segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

OS ANALECTOS - LIVRO I

Confucionismo. www.rl.art.br. OS ANALECTOS – LIVRO I. Texto de Confúcio (551 a.C. 479). 1. O Mestre disse: “Não é um prazer, uma vez que se aprendeu algo, colocá-lo em prática nas horas certas? Não é uma alegria ter amigos que vêm de longe? Não é cavalheiresco não se ofender quando os outros falham em apreciar suas habilidades”? 2. Yu Tzu disse: “É raro um homem que é bom como filho e obediente como jovem ter a inclinação de transgredir contra seus superiores; não se sabe de alguém que, não tendo tal tendência, tenha iniciado uma rebelião. O cavalheiro dedica seus esforços às raízes, pois, uma vez que as raízes estão estabelecidas, o Caminho daí brotará. Ser um filho bom e um jovem obediente é, talvez, a raiz do caráter de um homem”. 3. O Mestre disse: “É raro, de fato, que um homem com palavras ardilosas e um rosto bajulador seja benevolente”. 4. Tseng Tzu disse: “Todos os dias, examino a mim mesmo sob três aspectos. Naquilo que fiz pelo bem-estar do outro, falhei em fazer o meu melhor? Ao tratar com meus amigos, falhei em ser fiel às minhas palavras? Ensinei aos outros algo que eu próprio não tenha experimentado”? 5. O Mestre disse: “Ao governar um reino com mil carruagens, trate dos negócios com reverência e seja coerente com aquilo que fala; evite gastos excessivos e ame os seus semelhantes; empregue o trabalho do povo apenas nas épocas certas”. 6. O Mestre disse: “Um rapaz deveria ser um bom filho em casa e um jovem obediente fora de casa, parcimonioso com a fala, mas coerente com o que diz, e deveria amar todo o povo, mas cultivar a amizade dos seus semelhantes. Se lhe sobrar alguma energia dessas ações, que ele a dedique a tornar-se um homem culto”. 7. Tzu-hsia disse: “Eu diria que recebeu instrução aquele que aprecia homens de excelência enquanto outros homens apreciam belas mulheres; que se dedica ao máximo ao servir os seus pais e oferece a sua pessoa a serviço do seu senhor: e que, nas relações com seus amigos, é coerente àquilo que diz, mesmo que afirme que nunca recebeu educação”. 8. O Mestre disse: “Um homem a quem falta seriedade não inspira admiração. Um cavalheiro que estuda não costuma ser inflexível. “Estabeleça como princípio fazer o melhor pelos outros e ser coerente com o que diz. Não aceite como amigo ninguém que não seja tão bom quanto você. “Quando cometer um erro, não tenha medo de corrigi-lo”. 9. Tseng Tzu disse: “Conduza os funerais dos seus pais com esmero e não deixe que sacrifícios aos seus remotos ancestrais sejam esquecidos, e a virtude do povo penderá para a perfeição”. 10. Tzu-ch’in perguntou a Tzu-kung: “Quando o Mestre chega em um reino, ele invariavelmente fica sabendo sobre o governo do lugar. Ele busca tais informações? Ou elas lhe são fornecidas”? Tzu-kung disse: “O Mestre conquista-as sendo cordial, bom, respeitador, moderado e deferente. O modo com que o Mestre busca informação é, talvez, diferente do modo com que outros homens as buscam”. 11. O Mestre disse: “Observe o que um homem, enquanto seu pai está vivo, planeja fazer e então observe o que ele faz quando seu pai falece. Se, durante três anos, ele não se desviar do caminho do pai, ele pode ser chamado de um bom filho”. 12. Yu Tzu disse: “Das coisas proporcionadas pelos ritos, a harmonia é a mais valiosa. Dos Caminhos dos antigos reis, este é o mais belo e é seguido igualmente em questões grandes ou pequenas, embora nem sempre funcione: buscar sempre a harmonia sem regulá-la pelos ritos, simplesmente pela harmonia, na verdade não funcionará”. 13. Yu Tzu disse: “Ser coerente com as próprias palavras é ter moral, no sentido de que isso faz com que as palavras dessa pessoa possam ser repetidas. Ser respeitoso significa ser observador dos ritos, no sentido de que isso possibilita que se fique longe da desgraça e do insulto. Se, ao promover as boas relações com parentes da sua esposa, um homem consegue não perder a boa vontade de seus próprios parentes, então ele merece ser considerado o chefe do clã”. 14. O Mestre disse: “O cavalheiro não almeja nem uma barriga cheia nem uma casa confortável. Ele é rápido na ação, mas cauteloso com o que diz. Ele se dirige a homens virtuosos para receber orientação. Tal homem pode ser descrito como alguém ávido por aprender”. 15. Tzu-kung disse: “‘Pobre sem ser servil, rico sem ser arrogante’. O que o senhor pensa desse provérbio”? O Mestre disse: “É bom, mas melhor ainda é: ‘Pobre, mas alegre no Caminho; rico, porém observador dos ritos’”. Tzu-kung disse: “As Odes dizem Cortado como osso, polido como chifre. Esculpido como jade, moído como pedra. O que o senhor disse não é um caso semelhante”? 16. O Mestre disse: “Ssu, apenas com um homem como você pode outro homem discutir as Odes. Diga algo a este homem, e ele poderá ver sua relevância em relação ao que não foi dito”. Não é quando os outros falham em apreciar as suas habilidades que você deveria ficar incomodado, mas, antes, quando você falha em apreciar as habilidades dos outros. www.rl.art.br. Abraço. Davi

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O QUE É O BARÁ.

Religião Afro-brasileira. Candomblé. Livro Revendo o Candomblé - IV. O QUE É O BARÁ? Bará este é um assunto extremamente polêmico. A tradução literal da palavra Bará - que é grafada em iorubá como "gloria e que se pronuncia "bara" por ser uma palavra oxítona. Ou seja, acentuada na última sílaba, e não "bára" como é dito frequentemente aqui no Rio de Janeiro - é senhor do movimento. Este é o conceito professado na Casa Branca do Engenho Velho sendo preservado até os nossos dias. Transmitido dessa forma a todas os descendentes. Portanto, o bará é o próprio movimento sendo energia cinética, a todo e qualquer ato de mover qualquer forma, qualquer matéria física e qualquer coisa concreta. O bará é, essencialmente, a energia cinética de cada orixá. Segundo essa linha de raciocínio, vamos citar como exemplo a orixá Oxum. Oxum é a água doce, a água dos rios. Quem veicula o movimento dessas águas, a correnteza dos rios, é o bará de Oxum. Ele é o próprio movimento das águas. Pode-se dizer que Oyá é o ar, as correntes atmosféricas, os ventos, quem faz o ar mover-se é o bará - que está estreitamente ligado a fertilidade, pois as sementes são espalhadas pelos ventos. O bará de Oyá é quente, volátil e bastante difícil de ser cuidado. Assim como o próprio vento. e bastante difícil se ser cultuado, assim como o próprio vento. Podemos usar o mesmo exemplo com relação à Yemanjá, que é a água do mar, o oceano. As correntes oceânicas , as ondas, as ressacas marítimas são o movimento de Yemanjá. Quem faz essas águas salgadas se moverem é o bará de Yemanjá. Deve-se lembrar também que especificamente nas casas mais ortodoxas, cuja nação professada é o ketu, todo bará, como o dos orixás femininos como o dos masculinos. Sempre é uma figura masculina. O que eu estou querendo dizer é que, erroneamente, há quem pense que se o orixá é feminino, a energia cinética deste também é feminina. Na realidade não é nada disso. Bará, o senhor do movimento, é comum para orixás masculinos e femininos para as iabás e os iborós. Também é interessante esclarecer que bará, o senhor do movimento, a energia cinética no candomblé das casas de ketu, nada tem a ver com as entidades de umbanda. Exemplo os Tranca Ruas, Maria Padilha, Maria Mulanbo. Essas são entidades, espíritos que estão em evolução, ou não, mas pertinentes a um outro culto, o da umbanda. O bará é todo e qualquer movimento. Já ouvi tradições dizendo que bará seria o "rei do corpo". Mas essa é uma tradução deturbada do idioma iorubano. Primeiro porque bará é uma palavra só. Para que fosse "rei do corpo" teria que ser uma contração de "Oba" mais "ara", quando na realidade não é isso. Em termos poéticos, pode-se dizer que o bará é o senhor do movimento. Ainda me lembro de egbomi Maricas, que me ensinará esse conceito dizendo: "Quem faz acer ir para escola é Exu". Quem faz acer andar, correr, brincar é Exu. É Exu que faz ace ir de um lado para outro. Sem Exú, ninguém sai do lugar". Foi dessa forma que, felizmente, obtive meu aprendizado através das antigas yás. Abraço. Davi



