terça-feira, 13 de maio de 2025

A RELIGIÃO DO ISLAM. PARTE X

Islamismo. Por Jamaal Zarazobo. (1960 - ). Livro Manual para o Novo Muçulmano. A RELIGIÃO DO ISLÃ. PARTE X. Assim, por exemplo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) aboliu todos os contratos em que se cobravam juros, em um discurso em Makkah, onde havia um grande número de recém-convertidos. Portanto, se tais contratos foram fechados antes de se adotar o Islam, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) deixou claro o aspecto proibido do contrato. Definitivamente, uma vez que a pessoa adota o Islam, a partir deste momento, não deve aceitar nenhuma riqueza que seja obtida através de meios proibidos, não se importando se o contrato tiver sido firmado antes ou depois de sua conversão. A pessoa deve crer que este dinheiro é proibido e, portanto, não deve desejar recebê-lo, nem se beneficiar dele. Dada a natureza atual dos contratos, pode ser que não seja possível anulá-lo. Caso a pessoa se veja obrigada a receber o dinheiro, deve se desfazer dele. (Muitas mesquitas têm contas bancárias para receber o dinheiro obtido por meios ilícitos, mas que a pessoa se viu obrigada a receber. Como, por exemplo, juros sobre depósitos. Então, esse dinheiro pode ser utilizado de formas específicas tal como recomendação dos sábios.) Matrimônios prévios ao Islam Não há dúvidas de que o Islam confirma os casamentos realizados fora do Islam ou antes da pessoa abraçar a religião. Há diversas evidências desse fato. Por exemplo, na Surah al Masad, Allah se refere à esposa de Abu Lahab, o tio do Profeta que se opôs a ele com veemência, igual à esposa do Faraó. Vários companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nasceram antes da chegada do Islam e eram considerados filhos legítimos de seus pais. Certamente, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nunca ordenou aos companheiros casados que voltassem a casar sob as condições que o Islam impõe. De fato, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nem sequer perguntava quais eram os detalhes de seus contratos matrimoniais, como por exemplo, se houve ou não testemunhas. Obviamente, as relações consideradas ilegítimas para as religiões anteriores ou a lei sob a qual vivia o convertido, também são consideradas ilegítimas no Islam. Por exemplo, o filho ilegítimo antes de se adotar o Islam continua a sê-lo após a conversão. Por outro lado, todos os filhos nascidos através de um matrimônio legítimo, prévio ao Islam, serão considerados legítimos e os filhos continuarão sendo filhos legítimos do convertido. Uma exceção a este princípio geral de afirmação dos matrimônios prévios ao Islam é quando os esposos estão dentro dos graus proibidos de parentesco. Por exemplo, na antiga Pérsia, os irmãos podiam se casar. Esse matrimônio seria considerado nulo se qualquer um dos cônjuges se convertesse ao Islam. Afora isso, em uma situação em poligamia, se um homem tem mais de quatro esposas, ao abraçar o Islam, deve separar-se de algumas delas para não extrapolar ao limite máximo permitido. Também cabe mencionar outros temas importantes relacionados com a conversão ao Islam. Se um homem e sua esposa adotam o Islam aproximadamente na mesma época, então, seu matrimônio permanece intacto e não haverá necessidade de fazer mais nada. Se um homem casado com uma mulher judia ou cristã adota o Islam, o matrimônio também permanece intacto e não é necessário nada além. Esses casos são claros e não envolvem maiores problemas. Os casos problemáticos são os seguintes: (1) Um homem convertido casado com uma mulher que não é cristã ou judia e não aceita o Islam; (2) uma mulher convertida casada com um homem não muçulmano. Os versículos do Qur’an relativos a estes temas são os seguintes: “Ó fiéis, quando se vos apresentarem as fugitivas fiéis, examinai-as, muito embora Deus conheça a sua fé melhor do que ninguém; porém, se as julgardes fiéis não as restituais aos incrédulos, porquanto elas não lhes cabem por direito, nem eles a elas; porém, restituí o que eles gastaram (com os seus dotes). Não sereis recriminados se as desposardes, contanto que as doteis; porém, não vos apegueis à tutela das incrédulas, mas exigi a restituição do que gastastes no seu dote; e que (os incrédulos), por sua vez, exijam o que gastaram. Tal é o Juízo de Deus, com que vos julga, porque Deus é Sapiente, Prudentíssimo.” (60:10). “Não desposareis as idólatras até que elas se convertam, porque uma escrava fiel é preferível a uma idólatra, ainda que esta vos apraza. Tampouco consintais no matrimônio das vossas filhas com os idólatras, até que estes se tenham convertido, porque um escravo fiel é preferível a um livre idólatra, ainda que este vos apraza. Eles arrastam-vos para o fogo infernal; em troca, Deus, com Sua benevolência, convoca-vos ao Paraíso e ao perdão e elucida os Seus versículos aos humanos, para que Dele recordem.” (2:221). Trocar o nome ao se converter muçulmano É uma prática bastante comum que os convertidos mudem seus nomes ao abraçarem o Islam. Às vezes isso é feito para que o convertido se sinta mais próximo e apegado à comunidade islâmica. A pergunta lógica que surge é: Essa mudança de nome é um requisito, é algo recomendado ou é simplesmente permitido? Sobre este ponto, Abdul Aziz Ibn Baaz respondeu o seguinte: “Informo-lhes que não existe evidência na Lei Islâmica que exija àquele que se converte ao Islam mude seu nome para um nome islâmico. [A exceção é quando] Existe uma razão islâmica que assim requeira a mudança. Por exemplo, se uma pessoa tem um nome que indica adoração a outra coisa que não Allah, como “servo de Jesus”; ou se a pessoa tem um nome que não é bom e existam outros nomes melhores, como o nome “Áspero”, que poderia ser modificado para “Amável”. O caso é similar com qualquer outro nome que não seja considerado apropriado. Sem dúvidas, é obrigatório mudar o nome se este indica adoração a qualquer coisa que não Allah. Em respeito aoutros nomes [desagradáveis], é preferível e recomendado mudá-los. Na segunda categoria, encontram-se aqueles nomes reconhecidos como cristãos e que ao serem mencionados dão a impressão que a pessoa é cristã. Nesses casos, a mudança do nome é boa.” Bilal Philips acrescenta um pouco mais sobre este mesmo tema: “Os novos convertidos, que não conhecem o sistema islâmico de nomes, algumas vezes adotam nomes árabes com o caótico estilo europeu... De fato, os de ascendência africana, às vezes, apagam o sobrenome, pois afirmam que estes nomes são remanescentes da escravidão. Quer dizer, seus ancestrais que foram escravos normalmente adotavam o sobrenome de seus senhores e assim, transmitia-se de geração para geração. Portanto, uma pessoa chamada, por exemplo, Clive Baron Williams e que o nome de seu pai era George Herbert Williams, ao converter-se ao Islam, muda seu nome para, por exemplo, Faisal Umar Nkruma Mahdi. Sem dúvidas, seu nome, segundo o sistema islâmico de nomes, deveria ser Faisal George Williams. Se “Williams” era ou não o sobrenome do antigo dono da plantação onde seus antepassados trabalhavam, não tem importância alguma. Como o nome de seu pai era George Williams, segundo o sistema islâmico de nomes, ele é filho de George Williams... esta prática de novos muçulmanos: apagar o sobrenome, cria muitos ressentimentos entre seus familiares não muçulmanos, o que poderia ser evitado muito facilmente se o sistema islâmico de nomes tivesse sido adotado. Na verdade, o novo muçulmano não tem obrigação de mudar seu “nome cristão” a menos que contenha algum significado não islâmico. Assim, o nome Clive, que em inglês significa “habitante da montanha”, não precisa ser mudado. Ao contrário, o nome Dennis, variante de “Dionísio” (deus grego do vinho e da fertilidade, lembrado e cultuado em orgias ritualísticas), deveria ser mudado por outro... Sem dúvidas, é totalmente aceitável que um muçulmano, recém-convertido ou não, mude seu primeiro nome. Era habitual que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mudasse os nomes das pessoas se estes eram negativos ou não islâmicos. Uma das esposas do profeta se chamava, originalmente, Barrah (piedosa) e ele mudou para Zainab, pois Allah revelouno Qur’an: “Não vos ensoberbeceis, pois Allah conhece bem os piedosos” (53:32). Certamente, o Mensageiro de Allah nunca mudaria o nome de família, por menos islâmicos que fossem... Portanto, pode-se concluir que mudar o sobrenome é contra a lei e o espírito da Lei Islâmica. Devem manter o nome e o sobrenome do pai e, se o pai é desconhecido, o nome e sobrenome da mãe devem seguir o primeiro nome do muçulmano convertido.” Os Frutos da Conversão ao Islam Já foram mencionadas muitas das características mais importantes do Islam. Antes de finalizar este capítulo, quero ressaltar alguns dos frutos importantes que a pessoa recebe ao se converter ao Islam. É importante afirmar