecimento, ou seja, dedicar-se integralmente à filosofia. A sua escolha de vida estava feita. O livro do mundo tinha lhe aberto novos horizontes, cabia agora empreender a tarefa propriamente reflexiva, aquela que se realiza na interioridade da consciência, na razão voltada apenas para si mesma, sem entraves externos e internos, nem os oriundos dos sentidos, nem os que provêm dos preconceitos. De passagem por Paris, ele é convidado para uma reunião na casa do Núncio apostólico. A filosofia, até então, se fazia em círculos restritos, os dos doutos, que compartilhavam uma mesma linguagem e preocupação. No término desta reunião, durante a discussão, ele impressiona vivamente os presentes pela sutileza dos seus argumentos e, sobretudo, pelas novas descobertas que crê estar fazendo. Não seguindo estritamente as regras da casa, ele questiona vivamente a apresentação que tinha sido feita, expondo as suas próprias ideias. Todos ficam, com ele, muito impressionados e o incentivam a seguir o caminho da filosofia e da ciência. Paris, no entanto, é, para ele, uma cidade muito agitada, não permitindo a um espírito como o dele viver em paz. A França era, então, o centro do mundo intelectual e político, sendo também uma potência econômica. A monarquia francesa era um exemplo para o mundo. A corte, no entanto, era para ele um empecilho, pois os hábitos dela não se adequavam aos seus. Descartes era um tipo de pessoa que pagava para não se incomodar. A tranquilidade era um valor que colocava acima de tudo. Parte, então, para a Holanda, onde passa a viver. Esse país tinha desenvolvido a tolerância política, de modo que ele acreditava estar a salvo de qualquer tipo de sobressalto. Cauteloso, ele não fixa, contudo, residência, pois muda de morada tão logo se torna conhecido. O excesso de burburinho lhe tirava a calma que estimava necessária para o seu trabalho. A tranquilidade e o anonimato eram a sua preocupação central. De sua vida pessoal, sabe-se muito pouco. Até nisso, ele guardava discrição. Teve uma filha com sua governanta, Francine, que morreu aos cinco anos. Ele relata este episódio como o mais dramático de sua vida, do qual sempre se lembrará com dor. Depois, é como se a sua vida amorosa tivesse acabado. Não se tem, após, nenhuma outra notícia relevante concernente à sua vida, salvo aquelas que diziam respeito a seu itinerário filosófico e científico. Era tudo o que passou a contar para ele. O seu espírito irrequieto preocupava-se com muitos campos de conhecimento: da filosofia propriamente dita à medicina, passando pela matemática, pela física, pela música, pela moral e pela teologia. Em todos esses campos do saber, a sua contribuição foi relevante, em alguns tendo ganhado grande destaque. Não esqueçamos que, na época, a filosofia era uma atividade que abarcava esses diferentes tipos de conhecimento. Começava-se da filosofia para chegar a outras áreas de conhecimento, pois a questão dos princípios, das condições do conhecimento, era sempre a questão primeira. A física e a medicina eram também denominadas filosofia natural. Essa denominação sobreviveu ainda dois séculos, embora, nesse período, as diferentes ciências caminhassem a passos largos rumo à independência e à construção de princípios próprios, particulares. Em 1637, publica Discurso do método, obra inaugural da filosofia moderna, escrita em língua vulgar, isto é, o francês. Naquela época, as obras filosóficas eram escritas em latim e estavam voltadas para um público "douto", constituído do círculo exclusivo de iniciados às questões propriamente filosóficas. Descartes tinha, porém, um outro propósito, o de alcançar um amplo público, ou seja, todas as pessoas dotadas de "bom senso" ou "razão", de tal maneira que os assuntos humanos em geral estivessem ao alcance de cada um. Na verdade, antes de Kant, ele propugnava por um uso público da razão. E esse uso público da razão não admitia discriminações ou limitações de gênero. As mulheres, até então, não eram consideradas seres racionais no sentido completo do termo. Elas não eram interlocutoras do ponto de vista filosófico, da razão. Descartes tinha entre suas interlocutoras preferidas a princesa Elisabeth, da Alemanha, com a qual teve uma profícua correspondência filosófica. Ele a considerava um ser particularmente bem dotado racionalmente, superior a seus companheiros doutos, imersos que estavam, no seu entender, em preconceitos. Uma pessoa sem preconceitos era ideal para um pensador que começava filosoficamente com um "discurso do método". O novo discurso vem acompanhado da afirmação da igualdade de gênero entre os sexos. E como se tratava de um "discurso do método", a sua preocupação central residia no como conhecemos, no como podemos ter acesso a ideias verdadeiras, que fossem imunes ao erro, quando perseguidas segundo um procedimento metódico, sistemático. Ele se voltava contra todo pré conhecimento, todo preconceito, pois a maneira mediante a qual pensamos nos induz frequentemente ao erro, à falsidade, à mera aceitação do senso comum, daquelas idéias que foram sedimentadas no nosso modo habitual de pensar. Descartes propugnava por um pensamento jovem, aberto à crítica e aos questionamentos, capaz de exercer uma dúvida cética e de resistir à mesma dúvida graças a uma razão aberta ao questionamento de seus próprios princípios. Ele lutava, portanto, por um mundo onde a fé não ordenasse as relações humanas, mas ficasse confinada a um lugar específico, ao do culto de cada um, não invadindo as esferas dos costumes, da política, da filosofia e da ciência em geral. Moderno, ele defendia a ideia de que a razão deveria permear todos os domínios da vida humana, numa atividade libertadora, pois voltada contra as mais diversas formas de dogmatismo. Em 1641, aparece o livro Meditações metafísicas, outra grande obra de Descartes. Agora, ele escreve em latim, escolhendo como interlocutores a parte mais "letrada" da sociedade, aquela que se mostraria mais refratária às suas ideias. Para ser admitida nos meios escolares, universitários e religiosos, era fundamental que sua filosofia pudesse ser aceita nesse meio. Ademais, o desenvolvimento da ciência também dependia dessa aprovação. Neste livro, ele vai se defrontar com as grandes questões da Filosofia primeira, aplicando seu método ao conhecimento de Deus e à demonstração da imortalidade da alma, mediante a separação da existência