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

XINTOÍSMO. Parte II

Xintoísmo - Bushido. XINTOÍSMO. Parte II. Mitologia e influência na formação do caráter e cultura do povo Japonês. Fazendo uma análise a partir do nome, Hayao Kawai, moderno estudioso do Xintô, diz que kagami (espelho) deriva de kage (sombra ou reflexo) e mi (ver). Amaterasu ao aceitar sua imagem refletida no espelho, aceitou também o "lado escuro do seu espírito virgem", isto é, ao se recolher, os oitocentos deuses do Alto Plano dos Céus (Takama-no-hara) ficaram no escuro, mas a Deusa do Sol acabou também experienciando a escuridão do seu espírito. Assim como os humanos têm o lado obscuro e desconhecido da mente, para ser perfeita ela precisava ter a sombra. (KAWAI, 1964, p. 183). O torii Os santuários xintô são precedidos pelos característicos portais torii, numa referência às aves que  contribuíram para a saída da deusa Amaterasu da caverna, intrigada com seu canto (ROCHEDIEU, op. cit., p. 131). Constitui-se de duas traves verticais encimadas por duas horizontais. Postadas antes dos acessos aos santuários, separa "o mundo secular, o exterior impuro do terreno sagrado que envolve o santuário. Traz geralmente os "gohei"4 - tiras de papel branco cortadas em ziguezague dependuradas, indicando a presença de deuses. Ao passar por ele, o visitante do santuário simbolicamente se submete a um ritual de purificação das impurezas acumuladas no mundo exterior" (LITTLETON, op. cit., p.70). O Shimenawa Hoje, comumente vista na entrada dos santuários e nos torii, a corda trançada representa a sombra do sol (ibidem p. 87). É posta também em locais de particulares após ritos de purificação, o que preserva o local de más influências e mantém afastados os maus espíritos (HERBERT, 1967b, p. 115). Simbolicamente indica locais onde estão as oferendas aos kami ou locais sagrados onde habitam (ONO, op. cit., p. 26). O número o oito. O número oito aparece na escritura Kojiki nada menos que 50 vezes e o oitenta, 18 vezes. Isso, segundo Herbert, viria de um ditado popular : "nana korobi, yaoki" (caia sete vezes, levante oito). No entanto, o professor se permite formular hipótese na qual "o número oito e seus múltiplos indicam na grande maioria dos casos, a ideia combinada do perfeito e completo".  Mitologicamente trazem "a ideia do divino e sagrado". (HERBERT, 1964, p. 234). E uma tentativa das forças terrestres de se opor à "influência superior" (HERBERT, 1965, p. 126). Os lados esquerdo e direito Na cultura japonesa o lado esquerdo está identificado com o sexo masculino, e o direito com o feminino. Embora não se encontre uma explicação clara sobre o fato, Herbert mencionando Masao Yamane, falando do sol, diz ser o nascente o lugar honroso, seguido pelo sol pleno e depois o poente. Hidari (esquerdo) refere-se a hi (sol), o masculino, e a direita, migi, refere-se a mi (de mizu), água, elemento feminino (Masao Yamane apud in HERBERT, 1964, p. 237). Os tradicionais quimonos são sempre fechados com o lado esquerdo sobreposto ao direito, quer sejam masculinos ou femininos, de passeio ou mesmo os quimonos esportivos que vemos na prática de esportes de origem japonesa como o judô, kendô, aikidô, caratê etc. A dobradura contrária, com o direito sobreposto, o lado feminino, -  é a dobradura da morte; é como se vestem os mortos, o que vemos por exemplo em filmes como "Okuribito", traduzido por "A Partida", do diretor Yojiro Takita e sugerido numa cena em "Hiroshima, mon amour", do diretor francês Alain Resnais. Vale lembrar que na mitologia, quem morre e desce ao reino dos mortos é a mulher; o êxito do contorno com geração de boas crias  se deu quando ambos obedeceram suas posições. De Izanagi, nascem do seu olho esquerdo, a principal deusa do xintoísmo, Amaterasu e de seu olho direito, o deus Tsukiyomi, de menor importância ainda que Susanowo, nascido do nariz.  A etimologia ideográfica do nome Xintô ( 神道) Como se pode observar, xintô é escrito com dois ideogramas; o primeiro é kami (deus ou deuses) e o segundo é michi (caminho, via, estrada). O ideograma ou kanji, é um sistema de escrita originado a partir da representação pictográfica do objeto que podem se combinar em dois ou mais caracteres para significar um terceiro, cujo significado está necessariamente relacionado aos caracteres que o compõem. O invisível é representado a partir da junção de caracteres do visível. É esclarecedor para entendimento do xintoísmo, o conhecimento da escrita original da palavra nesses caracteres chineses. Sobre o assunto, assim explanamos no site nipocultura:- Kami - 神- Michi - 道10 . O kanji (kami) é formado pelo radical à esquerda (shimesu-hen) que significa por si só, mostrar, apontar, exibir ( verbo shimesu – 示す). Sua origem indica elementos da natureza – o sol, a lua e a estrela – sobre os quais se deposita alguma oferenda – o altar primitivo – indicada pelos traços acima dos símbolos pictográficos. Acreditava-se que os espíritos (os poderosos, da natureza) se manifestavam por esse processo; passou a significar o lugar onde estão os espíritos. O complemento da direita representa nuvens sendo cortadas por um longo e potente raio: isto é a voz dos deuses, os espíritos estão falando; e é exatamente esse o verbo representado por essa parte: (verbo mousu - 申す) falar, declarar, proclamar. É verbo polido, de respeito, usado para declarações formais ou para superior hierárquico. Uma outra origem, citada por Katsumi Yamada, são as costelas e a espinha dorsal na vertical com o significado de corpo erecto. Kami significa então, os espíritos que falam, que se manifestam junto a um altar. Na falta de melhor tradução, o Ocidente traduziu o termo kami por Deus ou deuses. (http://www.nipocultura.com.br/? s=kami&submit=Pesquisar) (Michi) significa caminho, via, estrada. Formado por um radical que significa pés (parte da esquerda) e outro à direita que significa pescoço (kubi). O radical pés dá ideia de movimento, de ir, caminhar, de andar para frente, avançar. Em tempos antigos os homens acreditavam que carregar as cabeças do inimigo como sinal de vitória e eficácia de sua ação, espantava os maus espíritos. Depois, costumavam deixá-las expostas na entrada principal dos povoados. Onde estavam as cabeças era então a estrada, o caminho. ( http://www.nipocultura.com.br/ s=etimologia+michi&submit=Pesquisar) A origem do significado de kami A etimologia do significado aponta diversas origens. Kami significa (HERBERT, 1964, p. 37-39): 1. Com outro kanji (上), superior, em oposição a inferior (shimo  -下- ); 2. Aquele que possui poder superior; 3.  Derivado de kimi, que significa senhor, mestre. 4. Derivado da língua ainu, kamui, aquele que cobre sua sombra. 5. Derivado de kamosu, fermentar. 6. Derivado de kabimoye, germinar e crescer. 7.Derivado de kabi, musgo, líquen 8. Derivado de "kagami" ou "kangami" (espelho). Pelo seu importante papel na mitologia surgem outras explicações relacionadas ao objeto: "o coração do kami é puro como um espelho limpo, sem o menor traço de desordem"(Ansai Yamazaki apud in loco citato);  ainda relacionado ao objeto, o termo derivaria de: 8.1 "kagayaite mieru", o que se vê brilhante; 8.2 "akami" (abreviado de akiraka-ni-miru", o que vê tudo   claramente; 8.3 "kamu gami", brilhante-ver, isso porque "o Espírito divino, tal um claro espelho,     reflete todas as coisas da Natureza, operando com uma justiça imparcial, sem tolerar um só grão de mácula"(idem); 8.4 "kakushi-mi", aquele que se esconde; 8.5 "kakuri-mi" ou "kakure-mi", pessoa ou corpo oculto; 8.6 "kagemi", corpo da sombra; 8.7 "kashi-komi", medo reverencial, respeitoso;8.8. uma combinação de "ka", oculto, misterioso, invisível, intangível,  "respeitar algo oculto ou indistinto como uma sombra ou o perfume de uma flor" e "mi", a plenitude ou a maturidade, o que respeita o visível ou tangível. Kami seria então, ao mesmo tempo entidade madura, invisível e intangível; 8.9 uma combinação de "ka", estranho, e "mi", pessoa; kami seria então uma pessoa "dotada de uma substância misteriosa e maravilhosa"; 8.10 uma combinação sutil de "fogo" (ka) que queima verticalmente e "água" (mi), que escorre horizontalmente; 8.11 uma combinação de "ka", prefixo demonstrativo e "mi", por "hi", o sol. O conceito de Kami O conceito de kami está mais próximo dos deuses das religiões politeístas com suas virtudes e fraquezas, do que do deus todo poderoso do monoteísmo (GRIFFIS, 1895, p. 70-71).  Motoori Norinaga, estudioso do xintoísmo, propôs o conceito: “o que quer que fosse altamente impressionante, possuísse a qualidade de excelência e virtude, e inspirasse um sentimento de temor respeitoso” (HERBERT, 1977, p.15). Qualidade de excelência significa poderes além dos do homem, como as forças da natureza, do destino, da sorte e também os espíritos de grandes homens, os que têm enorme poder espiritual sobre a vida humana como o Imperador. As forças da natureza são as forças "misteriosas e temíveis, como os astros, as montanhas, os rios, os mares, o vento, os animais selvagens, as rochas e as árvores". (SIEFFERT, op. cit., p.12). Estas e os santuários xintô guardam estreita intimidade - indefectivelmente há várias árvores no entorno dos santuários. Kami é também tratamento honorífico de nobreza, dispensado pelos japoneses para os sagrados espíritos, que são dignos de reverência pela sua virtude ou autoridade (ONO, op. cit., p. 6). "É apenas o ser superior, que pode ser divindade celestial ou nascida no céu ou mesmo o espírito de falecidos imperadores, sábios ou heróis" (HITCHCOCK, 1893, p. 491).  Escreve o prof. Ono, complementando : Também considerados como kami são os espíritos guardiães de território, de ocupações e de habilidades; os espíritos de heróis nacionais, homens que se destacaram pelas ações ou virtudes e aqueles que contribuíram para a civilização, cultura e bem estar da humanidade; homens que morreram pelo país  ou pela comunidade (m. t. ONO, op. cit. p. 7). Na falta de termo mais adequado, o Ocidente traduziu kami pela ideia que mais se lhe aproximava no seu vocabulário: deus ou divindade, o que torna a tradução inadequada pela simples ideia de bondade e altas virtudes inatas a estes seres, o que não condiz com o caráter de alguns kami, como vimos. Sieffert sugere traduzir por numina, do latim: "nessas condições, traduzir kami por deuses é sem dúvida inadequado considerando-se essa época; melhor seria numina, à maneira dos romanos" (SIEFFERT, op. cit., p. 12).5 Sobre o termo, Jung, citando Rudolph Otto, explicita: ...[ o numinoso é] uma existência ou ação dinâmica que não é causada por um ato arbitrário. Ao contrário, a ação apreende e domina o sujeito humano, que é antes sua vítima do que seu criador. O numinosum, qualquer que seja sua causa, é uma condição do sujeito, independente  de  sua vontade.... esta condição deve ser imputada  a  uma   ordem    exterior   ao    indivíduo. O  numinosum é ou a qualidade  de   um  objeto visível ou a influência de uma presença invisível que causa uma transformação especial da consciência (JUNG, 1965, p. 12). Mas não apenas com o sentimento de reverência, temor, respeito e admiração o japonês cultua os espíritos superiores como kami. Pessoas que morrem pelo país ou pela comunidade, ou o ser humano comum, fraco e digno de pena, também pode se tornar um kami e ser reverenciado (ONO, op. cit., p. 7). Jean Herbert, francês, estudioso do xintoísmo, relata-nos singular caso ocorrido em Toba, na província de Mie. Toba é cidade litorânea famosa pela produção de pérolas, cujas ostras  são colhidas ainda hoje por mulheres equipadas apenas com máscara, sem provimento de oxigênio. Entre as mergulhadoras havia uma de nome On-be, que fatiava dedicadamente a carne do molusco abalone (awabinashi). Um nobre que passava pelo local viu o trabalho de Onbe e, admirado, levou as tiras de carne seca para o Grande Santuário de Ise como oferenda aos deuses. On-be passou então a regularmente oferecer o produto de seu trabalho no mesmo santuário. Após sua morte, foi venerada como kami sob o nome de Kuguri-kami ( HERBERT, 1967a, p.107-108), e seu trabalho passou a figurar nos envelopes (noshibukuro) e papéis (noshigami) de felicitação no Japão, que trazem invariavelmente no canto superior direito, figura estilizada da fatia de awabi. (http://www.nipocultura.com.br/?p=1278). Esclarece Herbert sobre o kami: Poderíamos dizer que numa acepção geral designa toda entidade digna de veneração e mais estritamente, toda entidade objeto de culto , notadamente num templo. Pode se tratar de um ser extra-terrestre, primitivo ou mais recente, de um ser vivo, humano ou não, ou mesmo de um objeto material, seja natural (rocha, gruta, árvore), ou criado pelas mãos do homem (espelho etc) ( m. t. HERBERT,1977, p.15). O que desperta reverência no objeto é o kami que ali habita; o que se venera, explica Hauchecorne, não é o "fenômeno ou o objeto em si, mas o espírito aí contido que o rege"  (apud in BRILLANT et alii, 1954, p. 172). O kami, não corpóreo, tem apenas funções, enquanto o homem, corpóreo , tem a prática das ações. Assim como os deuses não podem praticar ações que necessitam da corporificação, aos homens não lhes é dada a prática de funções que prescindem do corpo. (Banzan Kumazawa apud in HERBERT, 1964, p.39). O material tem vida pelo kami, que é imaterial. É a deificação da força vital que une espírito e matéria e está em todas as coisas, nos seres animados e inanimados (Chikao Fujisawa apud in HERBERT, 1964, p. 39-40). No xintoísmo, o homem e a força exterior, isto é, a Natureza ou o Todo– o material e o imaterial, o visível e o invisível, são um só (idem). O homem é a própria personificação dessa ideia, ele é o bem no “estado natural”, ou seja, ele é apenas parte de um todo maior, onde estão a Natureza e seus elementos, diferentemente do monoteísmo das religiões ocidentais que funda-se na crença num ser único, supremo, onipotente, criador do homem e de todas as coisas. No Xintô a vida espiritual está relacionada à veneração e comunhão com o kami, à "adoração de suas virtudes e autoridade", assim como a fé no kami implica, na verdade,  comportamento de acordo com a "mente do kami" (ONO, op. cit., p.3. 6). Modernamente o Xintô assumiu visão mais ampla no sentido de se aproximar da psique humana, "da ideia de justiça, ordem, favor divino (bênção)", sem esquecer que a função do kami opera pela harmoniosa cooperação mútua (ibidem p.7). Antes da introdução do budismo e das artes chinesas, os deuses xintoístas não tinham nem imagem nem forma (BRILLANT et alii, op. cit., p. 172). Ainda hoje, salvo os mais importantes, mais frequentemente representados, (Izanagi, Izanami, Suzano-o e Amaterasu), os deuses do xintoísmo são  seres sem imagem que apenas enfeixam um conjunto de características: como os humanos, boas e más. Por entenderem nocivas à consolidação pacífica do país, os Aliados durante a ocupação militar após a Segunda Guerra, proibiram os estudos dos textos do xintoísmo, assim como a participação de funcionários do governo nos cultos dessa religião, considerada sério obstáculo ideológico à ocupação norte-americana como doutrina que fomentara a expansão territorial japonesa após a Reforma Meiji. Algumas crenças xintoístas incomodavam as forças de ocupação, cristãs, entre as quais, a de que o imperador japonês seria um deus. A maioria dos teólogos xintoístas, porém, não  define o que é kami. Assim como os japoneses, sabem o que é kami, isto é, sentem o que é kami, mas, porque nunca precisaram defini-lo, têm a natural dificuldade. O japonês entende o kami intuitivamente, sem necessidade de ser conceito. Página 14. Abraço. Davi

domingo, 21 de dezembro de 2025

TAO TE CHING - POEMA IV

 Lao Tse (571a.C.531). Tao Te Ching. O livro que Revela Deus

Por Huberto Rohden (1893-1981)

Transcendência incognoscível

POEMA IV

Tao é a fonte do profundo silêncio
Que o uso jamais desgasta
É como uma vacuidade
Origem de todas as plenitudes do mundo
Desafio as inteligências aguçadas
Desfaz as coisas emaranhadas
Funde, em uma só, todas as cores
Unifica todas as diversidades
Tao é a fonte do profundo silêncio
Atua pelo não agir
Ninguém lhe conhece a origem
Mas é o gerador de todos os deuses

Explicação Filosófica:
Qualquer finito em demanda do infinito está sempre a uma distância infinita. Nenhum cognoscente finito poderá compreender o incognoscível do Infinito. Tao, a Realidade, o Todo, o Transcendente, se apresenta como se fosse o Nada. Porque, aos olhos de nosso algo humano, o Todo da Divindade parece ser absoluta nulidade. Nenhuma inteligência analítica pode abranger a realidade Infinita. Tudo o que inteligência explica, implica ou complica sendo desfeito num instante pela visão intuitiva da realidade. O prisma multicolor das coisas finitas, que os sentidos percebem e a inteligência analisa. É projeção da luz incolor do Infinito. Todas as coisas que o homem percebe e concebe na zona do Verso são o uso da Realidade do Tao. Sendo vertido (verso) nesse efeito. Tao, a Divindade, não tem filiação. Porque é a única paternidade. Ele é o Uno da causa única, que se manifesta no Verso dos efeitos múltiplos. Abraço. Davi