que todos os benefícios do Islam correspondem ao ser humano. Allah enviou Sua orientação apenas para o benefício das pessoas. Allah, por Si mesmo, não necessita da adoração dos seres humanos. Ele está isento de qualquer necessidade, mas em Sua Misericórdia, mostrou à humanidade o modo correto de se comportar para assim ter Sua aprovação. Por isso, Allah diz: “Quem se encaminha, o faz em seu benefício; quem se desvia, o faz em seu prejuízo, e nenhum pecador arcará com a culpa alheia...” (17:15). Além disso: os que resistem ao Islam não fazem mais que prejudicar a si mesmos. Allah disse: “Deus em nada defrauda os homens; porém, os homens se condenam a si mesmos.” (10:44). Conhecer a Allah, o Deus, Senhor e Criador. O maior benefício de se converter muçulmano e crescer no Islam é que a pessoa pode conhecer verdadeiramente a Allah. O crente conhece a Allah, não em um sentido impreciso, vazio e filosófico, senão que O conhece em detalhes através de Seus Nomes e Atributos, cujo conhecimento Allah, com Sua graça, explicou no Qur’an e na Sunnah. Cada um dos Seus nomes deveria aumentar o amor do crente por Allah, assim como o temor, acompanhando de uma maior proximidade a Ele através desses sublimes atributos, mediante a realização dos atos de retidão. Ibn Taimiyah disse: “todo aquele que conheça os nomes de Allah e seus significados e creia neles, terá uma fé mais completa que aquele que não os conhece e simplesmente crê neles de uma forma geral.” Ibn Saadi disse também: “Cada vez que aumenta o conhecimento que uma pessoa tem dos belos nomes e atributos de Allah, também aumenta sua fé e a sua certeza se fortalece.” Se a pessoa tem um bom conhecimento dos nomes e atributos de Allah, abre-se para ela a porta da compreensão do que sucede na criação. Isto foi expresso maravilhosamente por Ibn Qaiim quando disse: “Todo aquele que conheça a Allah, conhece todo o resto. Todo aquele que é ignorante de seu Senhor é ainda mais ignorante de tudo que não é Ele.” O efeito deste conhecimento deveria ser tão grande que uma verdadeira compreensão desses nomes e uma vida de acordo com suas implicações deveriam guiar diretamente à complacência de Allah e Seu Paraíso. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse claramente ao povo muçulmano:“Allah tem noventa e nove nomes, cem menos um, aquele que os aprenda e memorize entrará no Paraíso.” (Bukhari e Muslim). O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu o tipo de transformação que acontece quando a pessoa realmente conhece a Allah e, portanto, prova do doce sabor da fé. O Profeta disse: “[Existem] Três características que se uma pessoa possui terá provado o doce sabor da fé: quando Allah e Seu Mensageiro são mais amados para ele que qualquer outra coisa; quando ama a alguém e só o ama por Allah; e quando detesta retornar à incredulidade da mesma maneira que odiaria ser lançado no Fogo.” (Bukhari e Muslim). Há, além disso, outro aspecto muito importante e fascinante. Trata-se de um aspecto ignorado por alguns ainda que Allah o tenha mencionado em diversos pontos do Qur’an. O Islam gera no ser humano um tipo de relação especial com seu Deus e Criador. É uma relação que, tal como é descrita por Allah, leva a pessoa a estar satisfeita com seu Senhor. Em outras palavras, a pessoa desenvolve um apreço por Allah. Allah se aproxima dela. Ela fica satisfeita com Allah porque começa a entender a beleza, excelência e perfeição do Criador e tudo o que Ele quer. Deixa de ser meramente submissão. Àquele que merece tal submissão e obediência e se transforma em apreciação a quem é Allah, o que Ele tem decretado e ordenado e o que Ele fará com os seres humanos. A pessoa se conscientiza que somente com Allah alcançará a complacência absoluta. Assim, o Islam permite à pessoa entender e apreciar seu Senhor e Criador, de tal maneira que se torna muito feliz com seu Senhor, o que, por sua vez, o leva a querer agradar a Ele. Allah disse:Quanto aos primeiros (muçulmanos), dentre os migrantes e os socorredores (Ansar) do Mensageiro, que imitaram o glorioso exemplo daqueles, Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele; e lhes destinou jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Tal é o magnífico benefício.” (9:100). “Deus dirá: Este é o dia em que a lealdade dos verazes ser-lhes-á profícua. Terão jardins, abaixo dos quais correm rios, onde morarão eternamente. Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele. Tal será o magnífico benefício!” (5:119). Ver também 58:22 e 98:8. A verdadeira felicidade “...Quando vos chegar de Mim a orientação, aqueles que seguirem a Minha orientação não serão presas do temor, nem se atribularão.” (2:38). “Disse: Descei ambos do Paraíso! Sereis inimigos uns dos outros. Porém, logo vos chegará a Minha orientação e quem seguir a Minha orientação, jamais se desviará, nem será desventurado. Em troca, quem desdenhar a Minha Mensagem, levará uma mísera vida, e, cego, congregá-lo-emos no Dia da Ressurreição. Dirá: Ó Senhor meu, por que me congregastes cego, quando eu tinha antes uma boa visão? E (Deus lhe) dirá: Isto é porque te chegaram os Nossos versículos e tu os esqueceste; a mesma maneira, serás hoje esquecido!” (20:123-126). Deus é o criador do ser humano. Afora isso, o que a alma busca é conhecê-Lo e ter uma relação com Ele. Assim, sem esta relação, sua vida estará cheia de penas e pesares. Por outro lado, conhecer Allah e estabelecer com Ele uma relação apropriada lhe proporcionará a verdadeira felicidade. Ao longo da história, os sábios e homens piedosos tentam expressar a alegria e felicidade que entram no coração ao conhecer a seu Senhor. Um famoso sábio do Islam, Ibn Taimiyah, tentou expressar o contentamento que sentiu a partir de sua fé em Allah e boas obras. Disse uma vez: “Neste mundo existe um Paraíso e os que entram nele não poderão entrar no Paraíso da próxima vida.” Também disse: “Que podem me causar meus inimigos? Certamente, meu paraíso e meu jardim estão aqui em meu peito.” Ibn Qaiim, o aluno mais próximo de Ibn Taimiyah e que o visitava frequentemente na prisão, disse: “Allah sabe que nunca conheci alguém que tivesse uma vida melhor que a dele. [Era assim] Apesar de que se encontrava em circunstâncias sufocantes e não tinha luxos nem comodidades. Ao contrário, ele se encontrava no extremo oposto. Ainda encarcerado, torturado e ameaçado tinha uma vida das mais prazerosas dentre todos os demais; possuía sentimentos leves, força em seu coração e era o mais feliz de todos. Podia-se notar em seu rosto a felicidade na qual vivia. Cada vez que tínhamos medo, más expectativas ou sentíamos que o mundo nos pressionava, recorríamos a ele e bastava vê-lo e ouvir suas palavras para que todos esses maus sentimentos se afastassem. Saíamos cheios de tranqüilidade, força, certeza e paz. Louvado seja Aquele que permite a Seu servo ser testemunha de Seu Paraíso antes de se encontrar com Ele.” Então, este sentimento tão belo, que parte da fé, não era exclusividade de Ibn Taimiyah. Ibn al Qaiim cita outro devoto muçulmano dizendo o seguinte: Se os reis e os filhos dos reis soubessem a felicidade que vivemos, lutariam por ela com as suas espadas... Os devotos deste mundo são desdenhados. Se vão destemundo sem haver provado o aspecto maravilhoso que há nele.” Quando lhe perguntaram qual era, respondeu: “O amor por Allah, conhecê-Lo e recordá-Lo... Há ocasiões em que digo: ‘se a gente do Paraíso vive desta maneira, então têm uma boa vida’.” Outro autor afirmou: “[Os frutos da purificação da alma] São os frutos perpétuos para todo o momento. O servo encontra seu sabor, vive sua doçura e se move entre seus prazeres. Cada vez que a pessoa sobe na escala da purificação, esses frutos aumentam de igual maneira.” Ibn Qaiim acrescentou: “Não pensem que as palavras de Allah: ‘Sabei que os piedosos estarão em deleite; Por outra, os ignóbeis, irão para a fogueira’ (82:13-14), limitam-se somente aos prazeres e os inferno da próxima vida. Na realidade, aplicam-se às três etapas [dos seres humanos], quer dizer, a vida neste mundo, a vida no al barzaq [depois da morte e antes da ressurreição, ou seja, no túmulo] e a vida na morada eterna. As almas purificadas vivem com prazer, enquanto as outras estão num inferno. Acaso o prazer não é o prazer do coração e o castigo, o castigo do coração? Que castigo pode ser mais duro que o medo, a preocupação, a ansiedade e a intranqüilidade que sofrem aqueles cujas almas não estão purificadas? [Que pode ser mais duro] Que afastar-se de Allah e da morada da próxima vida, aferrar-se a algo que não é Allah e estar desconectado d’Ele?” Ser justo consigo mesmo Associar companheiros a Allah é uma forma grave de pecado. Em particular, danifica a alma e a dignidade ao se submeter e adorar seres que não merecem, em absoluto, ser adorados. Allah disse no Qur, an citando Luqman: Abraço. Davi. Página 101