desta como diferente da do corpo. Se o pensamento é uma propriedade essencial da alma, enquanto a extensão é do corpo, então um pode existir sem o outro. Sua demonstração é eminentemente lógica, procedendo passo a passo, de tal maneira que uma propriedade, o pensamento, é demonstrada como exclusiva da alma. Para ele, mente, espírito, alma e razão são palavras de mesma significação. Segue-se, então, um tipo de existência distinta daquela que se oriunda do corpo, uma forma de existência das idéeas e dos pensamentos. O corpo, por sua vez, será conhecido pela extensão, sendo que essa propriedade não poderá ser aplicada à alma. Logo, segue-se um outro tipo de existência, o que conhecemos comumente como material. Nesta obra, Descartes aprofunda as suas provas da existência de Deus, tornando o ser divino uma ideia que pode ser explorada racionalmente. E quando dizemos prova racional da existência de Deus, insistamos no termo racional, pois ela independe da fé que um indivíduo possa ou não ter. Basta que ele ponha a sua razão a funcionar para alcançar a mesma conclusão. Até um ateu pode, então, provar a existência de Deus. A contrapartida dessa formulação é que a razão começa a entrar no terreno exclusivo da teologia, em particular de uma teologia revelada ou dogmática. A razão já não admite limites, senão aqueles que ela mesma se dá. Essa disciplina chamar-se-á Teologia natural ou Filosofia primeira. Os objetos da religião, as crenças e os dogmas, e os princípios teológicos serão submetidos a uma avaliação racional. Nada mais será, doravante, considerado como sagrado. A razão não conhece mais limites e se aventura, inclusive, a conhecer a essência de Deus. A desmedida da razão constituirá doravante o cotidiano da filosofia, da ciência e de uma nova forma de sociedade. Este livro apresenta um aspecto culturalmente muito curioso, pois a sua publicação foi acompanhada de Objeções e Respostas de espíritos tão eminentes como Caterus, Mersenne (1588-1648), Hobbes (1588-1679), Arnauld e Gassendi (1592-1655). A obra já veio enriquecida de um debate com interlocutores, que não escondiam sua simpatia ou antipatia para com essas ideias e seu autor. Um agostiniano como Arnauld a considera uma obra maior, pois conseguiu provar como nenhuma outra a existência de Deus, abrindo caminho para a conversão dos ateus e incrédulos. Um "materialista matemático" como Hobbes questiona profundamente os seus pressupostos, pois o verdadeiro início da filosofia consiste na análise que siga o método galilaico dos corpos físicos e de suas formas de movimento. Aliás, a antipatia mútua entre Descartes e Hobbes durará até a morte de ambos. Um considera o outro como sempre "errando" filosoficamente. De qualquer maneira, as Objeções e Respostas possibilitaram uma discussão ampla e enriquecedora do texto cartesiano. Trata-se de um traço decisivo para a filosofia em geral a séria discussão, em função de argumentos, das posições de cada um, valendo o confronto das ideias. Paixões da alma é outro dos seus livros. O seu objeto são as paixões, os sentimentos, aquilo que o homem sente e pensa na sua condição de estar no mundo. Aqui, fala-se do homem propriamente dito, onde se conjugam as duas formas de existência, a da alma e a do corpo. O homem em situação, com seus sentimentos e sensações, é objeto desse texto, onde vemos atuantes conceitos que estimaríamos como morais. Estando a alma indissociavelmente unida ao corpo, não sendo ela como um "piloto alojado em seu navio", coloca-se a questão de como deve agir o homem virtuoso respondendo às paixões de seu corpo. Descartes publica ainda Princípios de filosofia, onde expõe toda a sua filosofia, visando torná-la um manual a ser utilizado nos colégios jesuítas. Aqui, temos um outro Descartes, preocupado com o seu sucesso no mundo, tendo escrito um manual com propósito escolar. A elaboração de manuais, diríamos hoje livros didáticos, tem uma preocupação voltada para a divulgação e apresentação de ideias, e não para sua pesquisa propriamente dita. O manual apresenta a filosofia sistematizada e acessível para um grande público. Ademais, tendo feito esse "compêndio", nosso filósofo se mostra particularmente atento às repercussões de seu pensamento, aos seus efeitos junto às mentes jovens e, sobretudo, aos seus colegas. Na verdade, ele pensa que, com esse livro, os manuais Aristotélico Tomistas seriam substituídos. A sua filosofia se mostraria, então, como a verdadeira filosofia. Qual não foi a sua decepção quando os seus antigos amigos jesuítas reagiram desfavoravelmente às suas intenções. O seu renome é grande. A filosofia cartesiana impõe-se como a nova filosofia, inaugurando o pensamento moderno. Aquilo que consideramos o "racionalismo" encontra neste filósofo uma de suas grandes expressões. Em que pese o seu desejo de solidão, ele é muito requisitado. Hesitando em aceitar um convite, o da rainha Cristina da Suécia, ele termina por embarcar para este país. O seu pensamento é particularmente admirado por essa rainha. Apesar da honra que lhe era concedida, a viagem foi várias vezes postergada e quase anulada. Ao embarcar, nosso filósofo não deixou de sentir um certo desconforto. Os rigores do inverno sueco, com efeito, não lhe fizeram bem. A rainha tinha, ademais, o estranho hábito de recebê-lo de madrugada para suas tertúlias filosóficas. Numa dessas reuniões, Descartes contrai uma pneumonia que lhe será fatal. O seu organismo foi ainda mais debilitado por ter sofrido uma sangria, então um método médico muito utilizado. Seja dito de passagem que ele não acreditava neste tipo de procedimento, porém terminou anuindo a ele, apressando, dessa maneira, o fim de seus dias. Ele morre em Estocolmo, em 1650.