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

ISLAMISMO. CONCLUSÃO I

Islamismo. Manual para o Novo Muçulmano. Por Jamaal Zarabozo. CONCLUSÃO I. Obviamente, existem muitos detalhes sobre os rituais de adoração que foram deixados de fora desta obra. Pela graça de Allah, há muitos livros disponíveis, em  várias línguas, que provêm tais detalhes. Pessoalmente quero recomendar as seguintes obras: Los pilares del Islam y la fe de Muhammad Ibn Yamil Zinu (publicado por International Islamic Publishing House, Riyad), é uma boa obra e breve introdução a todos os aspectos da Lei Islâmica. Jurisprudencia Islámica de Muhammad ibn Ibrahim At-Tuwaijri (publicado em dois volumes por International Islamic Publishing House, Riyad) engloba a maioria dos aspectos da Lei em detalhes. Pode chegar a ser um pouco pesado e demasiadamente detalhado para o recém convertido. Mas, sem dúvida, com o tempo deve se transformar numa referência muito interessante para consulta. O Comportamento e a Interação Social do Crente Allah disse no Qur’an: “Ó fiéis, abraçai o Islam na sua totalidade e não sigais os passos de Satanás, porque é vosso inimigo declarado.” (2:208). Como mencionei anteriormente, o Islam é uma religião integral e completa. Seus ensinamentos envolvem todos os aspectos da vida. Isso se relaciona a cada faceta de vida, e o muçulmano deve adorar e seguir a Allah. Não existe nenhum aspecto da vida, minimamente que seja, que se encontre fora deste preceito geral. Assim, o Islam estabelece claramente uma série de artigos de fé e ritos de adoração. O comportamento, os modos, a ética e as ações de todo muçulmano devem refletir sua crença – na crença de que ninguém é digno de louvor, exceto Allah. É inconcebível que alguém que se diz servo de Allah trate mal, engane ou magoe seu próximo. Este tipo de comportamento demonstraria que sua declaração de fé é falsa ou débil. Para um novo convertido ao Islam, esta consciência pode indicar a existência de muitas coisas em si mesmo que deveriam mudar para que ele venha a ser um muçulmano completo e verdadeiro. Pode haver muitos defeitos pertencentes aos seus dias anteriores ao Islam que deverá analisar e corrigir. Não tem mais remédio senão tentar mudar seus costumes. Agora declara sua crença no Islam. Se sua crença é verdadeira, deve estar disposto a aceitar os ensinamentos de sua fé e fazer o máximo esforço para implementar toda esta fé em sua vida. À medida que seu conhecimento sobre o Islam vai crescendo e sua fé vai se fortalecendo muitos comportamentos começam a mudar automaticamente. Há uma nova perspectiva sobre a vida e um entendimento diferente da realidade. Pessoalmente testemunhei estas mudanças em alguns convertidos. Por exemplo, alguns não muçulmanos ficam muito alterados quando praticam algum esporte. No momento em que as coisas não saem como querem ou quando sentem que a equipe rival, injustamente, recebe uma vantagem, então, perdem o controle e estoura a fúria. Esta fúria reflete a importância e relevância que estas pessoas dão à atividade esportiva. Logo ao se converterem ao Islam, muitas pessoas mudam radicalmente. De repente, os esportes se tornam uma atividade para diversão e exercício. O novo muçulmano entende que os esportes não têm um valor permanente no mérito real da pessoa. Este novo entendimento de sua realidade, automaticamente, e às vezes como algo imperceptível, muda o comportamento e o caráter daquela pessoa. O objetivo é realizar esta transformação em todo tipo de interação social. Esta transformação se complementa com o conhecimento da forma em que a pessoa deve se comportar. É por isso que neste capítulo, logo após uma introdução sobre a importância do comportamento e caráter, analisaremos as seguintes interações:  A relação do muçulmano com seu interior.  A relação do muçulmano com seus pais.  A relação do muçulmano com seu cônjuge.  A relação do muçulmano com seus filhos.  A relação do muçulmano com seus vizinhos.  A relação do muçulmano com os outros muçulmanos.  A relação do muçulmano com pessoas não muçulmanas.  A relação do muçulmano com a sociedade.  A relação do muçulmano com suas propriedades e riquezas.  A ênfase do Islam em um comportamento apropriado, bons modos e bons costumes. Em um hadith, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Fui enviado com o único propósito de aperfeiçoar a boa moral.” Neste hadith o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) declarou abertamente que um dos aspectos mais importantes de sua tarefa como profeta foi a de ensinar como devem ser a boa moral, comportamento e os bons modos. Este é um sinal evidente que os ensinamentos do Qur’an abarcam claramente o comportamento e os bons modos. O muçulmano não pode escapar disso e por este motivo deve adaptar seu comportamento de acordo com tais ensinamentos. Existem inúmeras declarações do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) relacionadas à importância de possuir um bom caráter. Aqui apresentarei apenas algumas para destacar sua importância.  O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Eu garanto a casa mais elevada no Paraíso àqueles que tenham um bom comportamento.” Este hadith mostra claramente a recompensa por melhorar e aperfeiçoar o nosso comportamento. Algumas pessoas dizem que seu caráter é algo com o qual nasceram e que não há nada que possam fazer para modificá-lo. Isso não é verdade. Como mencionei anteriormente, a maior parte da força motriz que motiva nosso caráter provém do que cremos acerca de Allah, esta vida, a próxima vida, etc. por isso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “A devoção e a retidão são indicativos de um bom caráter.” (Muslim). A devoção pode ser alcançada, mas requer esforço de nossa parte. De fato, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu os hipócritas, ou seja, aqueles que possuem uma fé débil e falsa, descreveu suas ações e comportamento: mentem quando falam, traem nossa confiança, não cumprem quando prometem (este hadith é encontrado no bukhari). Novamente, o exemplo por excelência de comportamento de um muçulmano se baseia no exemplo do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Pela graça e misericórdia de Allah, foi enviado o Seu Mensageiro, um ser humano que cumpriu o papel de esposo, pai, membro da comunidade e líder da sociedade, entre outras coisas, para dar o exemplo aos crentes de como deveriam comportar-se e qual o comportamento que agrada a Allah. Ele demonstrou como o Qur’an deve ser posto em prática na vida cotidiana. Sua esposa Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse acerca de seu marido: “Seu caráter é o Qur’an” (Muslim). Assim, descobre-se que o Profeta (a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) foi um homem sincero, honesto, agradecido e direto. Foi humilde, paciente, calmo e compassivo. Não mentia, não difamava, nem caluniava a ninguém. Possuía uma determinação alegre e tratava os membros de todas as comunidades com o devido respeito. Esta é uma parte essencial do significado do comportamento de um crente. Da perspectiva islâmica, o caráter e os bons modos podem ser modificados.  Quer dizer, deve-se ter um comportamento e um modo de agir apropriado para com seu Criador, com sua alma, com as pessoas com as quais se relaciona, com os outros seres da terra e com todos os seres criados. Algumas destas categorias serão analisadas mais adiante neste capítulo. A categoria mais importante é o comportamento em relação ao Criador, já que isso influenciará todas as demais categorias. Isto implica ter uma relação adequada com Allah e submeter-se a Ele de uma forma sincera, correta e incondicional. Os detalhes desta relação foram analisados ao longo desta obra. Relembrando as últimas duas categorias mencionadas anteriormente: um bom comportamento com as demais criaturas viventes na terra, assim como com tudo o que Allah colocou neste universo. Nenhum muçulmano possui a liberdade de se comportar como lhe convenha ou agrade em relação aos animais ou objetos inanimados. Certamente, deverá prestar contas a Allah por seu comportamento neste âmbito. Nesta criação, tudo o que foi colocado à disposição da humanidade não é mais que aquilo que Allah nos confiou. Por exemplo, existem muitos ahaadith que analisam como os muçulmanos devem tratar os animais. Inclusive, sobre o sacrifício do animal para consumo dos seres humanos, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Certamente, Allah estabeleceu a excelência em todas as coisas. Então, caso matem, matem de uma boa maneira. Quando sacrificarem, façam-no de uma boa maneira. Devem afiar a faca e assim evitar o sofrimento do animal que está sendo sacrificado.” (Muslim). Este fato não era desconhecido dos antigos muçulmanos, como podemos observar na declaração de Fudhail Ibn Aiadh: “Por Allah, se não é permitido molestar a um cão ou a um porco sem uma razão válida, como podem molestar a um muçulmano? A relação de um muçulmano consigo mesmo O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) explicou que a pessoa tem uma responsabilidade para com ela mesma. Isso quer dizer que uma pessoa tem uma responsabilidade muito importante consigo mesma. Isto é, a pessoa tem uma responsabilidade com seu interior. Analisando logicamente, a pessoa tem o direito e a obrigação de fazer o melhor por ela mesma. É razoável que uma pessoa o faça para evitar que sua alma se corrompa. Além disso, cada ser humano deve aceitar e compreender que não criou a si mesmo. Ele não é seu próprio senhor. Nem sequer pode declarar para si mesmo o direito de utilizar seu próprio ser ou seu corpo da forma que mais lhe agrade, ainda que isso seja algo que se escute freqüentemente. O Islam ensina aos seres humanos que foram criados por um Deus Onisciente e Misericordioso. É por isso que, inclusive com respeito ao seu próprio ser, o homem deve obedecer a Seu Criador e Senhor. Na Sua sabedoria, o Criador ordena aos seres humanos que façam apenas o que seja benéfico para eles mesmos. Na realidade, o Criador indica o caminho para a salvação. Isso é alcançado através do esforço na aceitação voluntária ao que Allah revelou e na prática de tudo aquilo que agrade a Allah. Ao passar do tempo, observamos que toda a orientação proveniente de Allah, quer dizer, a religião do Islam, é única e exclusivamente para o benefício do ser humano. Allah não se beneficia se é adorado, nem se vê prejudicado se alguém o contradiz. Assim, em muitas partes do Qur’an, Allah deixa claro que toda Sua misericordiosa orientação foi ensinada aos homens para próprio benefício: “Em verdade, temos-te revelado o Livro, para (instruíres) os humanos. Assim, pois, quem se encaminhar, será em benefício próprio; por outra, quem se desviar, será em seu próprio prejuízo. E tu não és guardião deles.” (39:41; ver também, por exemplo, 6: 104 e 41: 46). “Quem se encaminha, o faz em seu benefício; quem se desvia, o faz em seu prejuízo, e nenhum pecador arcará com a culpa alheia. Jamais castigamos (um povo), sem antes termos enviado um mensageiro.” (17:15). “... E quem se purificar, será em seu próprio benefício, porque a Deus será o retorno.” (35: 18). Tudo o que é explicado neste livro está destinado a auxiliar o indivíduo a cumprir com suas próprias responsabilidades (para consigo mesmo) e ajudá-lo a estabelecer uma relação adequada com seu Criador, Deus e Senhor. Então, todo o material incluído neste livro pode ser considerado como uma explicação desta particularidade. Nesta seção quero abordar um aspecto particular que demonstra que o Islam determina a orientação do homem em todos os âmbitos de sua vida. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) declarou, enquanto falava com Abdullah Ibn Amr, que “Teu corpo tem direitos sobre ti. Teu olho tem direitos sobre ti...” (Bukhari). Assim, o Profeta explicou diversos aspectos da higiene e costumes para as pessoas e que estão em harmonia com a verdadeira natureza humana. Em outras palavras, a alma reconhece naturalmente que estas são práticas boas e harmoniosas. Logo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) se referiu a elas como sunan al-fitra ou “ações que correspondem à natureza das pessoas”.  