sábado, 10 de maio de 2025

O NASCIMENTO DO BUDA - SUA JUVENTUDE E SEU CASAMENTO

Budismo. Livro O Evangelho de Buda. Vida e Doutrina de Sidarta Gautama. Por Yogi Kharishnanda. O Príncipe Sidarta alcança o Budado. 1. O NASCIMENTO DO BUDA. Havia em Kapilavastu um rei sákia, firme em seus propósitos e reverenciado pelos homens, um dos descendentes de Ikchvaku, chamado Suddhodana. Sua esposa, Mayadevi, era maravilhosamente bela, como um lírio aquático e de coração tão puro quanto o lótus. Qual rainha do céu, vivia na Terra, imaculada e pura de desejos. Seu real marido a reverenciava pela sua santidade, e o espírito da Verdade desceu sobre ela. Quando compreendeu que a hora de ser mãe estava próxima, pediu ao rei que a levasse à casa de seu pai. Suddhodana, atencioso para com sua esposa e pelo filho que ia nascer, atendeu, feliz, a esse pedido. Quando Mayadevi atravessava o jardim de Lumbini, chegou a hora. Preparou-se então um leito sob uma alta árvore com um enorme tronco, e a criança nasce no alvorecer do dia, radiante e perfeita. A feliz notícia chegou ao palácio e o rei Suddhodana mandou que levassem ao jardim de Lumbini o palanquim de cores refulgente para transportar o recém-nascido. Então os anjos, os Lípicas que anotam as ações dos homens, ocultando o seu angélico esplendor sob humildes roupas de carregadores, desceram dos mundos superiores para segurar os varais do palanquim. O rei Suddhodana, porém, que ignorava a presença dos quatro anjos na Terra. Receou presságios funestos que só findaram no momento em que seus adivinhos previram que o menino seria um príncipe dominador do mundo e dotado dos sete dons celestiais. Naquele tempo, o rishi - literalmente revelador. Trata-se de um santo sábio ou iluminado, cantor ou poeta de divina inspiração. Rishi Asita levava no bosque uma vida de eremita. Era um brâmane de cabelos grisalhos, cujos ouvidos há muito tempo estavam cerrados às coisas da Terra e percebiam somente os sons celestiais. Estando ele em oração sob a árvore baniana, ouviu os cânticos entoados pelas devas - anjos, em louvor ao nascimento de Buda. Pela sua idade e pelos jejuns que fazia, Asita era afamado tanto pela sua sabedoria como pela sua habilidade de interpretar os desígnios humanos e fazer profecias. Por isso, o rei o convidou pra ver a régia criança recém-nascida. Quando o velho contemplou o príncipe, chorou e suspirou profundamente. O rei, ao ver as lágrimas de Asita, perguntou-lhe assustado: O que o Senhor viu em meu filho que lhe causou tanto sentimento e tanta mágoa? Mas o coração de Asita transbordava de felicidade, e reconhecendo que o rei estava preocupado, respondeu-lhe: Oh rei, qual a Lua em sua plenitude. Sua majestade deve sentir viva alegria, porque gerou um filho de maravilhosa nobreza. Não adoro o Brahma, porém adoro este menino, que os próprios deuses abandonaram seus templos para virem adorá-lo. Afaste todo temor e toda dúvida. Os presságios espirituais indicam que o recém-nascido libertará o mundo. Todavia, lembre-se de que sou velho e não pude reter as lágrimas, pois o meu filho se aproxima. O seu filho governará o mundo. Nasceu para o bem de toda criatura e de todo ser vivente. A pureza de sua doutrina se assemelhará à margem que recebe o náufrago. Seu poder de meditação será como o frescor de um lago, e toda criatura inflamada no ardor da luxúria se tranquilizará espontaneamente. Sobre o fogo da concupiscência se estenderá a nuvem da compaixão, apagando-a com a chuva da Lei. Ele abrirá as pesadas portas do desespero, e livrará todas as criaturas da trama das redes que elas mesmas teceram com sua loucura e ignorância. O rei da Lei apareceu para libertar da escravidão os pobres, os miseráveis e os desesperados. E prostrando-se diante do berço da criança, Asita exclamou: Oh criança! Eu adoro você. Você é Ele. Vejo a rosada luz impressa na planto dos pés, o suave desenho da suástica, os 32 sagrados signos capitais e os 80 secundários. Você será Buda. Pregará a Lei e salvará a todos os que a aprenderem. Não o ouvirei, porque estou próximo da morte. E dirigindo-se ao rei, Asita acrescentou: Sabe, oh rei, que este seu filho é a Flor da árvore humana, que só produz uma flor após miríades de anos. Contudo, quando aberta, enche o mundo com o aroma da Sabedoria e o mel do Amor. Depois, disse a rainha: E a senhora, doce rainha, amada dos deuses e dos homens. Devido a este magno acontecimento, já está sagrada demais para continuar sofrendo. Como a vida é sofrimento, daqui a sete dias chegará sem dor ao fim da dor. Quando o rei e a rainha ouviram essas palavras de Asita, ficaram felizes em seus corações e deram ao menino que acabara de nascer o nome de Savarthasiddh, que quer dizer: completa prosperidade ou êxito feliz. Num diminutivo carinhoso e familiar o chamaram Sidharta. Então, a rainha disse à sua irmã Pradjapati A mãe que deu a luz um futuro Buda não terá outro filho. Eu abandonarei logo este mundo, o rei meu esposo e meu filha Sidarta. Quando eu não mais existir, seja você a mãe dele. E Pradjapati, chorando, prometeu isso a ela. Na sétima noite, a rainha Mayadevi dormiu sorrindo e não despertou mais do seu sono. Passou feliz ao seu Trayastrinshas, onde inúmeráveis devas adoram e servem a radiante Mãe. Quando a rainha morreu, Pradjapati tomou o menino Sidarta e o educou. E assim como pouco a pouco brilha cada vez mais a luz da Lua, a régia criança cresceu dia a dia em corpo: a Verdade e o amor residiam em seu coração. 2. SUA JUVENTUDE E CASAMENTO. Quando o príncipe Sidarta completou 18 anos, o rei mandou construir para ele três magníficos palácios. Um de madeira de cedro, quente, para o inverno. Outro de mármore betado, para o estio e o outro de ladrilhos cozidos para o outono. Ao redor desses palácios floresciam amenos jardins regados de alegres arroios e soalhados de formosos bosquezinhos com lindo caramanchões, onde Sidarta passava horas felizes. Sua vida era saudável e em suas veias corria sangue jovem. Logo, porém, as sombras do tédio obscureceram a alegria do príncipe, como se algo lhe faltasse para completar esse bem-estar. O rei consultou seus ministros e o mais ancião deles lhe respondeu: O amor curara esse leve descontentamento. Seu coração virgem deve ser entretido com o feitiço da graça feminina. Que sabe este jovem da formosura, o que sejam os encantadores lábios, ou os olhos que jogam o céu no esquecimento? Una o com uma esposa porque facilmente um cabelo de mulher ata melhor os pensamentos que nem cadeias de bronze poderiam sujeitar. E o rei replicou: Se lhe buscarmos esposas, o amor seguramente escolherá com outros olhos, e se lhe apresentarmos um jardim de belezas para que escolha a flor que mais o agrade, receberá com doce sorriso o gozo que ignora. O ministro retrucou: O rei deve ordenar um festival em que as donzelas do reino desfilem em graça e juventude nos famosos desportes dos sakias. Que o príncipe outorgue o prêmio à formosura, e quando as vencedoras passarem em frente do seu trono, notaremos se alguma consegue desvanecer a persistente tristeza de seu semblante juvenil. Desse modo poderemos escolher para o amor com os próprios olhos do amor. O rei aceitou esse conselho, e, consequentemente, a partir do dia seguinte os pregoeiros convidaram donzelas formosas para participarem do concurso de beleza que se celebraria no palácio. Onde o príncipe distribuiria prêmios, um objeto de arte para cada uma, e um de maior valor para a mais formosa. As donzelas de Kapilavastu diante do trono, com os olhos fixos no chão, sem se atreverem a erguê-lo. Chegou a última, a jovem Yasodhara. Os que estavam junto ao príncipe viram que ele pareceu ficar perturbado quando a radiante jovem, cujas formas pareciam esculpidas no céu, se aproximou. Seu ar era como o da deusa. Parpati, seus olhos como o de uma corça na estação do amor, e seu rosto de inefável encanto. Foi a única que ousou olhar o príncipe de frente, com as mãos cruzadas sobre o peito e erguido o gracioso colo. A donzela perguntou-lhe sorridente: Há prêmio para mim? O príncipe respondeu-lhe: Acabaram-se. Porém, toma este em compensação, querida irmã, porque de sua graça se orgulhará toda a nossa ditosa cidade. Dito isso, o príncipe tirou o seu colar de esmeraldas e colocou o fio de contas verdes no pescoço da jovem. Seus olhos se encontraram e desse olhar brotou o amor. Yasodhara era filha de Suprabuda, monarca do reino vizinho, e segundo a lei dos sákias, quando alguém pedia em casamento uma mulher de nobre estirpe, tinha que demonstrar sua destreza nas artes da guerra e em torneios contra os demais pretendentes. Sidarta venceu todos seus rivais nas provas de arco, espada e de corrida hípica. O rei Suprabuda disse então a Sidarta: Nosso coração desejava ver você alcançar o prêmio, porque você é o preferido. Todavia, como conseguiu aprender em meio a uma vida calma e sonhadora o que outros não conseguiram aprender na caça nem na guerra, nem nas porfias do mundo? Receba, oh príncipe, o tesouro a que fez jus. A essas palavras a amável jovem levantou-se de seu assento e, passando entre a multidão, pegou uma grinalda de jasmins. Cobriu sua fronte com o véu preto salpicado de ouro e aproximou-se de onde estava Sidarta. A jovem, cujo semblante irradiava a alegria celeste de um amor feliz, inclinou-se diante do príncipe e, apoiando a cabeça no peito de Sidarta, prostou-se aos seus pés, dizendo com os olhos radiantes de felicidade: Amado príncipe. Olhe-me. Sou sua. o rei Suddhodana deu a eles o belo palácio de Vishramavan. Abraço. Davi