Depois de sua morte, a sua correspondência começou a ser publicada por seus amigos e admiradores. Nela, ele falava mais livremente sobre grandes questões filosóficas e teológicas, sem a preocupação com a censura e a Igreja. Suas posições teológicas não foram, porém, do agrado geral, pois a razão entrava, mais profundamente, na análise de dogmas religiosos como o da eucaristia e o da criação do mundo segundo a Bíblia. Sua intenção não deixava de ser ousada, pois ele procurava compatibilizar a sua teoria da criação do mundo com a da Bíblia. O desagrado nos setores da hierarquia católica foi grande. Aqueles que o apoiam já haviam morrido e a sua discrição tinha sido posta de lado. No ano de 1663, uma parte de seus livros entra no Index da Igreja, sendo proibida. A razão alegada foram os seus exercícios metafísicos em assuntos religiosos e teológicos. 1596 (31 de março) – Nascimento de René Descartes em La Haye, na província francesa de Touraine (hoje, essa comuna da região do Indre-et-Loire chama-se Descartes). O pai é conselheiro no parlamento da Bretanha. A mãe morre um ano após seu nascimento. Descartes é educado em La Haye pela avó. 1607-1615 – Estudos no colégio La Flèche, dos jesuítas, fundado em 1604 por Henrique IV. 1611– Por ocasião de uma cerimônia, é lido no La Flèche um poema seu que relata a observação por Galileu dos satélites de Júpiter.
1616 (9 e 10 de novembro) – Bacharelado e licenciatura em direito, em Poitiers (as teses foram redescobertas em 1986, em Poitiers). 1618 - Descartes junta-se ao exército de Maurício de Nassau, em Breda, onde irá conhecer Isaac Beeckman (1588-1637). Trabalhos de matemática, de música (Compendium musicae), de hidrostática e de física geral. 1619 – Viagem pela Alemanha, passando pela Dinamarca. Descartes assiste à coroação do imperador Fernando II em Frankfurt. Três sonhos, datados de 10 de novembro, revelam a Descartes os "fundamentos de uma ciência admirável"; projetos de uma reforma do saber, especialmente em matemática (classificação das curvas), expostos em cartas a Isaac Beeckman. 1620-1625 – Viagens pela França e pela Itália. Em 1621, Descartes abandona o exército. Nesse período empreende vários tratados, dos quais restam apenas algumas anotações. 1625-1627 – Temporada em Paris, onde Descartes faz amizade com Mersenne, Guez de Balzac, além de vários estudiosos, engenheiros e teólogos. Em novembro de 1627, assiste na casa do núncio do papa a uma conferência de Chandoux, que professa uma filosofia nova, e fica conhecendo o cardeal Bérulle, a quem expõe uma "regra universal" ou "método natural". 1627-1628 – Viagem à Bretanha e às Províncias Unidas (a atual Holanda), onde se instala. Supõe-se geralmente que a composição de Regulae ad directionem ingenii (Regras para a direção do espírito), que ficaram inacabadas, remonta a esse período. 1629 (26 de abril) – Descartes se inscreve na universidade de Franeker, na Frísia. Empreende durante o ano um Tratado de metafísica, que interrompe para o estudo dos meteoros. Paralelamente, interessa-se pela manufatura dos vidros. Instala-se em Amsterdã, no outono, e começa a fazer dissecções com o médico Plemp. Empreende uma física completa, que será Tratado do mundo (juntamente com Tratado do homem). 1630 – Inscrição na universidade de Leyde (27 de junho). Encontro com o matemático Golius, que lhe irá propor, como a outros matemáticos da época, o problema dito de Pappus. Descartes envia sua solução em janeiro de 1632. 1633 – Condenação de Galileu em Roma. Descartes abandona pouco depois seu projeto de publicar, em vida, Tratado do mundo. 1633-1636 – Temporada em Amsterdã. Nascimento, em 1635, da filha Francine (que morrerá em 1640), cuja mãe, Hélène, é uma empregada doméstica. Temporada em Utrecht, no verão de 1635. Descartes se instala em Leyde, na primavera de 1636, para fazer imprimir e terminar a redação de Discurso do método e de Ensaios (Dióptrica, Meteoros e Geometria). 1637 (8 de junho) – Término da impressão da obra. Descartes oferece a Huygens, em outubro, uma carta sobre a Mecânica (Explicação das máquinas com a ajuda das quais se pode com uma pequena força erguer um fardo muito pesado). 1639-1640 – Redação de Meditationes de prima philosophia. Mersenne recolhe objeções junto a filósofos e teólogos. 1640 – Participação na querela matemática de Stampioen e de Waessenaer, relativa à extração da raiz cúbica dos binômios. Morte do pai de Descartes, em 17 de outubro. 1641 – Publicação em Paris de Meditationes de prima philosophia qua Dei existentia et animae immortalitas demonstratur (Meditações de filosofia primeira em que são demonstradas a existência de Deus e a imortalidade da alma), terminadas de imprimir em 28 de agosto de 1641. Descartes se instala em Endegeest, próximo a Leyde, onde ficará até abril de 1643. 1642 – Início da querela de Utrecht. Descartes defende Regius contra Voetius, reitor da universidade de Utrecht. Condenação, em 15 de março de 1642, da nova filosofia pelos magistrados de Utrecht. Essa querela irá durar até 1648. 1643 Martin Shoock, partidário de Voetius, publica seu Admiranda Methodus, que afirma, em conclusão, que a filosofia cartesiana conduz ao ceticismo, ao ateísmo e à loucura. Descartes publica uma Carta a Voetius. Início da correspondência com a princesa Elisabeth. 1644 –Temporada na França. Publicação de Principia philosophiae, acompanhando a tradução latina de Discurso, Dióptrica e Os meteoros (Geometria só será traduzida em latim em 1649).
1645-1646 – Descartes empreende um tratado sobre as paixões da alma, a pedido de Elisabeth.
1647– Publicação em Paris de Meditações metafísicas, traduzidas pelo duque de Luynes. As objeções e as respostas, abreviadas, são traduzidas por Clerselier. Publicação, no verão, de Princípios da filosofia, traduzidos pelo abade Picot, e acompanhados de uma carta prefácio ao tradutor. De junho a novembro, temporada na França. 1647-1648 – Redação de Descrição do corpo humano.
1648 Carta apologética aos magistrados de Utrecht. Texto polêmico contra Regius, seu ex-discípulo. Conversa com F. Burman, que será reunida em notas e publicada no século 20. De maio a agosto, Descartes faz mais uma temporada na França. Morte de Mersenne, em setembro.
1649 (setembro) – Às instâncias da rainha Cristina, Descartes resolve reunir-se à corte de Estocolmo, onde suas lições são programadas para as cinco horas da manhã. Publicação, em novembro, de Paixões da alma. 1650 (11 de fevereiro) – Descartes morre de pneumonia em Estocolmo. O inventário dos papéis por ele deixados contém a menção de textos cujo teor exato e a data são incertos. Entre os inéditos, Compendium Musicae é publicado já em 1650; três volumes de cartas, em 1657, 1659 e 1667; a tradução latina de O homem,em 1662, e o original francês, em 1664; O mundo ou tratado da luz, em 1664, e, em 1701, Regulae. Desde o século 17 publicam-se traduções, em inglês e em holandês principalmente, que aparecem às vezes antes dos originai. Do site www.lpm.com.br. Abraço. Davi.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Bhagavad Gita. Parte III