Estas ações são mencionadas pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) no seguinte hadith: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Entre as práticas naturais, encontram-se estas cinco: realizar a circuncisão, . raspar os pelos pubianos e os da axila, . cortar a unhas e aparar o bigode”. (Bukhari e Muslim). Em outras narrações, disse: “Entre as práticas naturais, encontram-se as dez que se seguem: aparar o bigode, deixar a barba crescer, utilizar um palito para limpar os dentes, higienizar o nariz com água, cortar as unhas, lavar as reentrâncias e união dos dedos, tirar os pelos da axila e pubianos, utilizar água para lavar as partes íntimas [após urinar].” Zakaria disse: “Musab me disse: esqueci-me da décima, a menos que seja enxaguar a boca.” (Muslim). Os sábios têm opiniões diferentes sobre estas ações, se são obrigatórias ou recomendáveis. Não há dúvida que uma pessoa necessita tratar seu corpo de forma adequada e para isso deverá seguir estas práticas que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu no hadith. Além das questões de higiene, o Islam também aconselha o indivíduo a respeito dos alimentos e bebidas que podem ser ingeridos. Por exemplo, Allah proíbe o consumo de álcool: “Satanás só ambiciona infundir-vos a inimizade e o rancor, mediante as bebidas inebriantes e os jogos de azar, bem como afastar-vos da recordação de Deus e da oração...” (5: 91) Da mesma forma, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) di“Todo tipo de substância embriagante está proibida.” (Bukhari e Muslim). Allah deu instruções acerca dos alimentos que podem ser ingeridos: “Ele só vos vedou a carniça, o sangue, a carne de suíno e tudo o que for sacrificado sob invocação de outro nome que não seja de Deus. Porém, quem, sem intenção nem abuso, for impelido a isso, não será recriminado, porque Deus é Indulgente, Misericordioso.” (2: 173). “Estão-vos vedados: a carniça, o sangue, a carne de suíno e tudo o que tenha sido sacrificado com a invocação de outro nome que não seja o de Deus; os animais estrangulados, os vitimados a golpes, os mortos por causa de uma queda, ou chifrados, os abatidos por feras, salvo se conseguirdes sacrificá-los ritualmente; o (animal) que tenha sido sacrificado nos altares. Também vos está vedado fazer adivinhações com setas, porque isso é uma profanação. Hoje, os incrédulos desesperam por fazer-vos renunciar à vossa religião. Não os temais, pois, e temei a Mim! Hoje, completei a religião para vós; tenho-vos agraciado generosamente sem intenção de pecar, se vir compelido a (alimentar-se do vedado), saiba que Deus é Indulgente, Misericordioso.” (5:3). “Dize: De tudo o que me tem sido revelado nada acho proibido para quem necessita alimentar-se, nada além da carniça, do sangue fluente ou da carne de suíno, uma vez que tenham sido sacrificados com a invocação nem abuso, se vir compelido a isso, saiba que teu Senhor ó Indulgente, Misericordioso.” (6:145) Em geral, o muçulmano só pode ingerir carne abatida por um muçulmano, judeu ou cristão, de uma maneira específica. Por esta razão, sem entrar em debate a partir desta questão, sugiro aos muçulmanos que não comam carne que seja vendida em supermercados no ocidente. Devem se restringir ao que conhecemos como carne halaal ou zabihah (sacrificada por muçulmanos) ou carne kosher (sacrificada por judeus). A relação dos muçulmanos com seus pais Allah ordena que os muçulmanos tratem seus pais da melhor forma possível. Os muçulmanos devem ser pessoas agradecidas. Devem estar agradecidas com Allah e com todas as pessoas que sejam bondosas. Depois de Allah, não creio que existam pessoas que mereçam mais reconhecimento que os pais. Por isso, muitos versículos do Qur’an mencionam como se deve tratar os pais. De fato, em mais de uma ocasião, Allah uniu o bom comportamento e os laços familiares com os pais, com a ordem de adorar apenas a Ele. Por exemplo, como é indicado no seguinte versículo do Qur’an: “Adorai a Deus e não Lhe atribuais parceiros. Tratai com benevolência vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro, o viajante e os vossos servos, porque Deus não estima arrogante e jactancioso algum.” (4: 36). Neste versículo Allah fala de Seus direitos sobre Seus servos e dos direitos dos servos entre si. Dentre os servos, a pessoa deve tratar especialmente bem as seguintes classes de pessoas: (1) seus parentes, especialmente os pais; (2) os necessitados e débeis; (3) aqueles com quem se relaciona diariamente, por exemplo, os vizinhos; (4) as pessoas com as quais se encontra de vez em quando, como por exemplo, o viajante e (5) a seus escravos. Nesta última categoria, alguns antigos sábios também incluem aos servos e animais que uma pessoa possua. Allah também disse:  “Dize (ainda mais): Vinde, para que eu vos prescreva o que vosso Senhor vos vedou: Não Lhe atribuais parceiros; tratai com benevolência vossos pais...” (6: 151). “E de quando exigimos o compromisso dos israelitas, ordenando-lhes: Não adoreis senão a Deus; tratai com benevolência vossos pais e parentes...” (2: 83). “O decreto de teu Senhor é que não adoreis senão a Ele; que sejais indulgentes com vossos pais, mesmo que a velhice alcance um deles ou ambos, em vossa companhia; não os reproveis, nem os rejeiteis; outrossim, dirigi-lhes palavras honrosas. E estende sobre eles a asa da humildade, e dize: Ó Senhor meu, tem misericórdia de ambos, como eles tiveram misericórdia de mim, criando-me desde pequenino! Vosso Senhor é mais sabedor do que ninguém do que há em vossos corações. Se sois virtuosos, sabei que Ele é Indulgente para com os contritos.” (17: 23-25). O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também ressaltou essa boa relação com os pais, mencionando-os imediatamente após a realização da oração no momento adequado. Perguntaram ao profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): “Que ação é mais apreciada por Allah?” respondeu: “Realizar a oração no momento adequado”. Continuaram perguntando: “E depois?” Ele respondeu: ”Ser obediente com teus pais”. Novamente perguntaram: “E depois?”, ele respondeu: “A jihad pela causa de Allah.” (Bukhari e Muslim). Allah relembra aos crentes que seus pais, em especial a mãe, sofreram muito e realizaram um grande esforço para criar seus filhos e, por esta razão, merecem amor, respeito e gratidão. Allah disse: “Recorda-te de quando Lucman disse ao seu filho, exortando-o: Ó filho meu, não atribuas parceiros a Deus, porque a idolatria é grave iniqüidade. E recomendamos ao homem benevolência para com os seus pais. Sua mãe o suporta, entre dores e dores, e sua desmama é aos dois anos. (E lhe dizemos): Agradece a Mim e aos teus pais, porque retorno será a Mim.” (31: 13-14). “E recomendamos ao homem benevolência para com os seus pais. Com dores, sua mãe o carrega durante a sua gestação e, posteriormente, sofre as dores do seu parto. E de sua concepção até à sua ablactação há um espaço de trinta meses, quando alcança a puberdade e, depois, ao atingir quarenta anos, diz: Ó Senhor meu, inspirame, para praticar o bem que Te compraz, e faze com que minha prole seja virtuosa. Em verdade, converto-me a Ti, e me conto entre os muçulmanos.” (46: 15). Desta maneira, especialmente a mãe, merece a maior amizade e proximidade dos filhos. Uma vez perguntaram ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): “De todas as pessoas quem é a mais merecedora da minha boa companhia?” O Mensageiro de Allah respondeu: “A tua mãe”. O homem perguntou: “E depois, quem?”, ele respondeu: “A tua mãe”. Mais uma vez o homem perguntou: “E depois, quem?”, ele respondeu novamente: “A tua mãe”. O homem perguntou pela quarta vez: “E depois, quem?”, desta vez o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) respondeu: “O teu pai”. (Muslim). Os convertidos e sua relação com os parentes não muçulmanos. A relação entre um novo muçulmano convertido e sua família e parentes não muçulmanos pode chegar a ser bem complicada. Muitas vezes existe uma forte oposição por parte dos não muçulmanos. Esta é uma grande prova para o convertido. É obvio que há amor entre as pessoas, pois estas construíram um laço forte por longos anos. Como exemplo para aqueles que passam por estas dificuldades, menciono os antigos convertidos ao Islam que viviam em Makkah. Estes muçulmanos enfrentaram uma grande exposição, e inclusive muitos deles, foram torturados devido a nossa fé. Eventualmente, a pequena comunidade muçulmana se viu obrigada a emigrar para outras terras para resguardar sua fé. Sem dúvida, eles foram pacientes e perseverantes, satisfazendo assim ao seu Senhor. Entenderam que a recém descoberta relação com Allah deve ter mais importância que qualquer outra relação neste mundo. Quando uma pessoa se encontrar com Allah na próxima vida, apresentar-se-á como um indivíduo responsável por suas próprias ações e decisões. O fato de que as pessoas próximas dele não concordam com a religião de Allah, não significa que isso seja uma desculpa aceitável para que a própria pessoa abandone o Islam, nem sequer abrir concessões com respeito à religião. Se isso fosse aceito por Allah, certamente, teria sido uma opção para os antigos muçulmanos que sofreram torturas e exílio de suas terras. Mas, eles não tiveram esta opção. Atualmente, esta opção não significa mais que a destruição da religião de Allah, já que sempre existiram muitas pessoas que se opõem à verdade e ao caminho d’Ele.  Hoje em dia, para a maioria dos convertidos, pela graça de Allah, a situação não é tão extrema como foi para os primeiros muçulmanos. Geralmente, existem diversas reações à conversão de uma pessoa; pode haver respeito, entretanto os outros não se sentem satisfeitos com a opção do convertido. Sob estas circunstâncias particulares é muito importante que o convertido não perca a sua fé, mesmo que a oposição seja declarada. Os parentes consangüíneos, em particular, têm direitos sobre o novo muçulmano. Al Bukhari e Muslim registraram que Asmaa bint Abi Bakr se aproximou do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e disse: “Minha mãe está regressando (de Makkah) e deseja ver-me apesar dela ser politeísta. Devo manter meus laços familiares com ela?” Ele respondeu: “Sim, honra teus laços familiares com tua mãe.” Allah disse no Qur’an: “Deus nada vos proíbe, quanto àquelas que não nos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e eqüidade, porque Deus aprecia os eqüitativos.” (60: 8). Allah também se refere aos pais não muçulmanos dizendo: “Porém, se te constrangerem a associar-Me o que tu ignoras, não lhes obedeças; comporta-te com eles com benevolência neste mundo, e segue a senda de quem se voltou contrito a Mim. Logo o retorno de todos vós será a Mim, e então, inteirar-vos-ei de tudo quanto tiverdes feito.” (31: 15). Está claro que o indivíduo necessita resguardar e proteger sua fé e que se os pais exercem pressão sobre um filho, este deverá impor limites estritos em alguns assuntos. De qualquer forma, esta situação deverá ser manejada da melhor maneira possível. Por natureza o muçulmano deve ser agradecido. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Aquele que não é agradecido com as pessoas, não é agradecido com Allah.” (Tirmidhi e Ahmad). Desta maneira, o muçulmano sempre permanecerá agradecido e cheio de um “amor natural” por seus pais não muçulmanos graças à bondade e amor que demonstraram através dos anos. Certamente, não se pode gozar de um “amor religioso” por suas ações. De um ponto de vista religioso, não podem desculpar nem aprovar que eles elejam um caminho distinto do caminho do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Por isso, não se deve amá-los pela forma de vida que optaram levar. Quando há um conflito entre o amor espiritual e o religioso, o religioso tem prioridade. Como Allah disse: Página 193. Abraço. Davi