sexta-feira, 9 de maio de 2025

O CASAMENTO DO REI SALOMÃO COM A CAMPONESA SULAMITA

Editor do Mosaico. O CASAMENTO DO REI SALOMÃO COM A CAMPONESA SULAMITA. Recentemente participei de uma palestra para casais. O preletor foi um conhecido pastor americano chamado James Kemp. Eis algumas obras do autor: Minha família projeto de Deus. Meu filho cresceu e agora. O marido que quero ser. A arte de permanecer casado e outras. Ele está no Brasil a mais de 45 anos. Tanto que antes do meu casamento (éramos noivos) assistimos, eu e minha esposa, uma de suas exposições sobre relacionamento conjugal. Esse missionário foi o fundador (em 1968) do grupo vocal Vencedores por Cristo. Muitos jovens cristãos, em sua adolescência e juventude, cantavam suas músicas aqui no Brasil. Seu ministério é voltado para o aconselhamento de casais, relacionamento pais e filhos e a família cristã. Têm vários títulos publicados sobre esses temas em inglês e português. A palestra teve por base o livro bíblico de Cântico dos Cânticos, e o foco da exposição esteve no capítulo 4,12-15. "Jardim fechado és tu, minha irmã, noiva minha, manancial  recluso, fonte selada. Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes. A hena e o nardo, o nardo e o açafrão, o cálamo e o cinamomo, com toda sorte de árvores de incenso, a mirra e o aloés, com todas as principais especiarias. És fonte dos jardins, poço das águas vivas, torrentes que correm do Líbano!" Cantares de Salomão é reconhecidamente um poema. É temerário qualquer exegese dogmática. Esse é o motivo porque não é comum explanações - pregações públicas sobre seu conteúdo. Como o livro é composto de figuras embasada na simbologia - fica difícil sustentar qualquer tipo de doutrina voltada à crença do fiel. Costuma-se compará-lo ao relacionamento entre Cristo e a Igreja. Entre o povo de Israel e o seu D'us. Mas a "verdade" reconhecida é que o texto fala do casamento entre o rei Salomão e a camponesa Sulamita. O ambiente aqui é de núpcias - lua de mel. O casamento judaico era uma festa com duração de duas semanas. Uma celebração regada a vinho, comida, dança, alegria e muitos convidados. Um ritual de introdução do novo casal à comunidade judaica local. Os judeus prezam com honra e reverência o relacionamento familiar. A moça Sulamita, por viver no campo e estar sempre exposta ao sol era morena e tinha vergonha da sua cor. Isso só até Salomão entrar em sua vida. Ele disse pra ela: "és morena porém formosa". Nossa palavra tem um grande impacto em nossas esposas. Precisamos ter prudência e comedimento ao mencionar qualquer assunto com elas. Como geralmente elas falam muito, nós devemos aprender a desenvolver uma "escuta técnica", parecida com a do psicanalista quando está ouvindo seu paciente sentado no divã. Infelizmente o feminismo radical tem deturpado muito o relacionamento conjugal. Essa vertente prega a completa igualdade entre os sexos, enfraquecendo com isso o papel da mulher na família. A masculinização dela corrompe funções básicas do casal, criando confusão na definição das obrigações entre esposa e esposo. A ideia do empoderamento feminino distorce valores fundamentais de equilíbrio no casamento. A mulher tem completa condição de alcançar seu lugar na sociedade com seu encanto, doçura e capacidade; não necessitando de nenhuma estereótipo. Nesse ambiente criado pela competição à dominar as rédias do lar, os filhos não conseguem definir o sentido de autoridade dos pais. Assim crescem com deficiência de comportamento e personalidade. Salomão era um homem muito rico. Após a festa matrimonial foi desfrutar do amor de sua Sulamita. "Cânticos 1,2 "Beija-me com os beijos de tua boca, porque melhor é teu amor do que o vinho". Cânticos 4,16 "Venha o meu amado para o seu jardim e coma os seus frutos excelentes". Sulamita convida seu marido à vida sexual. O sexo foi criado por Deus não apenas para propagar a raça humana, mas para a satisfação sexual do casal. Ereção, orgasmo e clímax tudo para nosso prazer e deleite com nosso cônjuge. Lamentavelmente o diabo trouxe maldição para alguns através de algo tão santo e puro - o sexo. Partindo do princípio da fidelidade conjugal, referendada em tradições como a judaica, cristã e islâmica (nessa última que abre precedente à que o homem tenha mais de uma mulher - caso tenha plena condição financeira e sentimental à sustentá-las), engana-se quem imagina que não existe fidelidade, pois caso haja esse desviou, qualquer dos dois é severamente tratado pelo Lei do Sagrado Alcorão. Tanto que o adultério, nos países islâmicos tem a menor incidência por casal. "Jardim fechado és tu, minha irmã, noiva minha, manancial recluso, fonte selada". Aqui é falado sobre a noite de nupcial. Podemos inferir o aspecto da atração. Sua mulher ainda exerce o poder de sedução em você? Pena que em muitos casais isso não mais existe. Entretanto, é possível renovar este importante item, que possibilita mais companhia e afeto no relacionamento. Trabalharemos agora com quatro conceito retirados do texto chave. O primeiro aspecto é a Fidelidade. A Sulamita era - jardim fechado - virgem. Ela esperou  o momento adequado para a relação sexual. James Kemp contou que quando sua filha tinha 14 anos perguntou pra ele: o senhor "transou" com mamãe antes do casamento. Ele apesar de seus 24 anos a época  e sua mulher Judith com 20 anos, tiveram graça pra esperar o momento adequado. Muitos jovens não conseguem aguardar o instante propício da relação sexual. Vão para o motel ou casas similares. Temos que orar pela virgindade de nossos filhos. Esta filha de Kemp que disse isso, com 18 foi fazer faculdade na Califórnia. Antes da viagem o pai orou com ela e a advertiu quanto a sua virgindade. Após os 4 anos do curso, um dia depois da festa de formatura - James e sua esposa foram prestigiar a colação de grau - sua filha os leva a um bela praia em Santa Barbara. Conversando com os dois, ela lhes confessa que preservou a sua pureza. Hoje, com a liberação de gênero - diferenciação entre masculino, feminino e neutro - a sociedade moderna construiu novo paradigma da sexualidade. Contudo, ainda não se percebe, resultado convincente das mudanças no contexto familiar. A precocidade sexual trás problemas para ambos, adiantando situação que poderia vir numa normalidade da vida, onde a pessoa estaria em condições física, emocional e financeira para absorvê-la. Outro problema, que a modernidade geralmente releva é a variação de parceiros, no sexo, entre adolescentes e jovens. Considero esta situação danosa, sendo capaz de subliminarmente vulgarizar o sexo no futuro casamento. Sem se falar nas doenças sexualmente transmissíveis como - sífilis, gonorreia, cancro mole, aids, clamídia, doença inflamatória pélvica, donovanose e herpes genital.  Isso, inconscientemente dá margem a que os cônjuges cometam traição - encarando o fato como permissionário. A gravidez indesejada e a paternidade irresponsável são gravíssimos problemas sociais nos grandes centros urbanos e periferias de países notadamente de terceiro mundo como o Brasil. Caso as famílias não dispensem amor, cuidado e carinho a esses filhos, eles terão enormes dificuldade de se adaptarem ao convício social, para serem cidadãos que vislumbrem um futuro digno e respeitoso. O segundo tópico são os Frutos Excelentes. Salomão chamava sua esposa - árvore frutífera - de um pomar. Uma plantação de macieiras, pereiras, videiras, mamoeiros. A ideia apresentada aqui é que há várias maneiras da esposa cativar seu marido. Ela precisa dar um - abraço, aperto e massagem - erotismo sedutor. O terceiro ponto é a Fragrância. "Hena, nardo, cálamo, cinamomo, mirra e aloés". Sulamita levou um arsenal de perfume à lua de mel. Mulheres pelo amor de Deus se perfumem para - Boticário, Natura e outras marcas - seus esposos. Casamento tem que ter bom cheiro, do contrário, cheiro ruim acaba os relacionamento. Problemas de mau hálito em ambos causam ojeriza. Não tenha medo de perguntar para seu cônjuge se você está com esse sintoma ou vice e versa. Caso afirmativo procure um médico para o bem do seu casamento. Alguns maridos vão pra cama sem tomar banho e ainda obrigam suas esposas a fazer "sexo" com eles. Se satisfazem e criam um terrível ressentimento e frustração  nelas. Uma atitude desprezível e desumana de quem comete tal ignomínia. O quarto item é a Fonte. "És fonte dos jardins, poço das águas vivas". Há uma advertência em Provérbios 5,1-19 com respeito a meretriz. A prostituição está em quase todos os lugares. Desde ambiente requintados e luxuosos - onde clientes pagam até R$ 1.000,00 a hora para ficarem com as garotas de programa - até na beira das esquinas das grandes cidades, exemplo São Paulo, onde tristemente é constatado que mulheres se entregam a R$ 50,00 a hora. Todas essas mulheres são carentes do amor e da graça divina em suas vidas, tendo necessidade de uma forte experiência de transformação interior para uma consagração, comunhão e santificação com Deus. Longe do Editor do Mosaico qualquer sinal de indiferença quanto as prostitutas. Um instituto que existe desde que os homens vivem em sociedade. Nas páginas dos evangelhos, Jesus conversa com algumas dessas, lhes dispensando toda compaixão e amor, sem nenhum sentimento discriminativa ou depreciativo. Sempre as acolhendo com ternura e carinho. São Tomás de Aquino (1225-1274) diz na Summa Theológica "Aqueles que estão na autoridade toleram corretamente certos males, a fim de que certos bens não sejam perdidos, ou que certos males não sejam adicionais. Se você abole a prostituição, o mundo será convulsionado com a luxúria". Assim o dominicano aceitava a prostituição como necessária para conter os instintos bestiais do ser humano. Os versículos de 7-14 desse texto é um rogo para que os pais alertem seus filhos quanto a prostituição. Atenção: o conceito de "ficar" em relação aos adolescentes e jovens é fazer sexo. Provérbio 5,15-16 "Bebe a água de sua própria cisterna e das correntes do teu poço". Devemos nos saciar com nossa própria mulher - esposa. "Derramar-se iam por fora as suas próprias fontes". As fontes são nossos desejos sexual, emocional e sentimental que devem ser derramados naquela que, no casamento divide conosco o leito conjugal. Lamentavelmente alguns, até mesmo vivendo nas igrejas, satisfazem seu apetite sexual - em supostas casas de massagens e ainda convidam amigos para fazer sexo grupal - ilicitamente em lugares escusos e carregados de energia negativa. Isso é terrível e ultrajante. "Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade". Sua esposa é sua benção. "Dar-te-ei o meu amor". O sexo marcado com hora, dia e lugar torna-se maçante e enfadonho. Tende a um mesmismo e futuro desinteresse de ambos. Varie os modos, lugares e maneiras de se deleitar com sua amada. "Saciem-te os seus seios". Esse é um privilégio que só os maridos têm com sua amada alma gêmea. Jovem moça nunca permita seu namorado passar a mão em seus seios ou qualquer outra parte íntima de seu corpo. Isso é vergonhoso e desrespeitoso. Essa é atitude apenas permitida no convívio matrimonial. Comer o "fruto excelente" é comer o fruto maduro e não o fruto verde. Esse amadurecimento é no âmbito do casamento - aqui entende-se a formalidade baseada no Código Civil e referendada em Cartório Público. Cânticos 4,12 "Levanta-te vento norte, e vem tu, vento sul. Assopra no meu jardim". Aqui a Sulamita chama seu amado para fazer sexo. Esposo e esposa devem cultivar um ambiente à satisfação sexual. Uma mãe dando um conselho para uma filha antes do casamento. Filha você está pronta para carregar a sua cruz. Uma visão de que a vida conjugal é um insuportável fardo. Conversar com os filhos aberta e francamente antes do casamento sobre a vida sexual. É importante que a partir dos 9 anos da menina e dos 10 anos do menino se dialogue sobre temas relacionados a sexualidade. O pastor James contou, que atendeu em seu consultório uma jovem que era casada a 4 anos e que nunca tivera relação sexual. Com o transcorrer da terapia se descobriu que quando criança ela havia sido - abusada - molestada pelo próprio pai. O abuso leva a repugnância da relação sexual. Relatou também que ao palestrar numa determinada igreja, dois jovens foram surpreendidos fazendo sexo no banheiro. Se você deseja salvar seu filho, então lute por ele. É fundamental que nossos jovens cheguem ao casamento ainda virgens. Estatisticamente aqueles que se guardam para o matrimônio tem mais probabilidade de ter um relacionamento familiar estável. Estando juntos até a morte dum dos cônjuges. Nunca force a barra em seu relacionamento íntimo com seu marido. Isso pode causar danos consideráveis ao psiquismo emocional de ambos. Cânticos 1,4 "Leva-me após ti, apressemo-nos, o rei me introduziu nas suas recâmaras".  O prazer sexual baseia-se na satisfação mútua. I Coríntios 7,5 "Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mutuo consentimento, por algum tempo, para vós dedicardes à oração e, novamente, vos ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência". O apóstolo Paulo reconhece que quanto ao prazer sexual entre marido e mulher não se impõe nenhuma regra ou dogma. Mesmo para se dedicar a oração ele simplesmente da sua opinião. O que importa é a decisão dos cônjuges sobre o assunto. Inferi-se do argumento do apóstolo que é melhor em nenhum hipótese deixar de ter relação sexual. Respeitando-se o parecer de ambos sobre a questão. Em outras tradições, guardando a devida proporção, na Toráh judaica as mulheres quando no período menstrual devem abster-se da relação. Também no Sagrado Alcorão recomenda-se as mulheres, no mesmo período e no jejum do Hamadan não terem relações sexuais. No argumento do apóstolo Paulo, se percebe o perigo dos casais que, na mesma casa dormem - um no quarto e o outro na sala - em camas separadas. Tentei ser preciso no que o James Kemp falou, contudo acho que não consegui. Concordo com o que foi dito. Precisamos de discurso como esse -  que são totalmente pela família e pela valorização de seus ideais - moralidade, ética e espiritualidade - no propósito cristão ou outra espiritualidade. Todavia reconheço que a medida que o tempo passa, a sociedade secularizada começa a agregar nossos valores a esta temática. Desse modo, prefiro um olhar mais maleável e menos dogmático sobre o assunto. Contextualizado social, econômica, política e historicamente. Uma espiritualidade aberta a mudança e transformação, que preserve valores fundamentais à tolerância, respeito e consideração dos desiguais. Os princípios aqui expressos considero de grande soma à santidade e pureza da família. Em contraposição a um mundo estigmatizado pelo materialismo, consumismo e a descartabilidade. Envolvendo as instituições, baseada em valores individuais e coletivos evoluídos pelo psiquismo humano. É o momento de refletirmos, tomando o melhor caminho para nossa evolução pela Senda Espiritual da família. Abraço. Davi.