Karma Yoga. O Reto Cumprimento da Ação. Tudo o que o homem faz com motivos pessoais, é sem valor para o Eterno. Para atingirmos a salvação e a união com Deus, havemos de agir sem motivos egoístas, sem tomar em consideração o nosso próprio Eu Pessoal, entregando-nos à Vontade Divina como um instrumento na mão de Deus e, assim, cumprindo o nosso dever por ser dever, sem pedir recompensas.

"Falou Arjuna, o príncipe Pândava, a Krishna, o Senhor Bem Aventurado, dizendo: Ó Conferidor do Saber! Disseste-me que o conhecimento é até mais importante do que a ação; se assim é, por que me incitas à ação? Por que queres que eu entre nesta horrível batalha com meus parentes e amigos?

Tuas ambíguas palavras me trazem dúvidas e me confundem o entendimento. Fala-me, peço-te, em frases claras e certas, qual é o caminho que me conduzirá a Paz e à Satisfação?

Respondeu Krishna, o Divino: Como já te disse, ó nobre príncipe, há dois caminhos que vão à Perfeição. O primeiro é o caminho do Conhecimento (1), e o segundo o da ação (2). Uns preferem o primeiro, e outros, o segundo desses dois caminhos; sabe, porém, que considerados do alto, ambos são um só caminho. Escuta!  (1). Sankhya. (2). Yoga.

Engana-se quem pensa que, esquivando-se das ações e persistindo na inatividade, escapa dos resultados da ação. Quem nada começa, não pode entrar no estado da Paz Eterna; a inatividade não conduz à Perfeição. E, na realidade, nem há coisas que se possam designar pela palavra inatividade; pois tudo, no Universo, está em atividade constante, e nada pode subtrair-se à lei geral.

Ninguém pode ficar inativo nem um instante; pois as leis de sua natureza o impelem constantemente a fazer alguma coisa, queira ele ou não; o seu corpo ou a sua mente, ou ambos, sempre estão ocupados. Se alguém se assenta para reter e dominar os seus sentidos e os órgãos de atividade, mas, em sua mente, está apegado aos objetos dos sentidos, ilude-se e merece o nome de hipócrita.

Porém, é digno de ser chamado sábio e nobre aquele que sujeitou os seus sentidos a Deus, pelo amor ardente ao Altíssimo, e expressa o seu reto pensar em reta ação; ele cumpre o seu dever, sem esperar recompensas e, ocupando-se de objetos dos sentidos, não se deixa dominar por eles.

Realiza o bem que te compete fazer no mundo; cumpre bem as tuas tarefas; ocupa-te da obra que encontras, para fazê-la o melhor possível; assim será muito bom para ti. Atividade é melhor do que ociosidade. A atividade fortalece a mente e o corpo, e conduz a uma vida longa e norma; a ociosidade enfraquece tanto o corpo como a mente, e conduz a uma vida impotente e anormal, de duração incerta.

Os homens estão aferrados a este mundo, porque agem com o fim de obter recompensa e ganho; estão apegados aos objetos de seus desejos, e, por isso, cansam-se na escravidão dos sentidos. Para se libertarem, hão de agir com resignação, movidos pelo puro amor ao Bem. Realiza, pois, ó Arjuna! a tua tarefa, para cumprires o dever que o Eu Real te impõe, e não por qualquer outro motivo.

Lembras-te das doutrinas antigas que narram da criação do mundo, e das palavras que o Criador disse aos homens que tinha criado! Ouve, e as repetirei: Pela adoração e pelo sacrifício mútuo, crescereis vos  multiplicarei. Pela resignação, obtereis a satisfação dos vossos desejos.

Lembrai-vos da Fonte de todas as coisas, do Distribuidor dos objetos desejados. Pensai no que é Divino, para que o Divino pense em vós. Se nutrirdes, com o sacrifício de vós mesmos, os deuses, eles vos darão o desejado alimento espiritual. Quem recebe os dons dos deuses e não lhes mostra a gratidão, é como um ladrão.

Os bons homens que retém para si só aquilo que resta depois de terem oferecido à Divindade tudo o que é divino, são livres de todos os pecados; porém, os maus que querem agir só para si mesmos, vivem em pecado (...).