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A OBRA DE CRISTO. REDENÇÃO. Parte II

Cristianismo. Livro O Evangelho de Deus. Por Watchmann Nee (1903-1972). A OBRA DE CRISTO - REDENÇÃO. Parte II. A palavra do homem pode ajudar, mas ela também pode danificar. Devemos colocar de lado a palavra do homem. Vamos prosseguir passo a passo. Primeiro vimos que deve ser Deus quem toma nossos pecados. Então, vimos que Jesus de Nazaré veio para levar nossos pecados. Mas Sua justiça na terra foi mais que uma condenação para nós. Quando fomos salvos por meio do Senhor Jesus? Consideremos um tipo na Bíblia. No tabernáculo, entre o Lugar Santo e o Santo dos Santos, havia um véu. Deus estava além do véu no Santo dos Santos. Fora do véu estava o mundo. A Bíblia nos diz que esse véu significa a carne do Senhor Jesus (Hb 10:20). Em outras palavras, o Santo dos Santos somente pode ser visto pelo Senhor Jesus como um homem na terra e pelos que têm uma vida igual à do Senhor Jesus. Nem todos podem ver Deus. Somente o Senhor Jesus podia ver Deus. Ninguém, em todo o mundo, pode ver o Santo dos Santos. Ele estava velado. Quando pôde o homem ver o Santo dos Santos? Quando Deus removeu o véu do céu e uniu o Santo dos Santos, o Lugar Santo e o átrio exterior a fim de que o homem fosse capaz de vê-Lo. Isso aconteceu quando o Filho de Deus foi crucificado na cruz. Naquela hora, o caminho para o Santo dos Santos foi aberto. Por isso Hebreus 10:19-20 diz que temos intrepidez para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus pelo véu. Este véu rasgado é a carne do Senhor Jesus. Agora, temos intrepidez e a plena certeza de fé para nos achegar a Deus. A justiça do Senhor Jesus na terra não tem relação direta conosco. Graças ao Senhor, pois Ele não ficou na terra para sempre. Se tivesse permanecido na terra para sempre, Ele ainda seria um grão. Graças a Deus porque Ele morreu e nos produziu, os muitos grãos. Graças ao Senhor pela cruz. Os Dois Aspectos da Cruz do Senhor. Aqui há uma questão: O Senhor morreu na cruz, mas qual o significado de Sua morte? Quem O enviou à cruz? Todos os que lêem os Evangelhos sabem que foram os judeus que O entregaram aos gentios e foram os gentios que O crucificaram na cruz. Se me lembro corretamente, Pilatos era um espanhol. Como podemos dizer que o Senhor Jesus morreu para levar nossos pecados? Ele foi claramente crucificado pelo homem. Em Atos 2:23, Pedro disse aos judeus que eles pregaram Jesus na cruz por mãos de iníquos. Aqui é dito que foram os judeus que pregaram o Senhor Jesus na cruz. Mas que fez o Senhor Jesus na cruz? Antes de ir à cruz, Ele esteve orando no jardim do Getsêmani. Sua oração, junto com suor com gotas como de sangue, foi causada pela perseguição e oposição do homem? Foi porque Judas trouxe homens para prendê-Lo? Ou foi porque Ele tinha de ir à cruz para nos redimir do pecado? Não foi porque Deus fez com que Aquele que não tinha pecado se tornasse pecado por nós e carregasse os pecados de todo o mundo sobre Si, para que Ele pudesse levar nossos pecados sobre o madeiro? Ali, Ele orou: “Pai, se queres, afasta de Mim este cálice” (Lucas 22:42).  Se a cruz fosse algo da mão do homem, se ela fosse apenas o instrumento para alguns homens maus matarem-No, e se houvesse apenas o aspecto humano do Senhor Jesus, então eu não gostaria de ouvir essa oração do Senhor. Não gostaria de ouvir Jesus de Nazaré ajoelhado ali orando ao Pai para, se possível, afastar Dele o cálice. No decorrer de dois mil anos, muitos mártires e discípulos do Senhor tiveram um grito mais forte que Ele ao se defrontarem com a morte. Muitos mártires, quando trancados em celas e masmorras, oraram para que o Pai os glorificasse, que queriam morrer pelo Filho e testificar a Palavra do Senhor com o sangue deles. Se não tivesse sido Deus quem começou a pôr o encargo pelos pecados sobre o Senhor no Getsêmani, e se não tivesse sido Deus quem tivesse colocado sobre o Senhor Jesus o encargo de tomar os nossos pecados, teríamos de dizer que o Senhor Jesus nem mesmo teve tanta coragem como aqueles que creram Nele. Assim, o problema é que a cruz tem o aspecto humano e o aspecto de Deus. O homem crucificou o Senhor Jesus na cruz. Mas o Senhor disse que nenhum homem tira Sua vida; Ele espontaneamente a entregou (João 10:17-18). O homem podia crucificar o Senhor mil vezes ou dez mil vezes, mas a não ser que Ele dessa Sua vida, nada poderia ter sido feito a Ele. O homem crê que Ele foi crucificado pelo homem. Nós cremos que Ele foi crucificado por Deus para redimir os pecados em nosso favor.  Temos de descobrir na Bíblia o que Deus fez na cruz. Primeiro, leiamos Isaías 53:5-10: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem, quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido. Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca. Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos”. Os apóstolos citam Isaías 53 muitas vezes no Novo Testamento. A pessoa falada nessa passagem das Escrituras é o Senhor Jesus. Que disse o profeta quando escreveu essa porção da Escritura? A última frase no versículo 4 diz: “Nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido”. No começo, o profeta achava que Ele fora ferido e afligido por Deus, que fora punido por Seus próprios pecados e ferido por Deus por Suas transgressões. Mas no versículo 5 há uma volta. Deus lhe deu uma revelação através da palavra. Mas achávamos que Ele estivesse meramente sofrendo punição e ferimento. Mas Ele não estava sofrendo punição e ferimento: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades: o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho” (vs. 5-6). A frase seguinte é muito preciosa: “Mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (v. 6). Isso é o que o Senhor fez. Vemos que em relação à cruz há o aspecto do homem e o aspecto de Deus. Embora tenham sido as mãos humanas que pregaram o Senhor Jesus, manifestando o ódio do homem por Deus, foi também Deus quem colocou todos os nossos pecados sobre Ele e O crucificou. A cruz foi obra de Deus; foi algo que Jeová cumpriu.  Que aconteceu na cruz? “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido” (vs. 7-8). Ser cortado da terra dos viventes é morrer. Os que estavam ao pé da cruz quando o Senhor foi crucificado admiravam-se e queriam saber por que esse homem estava sendo crucificado. Eles não sabiam a razão de aquilo estar acontecendo. O profeta disse que “ele não abriu a boca”, e que “como cordeiro foi levado ao matadouro; e como ovelha muda perante os seus tosquiadores”. Quem sabia que Ele estava sendo cortado da terra dos viventes pelo pecado do povo? Quem sabia que era Deus operando Nele para cumprir a obra de redenção? A cruz foi a maneira pela qual o Senhor cumpriu a redenção por meio de Sua morte. O versículo 9 diz: “Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca”. O versículo 10 é muito precioso: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado”. A cruz é uma obra de Deus. Foi o próprio Deus quem levou nossos pecados na cruz. Foi Ele quem solucionou nosso problema de pecado. Nunca dê qualquer crédito a Judas por entregar o Senhor Jesus aos judeus. Nunca pense que sem Judas o Senhor não poderia ser o Salvador. Mesmo se mil ou dez mil Judas tivessem existido, ainda seriam inúteis. Foi o próprio Senhor Jesus quem suportou nossos pecados.  Quando o Senhor Jesus estava orando no jardim do Getsêmani, Ele pode ter parecido o mais fraco de todos os homens, sem qualquer coragem. Ele orou ao Pai para que passasse Dele o cálice (Lucas 22:42). Mas quando saiu do jardim e encontrou muitos homens maus, Ele disse: “Sou eu”, e eles “recuaram e caíram por terra” (João 18:6). Por favor, lembrem-se de que Ele não caiu quando se confrontou com os homens maus. Pelo contrário, Ele os fez cair. Mas enquanto Ele estava no Getsêmani, considerando o sofrimento que envolvia tomar os pecados do homem, como é que Aquele que não tem pecado seria feito pecado e como Ele iria tomar sobre Si o julgamento do pecado, Ele orou para que, se possível, o cálice fosse passado de Si. Não fosse pela questão da redenção, o Senhor Jesus nem mesmo seria comparado a um mártir. Quão fortes foram os muitos mártires cristãos quando marchavam para a arena dos leões. Mas o Senhor Jesus rogou que o cálice fosse, se possível, removido Dele. Fisicamente falando, o Senhor Jesus foi imensamente diferente de todos os mártires. Mas para a redenção, para solucionar o problema do pecado, para Deus vir ao homem e levar o pecado do homem, até mesmo Ele teve de pedir que, se possível, o cálice fosse removido. A Bíblia diz que Jeová foi quem fez Dele uma oferta pelo pecado. Foi Jeová quem pôs sobre Ele a iniquidade de todos nós. Isso foi algo que Jeová fez. A cruz foi obra de Deus; não foi obra do homem. A cruz é o próprio Deus vindo à terra para levar os pecados do homem. A cruz não é o homem crucificando o Filho de Deus.  Você se lembra do que a Bíblia diz que aconteceu entre a hora sexta e a nona? O sol escureceu (Lucas 23:44-45). Os judeus escarneceram Dele, e os gentios conseguiram açoitá-Lo e humilhá-Lo. Mas o sol estava além do controle dos judeus, e os gentios não tinham autoridade para manipular o sol. O homem protestou e tocou trombeta; mas o terremoto não foi algo que Pilatos conseguisse ordenar. Por que o céu escureceu? Esse fenômeno aconteceu porque o próprio Deus veio tomar nossos pecados. Isso não foi algo feito pelo homem. Se tivesse sido algo feito pelo homem, teria Deus aumentado a dor de Seu Filho quando Ele estava pregado na cruz? Deus não teria enviado doze legiões de anjos para vir e salvá-Lo? Tal fato sem dúvida aconteceria se não fosse pela redenção dos pecados. Agradecemos e louvamos a Deus porque foi Seu Filho quem veio para nos redimir dos pecados. Eis por que Ele disse: “Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” (Mateus 27:46). Nenhum cristão por todos estes dois mil anos disse essas terríveis palavras quando estava para morrer. Por dois mil anos, quer os cristãos tenham morrido em paz quer em aflição, eles foram mais ousados que Ele. Por que o Filho de Deus foi ali rejeitado por Deus? Se tivesse sido meramente a mão do homem e a crucificação pelo homem, essa teria sido a ocasião em que Ele mais precisaria da presença de Deus. Quando o homem conspirou para persegui-Lo e matá-Lo, Deus deveria ter manifestado mais Sua presença. Esse foi o momento mais crucial e Deus tinha de estar com Ele. Por que Deus O abandonou, então? Foi unicamente porque o Filho de Deus tinha se tornado pecado e tinha suportado o julgamento. Essa é a razão de Ele ter clamado: “Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” Deus O desamparara. Nós, que cremos na obra da redenção, sabemos que o trabalhar da cruz foi para que Ele fosse julgado pelo pecado. A cruz do Senhor mostra-nos como o pecado é maligno e quão grande preço Deus pagou pela obra de redenção.  Além de Isaías 53, podemos encontrar outro testemunho claro da Escritura. Romanos 3:25 diz que Deus propôs Cristo como propiciação. Isso também mostra claramente que a obra foi feita por Deus. Deuteronômio 21:23 diz-nos que o que é levantado no madeiro é maldito de Deus. Quando o Senhor foi pregado na cruz, Ele não foi maldito do homem. Antes, Ele foi maldito de Deus. Eis por que Ele pode livrar-nos da maldição. Em 1 João 4:10 é dito que Deus nos amou e enviou Seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Foi Deus quem enviou Seu Filho como propiciação. Não foi o homem quem O crucificou. Em 2 Coríntios 5:21 também é dito: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós”. Isso foi algo que Deus fez. A cruz é o trabalhar de Deus. Foi Deus quem enviou o Senhor Jesus para passar pela cruz. Atos 2:23 menciona tanto o aspecto de Deus como o aspecto do homem. “Este [homem] entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”. O Senhor Jesus foi morto pelos judeus por mãos de iníquos. No entanto, tal morte foi de acordo com o desígnio de Deus. Isso mostra-nos que tudo foi feito por Deus. Nós temos pecado e o pecado somente pode ser tratado por Deus. Por essa razão, Deus veio ao mundo para ser um homem. Enquanto homem, Ele foi verdadeiramente justo. Mas essa justiça não foi imputada a nós. Foi a morte do Senhor Jesus que nos livrou da maldição da lei (Gálatas 3:13). Ele não nos livrou do pecado enquanto estava vivo, mas quando morreu. Na cruz, foi Deus quem O crucificou, não o homem. A mão do homem é inútil. Foi Deus quem aproveitou a oportunidade ali para manifestar o pecado do homem.  Redenção e Substituição  Agora temos de fazer uma pergunta. Uma vez que o Senhor Jesus morreu na cruz e uma vez que Deus O fez propiciação, como, então, podemos ser salvos? Qual a diferença entre redenção e substituição? São fatores semelhantes? Temos de reconhecer que a obra do Senhor Jesus é uma obra de redenção. Mas o resultado dessa obra redentora é a substituição. A redenção é a causa e a substituição é o resultado. A extensão da redenção é muito grande. Mas a extensão da substituição não é tão grande assim. É muito interessante que a Bíblia nunca diz que o Senhor Jesus morreu pelos pecados de todos. Ela somente diz que o Senhor Jesus morreu por todos (2 Coríntios 5:14). Sua obra redentora foi para satisfazer as justas exigências de Deus. Quando o Senhor cumpriu a redenção na cruz, essa obra de redenção não tinha absolutamente nada a ver com o homem. Quero impressioná-los fortemente com esta palavra: a redenção não está absolutamente relacionada conosoco. A obra de redenção é entre Deus e o pecado. Que é a obra de redenção? É o próprio Deus vindo ao mundo para resolver o problema do pecado. Uma vez que o problema do pecado foi resolvido, a obra da redenção foi cumprida.  O sangue do cordeiro pascal era aspergido nas ombreiras e nas vergas das portas (Êxodo 12:7). Deus disse que quando visse o sangue, Ele passaria pela casa (v. 13). O sangue foi para Deus ver. Não foi para os primogênitos verem. Os primogênitos não necessitavam ver o sangue; eles ficavam dentro das casas. O sangue foi para cumprir as justas exigências de Deus; não foi para cumprir as exigências dos primogênitos. Para os primogênitos não houve algo como a redenção. Se lermos o Antigo Testamento, descobriremos que o sangue para a expiação (isto é, redenção) do pecado deveria ser levado para dentro do Santo dos Santos. Era para ser aspergido sobre o véu sete vezes (Levítico 16:14-15). No dia da Expiação, o sumo sacerdote tinha de trazer o sangue e aspergi-lo sobre o propiciatório da arca. O sangue era para ser oferecido a Deus. É verdade que o sangue tinha de ser colocado sobre o polegar, a orelha e o dedo do pé de um leproso. Mas isso era feito com respeito à consagração. Era uma questão de consagração a Deus. O homem não tinha tal exigência. A redenção tem a ver com Deus. É Deus vindo para solucionar o que o homem não pode solucionar por si mesmo. Eis por que a Bíblia diz: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro” (1 João 2:2). A redenção inclui todo o mundo. Em tal redenção, todos, até os que não foram salvos, estão incluídos.  Deus veio e lidou com nossos pecados. O Senhor Jesus satisfez as justas exigências de Deus para que nós pudéssemos receber a substituição do Senhor Jesus. Sua redenção é uma preparação abstrata. Pelo crer Nele, essa redenção se torna uma substituição para nós. Diante de Deus, não foi uma substituição, mas uma redenção. É importante saber isso. Se não tivermos clareza desse assunto, ficaremos confusos a respeito de muitas outras doutrinas. A redenção é para Deus e a substituição é para nós. A redenção é para satisfazer as exigências de Deus e a substituição é para recebermos o benefício. O que Ele cumpriu foi redenção; o que nós recebemos é substituição. Eu não quero dizer que não haja tal ensinamento como substituição na Bíblia. Sem dúvida, há tal ensinamento. Mas todos os ensinamentos na Bíblia concernentes à substituição são escritos para os cristãos. Eles não são escritos para incrédulos. Para os gentios, dizemos que Jesus morreu por eles e cumpriu a redenção. Para os cristãos, dizemos que o Senhor Jesus os substituiu tomando seus pecados.  Na passagem em que lemos de Isaías 53, notamos que ela diz: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (v. 5). Por favor, observem que lemos nossas em vez de vossas. Ele levou o sofrimento pelos nossos pecados. Assim, nossos pecados são perdoados. É por nós, e não por todo o mundo. Quando Pedro citou Isaías 53, ele disse: “Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1 Pedro 2:24). É sempre nossos e não vossos. Por isso, temos de ser cuidadosos quando pregamos o evangelho. É melhor que sejamos mais fiéis à Bíblia. A Bíblia nunca diz aos pecadores que Jesus morreu pelos pecados deles. A Bíblia diz que Jesus morreu por eles (Romanos 5:8). Existe tal fato: Jesus morreu por eles. Mas não há nada sobre Jesus ter morrido pelos pecados deles. Jesus morrer por eles é um fato. Mas o problema do pecado ainda não ficou resolvido. É verdade que todos os problemas do pecado já estão resolvidos diante de Deus. Mas se alguém não tiver participação nessa obra, seus pecados ainda não estão solucionados e esse não tem parte na substituição de Jesus. Quando alguém recebe o Senhor Jesus, seu problema de pecado é resolvido. Isso é substituição. Sem isso, não há substituição. Em outras palavras, a redenção foi realizada, mas a salvação ainda não. Se eu lhes perguntasse quando vocês foram redimidos, vocês responderiam que isso aconteceu há dois mil anos; mas se eu lhes perguntasse quando vocês foram salvos, vocês diriam que foi em determinado dia, mês e ano. A redenção foi algo que aconteceu há muito tempo. A salvação é algo presente. A redenção foi cumprida por Cristo. A salvação é realizada em nós. Fomos redimidos há dois mil anos, mas podemos ter sido salvos há poucos anos. Não sei como dizer isso mais claramente, contudo para mim está muito claro. A obra de redenção de Deus é uma questão referente a Ele mesmo; é para satisfaze-lo e nada tem a ver conosco. É algo absolutamente relacionado com Deus. O próprio Deus foi O que fez a obra. Quando vemos o que Deus cumpriu, e cremos e aceitamos, recebemos essa substituição.  Usemos outra ilustração. Há uma passagem que une as margens leste e oeste do rio Wham Poa. É uma passagem gratuita. O lugar é conhecido como Passagem Gratuita. Suponha que eu fosse um ladrão que tivesse roubado e assaltado muitas vezes ali. Contudo, agora eu sou diferente. Que deveria eu fazer se quisesse fazer um tratamento completo em relação ao meu passado de roubos e assaltos? Mesmo se eu quisesse reembolsar, aonde eu deveria ir? É difícil encontrar aqueles a quem assaltei. Que devo fazer? Por causa da justiça e para reembolsar, posso começar um serviço gratuito para transportar as pessoas pelo rio. Qualquer pessoa pode fazer a travessia e nada lhe será cobrado. Posso fazer isso para devolver o dinheiro que roubei das pessoas nesse lugar. Ofereço esse tipo de serviço grátis como uma solução para o problema de minha injustiça. Esse serviço gratuito é para mim uma solução para a injustiça. Mas para os outros é uma substituição; estou pagando a passagem no lugar dos outros. Esse é o modo de o Senhor Jesus lidar com o problema da punição. Deus enviou o Senhor Jesus para cumprir a redenção a fim de que Sua própria santidade e justiça bem como o problema do pecado fossem cuidados. Quando alguém crê, ele entra nessa obra, e o Senhor Jesus leva embora seus pecados.  Então, o Novo Testamento diz: “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos” (1 Pedro 3:18). Ele mesmo carregou em Seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados (1 Pedro 2:24). Tudo isso foi feito por nós. Na noite em que o Senhor Jesus foi traído, Ele tomou o cálice e deu graças, e o deu aos discípulos, dizendo: “Porque isto é o Meu sangue da aliança, que é derramado por muitos, para perdão de pecados” (Mateus 26:28). Foi por muitos, não por todos. No futuro, veremos incontáveis pessoas, com palmas nas mãos, lavados pelo sangue (Apocalipse 7:9, 14). Graças ao Senhor. Ele cumpriu a redenção por Sua própria causa, para que nós pudéssemos ser substituídos. Nada podemos dizer a não ser agradecer-lhe e louvá-Lo. Abraço. Davi.