quarta-feira, 7 de maio de 2025

O ALCORAÇÃO SAGRADO

Islamismo. www.ccib.org.br. Texto de Samir El Hayek. O ALCORÃO SAGRADO. A leitura do Alcorão requer uma iniciação e um preparo indispensáveis para uma melhor compreensão, especialmente no caso do leitor não-muçulmano. Tentar compreender o Alcorão baseando-se apenas na informação oral ou em passagens específicas e não em seu texto como um todo, levará o leitor despreparado a um entendimento distorcido do mesmo. Quando lemos o Alcorão, percebemos que muitos conceitos usados em nosso dia-a-dia são citados e enfatizados frequentemente em seus versículos. É importante lembrar que esses conceitos são decisivos para a boa compreensão do Alcorão e assim, agirmos de acordo com os seus postulados. Entre estes conceitos, encontramos sabedoria, paciência, lealdade, descrença, favores especiais de Allah (swt). O alcorão foi a última palavra revelada por Allah (swt) e a fonte básica para os ensinamentos islâmicos e suas leis. Trata-se de moralidade, adoração, conhecimento, sabedoria e a relação Allah (swt) - homem e as suas relações entre os seres humanos. Compreende ensinamentos sobre o sistema de justiça social, política e relações internacionais, economia, legislação, jurisprudência, e leis podem ser formadas através de partes importantes do Alcorão. Apesar do Profeta Muhammad (saws) não haver tido uma educação formal, o Alcorão assim que lhe revelado foi transcrito por seus secretários. Desta forma, cada palavra foi escrita e preservada por seus companheiros. O texto completo e original do Alcorão é em árabe. Tradução em outros idiomas podem ser encontrados em bibliotecas e livrarias. De acordo com o Alcorão, sabedoria é uma qualidade peculiar aos fiéis, o nível de sabedoria pode aumentar ou diminuir com relação ao seu comportamento correto. Sabedoria, o modo de compreensão, é uma orientação divina que capacita o homem a mostrar o comportamento correto e a atitude com a qual ele espera agradar a Allah (swt) e alcançar a sua justa estima. É a capacidade de julgar entre o certo e o erro, atingir a mais elevada atitude moral, tomar as decisões certas para cada citação, e agir, tendo sempre em mente, a vida após a morte. INTRODUÇÃO AO ALCORÃO. Louvado seja Allah (swt), Senhor do Universo, e que a paz e a misericórdia estejam com o Mensageiro e toda a sua estirpe, seus companheiros e seus seguidores! Alcorão é a palavra de Allah (swt), revelada a Muhammad (saws), desde a Surata da Abertura até a Surata dos Humanos, constituindo o derradeiro dos livros revelados à humanidade. Ele encerra, em sua totalidade, diversificadas nuanças, tais como: a felicidade, a reforma entre os homens, a concórdia, no presente e no futuro; ele foi revelado, versículo por versículo, surata por surata, de acordo com as situações e os acontecimentos, no decorrer dos vinte e três últimos anos da vida do Profeta Muhammad (saws). Uma parte foi revelada antes da Hégira, em Makka (Meca), e outra depois, em Madina (Medina). Os versículos e as suratas revelados em Makka abrangem as normas da crença em Allah (swt), em Seus anjos, em Seus livros, em Seus mensageiros e no Dia do Juízo Final. Os versículos e as suratas revelados em Madina dizem respeito aos rituais e à jurisprudência. Nele há narrativas sobre os nossos antecessores e sobre os nossos sucessores, e é um árbitro entre nós. Há narrativas de povos anteriores, de séculos passados; há histórias dos profetas, dos mensageiros, dos povos, dos grupos, das pessoas, dos acontecimentos e do desenrolar da história da civilização; nele há explicações e exemplos para aqueles que por ele queiram pautar suas vidas, e exortação para quem tem coração e está disposto a aceitá-la, e a prestar testemunho. Ele revela a Lei imutável de Allah (swt), quer seja na perdição dos extraviados, quer seja na salvação dos encaminhados. Ele ensina que o mundo dos homens, no decorrer dos séculos, só é benéfico com a religião de Allah (swt); que a humanidade, o que quer que faça, não alcançará a almejada felicidade se não se iluminar, guiando-se com a Mensagem Divina. Nele há revelações do futuro sobre o dia da Ressurreição, sobre a Vida Futura, no dia em que os homens se congregarão junto ao Senhor do Universo. "Aquele que fizer um bem, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á; e aquele que fizer um mal, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á" (99ª Surata, versículos, 7 e 8). Nele há o julgamento dos problemas e das questões onde é premente uma explicação e uma diretriz do caminho a seguir, no que diz respeito às questões da crença e do pensamento, do caráter e do comportamento, das relações econômicas, dos ramos doutrinários, dos julgamentos pessoais ou não: "Ó humanos, já vos chegou uma prova convincente de vosso Senhor e vos enviamos uma translúcida Luz" (4ª Surata, versículo, 174). "Recorda-lhes o dia em que faremos surgir uma testemunha de cada povo para testemunhar contra os seus, e te apresentaremos por testemunha contra os teus. Temos-te revelado, pois, o Livro que é uma explanação de tudo, é guia, misericórdia e auspício para os muçulmanos" (16ª Surata, versículo, 89). Não há uma lei religiosa ou um problema, no que diz respeito ao mundo e à vida dos homens, que não tenha no Alcorão uma solução; ele é um auxílio inesgotável, guia, explicação e orientação para todos, quer seja em partes ou no todo: "Já vos chegou de Allah (swt) uma Luz e um Livro esclarecedor" (5ª Surata, versículo 15). Sim, este fabuloso Alcorão é a luz orientadora para a humanidade. Ele arrancou-a das trevas e transportou-a para a luz, para a verdade e para a verdadeira senda. Foi o ponto de transformação na sua longa história, tirando-a da vida atroz de corrupção e levando-a para a vida de liberdade, de religião e de orientação, e instituiu, no mundo todo, o direito e a compreensão, tirando a humanidade do mais baixo degrau, e elevando-a aos píncaros da perfeição, de maneira sobranceira. As evidências e os significados que o Alcorão abrange, já citados, só podem ser entendidos através de explicações do texto alcorânico e de seus versículos. Tal explicação é uma pesquisa sobre a vontade de Allah (swt), sobre o conhecimento dessa vontade através de Suas palavras no Alcorão, de acordo com a capacidade humana. A ciência da exegese nasceu débil e cresceu paulatinamente, até alcançar a maturidade e seguir formidavelmente neste diapasão que conhecemos hoje. Na época da revelação do Alcorão, enquanto o Profeta vivia, não havia necessidade para a explicação dos versículos, nem a regulamentação dessa ciência, porque o texto, na sua totalidade, era claro, compreensível para o Profeta e seus companheiros. Apesar disso, o Profeta explicava alguns versículos e algumas pronúncias que podiam causar ambiguidades; também os companheiros do Profeta e alguns adeptos assim o fizeram. Isto porque poderia haver má interpretação, quaisquer que fossem as razões que teriam de se desenrolar na alvorada de um povo progressista, em formação, que iria expandir-se através de conquistas, enriquecendo sua existência com acontecimentos históricos, discussões doutrinárias e pesquisas, em jurisprudência e política. O Alcorão era e continua sendo o centro da cultura islâmica, dos movimentos filosóficos e de todas as suas atividades intelectuais; seus versículos estimulam a nele pensarmos. Disse o Altíssimo: "Eis o Livro que te revelamos, para que os sensatos recordem seus versículos e neles meditem (38ª Surata, versículo 29). Disse mais: "Não meditam, acaso, no Alcorão? Se fosse de outra origem que não de Allah (swt), haveria nele muitas discrepâncias" (4º Surata, versículo 82). E disse ainda: "Não meditam, acaso, no Alcorão, ou é que seus corações são insensíveis?" (47ª Surata, versículo 24). Sua explicação nada mais é do que o resultado de meditação e deliberação. O ponto de vista dos doutos na matéria, bem como seus métodos, são diversificados. Alguns, levados pela simpatia doutrinária, apegaram-se à explicação dos versículos, nesse sentido. Outros, levados pela simpatia linguística, eloquente, estilística e literária, apegaram-se também a esse particular; o mesmo aconteceu com os simpatizantes da jurisprudência. Outros, ainda, apegaram-se à explicação das narrativas. Neste particular, houve aqueles que se prolongaram na explicação, até a prolixidade estafante, e outros restringiram-na à suscites chocante, e outros, ainda, quedaram-se no meio-termo. Deles, houve quem tendesse para a explicação pessoal; e outros ainda houve que introduziram na explicação muitos outros conhecimentos. Alguns fizeram-no em estilo esdrúxulo; outros em estilo claro. De tudo isso resultou uma grande riqueza científica e um movimento intelectual considerável, que elevam e glorificam um povo que serve ao Livro de seu Senhor, quer seja em decorá-lo, preservá-lo e explicá-lo, quer seja em examiná-lo, elevá-lo e consagrá-lo, ao longo de catorze séculos, que serão seguidos por muitos outros, até que tudo que há no universo compareça perante o Criador: "Nós revelamos a Mensagem e somos Seu Preservador" (15ª Surata, versículo 9). "Este é o Livro (o Alcorão) veraz por excelência. A falsidade não se aproxima dele nem pela frente, nem por trás, porque é a revelação do Prudente, Laudabilíssimo." (41ª Surata, versículo 41-42). Todas as importantes religiões do mundo são baseadas nos seus Livros Sagrados, os quais são frequentemente atribuídos a revelações divinas. Seria patético se, por algum infortúnio, uma delas viesse a perder o texto original da revelação; a substituição jamais poderia estar em inteira conformidade com o que fora perdido. Os brâmanes, os budistas, os judeus, os masdeístas e os cristãos podem comparar o método empregado para a preservação dos ensinamentos básicos de suas respectivas religiões com o método dos muçulmanos. Quem lhes escreveu os livros? Quem lhes transmitiu de geração a geração? Será a transmissão provinda de textos originais ou apenas tradução? Não haveriam as guerras fratricidas danosas às cópias dos textos? Não haverá contradições internas ou lacunas cujas referências são encontradas em outro lugar? Estas são algumas das questões que poderão ser aventadas, e isso requer respostas satisfatórias. No tempo em que emergiram o que nós chamamos de as Grandes Religiões, os homens não apenas confiaram em suas memórias, mas também inventaram a arte de escrever, para preservarem seus pensamentos, assentando tudo por escrito, de modo mais premente do que fariam as memórias individuais dos seres humanos que, afinal de contas, têm um limitado ciclo de vida. Mesmo assim, nenhum destes dois meios é infalível quando tomados separadamente. É uma questão de experiência cotidiana o ato de que, quando se escreve algo e então se o revisa, encontram-se mais ou menos erros inadvertidos, omissão de letras ou mesmo de palavras, repetição de relatos, uso de palavras contrárias àquelas pretendidas, erros gramaticais, etc., sem falar nas mudanças de opinião do escritor, que também corrige seu estilo, seus pensamentos, seus argumentos e, às vezes, reescreve todo o documento. O mesmo acontece quanto à faculdade da memória. Aqueles que têm obrigação de ou habilidade em aprender de cor algum texto, para recitá-lo mais tarde, especialmente quando isso envolve longuíssimas passagens, sabem que às vezes suas memórias falham durante a recitação: pulam passagens, misturam umas com as outras, ou não se lembram de toda a sequência; às vezes o texto correto permanece na subconsciência e é relembrado no último momento, ou no rebuscamento da memória por indicação de outrem, ou ao ser consultado o texto em documento escrito. O Profeta do Islam, Muhammad (saws), de memória privilegiada, empregava ambos os métodos simultaneamente, um ajudando o outro, reforçando a integridade do texto e diminuindo ao mínimo as possibilidades de erro. Os ensinamentos islâmicos são baseados no que o Profeta Muhammad (saws) disse ou fez. Ele próprio ditou certos textos a seus escribas, o que chamamos de Alcorão; outros textos foram compilados por seus companheiros, na maioria das vezes por iniciativa própria; e a esses escritos damos o nome de Tradição. A palavra Alcorão literalmente significa "leitura por excelência" ou "recitação". Enquanto o ditava a seus companheiros, o Profeta lhes assegurava que era a Revelação Divina que ele havia recebido. Ele não ditou tudo de uma só vez: as revelações chegavam-lhe em fragmentos, de tempos em tempos. Tão logo ele recebia uma, costumava comunicá-la a seus companheiros e pedir-lhes não somente que a aprendessem de cor - para que a recitassem durante a prática das orações -, mas também que a escrevessem e que multiplicassem as cópias. Em tais ocasiões, ele indicava o lugar preciso da nova revelação no texto; não era dele a compilação cronológica. Não é de admirar a precaução e o cuidado tomados para a precisão, levando-se em consideração o padrão da cultura dos árabes daquele tempo. É razoável acreditarmos que as primeiríssimas revelações recebidas pelo Profeta não foram imediatamente submetidas à escrita, pela simples razão de que não havia, ainda, companheiro algum ou aderentes. Estas primeiras partes não eram nem longas, nem numerosas. Não havia risco de que o Profeta pudesse esquecê-las, uma vez que ele as recitava frequentemente em suas orações e em conversas proselíticas. Alguns fatos da história dão-nos a ideia do que aconteceu. Ômar Ibn al Khattab (579-644) é considerado a quadragésima pessoa a abraçar o Islam. Isso se refere ao ano quinto da Missão (oito antes da Hégira). Mesmo em uma data primordial existiram cópias escritas de certas Suratas do Alcorão e, como Ibn Hicham, falecido em 833, relata, foi devido ao profundo efeito produzido pela leitura acurada de alguns versículos da vigésima Surata que Ômar abraçou o Islam. Não sabemos precisamente o tempo em que a prática de escrever o Alcorão começou; contudo, há informações precisas de que durante os remanescentes dezoito anos da vida do Profeta, o número dos muçulmanos, como também