Todas as criaturas (tanto espirituais como as materiais) vivem, enquanto se alimentam. O alimento cresce com a chuva. A chuva é mandada pelos deuses em resposta aos desejos, às preces e as súplicas dos homens. Os desejos, as preces e as súplicas dos homens são formas de ações; e as ações procedem da Vida Una que tudo penetra.

Sabe que toda ação tem sua origem em Bhrama. Bhrama é a revelação da Indivisível Unidade. Por isso, Bhrama, que tudo penetra, é sempre presente nas tuas ações. É vã e vergonhosa a vida do homem que, vivendo neste mundo de ação, tenta abster-se da ação; quem, gozando o fruto da ação do mundo ativo, não coopera, mas vive em ociosidade. Aquele que, aproveitando a volta da roda, em cada instante de sua vida, não quer pôr a mão à roda para ajudar a movê-la, é um parasita e um ladrão que toma, sem dar coisa alguma em troca.

Sábio é, porém, aquele que cumpre bem os seus deveres e executa as obras que são para fazer-se no mundo, renunciando a seus frutos e concentrado na ciência do Eu Real. Tal homem, elevado acima dos mundos, não se inquieta por saber se alguma coisa no mundo acontece ou não acontece; achando em si mesmo tudo de que precisa, não tem necessidade de refugiar-se em nenhum ser criado, para nele achar apoio. Participando de tudo e agindo, em tudo, de acordo com os ditames do dever, de nada depende, porque a sua fé, esperança e ciência se fixam no Imperecível, que é o único apoio seguro.

Faz, pois, o que deve ser feito; porém, sem egoísmo e sem considerações pessoais. Quem age assim e cumpre o seu dever, livre de motivos egoístas, e sem depender de alguém, caminha, com passos firmes, diretamente à Consciência Superior, ao plano espiritual. Janaka e muitos outros atingiram o estado de perfeição por  meio de boas obras e reta ação. Trabalha, pois, também tu por amor à humanidade.

Quando um nobre homem faz alguma coisa, os outros o imitam; o exemplo que ele dá, é seguido pelo povo. Segue, portanto, os melhores de tua raça. Toma-me por exemplo, ó príncipe. Nada há, no Universo dos Universos, que eu deseje ou que seja necessário que para mim não se faça; nem há coisa alguma atingível que eu não tenha já atingido. E, contudo, estou em constante ação e movimento, agindo sempre e incessantemente.

Os homens, ó Arjuna, seguem sempre o meu exemplo; por isso, se eu deixasse de ser ativo, estes Universos cairiam em ruína. Se eu não agisse, começaria a reinar uma confusão Universal, e a minha inatividade seria a causa da destruição do gênero humano.

Como os que carecem ainda da Luz Espiritual fazem esforços para alcançar o que desejam, sendo a esperança de recompensa o estímulo de suas ações; assim deve o home desenvolvido e iluminado agir abnegadamente, pela causa do bem comum e conforme a Lei Universal.

Mas não deves confundir, com estas ideias, as cabeças dos homens inexperientes, cujo coração ainda está apegado às obras. Deixa-os fazer o melhor que podem; mas tu e os outros sábios, devem agir em harmonia comigo, animando os outros à atividade, e dando-lhes o exemplo.

Toda a atividade e todas as ações provêm dos movimentos das forças da Natureza. O insensato, que é iludido pela presunção e vaidade, pensa que ele é o ator e diz: Eu faço isto, eu fiz aquilo. Mas quem conhece a verdade, sorri, porque detrás da personalidade, enxerga a fonte real da ação, a causa e o efeito.

Entretanto, os que conhecem a verdade inteira, devem acautelar-se para não ofuscarem com ela o fraco entendimento daqueles que ainda não estão preparados para conhecê-la, por que  as doutrinas prematuras poderiam confundir e desviar estes da sua atividade.

Tu, porém, ó Arjuna, liberta-te de todos os cuidados, de todo medo e, igualmente, do egoísmo e das esperanças pessoais; em Meu nome (3), faz tudo o que hás de fazer, concentrando todos os teus pensamentos no Altíssimo! Os homens que, cheios de fé e confiança, seguirem estes meus ensinos e não tiverem dúvidas, alcançarão a liberdade também pelas obras e ações.  (3). Isso é, em nome de Deus. Krishna é a Encarnação Divina.

Porém, aqueles que rejeitam os ensinos da Verdade e agem contra eles, são insensatos e iludidos, caem em confusão e inquietações. Cada ser age em conformidade com a sua natureza; também o sábio procura o que se harmoniza com a sua própria natureza, de acordo com aquilo que é o mais alto no seu caráter.

Ninguém pode escapar às leis naturais. Os objetos sensuais são os senhores dos sentidos, e atraem ou repelem o coração dos homens, enchendo-o de afeição ou de aversão. Não te deixes dominar por nenhuma destas duas forças, porque ambas são obstáculos no caminho e o sábio as subjuga ambas.

Finalmente, lembra-te que é melhor cumprir a própria tarefa, ainda que seja humilde e insignificante, do que querer fazer a tarefa de um outro, por mais nobre e excelente que seja. É melhor morrer no cumprimento do seu dever, do que viver negligenciando-o e querendo fazer o que a outros compete fazer.

Pergubta Arjuna: Mas fala-me, ó Senhor, que força misteriosa é essa que, muitas vezes, parece obrigar o homem a praticar um mal, até contra a própria vontade! Explica Krishna: Esta tentação, ó príncipe, é a essência dos desejos que o homem em si acumulou (4). Ela é o seu maior inimigo, e chama-se Paixão; nasce da natureza carnal, cheia de pecado e de erro, e ataca o homem para o consumir.  (4).  Em sanscrito dá-se o nome de Kama. Não confundir com Karma.