domingo, 14 de dezembro de 2025

O PAI DE BUDA

Budismo. Livro O Evangelho de Buda. Vida e Doutrina de Sidarta Gautama - Por Yogi Kharishnanda. O PAI DE BUDA. O Buda estava em Radjagriha, quando recebeu um recado de seu pai, Suddhodana, que dizia: Desejo ver meu filho antes de morrer. Todos têm recebido o benefício de sua doutrina, menos seu pai e seus parentes. O Tathágata a que o mundo adora? Seu pai o espera, como o lírio impaciente aguarda a saída do Sol. O Senhor Buda atendeu ao pedido de seu pai, e se pôs a caminho para Rapilavastu Esse acontecimento foi conhecido por toda a Comarca, cujas pessoa diziam: O príncipe Sidarta, que deixou seu lar para adquirir luz e conhecimento, volta iluminado. Suddhodana saiu para receber o príncipe, acompanhado da família real e de seus ministros. Ao vê-lo de longe,, admirou-se da majestade de seu porte e da beleza de sua fisionomia. Alegrou-se em seu coração com sem que seus lábios conseguissem proferir uma palavra. Realmente aquele era seu filho, outrora o príncipe Sidarta, o herdeiro do trono. Todavia agora transformado em Buda, o Bem-aventurado, o Santo Iluminado, o Tathágata, O Senhor da Verdade, o Instrutor do mundo. O rei Suddhodana desceu do carro e foi ao encontro se seu filho, dizendo-lhe: Faz sete anos que não vejo você, e com que impaciência esperava este momento! O Senhor Buda assentou-se em frente de seu pai, que avidamente o olhava sem atrever-se a chamá-lo pelo nome. Depois, ele lhe disse: Sidarta, junte-se ao seu velho pai e seja de novo seu filho. Contudo, ao ver a serena firmeza de seu filho, reprimiu seus sentimentos dolorosos. E assim o rei sentado em frente de seu filho, gozava em sua aflição e sofria em sua alegria. Podia ufanar-se de seu filho, porém sofria ao pensar que não seria ele o seu herdeiro. O rei disse ao Senhor Buda: Queria oferecer a você o meu reino, todavia, você faria tanto caso desta oferta como de um punhado de cinzas. O Senhor Buda respondeu: Sei que o coração do rei transborda de amor e está profundamente triste por causa do seu filho. Mas, os amorosos laços que o ligam ao filho que perdeu há de ligá-lo com igual bondade a todos os seres. Ou em lugar deste filho, receberá outro maior do que Sidarta. Receberá o Buda, o Mestre da Verdade, o pregador da Justiça. A paz do nirvana inundará o seu coração. Suddhodana estremeceu de alegria ao ouvir as palavras suaves de seu filho. De mãos juntas exclamou com os olhos banhados de lágrimas. Que transmutação maravilhosa! Minha dolorosa tristeza se desvaneceu. Antes, eu estava pesaroso e meu coração aflito, porém agora colho o fruto de sua magna renúncia. Movido de profunda compaixão, você fez muito bem em renunciar as mesquinhas manifestações do régio poder. Para cumprir seus nobres propósitos de religiosa devoção. Você encontrou o caminho e já pode pregar a verdade ao mundo ansioso por libertação. Segundo relatam as Escrituras Sagradas, no vasto prado as margens do rio Rodana. O Mestre sentou-se dominando a multidão respeitosas ali congregada para ouvir a sua palavra. Buda estava sentado à direita do rei, seu pai, ao redor se agrupavam os magnatas da corte, e a seus pés Yasodhara. Que com seu manto prateado cobriu as pregas do pobre manto amarelo do seu esposo. À noite caiu sobre os ouvintes, como celestial donzela extasiada de amor. Cujas tranças de cabelo eram como ondulantes nuvens. As belas estrelas, as pérolas e os diamantes de sua coroa. A Lua, seu diadema, e as densas trevas teciam a sua vestimenta. Assim disse o Senhor Buda: Os livros ensinam que as trevas eram o princípio e que Brahma meditava solitário naquela noite. Não busquem ali Brahma nem o Princípio. Olhos mortais não podem vê-lo, nem a mente humana é capaz de o conhecer. Erguerá um véu após outro, mas sempre encontrará outro véu atrás. Os astros rodam e não perguntam. Basta que a vida e a morte, a alegria e a dor subsistam. Assim a causa e o efeito, o transcurso do tempo e o incessante fluxo e refluxo da assistência que é sempre mutável e desliza como um rio. Cujas rodas lentas ou rápidas se sucedem umas as outras desde sua longínqua fonte até o mar onde deságuam. O Sol evapora o mar e restitui ondas perdidas em forma de aveludadas nuvens, que gotejarão montanhas abaixo. Para refluir de novo, sem paz nem trégua. Isso basta para se saber quão ilusório são os céus, às terras, os mundos e as mudanças que o alteram em potentes rodas de lutas e violência. Cujo giro turbilhonante ninguém pode deter nem inverter. Não supliquem, porque as trevas não iluminarão. Nada peçam ao silêncio, porque ele está mudo. Nada esperem dos deuses implacáveis, oferecendo-lhes hinos e dádivas. Não pretendam suborná-los com sacrifícios de sangue. Devemos buscar a libertação em nós mesmos. Cada qual cria seu próprio cárcere. Cada qual tem tanto poder quanto os mais potentes. Porque tanto para as potestades que estão em cima, ao redor e embaixo de nós. Como para toda a carne e toda a vida. A ação engendra o prazer e a dor. Do que foi provém aquilo que é e o que será, melhor ou pior. Vocês podem elevar o seu destino a maior altura do que o de Indra ou rebaixá-lo mais do que o da Iarva. O que sob pode cair. O que cai pode subir. Os raios da roda não param de girar. Oh vocês que sofrem! Saibam que sofrem porque querem. Ninguém se excita â vida nem nela os retém condenados â morte. Girando sobre a roda e abraçando seus raios de agonia, seu aro de lágrimas, seu cubo de rija madeira. Mais fundo que o inferno, mais alto que o céu, além das mais longínquas estrelas. Mais além da morada de Brahma. Há um poder estável e divino, existente antes do princípio e que não terá fim. Eterno como o tempo, seguro como a certeza, que impele pra o bem e é súdito de suas próprias leis. A um toque seu, florescem os rosais e sua mão modela as pétalas de lótus. No obscuro solo e nas silenciosas sementes, tece o enfeite da primavera. Seu pincel colore as luzentes nuvens, e no pescoço do pavão real engasta suas esmeraldas. As estrelas são o seu porto, e o relâmpago, o vento e a chuva seus escravos. Constrói nas trevas o coração do homem, e na obscuridade do ovo o faisão de colo multicor. Sempre ativo, transmuta a ira e o ódio em amor. Seus tesouros são os cinzentos ovos no ninho do colibri dourado. Suas hexágonas favas de abelha são suas redomas de mel. A formiga obedece aos seus mandatos e a pomba branca o conhece bem. Solta as asas da águia toda vez que com pressa volta ao seu ninho. Conduz a loba para junto aos seus lobinhos e encontra sustento e amigos para os seres abandonados. Nada o repugna, nada o detêm.  Tudo ama. Enche os seios maternais de doce leite, bem como de veneno mortífero os dentes da serpente. Concerta no interminável dossel do firmamento a harmoniosa música das esferas móveis. Nos seios abismais da Terra esconde o ouro, o ônix, a safira e as lazulitas. Envolto perpetuamente no mistério, oculta-se na espessura dos bosques e alimenta ao pé dos cedros admiráveis rebentos com novas fibras, ervas e flores. Mata e salva sem outro motivo que o cumprimento do destino. O amor e a vida são os fios. A morte e a dor as lançadeiras do seu tear. Faz, desfaz e emenda tudo. Com o que faz, supera o que fez. Cada vida do homem é o resultado de suas vidas precedentes - passadas. Os erros passados engendram tristeza e sofrimento. A retidão passada traz felicidade. Eles colhem o que semeiam. Olhem para seus campos. O sésamo foi sésamo e o trigo foi trigo. O silêncio e a sombra o sabem. Assim nasce o destino do homem e mulher. Vem a vida e colhe o que semeou. Sésamo ou trigo ou ervas venenosas e daninhas que corrompem tanto a ele mesmo quanto a terra doentia. No entanto, se a terra for bem lavrada e as ervas más extirpadas, sendo semeada em lugar delas as sãs e puras. O solo será formoso e fértil e a colheita será ótima. Se aprende o motivo da dor e pacientemente o suporta. Esforçando-se por pagar as dívidas contraídas por suas culpas passadas. Sempre fiel ao amor e a verdade. Se limpa seu sangue da mentira e concupiscência e sem prejuízo de outrem sofre tudo mansamente. Perdoando as ofensas, pagando mal com o bem. Se dia a dia é compassivo santo, justo, amável e sincero. Extirpo o desejo de onde quer que penetre com raízes até extinguir o apego à vida. Se agir assim, terminará a conta de sua vida liquidando saldando seus débitos. Desse modo, acrescentando e vivificando os créditos recentes ou longínquos, que também produzirão crédito frutíferos. Quem age assim não precisa do que vocês chamam vida. Realizou o propósito que o fez homem. Já não o torturará a ansiedade nem o mancharão os pecados. Nem os prazeres e dores humanas turvarão a sua perpétua paz. Nem voltarão a eles mortes e renascimentos. Entra no nirvana. Uniu-se a Vida e, no entanto, não vive. É feliz porque deixou de existir, porém não deixou de ser. E o Senhor Buda retirou-se pra o bosque próximo da cidade. Abraço. Davi. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