das cópias do texto Sagrado, continuou aumentando dia a dia. Como o Profeta recebia as revelações em fragmentos, era natural que o texto revelado se referisse aos problemas do dia. Se acontecesse o fato de um de seus companheiros morrer, a revelação consistiria em promulgar a lei da herança; não seria a de lei penal, tratando de roubo, por exemplo, a ser revelada no momento. As revelações continuaram durante a inteira vida missionária de Muhammad (saws), treze anos em Makka e dez em Madina. Uma revelação consistia às vezes de uma inteira Surata, curta ou longa, e às vezes de apenas uns poucos versículos. A natureza das revelações impunha ao Profeta repeti-las constantemente em suas recitações, e revisar continuamente a forma que as coleções dos fragmentos teria que tomar. Todos os doutos afirmam, com autoridade, que o Profeta recitava todos os anos, no mês de Ramadan, perante o anjo Gabriel, a parte do Alcorão até então revelada, e que no último ano de sua vida Gabriel pediu-lhe que o recitasse por inteiro duas vezes. O Profeta concluiu, desde então, que iria, em breve, despedir-se da vida. O Profeta costumava revisar, nos meses do jejum, os versículos e as Suratas, e colocá-las em sua seqüência adequada. Isto era necessário por causa da continuidade das novas revelações. É também sabido que o Profeta tinha o hábito de celebrar uma prática adicional de oração durante os meses do jejum, todas as noites, às vezes mesmo em congregação, na qual ele recitava o Alcorão do princípio ao fim, tarefa esta que era completada ao cabo de um mês. Esta prática, chamada de tarawih, continua a ser observada com grande devoção até a estes nossos dias. Quando o Profeta deu seu último suspiro, uma rebelião estava tomando vulto em certas partes do país. Tentando debelá-la, várias pessoas que conheciam o Alcorão de cor tombaram. O Califa Abu Bakr sentiu a urgência da codificação do Alcorão, e a tarefa foi cumprida um mês depois da morte do Profeta. Durante seus últimos anos de vida, o Profeta costumava usar Zaid Ibn Sábet (615-665) como principal amanuense, para tomar em ditado as revelações recentemente recebidas. Abu Bakr encarregou a mesma pessoa da tarefa da preparação de uma cópia condizente de todo o texto, em forma de livro. Havia então em Madina vários Huffaz (aqueles que sabiam todo o Alcorão de cor), e Zaid era um deles. Sob a direção do Califa, Zaid transcreveu o texto escrito em pergaminhos ou pedaços de couro, nas omoplatas das reses, nos ossos, nas pedras polidas e mesmo em pedaços de porcelana. A cópia condizente, assim preparada, foi chamada de Musshaf (encadernação). Esta foi conservada sob a própria custódia do Califa Abu Bakr e, depois dele, por seu sucessor, Ômar Ibn al Khattab. Nesse meio tempo o estudo do Alcorão foi encorajado em toda parte do Império Muçulmano. O Califa Ômar sentiu a necessidade de enviar cópias do texto autêntico aos centros provincianos, a fim de evitar as divergências; mas foi deixado a seu sucessor, Otman, continuar com a tarefa. Um de seus comandantes, Huzaifa Al Yaman, havendo voltado de uma viagem pelas vastas terras conquistadas pelos muçulmanos, relatou que havia encontrado divergentes cópias do Alcorão e que havia, às vezes, desentendimento entre os diferentes mestres do Livro, concernente a isso. Otman fez imediatamente com que a cópia preparada para Abu Bakr fosse confiada a uma comissão presidida pelo acima mencionado Zaid Ibn Sábet para a reprodução de sete cópias; ele autorizou-lhes a revisão da pronúncia, se necessário. Quando a tarefa foi concluída, o Califa efetuou uma recitação pública da nova edição perante os doutos presentes na capital, perante os companheiros do Profeta, e então enviou estas cópias aos diferentes centros do vasto Mundo Islâmico, ordenando que dali por diante todas as cópias fossem baseadas na edição autêntica. Ele ordenou a destruição das cópias que, de algum modo, se desviassem do texto assim oficialmente estabelecido. É concebível que as grandes conquistas militares dos primeiros muçulmanos induzissem alguns espíritos hipócritas a proclamarem sua impulsiva conversão ao Islam por motivos materiais, e para tentar danificá-lo de maneira clandestina. Eles fabricaram versões do Alcorão com interpolações. As "lágrimas de crocodilo", que foram derramadas pela destruição das cópias não autenticadas do Alcorão, por ordem do Califa Otman somente poderiam ter sido de tais hipócritas. É sabido que o Profeta às vezes ab-rogava certos versículos que haviam sido comunicados previamente ao povo, e isso era feito para fortificar as novas Revelações Divinas. Houve Companheiros que aprenderam a primeira versão, sem contudo estarem cientes das últimas modificações, tanto por causa da morte do Profeta como por suas residências fora de Madina. Eles devem ter deixado cópias a seus descendentes, as quais, embora autênticas, estavam ultrapassadas. Ainda, alguns muçulmanos tinham o hábito de pedir ao Profeta que explicasse certos termos empregados no texto sagrado e anotar tais explicações nas margens de suas cópias do Alcorão, a fim de não se esquecerem delas. As cópias feitas mais tarde, com base nesses textos anotados, iriam causar confusões na questão do texto e do glossário. A despeito da ordem do Califa Otman, para que se destruíssem os textos inexatos, existia, nos séculos III e IV da Hégira, assunto bastante para a compilação de volumosas obras, constituindo as "variações do Alcorão." Estas chegaram até nós, mas um apurado estudo mostra-nos que tais variantes eram devidas tanto à aparência falsa, como aos enganos no decifrar-se a velha escrita arábica, que não possuía vogais, nem se podia distinguir entre as letras semelhantes, nem davam ideia das mesmas, sendo meros pontos, como é feito agora. Além disso existiam diferentes dialetos em diferentes regiões, e o Profeta havia permitido aos muçulmanos de tais regiões recitarem de acordo com suas algaravias, e mesmo substituir as palavras que estavam além de sua argúcia, por sinônimos que conhecessem melhor. Esta foi uma medida imergente de graça e clemência. No tempo do Califa Otman, contudo, a instrução pública havia-se desenvolvido suficientemente, e fez-se necessário que aquelas concessões não fossem mais toleradas, pois o Texto Sagrado seria afetado, e as variantes da leitura se radicariam. As cópias do Alcorão enviadas por Otman aos chefes das províncias gradualmente desapareceram, nos séculos subsequentes; apenas uma delas, que presentemente se encontra em Tashkent, chegou até nós. O governo czarista da Rússia havia-a publicado em uma reprodução fac-símile; constata-se haver uma completa identidade entre essa cópia e o texto em uso noutras ocasiões. A mesma é cópia fiel do manuscrito existente do Alcorão, tanto completo como fragmentado, datando do primeiro século da Hégira. O Alcorão é dirigido a toda a humanidade, sem distinção de raça, cor, região ou tempo. Ainda mais, ele procura guiar a humanidade em todas as sendas da vida: espirituais, materiais, individuais e coletivas. Ele contém diretrizes para a conduta do chefe de Estado, bem como do homem comum; do rico, bem como do pobre; diretrizes para a paz, bem como para a guerra; tanto para a cultura espiritual como para o comércio e bem-estar material. O Alcorão busca principalmente desenvolver a personalidade do indivíduo: Cada ser será pessoalmente responsável perante seu Criador. Para tal propósito, o Alcorão não somente fornece ordens, porém tenta ainda convencer. Ele apela para a razão do homem e relata histórias, parábolas e metáforas. Descreve os atributos de Allah (swt), que é Um, Criador de tudo, Onisciente, Onipotente, Ressuscitador dos mortos e Observador de nosso comportamento terreno; é Justo, Clemente (Vide nota da 7ª Surata, versículo 180). O Alcorão indica ainda o modo de aprazermos a Allah (swt), apontando quais as melhores orações, quais os deveres do homem com respeito a Ele, a seus semelhantes e a seu próprio ser; ele dá destaque ao fato de que não nos pertencemos, outrossim, pertencemos a Allah (swt). O Alcorão fala das melhores normas relacionadas com a vida social, comercial, matrimonial, como a herança, o direito penal, o direito internacional, e assim por diante. Todavia, o Alcorão não é um livro, no senso comum; é a coleção das palavras de Allah (swt), reveladas de tempos em tempos, durante vinte e três anos, a Seu Mensageiro, escolhido entre os seres humanos. O Soberano dá Suas instruções a Seu vassalo; portanto, há certas nuanças compreendidas e implícitas; há repetições, e mesmo mudanças nas formas de expressão. Deste modo, Allah (swt) fala às vezes na primeira pessoa e às vezes na terceira. Ele diz "Eu", bem como "Nós" e "Ele", porém, jamais "Eles". É uma coleção de revelações enviadas de ocasiões em ocasiões; e devemos, por isso, lê-lo mais e mais, a fim de melhor avaliarmos os seus significados. Ele possui diretrizes para todos, em todos os lugares e para todos os tempos. O estilo e a dicção do Alcorão são magníficos e apropriados para a sua qualidade Divina. Sua recitação comove o espírito até daqueles que apenas o ouvem sem entendê-lo. Com o passar do tempo, o Alcorão tem, em virtude de sua reivindicação de origem divina, desafiado a todos a criarem, conjuntamente, mesmo uns poucos versículos iguais aos que ele contém. Tal desafio porém tem permanecido sem resposta até aos nossos dias. Há algumas diferenças intrínsecas entre o Alcorão e os livros precedentes. Tais diferenças podem ser sucintamente estipuladas, como se segue: 1. Os textos originais da maior parte dos primitivos Livros Divinos foram em sua quase totalidade perdidos, sendo que somente as suas traduções existem hoje. O Alcorão, por outro lado, existe hoje exatamente como foi revelado ao Profeta; nem uma palavra - mais ainda, nem uma letra sequer - foi trocada. Encontra-se à disposição, em seu texto original, fazendo com que a Palavra de Allah (swt) seja preservada agora, bem como por todo o porvir. 2. Nos primitivos Livros Divinos os homens mesclaram suas palavras com as palavras de Allah (swt); porém, no Alcorão encontram-se apenas as palavras de Allah (swt) - em suas prístinas purezas. Isto é admitido, mesmo pelos oponentes ao Islam. 3. Não se pode dizer, com base na autêntica evidência histórica, em relação a nenhum outro Livro Sagrado, possuído por diferentes povos, que ele realmente pertence ao mesmo profeta a quem é atribuído. No caso de alguns deles, mesmo isto não é sabido. Em que época e a que profeta eles foram revelados? Quanto ao Alcorão, as evidências que existem de que foi revelado a Muhammad (saws)são tão vultosas, tão convincentes, tão sólidas e completivas, que mesmo o mais ferrenho crítico do Islam não pode lançar dúvidas sobre isso. Tais evidências são tão vastas e detalhadas, que sobre muitos versículos do Alcorão, mesmo a ocasião e o local de suas revelações, podem ser conhecidos com exatidão. 4. Os primitivos Livros Divinos foram revelados em línguas que estão mortas desde há muito tempo. Na era presente, nação ou comunidade alguma fala tais línguas e há apenas umas poucas pessoas que se jactam de compreendê-las. Destarte, mesmo que tais Livros existissem hoje em suas formas originais e não adulteradas, seria virtualmente impossível, em nossa era, compreendermos e interpretarmos corretamente suas injunções, bem como pormos em prática em sua forma requerida. A língua do Alcorão, por outro lado, é uma língua viva; milhões de pessoas falam-na e outro tanto a compreende. Ela está sendo ensinada e aprendida em quase todas as universidades do mundo; todas as pessoas podem aprendê-la, e aquele que não tem tempo para isso pode, em qualquer parte, deparar com quem conheça a língua, que lhe explique o significado do Alcorão. 5. Cada um dos Livros Sagrados existentes, encontrados entre as diferentes nações do mundo, foi dirigido a um povo em particular. Cada um deles contém um número de ditames que parece ter sido dirigido a um período da história em particular e que supria apenas as necessidades daquela era. Tais necessidades não são válidas hoje, nem tampouco podem ser aplainadas e propiciamente vertidas para a prática. Depreende-se disto que tais livros eram dirigidos àqueles povos em particular e nenhum deles para o mundo. Ademais, eles não foram revelados para serem seguidos permanentemente, mesmo pelo povo para o qual foram revelados; restringiam-se a influenciar somente sobre um certo período. Em contraste a isso, o Alcorão é dirigido a toda a humanidade; não se pode suspeitar que injunção alguma tenha sido dirigida a um povo em especial. Do mesmo modo, todos os ditames e injunções no Alcorão são os mesmos que podem ser aplicados em todos os lugares e em todas as épocas. Este fato vem provar que o Alcorão é dirigido ao mundo inteiro, constituindo-se em eterno código para a vida humana. 6. Não há negar o fato de que os precedentes Livros Divinos cultuavam o bem e a virtude, ensinavam também os princípios da moralidade e da veracidade, e apresentavam uma maneira de viver consentânea com a vontade de Allah (swt). Contudo, nenhum deles era suficientemente compreensivo para englobar tudo quanto fosse necessário para uma vida humana virtuosa, sem nada supérfluo, sem nada carente. Alguns deles excediam-se em um aspecto, alguns em outros. É o Alcorão, e apenas o Alcorão, que cultua não apenas tudo o que havia de magnífico nos livros precedentes, mas, ainda, aperfeiçoa os desígnios de Allah (swt) e os apresenta em sua totalidade, delineando uma norma de vida que compreende tudo o que é necessário para o homem, nesta terra. Os pensamentos se renovam e as culturas se proliferam; a vida evolui e a colheita intelectual da humanidade aumenta a cada dia; e quanto mais a humanidade evolui, mais unida e mais mesclada fica. Os veículos de comunicação em muito ajudam nisso, como se quisessem corroborar as palavras do Alcorão: "Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos para reconhecerdes uns aos outros." (49ª Surata, versículo 13). www.ccib.org.br. Abraço. Davi