Como a fumaça envolve a chama, a ferrugem o metal, o útero a criança para nascer; assim o mundo é envolvido por este inimigo, chamado Desejo. O Desejo impede o verdadeiro saber; ele é como um fogo devorador, difícil de extinguir-se. Os sentidos e a mente são a sede; e, por meio deles, confunde o discernimento e obscurece o conhecimento da verdade.

Antes de tudo, devas, portanto vencer esse inimigo de tua alma. Domina os teus sentidos e os seus órgãos, e afugenta de ti esse gerador do mal. Os sentidos são grandes e poderosos; porém, maior e mais poderosa é a mente; maior do que esta é a Razão, e o mais forte é o Eu Real, A Luz da Divindade (5).  (5). Os sentidos, que são a sede do desejo, designam-se, em sânscrito pelo termo Kama; a mente chama-se Manas; a Razão Iluminada é Budhi; o Eu Real, a Consciência da Divindade é Atma.

Reconhecendo, pois, o Eu Real como o Senhor mais poderoso, domina pelos seu poder o Eu Pessoal, e assim subjuga o monstro de desejo; esta tarefa é difícil, mas não impossível. Combate o desejo, domina-o pela força da Luz Divina do Eu Real; não o deixes ser teu Senhor, mas reduzi-o a ser teu escravo!". Abraço. Davi.







domingo, 14 de dezembro de 2014

Pai.

Pai
Pode ser que daqui algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez

Pai
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre esses 20 ou 30
Longos anos em busca de paz

Pai
Pode crer eu tô bem, eu vou indo
Tô tentando vivendo e pedindo
Com loucura pra você renascer

Pai
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Pra falar de amor pra você

Pai
Senta aqui que o jantar tá mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensina esse jogo da vida
Onde vida só paga pra ver

Pai
Me perdoa essa insegurança
É que eu não sou mais aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos seus braços você fez segredo
Nos seus passos você foi mais eu

Pai
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Pra pedir pra você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar

Pai
Você foi meu herói, meu bandido
Hoje é mais muito mais que um amigo
Nem você, nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz

Compositor brasileiro Fábio Junior (1953-    )

sábado, 13 de dezembro de 2014

Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atras.

Um dia, numa rua da cidade
Eu vi um velhinho
Sentado na calçada
Com uma cuia de esmola
E uma viola na mão
O povo parou para ouvir
Ele agradeceu as moedas
E cantou essa música
Que contava uma história
Que era mais ou menos assim:

Eu nasci!
Há dez mil anos atrás
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais...(2x)

Eu vi Cristo ser crucificado
O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo
Pra pagarem seus pecados
Eu vi!...

Eu vi Moisés
Cruzar o Mar Vermelho
Vi Maomé
Cair na terra de joelhos
Eu vi Pedro negar Cristo
Por três vezes
Diante do espelho
Eu vi!...

Eu nasci! (Eu nasci!)
Há dez mil anos atrás
(Eu nasci há 10 mil anos!)
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais...(2x)

Eu vi as velas
Se acenderem para o Papa
Vi Babilônia
Ser riscada no mapa
Vi Conde Drácula
Sugando sangue novo
E se escondendo atrás da capa
Eu vi!...

Eu vi a arca de Noé
Cruzar os mares
Vi Salomão cantar
Seus salmos pelos ares
Eu vi Zumbi fugir
Com os negros pra floresta
Pro Quilombo dos Palmares
Eu vi!...

Eu nasci! (Eu nasci!)
Há dez mil anos atrás
(Eu nasci há 10 mil anos!)
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais...(2x)

Eu vi o sangue
Que corria da montanha
Quando Hitler
Chamou toda Alemanha
Vi o soldado
Que sonhava com a amada
Numa cama de campanha
Eu li!

Ei li os símbolos
Sagrados de umbanda
Eu fui criança pra
Poder dançar ciranda
Quando todos
Praguejavam contra o frio
Eu fiz a cama na varanda...

Eu nasci! (Eu nasci!)
Há dez mil anos atrás
(Eu nasci há 10 mil anos atrás!)
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais...(2x)
Não! Não!

Eu tava junto
Com os macacos na caverna
Eu bebi vinho
Com as mulheres na taberna
E quando a pedra
Despencou da ribanceira
Eu também quebrei a perna
Eu também...

Eu fui testemunha
Do amor de Rapunzel
Eu vi a estrela de Davi
Brilhar no céu
E para aquele que provar
Que eu tô mentindo
Eu tiro o meu chapéu...

Eu nasci! (Eu nasci!)
Há dez mil anos atrás
(Eu nasci há 10 mil anos atrás!)
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais...(3x)

Compositor brasileiro Raul Seixas (1945-1989)

Provérbios VI

"Filho, você e fiador de alguém? Deu a sua palavra e ficou preso na promessa que fez? Então, meu filho, agora você está nas mãos dessa pessoa.

Mas há um jeito de sair disso vá logo e peça que ela livre você dessa obrigação. Não durma, nem descanse, saia dessa armadilha, como um passarinho ou uma gazela escapa do caçador.

Preguiçoso, aprenda uma lição com as formigas! Elas não têm líder, nem chefe, nem governador, mas guardam comida no verão, preparando-se para o inverno.

Preguiçoso até quando você vai ficar deitado? Quando vai se levantar? Então o preguiçoso diz: Eu vou dormir somente um pouquinho, vou cruzar os braços e descansar mais um pouco.

Mas enquanto ele dorme, a pobreza o atacará como um ladrão armado. Os homens maus e sem valor vivem dizendo mentiras. Piscam e fazem gestos para enganar os outros.

As suas mentes perversas estão sempre planejando o mal, e eles espalham confusão por toda a parte. Por isso a desgraça cairá de repente sobre eles, e não poderão escapar.

Existem sete coisas que o Senhor Deus detesta e que não pode tolerar: 1. O olhar orgulhoso. 2. A língua mentirosa. 3. A mente que faz planos perversos. 4. Mãos que matam gente inocente. 5. Pés que se apressam para fazer o mal. 6. A testemunha falsa que diz mentiras. 7. A pessoa que provoca brigas entre amigos.