HINDUÍSMO. Parte II

Hinduísmo. Extraído da Enciclopédia Wikepédia. O HIDUISMO. Parte II. O Hinduísmo baseia-se no tesouro acumulado de leis espirituais descobertas por diferentes pessoas em diferentes tempos. As Escrituras Hindus foram transmitidas oralmente na forma de versos para auxiliar na sua memorização, muitos séculos antes de serem escritos. Ao longo dos séculos diversos sábios refinaram estes ensinamentos e expandiram o cânone. Na crença hindu pós Védica e moderna a maior parte das Escrituras não costuma ser interpretada literalmente; dá-se mais importância aos significados éticos e metafóricos derivados deles. A maior parte dos textos sagrados está em sânscrito, e os textos se dividem em duas classes: Shruti e Smriti. Shruti (aquilo que é ouvido) refere-se primordialmente aos Vedas, que compõem o mais antigo registro das Escrituras Hindus. Enquanto muitos hindus veneram os Vedas como verdades eternas reveladas aos antigos sábios (Rishis), alguns devotos não associam a criação deles com qualquer divindade ou pessoa, acreditando serem leis do mundo espiritual, que existiriam mesmo se não tivessem sido reveladas aos sábios. Os hindus acreditam que, como as verdades espirituais dos Vedas são eternas, elas estão sendo expressas continuamente, de diferentes maneiras. As Vedas são os textos mais antigos do Hinduísmo, e também influenciaram o Budismo, o Jainismo e o Sikhismo. Os Vedas contêm hinos, encantamentos e rituais da Índia Antiga. Juntamente com o Livro dos Mortos, o Enuma Elish, o I Ching e o Avesta, estão entre os mais antigos textos religiosos existentes. Além de seu valor espiritual, eles também oferecem uma visão única da vida cotidiana na Índia Antiga. Enquanto a maioria dos hindus provavelmente nunca leram os Vedas, a reverência por mais uma noção abstrata de conhecimento (Veda significa conhecimento em sânscrito) está profundamente impregnada no coração daqueles que seguem o Veda Dharma. Existem quatro Vedas que são os Rig Veda, Sama Veda, Yajur Veda, Atharva Veda. O Rig Veda é o primeiro e mais importante deles. Cada Veda se divide em quatro partes sendo a primeira o Veda propriamente dito, é o Samhitã, que contém Mantras Sagrados. As outras três partes formam um conjunto em três camadas de comentários, costumeiramente em prosa, tidos como feitos numa data um pouco posterior ao Samhitâ. São os Brahmanas, Aranyakas e os Upanishades. As primeiras duas partes foram chamadas posteriormente de Karmakanda (parte ritualística), enquanto as últimas duas formam a Jinanakanda (parte do conhecimento). Embora os Vedas tenham como foco os rituais, os Upanishades se concentram numa abordagem espiritual e em ensinamentos filosóficos, discutindo Brâman e a reencarnação. Os Upanishades são denominados Vedanta, porque eles contêm uma exposição da essência espiritual dos Vedas. Entretanto é importante observar que os Upanishades são textos e Vedanta é uma filosofia. A palavra Upanishad significa sentar-se próximo ou perto, pois os estudantes costumavam sentar-se no solo, próximos a seus mestres. Os Upanishades organizaram mais precisamente a doutrina Védica de auto realização, Yoga, e meditação, Karma e reencarnação, que eram veladas no simbolismo da antiga religião de mistérios. Os mais antigos Upanishades são geralmente associados a um Veda em particular, através da exposição de uma Brâmana ou Aranyaka, enquanto os mais recentes não. Formando o coração de Vedanta (final dos Vedas), eles contêm a técnica de adoração aos deuses Védicos e capturam a essência do dito do Rig Veda "A Verdade é Uma". Eles  colocam a filosofia hindu separada e acolhendo uma única e transcendente força imanente e inata na alma de cada ser humano, identificando o micro cosmo e o macro cosmo como Um. Podemos dizer que enquanto o Hinduísmo primitivo é fundamentado nos quatro Vedas, o Hinduísmo Clássico, a Yoga e o Vedanta, e correntes Tântricas do Bhakti foram modelados com base nos Upanishades. Textos hindus além dos Shrutis são chamados coletivamente de Smritis (memória). Os mais célebres dentre os Smritis são os Poemas Épicos, que consistem do Mahabharata e do Ramaiana. O Bhagavad Guita, parte integral do Mahabarata, e um dos mais populares textos sacros do Hinduísmo, contém ensinamentos filosóficos de Krishna, uma encarnação de Vishnu, narradas ao príncipe Arjuna às vésperas de uma grande guerra. O Bhagavad Guita, narrado por Krishna, é descrito como a essência dos Vedas. O Guita, no entanto, por vezes também chamado de Guitopanishade costuma ser categorizado com maior frequência entre os Shrutis, por ter um conteúdo de natureza Upanishádica. Os Smritis também incluem os Puranas, que ilustram ideias hindus através de narrativas vividas. Também existem textos de natureza sectária, como o Devi Mahatmya, os Tantras, os Yoga Sutras, Tirumantiram, Shiva Sutras e Agamas. Um texto mais controverso, o Manusmriti, é o livro de leis que singulariza os códigos sociais do sistema de castas. Os Puranas são considerados Smriti; ensinamentos não escritos passados oralmente de uma geração a outra. Eles são distintos dos Shrutis ou ensinamentos escritos tradicionais. Existem um total de dezoito Purunas maiores, todos escritos em formas de versos. Acredita-se que estes textos foram escritos muito anteriormente ao Ramayana e ao Mahabarata. Acredita-se que o mais antigo Purana provém de cerca de 300 a.C., e os mais recentes de 1300-1400 revisados. Tal pode ser notado quando se observa que todos eles comentam que o número de Puranas é dezoito. Os Puranas variam muito: o Skanda Purana é o mais longo com 81.000 versos, enquanto o Brahma Purana e o Vamana Purana são os mais curtos com 10.000 versos cada. O número total de versos em todos os dezoito Puranas são de 400.000 versos. O Ramayana e o Mahabarata são os livros Épicos Nacionais da Índia. São provavelmente os poemas mais longos escritos em todo o mundo. A obra conta a história de um príncipe, Rama de Ayodhya, cuja esposa Sita é abduzida (raptada) pelo demônio Ravana, rei de Lanka. O Mahabharata é atribuído ao sábio Vyasa, e foi escrito no período entre 540 a.C. 300. A obra, que conta a lenda dos Bháratas, uma das tribos arianas, discute o Tri Varga ou as três metas da vida humana que são Kama ou desfrute sensorial, Artha ou desenvolvimento econômico e Dharma a religiosidade mundana que se resume em códigos de conduta moral e ritual. O Ramayana é atribuído ao poeta Valmiki, e foi escrito no primeiro século, apesar de ser baseado em tradições orais que datam de seis ou sete séculos Antes de Cristo. A Bhagavad Guita é considerado parte do Mahabárata (escrito 400 a.C. 300), sendo um texto central do Hinduísmo, um diálogo filosófico entre o deus Krishna e o guerreiro Arjuna. Este é um dos mais populares e acessíveis textos do Hinduísmo, e é de essencial importância para a religião. O Guita discute altruísmo, dever, devoção, meditação, integrando diferentes partes da filosofia hindu. Manu é o homem lendário, o Adão dos hindus. As leis de Manu, ou Manusmriti, são uma coleção de textos atribuídos a ele. A mais antiga evidência de uma religião pré histórica na índia data do fim do Neolítico, no período harapano inicial (5500 AC 2600). As crenças e práticas do período pré clássico (1500 AC 500), são chamadas coletivamente de religião histórica Védica. O Hinduísmo moderno cresceu a partir dos Vedas, dos quais o mais antigo é o Rig Veda, que data de 1700 a.C. 1100). Os Vedas centralizam o culto em divindades como Indra, Varuna e Agni, e no ritual do Soma. Sacrifício de fogo eram realizados, chamados de Yagna, e entoavam Mantras Védicos, porém não construíam templos nem ícones. Tradições Védicas mais antigas mostram fortes semelhanças com o Zoroastrismo e outras religiões Indo Europeias. Os principais Épicos em sânscrito, o Ramayana e o Mahabarata, foram compilados durante um período extenso que abrangeu os últimos séculos antes de Cristo, e os primeiros da Era Comum. Contêm histórias mitológicas sobre os governantes e as guerras da antiga Índia, intercaladas com tratados religiosos e filosóficos. Os Puranas posteriores recontam histórias sobre os Devas e Devis (deuses hindus), suas interações com os humanos e suas batalhas contra demônios. Pouco é conhecido sobre a origem do Hinduísmo, já que a sua existência antecede os registros históricos. É dito que o Hinduísmo deriva das crenças dos arianos, que residiam nos continentes sub Indianos (nobres seguidores dos Vedas), Dravidianos e Harapanos. Alguns dizem que o Hinduísmo nasceu com o Budismo e o Jainismo, mas Heinrich Zimmer (1890-1943) e outros orientalistas afirmam que o Jainismo é muito anterior ao Hinduísmo, e que o Budismo deriva deste e do Sankhya que em consequência afetaram o desenvolvimento de sua religião mãe. Diversas são as ideias sobre as origens dos Vedas e a compreensão se os arianos eram ou não nativos ou estrangeiros na Índia. A existência do Hinduísmo data de 4000 a.C. 6000. Historicamente, a palavra hindu antecede o Hinduísmo como religião; o termo é de origem persa e primeiramente referia-se ao povo que residia no outro lado (do ponto de vista persa) do Sindhu ou rio Indo. Foi utilizado para expressar não somente a etnicidade mas a religião Védica desde o século XV e XVI, por personalidades como Guru Nanak (1469-1539) fundador do Sikhismo. Durante o Império Britânico, a utilização do termo tornou-se comum, e eventualmente, a religião dos hindus Védicos foi denominada hinduísmo. Na verdade, foi meramente uma nova vestimenta para uma cultura que vinha prosperando desde a mais remota Antiguidade. As seis Escolas Filosóficas Ortodoxas Hindus (Astika, que aceitam a autoridade dos Vedas) são Nyaya, Vaisheshika, Sankhya, Yoga, Purva Mimamsa e Uttara Mimamsa. As Escolas não Védicas são denominadas Nastika, ou heterodoxas, e referem-se ao Budismo, Jainismo e Lokayata. As Escolas que continuam a influenciar o Hinduísmo hoje são Purva Mimamsa, Yoga e Vedanta. A Escola Nyaya é de importância ímpar no desenvolvimento da filosofia indiana devido ao seu papel na construção de um sistema lógico e analítico, do qual nasceu todo o resto da filosofia lógica indiana, além de  influenciar o desenvolvimento paralelo em diversas outras áreas do pensamento. O Nyaya foi fundado por Aksapada Gautama, conhecido como Aksapada (o de olhos fixos nos pés), que escreveu o texto de maior importância dessa Escola, o Nyaya Sutra, por volta do século II AC. Inicialmente vista com suspeita pelo clero hindu, passou logo depois a ser promovido por este como ferramenta de debate contra os heterodoxos (Materialistas, Budistas e Jainistas). A Escola teve seu prestígio incrementado, e o seu sistema passou a ser visto como um dos meios para se levar à salvação. A Escola Vaisheshika representa uma linha de pensamento intimamente associada com a da Nyaya, e originalmente proposta pelo sábio Kanda (ou Kana Bhuk, literalmente, comedor de átomos), em torno do século II AC. Basicamente, a Vaisheshika expressa uma forma de atomismo e postula que todos os objetos do universo físico são redutíveis a um número finito de átomos. A filosofia Samkhya é anterior ao Bramamismo, filosofia que deu origem ao Hinduísmo, como coloca o orientalista Heinrich Zimmer (1890-1943) em seu clássico Filosofias da Índia. O monge Patandjali do sul da Índia que viveu entre os anos (200-400), onde até hoje a tradição Tamil preserva elementos das filosofias pré Védicas, tinha formação no sistema Saamkhya Yoga, indissociável. O Samkhya foi compilado bem antes de Patandjali, por Kapila, que viveu pouco tempo antes de Budha Sakyamuni (563 a.C. 483). Uma diferença importante entre o Samkhya e o Bramanismo é que o primeiro é dualista, e o segundo monista, mas ambos vêm o Espírito, ou Deus, como imanente e transcendente ao mesmo tempo. A diferença mais significante do Samkhya é que a Escola de Yoga não somente incorpora o conceito do Ishvara (Deus Pessoal) numa visão do mundo metafísica mas também sustenta Ishvara como um ideal sobre o qual meditar. A razão é que Ishvara é o único  aspecto de Purusha (do infinito Terreno Divino) que não foi mesclado com Prakrti (forças criativas temporárias). Também utiliza as terminologias Brahman Atman e conceitos profundos dos Upanishades, adotando uma visão Vedântica monista. A realização do objetivo do Yoga é conhecido como Moksha ou Samadhi. E como nos Upanishades, busca o despertar ou a compreensão de Atman como sendo nada mais que o infinito brâmane, através da (mente) ética, (corpo) físico e meditação (alma), o único alvo de suas práticas é a Verdade Suprema. A Escola Purva Mimamsa (investigação anterior) estabeleceu as bases para a formulação de regras de interpretação dos Vedas. O principal questionamento da Purva Mimamsa se refere a natureza das leis naturais (Dharma). Segundo esta