segunda-feira, 5 de maio de 2025

A SAGRADA ESCRITURA

Cristianismo. Livro Catecismo da Igreja Católica. Capítulo II. Parte III. A SAGRADA ESCRITURA. 1. Cristo – Palavra única da Sagrada Escritura. Na condescendência de sua bondade, Deus, para revelar-se aos homens, fala-lhes em palavras humanas. Com efeito, as palavras de Deus, expressas por línguas humanas, fizeram-se semelhantes à linguagem humana, tal como outrora o Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a carne da fraqueza humana, se fez semelhante aos homens. Por meio de todas as palavras da Sagrada Escritura, Deus pronuncia uma só Palavra, seu Verbo único, no qual se expressa por inteiro. Lembrai-vos que é uma mesma a Palavra de Deus que está presente em todas as Escrituras. Que é um mesmo Verbo que ressoa na boca de todos os escritores, ele que, sendo no início Deus junto de Deus, não tem necessidade de sílabas, por não estar submetido ao tempo. Por este motivo, a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, como venera também o Corpo do Senhor. Ela não cessa de apresentar aos fiéis o Pão da Vida tomado da Mesa da Palavra de Deus e do Corpo de Cristo. Na Sagrada Escritura, a Igreja encontra incessantemente seu alimento e sua força, pois nela não acolhe somente uma palavra humana, mas o que ela é realmente: a Palavra de Deus. Com efeito, nos Livros Sagrados, o Pai que está nos céus vem carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala. 2. Inspiração e verdade da Sagrada Escritura. Deus é o autor da Sagrada Escritura. As coisas divinamente reveladas, que estão contidas e são apresentadas nos livros da Sagrada Escritura, foram registradas sob a inspiração do Espírito Santo. A santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, tem como sagrados e canônicos os livros completos tanto do Antigo como do Novo Testamento. Com todas as partes, porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, eles têm Deus como autor e, nesta sua qualidade, foram confiados a própria Igreja. Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados. Na redação dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu, fazendo-os usar suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo ele próprio neles e por meio deles. Escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que ele próprio queria. Os livros inspirados ensinam a verdade. Portanto, já que tudo o que os autores inspirados, ou hagiógrafos, afirmam deve ser lido como afirmado pelo Espírito Santo. Deve-se professar que os livros da Escritura ensinam, com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, em vista de nossa salvação, quis que fosse registrada nas Sagradas Escrituras. Todavia, a fé cristã não é uma “religião de Livro”. O Cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo. Para que as Escrituras não permaneçam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna de Deus vivo, pelo Espírito Santo nos abra o espírito à compreensão das Escrituras. 3. O Espírito Santo, intérprete da Escritura. Na Sagrada Escritura, Deus fala ao homem à maneira dos homens. Para bem interpretar a Escritura é preciso, assim, estar atento aquilo que Deus quis manifestar-nos pelas palavras deles. Para descobrir descobri a intenção dos autores sagrados, há que levar em conta as condições de sua época e de sua cultura, os gêneros literários em uso naquele tempo, os modos, então correntes de sentir, falar e narrar. Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos que são, de vários modos históricos ou proféticos. Ou os demais, de outros gêneros de expressão. Por ser a Sagrada Escritura inspirada, há outro princípio da interpretação correta, não menos importante que o anterior, e sem o qual a Escritura permaneceria letra morta. A Sagrada Escritura deve também ser lida e interpretada com a ajuda daquele mesmo Espírito em que foi escrita. O Concílio Vaticano II indica três critérios para a interpretação da Escritura conforme o Espírito que a inspirou. A. Prestar muita atenção ao conteúdo e à unidade da Escritura inteira, desse modo, por mais diferentes que sejam os livros que a compõem, a Escritura ´e una em razão da unidade do projeto de Deus, do qual Cristo Jesus é o centro e o coração, aberto depois de sua Páscoa. O coração de Cristo designa a Sagrada Escritura, que dá a conhecer o coração de Cristo. O coração estava fechado antes da Paixão, desse modo, a Escritura era obscura. Porém, a Escritura foi aberta após a Paixão, dessa maneira, a partir daí, têm a compreensão dela os que a consideram e discernem de que maneira as profecias devem ser interpretadas. B. Ler a Escritura dentro da Tradição viva da Igreja inteira. Consoante um adágio dos Padres: a Escritura está escrita mais no coração da Igreja do que nos instrumentos materiais. Com efeito, a Igreja leva, em sua Tradição, a memória viva da Palavra de Deus, sendo o Espírito Santo que lhe dá a interpretação espiritual da Escritura. Segundo o sentido espiritual que o Espírito dá a Igreja. Os Sentidos da Escritura. Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, sendo este último subdividido em alegórico, moral e anagógico. A concordância profunda entre os quatro sentidos garante toda a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja. O sentido literal. É o sentido significado pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese que segue as regras da correta interpretação. Todos os sentidos, da Escritura Sagrada, devem estar fundados no sentido literal. O sentido espiritual. Graças a unidade do projeto de Deus, não somente o texto da Escritura, mas também as realidades e os acontecimentos de que ele fala podem ser sinais. A. O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos, reconhecendo a significação deles em Cristo. Assim, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo e do Batismo. B. O sentido moral. Os acontecimentos relatados na Escritura devem nos conduzir a um justo agir. Eles foram escritos como advertência para nós I Coríntios 10,11. C. O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos em sua significação eterna, nos conduzindo a nossa Pátria. Assim, a Igreja na terra é sinal da Jerusalém celeste. Um dístico medieval resume a significação dos quatro sentidos. A letra, ensina o acontecimento. A alegoria, o que deves crer. A moral, o que deves fazer. A anagogia, para onde deves caminhar. É dever dos exegetas esforçarem-se, dentro dessas diretrizes, por entender e expor com maior aprofundamento o sentido da Sagrada Escritura. A fim de que, por seu trabalho de certo modo preparatório, amadureça o julgamento da Igreja. Todas estas coisas que concernem a maneira de interpretar a Escritura estão sujeitas, em última instância, ao juízo da Igreja. Que exerce o divino ministério e mandato do guardar e interpretar a Palavra de Deus. 4. O Cânon das Escrituras. Foi a tradição apostólica que fez a Igreja discernir quais escritos deveriam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados. Esta lista completa é denominada “Cânon” das Escrituras. Ela comporta 46 escritos pra o Antigo Testamento e 27 para o Novo Testamento. Para o Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, os dois livros de Samuel, os dois livros dos Reis, os dois livros das Crônicas, Esdras e Neemias, Tobias, Judite, Ester, os dois livros dos Macabeus, Jó, os Salmos, os Provérbios, o Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos, a Sabedoria, o Eclesiástico, Isaías, Jeremias, as Lamentações, Baruque, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. Para o Novo Testamento: Os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, Atos dos Apóstolos, Romanos, I e II Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, I e II Tessalonicenses, I e II Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, I e II Pedro, I, II e III João, Judas e Apocalipse. O Antigo Testamento. É uma parte indispensável da Sagrada Escritura. Seus livros são divinamente inspirados e conservam valor permanente, pois a Antiga Aliança nunca foi revogada. Com efeito, a Economia do Antigo Testamento estava ordenada principalmente pra preparar a vinda de Cristo, Redentor de todos. Embora contenha também coisas imperfeitas e transitórias, os livros do Antigo Testamento dão testemunho de toda a divina pedagogia do amor salvífico de Deus. Neles encontram-se sublimes ensinamentos acerca de /deus e salutar sabedoria concernente a vida do homem. Bem como admiráveis tesouros de preces. Nestes livros, está latente o mistério de nossa salvação. Os cristãos veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre rechaçou vigorosamente a ideia de rejeitar o Antigo Testamento sob o pretexto de que o Novo o teria feito caducar – marcionismo. O Novo Testamento. A Palavra de Deus, que é força de Deus para a salvação de todo crente, é representada e manifesta seu vigor, de modo eminente, nos escritos do Novo Testamento. Estes escritos nos fornecem a verdade definitiva da revelação divina. Seu objeto central é Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. Seus atos, ensinamentos, paixão e glorificação, assim como os inícios de sua Igreja soba a ação do Espírito Santo. Os Evangelhos são o coração de todas as Escrituras, uma vez que constituem o principal testemunho da vida e da doutrina do Verbo encarnado, nosso Salvador. Na formação dos Evangelhos, podemos distingues três etapas: A. A vida e o ensinamento de Jesus. A Igreja defende firmemente que os quatro Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente aquilo que Jesus, Filho de Deus, ao viver entre os homens, realmente fez e ensinou para a eterna salvação deles. Até o dia em que foi elevado. B. A tradição oral. O que o Senhor dissera e fizera, os Apóstolos, após a ascensão do senhor, transmitiram aos ouvintes, com àquela compreensão mais plena de que desfrutavam, instruídos que foram pelos gloriosos acontecimentos de Cristo e esclarecidos pela Luz do Espírito de Verdade. Os Evangelhos escritos. Os autores sagrados escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo certas coisas das muitas transmitidas, ou oralmente ou já por escrito, fazendo síntese de outras ou as explanando com vistas à situação das Igrejas. Conservando, enfim, a forma de pregação, sempre de maneira a nos transmitir, a respeito de Jesus, coisas verdadeiras e sinceras. O Evangelho quadriforme ocupa, na Igreja, um lugar único, como atestam a veneração que lhe tributa a liturgia e o atrativo incomparável que, desde sempre, tem exercido sobre os santos. Não existe nenhuma doutrina que seja melhor, mais preciosa e mais esplêndida que o texto do Evangelho. Vede e retende o que nosso Senhor e Mestre, Cristo, ensinou com suas palavras e realizou com seus atos. É acima de tudo o Evangelho que me ocupa durante as minhas orações, nele encontro tudo que é necessário para minha pobre alma. Descubro nele sempre novas luzes, sentidos escondidos e misteriosos. A unidade entre o Antigo e o Novo Testamento. A Igreja, já nos tempos apostólicos, e depois constantemente em sua Tradição, iluminou a unidade do plano divino nos dois Testamentos graças a tipologia. Esta percebe, nas obras de Deus contidas na Antiga Aliança, prefigurações daquilo que Deus realizou na plenitude dos tempos, na pessoa de seu Filho encarnado. Por isso os cristãos leem o Antigo Testamento a luz de Cristo morto e ressuscitado. Esta leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento. Ela não deve levar ao esquecimento de que esta conserva seu valor próprio de revelação, que Nosso Senhor mesmo reafirmou. Igualmente, o Novo Testamento exige ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorre constantemente a ele. Segundo um adágio antigo, o Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é desvendado no Novo. A tipologia exprime o dinamismo em direção ao cumprimento do plano divino, quando” Deus seja tudo em todos” I Coríntios 15,18. Assim a vocação dos patriarcas e o Êxodo do Egito, por exemplo, não perdem seu valor próprio no plano de Deus, pelo fato de serem, ao mesmo tempo, etapas intermediárias deste plano. 5. A Sagrada Escritura na vida da Igreja. São tão grandes o poder e a eficácia contidos na Palavra de Deus, que ela constitui sustentáculo e vigor pra a Igreja, e, para seus filhos, firmeza da fé, alimento da alma, pura e perene fonte da vida espiritual. É preciso que os fiéis tenham amplo acesso a Sagrada Escritura. Que o estudo da Sagrada Escritura seja, portanto, como a alma da sagrada teologia. Da mesma palavra da Sagrada Escritura também se nutre salutarmente e santamente floresce o ministério da palavra. A saber, a pregação pastoral, a catequese e toda a instrução cristã, na qual deve ocupar lugar de destaque a homilia litúrgica. A Igreja exorta com veemência e de modo peculiar todos os fiéis cristãos (...) a que, pela frequente leitura das divinas Escrituras, aprendam o conhecimento de Cristo Jesus. Com efeito, ignorar as Escrituras é ignorar Cristo. Resumo. Toda a Escritura divina é um único livro. Este livro único é Cristo, já que toda Escritura divina fala de Cristo, e se cumpre em Cristo. As Sagradas Escrituras contêm a Palavra de Deus e, por serem inspiradas, são verdadeiramente Palavra de Deus. Deus é o autor da Sagrada Escritura e, ao inspirar seus autores humanos, age neles e por meio deles. Fornece assim a garantia de que seus escritos ensinem, sem erro, a verdade salvífica. A interpretação das Escrituras inspiradas deve, antes de tudo, estar atenta aquilo que Deus quer revelar por intermédio dos autores sagrados para nossa salvação. O que vem do Espírito só é plenamente entendido pela ação do Espírito. A Igreja recebe e venera como inspirados os 46 livros do Antigo Testamento e os 27 livros do Novo Testamento. Os quatro Evangelhos ocupam lugar central, já que Cristo Jesus é seu centro. A unidade dos dois Testamentos decorre da unidade do projeto de Deus e de sua revelação. O Antigo Testamento prepara o Novo enquanto o Novo cumpre o Antigo. Os dois Testamentos iluminam-se reciprocamente. Os dois são verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras da mesma forma com o próprio Corpo do Senhor. Ambos alimentam e dirigem toda a vida cristã. “Lâmpada para meus passos é tua palavra, e luz no meu caminho” Salmos 119,105. Abraço. Davi.