Filho, faça o que o seu pai diz e nunca esqueça o que a sua mãe ensinou. Guarde sempre as suas palavras bem gravadas no coração.

Os seus ensinamentos o guiarão quando você viajar, protegerão você de noite e aconselharão de dia. As suas instruções são uma luz brilhante, e a sua correção ensina a viver.

Elas livrarão você da mulher imoral e das suas palavras sedutoras. Não seja tentado pela sua beleza, nem caia na armadilha dos seus olhos tentadores.

Qualquer homem pode ter um prostituta por pouco dinheiro, mas o adultério custará a ele a sua própria vida.

Será que você pode carregar fogo no colo sem queimar a roupa? Será que você pode andar em cima de brasas sem queimar os pés?

O homem que dorme com a mulher de outro corre esse mesmo perigo. Quem fizer isso terá de sofrer muito.

Quem rouba comida para matar a fome não é desprezado. Porém, se é apanhado, tem de pagar sete vezes mais; ele precisa entregar tudo o que tem.

No entanto o homem que comete adultério não tem juízo; ele está se destruindo  a si mesmo. Passará vergonha, levará uma surra e ficará desmoralizado para sempre.

Porque o ciúme faz o marido ficar furioso, e a sua vingança não tem limites. Ele não aceitará pagamento; e mesmo uma porção de presentes não acabará com a sua raiva". Abraço. Davi.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Bhagavad Gita. Parte II

"A consequência de tal corrupção é o aniquilamento dos destruidores da raça e dos direitos eternos da família.

Os homens que destroem a religião da família, vão para o inferno. Assim nos ensinam os nossos livros sagrados.

Ai de mim! Ai de nós, que nos estamos preparando para cometer o horrível crime de matar os próprios parentes e consanguíneos pela bagatela de obter o domínio pelo desejo do poder!

Eu preferiria entregar o meu peito descoberto às armas dos Kurus, e deixá-los beber o sangue do meu coração. Eu preferiria esperar a sua chegada, desarmado, e receber deles o golpe mortal, sem me defender. De certo, isto seria melhor para mim do que cometer esse horrível crime! Ai de mim! Ai! de nós todos!

Assim clamando, sentou-se Arjuna no banco do carro e deixou cair o arco e as flechas da sua mão, todo entregue à aflição e ao desespero que lhe consumiam o coração.

Neste capítulo se ensina como se pode, por meio da meditação filosófica, obter a verdadeira concepção do Universo, isto é, o conhecimento da nulidade e instabilidade de todas as formas que existem no mundo dos fenômenos, em contraste com o Ser Eterno, e como este conhecimento nos conduz ao caminho da liberdade espiritual e da imortalidade.

Continuou Sanjaya a contar: Krishna, cheio de amor, piedade e compaixão, disse a Arjuna, vendo a sua pungente tristeza e as lágrimas nos seus olhos:

Donde te vem, ó Arjuna, essa pusilanimidade? Esta fraqueza, indigna de um homem, faz-te infeliz, pois te fecha as portas do céu (1).  (1). O homem que está cheio de medo e dúvidas afasta-se por si mesmo do céu da bem aventurança, que é próprio à alma que conhece a verdade.

Não te entregue a ela; sacode de ti essa cisma desprezível; levanta-te resoluto e bravo, Seis vencedor de inimigos Um.

Respondeu Arjuna: O meu caríssimo Um como posso eu atacar e combater a Bishma e Drona, quando a ambos respeito e estimo?!

Seria melhor, para mim, comer o pão seco e sem sabor de mendigo, do que ser o instrumento de morte a estes nobres e respeitáveis homens, que eram meus preceptores e mestres! É verdade que eles são ávidos dos meus bens; mas como poderia eu gozar a riqueza e o poder, sobre os quais há manchas de sangue dos meus queridos?!

Não posso dizer se Seis melhor que nós os vençamos ou que eles nos vençam a nós. Mas sei que eu visse morrer os meus parentes e amigos, os filhos do rei Dhritarashtra e o povo de Kuru.

Compaixão e ânsia comprimem o meu coração, e a minha mente vacila diante do problema que se lhe apresenta. Não sei o que devo fazer. Dissipa tu, ó Krishna, estas dúvidas; dize-me, qual é o meu dever. Eu sou teu discípulo; prostrado perante Ti, peço que dês as instruções de que careço.

Tão confuso está o meu entendimento, que não posso descobrir nada que acalme a febre da minha mente; o meu interior está em fogo que seca as minhas faculdades. Ainda que eu ganhasse um reino como  o sol excede às estrelas, ou conseguisse o poder dos deuses e o domínio sobre os exércitos celestes, minha aflição não diminuiria. Não, eu não quero combater.

Continua Sanjaya: Depois de ter falado assim ao Senhor da Criação, Arjuna caiu em silêncio. Então Krishna, sorrindo ternamente, dirigiu ao desanimado as seguintes palavras, achando-se ambos no meio do espaço entre os dois exércitos:

Palavras do Verbo Divino (2). Sem necessidade te entristeces e afliges; contudo, as tuas palavras tem grãos de verdade. Elas exprimem a sabedoria do mundo interior (esotérica), mas não satisfazem à mente interior; são, pois, apenas a expressão de uma parte da verdade. Os sábios não se entristecem nem por causa dos vivos em por causa dos mortos. (2). Krishna é o representante do Verbo Divino ou Logos o Christo em nós.

Sabe, ó príncipe de Pându, que nunca houve tempo em que não existíssemos eu ou tu, ou qualquer destes príncipes  da terra; igualmente, nunca virá tempo em que algum de nós deixe de existir. (3).  (3). O que no homem é divino, o seu Ser Verdadeiro, é Eterno. Não nasce nem morre, e forma a sua individualidade, que aparece periodicamente, vestida de corpo material, mas é independente dele.