linha de pensamento, a natureza do Dharma não é acessível à razão ou observação, e deve ser inferida a partir da autoridade da revelação, contida nos Vedas. Este método empírico e eminentemente sensível de aplicação religiosa é a chave para Sanatana Dharma e foi especialmente desenvolvido por racionalistas como Sankaracharya e Swami Vivekananda. A Purva Mimamsa, sendo fortemente ligada à exegese textual dos Vedas, deu origem ao estudo da filologia (estudo de uma língua através de seu conteúdo escrito, que visa não só a restauração e crítica dos textos para o conhecimento do uso linguístico e sua história, mas também a compreensão da globalidade dos fenômenos culturais, especialmente os de ordem literária, a que ela serve de veículo) ou da filosofia da linguagem na Índia. A introdução da noção de Shabda (discurso) como unidade indivisível de som e significado é devido ao sábio Bhartrhari no século VII. O sistema do Yoga é geralmente considerado como tendo surgido a partir da filosofia Sankhya. Entretanto o Yoga referido aqui, é especialmente o Raja Yoga, ou união através da meditação. E é baseada em um texto que exerceu grande influência de Patandjali intitulado Yoga Sutras, e é essencialmente uma compilação e sistematização da filosofia do Yoga Meditacional. Os Upanishades e o Bhagavad Guita também são textos indispensáveis ao estudo da Yoga. A Escola Uttara Mimamsa (investigação posterior), também conhecida como Vedanta, é talvez a pedra angular dos movimentos do Hinduísmo, e certamente foi responsável por uma nova onda de investigação filosófica e meditativa, renovação da fé, e reformas culturais. A maior parte da atual filosofia hindu está relacionada a mudanças que foram influenciadas pelo pensamento Vedanta, o qual é focalizado na meditação, moralidade e centralização no Eu Uno, ao invés de rituais ou distinções sociais como as castas. Primeiramente associada com os Upanishades e seus comentários por Badarayana, e Vedanta Sutra, o pensamento Vedanta dividiu-se em três grupos, descritos a seguir. Advaita literalmente significa "não dois", isto é o que referimos como monoteísta, ou sistema não dualístico, que enfatiza a unidade. Seu consolidador foi Shankaracharya (788-820). Shankara expôs suas teorias baseadas amplamente nos ensinamentos dos Upanishades e de seu guru Gaudapada. Através  da análise da consciência experimental, ele expôs a natureza relativa do mundo e estabeleceu a realidade não dual ou Brahman no qual Atman (a alma individual) ou Brahman (a realidade última) são absolutamente identificadas. Não é meramente uma filosofia, mas um sistema consciente de éticas aplicadas e meditação, direcionadas a obtenção da paz e compreensão da verdade. Sankaracharya acusou as castas e rituais como tolos, e em sua própria maneira carismática, suplicou aos verdadeiros devotos a meditarem no amor de Deus e alcançarem a verdade. Ramanuja (1040-1137) foi o principal proponente do conceito de Sriman Narayana como Brahma o Supremo. Ele ensinou que a realidade possui três aspectos: Ishvara (depositar diante do Senhor), Vishnu Cit (alma) e Acit (matéria). Vishnu é a única realidade independente, enquanto alma e material são dependentes de Deus para sua existência. Devido a esta qualificação da realidade última, o sistema de Ramanuja é conhecido como não dualístico. Madhva (1199-1278) identificou deus com Vishnu, mas a sua visão da realidade era puramente dualista, pois ele compreendeu uma diferenciação fundamental entre o Deus Supremo e a alma individual, e o sistema consequentemente foi denominado Dvaita (dualismo) Vedanta. As principais Escolas Não Védicas ou Heterodoxas (Nastika) do pensamento hindu são o Budismo, o Jainismo e Lokayata ou (Karvaka). A Escola Devocional Bhakti tem seu nome derivado do termo hindu que evoca a ideia de amor prazeroso, abnegado e indizível de Deus como Pai, Mãe e Filho Amado, ou qualquer outra forma de relacionamento que encontre apelo no coração do devoto. A Filosofia de Bhakti procura usufruto pleno da divindade universal através da forma pessoal, o que explica a proliferação de tantas divindades na Índia, frequentemente refletindo as inclinações particulares de pequenas áreas ou grupos de pessoas. Vista como uma forma de Yoga ou União, ele preconiza a necessidade de se dissolver o Ego em Deus, na medida em que a consciência do corpo e a mente limitada, como individualidade, seriam fatores contrários à realização espiritual. Essencialmente, é Deus que promove toda mudança, que é a fonte de todos os trabalhos advindos da idade através do amor e da luz. Os movimentos Bhakti rejuvenesceram o Hinduísmo ao longo da sua intensa expressão de fé e receptividade às necessidades emocionais e filosóficas da Índia. Pode-se dizer corretamente que influenciaram a maior parte, principalmente as mudança nas orações e rituais hindus desde tempos remotos. A mais popular forma de expressão de amor a Deus na tradição hindus é através do Puja, ou ritual de devoção, frequentemente utilizando o auxílio de Murti (estátua) juntamente com canções ou recitação de orações meditacionais em formas de mantras. Canções devocionais denominadas Bhajan (escritas primeiramente nos séculos XIV-XVII, Kirtan (elogio) e Arti (uma forma filtrada do ritual de fogo Védico) são algumas vezes cantados juntamente com a realização do Puja. Este sistema orgânico de devoção tenta auxiliar o indivíduo a conectar-se com Deus através  de meios simbólicos. Entretanto, é dito que Brahkta, através de uma crescente conexão com Deus, é eventualmente capaz de evitar todas as formas externas e é inteiramente imerso na bênção do indiferenciado amor a Verdade. A palavra Tantra significa tratado ou série contínua, e é aplicada a uma variedade de trabalhos místicos, ocultos, médicos e científicos bem como aqueles que agora nós consideramos como Tântricos. A maioria dos Tantras foram escritos no final da Idade Média e surgiram da cosmologia hindu. É vital uma nota sobre o elemento Ahimsa no Hinduísmo para compreender a sociedade que se formou à volta de alguns dos seus princípios. Enquanto o Jainismo, à medida que era praticado, era certamente uma grande influência sobre a sociedade indiana, que dizer da sua exortação do Veganismo e da não violência como Ahimsa, o termo primeiro apareceu nos Upanishades. Assim, uma influência internamente enraizada e externamente motivada levou ao desenvolvimento de uma grande quantidade de hindus que acabaram por abraçar o Vegetarianismo, numa tentativa de respeitar formas superiores de vida, restringindo a sua dieta a plantas e vegetais. Cerca de 30% da população hindu atual, especialmente em comunidades ortodoxas  no sul da Índia, em alguns Estados do norte como Guzerate e em vários enclaves Brâmanes à volta do Sub Continente, é vegetariana. Portanto, enquanto o Vegetarianismo não é um dogma, é recomendado como sendo um estilo de vida Sátvico (purificador). Os Hindus abstêm-se predominantemente de carne, e alguns até vão tão longe quanto evitar produtos de pele. Isto acontece provavelmente porque o largamente pastoral povo Védico e as subsequentes gerações de hindus ao longo dos séculos dependiam tanto da Vaca para todo o tipo de produtos lácteos, aragem dos campos e combustível para fertilizante, que o seu estatuto de cuidadora espontânea da humanidade cresceu ao ponto de ser identificada como uma figura quase maternal. Assim, enquanto a maioria dos hindus não adora a Vaca, e as instruções escriturais contra o consumo de carne surgiram muito depois dos Vedas terem sido escritos, esta ainda ocupa um lugar de honra na sociedade hindu. Diz-se Krishna é tanto Govinda (pastor de vacas) como Gopala (protetor de vacas), e que o assistente de Shiva é Nandi, o touro. Com a força no Vegetarianismo (que é habitualmente seguido em dias religiosos ou ocasiões especiais até por hindus comedores de carne) e a natureza sagrada da Vaca, não admira que a maior parte das cidades santas e áreas na Índia tenham uma proibição sobre a venda de produtos de carne e haja um movimento entre os Hindus para banir a matança de vacas não só em regiões específicas como em toda a Índia. Contrário a crença popular, o Hinduísmo prático não é Politeísta nem estritamente Monoteísta. A variedade de deuses e avatares que são adorados pelos hindus são compreendidos como diferentes formas da Verdade Única, algumas vezes vistos como mais do que um mero Deus e um último terreno Divino (Brahman), relacionado mas não limitado ao Monismo, ou um princípio Monoteísta como Vishnu ou Shiva. Acreditando na origem única como sem forma (Nirguna Brahman), sem atributos ou com um Deus Pessoal (Saguna Brahma) com atributos, os Hindus compreendem que a verdade única pode ser vista de forma variada por pessoas diferentes. O Hinduísmo encoraja seus devotos a descreverem e desenvolverem um relacionamento pessoal com sua deidade pessoal escolhida (Ishta Devata) na forma de Deus ou Deusa. Enquanto alguns censos sustentam que os adoradores de uma forma ou outra de Vishnu (conhecidos com Vaishnavs) são 80% dos Hindus e aqueles de Shiva (chamados Shaivaites) e Shakti compõem o restante dos 20% tais estatísticas provavelmente são enganadoras. A maioria dos Hindus adora muitos deuses como expressões variadas do mesmo prisma da Verdade. Entre os mais populares estão Vishnu (como Krishna ou Rama), Shiva, Devi (a Mãe de muitas deidades femininas, como Lakshmi, Sarasvati, Kali e Durga), Ganesha, Skanda e Hanuman. A adoração das deidades é geralmente expressa através de fotografias ou imagens (Murti) que são ditas não serem o próprio Deus, mas condutos para a consciência dos devotos; marcas para a alma humana que significam a inefável e ilimitada natureza do amor e grandiosidade de Deus. Eles são símbolos do princípio maior representado, mas nunca presumido ser o conceito da própria entidade. Consequentemente, a maioria dos hindus adoradores de imagens as toma apenas como símbolos da divindade, opostos à idolatria, erroneamente imposta aos hindus. Recitação e Mantras originaram-se no Hinduísmo e são técnicas fundamentais praticadas até os dias de hoje. Muitos da chamada Mantra Yoga, é realizada através de Japa (repetições). Dizem que os Mantras, através de seus significados, sons e recitação melódica, auxiliam o Sadhaka (aquele que pratica) na obtenção de concentração durante a meditação. Eles também são utilizados como uma expressão de amor a deidade, uma outra faceta da Bhakti Yoga necessária para a compreensão de Murti. Frequentemente eles oferecem coragem em momentos difíceis e são utilizados para a obtenção de auxílio ou para invocar a força espiritual interior. As últimas palavras de Mahatma Gandhi (1869-1948) enquanto morria foi um Mantra ao Senhor Rama: "Hey Ram!". O mais representativo de todos os Mantras Hindu é o famoso Gayatri Mantra: traduzindo seria: "Om! Terra, Galáxias (invocação aos três mundos). Que nós alcancemos a excelência de Savitr, o Deus. Que Ele estimule os nosso pensamentos (meditações). O Mantra Gayatri é considerado o mais universal, o mais importante (Maha Mantra) de todos os Mantras Hindus, e invoca o Brâhma Universal como um princípio de conhecimento e iluminação do sol primordial, mas somente em seu aspecto feminino. Muitos Hindus até os dias de hoje, segundo uma tradição que permanece viva por pelo menos 5.000 anos, realizam abluções matinais às margens do rio sagrado, especialmente do rio Ganges. Conhecido como um Mantra Sagrado, é reverenciado como sendo a forma mais condensada do Conhecimento Divino (Veda). É governado pelo princípio, Ma (Mãe) Gayatri, também conhecido como Veda Mata (Mãe dos Vedas) sendo intimamente associado a deusa do aprendizado e iluminação, Sarasvati. O maior objetivo da religião Védica (Hinduísmo) é alcançar Moksha, ou liberação, através da constante dedicação a Satya (Verdade) e uma eventual realização de Atman (Alma Universal). Não importa se atingido através de meditação ou puro amor, este objetivo universal é alcançado por todos. Deve ser observado que o Hinduísmo é uma fé prática, e é incorporado em cada aspecto da vida. Acredita igualmente no temporal e no infinito, e somente encoraja perspectivas destes princípios. Os grandes Rishis (sábios, considerados espécies de santos hindus) e também denominados como Samsárico (aquele que vive no Samsara, o plano temporal ou terreste). Aquele que segue um meio honesto e amável (Dhármico) é um Jivanmukta (alma vivente liberta). As verdades fundamentais do Hinduísmo são melhores compreendidas na frase dos Upanishades, Tat Twam Asi (Assim És Tu), e na última aspiração como segue: Aum Asato ma sad gamaya, tamaso ma jyotir gamya, mrityor ma aamritaam gamaya. Aum conduz-me da ignorância para a Verdade, das trevas para a Luz, da morte para a Imortalidade. Fonte wikipédia. Abraço. Davi.