quinta-feira, 1 de maio de 2025

OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA IDEOLOGIA CHINESA ATUAL

Confucionismo. Texto de Jacques Gernet (1921-2018). OS PRINCÍPIOS CONFUCIONISTAS DA IDEOLOGIA CHINESA ATUAL. "Não há quase nenhum pormenor no comportamento de um bom comunista que não faça lembrar exatamente aquele de um bom neo confucionista”. Jacques Gernet (1921-2018).  Introdução. A seguir à Implantação da República Popular da China, em 1949, o Japão, um país que havia invadido recentemente o território chinês, foi o primeiro país a levantar-se para defender, mesmo contra a maior potência mundial não comunista - os Estados Unidos - que a ideologia adotada por esta era um comunismo de raízes chinesas, não se tratando de comunismo soviético puro. Tal como tem a História da China testemunhado, poucas são as culturas e estilos de vida que ao entrarem em território chinês mantêm as suas características originais inalteráveis. Este povo de civilização milenar tende a absorver os valores e formas de vida, adaptando-se imediatamente à realidade local, sinalizando-os. Como não podia deixar de ser, também a ideologia comunista, adotada pela liderança chinesa pós 1949, sofreu algumas alterações e adaptações à particular situação do país. É exemplo explícito desta adaptação a adoção de uma “economia socialista com características chinesas” (中国特色社会主义的经济), medida tomada pelo governo chinês desde o Congresso de 1987. Inserida na política de reformas e abertura levada a cabo pela liderança. E porque esta ideologia teve uma adaptação tão rápida e eficiente ao povo chinês? A verdade é que muitos dos princípios base da ideologia comunista estão em conformidade com os valores tradicionais chineses, nomeadamente os valores confucionistas, e poder-se-ia mesmo dizer que algumas medidas tomadas pelo governo chinês são confucionistas em gênese. Como tal, apesar de em tempos, o confucionismo ter sido um dos principais alvos das críticas dos ideólogos comunistas, a verdade é que estas duas formas de encarar a vida se separaram e antagonizam para encontrar finalmente um ponto de encontro comum, dinâmico e mesmo muito útil na atualidade caracterizada pela globalização económica e o espírito de modernização. Trata-se afinal da filosofia chinesa da unidade dos contrários, do yin e do yang, em que estes polos nunca estão em completa oposição, mas sim se entrecruzam e se interpenetram, sucedendo-se um ao outro. As raízes do confucionismo. Confúcio. "Mais que um homem ou que um pensador, e mesmo mais que uma escola de pensamento, Confúcio representa um verdadeiro fenómeno cultural que se confunde com o destino de toda a civilização chinesa." Anne Cheng (1955 - ) A vida. Embora o seu nascimento esteja envolto em algumas histórias fantásticas, como de resto é comum encontrar-se associado a personagens importantes da História da China, Confúcio (Kongzi, 孔子) teria vivido entre (551 AC 479) numa época conturbada, dominada pela desordem do fim da Dinastia Zhou (1100 AC 476). Então, os diversos reinos em que se encontrava dividido o território chinês rivalizavam pelo domínio, desencadeando conflitos violentos, daí que este período seja conhecido como os Reinos Combatentes (475 AC 221). Mais tarde, o lugar de domínio dentre estes seria alcançado pelo Reino Qin, que acabou por unificar todos os reinos sob a liderança do cruel Qin Shi Huangdi, fundando a conhecida Dinastia Qin (221 AC 206). Interessa aqui sublinhar que este foi um período de convulsões internas originadas pelas degradantes condições de vida e pelo poderio crescente que os príncipes vinham conquistando no interior dos seus reinos. Estas condições dinamizaram o pensamento da época, surgindo diversos pensadores que procuravam propor a melhor forma de governar. A abundância de escolas de pensamento durante este período fez com que lhe fosse atribuída a designação de “Período de Ouro da Filosofia Chinesa”, ou período das “Cem Escolas de Pensamento”. Surgiram nesta época as sementes do que haveria de se tornar nas importantes filosofias do Confucionismo, Tauísmo, Moísmo e Legismo. Com exceção desta última, nenhuma das outras ideias foi imediatamente adotada pelos imperadores. Somente sob a Dinastia Han (206 AC 220 DC), viriam o Confucionismo e o Tauísmo a atingir estádios mais adiantados de desenvolvimento teórico. Confúcio nasceu na pequena cidade de Qufu (曲阜), no Reino de Lu (鲁国), na atual Província de Shandong (山东), em agosto de 551 AC., mas pouco se sabe da sua vida. Uma das fontes a que se pode recorrer para traçar a sua biografia é o livro "Memórias Históricas" (史 记) do grande historiador que viveu no século II AC, Sima Qian (司马迁), mas ainda assim esta é uma fonte pouco segura devido à dificuldade em provar os factos descritos. Aparentemente a sua família era pobre e modesta, ainda que os seus ascendentes pertencessem à família dos Duques do Estado dos Song, a qual descendia da família real da Dinastia Zhou. Como o pai de Confúcio, que era chefe do exército, tinha já uma certa idade quando se casou pela segunda vez com a que viria a ser a sua mãe, conta a lenda que ela se dirigiu a um monte para orar, para pedir que tivesse um filho. Aí ela viu um licorne e atou-lhe uma fita bordada à volta do corno para que o seu desejo se concretizasse. Quando deu à luz à sombra de uma amoreira teria sido velada por dois dragões. Por esse motivo ou talvez porque quando Confúcio nasceu tinha uma protuberância na fronte, foi-lhe dado o nome de Qiu (丘), que significa colina. Apenas com três anos de idade, Confúcio perdeu o pai e, como a sua mãe tinha somente 18 anos, teve que se dedicar ao trabalho agrícola nas terras que tinha recebido como qualidade de viúva de funcionário público para poder dar ao filho a educação que pretendia. E parece que Confúcio correspondeu às suas expectativas pois com 15 anos já frequentava a escola dos letrados e, dois anos mais tarde, recebia lições particulares, ao mesmo tempo que se iniciava na vida militar e no cerimonial da Corte. E é o próprio Confúcio que, nos "Analectos", nos descreve com determinação a sua vida: "Aos quinze anos, resolvi aprender. Aos trinta anos, firmei-me no Caminho. Aos quarenta anos, já não tinha nenhuma dúvida. Aos cinquenta anos, conhecia os decretos do Céu. Aos sessenta anos, tinha um discernimento perfeito. Aos setenta anos, agia em toda a liberdade, sem por isso transgredir nenhuma regra." (Analectos de Confúcio II-4) 4 Aos 19 anos casou-se, do qual resultaram dois rebentos: um menino e uma menina. Continuou a conciliar o trabalho com os estudos, sendo que aos 22 anos servia como intendente dos celeiros e, mais tarde, como inspetor da distribuição das mercadorias, ao mesmo tempo que abria a sua própria escola. Quando tinha 24 anos, a sua mãe faleceu, pelo que, segundo a prescrição dos ritos, não exerceu nenhuma atividade durante os devidos três anos de luto. Contudo, a história antiga e a literatura continuaram a ocupar o seu espírito, seguindo estudando os Clássicos com afinco. Posteriormente e devido ao prestígio que começou a alcançar, o Mestre Kong Zi (孔子) foi convidado para ocupar alguns cargos de destaque na Corte. Assim, aos 30 anos, foi para a Corte de Lu, e, mais tarde, com o apoio do Duque King de Qi, entrou na Corte do Imperador Zhou, em Luoyang. Foi nesta altura que se deu o célebre encontro entre Kongzi e Laozi (604 AC.). "Conta-se que Laozi recebeu Confúcio com severidade e frieza, incentivando-o a procurar o Tao. Confúcio, por seu turno, teria ficado bem impressionado com o Velho Sábio, pois segundo o relato, referiu a seus discípulos que havia visto Laozi e lhe havia parecido um dragão, que se eleva sobre as nuvens mas que não pode ser perseguido." Devido ao período de convulsões e de conflitos entre os reinos vizinhos que caracterizaram a região entre 520 e 510 AC. Confúcio teve que mudar-se por diversas vezes, acompanhando o Duque de Lu, o qual lhe chegou a confiar o governo da cidade de Tchung-tu que se tornou modelo de prosperidade. Devido a este feito, foram-lhe atribuídos locais de destaque na administração do território, primeiro como intendente dos trabalhos públicos e, depois, como ministro da Justiça. Foi durante este período que desenvolveu máximas relativas à arte de governar, que vêm descritas no capítulo XII dos "Analectos". Com 56 anos, teve a oportunidade de pôr em prática a sua doutrina de governo, quando exerceu o cargo de primeiro-ministro de Lu. Devido a uma certa independência econômica adquirida por Confúcio e também porque a sua doutrina não correspondia às exigências do seu tempo, em 495, Confúcio resolveu ausentar-se, passando a levar uma vida errante acompanhado pelos seus discípulos. Iniciou, assim, uma série de longas viagens pelos reinos de Qi, Song e Wei, ensinando a sua doutrina pela palavra e pelo seu próprio exemplo. Ao mesmo tempo que se dedicava ao ensino, o Mestre Kong oferecia também os seus serviços aos príncipes feudais que disputavam um lugar de destaque entre os restantes reinos, em plena época de decadência da Dinastia Zhou. Durante estas viagens ocorreram diversos episódios, alguns dos quais vêm descritos nos Analectos. Após todas estas aventuras, Confúcio regressou finalmente a Lu cerca de 515 AC. Tinha alcançado um tal prestígio que, segundo alguns autores, teria conseguido reunir cerca de 3000 discípulos, entre jovens letrados vindos das melhores famílias, filhos de homens de destaque do Reino, com uma grande influência na Nação, assim como de famílias mais pobres. Contudo, unia-os o respeito ao mestre e ao seu ensinamento, sendo de destacar que Confúcio tratava-os individualmente, aconselhando-os de acordo com as suas características específicas. Confúcio ensinava-lhes poesia, história, o cerimonial da Corte e música, 70 dos quais conheciam a fundo os Cinco Clássicos. Com 72 anos faleceu no Reino de Lu, em abril de 479 AC. mas parece que a "morte do Sábio não ocorreu sem grandiosidade, e a lembrança que nos transmitiu a tradição autoriza as seguintes reflexões: a) O seu apelo ao respeito filial não foi em vão no que a si lhe calhava. Se o filho, que provavelmente morreu antes dele, parece não ter sido tocado pela graça do pai, o neto [Zi Si] esteve presente para recolher as suas últimas palavras. b) O seu pensamento tinha o vigor bastante para levá-lo a esperar com serenidade os derradeiros momentos. Nenhuma revolta diante da morte, nenhum apelo a intermediários entre o Céu e ele. Capaz de afrontar sozinho a vida, também foi capaz de afrontar sozinho a morte. c) Tendo atingido uma idade respeitável e, ao que parece, gozando sempre de boa saúde, Confúcio morreu em plena posse das suas faculdade. Pronunciando as palavras: «A minha doutrina chegou ao seu termo», dá desde logo razão àqueles seus comentadores que porão em evidência a íntima conformidade entre a vida e o ensino do Sábio, a tal ponto que é impossível interpretar a sua doutrina sem ser em função da sua vida. OS ESCRITOS. A doutrina proposta por Confúcio pode ser encontrada de forma fragmentária nos que ficaram conhecidos como os "Quatro Livros" (四书), nenhum dos quais teria sido escrito por si na sua totalidade. Os "Quatro Livros" incluem: "O Grande Aprendizado" (大学), em parte escrito por Confúcio; a "Doutrina do Meio" (中庸), escrito pelo neto de Confúcio, Zi Si; "Os Analectos" (论语), que teriam sido escritos por alguns dos seus discípulos; e o "Livro de Mêncio" (孟子), escrito pelo seu seguidor Mêncio (372 AC 289). À semelhança do filósofo grego Sócrates (470 AC 399), Confúcio pouco ou nada escreveu sobre a sua filosofia e o seu método baseava-se no diálogo, a partir do qual os seus discípulos puderam retirar ensinamentos para elaborar "Os Analectos". A relação que Confúcio estabelecia com os seus alunos era exemplar, um modelo a ser seguido. Dirigia-se com afetividade e, ao mesmo tempo, cordialidade, simplicidade e, ao mesmo tempo, a dignidade necessária ao respeito existente numa relação entre professor e alunos, tal como ele mesmo ensinava. O seu método de ensino permitia o diálogo com os alunos, em que estes podiam colocar questões ao seu Mestre e, mesmo, dar opiniões e fazer críticas. Esta abertura e o tratamento personalizado que Confúcio dava aos seus discípulos suscitava a sua admiração, que não chegaria contudo aos extremos da deificação, que se deu muito mais tarde quando o confucionismo se tornou numa religião do povo. Este relacionamento cordial que tinha com os seus alunos era também o modelo que estes deviam adotar entre si e com as outras pessoas. Trata-se do ren (仁), o não fazer aos outros o que não gostamos que nos façam a nós mesmos. Para além destas considerações sobre o relacionamento entre as pessoas, os discípulos de Confúcio consagraram nos "Analectos" alguns capítulos sobre os Sábios da Antiguidade e sobre a Missão Celeste, em que apresenta a forma de governação dos Imperadores antigos como o modelo a ser seguido pelos governadores contemporâneos. Quanto ao "Grande Aprendizado" (大学), trata-se de um tratado moral elaborado em parte pelo próprio Confúcio e que sublinha a capacidade do homem de ser responsável pela sua própria salvação. Assim, Confúcio preocupa-se com a formação de uma elite, assim como com a educação dos príncipes, com o fim último de promoção do bem das massas. E a verdade é que se o soberano for justo, conforme a ordem cósmica, logo os seus súbditos o seguirão de bom grado e isso promoverá a prosperidade do reino. Por isso, conhecer a ordem natural dos fenômenos é a base da grande sabedoria, este é o ensino supremo - Da Xue. Segundo Confúcio, cabe-lhe transmitir este conhecimento pois ele é o porta-voz da sabedoria antiga, é esta a sua vocação ética. Da autoria do neto de Confúcio Zi Si, a "Doutrina do Meio" (中庸)procura sublinhar o equilíbrio que deve existir na personalidade dos homens. Mas este equilíbrio deve ser atingido sem esforço, o que não significa que seja alcançado sem ação, como ensinam os tauístas. Na realidade, este equilíbrio deve ser procurado intensivamente, através de uma reflexão profunda e deve ser colocado em prática de uma forma séria. Zi Si, na senda de seu Mestre, não fecha as portas de entrada deste equilíbrio a nenhuma classe de pessoas, pois todos podem chegar a esta via, mas só quem a alcança poderá apreender o sentido da ordem do Céu e da Terra, o Dão (道). Assim aparece o junzi (君子), o homem de bem cuja vida é uma imagem da ordem moral universal, segundo Confúcio. É esta a norma da harmonia do Universo, ou seja, a regra central – zhong (中) - e constante – yong (庸). Finalmente, o "Livro de Mêncio" (孟子) traduz a abordagem de Mêncio ao confucionismo, inspirado também no livro de Zi Si. Trata-se de uma perspectiva que sublinha a bondade natural do homem e que será desenvolvida adiante no capítulo respeitante a Mêncio. Abraço. Davi