Assim como a alma, vestindo este corpo material, passa pelos estados de infância, mocidade, virilidade e velhice, assim, no tempo devido, ela passa a um outro corpo, e em outras encarnações, viverá outra vez. Os que possuem a sabedoria da doutrina esotérica (interior), sabem isto é, não se deixam influenciar pelas mudanças a que está sujeito este mundo exterior.

Os sentidos dão-te, pelas apropriadas faculdades mentais, o sentimento do calor e do frio, do prazer e da dor. mas estas mudanças vêm e vão, porque pertencem ao temporário, impermanente, inconstante. Suporta-as com equanimidade, valentia e paciência, ó príncipe!

O homem que não se deixa mais atormentar por essas coisas, que se conserva firme e inabalável no meio do prazer e da dor, que possui a verdadeira igualdade de ânimo; esse, crê-me, (em Krishna) entrou no caminho que conduz à imortalidade.

Aquilo que é irreal, ilusório, não tem em si o Ser Real, não existe na realidade, e sim só na ilusão; e aquilo que é o Ser Real, nunca cessa de Ser, nunca pode deixar de existir, apesar de todas as aparências contrárias. Os sábios, ó Arjuna, fizeram pesquisas relativas a isto e descobriram a verdadeira Essência e o sentido interior das coisas. (4).  (4). Só aquele Ser, no homem que é penetrado pela Verdade, pode conhecê-la, porque a Verdade é a sua essência e conhece-se, no homem, a si mesma.

Sabe que o Ser Absoluto, de que todo o Universo tem o seu princípio, está em tudo, e é indestrutível. Ninguém pode causar a destruição desse Imperecível. (5).  (5). O corpo é o instrumento do espírito, é a sombra incorporizada, em que a Luz se esforça por manifestar-se.

Estes corpos caducos, que servem como envoltório para as almas que os ocupam, são coisas finitas, coisas do momento, e não são o verdadeiro homem real. Eles perecem, como todas as coisas finitas; deixa-os perecer, ó principe de Pandu, e, sabendo isto, prepara-te para o combate.

Aquele que pensa, em sua ignorância: Eu mato ou Eu serei morto, procede como criança que não tem conhecimento da verdade, porque o que É na realidade, é eterno, e o Eterno não pode matar nem ser morto.

Conhece esta verdade, ó príncipe! O Homem Real, isto é, o Espírito do homem, não nasce nem morre. Inato, imortal, perpétuo e eterno, sempre existiu e sempre existirá. O corpo pode morrer ou ser morto e destruído; porém, aquele que ocupou o corpo, permanece depois da morte deste. (6).   (6). O Espírito é a vida mesma; isto é, a Vida Eterna, de que a vida exterior, corporal, é só um reflexo, uma manifestação de ordem inferior.

Quem conhece a verdade de que o Homem Real é eterno, indestrutível, superior ao tempo, à mudança e aos acidentes, não pode cometer a estultice de pensar que pode matar ou ser morto.

Como a gente tira do corpo as roupas usadas e as substitui por novas e melhores, assim também o habitante do corpo (que é o Espírito). tendo abandonado a velha morada mortal, entra em outra, nova e recém preparada para ele. (7).  (7). A reencarnação é uma lei universal em toda a natureza. O espírito do homem desencarnado volta, depois de um tempo de descanso, a ocupar um novo corpo, formando assim nova pessoa. Enquanto a alma não tem conhecimento espiritual de si mesma este processo é inconsciente.

Em sua essência, é invisível, inconcebível, incognoscível (8). Sabendo isto, não te entregues à aflição pueril!  (8). Isto é, para o intelecto exterior, mas é cognoscível para a percepção interior de homem espiritualmente iluminado.

Se, porém, não o crês, e pensas que nascimento e morte são reais, mesmo assim te pergunto: porque te lamentas e entristeces?

Pois, em verdade, a morte deriva do nascimento, e o nascimento demanda da morte. Não te aflijas, pois, pelo inevitável.

Aqueles que carecem da Sabedoria Interior, ignoram de onde vimos e para onde vamos; conhecem só aquilo que é transitório. No Ser Eterno, todas as coisas são compreendidas no estado invisível; depois se fazem visíveis, e na morte tornam a ser invisíveis. Por que então, lamentar?

Quanto à alma, o Homem Real, Espírito ou Ser Eterno, alguns o tomam por  coisa maravilhosa; outros ouvem falar e falam dele como de uma maravilha, com incredulidade e sem compreensão. Mas a mente mortal não compreende esse mistério, nem o conhece em sua natureza verdadeira e essencial, apesar de tudo o que foi dito, ensinado e pensado a seu respeito (9).  (9). Só pode compreender o Ser Eterno, quem o realizou em si mesmo.

O Espírito, esse Homem Real que habita o corpo, é invulnerável e indestrutível: é a vida mesma. Não há, pois, motivo para te abandonares à aflição e tristeza.

Deves estar atento ao teu dever. Tu, que és um príncipe da casa dos guerreiros, tens por dever combater com resolução e heroísmo.

O dever de um soldado é combater, e combater bem. O combate justo honra o guerreiro e abre-lhe a porta do céu.

Se desistires da legítima luta pela verdade e pelo direito, cometerás um grande crime contra a tua honra, contra o teu dever e contra o teu povo.

Os homens de perto e de longe falarão de ti com desprezo, classificando de vergonhoso o teu proceder; e a vergonha e a desonra são piores do que a morte para quem é de nobre nascimento.

Todos os generais pensarão que foi por medo que fugistes do campo de batalha, e te tratarão como covarde; e aqueles que até agora te estimam, desprezar-te-ão.

Os teus inimigos espalharão má fama a teu respeito; com burla e com desdém falarão de ti e de tua falta de coragem. Poderia acontecer-te coisa pior?".  Abraço. Davi.